27 de outubro de 2003

Avisado por vários blogues, tentei ver o episódio entre Miguel Sousa Tavares e Manuela Moura Guedes. Só que o "link" na página da TVI não funciona. Será de propósito?

24 de outubro de 2003

Miguel Sousa Tavares decidiu arrasar o juiz Rui Teixeira, porque o juiz Rui Teixeira faz «show-off» e se passeia rodeado de seguranças. Manuel Villaverde Cabral decidiu arrasar toda a justiça, porque os magistrados envolvidos no processo Casa Pia «cederam sem pudor a um espírito justiceiro» e está farto de avisar que a justiça não funciona. Vicente Jorge Silva decidiu arrasar o procurador João Guerra, o juiz Rui Teixeira e o procurador Souto de Moura, porque os primeiros cometeram «um inadmissível e kafkiano erro de apreciação» e o terceiro tem tido um «comportamento errático e patético». Outros mais se pronunciaram contra os magistrados, e todos eles com a mesma finalidade: descredibilizar a acusação. Como escrevi numa crónica publicada na minha página pessoal, tudo caminha para que os culpados se transformem em inocentes e os inocentes em culpados.
Reconhecendo que nem sempre reagiu da melhor maneira aos desenvolvimentos do processo Casa Pia — o que só lhe fica bem —, o secretário-geral do PS nega ter sido ele (ou o PS) a querer politizar a justiça. Antes pelo contrário: ele é uma vítima do processo. Ora, se há alguém de quem Ferro se pode queixar, esse alguém é ele próprio. Porque ninguém duvida que Ferro Rodrigues está a colher o que semeou, e quem semeia ventos sujeita-se a colher tempestades.

23 de outubro de 2003

Não tenho qualquer simpatia por Manuel Maria Carrilho, e certamente que as últimas críticas do ex-ministro da Cultura a Ferro Rodrigues trazem água no bico. Mas não deixo de registar com agrado o facto de ver o deputado dizer que o PS «é inteiramente alheio» ao processo de pedofilia, que se misturaram desnecessariamente «relações pessoais e funções institucionais». É bom que, no PS, alguém dê mostras de algum bom senso, mesmo que seja um bom senso interesseiro.
Mais um ataque ao juiz Rui Teixeira, desta vez de Eduardo Prado Coelho. «Tratando um professor universitário e deputado por "o senhor Pedroso", o juiz Rui Teixeira não está a pôr todos no mesmo nível, mas a baixar o nível de Paulo Pedroso». Ficou a intenção, é claro, que o motivo é hilariante.

22 de outubro de 2003

Confesso que estou espantado com o clima de consenso generalizado à volta das declarações do Presidente da República sobre o processo Casa Pia. Serenidade? Seguramente que eu devo ter ouvido outro discurso. Telenovela? Eu acho demasiado grave para que se compare a uma telenovela. Violação do segredo de Justiça? Sim, com certeza. E o conteúdo do que foi divulgado, não é grave? Parece que há uma tentativa de varrer tudo para debaixo do tapete. Resta saber em nome de quê.

21 de outubro de 2003

O Presidente da República refutou a ideia de que tenha utilizado a função que desempenha para obstruir (ou influenciar) o trabalho da Justiça e defendeu que a violação do segredo de Justiça não pode ficar impune. Mais: para o PR, «não faz qualquer sentido que as prioridades e preocupações dos portugueses continuem a ser (...) uma qualquer novela judiciária». Tudo isto foi dito num tom pouco sereno, e num momento que não deixará de ser entendido como uma resposta às insinuações de que o PR terá tentado influenciar o processo Casa Pia. E levantou algumas questões. Por exemplo: uma novela judiciária? Será que o dr. Sampaio tem a exacta noção do que disse? Ou a ideia é mesmo reduzir os últimos desenvolvimentos do processo Casa Pia a um mero «fait divers»? Já quanto à violação do segredo de Justiça, parece-me que todos estamos de acordo. Só que não me lembro de ver o PR manifestar-se contra a violação do segredo de Justiça a propósito de outros processos e de outras pessoas, o que pressupõe que o critério varia de processo para processo, de pessoa para pessoa.

20 de outubro de 2003

A mais recente fuga de informação no processo Casa Pia deixou a ideia de que os mais altos dirigentes do PS tentaram obstruir o trabalho da Justiça. Se ninguém tem dúvidas de que a fuga de informação é grave — além de constituir uma violação do segredo de justiça —, o conteúdo dessa informação é gravíssimo.
Eu não acredito que o dr. Paulo Pedroso esteja inocente. Muito menos que esteja a ser vítima de maquinação, cabala ou erro judicial. Ainda ninguém conseguiu convencer-me de que o juiz Rui Teixeira errou quando decretou a prisão preventiva, mas já tenho dúvidas sobre quem pôs fim à prisão. Foi isto o que eu disse no meu último texto publicado na minha página pessoal.

17 de outubro de 2003

Vicente Jorge Silva escreveu, no "Diário Económico" de hoje, o seguinte: «Para tornar as coisas inteiramente claras, começo por uma confissão pessoal: como cidadão e deputado do PS, teria preferido que Paulo Pedroso não tivesse ido directamente da prisão para o Parlamento no dia em que foi libertado; teria preferido que Jorge Lacão não tivesse entrado em polémica com o procurador-geral da República à saída de uma reunião da comissão de Ética de que é presidente; e teria ainda preferido que a minha querida amiga Ana Gomes, enquanto membro da direcção do PS, não tivesse feito, da forma que o fez, declarações sobre as suspeitas de envolvimento de ministros do actual Governo na rede de pedofilia com base num artigo de uma revista francesa, "Le Point"». Não sei se isto é sincero ou não. Mas gostei de saber.

16 de outubro de 2003

As mais recentes movimentações das empresas portuguesas de comunicação social vieram dar pertinência às recentes declarações do dr. Jardim. «Ou deixamos a comunicação social ter um poder corporativo crescente que nos liquide, ou então temos o poder e a coragem de liquidar o poder corporativo da comunicação social», disse ele um dia destes. Um exagero bem à maneira do presidente da Madeira, é claro, além de a comunicação ser um dos ódios de estimação do dr. Jardim. Mas nem por isso deixa de ter alguma razão. Talvez demasiada razão.

