5 de maio de 2026
ALMADA E AS CHOURIÇAS. A Invenção do Dia Claro, de Almada Negreiros, começa assim: «Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.» E acrescenta logo a seguir: «Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.» Guardadas as devidas distâncias, também eu fico angustiado diante um cenário de chouriças e alheiras sobre uma lareira. Não por falta de tempo, como Almada, mas de barriga para tanto.
TORTURA. Não se pode confundir a árvore com a floresta, diz-se a propósito dos casos de tortura em esquadras de polícia hoje conhecidos. Acontece que têm vindo a surgir cada vez mais casos destes, e quando vêm a público descobre-se que já existiam há anos — e ninguém acredita que esse desconhecimento público não tenha contado com a cumplicidade de outros agentes que não fizeram o que deviam: denunciar essas práticas. Sem querer tomar a parte pelo todo, quantos casos como os de hoje existirão no país? Arrisco dizer que muitos, embora um só já seja demasiado.
1 de fevereiro de 2026
VERGONHA. É triste ver um país de emigrantes escolher um candidato à Presidência que tem feito do ódio aos imigrantes uma das suas bandeiras. Embora a eleição propriamente dita só tenha lugar no próximo domingo, André Ventura alcançou na primeira volta 40,93% dos votos da emigração contra 23,69% de António José Seguro, contrariando de forma clara os números globais — 31,12% dos votos para Seguro e 23,52% para Ventura. Como emigrante nos Estados Unidos, onde Ventura teve ainda melhores resultados do que no resto da comunidade no estrangeiro, sinto-me envergonhado. Esta gente tem memória curta — ou não tem memória nenhuma.
24 de janeiro de 2026
ELES ANDAM POR AÍ
Dois dias antes de o Ministério Público (MP) anunciar que o grupo neonazi 1143 se preparava para se transformar em «milícia» e «passar das palavras aos actos», eis que o líder da agremiação criminosa apela ao voto em Ventura na segunda volta das presidenciais.
Segundo o MP, o grupo, liderado por Mário Machado, a cumprir pena na cadeia de Alcoentre por incitamento ao ódio e à violência, terá mesmo efectuado treinos de combate com réplicas de armas de fogo.
Tudo isto se ficou a saber depois de uma operação da Polícia Judiciária (PJ) que esta semana deteve 37 indivíduos suspeitos de pertencerem ao grupo 1143, entre os quais um sargento da Força Aérea, um agente da PSP, membros das claques de futebol Juventude Leonina e Super Dragões, e pelo menos cinco militantes do Chega.
Segundo o MP, o 1143, até agora o único grupo de extrema-direita que apelou ao voto em Ventura, planeava pelo menos duas acções violentas contra a comunidade muçulmana, nomeadamente com ofensas ao profeta Maomé, a quem chamariam pedófilo. A intenção dos sujeitos era provocar reacções violentas dos imigrantes muçulmanos, algo mesmo à medida de Ventura.
Vale a pena lembrar que existem em Portugal pelo menos 11 grupos de extrema-direita, pelo que será de esperar que também eles, de um modo ou doutro, apelem ao voto no candidato do Chega.
Além do 1143, classificado pela PJ como organização criminosa, denominam-se Ergue-te, Reconquista, Habeas Corpus, Portugal Hammerskins, Blood & Honour, Movimento Armilar Lusitano, Nova Ordem Social, Escudo Identitário, Movimento Nacional-Sindicalista e Direita Nacional.
2 de janeiro de 2026
O CRIME COMPENSA
Se já não é, a justiça portuguesa está a caminho de ser um caso de polícia. Os exemplos são incontáveis e há-os para todos os gostos: incompetência, prepotência, ajustes de contas, escutas telefónicas sem que se perceba porquê, denúncias anónimas sopradas para a imprensa amiga com propósitos inconfessáveis e sempre em momentos suspeitos, processos distribuídos a juízes ao arrepio das regras e um longo etcétera. Vale a pena recordar uma notícia do Público de 2022 que dava conta do resultado de um inquérito aos magistrados sobre a avaliação que faziam de si próprios. Ficou a saber-se, entre outras coisas, que um em cada quatro juízes acreditava haver corrupção na justiça — «a troco de dinheiro, vantagens não monetárias ou outros favores».
