14 de fevereiro de 2005

«(...) as mais recentes posições do episcopado português e as palavras do padre Lereno» são «insuportáveis quando transportadas para um espaço profano, um espaço público, para uma sociedade que, constitucionalmente, não é confessional», escreveu o director-adjunto de A Capital. Como aqui alertei há uma semana, não será isto uma tentativa de calar a Igreja Católica? Não será isto uma atitude anti-democrática?
Concordo em absoluto com a acusação de «oportunismo político» que o antigo bispo de Setúbal fez aos partidos que interromperem a campanha eleitoral por causa da morte da Irmã Lúcia, mesmo reconhecendo que é uma acusação que roçou a demagogia. Mas já não me merece tanto entusiasmo as críticas de alguns políticos, à esquerda e à direita.

11 de fevereiro de 2005

Como toda a gente sabe, o desprezo de Cavaco Silva pelo PSD não é de hoje. Isto é, não se deve ao facto de o PSD ser liderado por Santana Lopes. O problema de Cavaco Silva com o PSD é antigo e tem outros motivos, como o próprio por mais de uma vez demonstrou. Dizer que o problema do ex-primeiro-ministro é Santana Lopes, não custa nada e pode ser eleitoralmente eficaz — mas não é sério. Aliás, eu cada vez tenho mais dúvidas que o PSD, mesmo depois de correr com Santana Lopes (se é que o vai conseguir a curto prazo), apoie uma candidatura presidencial de Cavaco. As sucessivas descolagens do partido de que foi presidente são bem capazes de ter consequências desagradáveis para o ex-presidente dos social-democratas. Como, aliás, esta notícia deixa antever.
O Luís Osório acha que «não existem jornalistas livres e sérios».
Parece que a Polícia Judiciária tem obrigação de se preocupar com a «gestão política» das investigações que faz.

10 de fevereiro de 2005

Não há dia que passe sem que um barão do PSD apareça a criticar o partido de que faz parte — ou a direcção do partido de que faz parte. Hoje foi a vez de António Borges, que se diz desiludido com o rumo da campanha. Mas os piores são os que aparecem uma vez por acaso a apelar ao voto nos social-democratas quando é público que desejam uma derrota do PSD. Uma derrota, de preferência, por muitos.

9 de fevereiro de 2005

O Bloco de Esquerda está muito incomodado com a tomada de posição da Igreja Católica face às eleições do dia 20. Vai daí, resolveu pedir à Igreja Católica que se cale. Ora, será que isto não configura uma tentativa de calar vozes incómodas? Porque haveria a Igreja Católica de não poder pronunciar-se sobre o que muito bem entender? E porque é que os bloquistas não se coíbem de aplaudir a Igreja Católica sempre que ela defende o que lhes interessa e a tentam calar sempre que é contra? Não será isto uma atitude anti-democrática?
A explicação do Público sobre a alegada aposta de Cavaco Silva numa maioria absoluta do PS é mais que esfarrapada.

8 de fevereiro de 2005

Como estarão recordados, à invasão do Iraque seguiu-se as eleições no Afeganistão, na Palestina, no Iraque e, agora, na Arábia Saudita, embora estas um pouco originais. Todas elas eleições históricas, e todas elas a excederem largamente as expectativas. Hoje, Ariel Sharon e Mahmud Abbas anunciaram um cessar-fogo, coisa que o primeiro-ministro israelita não conseguiu com esse grande paladino da liberdade que foi Yasser Arafat. Como julgo ser evidente, trata-se de uma sucessão de acontecimentos que representam importantes vitórias para os povos afegão, palestiniano, iraquiano, saudita e israelita. Mas como algumas dessas vitórias representam, também, vitórias dos Estados Unidos, há quem não se conforme. E não se conforma porque o que importa é que as coisas corram mal aos Estados Unidos, tenha lá isso os custos que tiver. Que os povos sofram as consequências caso as coisas corram mal aos americanos, é um mero detalhe. Um mero detalhe que nunca os interessou e jamais os interessará. Tão claro que só não vê quem não quer.
Palpita-me que o Público de amanhã vai revelar mais detalhes acerca da alegada aposta de Cavaco Silva numa maioria absoluta do PS nas eleições do dia 20, até porque a fundamentação da notícia do dia foi fracota.

4 de fevereiro de 2005

O Francisco José Viegas resolveu chamar a atenção para o seguinte: «O parágrafo primeiro do ponto sexto do regulamento do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, publicado no Jornal de Letras, menciona a consignação de mensões honrosas». Ora, meu caro Francisco, então você não vê que é de uma gralha que se trata? Não vê que eles queriam dizer «mansões honrosas»?

3 de fevereiro de 2005

Pedro Santana Lopes esteve melhor do que eu esperava, José Sócrates pior do que eu esperava. Digo isto sem emoção ou interesse, pois não tenciono votar em nenhum deles. Sócrates raras vezes demonstrou à-vontade, enquanto Santana esteve como peixe na água. Santana demonstrou trabalho de casa, Sócrates raramente transmitiu convicção no que disse. Falo da forma como ambos «passaram» na televisão, mais importante que o conteúdo num debate do género. É claro que, amanhã, os jornais vão dizer o contrário, pois a clubite fala mais alto. Como é um bom exemplo o caso de Luís Osório, que eu vi na RTP jurar a pés juntos que Sócrates dominou claramente a primeira parte do debate.
Não me importava mesmo nada que me pagassem para escrever pulhices destas.