15 de outubro de 2003

A excelente entrevista do "Público" a Paulo Pedroso, que contrastou com o estilo delicodoce da "Visão" (não li as restantes entrevistas), deixou à mostra o que toda a gente vê menos o deputado socialista: que este não devia sentar-se no Parlamento até o caso estar resolvido. Como assim não entendeu, prevê-se (mais) um mau bocado para Paulo Pedroso e, sobretudo, para o PS, embora o PS tudo tem feito para o merecer.
O episódio tira publicidade, põe publicidade na "Time", protagonizado pelo Governo a propósito de uma reportagem sobre a prostituição em Bragança — e que terá levado a direcção da revista a pedir desculpas —, ilustra exemplarmente o que toda a gente sabe mas finge desconhecer: não se pode falar mal de quem nos dá de comer.

14 de outubro de 2003

Ana Gomes insiste em saber se a Procuradoria-Geral da República está a investigar as denúncias feitas por uma revista francesa, que dão conta do envolvimento de dois ministros do actual governo em práticas pedófilas. Porque diz ter dúvidas de que a notícia em causa não seja verdadeira, embora saiba tratar-se de uma publicação cuja credibilidade é duvidosa e se estranhe que só agora, quatro meses após a publicação da notícia, levante a questão. Mas se tem dúvidas quanto aos ministros, já não as tem quanto ao caso Pedroso, que considera uma «urdidura» com vista a «descredibilizar a justiça» e assenta em acusações que «não têm ponta por onde se lhes pegue». E com base em quê todas estas «certezas»? Com base nos mesmíssimos pressupostos que a levam a suspeitar do conteúdo da notícia na revista francesa: suposições e nenhum argumento. Pior: a dra. Ana Gomes pretende fazer passar a ideia de que as acusações de que é alvo Paulo Pedroso têm o mesmíssimo peso que as acusações que são feitas pela revista francesa. Razão tem o líder parlamentar do PS, ao pedir aos socialistas «recato» e «silêncio». Porque, para embaraços, já basta. Além de que, com militantes assim, o PS não vai longe.

13 de outubro de 2003

Os critérios que presidem à nomeação dos árbitros para os jogos da Superliga são difusos, subjectivos e não são conhecidos de todos, acusou não sei quem. Não se tratando de uma novidade — pode-se mesmo dizer que são acusações que já têm barbas —, porque é que o problema persiste? A resposta é simples e só uma: porque os clubes grandes não estão — nunca estiveram e nunca estarão — interessados em clarificar o que quer que seja. Pela simples razão de que, apesar de passarem a vida a queixar-se, eles são os principais beneficiados com o actual estado de coisas.
Apesar de reconhecer que «não se pode mudar tudo de um minuto para o outro», Luís Filipe Vieira disse ao "Correio da Manhã" que «um mandato dá para resolver todos os problemas» do Benfica. Mais: dentro em breve, o Benfica vai ter «potencialidade» para «ser o maior clube do Mundo». É a campanha eleitoral em todo o seu esplendor. Ou a demagogia pura, se preferirem. Sempre que há eleições no Benfica (e não só no Benfica), lá vem a receita do sucesso e a poção mágica para todos os males. Passadas as eleições, terminadas as ilusões. Duas semanas bastam para se perceber o logro, cair na realidade. E a realidade do Benfica não promete ser risonha nos próximos tempos.

10 de outubro de 2003

Tenho dúvidas que Pacheco Pereira seja a pessoa mais isenta (e distanciada) para fazer uma análise dos média e dos jornalistas portugueses. Mas isso não invalida que eu esteja, no essencial, de acordo com a análise que fez no Abrupto.
Miguel Sousa Tavares não se cansa de criticar o juiz Rui Teixeira. Porque o deputado Paulo Pedroso está inocente, apesar de admitir que nada permite «concluir sobre a culpabilidade ou inocência». E com base em quê a presumível inocência? Infelizmente não disse, embora tenha deixado a ideia de que sabe mais do que diz.
Cada vez gosto mais deste senhor, apesar de discordar em quase tudo no que a política diz respeito.

9 de outubro de 2003

Quero crer que as recentes críticas do presidente Sampaio e a visita «amistosa» de Mota Amaral a Paulo Pedroso não tenham pesado na decisão que o Tribunal da Relação tomou em relação ao dirigente socialista. Além disso, é bom lembrar que a decisão do Tribunal da Relação se limitou a dizer que o dirigente socialista pode aguardar em liberdade a evolução do processo. Apenas isso. Não que Paulo Pedroso tenha deixado de ser suspeito, como chega a parecer ao ver-se tanta algazarra. Não, nada tenho contra Paulo Pedroso. Olhando bem para ele, até me parece um homem sério e incapaz de fazer aquilo de que é suspeito. Só que, até ver, não é o que pensa a Justiça.
Acabei de ouvir a entrevista de Carlos Queiroz à TSF e, confesso, fiquei irritado. Porque Margarida Marante passou o tempo a interromper, sobretudo onde não devia, não deixando que Queiroz completasse o raciocínio. Margarida Marante foi demasiado interventiva, às vezes até pareceu que era ela a entrevistada. Um pouco mais de serenidade vinha mesmo a calhar.

8 de outubro de 2003

Mesmo com alguma prudência e contenção face aos últimos desenvolvimentos do processo Casa Pia, arrisco um comentário a quente: não alinho nessa estória de que a libertação do deputado Paulo Pedroso é um sinal de que a Justiça funcionou, como ouvi dizer praticamente a toda a gente. Por uma razão simples: porque isso quer dizer que dantes não funcionou, e eu não tenho a certeza que dantes não funcionou. Mais: os que hoje cantam vitória da Justiça são os mesmos que ontem a puseram em causa.

7 de outubro de 2003

Tal como outros «moderados do islão», Abu Mazen é um dos «grandes derrotados pela política externa de Washington», diz Francisco Sarsfield Cabral na sua crónica de hoje. Eu ia jurar que o moderado Abu Mazen foi, antes de mais, vítima do sr. Arafat, mas parece que assim não é. Aliás, sempre que o chamado processo de paz mal corre mal a culpa nunca é dos dirigentes palestinianos: ou é dos judeus, ou é dos americanos, ou é dos dois juntos. Tenho para mim que o conflito israelo-palestiniano se arrasta há anos precisamente por causa de quem pensa que todas as culpas estão de um lado e nenhumas do outro.
Não, não vou comentar a onda de demissões que por aí vai. Não conheço os pormenores do caso, nem quero conhecer. Mas subscrevo as perguntas de Manuel Falcão: «porque é que o acesso aos cursos de Medicina em Portugal é o que é? Porque é que os hospitais portugueses têm cada vez mais médicos e enfermeiros estrangeiros? Porque é que somos aparentemente incapazes de formar profissionais da saúde em número suficiente para as necessidades do país?»
Em relação à polémica sobre Luís Sepúlveda, que parece ter recomeçado, já dei a minha opinião. Só gostaria de acrescentar que, entre Sepúlveda-escritor e Coloane-escritor, prefiro os dois.
Imperdível a crónica de Pedro Lomba no "Diário de Nortícias" de hoje.

