31 de agosto de 2004

Fui de férias com a estória das cassetes, regressei de férias com o "barco do aborto". Desconheço os desenvolvimentos do primeiro caso, ainda não tive tempo para me informar do segundo. Mas o pouco que li sobre os dois chegou e sobrou para perceber que o caso das cassetes fede que tresanda e o barco tem contornos hilariantes. Avisei no "post" anterior que ia mudar de casa. Quer isso dizer que não tive tempo para mais nada, e ainda menos cabeça. Regresso, pois, bruto que nem um tijolo, além de intrigado com a descoberta de que o meu blogue tem mais leitores quando não escrevo.

6 de agosto de 2004

Se tudo correr conforme o previsto, vou estar de férias nas próximas duas semanas. De férias e com mudança de casa, o que me vai deixar sem internet durante algum tempo e afastado do que se passa à minha volta. Voltarei logo que a situação estiver normalizada.

3 de agosto de 2004

Hepatite C é um blogue sobre isso mesmo: Hepatice C. Segundo o autor, Almeida Neto, o blogue «pretende ser um ponto de apoio e fonte de informação aos demais portadores» do vírus da Hepatite C. Pede-me que o divulgue, o que faço com todo o gosto.

2 de agosto de 2004

Certamente que movida pela melhor das intenções, a dona Carla Hilário de Almeida Quevedo resolveu publicitar este produto. Porque o dito permite «ler no quarto até às tantas da noite sem ser o chato que tem sempre a luz acesa», diz ela. Acontece que o produto em causa — que eu já experimentei bem experimentado — é uma belíssima merda, e juro que não estou a exagerar. A menos que não nos importemos de ficar toda a noite a olhar para as duas páginas abertas sem as voltar. Querem ler no escuro? Comprem um e-book.

27 de julho de 2004

Três mulheres ao meu lado põem as notícias em dia. Diz uma que, lá em casa, passa a vida ao telefone. O marido até já lhe disse que se ele tivesse um telefone entre as pernas era o homem mais feliz do mundo. Depois riem-se alarvemente. A do telefone chama agora um empregado para lhe comunicar que acabou de dizer às amigas que ele tem uns olhos bonitos. O empregado, coitado, não sabe onde se meter. E elas voltam a rir-se alarvemente. Dizia Eça que as mulheres são «pessoas excelentes, que têm a doçura de fingir que não têm espírito — só para não humilharem os maridos!». «E são ternas?», perguntaram-lhe. Ao que ele respondeu: «Aprenderam a ternura de cor — mas recitam-na mal.»

26 de julho de 2004

Seria bom que a questão levantada por este trabalho da Spectator não continuasse a ser ignorada.
Extraordinária a teoria de Augusto Santos Silva: «(...) até demonstrar o contrário, [Santana Lopes] deve ser tratado como incompetente em boa governação.»

23 de julho de 2004

Já o disse várias vezes mas não me importo de repetir: não gosto de Santana Lopes. Mas parece-me que o governo por ele chefiado só será mau quando demonstrar que o é, e só o pode demonstrar depois de começar a governar. Até lá, as críticas só podem cheirar a ressentimento e mau perder.

22 de julho de 2004

Tal como Pacheco Pereira, Manuel Alegre faz parte de um reduzido número de pessoas que, na política, pensa pela própria cabeça, e de um número ainda mais reduzido de pessoas que diz alto e bom som o que pensa — mesmo que isso vá contra o que pensa o seu próprio partido. Daí que me custe ver Manuel Alegre candidatar-se a secretário-geral do PS, um cargo para o qual não me parece que tenha qualquer vocação. Além de ser uma surpresa, provavelmente só comparável à surpresa que foi a candidatura de Vasco Pulido Valente a um lugar no Parlamento.
Francisco José Viegas no seu melhor: «Quando o Estado se mete a ser moderno, dá asneira. O Estado é uma personagem vetusta, com cabeleira postiça, anterior à penicilina e que escreve em resmas de papel almaço - quando se veste de boca-de-sino e lycra, a tremer ao som do hip-hop, parece uma velha gaiteira, inadequada para ser apresentável entre gente decente. Digamos que, em meu entender, deve conservar uma certa pose, a de quem não faz aeróbica nem vai a Vilar de Mouros acampar entre pulgas e lagartixas participando em cerimónias rituais para fumar haxixe.»
«Não inviabilizar» não é o mesmo que «viabilizar», diz Ana Gomes. Se não percebem a diferença, leiam este post. Se continuarem a não perceber, desistam.