2 de fevereiro de 2005

Quem viu a entrevista de Judite de Sousa a José Sócrates e, depois, a Paulo Portas, ficou com a sensação de que não foram feitas pela mesma pessoa. Compreende-se que os jornalistas de política tenham simpatias — e não só os jornalistas de política. Mas será assim tão difícil usar apenas critérios jornalísticos quando se faz uma entrevista? Será assim tão difícil fazer uma entrevista com um mínimo de isenção e distanciamento? Será demais pedir que se adopte um critério uniforme para todos os líderes políticos? Será exagero esperar que o entrevistador se comporte como um profissional? As entrevistas a José Sócrates e a Paulo Portas chegaram a parecer um frete, no primeiro caso, e um linchamento, no segundo.
No tempo de Saddam Hussein, que ganhava eleições com 100 por cento dos votos, nada disso acontecia.

1 de fevereiro de 2005

Olha, esteve cavalheiro acha que as eleições no Iraque se realizaram devido à pressão dos «pacifistas» (as aspas são dele).

31 de janeiro de 2005

Apesar de uma onda de violência ter matado algumas dezenas de pessoas, todas as fontes indicam que as eleições no Iraque correram bem. Mais: correram melhor do que as previsões mais optimistas. Perante isso, este cavalheiro não se conforma.
Olha, o primeiro-ministro espanhol respondeu a uma carta de Maria Barroso e a senhora resolveu vir para os jornais fazer alarde disso.

28 de janeiro de 2005

Invocando a qualidade de «cidadão independente», Freitas do Amaral publicou um artigo na Visão onde defendeu a maioria absoluta para os socialistas. Como seria de esperar, o caso deu azo a reacções várias, nomeadamente da direita, e quase todas para o criticar. Tirando o PS, não me lembro de ver uma só criatura aplaudir a decisão do professor. Nem à direita, nem à esquerda. Surpresa também não foi para ninguém, pois quem compara George W. Bush a Hitler e Paulo Portas a Estaline já não surpreende. Temos, assim, que foi um acontecimento trivial? Evidentemente que não foi. Em primeiro lugar, porque Freitas do Amaral foi o fundador do partido mais à direita em Portugal. Depois, porque não abundam os casos de mudança da direita para a esquerda.

26 de janeiro de 2005

Francisco Louçã admitiu que o argumento por ele usado no debate com Paulo Portas «não foi claro», e que não o voltaria a usar caso o confronto se repetisse. Acontece que isto não convence ninguém. Se há uma coisa de que não se pode acusar Louçã é de não ter sido claro, pois o que ele disse toda a gente entendeu. A não ser que ele ache que deveria ter levado mais longe a investida moralista, o que não me espantaria.
Mais um post politicamente incorrecto do Alexandre Soares Silva e mais um post magnífico do Filipe Nunes.
Descobri, absolutamente por acaso, uma pérola.

25 de janeiro de 2005

Segundo o Público, Matilde Sousa Franco quer ser provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A viúva do ex-ministro das Finanças terá mesmo aceitado ser cabeça de lista pelo PS em Coimbra com essa condição. Temos, assim, que a senhora não está interessada em ser deputada — apesar de se apresentar ao eleitorado como se estivesse. Se esta estória tivesse moral, a moral só podia ser esta: a senhora ainda agora chegou à política e já se meteu num esquema pouco edificante. Pouco edificante mas muitíssimo esclarecedor.
Quando seria de esperar que explicasse o episódio com Paulo Portas ou fizesse mea culpa (ou as duas coisas), Francisco Louçã limitou-se a fazer de conta que nada se passou. Um artista, o cavalheiro.

24 de janeiro de 2005

Se bem entendi, os presidentes do Sporting e do Benfica querem que seja o Governo a nomear os árbitros para os jogos de futebol. Em nome da «verdade desportiva», asseguram, e porque os clubes jamais se entenderão quando o assunto é arbitragem. Os donos da bola querem que o governo crie um organismo para o efeito — uma espécie de Conselho Superior da Magistratura ou Ministério Público para o futebol. Assim sendo, e fazendo a vontade aos cavalheiros, teríamos um organismo para decidir quem apitaria o Benfica-Sporting ou o Serapicos-Vila Pouca. Infelizmente não entraram em detalhes quanto ao funcionamento do dito organismo, nomeadamente como se arranjaria um responsável para o dirigir que fosse sério e sem simpatias clubísticas. Foi pena, pois o assunto prestava-se a umas gargalhadas. Até já estou a ouvir a turba a exigir a demissão do Governo por causa do desempenho do árbitro. Havia de ser lindo.

21 de janeiro de 2005

Dois séculos após o Presidente Sampaio dissolver a Assembleia da República, Mota Amaral veio dizer que, na sua «opinião pessoal», as razões apresentadas pelo Presidente da República para a dissolução do Parlamento são mais que discutíveis. Razão tem o dr. Alberto João ao dizer que não tenciona levantar «o rabo da caminha para fazer campanha» caso Mota Amaral seja candidato à Presidência da República.
Miguel Sousa Tavares gastou 1.389 caracteres para dizer o que podia ter dito desta maneira (e em 21 caracteres) caso tivesse coragem: os americanos são burros. Luís Osório gastou 2.402 caracteres para dizer o que podia ter dito desta maneira (e em 21 caracteres) caso tivesse coragem: os americanos são burros. Mesmo assim, e embora a tese não seja original, o exercício não deixou de ser divertido.
Não há eleições em que não se acuse quem está no poder de o usar para fins eleitorais — e, provavelmente, não há quem esteja no poder que não o use para fins eleitorais. Mas se de um lado se usa o poder para fins eleitorais, do outro exagera-se nas acusações. Assim sendo, governo e oposição saem invariavelmente mal desta estória. Por uma razão: ambos exageram, e ambos mentem.

19 de janeiro de 2005

Não sei se Nuno Cardoso é culpado do que é suspeito. O que eu sei é que o cavalheiro deu um espectáculo lamentável na conferência de imprensa que convocou para explicar a chamada à Judiciária. Lamentável e nada convincente quanto a argumentos em defesa do que jura estar inocente.