Tudo isto há muitos anos, sem nunca haver punições, e se alguma coisa mudou foi para pior. Vejam-se as megaoperações, que se anunciam sempre com estrondo e estrondosamente acabam — quando acabam — em nada. E por que motivo — ou motivos — assim acontece? Para não variar, sempre pelos mesmos do costume. Desde logo porque a máquina da justiça parece mover-se em roda livre, em que cada um faz o que lhe apetece, como lhe apetece, quando lhe apetece. Depois, porque os políticos eleitos não têm coragem de fazer o que é preciso fazer, porque isso lhes traz perdas de votos.
Soube-se agora que o almirante Gouveia e Melo, candidato a presidente da República, está a ser investigado pelo Ministério Público (MP) por alegadas irregularidades cometidas quando era comandante da Marinha. Segundo a Sábado, a investigação do MP está em curso desde 2021, pelo que a revelação feita agora, a escassos dias das eleições, como sempre a coberto do anonimato, é mais que suspeita. Por que só agora o MP entendeu revelar, ainda por cima de forma criminosa, o que entendeu revelar? Constituindo um crime a revelação pública do que está em segredo de justiça, não se pode dizer que tenha sido uma coincidência, e se foi seria mais uma a somar a tantas outras igualmente suspeitas.
Devo acrescentar que Gouveia e Melo não é, nunca foi, o meu candidato à Presidência, e espero não ter que votar nele por falta de alternativa. O que agora digo sobre a sacanice de que foi vítima di-lo-ia fosse outro o candidato. Em causa está, de novo, a intromissão da justiça na política, promovendo julgamentos na praça pública, corroendo as instituições e a democracia sem que ninguém seja punido por isso. Para a justiça, incapaz de se emendar e de ser emendada por quem devia, o crime compensa.
23 de dezembro de 2025
JAVIER REVERTE. Tirando dois ou três títulos, aparentemente esgotados e nunca reeditados, não se encontram, em Portugal, livros de Javier Reverte. Noto, igualmente, que na Wikipédia só há entradas em espanhol (catalão e basco) e árabe. Quer isto dizer que Javier Reverte foi um escritor menor? Se foi, as editoras portuguesas, e não só as portuguesas, publicam dezenas de títulos e autores que nem esse estatuto merecem. Quer dizer que não vende ou vende pouco? A função das editoras não é imortalizar no papel quem acham que merece, mas vender. Afinal, a generalidade das editoras são um negócio, e como tal têm a função de fazer dinheiro. Digo generalidade porque uns poucos editores editam por «amor à camisola», digamos assim, e já se dão por satisfeitos quando as receitas pagam as despesas. Curiosamente, os editores espanhóis, ou de língua espanhola, não têm, sobre vendas, razões de queixa de Javier Reverte (não confundir com Arturo Pérez-Reverte). Volto, portanto, à dúvida inicial. Por que será? Vou no terceiro título (El sueño de África) depois de El Río de la Desolación e Corazón de Ulises e tenciono ler mais uns quantos. Tenho pena que seja numa língua que não domino, mas é o que há.
