22 de abril de 2010
21 de abril de 2010
INÊS DE MEDEIROS. O presidente da Assembleia da República decidiu que as viagens semanais de Inês de Medeiros entre Paris (onde vive) e Lisboa (onde trabalha) continuarão a ser pagas pelo Parlamento, justificando a decisão com um parecer jurídico e alegando que a deputada já residia em Paris quando foi eleita. Jaime Gama adverte, no entanto, que se trata de uma «excepção», que não fará «jurisprudência». Ora, se as razões de Jaime Gama não me convencem, a «excepção» ainda me convence menos. Abrir uma excepção, porquê? Não duvido que a decisão seja inatacável do ponto de vista jurídico, mas já não estou a ver que o não seja no plano ético. Expedientes legais que tudo justificam e desculpam é a última coisa que se espera do primeiro órgão do Estado.
20 de abril de 2010
NÃO ME LIXEM. A TVI tem documentos sobre o caso Freeport com relevância noticiosa? Então está à espera de quê para os divulgar? Acaso as saídas de Moniz e Manuela impedem a sua divulgação? Se não impedem, quem impede? Quem está a amordaçar a informação da TVI? Já se queixaram à entidade respectiva? Eu não sei se o primeiro-ministro cometeu alguma ilegalidade no caso Freeport. O que eu sei é que as «bombas» que a TVI tem lançado sobre o caso Freeport se transformaram em traques ao segundo dia, e ao terceiro já ninguém se lembrava do assunto. Mais: apesar de tanta investigação que o jornal de Manuela diz ter feito, os portugueses continuam sem perceber o que realmente se passou no caso Freeport. Convenhamos que não é normal.
16 de abril de 2010
Comecei a lê-lo mal saiu, e terminei-o agora mesmo. Apesar da interrupção prolongada (quase três anos), mantém-se a ideia com que fiquei logo às primeiras páginas. Embora o livro relate uma experiência pessoal, no caso a experiência pessoal de Zita Seabra, fica-se com uma ideia bastante precisa do que era o comunismo naquela época - como funcionava, o que pretendia, o que estava disposto a fazer para chegar ao poder. Felizmente, as coisas correram-lhe mal. Imaginem a tragédia que não teria sido caso tivesse sido bem-sucedido.
I. Desconfiei, desde o início, do projecto i, por desde o início me parecer que o i não acrescentava um milímetro ao que já existia. Pelo que se tem visto nas últimas semanas (os proprietários anunciaram que pretendem vendê-lo, e hoje mesmo foi conhecida a demissão do seu director), parece que também é um fiasco em termos financeiros. Uma pena, sinceramente, que o desaparecimento de um jornal não é uma boa notícia.
14 de abril de 2010
JORNALEIRISMO (1). É difícil discordar de Fernanda Câncio quando ela diz não ser pêra doce obter informação oficial. Há, no entanto, uma evidência que não se pode ignorar: houvesse jornalismo a sério, e nenhum dos obstáculos que menciona o seria. Os exemplos invocados pela jornalista para defender a ideia de que não é fácil obter informação oficial, apesar dos gabinetes de comunicação e outras modernices, indicam que os gabinetes e as modernices estão a fazer o que deles se espera: divulgar o melhor possível o que lhes interessa divulgar, e esconder o melhor possível o que lhes interessa esconder. O jornalismo é que não está a fazer o que lhe compete, goste-se, ou não, da ideia. Não por culpa dos jornalistas na generalidade dos casos, mas por culpa do jornalismo que, por razões nem sempre compreensíveis, se demitiu das suas funções.
9 de abril de 2010
TEORIA DO MEXILHÃO. Concluído o inquérito da Inspecção Regional de Educação, que não confirma que o pequeno Leandro foi «vítima de frequentes agressões, perseguições ou ameaças na escola», e «não aponta para a instauração de procedimento disciplinar a responsáveis na dependência directa do Ministério da Educação», eis que a Câmara de Mirandela anuncia que vai averiguar se houve, ou não, falha do porteiro da escola de onde Leandro terá escapado para a morte, e se existiam, ou não, orientações da direcção da escola sobre entradas e saídas. Temos, portanto, em aberto a hipótese de a morte de Leandro ter sido culpa do porteiro. Onde é que eu já vi este filme?
7 de abril de 2010
UMA VELINHA PELO JORNALISMO. Como estava escrito desde o início, a Comissão de Ética que tenta saber se o primeiro-ministro mentiu, ou não, quando disse desconhecer o aparente negócio PT/TVI, não produziu nada que se visse, e outro tanto do que pretendia. A única coisa que lá se passou foi o enxovalho do jornalismo, como ainda ontem se viu com as declarações de Emídio Rangel e Pais do Amaral. Mesmo admitindo que nem tudo o que se disse na comissão foi verdade, os portugueses têm razões de sobra para desconfiar do jornalismo que se pratica em Portugal. A começar pelos media tidos como de referência.
6 de abril de 2010
MAQUINAÇÕES. É possível que exista uma «maquinação» contra a Igreja Católica usando a pedofilia como pretexto, como desconfia o cardeal Saraiva Martins, mas se vamos por aí também é provável que a Igreja Católica esteja a usar a teoria da «maquinação» como manobra de diversão. (Continuar a ler aqui.)
1 de abril de 2010
FUTEBOLÂNDIA. Vista a entrevista de Pinto da Costa, apetece voltar a ouvir os registos telefónicos captados pela Judiciária. É que eles são todo um programa, como agora se costuma dizer, e que programa. Também vale a pena a entrevista do presidente do Conselho de Disciplina da Liga (imagem acima), esta por razões bem diferentes, e porque Ricardo Costa é um caso aparte na futebolândia.
30 de março de 2010
CARRILHO. Parece que o Governo se prepara para substituir Manuel Maria Carrilho no cargo de embaixador de Portugal na UNESCO por este ter recusado — e bem — votar no candidato à chefia daquela organização cujo currículo se distinguia por defender que deviam ser «queimadas» todas as obras em hebraico. Acontece que Carrilho permitiu que um funcionário votasse em vez dele, naturalmente segundo a vontade de quem lhe paga a mesada, como se um expediente destes fosse coisa normal, e assim ficasse a salvo de críticas. Como é evidente, e apesar dos aplausos que então se ouviram, não ficou. Afinal, esperar-se-ia que Carrilho fosse consequente ao recusar votar no candidato anti-semita, e ser consequente implicaria demitir-se. Como nada disso sucedeu, fica-lhe mal o papel de vítima em que agora o querem colocar.
26 de março de 2010
MAQUINAÇÃO. Nada contra a Igreja Católica, mas é bom que ela esteja debaixo de fogo por causa da pedofilia. Já a existência de uma «maquinação», e a ideia de que estarão a usar a pedofilia como mero pretexto para atacar a Igreja Católica, como diz Saraiva Martins, é um absurdo. Com certeza que os casos de pedofilia não são exclusivos da Igreja Católica, mas o cardeal também não ignora que a política da Igreja face ao sexo estimula as práticas pedófilas, e dos servidores da Igreja Católica espera-se que se comportem um pouco melhor que a generalidade dos cidadãos. Bem sei que a Igreja Católica não está imune ao pecado, como gostam de lembrar os seus representantes. Mas convenhamos que dela se espera que peque menos que os outros.