18 de janeiro de 2005

Sim, eu sei que há taxistas honestos, decentes, respeitadores. Mas porque será que nunca me calhou nenhum a mim?

17 de janeiro de 2005

Não exagero se disser que a única coisa que me interessa na revista Veja é a crónica de Diogo Mainardi. Como o acesso à edição na Internet não é gratuito, uma das formas de ler a revista online é através de uma senha impressa na versão em papel. Mas como a versão em papel é distribuída dentro de um saco plástico — pelo menos a versão em papel a que eu tenho acesso —, a única forma de saber qual é a senha é comprando mesmo a revista. Dir-me-ão que uma vez adquirida em papel não é necessária a versão online, mas não é bem assim. Embora só por uns dias, a senha dá para ler a última edição e as edições anteriores. Como sou contra edições pagas na Internet, confesso que me apetecia divulgar a senha da última Veja. Mas fico-me pelo apetite.

14 de janeiro de 2005

Céu nublado, chuva, algum vento, frio. Um texto sereno de João Bénard da Costa, uma crónica mais que oportuna de Vasco Pulido Valente, toda a música de Jacob Heringman. À noite, um cálice de Porto autêntico e alguns contos de Cardoso Pires antes de adormecer. Há dias quase perfeitos.
A dra. Maria Belo acha que Portugal deve «abrandar o investimento em território português» e «procurar investimentos» em Angola e Cabo Verde. Palavra de honra que há muito tempo que não me ria tanto.

12 de janeiro de 2005

Escassos dias após ter defendido que é preciso eliminar o «inimigo sionista», Mahmud Abbas garantiu que os palestinianos estão prontos a estender a mão aos vizinhos. Ignoro se isto é para valer ou só para inglês ver (Arafat era perito nesta manobras), mas o gesto merece aplauso. Afinal, isto marca uma ruptura com a direcção anterior, além de demonstrar que a estratégia do ex-presidente da Autoridade Palestiniana estava errada.
Será que os spots publicitários que a RTP exibe a toda a hora — pelo menos a RTP Internacional — a dizerem que a televisão do Estado foi a primeira a chegar ao local da tragédia asiática e não sei mais o quê não são uma exploração da miséria humana?

11 de janeiro de 2005

Consta que mais de uma centena de empresários em busca de «oportunidades de negócio» viajou com a comitiva do Presidente da República na sua deslocação à China. Ora, perante isto, eu tenho uma perguntinha: tendo em conta que só meia dúzia de empresários paga impostos — 10 por cento, ao que dizem —, em que é que o País vai beneficiar com a deslocação destes cavalheiros?

10 de janeiro de 2005

«Três cavalheiros, Santana, Sócrates e Portas, nomearam pessoalmente cerca de 80 deputados. Visto de outro modo, mais ou menos 5.000 pessoas dos cinco partidos, reunidas em comissões locais ou nacionais, nomearam 190 deputados, ou seja, a quase totalidade do Parlamento que entra em funções dentro de seis semanas. Falta agora os restantes oito milhões de eleitores designarem os quarenta deputados que ainda se não conhecem.» Isto é um excerto da crónica de António Barreto no Público do último domingo, que prossegue: «Ao eleitorado, os candidatos nada têm a provar. Nem competências a exibir. Nem confiança política a demonstrar. Muito menos responsabilidade pessoal. Nada! Pelo contrário, é nos circuitos estreitos dos partidos que têm de exibir talentos. Agradar aos chefes. Saber sempre qual é a linha justa, isto é, reconhecer quem manda. Negociar com os autarcas. Conquistar os funcionários. Arranjar dinheiro para o partido. Lubrificar o aparelho. E não fazer ondas.» Também Vasco Pulido Valente abordou a questão no Público de sábado, lembrando que «os chefes» nomeiam pessoalmente metade da Assembleia da República. Nada disto é novo, como todos sabemos, mas a questão levantada por António Barreto e Vasco Pulido Valente continua a não ter a atenção que merece. Não que eu esteja convencido de que os círculos uninominais (que defende António Barreto) ou uma mudança de regime (como preconiza Vasco Pulido Valente) sejam a melhor solução, mas porque me parece evidente que isto não pode continuar assim.

7 de janeiro de 2005

Três dias após a recusa do dr. Cavaco em dar a cara num cartaz eleitoral do PSD, as reacções dos social-democratas começam a ser mais serenas e fundamentadas. Depois da gritaria inicial — um abuso colocar Cavaco ao lado de Santana, Santana não devia aproveitar-se da imagem dos ex-presidentes do PSD, etc., etc. — surgem, agora, vozes críticas em relação à decisão tomada pelo ex-presidente do PSD. De facto, tirando a «espuma» do momento, não se percebe a decisão, tanto mais que o dr. Cavaco quer ser Presidente da República e não ignora que dificilmente o será sem os votos do PSD. Pior só a desculpa que deu para recusar aparecer no cartaz, pois quem acredita que isso o prejudicaria academicamente? Razão tem o dr. Alberto João ao dizer que está «farto das histórias» do dr. Cavaco, e que veria com bons olhos que o ex-primeiro-ministro abandonasse o partido.

6 de janeiro de 2005

Parece que Paulo Pedroso passou de «presumível inocente» a «presumível culpado». Pelo menos é a ideia que fica quando se vê o destino que lhe foi dado — um lugar não elegível não sei em que lista, com o compromisso de não assumir o lugar de deputado enquanto decorrer o processo judicial que envolve o seu nome. Assim sendo, é caso para dizer: longe vão os tempos em que o ex-deputado foi para a cadeia como se fosse um herói e regressou da cadeia como se fosse um mártir.
«Os inimigos a abater não são [para os terroristas islâmicos] os agentes, os responsáveis por uma política, ou uma religião, não é uma Igreja, nem um Estado, não são militares, nem polícias, mas todos, os civis, os "outros" — nós», diz Pacheco Pereira no Público de hoje. Perante isto, apetece-me perguntar: por que será que é tão difícil perceber esta evidência?