20 de outubro de 2025
O PARTIDO DO ANDRÉ. Cinco anos depois de ter iniciado a sua militância no Chega, onde chegou a vice-presidente e pelo qual foi eleito deputado, Gabriel Mithá Ribeiro publicou um texto no Observador anunciando a descoberta da roda. Descobriu, por exemplo, que o líder do Chega é um autocrata, um predador narcísico, um demónio vingativo, uma personalidade tóxica. Tudo isto depois de não ter sido escolhido para o governo-sombra do Chega, segundo ele a última tentativa do seu «assassinato cívico» e que terá sido a gota de água de um longo conflito com Ventura, que já o tinha levado a demitir-se da vice-presidência e a renunciar ao mandato de deputado. O que levanta, como é óbvio, algumas dúvidas: por que demorou tanto tempo a perceber que Ventura é o que disse? Descobriu agora o que toda a gente sabia? Teria abandonado o partido caso Ventura lhe desse um lugar no governo-sombra? Só Mithá poderá responder. Mas como em política o que parece é, como disse o dr. Salazar, por sinal uma figura por quem Mithá nunca escondeu admiração, tudo indica que estaria disposto a continuar por lá apesar do que disse de Ventura e do Chega em geral, que para ele se tornou «um partido cada vez mais disfuncional», «uma névoa mental depressiva», o «partido do André». Mithá teve tempo de sobra para perceber no que se tinha metido e sair pela porta grande. Agora, à 25ª hora, em que se limitou a dizer de Ventura e do Chega o óbvio ululante, mais valia ter ficado calado.
14 de junho de 2025
MOEDAS ANDA A VER COISAS. Carlos Moedas disse estar preocupado com a violência dos movimentos extremistas de direita e de esquerda. Porque ambos são violentos, na sua opinião, formada não se sabe com que evidências. Também sou contra extremismos, de direita e de esquerda, sobretudo quando recorrem à violência. Mas não conheço, em Portugal, um só movimento de extrema-esquerda que recorra à violência para impor a sua agenda. Já na extrema-direita, conheço pelo menos seis — 1143, Ergue-te, Reconquista, Habeas Corpus, Portugal Hammerskins e Blood & Honour. Verdade que a extrema-esquerda às vezes apoia movimentos violentos com os quais se identifica ideologicamente. Mas não me consta que tenham ido além disso. O presidente da Câmara de Lisboa devia, por isso, ser mais rigoroso, ou informar-se melhor. A verdade é incomparavelmente mais importante que as simpatias políticas de cada um. Sobretudo nos tempos que correm, em que a mentira se disfarça de verdade a um ritmo assustador, corroendo os alicerces do regime que alguns sonham trocar por outro pior.
13 de junho de 2025
ASNEIRAS. O discurso de Lídia Jorge nas comemorações do Dia de Portugal deu que falar nalguns meios. Por razões que não vêm ao caso, mas todas pouco lisonjeiras. Não ouvi o discurso nem vejo motivo para ouvir. Mas anotei o que disse o historiador João Pedro Marques: o discurso estava cheio de erros factuais, no caso de natureza histórica. Como não vi quem o desmentisse, concluo que está certo. E assim sendo há que dizer que a falta de rigor num discurso solene é inadmissível, ainda por cima sendo a senhora conselheira de Estado. Não sendo historiadora, como presumo que não é, não lhe seria difícil informar-se junto de quem sabe.
1 de dezembro de 2024
DA POUCA-VERGONHA. Depois de encarcerado durante quase um ano, porque então haveria não sei que perigos de o deixar em liberdade, 10 anos depois a mesma justiça que o prendeu e acusa de 22 crimes ainda não conseguiu julgá-lo. Porque José Sócrates tem feito manobras dilatórias no sentido de adiar o julgamento e respectiva sentença, diz-se agora, e com isso escapar à condenação. Será. Mas se há — ou houve — manobras com essa finalidade, a culpa é de quem? Do acusado e potencial condenado, de quem se espera que use todos os meios ao seu alcance para não ser condenado? Ou da justiça, que não fez — ou fez mal — o seu trabalho? Leio que um tribunal considerou doloso o expediente que levou a sucessivos adiamentos. Assim sendo, está a justiça à espera de quê para agir? Devo dizer que não arrisco uma unha pelo ex-primeiro-ministro. Mas pela justiça ainda menos.