24 de março de 2010
CLAQUES (1). Uma tese de doutoramento sobre claques de futebol defendia, há pouco, que seria um erro acabar com elas, e até avançava alguns factos demonstrando que as ditas não são tão más como se pintam. Como não conheço o assunto com a profundidade que a uma tese se exige, não me atrevo a contestar. Mas ainda não percebi o que terão de positivo as claques de futebol, se é que terão algo de positivo. O que se vê torna-as difíceis de distinguir de meros bandos de delinquentes, e estou a ser benevolente. Como as claques dos «três grandes» demonstraram nos últimos dias, o que se vê são bandos de arruaceiros que as autoridades protegem em vez de pôr cobro às suas práticas. Como se pode ver por este exemplo, e pelas declarações de um dirigente de uma claque que se gabou, à TVI, de agredir não sei quantos espanhóis sem que nada lhe tenha sucedido (o indivíduo chegou a ponto de dizer que não hesitaria agredir mulheres e crianças se lhe aparecessem pela frente), as coisas já foram longe de mais. É tempo, portanto, de as autoridades se deixarem de contemplações, e já vão tarde.
23 de março de 2010
NOSSA SENHORA. Se dúvidas houvesse, o debate televisivo de segunda-feira entre os candidatos à liderança do PSD demonstrou que os sociais-democratas não são alternativa a Sócrates e ao PS. Como as sondagens bem o demonstram, a gente olha para aqueles candidatos, e a imagem de Sócrates melhora consideravelmente. Provavelmente é um exagero, mas a verdade é que eu nem consigo escolher o menos mau.
22 de março de 2010
A PRÓXIMA VÍTIMA. Não sei quem será o próximo líder do PSD, mas caso seja Passos Coelho adivinha-se que a oposição interna será maior que a externa. Como os casos de Santana Lopes e Luís Filipe Menezes bem o demonstraram, Pacheco Pereira encarregar-se-á de trucidar Passos Coelho se ele for eleito, pelo que o destino do ex-líder da Juventude Social-democrata se adivinha idêntico ao de Santana e Menezes. Devo dizer que simpatizo com Pacheco Pereira apesar das muitas discordâncias, e que não votaria em Passos Coelho se votasse nas eleições do PSD. Mas a guerrilha que se seguirá se Passos Coelho vencer, não vai ser boa para ninguém. Nem para o PSD, nem para o País.
17 de março de 2010
QUEIMAR LIVROS. Pacheco Pereira dizia, há pouco, sentir-se incomodado pelo facto de entidades públicas ou privadas destruírem livros a pretexto de não terem espaço para os armazenar, defendendo que em casos desses deviam ser oferecidos a instituições ou a quem deles precisasse. Há dias, um professor escreveu, no Público, mais ou menos o seguinte: é escandaloso que se proceda à destruição de dezenas de milhares de livros que podiam ser oferecidos a bibliotecas, escolas, universidades, centros culturais ou prisões. Mais recentemente, Vasco Graça Moura defendeu que os livros «poderiam com vantagem ser distribuídos no País, ou nos países de língua portuguesa, a título gratuito, em escolas, hospitais, prisões, lares da terceira idade, bibliotecas populares, clubes desportivos, etc.». Acontece que a aparente evidência não passa de uma miragem. Conheço casos em que se ofereceram dezenas de milhares livros que ainda hoje, anos passados, continuam encaixotados e armazenados sabe-se lá onde, por falta de interesse de quem os recebeu e de quem se interesse em os ler. Tirada a fotografia da praxe, repetidos os lugares-comuns nos discursos de ocasião, os livros são logo despachados para um local onde não atrapalhem, e acabarão, a prazo, por se tornar um empecilho, o mesmo empecilho que os levou até ali. Bem sei que destruir livros faz lembrar práticas abomináveis, e daí as reacções indignadas. Mas não é dando livros que se passa a ler mais, por mais triste que seja reconhecê-lo, e os exemplos que dou não são, infelizmente, casos isolados. Hoje em dia só não lê quem não quer, e excepções são isso mesmo.
15 de março de 2010
TIRO NO PORTA-AVIÕES. A gente passa um fim-de-semana longe das notícias e mal chega a elas depara com isto: o PSD anuncia sanções aos militantes que discordarem de quem lá manda. Lidos os pormenores, confirma-se: o congresso social-democrata resolveu punir os militantes que discordarem da direcção do partido nos dois meses anteriores a actos eleitorais com penas que poderão ir até à expulsão, e Manuela Ferreira Leite não só aplaudiu como avisou que as regras são para cumprir. Bem sei que os candidatos à liderança do PSD e outras figuras sociais-democratas discordaram da decisão, mas isso serve de pouco. O mal está feito e amplamente anunciado, e a oposição já facturou o que havia a facturar. O partido que passou os últimos meses a acusar o Governo de asfixia democrática deixa, portanto, de ter autoridade para se pronunciar sobre esta matéria. Aliás, a direcção do PSD já tinha demonstrado tiques autoritários quando escolheu candidatos a deputados a contas com a justiça mas fiéis a quem mandava e excluiu outros pelo crime de discordarem da liderança. Como se fosse preciso, o PSD demonstrou, de novo, que não é alternativa a Sócrates e ao PS, como as recentes sondagens bem o demonstram. Entre dois males, os portugueses preferem os maus aos piores.
12 de março de 2010
MAIS DO MESMO. Depois dos «achismos» e das fezadas, dos números de circo e outros malabarismos, anuncia-se uma comissão de inquérito para saber se o chefe mentiu, ou não, no Parlamento, quando disse ignorar o que provavelmente sabia. Coisa séria, ao que dizem, presidida pelo insuspeito Mota Amaral, que desconfio não ter percebido bem onde se meteu. Pode ser que a comissão de inquérito produza algo que se veja, mas eu já lhe adivinho resultado idêntico ao da comissão de Ética. Enquanto as sondagens demonstrarem que os portugueses preferem Sócrates à oposição (e as mais recentes sondagens demonstram isso mesmo), não há comissão que remova o engenheiro e o seu Governo. É que a oposição não quer ouvir falar de eleições antecipadas, e não estou a ver que se contente com uma vitória na secretaria.
11 de março de 2010
PORCA MISÉRIA. Como se tornou evidente desde o início, a comissão parlamentar que investiga a alegada existência de um plano governamental para controlar a comunicação social serviu, até agora, para expor as misérias do jornalismo e seus protagonistas. Não sendo um mal em si mesmo (é bom que os cidadãos saibam como se cozinha a informação que lhes vendem), é péssimo para o objectivo inicialmente traçado, pois complicou o que pretendia simplificar, confundiu em vez de esclarecer, e ajudou quem queria condenar.
9 de março de 2010
ENTRE DOIS MALES. A sondagem do Público sobre a credibilidade do nosso primeiro-ministro diz, basicamente, o seguinte: os portugueses preferem aldrabões a incompetentes. Dito de outra maneira, os portugueses acham que o Governo mente, mas consideram a oposição um bando de incompetentes. Ainda de outra maneira: para os portugueses que responderam à sondagem do Público, uns são maus, outros são piores. Como calcularão, não aprecio uns, nem outros, mas é provável que também eu escolhesse os primeiros caso fosse chamado a escolher um dos dois. Afinal, a mentira nem sempre é um mal, e até há exemplos que o demonstram. Já a incompetência nada tem que se aproveite.