4 de janeiro de 2005

Tirando a hora fatal, passei o fim do ano a ler Graciliano Ramos. Depois de Caetés, que li há uns anos mas já não tenho qualquer ideia (a não ser que gostei), foi, agora, a vez de Angústia, e já coloquei Vidas Secas, Memórias do Cárcere e São Bernardo na lista de prioridades absolutas.
Jornalistas americanos aplaudiram um discurso de Norman Mailer. O relato da pouca-vergonha está aqui.

3 de janeiro de 2005

Se o maremoto tivesse sido há mais tempo, provavelmente o governo de Santana Lopes ainda estaria em plenas funções. É esta a ideia que fica quando vemos, ouvimos e lemos os noticiários, onde o assunto governo desapareceu literalmente de cena.
«Para aqueles que cultivam a ideia que tudo o que vem dos EUA é bom por natureza ou definição», esta senhora lembra que há, também, aqueles que cultivam a ideia que tudo o que vem dos EUA é mau por natureza ou definição.

30 de dezembro de 2004

Tirando o essencial, nada mais sei acerca do maremoto asiático. E não sei por uma razão muito simples: quanto mais pormenores conheço acerca do sucedido, mais miserável me sinto. Pior: sinto uma revolta tremenda sempre que olho para aquilo. Eu sei que é fácil e barato dizer que é em alturas destas que a gente duvida da existência de deus, mas assim seria caso eu não fosse ateu. Porque a questão que a tragédia asiática levanta é mesmo esta: se deus existe, como explicar uma coisa destas?

28 de dezembro de 2004

Alguém me convenceu a ler Pedro Rosa Mendes. Como não tenho acesso às livrarias portuguesas (quero dizer acesso físico), comprei sem folhear Baía dos Tigres. Eis o primeiro parágrafo:

«Em cada milímetro deste chão está o último instante da minha vida. Posso contemplá-lo a perder de vista. É o motivo por que me transportam sempre de noite. Preservam-me. Não me incomoda. Agora mesmo é de noite e há bastante disso. É de noite sempre que não me encontro quieto. Deixei de estar com o medo porque ele me desertou. Transformou-se num território exterior. Enorme falta de solidariedade: não tenho onde de agarrar, o que pode ser fatal. O chão, a estrada, a savana, o país: o medo é um mapa e a obrigação dele. Não sei quantos dias tem de largura. Estamos a atravessá-lo e é de noite. Atravessar a noite é tudo o que tenho.»

Isto teve direito a dois prémios — ao Prémio de Ficção do P.E.N. Clube e ao Prémio de Literatura Fernão Mendes Pinto. Nada a objectar quanto a prémios. Mas, meus amigos, se isto é bom, eu odeio a literatura.

27 de dezembro de 2004

«Tomaram pela Avenida das Palmeiras, atravessaram a Praça de Armas e desceram para o Bairro da Marinha. À esquerda, um café pintado de verde abrigava-se sob um toldo oblíquo, de grossa lona amarela. Ao entrar, Cottard e Rambert limparam a testa. Sentaram-se em cadeiras de jardim, diante de mesas de chapa verde. A sala estava absolutamente deserta. Moscas zumbiam no ar. Numa gaiola amarela pousada no balcão, um papagaio, com todas as penas acamadas, estava abatido no poleiro. Velhos quadros representando cenas militares pendiam das paredes, cobertos de porcaria e de teias de aranha em espessos filamentos. Em todas as mesas de chapa e diante do próprio Rambert secavam excrementos de galinha, cuja origem ele compreendia mal, até que de um canto obscuro, depois de um certo rebuliço, saiu, saltitando, um galo magnífico.» Albert Camus, A Peste.

24 de dezembro de 2004

Em entrevista a O Independente, Clara Ferreira Alves disse que está horrorizada com a forma como está a decorrer o processo Casa Pia. E deu dois exemplos: o horror das prisões preventivas, e o horror da «plebe a fazer o linchamento de um arguido em praça pública». Sobre o horror das vítimas, nem uma palavra.

23 de dezembro de 2004

E agora, para descongestionar, um assunto actualíssimo.
O Governo decidiu publicar o texto do Orçamento nos jornais e caiu o Carmo e a Trindade. Segundo o Governo, a ideia foi «esclarecer os portugueses». Segundo a Oposição, é pura propaganda. Ora, se me dão licença, eu acho que ambos estão errados. Afinal, quem tem pachorra para ler o Orçamento?
Depois de ler este post, fiquei com a sensação de que o «recado» me é dirigido. Assim sendo, e tendo em conta que o meu post pode ter dado azo a uma interpretação que não estava no meu horizonte, passo a explicar: quando apelei a uma vaga de fundo, quis fazer um apelo aos leitores do MacGuffin no sentido de o fazer mudar de ideias. Apenas isso.

22 de dezembro de 2004

O famoso «sistema», contra o qual o presidente do Sporting não se tem cansado de falar, produziu mais uma pérola. Graças a um expediente aparentemente legal, que implica o pagamento de uma multa e das despesas de deslocação do adversário (o Pampilhosa) a Lisboa (autocarros e não sei que mais), um jogador castigado dos «leões» (Liedson) vai deixar de o estar quando o clube de Alvalade defrontar o Benfica. Como os dados indicam, o expediente levanta, ainda, outra questão: como é possível que os regulamentos permitam que um clube pague as despesas do adversário numa competição oficial? Será que isto não configura uma tentativa de «comprar» o adversário?
Bem sei que a quadra não se presta para estas coisas, mas não deixo de recomendar a leitura disto. Vai um bocado atrasada a chamada de atenção, mas a actualidade mantém-se. Pior: tudo indica que vai manter-se nos próximos tempos.