20 de novembro de 2024
O HORROR. Pelo menos três futuros ministros de Trump estão sob fogo cerrado, e não só da oposição. Um foi indicado para a Defesa sem ter qualquer experiência na área e é suspeito de ter comprado o silêncio de uma mulher que o acusa de agressão sexual; outro foi indicado para a Saúde sabendo-se de antemão que não acredita na ciência mais básica e se guia por teorias da conspiração; o último foi nomeado para a Justiça, a quem tem contas a prestar e promete usar para perseguir — e eventualmente punir — adversários políticos. E ainda o horror não começou.
18 de novembro de 2024
DOIS PESOS. A imprensa de esquerda de um modo geral e americana em particular está sob ataque da direita, radical e moderada. Porque vendeu como boa uma realidade que não existia, em parte verdadeiro. Acontece que a imprensa de direita, sobretudo de extrema direita, mente descaradamente desde o primeiro mandato de Trump, e a mais moderada divulga-lhas as mentiras sem nunca as mencionar como tal.
9 de outubro de 2024
FARTO. Das notícias cheias de gralhas, que omitem informação básica na pressa de ser o primeiro a dar a notícia. De comentadores políticos a comentar o que ainda não foi dito, nem feito, ou de que pouco ou nada se sabe. De políticos no activo comentar nas televisões e nos jornais. Das opiniões baseadas em «factos» que os factos desmentem sem que os jornalistas se dêem ao trabalho — e à obrigação — de os assinalar e corrigir. Das interrupções constantes aos entrevistados sem que haja outro motivo que não seja criar ruído. Da gritaria em que se tornaram os espaços televisivos de debates político e desportivo. Do jornalista ora na sua função, ora na função de comentador, ora nas duas ao mesmo tempo. Dos intermináveis directos sobre nada, que os políticos, por ausência de mediação jornalística, usam para dizer o que lhes convém e exploram com grande eficácia (que o diga o líder do Chega). Do jornalismo precário que se nota, e muito, no produto final. Do «jornalismo» que não se distingue do que se diz nas redes sociais que tantos jornalistas divulgam como sendo informação fiável. Do jornalismo que corre atrás do primeiro-ministro querendo saber se ele está bem disposto. Do estado a que o jornalismo chegou.
28 de setembro de 2024
PÓLVORA SECA. Desaparecida a propaganda dos Amigos de Olivença, pelo menos da minha caixa de correio, eis que o ministro da Defesa resolveu desenterrar o assunto. Começou por dizer Nuno Melo que Olivença «é portuguesa», mas no dia seguinte, diante o silêncio dos seus pares, fez uma adenda: disse-o a título pessoal, pelo «não vincula o Governo» a que pertence. Presidente e Governo recusaram comentar. Os Amigos de Olivença aproveitaram a ocasião para dizer das suas razões. A presidente da Junta da Extremadura também disse das suas: Olivença é espanhola desde 1801 e «vai continuar a ser». O constitucionalista Jorge Miranda pronunciou-se para acalmar os mais assanhados. O professor Renato Epifânio chamou a atenção para o facto de não haver, em Olivença, qualquer «movimento político-social relevante de reintegração em Portugal». Ao que parece, o episódio morrerá por aqui. Tirando meia dúzia de gatos-pingados, ninguém quer saber de Olivença, muito menos meter-se em sarilhos. A questão permanece, portanto, em banho maria, pelo que portugueses e espanhóis que lá vivem continuarão a viver como habitualmente. Antes assim.
16 de agosto de 2024
O REI VAI NU. Surpreende ver académicos conservadores sugerirem que Donald Trump deve usar as diferenças políticas para combater a sua adversária em vez de se limitar a insultá-la, uma estratégia, segundo eles, que não lhe trará um só voto. Surpreende porque eles sabem que não há diferenças políticas entre os dois. O que há é uma candidata (Kamala Harris) com um projecto político e um Trump com um projecto pessoal, agora ainda mais obcecado com a sua própria pessoa porque, com a justiça à perna em múltiplos casos, pode acabar na cadeia caso não vença. O projecto de Trump foi, desde sempre, o poder pessoal a qualquer preço, agora muito agravado com a urgência de salvar a pele. A ideia de que ele é conservador é pura fantasia. Apresenta-se como conservador mas poderia apresentar-se como liberal, posiciona-se contra o aborto mas poderia defendê-lo. O que verdadeiramente o define é a sua admiração por ditadores, como Putin e Kim Jong-un, porque inveja o poder que eles têm. Isso mesmo, o poder. Como bem sabem, aliás, os académicos de que falo, que mesmo assim se prestam aos mais toscos malabarismos para esconder que o rei vai nu.