8 de março de 2010
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. A Sábado não gostou de ser acusada, por um dirigente do PSD, de pagar a não sei quem para prestar declarações falsas sobre não sei quê, e resolveu apresentar queixa-crime contra o autor da calúnia. Não sendo uma prática inédita na imprensa portuguesa, é uma decisão que, por rara, se saúda. Pena que a Sábado não aplique o mesmo princípio a outros casos, como aquele em que acusou o DN de ter sido beneficiado pelo Governo na publicidade institucional, que se verificou não ser verdadeiro. As desculpas que a Sábado agora reclama são as mesmas que outrora não foi capaz de pedir. Em matéria de princípios, estamos, portanto, conversados, e de seriedade é melhor nem falar.
5 de março de 2010
O ÓBVIO ULULANTE. «Há sinais evidentes [de] que o poder judicial está a funcionar segundo uma agenda política mais ou menos oculta», diz o bastonário dos Advogados. Segundo Marinho Pinho, «basta ver o discurso público de alguns magistrados para ver que eles têm uma agenda política». Mais: o bastonário acusou o poder judicial de estar «empenhado em derrubar o primeiro-ministro». De facto, nota-se bastante. Nota-se que alguns defendem o primeiro-ministro para além do razoável, e nota-se que outros o querem liquidar a qualquer preço. Ambos por razões políticas, e não, como seria de esperar, por haver, ou não, matéria criminal. Não terá sido por acaso que Cândida Almeida propôs que os magistrados possam ser escutados como qualquer outro cidadão, a pretexto de que o combate à violação do segredo de justiça seria, assim, mais eficaz. É que os magistrados também são suspeitos de violação do segredo de justiça, para não dizer os principais suspeitos, obviamente em nome da tal agenda política.
MADUREIRA, O MACACO. Só agora tomei conhecimento do livro do sr. Madureira, vulgo o Macaco, mas a prosa não perdeu actualidade. Gostei, especialmente, daquela passagem que reza assim: «Surgiu a ideia de criar os ultras portugal com elementos dos super dragões e da claque do Sporting. A primeira viagem foi contra a Itália. (...) No caminho, o Borrego lançou um concurso que consistia em ver qual era a claque que mais roubava (...) Foi o caos em Andorra! Lojas e mais lojas cheias de máquinas de filmar, roupa, tabaco...Tudo à mão de semear. Ficámos em transe.» Para o caso de alguém não saber quem é o sr. Madureira e onde pendura o pote, registe-se que o sujeito é o chefe da claque «Super Dragões», mas bem podia ser dos «No Name Boys» ou da «Torcida Verde».
3 de março de 2010
CURIOSIDADE MÓRBIDA. Presumo que o Pedro Tadeu não faz parte do quadro de administradores de empresas em crise que auferem salários astronómicos, não pertence à classe de políticos profissionais que simultaneamente cobram milhares de euros nos seus escritórios de advogados, nem integra o grupo de directores de jornais que ganham salários obscenos. Assim sendo, defende que «as declarações de impostos (...) deveriam ser públicas», pela simples razão de que há inúmeros pelintras que procuram esconder a penúria em que vivem que ele, Tadeu, gostaria de conhecer. Se mais razão não houvesse para não tornar públicas as declarações de impostos, sejam elas de quem for, aqui está um bom motivo.
COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM. Não sei se os factos agora conhecidos, que não terão sido devidamente investigados, são, ou não, relevantes. Há, no entanto, um dado que não bate certo: se Madeleine McCann foi morta pelos pais, ainda que por acidente (como sustenta o ex-inspector Amaral), por que não deixaram eles que o caso caísse no esquecimento logo após ter sido arquivado por falta de provas? Depois de terem sido julgados e condenados na praça pública com a conivência — para dizer o mínimo — das autoridades judiciárias, a desacreditada justiça portuguesa arrisca-se a cair no ridículo.
2 de março de 2010
VERGAR A ESPINHA. Como diria o outro, cada um trata a coluna vertebral conforme entender. O problema é que o vergar da espinha de uns dificulta a vida aos que não a vergam, e quando falamos de fundamentalismo islâmico nem é preciso entrar em detalhes. O pedido de desculpas aos «descendentes de Maomé», ainda a propósito dos cartoons dinamarqueses, é um bom exemplo do que falo, e um péssimo sinal.
COISAS BOAS. Ainda há pouco alguém dizia que Paulo Moura é o nosso melhor repórter, e não há dúvida de que as reportagens do Haiti e da Madeira o comprovam. Mas Paulo Moura é, também, um excelente cronista, como este texto bem o demonstra. E já que falo de cronistas, de bons cronistas, façam o favor de ler Ferreira Fernandes no DN de hoje.
1 de março de 2010
LI E GOSTEI (13)
Frank Sinatra, holding a glass of bourbon in one hand and a cigarette in the other, stood in a dark corner of the bar between two attractive but fading blondes who sat waiting for him to say something. But he said nothing; he had been silent during much of the evening, except now in this private club in Beverly Hills he seemed even more distant, staring out through the smoke and semidarkness into a large room beyond the bar where dozens of young couples sat huddled around small tables or twisted in the center of the floor to the clamorous clang of folk-rock music blaring from the stereo. The two blondes knew, as did Sinatra's four male friends who stood nearby, that it was a bad idea to force conversation upon him when he was in this mood of sullen silence, a mood that had hardly been uncommon during this first week of November, a month before his fiftieth birthday.
Gay Talese, Frank Sinatra Has a Cold, incluído no volume The Gay Talese Reader: Portraits and Encounters
Frank Sinatra, holding a glass of bourbon in one hand and a cigarette in the other, stood in a dark corner of the bar between two attractive but fading blondes who sat waiting for him to say something. But he said nothing; he had been silent during much of the evening, except now in this private club in Beverly Hills he seemed even more distant, staring out through the smoke and semidarkness into a large room beyond the bar where dozens of young couples sat huddled around small tables or twisted in the center of the floor to the clamorous clang of folk-rock music blaring from the stereo. The two blondes knew, as did Sinatra's four male friends who stood nearby, that it was a bad idea to force conversation upon him when he was in this mood of sullen silence, a mood that had hardly been uncommon during this first week of November, a month before his fiftieth birthday.
Gay Talese, Frank Sinatra Has a Cold, incluído no volume The Gay Talese Reader: Portraits and Encounters
25 de fevereiro de 2010
SÓ PARA CHATEAR. Porque me apetece chatear os detractores dos e-books (poucos, mas bons), damas e cavalheiros: acaba de me chegar o nook, a minha quarta maquineta do género. Transferidos os livros do modelo anterior (a primeira versão do Sony Reader), inaugurei a novíssima coisa com O Vinho do Porto, de Camilo (do outro também tenho ali), um texto que descobri na internet que provavelmente nunca leria caso não fosse a dita, e que não me passa pela cabeça ler no écran do computador. Tem defeitos, a geringonça? Alguns que eu já conhecia e outros que vou detectando, embora a compra signifique que as vantagens superam os defeitos, pois resultou de uma análise dos prós e dos contras, e da comparação com a concorrência. O écran táctil é uma miragem (só funciona numa pequena área), a luz embutida continua ausente, e quer-me parecer que a bateria não aguenta o que se propagandeia. Estes são, para mim, os defeitos, estranhamente por corrigir desde os primeiros modelos, que já possuíam estas características. O resto é excelente, a começar pelo écran, realmente muito bom. A possibilidade de adquirir instantaneamente um dos milhares de títulos ao alcance de um download não me seduz, e duvido que algum dia me seduzirá. Prefiro o papel se os títulos estiverem disponíveis em papel, mesmo que isso signifique pagar mais. O e-book é um complemento dos livros em papel, não um substituto dos livros em papel. Pelas razões que já expliquei até à exaustão, e não vou repetir.