6 de outubro de 2003

Toda a gente já percebeu que a estória da Casa Pia está mal contada. Aliás, toda a estória da pedofilia à portuguesa está mal contada. Porque todos os dias vemos gente defender "A" ou atacar "B" a deixar a ideia de que sabe mais do que diz. Realmente custa a perceber porquê só agora — quando estão presas figuras públicas e dirigentes políticos — se descobre que a Justiça tem falhas graves. E ainda se percebe menos as críticas do presidente Sampaio e a «visita amistosa» de Mota Amaral a Paulo Pedroso. Catalina Pestana avisou que «vem aí um terramoto». Pois seja. Mas eu suspeito que não passará de um chuvisco.
Clara Ferreira Alves ficou indignada por Israel ter atacado um aparente campo de treinos da Jihad Islâmica em território sírio. Mas nem uma palavra sobre o ataque palestiniano a Israel, no dia anterior, que fez 19 mortos (entre eles várias crianças) e que terá provocado a resposta israelita. Mais um caso de relativismo moral.
O Abrupto é «um veículo de erudição petulante», diz Eduardo Cintra Torres. Francisco José Viegas cedeu à «pressão das televisões» ao convidar Margarida Rebelo Pinto, diz Eduardo Prado Coelho. Portugal é um país atrasado, diz António Barreto.
Parece que há uma nova modalidade de «spam». Ou melhor, parece que há um «spam» legal. Pelo menos é o que diz a parte final de uma mensagem que eu recebi e que reza assim: «ao abrigo da nova legislação sobre correio Electrónico (...), um e-mail não poderá ser considerado SPAM quando inclui uma forma de ser removido». Isto é mesmo verdade? Se é, quem é o responsável por uma coisa destas?

3 de outubro de 2003

Compreende-se a atitude de Vicente Jorge Silva face à questão Maria Elisa. Aliás, é a única que se compreende. Só que as razões invocadas por Vicente para se demarcar da posição do partido pelo qual foi eleito e o retrato que tem vindo a fazer sobre a saúde da democracia portuguesa, nomeadamente do Parlamento, justificam que vá mais longe. E ir mais longe significa uma de duas coisas: ou demonstra que é possível mudar-se o que acha tão grave, ou deve renunciar ao mandato.
Se a selecção portuguesa de futebol jogar o próximo Europeu da mesma forma como foi concebido o anúncio de promoção ao Euro2004 que está a passar na RTP (só vejo a RTP), onde aparece Scolari a anunciar os nomes dos convocados, teme-se o pior.

2 de outubro de 2003

O amplo consenso à volta da atribuição do Nobel da Literatura a J. M. Coetzee cheira-me a esturro. Cá para mim, grande parte dos intelectuais portugueses que se multiplicaram em declarações aos media apenas leram umas coisas à pressa sobre Coetzee para... prestar depoimento aos media. Um poeta guineense e uma escritora são-tomense deram-se mesmo ao luxo de dizer que estavam muito satisfeitos com a atribuição do Nobel a Coetzee, e depois confessaram desconhecer o autor. Até ver, só a escritora Maria Teresa Horta discordou, mas discordou porque acha que devia ser uma mulher a premiada e não um homem. Mesmo que ninguém me tenha perguntado, eu respondo na mesma: não tenho qualquer opinião sobre o escritor sul-africano. Por uma razão simples: nunca li.
Ora aqui estão os resultados de um importantíssimo estudo que passou despercebido à imprensa portuguesa, pelo menos à imprensa portuguesa de referência.

1 de outubro de 2003

Lidos os jornais, nada que me inspire uma linha. E, no entanto, hoje é Dia da Música, das Pessoas Idosas e da Água. Tudo coisas importantes, e que deveriam interessar-me. Mas não. As únicas coisas que hoje me interessaram foram este blogue e mais este, que juntei à minha lista de favoritos.

30 de setembro de 2003

Fazendo uso de um estilo trauliteiro, às vezes a roçar o grosseiro, o dr. Alfredo Barroso continua, no "Expresso", a fazer juízos de valor com uma ligeireza impressionante. Pior só quando tenta ser engraçado, e invariavelmente não consegue. Ou quando faz descobertas como esta: no tempo de Saddam «não havia [no Iraque] bases nem vestígios de organizações bombistas». Ou quando, com uma arrogância impressionante, não esconde o que julga ser a sua superioridade intelectual (e moral) face a quem não pensa como ele. Um verdadeiro "case study".
Há anos que não lia um livro de rajada, de uma vez só. Aconteceu ontem com "Netto Perde Sua Alma", de Tabajara Ruas, um brasileiro de Rio Grande do Sul. Sem dúvida um escritor a seguir com atenção.

29 de setembro de 2003

Maria Teresa Nogueira escreveu, no "Público" de hoje, um texto em nome da Secção Portuguesa da Amnistia Internacional que, entre outras coisas, diz o seguinte: «as verdadeiras causas da insegurança» são «a injustiça», «a fome», «o medo», «o desespero» e os «países poderosos». Reparem bem: nem uma palavra sobre o fundamentalismo, nomeadamente o fundamentalismo islâmico, que não hesita em matar em nome de deus. Para esta gente, as desgraças dos países pobres nunca se devem aos seus regimes ditatoriais, à corrupção ou à má administração. Não. A culpa é sempre dos países ricos. E porquê? Por isso mesmo: porque são ricos e porque sim.
O Muito Mentiroso parece ter acabado. É uma decisão que se aplaude, embora isso não signifique que outros blogues do género — ou mesmo piores — não possam surgir de um momento para o outro. Só há uma coisa que não percebo: porque é que o "Público" decidiu usar o endereço agora vago como se de coisa sua se tratasse?
Eduardo Cintra Torres completou, hoje, a trilogia das notícias televisivas com o noticiário que faltava: o "Jornal da Noite", da SIC. É favor juntar aos outros dois ("Jornal Nacional", da TVI, e "Telejornal", da RTP), emoldurar e afixar nas redacções.
Aqui está um excelente texto para quem se interessa por Paul Bowles e "The Sheltering Sky".