28 de julho de 2024
TRUMP PORQUE SIM. A direita pensante defende que Trump representa o falhanço da esquerda, um argumento, em parte, verdadeiro. Como Trump é um ser desprezível, mesmo para quem o apoia, espera que o argumento baste, por si só, para o defender, desobrigando-a de melhores argumentos. Como é óbvio, os erros da esquerda, mesmo os verdadeiros, não tornam Trump melhor, e corrigir os falhanços da esquerda com a direita de Trump será um falhanço maior. Não se vê quem, na direita pensante, defenda Trump pelas qualidades que terá (por aquilo que fez e não fez, por aquilo que é e não é), e como as qualidades que terá possam corrigir o falhanço da esquerda, aliás muitíssimo exagerado. Quero acreditar, ainda assim, que a direita terá motivos maiores. Mas quais? Como ainda não vi quem os mostrasse, só posso concluir que não abundam. Dizem alguns que Trump teve méritos enquanto presidente, mas não dizem quais. Além de confrangedor, tamanha escassez de argumentos talvez signifique que não os tenham. O ponto dos ditos pensantes é penalizar a esquerda a qualquer preço, e isso lhes basta. Mas não basta criticar os erros da esquerda. Há que demonstrar as virtudes da direita de um modo geral e as de Trump em particular. E as «virtudes» da direita americana devem-se, nos últimos anos, a uma personalidade chamada Trump, que levou o Partido Republicano para um terreno impensável ainda há pouco, deixando-o refém da sua exclusiva vontade, os seus membros com vergonha na cara a abandonar o partido, e os restantes a curvar a espinha enquanto sussurram pelos cantos o que Maomé não diria do toucinho. É isto o que a direita pretende?
26 de junho de 2024
JUSTIÇA. Funciona tão mal a justiça que se torna difícil tomar como sério o que faz e o que não faz. O timing escolhido para as buscas ao Ministério da Saúde, até há pouco chefiado pela agora deputada europeia Marta Temido, poder-se-á, em termos operacionais, justificar, mas quem acredita que o timing escolhido foi mera coincidência e não uma tentativa de penalizar a então candidata ao Parlamento Europeu? Quem manda na justiça continua a fazer tudo, mas tudo, para estar nas bocas do mundo, sempre pelos piores motivos, e não faz nada, mesmo nada, para mudar o que está mal. Os que lá mandam continuam a agir como se não tivessem contas a prestar aos cidadãos, apesar dos insistentes pedidos de explicações vindos de todos os lados. O «caso» da ex-ministra da Saúde é só mais um que não pode ser ignorado. Como não podem ser ignoradas as escutas em segredo de justiça divulgadas pela CNN, ainda por cima sem qualquer relevância para a investigação de que estará a ser alvo, obviamente destinadas a fragilizar a candidatura de António Costa à presidência do Conselho Europeu depois de já o terem obrigado a demitir-se de primeiro-ministro alegando uma suspeição que ainda hoje, meio ano depois, ninguém sabe de quê. Para cúmulo, julgam os mandantes que não têm de dar explicações. Limitam-se a abrir uma investigação para «apurar a origem das fugas» sabendo de antemão que, como os casos passados o demonstram, a investigação vai dar em nada. Pelo que se passou até hoje, não tenho a menor dúvida de que a PGR está apostada em destruir, pelo menos politicamente, o ex-primeiro-ministro António Costa. Se já sabíamos que a justiça funciona mal, demonstrou agora que não hesita em intrometer-se no que não deve. Pior seria difícil.