24 de fevereiro de 2010
O MEU NOME É JOMBA. Uma limpeza no computador permitiu-se descobrir uma pérola que eu julgava perdida. Ora ouçam lá.
23 de fevereiro de 2010
22 de fevereiro de 2010
A FORÇA DO HÁBITO. Como o João Gonçalves, também acho deplorável que Alberto João Jardim «tivesse pedido aos jornalistas que evitassem "especulações" e "dramatizações"» para não prejudicar o turismo. Mas é preciso não esquecer que Alberto João Jardim está demasiado habituado a mandar nos jornais e nos jornalistas, pelo que o gesto de pedir é já um progresso.
18 de fevereiro de 2010
TELHADOS DE VIDRO. Já se percebeu que as audições parlamentares dos jornalistas sobre as alegadas tentativas de Sócrates controlar os media não vão surtir o efeito desejado. Nem para os que pretendem que elas vão num determinado sentido, nem para os que pretendem o contrário. Numa coisa, porém, podem dar resultados: é bem capaz de lá surgirem episódios que não abonem os jornalistas, como este bem o demonstra. Não que isso seja mau em si mesmo ou que não tenha o seu interesse, nalguns casos até seria do interesse público, mas porque isso seria um caso em que a emenda seria pior que o soneto.
17 de fevereiro de 2010
O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (2). Como não bastasse o escarcéu com um caso em que não se vislumbra onde está a notícia, o circo saiu à rua.
ESCREVER BEM. Um belo texto que só agora descobri, e que devia ser lido com atenção por todos quantos fazem da escrita uma actividade permanente.
16 de fevereiro de 2010
O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (1)(*). Constança Cunha e Sá no CM de hoje: «E assim chegamos ao fundo de um poço que parece não ter fundo: o primeiro-ministro não tem condições para governar; a Oposição não tem condições para ir a eleições; o Presidente da República não tem condições para demitir o primeiro-ministro. E o país assiste, estupefacto, à crescente degradação do regime sem que ninguém tenha condições para travar a hecatombe que por aí se avizinha.»
(*) Título roubado a Alexandre O’Neill
(*) Título roubado a Alexandre O’Neill
15 de fevereiro de 2010
VENTOS DE MUDANÇA. Mantenho o que disse sobre o que se tem dito do primeiro-ministro acerca das escutas e doutras trapalhadas (continuo a discordar dos pressupostos em que assentaram a generalidade das críticas), mas não há dúvida de que começam a ser demasiados os casos em que o nome do primeiro-ministro aparece envolvido. Como dizia o Francisco num programa de televisão, cada vez que se arrasta uma cómoda (não me lembro se foi exactamente assim que ele disse, mas o sentido era este), lá está o primeiro-ministro. Não há, até ver, matéria criminal, mas o mesmo já não se pode dizer quanto a matéria política, que chega e sobeja. Não será por acaso que nos últimos dias surgiram dois candidatos à liderança do PSD depois de tantos meses em que Passos Coelho não teve concorrência. Cheira a poder no PSD, não há dúvida que cheira, pois é cada vez mais improvável que o PS reforce a votação caso haja eleições antecipadas, e nem me admiraria que as perdesse.
11 de fevereiro de 2010
DEMAGOGIA ASFIXIANTE. Apesar de não resistir aos factos, que insistem em contradizê-la, a teoria da «asfixia democrática» vai de vento em popa. Raramente passa uma semana sem que Eduardo Cintra Torres, Pedro Lomba, José Manuel Fernandes, Helena Matos, Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Constança Cunha e Sá, João Pereira Coutinho, João Miguel Tavares, Alberto Gonçalves, Baptista-Bastos, Vasco Graça Moura, Henrique Monteiro, Paulo Tunhas, Jaime Nogueira Pinto, Henrique Raposo e muitos outros não caiam em cima do Governo, com razão e sem ela, em publicações tão distintas como o Público, o DN, o Correio da Manhã, a Sábado, o Sol, o i, o Expresso ou o Jornal de Negócios — e só para falar da imprensa e dos nomes sonantes que nela colaboram. Seria isso possível caso vivêssemos num clima de «asfixia democrática»? Já disse e repeti que não alinho em patranhas — por mais jeito que me dêem, por mais que reforcem a minha causa, por mais que derrubem quem não merece estar de pé. Mentiras são mentiras, e eu não considero que as mentiras se desculpam quando usadas contra quem não simpatizo. Desconfio, aliás, que produzem o efeito contrário ao que pretendem, e estou mesmo convencido de que não sou só eu que me inclino a simpatizar com quem é vítima da mentira — e por várias vezes saí em defesa de quem discordo por considerar ignóbil tal prática. Desculpem lá a maçada, mas eu não duvido que existe liberdade de expressão, pelo menos a liberdade de expressão que se diz estar em causa, como também não duvido que a «asfixia democrática» é uma belíssima treta. O Governo está disposto a fazer o que estiver ao seu alcance para controlar os media e/ou afastar quem o incomoda? Poderá ser, mas eu duvido. Duvido porque isso seria uma estupidez, e estúpido é coisa que Sócrates não é. Mas concedo o benefício da dúvida, que aqui passamos dos factos para as opiniões — e cada um é livre de pensar o que muito bem lhe apetecer. Já os factos são o que são — e é sabido que os factos não se discutem.
COISAS SIMPLES. Cada vez tenho mais dificuldade em julgar as imagens que me chegam de cenários de guerra, terramotos e coisas afins. (Continue a ler aqui.)
9 de fevereiro de 2010
5 de fevereiro de 2010
REVOLTANTE. Independentemente de quem prejudica ou beneficia, a justiça portuguesa começa a causar-me vómitos. Como um cavalheiro com responsabilidades no sector há pouco dizia num programa de televisão, as fugas ao segredo de justiça podem não vir, apenas, dos juízes, advogados ou polícias. O cavalheiro lembrava, com ar de quem acreditava no que estava a dizer, que as fugas ao segredo de justiça podiam vir da menina das fotocópias, da senhora da limpeza ou do contínuo, como se todos nós que o estivéssemos a ouvir fossemos uma cambada de estúpidos. O mais revoltante é constatar que estes sujeitos são intocáveis, digam o que disserem, façam o que fizerem.
CALHANDRICES. Como diria um político que se preze, aguardo pormenores do «caso Mário Crespo» para eventualmente me pronunciar. Valeu, no entanto, a calhandrice, uma bela palavra que terá sido pronunciada por um membro do Governo (Santos Silva, ao que me dizem) com o intuito de reduzir «o problema a resolver» à insignificância, e que eu, na minha santa ignorância, desconhecia. Quanto ao essencial, o insuspeito Vasco Pulido Valente já disse o que havia a dizer. O resto são pormenores, os tais pormenores que eu desconheço, mas que dificilmente mudarão o essencial.