21 de julho de 2004

«Caminhávamos pelos passadiços arruinados, de mão dada. Uma ligeira brisa fazia esquecer por um momento a fornalha. Eu sentava-me, ela agachava-se, juntava as mãos esguias sob o queixo, eu tirava uma harmónica do bolso e tocava, era a única ocasião em que uma expressão de alegria infantil surgia no seu rosto (mesmo no amor, porque acontecia mesmo assim que o fizéssemos, ela mantinha uma máscara impassível), olhávamos as aves deslizando no céu incandescente, ou então víamos vogar as velas irisadas dessas medusas a que os ingleses chamam "barcos de guerra portugueses", e cujos longos filamentos purpurinos e azuis podem causar a morte. Tomar-nos-iam por loucos, ou por fantasmas. Sentíamo-nos bem, um e outro, imagino, casal caminhando na água profunda e triste, porque o mundo parecia de repente afastado.» (Porto-Sudão, Olivier Rolin)

20 de julho de 2004

Parece que um conselheiro de segurança do presidente Clinton terá desviado documentos secretos que deveriam ser apresentados à comissão que investiga o 11 de Setembro. Repito: parece, porque a investigação continua. «Devolvi tudo o que tinha, à excepção de alguns documentos que deitei fora acidentalmente», disse Sandy Berger, admitindo que o fez «inadvertidamente». Reparem no «acidentalmente» e no «inadvertidamente». É que entre os documentos que foram deitados fora «acidentalmente» e «inadvertidamente» constam rascunhos de um relatório sobre a forma como a administração Clinton lidou com as ameaças feitas pela Al-Qaeda aquando das celebrações do Milénio, em Dezembro de 1999. Coisas sem importância, portanto, a ponto de se deitaram fora «acidentalmente» ou «inadvertidamente». Como também não terá importância o facto de Sandy Berger ser um dos conselheiros de John Kerry, candidato democrata às eleições presidenciais de Novembro. Pensarão que eu vejo esta notícia com grande regozijo. Não é verdade. E não é verdade por uma razão muito simples: estou farto de saber que a mentira não é exclusivo de uma das partes, apesar de nos quererem fazer crer que assim é. Curiosamente, ou talvez não, horas depois desta notícia estar em todo o lado, na BBC e no portal Terra nem sombra dela. Assim vai a imprensa «independente».

19 de julho de 2004

Depois de ter decidido dar nova oportunidade ao PSD em vez de convocar eleições antecipadas, o Presidente Sampaio passou a fazer tudo mal. Agora é a Lei de Bases da Educação (que vetou), amanhã será outra coisa qualquer. Também já se sabe que Santana Lopes não vai beneficiar do «estado de graça» de que costumam gozar os chefes do governo nos primeiros meses — nem, sequer, do benefício da dúvida, como ficou claro à medida que foram conhecidos os novos ministros. A política — a pequena política — continua em brasa, e adivinha-se que mais tempo. Resta saber se o país ganha alguma coisa com isso.
Aqui está um interessante artigo sobre o comportamento dos adeptos ingleses durante o Euro2004.

16 de julho de 2004

Tirando a crónica de João Bénard da Costa, que cada vez me dá mais gozo ler, nada que mereça o mais leve comentário.

15 de julho de 2004

Devido aos últimos acontecimentos político-partidários, que reputo da maior importância e mexeram profundamente com a minha sensibilidade, decidi suspender o Esmaltes e Jóias. Assim, caso não haja qualquer impedimento de última hora ou manifesta falta de assunto, cá estarei amanhã à mesma hora.

14 de julho de 2004

O juiz que integrava o colectivo dos casos de pedofilia da Casa Pia pediu uma licença sem vencimento de longa duração, diz a Lusa. O novo juiz titular do processo «Apito Dourado» «é filho de um assessor de Valentim Loureiro e irmão de um fiscal de obras da Câmara Municipal de Gondomar», diz o DN, embora já desmentido por não sei quem. Sim, as coisas nem sempre são o que parecem. Mas convinha que não se lançassem ainda mais dúvidas sobre quem já há dúvidas que chegue.

13 de julho de 2004

Até prova em contrário, a ideia de transferir ministérios da capital para a Província é um perfeito disparate. Um perfeito disparate porque isso não deixará de acarretar custos, e não se vêem vantagens. Que benefícios terá um agricultor transmontano com a transferência do Ministério da Agricultura para Santarém? Que benefícios terá um empresário algarvio com o Ministério da Economia na cidade do Porto? De facto, não se percebe. Mas já se percebe a ideia enquanto tal, mesmo que se revele impraticável. Afinal, ela dá um ar de que se pretende descentralizar, e ideias destas sempre rendem uns minutos de televisão e uns títulos nos jornais. Além de que, como dizia o outro, em política, o que parece é.