26 de setembro de 2003

Não vejo a RTP Internacional com grande frequência, muito menos durante várias horas seguidas, mas não há semana em que não veja o secretário de Estado das Comunidades no pequeno ecrã. Ele é por causa do problema "A", do debate sobre a questão "B", da visita à comunidade "C". Um caso sério de ubiquidade.
Há livros que se lêem, outros que se saboreiam. Devagar, para que o encanto perdure. Tal como um Porto a sério deve ser degustado devagar, porque um Porto a sério merece disponibilidade, tempo. «Educação Sentimental» é um livro assim. Aliás, todo o Flaubert é para ler devagar, saborear. Outro livro assim é «Ulisses», de Joyce, de que só li as primeiras cem páginas e ao qual volto sempre para ler... a partir do início. Ou «Os Passos em Volta», de Herberto Hélder, que já li uma mão cheia de vezes. Ou Eça, ou Alexandre O'Neill, ou Cardoso Pires, ou...

25 de setembro de 2003

Com mais um rol de proibições, a Igreja Católica fez questão de nos lembrar que é uma instituição profundamente retrógrada. Pior: é uma instituição autista, cada vez mais fundamentalista (sim, eu disse fundamentalista) e cada vez mais longe dos católicos. Tudo isto não me devia incomadar. Afinal, sou ateu. Mas tudo isto me parece demasiado perturbante.
O alvo principal do terrorismo é «uma maneira de viver», um «determinado tipo de sociedade civil» e «os fundamentos e valores da nossa civilização», diz Pacheco Pereira na sua crónica de hoje. Tão simples e evidente que só não vê quem não quer.

24 de setembro de 2003

Independentemente de se tratar de uma situação prevista na lei, o caso Maria Elisa é uma vergonha. Uma vergonha que se estende a quem a defende, entre eles o dirigente António Costa, que acha que Maria Elisa foi «vítima da inveja nacional e da mediocridade dos seus colegas da RTP», pois há casos «bastante mais escandalosos para a dignidade da função parlamentar». E que casos são esses? Infelizmente não esclareceu, e até deixou a ideia de que não está interessado em mexer em tão malcheirosa matéria. Ora, o caso Maria Elisa é demasiado simples para que com ele se façam floreados, sejam eles bem ou mal bem-intencionados. Em primeiro lugar, Maria Elisa quis acumular os cargos (e vencimentos) de deputada e jornalista, e qualquer cego vê que os dois cargos são incompatíveis quando exercidos em simultâneo. Depois, tentou o expediente da baixa para fazer uns biscates na RTP, mas a estratégia parece não ter resultado. Por último, prepara-se para gozar as delícias de um «exílio» numa capital europeia. Convenhamos que é muita coisa junta, e que este tipo de comportamentos se presta a toda a espécie de críticas. Certamente que algumas virão de invejosos, medíocres ou mal-intencionados. Mas as coisas são o que são.
Um estudo da Associação Nacional das Farmácias concluiu que os medicamentos genéricos têm a mesma qualidade dos medicamentos de marca. Tirando os médicos — ou alguns médicos —, nada que qualquer leigo minimamente informado já não tivesse percebido.

23 de setembro de 2003

Sempre que as autoridades anunciam uma apreensão recorde de haxixe — como parece ter sido o caso na semana passada, com a apreensão de não sei quantas toneladas — vem-me à memória Maria Filomena Mónica, que diz estar convencida de que terá sido Eça de Queirós quem introduziu o haxixe em Portugal, pelo menos nos meios intelectuais. Não sei se assim foi ou não foi. Do que me parece não haver dúvida é de que Eça tomou contacto com o haxixe durante uma viagem ao Egipto, como relata a seguinte passagem de «O Egipto — Notas de Viagem»:

Fomos apenas uma vez ao bazar das drogas: procurávamos hachisch.
Hachisch?, — disse-nos Jonas Alli, — mas é proibido!
— Mas deve-o haver... sobretudo sendo proibido!
— Em primeiro lugar — respondeu ele gravemente — há três qualidades de hachisch: há hachisch em pastilhas...
— Pois venham as pastilhas!
— Há hachisch em bolo...
— Pois venham os bolos!
— Há hachisch em geleia...
— Então, venha a geleia!
Jonas Alli encolheu os ombros — e o olhar que nos lançou era cheio de um infinito desdém...

22 de setembro de 2003

Face à famosa baixa por «razões de saúde», Maria Elisa acha que as críticas de que tem sido alvo se devem ao facto de ela ser mulher e de ter alguma notoriedade. O resto não passa de confusão que «certos órgãos de comunicação social têm estabelecido», já que a figura jurídica da suspensão do mandato de deputada existe na Assembleia da República há mais de 25 anos. Seguramente que há ocasiões em que mais vale estar calado — e Maria Elisa perdeu uma boa ocasião para estar calada. Porque os argumentos que apresenta em sua defesa são tecnicamente pouco fundamentados e moralmente insustentáveis.
Embora me pareça exagerado o ataque a Manuel Alegre, concordo com Helena Matos quando ela diz que «durante a ditadura, a censura e a própria repressão policial permitiram a muitos iludirem a sua mediocridade imaginando sucessos e reconhecimento público que efectivamente não mereciam». Por isso, acrescenta, «quando chegou a democracia e já não tinham o censor a dar-lhes importância nem a polícia a impedir-lhes as actividades e ficaram sós perante o público, o povo e, sobretudo, perante si mesmos, começaram por amaldiçoar o mercado, a competitividade e a concorrência.» Foi exactamente por esta razão que, há três anos atrás, deixei de ler o "Jornal de Letras", para quem um escritor (cineasta, pintor, actor, etc.) com passado anti-fascista é bom e quem o não tem não interessa.
Mesmo recusando-se a divulgar o endereço, Pacheco Pereira já fez mais publicidade ao Muito Mentiroso que os que acham que não vale a pena esconder. Não são os americanos que dizem que a má publicidade também é publicidade?
Os adeptos das teorias da conspiração deviam ler esta investigação da revista Der Spiegel.
Depois do "Jornal Nacional", da TVI, chegou a vez do "Telejornal", da RTP. Eduardo Cintra Torres fez hoje, no "Público", uma radiografia do principal jornal da televisão pública. Ligeiramente melhor que o "Jornal Nacional", apesar de tudo. Mas não muito.
O famoso «roteiro para a paz» mereceu de Vital Moreira mais um exercício de anti-americanismo primário e de ódio aos judeus. Como me fez chegar a mostarda ao nariz, a última crónica na minha página pessoal é sobre o assunto.