4 de fevereiro de 2010
FEMINISTAS. De facto, o silêncio das feministas diante a obrigatoriedade das muçulmanas usarem burqa ou nikab, mesmo em países cujos regimes não os exigem (os europeus, por exemplo), é incompreensível. Isto, claro, em teoria, que a prática nos foi habituando a ver as coisas doutra maneira. As feministas sempre se distinguiram por uma particularidade: a opressão sobre as mulheres varia consoante quem as oprime, e para as feministas há opressores que merecem benevolência. Que o macho lusitano bata na fêmea porque a tradição não se muda por decreto, é inadmissível, e eu concordo. Mas que os regimes muçulmanos imponham às suas mulheres práticas destas ou ainda piores, fazendo delas meras escravas sem quaisquer direitos, não incomoda as feministas — e se alguém faz algum reparo logo vêm lembrar que é a cultura deles, que é preciso respeitar, mesmo que a opressão ocorra numa comunidade residente num país que abomine (e proíba) tais práticas. E quem não concordar com as feministas sofre, evidentemente, de islamofobia, um atestado que hoje se passa por tudo e por nada e que tudo reduz e simplifica, e que mais não é do que uma forma de varrer para debaixo do tapete um assunto que, desconfio, as incomoda, apesar de aparentarem o contrário.
2 de fevereiro de 2010
LI E GOSTEI (12)
Há trinta e cinco anos que um bretão anónimo lavrou na Westminster Review a condenação do vinho do Porto como deletério e empeçonhado por acetato de chumbo e outros tóxicos anglicistas. O homem, pelas rábidas violências do estilo, parece ter redigido a calúnia depois de jantar, numa exaltação capitosa do tanino do alvarilhão que ele confundiu com as aflições dos venenos metálicos. Relembra lamentosamente, com a lágrima das bebedeiras ternas, o século dezoito, em que o genuíno licor do Porto era um repuxo de vida que irrigara a preciosa existência de grandes personagens da Grã-Bretanha. Recorda Pitt e Dundas, Sheridan e Fox, famigerados absorventes do nosso vinho. Diz que Lord Eldon e Lord Stowel, graças infinitas ao Porto, reverdejaram e floriram em velhos; e Sir William Grant, já decrépito, bebia duas garrafas de Porto a cada repasto, para conservar cristalinamente a limpidez das suas faculdades mentais e a rija musculatura de todos os seus membros já locomotores, já apreensores, e o resto. Lamenta que Pitt, débil de compleição, com o uso imoderado deste tónico, e em resultado de pletoras frequentes combatidas com amoníaco e sulfato de magnésio, vivesse dez anos menos do que viveria, se possuísse o incombustível estômago curtido do venerável Lord Dundas.
Camilo Castelo Branco, O vinho do Porto (actualizada a grafia)
Há trinta e cinco anos que um bretão anónimo lavrou na Westminster Review a condenação do vinho do Porto como deletério e empeçonhado por acetato de chumbo e outros tóxicos anglicistas. O homem, pelas rábidas violências do estilo, parece ter redigido a calúnia depois de jantar, numa exaltação capitosa do tanino do alvarilhão que ele confundiu com as aflições dos venenos metálicos. Relembra lamentosamente, com a lágrima das bebedeiras ternas, o século dezoito, em que o genuíno licor do Porto era um repuxo de vida que irrigara a preciosa existência de grandes personagens da Grã-Bretanha. Recorda Pitt e Dundas, Sheridan e Fox, famigerados absorventes do nosso vinho. Diz que Lord Eldon e Lord Stowel, graças infinitas ao Porto, reverdejaram e floriram em velhos; e Sir William Grant, já decrépito, bebia duas garrafas de Porto a cada repasto, para conservar cristalinamente a limpidez das suas faculdades mentais e a rija musculatura de todos os seus membros já locomotores, já apreensores, e o resto. Lamenta que Pitt, débil de compleição, com o uso imoderado deste tónico, e em resultado de pletoras frequentes combatidas com amoníaco e sulfato de magnésio, vivesse dez anos menos do que viveria, se possuísse o incombustível estômago curtido do venerável Lord Dundas.
Camilo Castelo Branco, O vinho do Porto (actualizada a grafia)
1 de fevereiro de 2010
DAS BOAS INTENÇÕES. Como já disse a propósito doutros casos, considero as medidas como esta uma estupidez sem nome. Pior: considero-as uma estupidez perigosa, pois tratam-se de medidas que só reforçam o que pretendem condenar. Como disse, e bem, Helena Matos, «o paternalismo folclórico da fase multicultural vai agora dar lugar ao paternalismo jacobino da fase nacional». De facto, passar do oito ao oitenta, complica em vez de resolver. O islamismo radical não pára, como se vê, de receber apoios, mesmo que involuntariamente. Lamentável e ironicamente, de quem mais os pretende combater.
29 de janeiro de 2010
DECEPCIONATE. Se me perguntarem que balanço faria da administração Obama, responderia com uma só palavra: decepcionante. Não que eu esperasse grande coisa da administração Obama, mas porque não esperava tão pouco. Nada mudou no plano internacional, muito menos para melhor. Hillary foi à China, e «esqueceu-se» dos direitos humanos. Em Israel continua tudo na mesma. Mantêm-se as ambições nucleares do Irão e da Coreia do Norte, se não foram reforçadas. Não há progressos visíveis no Afeganistão, uma guerra que não só não acabou (como Obama prometeu) como ainda absorveu, por ordem do mesmo Obama, mais uns milhares de soldados. Os militares do Iraque eram para regressar, mas por lá continuam, pelo menos até ao próximo ano. Guantánamo continua aberto. No Iémen, seis agentes da CIA mortos de uma vez só dão sinais de perigosa incompetência da outrora temível polícia. No plano interno, os milhões injectados nas grandes empresas financeiras ficaram aquém do objectivo (para não falar dos milhões injectados com resultados catastróficos), e o desemprego, que o pacote governamental também pretendia combater, não diminuiu. O seguro de saúde continua por aprovar, e se for aprovado (cada vez mais improvável) será uma pálida imagem do que Obama anunciou. Sobram, neste ano e pouco de mandato, os discursos, quase sempre excelentes, raramente eficazes. George W. Bush não deixou grandes saudades, mesmo ao Partido Republicano. Mas não há dúvida que a sua imagem melhora de dia para dia, e que não era tão mau como o pintaram.
28 de janeiro de 2010
CONSELHOS PRESIDENCIAIS. Não sei se a carne de porco é melhor que viagra para aquilo em que estão a pensar, até porque do segundo ainda não experimentei. Mas amanhã, que a meteorologia promete sol no quintal, talvez grelhe umas fêveras.
PROSTITUIÇÃO. Ora aqui está um sector de actividade em que somos competitivos mesmo sem ajuda do Estado.
26 de janeiro de 2010
MILAGRES. Não sou crente, mas nada tenho contra quem é. Mas por que razão os repórteres repetem que estamos diante «um milagre» sempre que, no Haiti, se descobre um sobrevivente improvável? Um milagre, que eu saiba, atribui-se a causa divina, ao sobrenatural, e como tal é entendido pelo comum dos mortais. Bem sei que os «milagres» de que falam os repórteres extravasam, e muito, o âmbito religioso, mas é perfeitamente evitável — e nada rigoroso do ponto de vista dos factos.
22 de janeiro de 2010
DEPUTADOS. Leis claras e simples? E como vão alimentar-se os escritórios de advogados com leis claras e simples?
21 de janeiro de 2010
ARREFECIMENTO GLOBAL. Que existem dúvidas acerca do aquecimento global, já se tinha notado. Que há quem aproveite a teoria para barafustar contra o capitalismo e anunciar o fim do mundo, constata-se a cada passo. O que não se suspeitava é que a teoria do aquecimento global pudesse chegar a um ponto em que não tem ponta por onde se lhe pegue. Como esta notícia demonstra, a entidade mundial que estuda as mudanças climáticas comete erros que nem o mais incompetente se atreveria. Mais: os factos em que assenta um dos principais indicadores do aquecimento global (o desaparecimento dos glaciares nos Himalaias) roçam o anedótico.