18 de março de 2024
CHEGA. Todos os partidos políticos com assento parlamentar parecem apostados em afastar o Chega do próximo Governo. A coisa soa bem à primeira vista, mas à segunda, e apesar das aparentes boas intenções, nem tanto. Afastar o Chega do poder terá, mais cedo do que tarde, consequências nefastas para o já debilitado regime democrático. Fazendo-se de vítima, o partido de Ventura não deixará de capitalizar com a marginalização, exigindo em próximas eleições, provavelmente mais cedo do que seria desejável, os votos necessários para que não dependa de terceiros para ser governo. Não tenho varinha mágica para adivinhar o que o futuro dirá. Parece-me, contudo, que seria bom comprometê-lo de algum modo com o próximo governo, secando-lhe assim a veia do protesto — até ver a única coisa que o move e lhe valeu quatro vezes mais deputados no parlamento. Luís Montenegro partiu para a campanha eleitoral jurando que jamais faria uma coligação com o Chega. Na minha opinião, um erro monumental. Se agora lhe fica bem manter o que prometeu, parece-me caro o preço que terá de pagar. O PSD, mas, sobretudo, o país.
14 de fevereiro de 2024
SINDICATOS DA DESORDEM. Por razões que me parecem óbvias, sempre olhei com desconfiança a existência de sindicatos nas polícias. Foi, por isso, sem surpresa que assisti à postura que os sindicatos têm vindo a adoptar nas últimas semanas. Em troca do que dizem ser os interesses legítimos da classe, de que não tenho motivos para duvidar, o Sindicato Nacional da Polícia, um dos 19 que representa as polícias, não só recusou cumprir os deveres que lhes estão atribuídos como ainda ameaçou boicotar as legislativas de 10 de Março caso não veja atendidos os seus desejos. Não será necessário ser visionário para intuir que mais dia, menos dia viesse a concretizar-se um cenário destes. Afinal, os sindicatos das polícias funcionam com a mesma dinâmica dos demais, e a dinâmica dos demais aplicada à PSP ou a outras forças de segurança põe em causa a segurança nacional e o Estado de Direito. É preciso ver que as polícias têm deveres que outros não têm, o primeiro de todos cumprir as missões que o Estado lhes confiou e juraram cumprir. Descumprindo esses deveres, até ver impunemente, quem quer saber das reivindicações das polícias?
17 de janeiro de 2024
O CANTO DO CISNE. Ouvidas as teorias que correm acerca do que se deve ou não fazer para acudir à crise que vai na Global Media, proprietária, entre outros, do DN, JN e TSF, não vejo como se possa encontrar uma solução satisfatória de modo a salvar, pelo menos, os títulos de referência. Como outras empresas privadas, a Global Media opera dentro das regras do mercado, e o mercado costuma corrigir com eficácia os seus próprios erros — e foram demasiados os erros cometidos pelos vários patrões que passaram pelo grupo cujo colapso agora se teme. Há vários exemplos passados que o demonstram. O desaparecimento de jornais como O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro, o Diário Popular, A Capital ou O Independente não pôs em perigo a democracia, motivo agora invocado para não se deixar cair a Global Media. Depois, que solução haverá que não seja o Estado, directa ou indirectamente, a pagar a conta? E quem acha que o Estado deve, neste caso, substituir-se aos privados? Tirando os trabalhadores do grupo, que aguardam que lhes dêem o que lhes pertence, não se vê quem. Por razões óbvias, que os jornalistas sabem melhor que ninguém, não há almoços grátis, e sairia caro ao país ser o Estado pagá-los. A solução, a haver, passa pelos privados, pela compra do todo ou das partes. Privados que até ver não se vislumbram, pelo que não se antevê um final feliz para quem lá trabalha. Já se vai ser uma perda para a democracia e o jornalismo se não vencer a crise, não tenho tanta certeza.
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