19 de setembro de 2003

«Padre Júlio era um padre especial, diga-se desde já. Vociferava contra os ricos e transformava cada homilia num inferno de caldeirões e almas a arder. Pregava contra os pecados da carne e do dinheiro, mas almoçava sempre em casa de boa mesa. Era visto de mãos dadas com senhoras devotas. Dizia mal da política e dos políticos, mas era membro do partido único, a União Nacional. Parecia um revolucionário, mas fazia frequentemente o elogio de Mussolini. Era um padre original. Quando Xavier lhe confessou as dúvidas sobre a existência de Deus, ele respondeu-lhe: E quem as não tem?» Eis um cheirinho de «A Terceira Rosa», de Manuel Alegre, o último título distribuído com o "Público". Trata-se de um livro que se lê com gosto, e como quem lê um blogue. E nada de preconceitos: eu não comungo das ideias de Manuel Alegre, embora concorde com ele em variadíssimos assuntos e o reconheça como um homem que pensa pela sua própria cabeça. Mas isso não me impede de recomendar o livro na mesma.
Afinal, o jornalista da BBC que acusou o Governo britânico de ter «apimentado» o dossier sobre o arsenal iraquiano não disse toda a verdade. Pior: manipulou os factos e interpretou de forma abusiva declarações do cientista David Kelly. Mais um exemplo de «comportamento exemplar» da BBC na questão do Iraque.
Miguel Sousa Tavares não se conforma que o presidente Bush continue «à frente das sondagens para a reeleição, apesar do Iraque, apesar do déficit descontrolado em que transformou a situação financeira excedentária que herdou de Clinton, apesar do desemprego que passou para o dobro, apesar da recessão que continua, contra todas as suas promessas, apesar de nem sequer ter conseguido ao menos deitar ainda a mão a Bin Laden e a Saddam, apesar de, contra a palavra dada, ter deixado mãos livres ao governo extremista de Israel para sabotar livremente qualquer hipótese de paz na Palestina.» E tudo isso se deve a uma razão simples, e que não se cansa de repetir: os americanos são uma cambada de burros. Tal e qual, embora lhe faltasse coragem para ser tão frontal.

18 de setembro de 2003

Hoje, durante o almoço, assisti a uma discussão sobre a intervenção americana no Iraque. Foi numa mesa ao lado da minha e teve por intervenientes quatro mulheres. Não querendo ser machista, já não me lembrava que ouvisse uma conversa interessante entre mulheres. Não, não é uma provocação. É uma constatação. Além disso, porque haveríamos nós, homens, de furtarmo-nos de falar mal das mulheres, se as mulheres passam a vida a falar mal dos homens?
O "Jornal de Notícias" fez manchete com o Encontro de Weblogs... mas o conteúdo é de uma pobreza franciscana. O "Telejornal" fez um directo a partir do local... mas aquilo estava às moscas. Moral da história: muita parra... pouca uva.

17 de setembro de 2003

Só agora dei conta que Eduardo Prado Coelho escreveu uma crónica «erudita», daquelas que exige «preparação específica» para entender. Tudo porque necessitou de fazer referência a dois livros, mais exactamente a «um prodígio de erudição e virtuosismo argumentativo» e a «um texto agitado e desconcertante». Obviamente dois livros que muito poucos estarão à altura de ler, muito menos avaliar. Ora, assim sendo, isto coloca uma pequena dúvida: se a ideia é desaconselhar a leitura dos tais livros, porquê tanto latim para os divulgar?
Depois da estória do ecrã, que tapa a visibilidade a não sei quantos lugares e deu origem a um episódio inacreditável, o novíssimo Alvalade XXI tem um problema com a relva. «A solução poderá passar por uma substituição integral do solo e da relva do estádio», diz um especialista citado pela Lusa. Que se saiba, este é o terceiro erro grave detectado nos novíssimos estádios — e ainda a procissão vai no adro. Quantos mais erros estarão para vir e que consequências terão? Naturalmente que só o futuro dirá. Mas eu temo o pior.

16 de setembro de 2003

Hoje resolvi dividir em duas a minha lista de blogues a visitar — a principal, a visitar diariamente, e a secundária, a visitar com menos regularidade. A razão é só uma: são cada vez mais os blogues que merecem visita e cada vez menos o tempo para os visitar. Dos nomes que integram a primeira ou compõem a segunda, não vale a pena falar. Dir-vos-ei apenas que o Leopardos das Estepes, que acabei de conhecer, faz parte da primeira.
Tudo corria normal na barbearia. Discutia-se bola, nomeadamente a última performance do Benfica. Até que, de repente, a televisão anuncia: o casório de Jennifer Lopez foi por água abaixo. Toda a gente fica muda e queda. Os barbeiros perigosamente de navalha suspensa, os clientes de boca escancarada. Sim, que isto de assuntos de cama não é caso para menos.

15 de setembro de 2003

A GNR de Reguengos diz ter identificado «todos os elementos da Comissão de Festas e o autor material da morte ilegal de um touro» em Monsaraz, no último sábado, e o caso terá já seguido para tribunal. Se o costume se mantiver, os arguidos que chegarem a julgamento serão... absolvidos. Assim se cumprirão duas portuguesíssimas tradições: a tradição de matar o touro e a tradição de não cumprir a lei sem que nada aconteça.
O Muito Mentiroso, outra vez. Depois de ter lido quilómetros de prosa que por lá se publicou, não há dúvida de que a questão da pedofilia dá que pensar. É possível que tudo o que lá se diz não passe de um ajuste de contas, de uma tentativa para ilibar uns e incriminar outros, de mais uma manobra para descredibilizar a justiça. É possível. Mas que lá se levantam questões pertinentes, lá isso levantam. Além de demonstrarem que estão bem informados, demasiado bem informados. Eu sou avesso a teorias da conspiração e concordo que o expediente encontrado pelos autores é pouco recomendável, mas não há dúvida de que a estória da pedofilia à portuguesa está muito mal contada.