20 de janeiro de 2010
19 de janeiro de 2010
CHÁVEZ. Demorou, mas não falhou. Os Estados Unidos aproveitaram a tragédia do Haiti para ocupar militarmente o país. Até ver, Hugo Chávez está sozinho neste «raciocínio», mas quando houver notícias de que a tropa americana usou meios violentos para impor a ordem, um cenário cada vez mais provável, quero ver se a tese se vai ficar pelo pantomineiro da Venezuela.
18 de janeiro de 2010
A CARTA. Lida a missiva de Fernando Lima ao Expresso, constato que o assessor do Presidente da República se «esqueceu» de três coisas. Esqueceu-se de explicar a razão por que foi afastado do cargo de assessor de imprensa; esqueceu-se de dizer que o mesmo Presidente que não caiu na esparrela dos «arquitectos da intriga» podia ter «matado» o assunto à nascença se tivesse negado a suspeita das escutas em vez de as alimentar com um silêncio que o tempo revelaria comprometedor; esqueceu-se de dizer que o PR não negou a suspeita das escutas na tristemente famosa comunicação ao país em que meteu os pés pelas mãos e não esclareceu coisa nenhuma. Quanto ao resto da missiva, tudo previsível. O assessor de Cavaco criticou ao de leve o Público (considerou que o jornal então dirigido por José Manuel Fernandes transformou um «gesto de impaciência» em «suspeitas gravíssimas»), e arrasou o Diário de Notícias por este ter publicado um e-mail onde ficou demonstrado que o caso das escutas era mais que «um episódio pícaro da época estival», como Fernando Lima agora nos pretende fazer crer. Resumindo, a carta de Lima é mais um episódio lamentável e perfeitamente escusado, e está longe de ser uma boa defesa do seu «bom nome profissional», como diz ter pretendido.
15 de janeiro de 2010
HAITI. Por mero acaso, li, há pouco, El reino de este mundo, do cubano Alejo Carpentier, um livro que me abriu o apetite para Los pasos perdidos (que também já li) e outros que hão-de vir. El reino de este mundo é um romance que tem como pano de fundo a revolução haitiana, e personagens extraordinárias como Mackandal ou Ti Noel. Não acrescenta um milímetro à compreensão da tragédia haitiana, mas merece, por si só, uma leitura, e sempre acrescentará alguma coisa a quem quiser conhecer melhor o país.
INDEPENDÊNCIAS. Antigamente, era pecado zurzir em quem estava no poder, e geralmente pagava-se cara a ousadia. Hoje, é pecado defender quem está no poder, embora os custos sejam infinitamente menores. (Continue a ler aqui.)
14 de janeiro de 2010
JL. Não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, como dizia o outro, mas a notícia de que o Jornal de Letras passou a estar na Internet agradou-me. Como em tempos expliquei, deixei de ler o JL porque me fartei do jornalismo de capelinha, de ver gente promovida cujo único mérito era possuír currículo antifascista, e de ver silenciado quem não merecia por não ter esse currículo. Por falta de espaço, poucos anos depois desfiz-me do arquivo, onde se incluía o número um (ou zero, se houve). Provavelmente o JL continua como sempre foi, e nesse caso não me interessa. Mas como não tenho de me deslocar ao quiosque, não custa nada voltar a tentar.
13 de janeiro de 2010
JUÍZOS DISFARÇADOS DE NOTÍCIAS. As notícias sobre o caso McCann, pelo menos as notícias que eu vi na RTP, são tão enviesadas que chegam a ser vergonhosas. Não é preciso conhecer grande coisa do processo que opõe os McCann a Gonçalo Amaral para perceber que os jornalistas estão com Gonçalo Amaral, e contra o casal McCann. Além de o trabalho dos jornalistas não ser esse, parece que não lhes passa pela cabeça a mais leve dúvida. Para um caso em que praticamente só existem dúvidas, não deixa de ser extraordinário.
ALDRABICES. No melhor pano cai a nódoa, mas ver a própria justiça envolvida num caso de polícia, é o cúmulo. Que a justiça já não surpreende, é um facto que todos os dias se confirma. Mas já me surpreende que ninguém faça o mais leve comentário.
12 de janeiro de 2010
O QUE INTERESSA. Alcançado um acordo entre Governo e sindicatos dos professores, chegou a hora de a discussão se centrar «em redor do ensino», «da escola», e «da educação», diz o Francisco, segundo ele o «que realmente interessa». Acrescenta ainda: «É o mínimo que se pede depois de um ano de acusações, de computadores Magalhães e de ressentimento.» Ora, há quantos anos se anda a pedir que se discuta o que realmente interessa? Que me lembre, desde sempre, e sempre o que realmente interessa foi preterido pela questão dos professores, pelo estatuto dos professores, pela avaliação dos professores, pelos estados de alma dos professores. Estarei a ver mal, mas não vislumbro nada de substancial que o acordo agora alcançado tenha mudado (o secretário-geral da Fenprof diz que estamos perante o mais importante acordo alcançado pelos professores nos últimos 20 anos, o que não deve ser bom sinal). A próxima etapa há-de ser os professores — a avaliação dos professores, o estatuto dos professores, a carreira dos professores, o costume. Não é um palpite. É a ordem natural das coisas.
8 de janeiro de 2010
LI E GOSTEI (11)
Senhora! O sacerdócio da imprensa, cuja invenção se deve a um agiota do século XIV, é a mais augusta das funções, depois da «Arte de cozinha». Ocioso seria provar esta atrevida proposição, quando os exemplos saltam como camarões em terra seca. A rotundidade dos abdómenes, e a estupidez prodigiosa dos proprietários dos ditos, senhora, é a mais persuasiva prova de que a culinária tem sobre a imprensa a primazia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome, embevecidos, no paradoxo da ciência.
Camilo Castelo Branco, Cenas da Foz (actualizada a grafia)
Senhora! O sacerdócio da imprensa, cuja invenção se deve a um agiota do século XIV, é a mais augusta das funções, depois da «Arte de cozinha». Ocioso seria provar esta atrevida proposição, quando os exemplos saltam como camarões em terra seca. A rotundidade dos abdómenes, e a estupidez prodigiosa dos proprietários dos ditos, senhora, é a mais persuasiva prova de que a culinária tem sobre a imprensa a primazia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome, embevecidos, no paradoxo da ciência.
Camilo Castelo Branco, Cenas da Foz (actualizada a grafia)
7 de janeiro de 2010
LOIRAS COM ATITUDE. Como se lembrará quem leu Montalbán, Pepe Carvalho tinha a mania de queimar livros. Não me ocorre que livros, mas eram livros que mereciam tudo menos a fogueira. Ocorreu-me este episódio enquanto lia a entrevista de Margarida Rebelo Pinto, a «escritora» de best sellers (Alexandre O'Neill chamou-lhes bestas céleres) que se define como uma «loira com atitude», e que tem em tão alta consideração o que escreve que chega a plagiar-se a si mesma. Disse ela na entrevista ao i: João Pedro George não tem autoridade para fazer crítica literária. E porquê? Porque, imaginem, não é formado em letras. Recorde-se que João Pedro George demonstrou, com exemplos, que a criatura se plagiou a si mesma, e mostrou, também por A+B, que a «obra» da criatura é uma belíssima trampa. Plágio que a «escritora» voltou a negar, como já tinha negado na entrevista a Carlos Vaz Marques para a Ler (e que por essa mesma razão ia acabando mal, como se pode ver aqui), como se fosse possível negar uma evidência tão facilmente demonstrável. Provavelmente os livros de Margarida escapariam à fogueira de Pepe Carvalho, porque Pepe Carvalho não queimava qualquer um. Também não simpatizo com livros na fogueira, que me fazem lembrar práticas que abomino. Mas que há livros que não lhes reconheço outra utilidade, lá isso há.