20 de dezembro de 2004

Quem acredita em teorias de conspiração, não precisava que a enésima comissão de inquérito ao caso Camarate viesse «demonstrar» que houve atentado. Quem não acredita em teorias de conspiração, permanece exactamente na mesma. Isto é: continua a não saber o que se passou, se foi acidente ou atentado. Esta é que é a grande verdade sobre Camarate.
Apesar de Dias Loureiro ter garantido que o Presidente da República não será o adversário do PSD nas próximas Legislativas, é por demais evidente que o dr. Sampaio vai ser atacado forte e feio. Aliás, não vejo porque razão não haveria de ser. Por mais respeitável que seja o cargo que exerce — e seguramente que é —, Jorge Sampaio não está acima de críticas, e a decisão de dissolver a Assembleia da República presta-se a críticas. É mais que legítimo que o partido de Santana Lopes use a dissolução da Assembleia da República e a falta de argumentos do Presidente da República para se fazer de vítima. Assim sendo, o dr. Sampaio vai apanhar por tabela. Bem pode Dias Loureiro vir jurar a pés juntos que o partido a que pertence não atacará o Presidente da República que isso não vai acontecer. Os partidos da coligação até há pouco no poder vão ter que explicar ao eleitorado por que razão foram empurrados para a porta da rua, e isso não é possível explicar sem críticas ao Presidente da República. Quer queiram, quer não. A não ser que abdiquem de falar do passado, o que eu não acredito. É certo e seguro que PSD e PP vão querer demonstrar ao eleitorado que foram impedidos de governar quando achavam não haver razão para tal, como já o disseram várias vezes. Preparemo-nos, pois, para uma campanha eleitoral a doer. Por mim, antes isso que uma paz podre.

17 de dezembro de 2004

Meus senhores: costumo beber Moscatel de Favaios no final do jantar. (Sim, eu sei que o moscatel é um aperitivo.) Só que me esqueci de que já tinha acabado, pelo que me vi obrigado a beber um uísque mais que suspeito que para ali tinha. O resultado foi catastrófico: mal vejo o ecrã para escrever estas linhas. Mas não era bem isto o que eu queria dizer. O que eu queria dizer é que o Esmaltes e Jóias faz hoje dois anos.

16 de dezembro de 2004

Como qualquer pessoa que tenha acompanhado os desenvolvimentos do caso já percebeu, o desfecho do processo Casa Pia é imprevisível. Mas há uma coisa que também já se percebeu: o sr. Carlos Silvino ("Bibi") vai ser condenado. E porquê? Porque tudo indica que é culpado do que é acusado, e porque é um pobre coitado. Qual das duas razões contribuirá mais para a condenação? Provavelmente nunca se saberá. Mas fica a suspeita de que as coisas poderiam ter sido de outra maneira caso o sr. Carlos Silvino tivesse os meios que os outros têm para se defender.

15 de dezembro de 2004

Um discurso de duas horas e meia do presidente do Governo Regional da Madeira, que a oposição considerou próprio «para adormecer rinocerontes», despoletou uma peixeirada no Parlamento madeirense. Além dos rinocerontes, a coisa meteu acusações de enriquecimento suspeito a não sei quem identificado como «vendedor de sifões de retretes», que se defendeu chamando «gatuno» a quem o acusou. A coisa trouxe-me à memória uma passagem de As Farpas, que não resisto a transcrever:

O sr. presidente do Conselho falava. Houve um momento em que S. Exª, ou cometeu um erro de gramática, segundo o dizer de alguns jornais, ou arremessou desdenhosamente à circulação a eloquente palavra bomba, segundo a afirmação de outros. O facto é que a maioria entendeu que a melhor maneira de manifestar ao sr. presidente do Conselho que não tinha confiança na sua política, era apupá-lo! E a Pátria deve agradecer aos senhores deputados que eles não lhe tivessem dado bengaladas!

Então o sr. presidente, a título de esclarecimento, perguntou timidamente se se achava numa praça pública. Pergunta excessivamente ociosa. Numa praça nunca há nem aqueles gritos, nem aqueles tumultos — porque a polícia intervém e faz evacuar a praça. Impunemente, ao abrigo das instituições, sem ingerência policial — uma assuada só se pode dar na Câmara dos Deputados. Em mais nenhuma parte é permitido, pelos regulamentos da polícia, ser-se tão excessivamente trocista. O caso é que a maioria, para provar ao sr. presidente que se considerava ofendida com a designação de praça, rompeu num alarido tal como não é uso fazer-se na praça de touros — tudo para demonstrar bem claramente que não estava ali um grupo de moços de forcado, mas um corpo de legisladores. A palavra patife fez então pela primeira vez a sua entrada na Câmara e tomou assento. Foi também então que o sr. presidente do Conselho, em compensação, mandou o epíteto malcriados a cumprimentar e abraçar os eleitos do País.

A assuada, o motim, o chasco, o charivari, cresceram tão constitucionalmente que o Sr. Aires de Gouveia, eclesiástico, teve de enterrar na cabeça o seu chapéu alto. A este gesto, cheio de dedicação nacional, a tempestade evacuou a sala. Diz-se que alguns srs. deputados foram cumprimentados à saída pelos melhores frequentadores do sol na praça do Campo de Santana, que se achavam presentes. As galerias permaneceram impassíveis. Tal foi esta memorável sessão, em que a altura das ideias competiu com o vigor da eloquência!

Parece pois definitivo que o Parlamento decidiu adoptar o motim e a assuada como a forma parlamentar dos seus trabalhos. Vistes, amigos, a sessão de 29 de Junho.

Quereis assistir à de 29 de Julho? Aí tendes o seu fiel extracto:

O ORADOR (concluindo): — E foi assim, sr. presidente, que se passaram os factos.