12 de setembro de 2003

O Pedro Mexia resolveu mandar um murro na mesa. Porque a «intensidade e frequência das discussões» lhe está a causar demasiado «stress»; porque as trocas de mimos lhe desagradam; porque erradamente o acusam de ser de extrema-direita. E ameaça abandonar as lides (ou é só para provocar «uma vaga de fundo»?). Na minha modesta opinião, o problema do Pedro é levar demasiado a sério aquilo que faz e ferver em pouca água. Tal como, aliás, João Pereira Coutinho, quando decidiu desligar-se da Coluna Infame. Nada que um pouco mais de «fair-play» e poder de encaixe não resolva.
Ontem assisti a uma cena inacreditável. Uma repórter da RTP, em directo para o «Regiões», fazia os possíveis e os impossíveis para ouvir as partes em conflito não me lembro porquê nem onde, mas que ameaçavam terminar à bordoada. Na ânsia de fazer aquilo que julgou ser o seu trabalho, a repórter procurou ouvir as diferentes posições e, quiçá, demonstrar quem tinha razão e porquê. Só que, como seria previsível, o exercício prestou-se a exaltar ainda mais os ânimos, e a coisa podia ter acabado mal. Felizmente assim não aconteceu (pelo menos à frente das câmaras), e a única vítima foi... o jornalismo. Sim, porque aquilo foi uma exploração pura da gritaria, interessante para as audiências mas de nulidade informativa.
A decisão do Conselho Superior da Magistratura de manter o juiz Rui Teixeira à frente do processo Casa Pia merece aplauso. Mais: foi, a meu ver, a única decisão sensata a tomar. Porque o afastamento de Rui Teixeira do processo de pedofilia, com o argumento de que vai assumir novas funções no Tribunal de Torres Vedras, não deixaria de ser entendido como uma cedência às pressões de quem tudo tem feito para o afastar do caso.

11 de setembro de 2003

O Alberto Gonçalves excedeu-se nos comentários lisonjeiros à minha pessoa. Confesso que a minha ideia, quando disse (e mantenho) que ele é um dos melhores cronistas portugueses, era exactamente essa: que ele fizesse um «post» a falar bem de mim. Só que, em vez de um «post», saiu um claro exagero, e o resultado foi a subida em flecha dos acessos à minha página (já pareço o eurodeputado Pacheco Pereira a contabilizar os «pageviews»). Quanto ao top dos cronistas portugueses, que em tempos publiquei na minha página pessoal e me causou alguns dissabores, resolvi acabar com ele porque o tempo se encarregou de o desactualizar. Mas já estou a pensar retomar a ideia, embora me falte o Vasco Pulido Valente (por onde tem ele andado?) para o encabeçar.
O internacional brasileiro Ronaldo teve o desplante de dizer que os actuais adversários do Brasil são mais fortes que no tempo de Pelé. A afirmação veio a seguir à magra vitória da selecção brasileira sobre o «modesto» Equador, em Manaus, que valeu aos jogadores brasileiros algumas vaias dos seus próprios adeptos. O jogador do Real limitou-se a chamar a atenção para o óbvio: já não existem as «selecções regionais» contra as quais o Brasil ganhava 10-0 «e Pelé marcava oito golos». Mas as declarações do artista da bola não caíram bem: «Ronaldo sabe o que o separa de Pelé: um ano-luz. Pelé é Deus, é o rei», disse um conhecido jogador brasileiro. Pois é. Ronaldo ainda não percebeu que os mitos são intocáveis.
Hoje é dia de lágrimas, verdadeiras e de crocodilo. Provavelmente mais lágrimas de crocodilo de que lágrimas verdadeiras. Para não correr o risco de me chatear, resolvi não ler o que diz a imprensa sobre o 11 de Setembro, não ouvir rádio, não ver televisão. Não, não fui vítima do 11 de Setembro, pelo menos de forma directa, mas estava demasiado perto para deixar de ver e sentir. De modo que não me apetece assistir a comentários e lágrimas de ocasião, mesmo aos comentários mais lúcidos e às lágrimas mais verdadeiras.

10 de setembro de 2003

É possível que seja um erro de interpretação, mas eu continuo a achar que Alberto Gonçalves confundiu (propositadamente?) o homem (Luís Sepúlveda) com a obra. Mas não vale a pena bater mais no ceguinho. E não vai ser por essa razão que eu deixarei de continuar a ler as crónicas do Homem a Dias no "Correio da Manhã", das melhores da nossa imprensa.
O jornalista Ribeiro Cristóvão, que se prepara para substituir, no Parlamento, a deputada Maria Elisa, afirmou ao "Diário de Notícias" que não tem qualquer ideia do que o espera. A revelação não é um primor de inteligência, mas não há nada como ser claro.

9 de setembro de 2003

Segundo o "Diário de Notícias", Vasco Lourenço reclama o estatuto de deficiente das Forças Armadas por ter sido vítima, em 1964, de uma lesão durante um jogo de futebol. Mas há um pequeno problema: os médicos não parecem pelos ajustes. Mais uma edificante novela a seguir com atenção.
Alguém consegue explicar porque razão se põe música em piscinas, parques fluviais e demais estâncias públicas de lazer? Será que não ocorre aos responsáveis por estes espaços que os mesmos se destinam ao descanso? Será que não entendem que a música, por melhor que ela seja (e geralmente é má), não consegue agradar a todos? Será que ninguém reclama?

8 de setembro de 2003

O Homem a Dias não gostou do que Luís Sepúlveda terá dito à Visão. Está no seu direito. O que já não me parece correcto é misturar o homem com a obra, que dá ideia de não ter lido. Eu li todos os livros de Sepúlveda publicados em português e, de um modo geral, gostei. Já quanto à entrevista à Visão, o que vi citado por aí (não li a entrevista) não gostei. Mas não misturo uma coisa com a outra.
A ser verdade o que vem no Expresso — e não há razão para duvidar que não seja verdade —, o comportamento do maestro Miguel Graça Moura à frente da Associação Música-Educação e Cultura ultrapassa a imaginação. Ele são viagens, ele é roupa, ele são botões de punho, ele são artigos para o lar, ele são vinhos, ele são jarras, ele são hotéis, ele são centenas de contos mensais em água, luz e telefone, ele são milhares de contos de despesas pessoais. Enfim, despesas que Graça Moura ainda tem o descaramento de dizer que foram realizadas no desempenho das suas funções.