5 de janeiro de 2010
NOVO ANO, VIDA NOVA. Sou leitor da Sábado desde os primeiros números. Por considerar que a revista é fiável, e por ter colaboradores que aprecio. Sempre parti do princípio que o jornalismo que por lá se pratica era sério, e que assentava em factos facilmente verificáveis. A avaliar pelo silêncio face ao protesto do Diário de Notícias, que acusou a revista de falta de seriedade num trabalho sobre publicidade governamental, parece que não é assim. Provavelmente à espera que a coisa passe e o assunto caia no esquecimento, a Sábado optou pelo silêncio. É uma estratégia como qualquer outra, provavelmente a mais utilizada, possivelmente a mais eficaz. Mas eu não me esqueço facilmente. Como aqui escrevi ainda há pouco, abomino este tipo de comportamentos. A Sábado passou, portanto, a integrar a lista de publicações dispensáveis.
4 de janeiro de 2010
CAMILO, SEMPRE. Gastei umas horas a retirar da internet (e a formatar a preceito) nove livros de Camilo (A Senhora Rattazzi, Voltareis oh Cristo, O vinho do Porto, O Olho de Vidro, Suicida, Agulha em Palheiro, Anos de Prosa, Cenas da Foz e Cenas Contemporâneas, todos disponíveis aqui) que eu não sabia que existiam em formato digital, e que já estão no Sony Reader. Para os que passam a vida a zurzir no formato digital, com razão e sem ela, digam-me lá uma coisa: onde conseguiria eu arranjar estas obras? Sei, por experiência própria, que jamais teria lido alguns livros caso não existissem em formato digital, e o caso de Camilo é só um exemplo. Não por questões de gosto ou de comodidade, mas porque são livros que não se encontram noutro formato. Escusado será dizer que isto justifica, por si só, o meu entusiasmo pelo formato digital, embora o troque pelo formato tradicional caso esteja disponível e seja melhor.
30 de dezembro de 2009
DESACORDO. António Emiliano, linguista e filólogo, escreveu que a língua inglesa tem 15 variantes, e o espanhol 20. Como não vi quem o desmentisse, presumo que a informação é verdadeira. Assim sendo, cabe perguntar: como se entendem os falantes de inglês e espanhol sem acordo ortográfico? Será que a ausência de acordo impediu as línguas inglesa e espanhola de conquistarem a projecção universal que se lhes reconhece?
BLOGGER DO ANO. Agora que os prémios na blogosfera caíram em desuso, apetece-me eleger o melhor blogger do ano. Damas e cavalheiros, por unanimidade e aclamação: Filipe Nunes Vicente. Um Porto à saúde dele.
28 de dezembro de 2009
LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Ao contrário do que diz Santana Lopes, que apoiei quando foi primeiro-ministro, toda a gente tem o direito de avaliar toda a gente, tenha o avaliador currículo, ou não. Por mais que lhe custe, qualquer cidadão em pleno gozo dos direitos que a Constituição lhe confere tem direito à crítica, incluindo os cidadãos que não têm estudos, que não têm obra, e que não têm vida profissional. Discorda dos argumentos com que o criticam? Responda com argumentos. Acusar os críticos de não terem currículo, de não terem obra ou de não terem vida profissional, não é um argumento — é pura baixaria. Pior: o infelicíssimo post onde Santana Lopes teceu estas considerações é contra a liberdade de expressão. Leram bem, e não estou a exagerar. Está lá dito, preto no branco, e não há lugar a duas interpretações.
23 de dezembro de 2009
LIVROS E OUTROS OBJECTOS. Segundo uma empresa de consultoria citada por Jaime Bulhosa neste post, «o mercado [livreiro] actual obedece a esta divisão»: Grandes livros – 2%; Bons livros - 5%; Livros medíocres – 23%; Lixo – 70%. O espaço comercial destinado aos ditos deve, portanto, ter em conta esta realidade, aconselha ainda a mesma empresa. Quem vai às livrarias com alguma regularidade, nomeadamente às livrarias das «grandes superfícies» e/ou das grandes cadeias livreiras, facilmente constata esta evidência, mas nada como os números para tirar todas as dúvidas.
22 de dezembro de 2009
GUERRAS. Também acho que o casamento gay não é uma prioridade, e que o país tem necessidades bem mais urgentes. Mas também me parece que não é criando ainda mais tensão entre Governo e Presidência da República que se resolverão os problemas do desemprego, do endividamento do país, do desequilíbrio das contas públicas e da falta de produtividade e competitividade, que o Presidente da República diz serem as questões que realmente o preocupam. Pode o Presidente da República ter toda a legitimidade para dizer estas verdades e alegar que o casamento gay, além de secundaríssimo, vai criar novas «fracturas na sociedade portuguesa», mas não me parece que seja a atitude que se espera de um Presidente que acaba de empossar um Governo que resultou da vontade dos portugueses, e convém não esquecer que o projecto sufragado pelos portugueses incluía o casamento gay. Numa coisa tem o PS razão: o PR está a ir longe de mais. Se o PS realmente tenciona provocar eleições antecipadas, que naturalmente espera ganhar por maioria absoluta, as manobras de Cavaco são boas notícias para Sócrates e para o partido que dirige. Boas notícias para Sócrates, e boas notícias para o candidato que o PS tenciona apoiar nas presidenciais que se seguem.
21 de dezembro de 2009
ALGUÉM ESTÁ A ALDRABAR. Ou o que aqui se diz não é verdade, ou lá se foi mais uma bela teoria. Infelizmente, o caso é mais grave do que parece, pelo que prefiro aguardar por mais dados de molde a saber quem fala verdade, e quem mente. É que eu não suporto que os políticos manipulem os factos de forma a reforçar as suas ideias e/ou a liquidar os adversários, mas ainda suporto menos que os media ditos independentes se prestem a esses papéis.
DEMAGOGIA PERIGOSA. Os jornais (e o jornalismo) estão cheios de pecados, mas é obsceno dizer-se que os jornalistas são os responsáveis pelas «violações constantes do segredo de justiça», como disse Noronha Nascimento. O presidente do Supremo Tribunal de Justiça sabe bem que as coisas não são assim, e que os jornalistas se limitam a divulgar o que lhes contam — embora, repito, os jornalistas não estejam isentos de culpas. Custa a crer que Noronha Nascimento tenha dito uma coisa destas, mesmo como mero exercício destinado a «passar a mão pelo pêlo» aos seus pares.
17 de dezembro de 2009
DECOTES. Ai não é caso único? Então onde se pode ver mais fotografias das nossas ilustres deputadas com os respeitáveis decotes? Desculpem lá o mau jeito, mas eu não vou nisso dos decotes «inocentes», muito menos quando os ditos são «generosos». Pelo contrário, presumo sempre que as senhoras que os ostentam não querem passar despercebidas, pelo que o pior que se pode fazer é ignorá-los. Publiquem-se, pois, os decotes, e não me venham com histórias da carochinha.