O SR. LUCIANO DE CASTRO (interrompendo com grandes punhadas na mesa): — O ilustre deputado diz uma refinadíssima peta...

Vozes: — Apoiado, apoiado!

O ORADOR (voltando-se e desabotoando o colete): — Petas? oh! descarado! (apoiado, apoiado). Eu, sr. presidente, não posso consentir que esse biltre entre no meu foro interior!

Vozes: — Fora, fora!

O SR. COELHO DO AMARAL (espancando com dignidade o Sr. Barros e Cunha): — E assim provo, sr. presidente, que o Sr. Barros e Cunha não tem razão alguma nos princípios que estabeleceu.

O SR. MARIANO DE CARVALHO: — Mas a ditadura foi nefasta! E não há mariola nenhum que me demonstre o contrário... (acende o cigarro).

O SR. COELHO DO AMARAL (continuando o espancamento): — Não me interrompam o discurso! Não me interrompam!

O SR. PRESIDENTE (aos Srs. Mariano e Santos Silva): — Os senhores não têm direito a interromper sovas que o regimento garante (berreiro).

O SR. PRESIDENTE DO CONSELHO: — A Câmara está-se sepultando na mais profunda abjecção!

(O sr. presidente do Conselho sucumbe, sob uma chuva de bengaladas).

O SR. JOSÉ DIAS (batendo com a bengala sobre a mesa, a um contínuo): — Dois cafés! Um cabaz!

Vozes (atravessando o corpo legislativo). — Salta meia de Colares!

O SR. PINHEIRO CHAGAS (deitado, com ar melancólico):

«Oh virgem pálida e triste
Branca visão doutros Céus!»

O SR. AIRES DE GOUVEIA: — O que diz ele?

Vozes: — Ele cisma! Ele cisma!

A oposição atira cebolas ao Sr. Pinheiro Chagas. Alguns senhores deputados grunhem obscenidades, que o ruído impediu que chegassem à mesa dos taquígrafos.

O ORADOR: — A Câmara não quer escutar-me? Pois bem, eu passo a outros argumentos... (Distribui bengaladas).

Tumulto. O sr. presidente atira a campainha à cara da maioria, e o tinteiro aos queixos da oposição. Alguns senhores deputados miam de gato. O Sr. Santos e Silva, no auge da sua indignação, dá cambalhotas. O Sr. Luís de Campos espalha uma prodigiosa quantidade de pontapés.

O SR. PRESIDENTE: — Para amanhã continua esta interessante discussão.

A Câmara sai correndo, gritando, rebolando pelas escadas abaixo.

Os contínuos levantam as garrafas de Colares.

14 de dezembro de 2004

Este cavalheiro está tão obcecado com Pedro Santana Lopes que nem se dá conta que chega a condená-lo por situações hipotéticas.
Só agora tomei conhecimento das declarações de Domingos Abrantes ao Expresso. Mesmo sabendo-se que o PC está parado no tempo há décadas, não deixa de ser extraordinário que alguém ainda pense que na ex-URSS é que era bom. Tão bom que, segundo Abrantes, o seu fim «foi uma enorme tragédia». Impressionante, não há dúvida.

10 de dezembro de 2004

Após quase duas semanas de especulação, eis que chegou o dia em que o Presidente Sampaio explicou aos portugueses por que razão vai dissolver o Parlamento. E que argumentos usou o Presidente Sampaio para explicar a decisão que tomou? Em primeiro lugar, devido a uma «sucessão de episódios que ensombraram decisivamente a credibilidade do Governo e a capacidade de enfrentar a crise que o país vive», de que se absteve de concretizar por considerar que são do conhecimento de todos. Depois, porque o Governo tem uma «grave crise de credibilidade», esquecendo-se de especificar junto de quem e por que razões. Como seria de prever, o Presidente não fundamentou a decisão que tomou com um único dado concreto. Limitou-se a falar em abstracto de um conjunto de episódios, furtando-se à explicação dos factos que criaram tais episódios com o extraordinário argumento de que toda a gente os conhece. Pior: admitiu, e aqui com abundância de pormenores, que o Governo tem poderes políticos limitados, e que se encontra numa posição pior do que dantes. Assim sendo, há uma primeira conclusão a tirar das palavras do Presidente Sampaio: passamos de uma situação supostamente má para uma situação claramente pior.

9 de dezembro de 2004

Um sinal de «imaturidade» e um exemplo que só pode ser encontrado «numa lógica de caudilho» são os argumentos de Morais Sarmento para caracterizar a decisão do Presidente da República. Em entrevista ao Diário Económico, o ministro de Estado e da Presidência disse, ainda, não compreender a razão do Presidente da República para dissolver o Parlamento, pois é no Governo que reside o problema e não no Parlamento. Ora, se a «lógica de caudilho» é um manifesto exagero, já as razões do PR para dissolver o Parlamento não se entendem. Mas aguardemos até amanhã, pois pode ser que haja outra bomba atómica.
O e-mail (canto superior direito) já está a funcionar como deve ser. Podem, pois, continuar a mandar elogios, meter cunhas ou fazer propostas desonestas. Pedidos de dinheiro é que são pura perda de tempo.

8 de dezembro de 2004

Não aprecio as posições políticas de Mário Soares nos últimos anos. Mas foi com um enorme gozo que li a entrevista do ex-PR ao DN. Diria mais: a entrevista de Mário Soares a Anabela Mota Ribeiro foi a que mais gozo me deu ler nos últimos tempos, só comparável à de Adelino Gomes a Lobo Antunes.
O dr. Fernando Rosas diz que «o chefe de um governo com maioria parlamentar» (Pedro Santana Lopes) foi «despedido por declarada incompetência». No parágrafo seguinte diz o contrário: que o Governo permanece em funções «com capacidade executiva bastante para além da simples gestão». Um caso de dioptrias?
«(...) se, por hipótese, no juízo de Jorge Sampaio, estava em questão a competência do primeiro-ministro e do Governo, ou a sua confiança neles, não se percebe muito bem que tenha escolhido a solução que vai deixá-los precisamente na plenitude das suas funções.» Vasco Graça Moura, no DN de hoje, limitou-se a lembrar o óbvio — o óbvio que, estranhamente, poucos estão interessado em admitir e, muito menos, questionar.