6 de setembro de 2003

A última crónica de Eduardo Cintra Torres, no "Público" de segunda-feira, merecia um caixilho e ser afixada na redacção da TVI. E não só na redacção da TVI, que não destoaria nas redacções das demais televisões. É tanta a mentira, incompetência, manipulação, falta de rigor, incerteza dos «factos» relatados e ignorância que chega a suspeitar-se que houve exagero. Só que não houve exagero. Em boa verdade, a constatação do crítico do "Público" nem sequer foi uma surpresa, embora o retrato dê que pensar. Sobretudo porque, em maior ou menor grau, aquilo que ele denuncia é o que se pratica um pouco por todo o lado, inclusive na imprensa de referência. E não só em Portugal, como se imagina. A ligeireza e a falta de rigor com que se tratam as notícias hoje em dia são um mal geral. Porque a informação se tornou um grande negócio e está nas mãos de grandes empresas, tantas vezes estranhas ao mundo da média e que não têm quaisquer problemas em aniquilar o que custou anos de dedicação e esforços. Além de não hesitarem em usar a média, às vezes de forma obscena, para fins estranhos à sua natureza. Não será por acaso que três quartos dos ingleses não acreditam na imprensa escrita do seu país, segundo a revista "Spectator". Não será por acaso que 60 por cento dos franceses acha que os jornalistas não são independentes, segundo um relatório do Banco Mundial. Não será por acaso que a circulação da imprensa nos Estados Unidos na última década tem vindo a cair à razão de quase um por cento ao ano. Pois é. Estas coisas pagam-se. Pior: a credibilidade e o prestígio, uma vez perdidos, raramente se recuperam.

5 de setembro de 2003

Pedro Mexia resolveu explicar porque é que acha que não deve fazer um "link" para o Muito Mentiroso. A explicação não me convence, mas respeito o ponto de vista. Acontece que eu resolvi divulgar o famoso "link" por uma razão simples: a não divulgação acaba por ser a melhor divulgação. Não foi para chamar hipócrita a ninguém (eu falei de pudor, não de hipocrisia), muito menos ao Pedro Mexia, por quem tenho admiração e estima.
Sejamos claros: independentemente do que a Justiça decidir, Carlos Cruz, Hugo Marçal, Ferreira Diniz, Jorge Ritto, Manuel Abrantes e Paulo Pedroso são culpados. Estou a falar aos olhos da chamada opinião pública, e não será a decisão da Justiça que mudará esse veredicto. Se a Justiça vier a demonstrar que se enganou em relação a "A" ou a "B", não deixará o gesto de ser lido como uma cedência a "A" ou a "B". Pois é. Contrariamente ao que deveria ser, os suspeitos são culpados até prova em contrário. O povo é assim. E, como dizia o outro, não se pode mudar de povo. Embora se pudesse mudar o que pôs o povo a pensar assim.
Miguel Sousa Tavares não se cansa de sacudir o rótulo de anti-americano. Desta vez foi no "Público", e mereceu uma crónica que acabei de colocar na minha página pessoal.

4 de setembro de 2003

Não consigo perceber porquê tanto pudor em divulgar o endereço do blogue de que toda a gente fala (mal). Será que não percebem que a não divulgação acaba por ser a melhor divulgação? Eu, por exemplo, fui logo à procura mal soube. Caso não houvesse tanto pudor em revelar o endereço, duvido que lá tivesse ido. Escusam de andar para aí a esgaravatar os que não sabem e querem saber. O endereço é este. Quanto ao conteúdo, que cada um ajuíze por si.
Não desfazendo, a discussão sobre Bukowski, que corre por aí em alguns blogues, é bem mais interessante que a discussão sobre Joni Mitchell, que corre por aí noutros. Já agora, quem já leu Pedro Juan Gutiérrez? Gostava de saber a opinião dos «bukowskianos» (e não só) sobre Gutiérrez.
O eurodeputado Pacheco Pereira voltou à questão do Iraque. Para lembrar que «se hoje houvesse uma guerra civil no Iraque, ela seria curta, violentíssima, e terminaria pela retomada do poder pelo partido Baas e pelos seguidores de Saddam Hussein, seguida por mais um banho de sangue sobre os xiitas.» Parece evidente, não é? De modo que eu desconfio que os que insistem em pedir a saída imediata das tropas americanas do Iraque pretendem, no fundo, isso mesmo: o regresso do outro senhor.
Não sei quem fala verdade ou mentira. O que eu sei é que, entre as mil e tal almas que a Direcção-Geral da Saúde diz terem sucumbido devido ao calor e apenas quatro apontadas pelo Ministro da Saúde, faleceu muita gente.

3 de setembro de 2003

Como seria de esperar, Fernando Rosas não consegue esconder o gozo que lhe dá saber que está a decorrer uma «intifada» no Iraque. Ou «uma onda quase unânime de protesto e resistência nacional», como ele também lhe chama, claro está que protagonizada pelo «povo» e movido por «sentimentos de patriotismo». O senhor Rosas, que nunca abriu a boca para condenar os massacres que Saddam e seus acólitos fizeram durante o tempo todo que estiveram no poder, aparece agora a dizer-se preocupado com o «povo» iraquiano, como se o povo iraquiano alguma vez lhe tivesse interessado.
Se bem entendi, os CTT pretendem descentralizar alguns serviços nas juntas de freguesia. De modo que a reacção do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações, ao dizer que as grandes prejudicados com esta mudança «são as populações», é o mais rematado disparate.

2 de setembro de 2003

Os advogados de seis dos sete arguidos no processo Casa Pia não se cansam de dizer, ao pedirem o afastamento do juiz, que não está em causa a «boa fé», a «competência» e a «honorabilidade» de Rui Teixeira. Mas, depois, acusam-no de «parcialidade», de «estabelecer prazos inferiores ao mínimo legal», de «antecipação injustificada do reexame da prisão preventiva», de «mudança injustificada de orientação», de ter «dois pesos e duas medidas». Ora, a serem verdadeiras estas acusações, Rui Teixeira ou está de má fé, ou é incompetente, ou não é um homem honrado. Ou tudo isso junto. O que significa precisamente o contrário do que os advogados andam para aí a pregar.
A crónica de Medeiros Ferreira, no "Diário de Notícias" de hoje, é sobre blogues. Não percebi se falou bem ou mal, mas pareceu-me que falou mal. Não, não me apetece nada voltar a ler e tirar isso a limpo. Além disso, cansei-me de teorias sobre blogues. Ainda em matéria de crónicas, subscrevo, na íntegra, o que diz João Miguel Tavares, também no "Diário de Notícias" de hoje. E a crónica de Eduardo Cintra Torres, no "Público" de segunda-feira, que devia ser emoldurada e afixada na redacção da TVI. Mas não ficava nada mal em muitas outras redacções, não senhor.