14 de dezembro de 2009
VERDADE INCONVENIENTE. Confesso que ainda não percebi qual é o problema com o clima, mas deve ser deficiência minha. Estarei a ver mal, ou os cientistas dividem-se sobre o alegado «aquecimento global» e/ou as suas causas? Terei sonhado, ou há cientistas pouco rigorosos, outros que aldrabam, e ainda outros que tentam calar? Como concluir o que quer que seja no meio das dúvidas, da incompetência, da intimidação, e da aldrabice? Curiosamente, nunca se ouvem aos «amigos da terra» e a outros espécimes do género qualquer comentário quando surgem notícias de que certos países põem e dispõem sobre o clima, como nos dá conta esta notícia do Público de sábado. Desviar o Sol para a eira e a chuva para o nabal parece uma ideia interessante, mas imaginem até onde isto nos pode chegar. Não será assustador? Pena que os beneméritos que andam para aí a pregar a «justiça climática» e a anunciar o fim do mundo não vejam estas «verdades inconvenientes».
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. E se Armando Vara «está mesmo inocente», e «aquilo que [ele] diz é verdade»?, interroga-se Moita Flores. Seria, de facto, uma tragédia se assim fosse. Pena é que o ex-agente da Judiciária não use o mesmo princípio para todos os casos em geral e para o «caso Maddie» em particular, sobre o qual se fartou de acusar os pais da criança pelo desaparecimento da filha sem a mais leve prova.
11 de dezembro de 2009
FADOS E GUITARRADAS. Volta e meia criticam-me o escasso entusiasmo pelo fado, nos melhores casos alertando-me para uma deficiência, nos piores insultando-me. (Continue a ler aqui.)
9 de dezembro de 2009
PALHAÇADAS. Assisti, como boa parte dos portugueses, à troca de insultos entre os deputados Maria José Nogueira Pinto e Ricardo Gonçalves durante os trabalhos da Comissão Parlamentar de Saúde.
Tendo em conta os acontecimentos da semana anterior, em que o primeiro-ministro aconselhou «juizinho» ao deputado Paulo Portas e ocorreram outras cenas igualmente lamentáveis, não estaremos longe das bengaladas de que se falava n’As Farpas. Pena é que hoje em dia nos falte um Eça (ou um Ramalho) para descrever as cenas parlamentares como elas então foram descritas.
8 de dezembro de 2009
DESCOBERTAS. Graças a Doutor Pasavento, do catalão Vila-Matas, acabo de descobrir William Henry Hudson, um escritor argentino de que nada sabia mas que fiquei curioso de conhecer. Jorge Luis Borges considerou The Purple Land «o melhor trabalho da literatura gaúcha» que alguma vez leu, e chegou mesmo a compará-lo à Odisseia. Vai ser por aí que vou começar.
7 de dezembro de 2009
D. SEBASTIÃO REVISITADO. O caso foi demasiado sério para que com ele se brinque, mas quem resiste a um sorriso depois de saber que dois comandos do Exército se perderam numa serra algures no norte de Portugal e acabaram salvos por um pastor de caprinos? Então os nossos rapazes, ainda por cima instrutores de outros comandos, enrascam-se com um prosaico nevoeiro? Ou já não há comandos como antigamente, ou os portugueses perdem-se no nevoeiro com uma facilidade espantosa.
4 de dezembro de 2009
LI E GOSTEI (10)
«Countries today can choose to be prosperous. One of the most damaging myths of our time is that poor countries live in poverty because of a conspiracy of the rich countries, who arrange things so as to keep them underdeveloped, in order to exploit them. There is no better philosophy than that for keeping them in a state of backwardness for all time to come. Because today that theory is false. In the past, to be sure, prosperity depend almost exclusively on geography and power. But the internationalization of modern life — of markets, of technology, of capital — permits any country, even the smallest one with the fewest resources, if it opens out to the world and organizes its economy on a competitive basis, to achieve rapid growth.»
Mario Vargas Llosa, A Fish in the Water
«Countries today can choose to be prosperous. One of the most damaging myths of our time is that poor countries live in poverty because of a conspiracy of the rich countries, who arrange things so as to keep them underdeveloped, in order to exploit them. There is no better philosophy than that for keeping them in a state of backwardness for all time to come. Because today that theory is false. In the past, to be sure, prosperity depend almost exclusively on geography and power. But the internationalization of modern life — of markets, of technology, of capital — permits any country, even the smallest one with the fewest resources, if it opens out to the world and organizes its economy on a competitive basis, to achieve rapid growth.»
Mario Vargas Llosa, A Fish in the Water
3 de dezembro de 2009
REFERENDAR OU NÃO REFERENDAR. Também achei execrável o resultado do referendo suíço sobre os minaretes, e muito perigoso o precedente que se abriu. Mas a solução será não fazer referendos sempre que exista a possibilidade de os eleitores votarem «de maneira que não interessa»? Por aquilo que já li, seria essa a solução, e parece-me desnecessário lembrar que isso seria uma subversão total dos valores democráticos. Querem proibir o referendo a certas matérias? Então façam constar na Constituição as matérias que não são referendáveis — ou, então, acabem com o referendo. Não se pode é referendar quando interessa, e não referendar quando não interessa — muito menos ser contra ou a favor do referendo consoante as conveniências do momento.
2 de dezembro de 2009
DO RELATIVISMO. A Al-Qaeda prepara novos atentados em solo americano? Não me surpreenderia, mas a verdade é que não sei. De uma coisa, porém, não duvido: fosse o ex-presidente Bush a dizer isto, e teríamos o caldo entornado. Também não será difícil imaginar o que se diria de Bush caso fosse ele a mandar mais 30 mil soldados para o Afeganistão. Como foi Obama, que prometeu mundos e fundos durante a campanha, certamente que o reforço das tropas foi uma inevitabilidade.
LIBERDADE CONDICIONAL. Cintra Torres acha normal que um jornalista da RTP omita, numa notícia, factos que posteriormente, «fora das horas de serviço e em actividades individuais», revele em blogues ou redes sociais. Caso o proíbam de semelhante exercício, sentencia: é uma ofensa aos «mais básicos princípios da liberdade de expressão». Como facilmente se percebe, a «teoria» não tem pés, nem cabeça. Quem compreenderia que um jornalista não divulgue determinados factos no exercício da sua profissão, e, depois, «fora das horas de serviço», os divulgue em blogues ou redes sociais? Não seria isso a total descredibilização do jornalismo e dos jornalistas? Escusado será dizer que Cintra Torres seria o primeiro a trucidar quem se metesse por tais caminhos, e nem era caso para menos. Como se trata da RTP, com quem tem contas a ajustar, o princípio não se aplica.
1 de dezembro de 2009
LI E GOSTEI (9)
«In 1946, when I was seventeen, I had the good fortune to ask him a question: “Mr. Churchill, sir, to what do you attribute your success in life?” Without pause or hesitation, he replied: “Conservation of energy. Never stand up when you can sit down, and never sit down when you can lie down.” He then got into his limo.»
Paul Johnson, Churchill
«In 1946, when I was seventeen, I had the good fortune to ask him a question: “Mr. Churchill, sir, to what do you attribute your success in life?” Without pause or hesitation, he replied: “Conservation of energy. Never stand up when you can sit down, and never sit down when you can lie down.” He then got into his limo.»
Paul Johnson, Churchill
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