7 de dezembro de 2004

Em vez de ser ele próprio a explicar ao País o que se passa, o Presidente da República insiste em mandar recados. Agora mandou dizer que, ao invés do Parlamento (que vai dissolver), o Governo está «nos seus plenos poderes constitucionais», pois não foi, nem vai ser, demitido. Ou seja, o Governo serve perfeitamente, o Parlamento é que não. Uma vez aqui chegados, presume-se que o Governo de Santana Lopes passou, agora, a ter a legitimidade que lhe faltava há quatro meses, pois ainda não vi quem pusesse em causa a legitimidade do Governo em funções desde que o PR anunciou que vai dissolver o Parlamento.

6 de dezembro de 2004

Após se ter distinguido por abrir a boca por tudo e por nada, o Presidente Sampaio resolveu fechá-la quando todos esperavam que a abrisse. De facto, não se compreende que o Presidente da República ainda não tenha feito uma comunicação ao País para explicar a decisão que tomou.
Meus amigos: as críticas literárias publicadas neste blogue são um verdadeiro serviço público. Por uma razão muito simples: em vez dos lugares comuns e da costumeira tralha sem sentido, as críticas assentam em factos, muitos factos.

3 de dezembro de 2004

O facto de o presidente da Assembleia da República não ter sido informado pelo Chefe de Estado da dissolução do Parlamento tornou-se irrelevante. Segundo Mota Amaral, tratou-se de um «esquecimento» puro e simples e não se fala mais nisso. Puro esquecimento? Por amor de deus. Que diria disto a malta do costume caso o «esquecimento» tivesse sido do primeiro-ministro?
Primeiro, o Tribunal da Boa Hora não servia. Agora, é o Tribunal de Monsanto que não tem instalações adequadas e reclama-se Santa Clara. Quando chegarem a Santa Clara outro santo qualquer há-de adiar tudo outra vez. Os arguidos no processo Casa Pia têm o direito a uma defesa condigna? Com certeza. Mas... e as vítimas? O que já foi feito para acautelar os direitos das vítimas?

1 de dezembro de 2004

As razões invocadas pelo Presidente da República para dissolver o Parlamento (ou a ausência delas, como queiram) não me convencem. Por mais que tente, a decisão de Jorge Sampaio soa-me a um emendar de mão precipitado. Mas não quero com isto dizer que lamento a queda do Governo de Santana Lopes, por quem nunca morri de amores. O que eu lamento é que ninguém esteja interessado em saber os reais motivos do Presidente, pois eu suspeito que eles assentam em muita parra e pouca uva. Até ver, o Presidente da República limitou-se a tomar uma decisão politicamente correcta, e só isso. Como tal, ninguém está interessado em fazer ondas. É pena.
Manuel Monteiro anunciou que o partido que dirige — o PND — vai reunir de «emergência» no próximo fim-de-semana para analisar a actual situação política. Segundo ele, Portugal prepara-se para viver «um dos momentos mais difíceis da democracia», pois não tem dúvida de que a próxima legislatura será dramática para o sistema político. Aguarde-mos, pois, o que vai sair desta reunião de emergência. Quem sabe se dela sairá a receita para salvar a Pátria e a democracia.

29 de novembro de 2004

«Torna-se cada vez mais necessário que a mobilidade dos repórteres seja circunscrita, organizada. Não sendo possível eles auto-regularem as suas movimentações quando em concorrência, quando em directo, sob uma pressão incrível dos acontecimentos e das emissões, cabe às autoridades reguladoras dos movimentos das pessoas no espaço público - os poderes e as polícias - estabelecerem regras e criarem barreiras. Não se trata de limites à liberdade de expressão, trata-se apenas de limites à anarquia.» Eduardo Cintra Torres, no Público de hoje.

26 de novembro de 2004

Independentemente do resultado final (se é que tudo não vai ficar em águas de bacalhau), a maioria dos portugueses não acredita que seja feita justiça no processo Casa Pia. É o que diz uma sondagem do DN, mas não era preciso.

24 de novembro de 2004

O Luís Osório não acredita que houve pressão do Governo no caso Rodrigues dos Santos, a quem acusa de tentativa de «tirar partido» da situação. Acontece que o jornal por ele dirigido publicou, com grande destaque, que o caso Rodrigues dos Santos configurou uma «tentativa de interferir no alinhamento dos telejornais» por parte do Governo, além de acusar o administrador Luís Marques de ser «um mero intermediário de Morais Sarmento». O que o terá feito mudar de opinião?
«(...) ninguém viu ainda ser reclamado o julgamento dos mandantes assassinos [dos actos terroristas contra Israel] por um tribunal internacional. Não é politicamente correcto. O politicamente correcto é passar uma esponja complacente sobre as atrocidades terroristas», diz Vasco Graça Moura no DN de hoje.

23 de novembro de 2004

Como os contornos deixavam adivinhar desde o início, o caso Rodrigues dos Santos é um problema entre ele e a administração da RTP. Não adianta, pois, insistir nas teses da pressão ou da avaliação. Infelizmente para alguns, os factos estão aí e falam por si. Resta aguardar a decisão da Alta Autoridade, pois nunca se sabe.
Não é a isto que se chama a lógica da batata?
Eu sei que isto já foi publicado há uns dias, mas só agora o descobri. Não há nada como exemplos do que se fala para se perceber do que se fala.
Pedro Mexia no seu melhor.