1 de setembro de 2003

Como vem sendo hábito, a viagem a Portugal correu mal. Na ida, o «check-in» demorou uma eternidade. A catraia que me calhou estava a «estagiar», de modo que eu tive que fazer de cobaia. Depois, o alarme do aeroporto resolveu disparar sem razão aparente, e lá tive eu que gramar um barulho infernal durante largos minutos. No avião, uma criança num berreiro desalmado inviabilizou por completo os planos que eu tinha para ler uns textos e deixou-me à beira de um ataque de nervos. O regresso não foi melhor. Após quarenta minutos de voo, o comandante anuncia que há um «problema técnico» e que vamos regressar a Lisboa. Uma vez lá e fora do avião, somos informados de que o nosso destino será conhecido dali a duas horas. Esperámos. Dali a duas horas, novidades... só dali a duas horas. E, depois, mais duas e mais duas. Embarcámos oito horas depois, mais mortos que vivos e a maldizer tudo o que mexia.
Três Pedro Juan Gutiérrez ("Animal Tropical", "Trilogia Suja de Havana" e "O Rei de Havana"), um Graham Greene ("O Nó do Problema"), um Lobo Antunes ("Algumas Crónicas") e um Vasco Pulido Valente ("Retratos e Auto-Retratos"). Eis o saldo de três semanas de férias, em que praticamente não li jornais, não ouvi rádio, não vi televisão. A descoberta dos "Retratos" foi uma bela surpresa, apesar de já conhecer alguns textos. Tirando as leituras, as férias tiveram um pouco de tudo: comida boa, bebida em excesso, muito descanso. O pior é recomeçar tudo de novo, pois o corpo habituou-se à moleza e a mente demora a regressar ao «normal».

7 de agosto de 2003

Vou estar de férias nas próximas três semanas, a começar hoje. De maneira que a actualização do blogue durante esse período só será feita a título excepcional — ou caso eu não tenha mais que fazer. Espero aproveitar as ditas para pôr leituras em dia, apanhar sol e dormir. Até um dia destes.
Escrevi, numa crónica publicada ontem na minha página pessoal, que o negócio dos incêndios merecia uma profunda investigação. Soube, hoje, que a Polícia Judiciária vai iniciar uma investigação como «nunca foi feita». Mais: o director da PJ garantiu que a investigação já começou em Junho. Uma boa notícia, portanto.

6 de agosto de 2003

Sempre que alguém me pergunta se eu já li o livro "A" ou o escritor "B", apetece-me responder com uma lista de livros e autores que ainda não li. E eu ainda não li, por exemplo, "Madame Bovary", de Flaubert, "Em Busca do Tempo Perdido", de Proust, "O Homem Sem Qualidades", de Musil, "O Nó do Problema", de Greene, ou "Ulisses", de Joyce. Isto só para falar das obras-primas que toda a gente se gaba de ter lido, e que eu tenho em lista de espera. E estão em lista de espera por uma razão muito simples: estou a reler. De maneira que, de cada vez que vou à tal lista de espera, leio um parágrafo ou dois de cada um desses livros e invariavelmente acabo no Eça.

5 de agosto de 2003

O "Público" entendeu pedir desculpa aos leitores por ter publicado dois textos de opinião de um "professor e investigador", em que este colocou o Holocausto entre aspas e em caixa baixa. Devo dizer que me lembro perfeitamente do episódio e de o ter achado chocante. Mas daí até o "Público" vir assumir, quase meio ano depois, que a publicação dos textos em causa foi um erro, parece-me um manifesto exagero. Porque, a seguir esta lógica, o "Público" também devia assumir que foi um erro a publicação de algumas crónicas de Vital Moreira e Fernando Rosas, por exemplo, em que estes se fartaram de dizer inverdades sobre a guerra do Iraque.

4 de agosto de 2003

O dr. Mário Soares acha que o ministro da Defesa é um «tumor» que está a «contaminar» o Governo. E que deve, por isso, ser «extirpado». Isto por causa dos desentendimentos do dr. Portas com os militares, garante o ex-presidente da República. Só que toda a gente tem ainda presente o recente episódio que envolveu o ministro da Defesa e a dra. Maria Barroso, em que o primeiro não terá agido correctamente sobre a segunda. Assim sendo, bem pode o dr. Soares invocar outros pretextos para justificar o que diz que toda a gente sabe qual é a origem do mal. E a origem do mal aconselharia que o dr. Soares fosse o último a falar.
O "Expresso" diz que Maria Elisa se sente vítima de «perseguição política». Isto porque há quem pense que o expediente da deputada/jornalista para desenvolver um projecto na RTP – a suspensão do mandato de deputada por um período de 50 dias, alegando doença – é um embuste. Ainda esperei que, na crónica domingueira do "Diário de Notícias", Maria Elisa nos desse uma explicação. Mas não. Optou por assobiar para o lado e fazer de conta que nada se passou. Assim sendo, daqui a uma semana já ninguém se lembra de tão edificante episódio.

1 de agosto de 2003

Só agora li a última crónica de Luis Fernando Verissimo, no Estado de S. Paulo. Tal como tantas outras, também esta é absolutamente imperdível.
A propósito de coisa nenhuma, aqui vai um poema de Alexandre O'Neill:

Anda, meu Silva, estuda-m'aleção,
vêsse-te instruz, rapaj, qu'ainstrução
é dosprito upão!
Ou querch ficar pra sempre inguenorantão?

Poin os olhos no Silva, teu irmão.
Pensas talvês que não le custou, não?
Mas com'é qu'êl foi pdir aumentação
au patrão?

E tinh' rrazão...

31 de julho de 2003

Parece que a deputada/jornalista Maria Elisa está a convalescer... na RTP. Sim, o "Público" diz que ela pediu suspensão do mandato como deputada por um prazo de 50 dias, alegando motivos de saúde. Depois de ter tentado, logo que foi eleita deputada, acumular a profissão de jornalista com a de parlamentar, bem como os respectivos honorários, Maria Elisa lá arranjou um expediente para levar a dela avante. Curiosamente na mesma altura em que o governo anuncia um projecto que diz permitir combater as baixas fraudulentas. Até melhor explicação, mais um caso de esperteza saloia.