22 de novembro de 2004

Segundo a Lusa, o líder espiritual da Mesquita de Lisboa lamenta que esteja a ser cultivada uma «imagem péssima do Islão» em todo o mundo, pois coloca todos os muçulmanos sob suspeita permanente. «Ser muçulmano no Ocidente não é fácil. Desde o 11 de Setembro que todos os muçulmanos passaram a ser talibãs e bombistas e dá-se uma imagem péssima do Islão, que é uma religião pela paz», diz David Munir. E acrescenta: «os telefones das mesquitas em Portugal e na Europa estão sob escuta desde esse dia para saberem se existem ligações com a Al Qaeda». Ora, perante este cenário, porventura injusto, apetece-me perguntar: o que tem feito o chamado Islão moderado para mudar essa imagem? Acaso se tem levantado para condenar os actos violentos que têm sido cometidos em nome do Islão? Quem nos garante que não aplaudem por trás o que condenam pela frente? O Islão moderado existe mesmo?

19 de novembro de 2004

«Numa vila alentejana, passou um filme que tinha como protagonista uma actriz de pernas bem bonitas, que, a certa altura, subia umas íngremes escadas. Um espectador mais atrevido resolveu tentar a sorte. À segunda visão, comprou duas plateias na primeira fila. Ocupou uma e, quando chegou a tal cena, estiraçou-se ao comprido e, de cabeça bem baixa, olhou para cima, tentando uma boa espreitadela para os pedaços de pernas escondidos pelas saias da rapariga. Segundo o meu primo - que quando contava um conto acrescentava um ponto - não se deu por vencido. Sempre que o filme passou, lá estava ele, esparramado, à espera da visão deleitosa. Mas "a malandra" tinha artes e ele nunca viu mais do que vira da primeira vez, do alto do balcão.» João Bénard da Costa, no Público de hoje, a propósito do arquitecto e gravador italiano Giovanni Battista Piranesi (reproduções de algumas obras aqui).

18 de novembro de 2004

O juiz conselheiro Torres Paulo votou contra o relatório da Alta Autoridade para a Comunicação Social por considerar que «as alegadas pressões do Governo para afastar Marcelo Rebelo de Sousa da TVI foram negadas» por todas as pessoas ouvidas. O secretário-geral do PSD, após uma «análise exaustiva do relatório» e «verificados todos os depoimentos», não «encontra um só facto que ponha em causa a intervenção de membros do Governo ou até dos próprios responsáveis de operadores privados». Ora, se isto é verdade — e ainda não vi quem desmentisse —, como se pode concluir que houve pressões do Governo? Como se pode acusar alguém com base em suposições e nenhuma prova?
Não sei se repararam, mas hoje não houve crónica do Francisco José Viegas no Jornal de Notícias. Terá havido pressões do sr. Sarmento? De Gomes da Silva? Do sr. Lopes? Ou será que o Francisco está a pensar candidatar-se à Presidência?
Mais um contributo para a teoria da conspiração mais badalada das últimas semanas.
Olha, a Ana escreveu um texto de antologia.

17 de novembro de 2004

Por razões que não vale a pena explicar, fiquei sem e-mail. Além disso, estou com problemas no acesso à internet. Conto que a situação fique resolvida nas próximas 48 horas.

16 de novembro de 2004

A gente já sabia que os soldados americanos são uma cambada de assassinos (não deve haver taberna ou peixaria onde isso não tenha sido dito e repetido), mas não há como um dirigente político a lembrá-lo. Aliás, é nestas «pequenas coisas» que se vê que esta gente não presta.
O meu amigo Rui Geraldes criou o Contra Dicções.

12 de novembro de 2004

O Daniel Oliveira acha que Theo van Gogh não passou de um fanático que foi morto por outro fanático. E que, graças à suposta intolerância do Ocidente face ao Islão, o senhor Le Pen já venceu. Ora, não serão os barnabés os principais culpados pelo aparecimento dos Le Pen?
O Filipe Moura não sabe se Arafat deveria ter assinado os acordos de Camp David, se poderia ter feito alguma coisa para impedir o início da Intifada ou se era milionário. Não sabe e, pelos vistos, nem está interessado em saber. Como se compreenderá, trata-se de miudezas sem nenhuma importância.
Há pessoas que não conseguem disfarçar o gozo que lhes dá ao saber que as tropas da coligação estão a ter dificuldades no Iraque. Está bem, não é preciso mandar-me um e-mail a dizer-me que é mais um comentário irónico que eu não percebi.
«A diplomacia é, grosso modo, apertar a mão a quem gostaríamos de apertar o pescoço», diz a Ana.
Ai, que ia morrendo de comoção.

11 de novembro de 2004

A CGTP acha que a resistência de Arafat «vai continuar como força inspiradora da luta do povo [palestiniano] pela liberdade, independência e paz». O primeiro-ministro de Cabo Verde acha que a morte de Arafat é uma «grande perda para a humanidade». O Comité Central do PC diz que «Arafat consagrou a vida à luta do seu povo pelos seus direitos nacionais inalienáveis». O secretário-geral da ONU acha que Arafat «vai continuar na memória como aquele que em 1988 conduziu os palestinianos a aceitar o princípio de uma coexistência pacífica entre Israel e um futuro Estado palestiniano». Eu próprio tinha uma declaração solene a fazer sobre Arafat, mas fiquei tão comovido com estas declarações que não consigo dizer mais nada.
Segundo a Lusa, Mota Amaral acha que «as pressões mediáticas» levam o poder político a concentrar-se em questões banais. «A pressão mediática leva o poder político a concentrar-se nas questões destacadas como mais urgentes, embora às vezes sejam apenas banais», disse ele. Ora, a ser verdade o que diz o presidente da AR — e eu não tenho dúvidas de que é verdade —, é evidente que a culpa não é dos média. A culpa é dos políticos, e só deles.