25 de março de 2005

«Continuar esse "estado" defende a vida ou, pelo contrário, encoraja a medicina a criar "estados" que, de facto, a negam?», pergunta Vasco Pulido Valente a propósito do drama de Terri Schiavo. É uma questão pertinente, sem dúvida, mas eu continuo a ter muitas dúvidas. Continuo sem saber, por exemplo, se a decisão do tribunal da Florida em retirar o tubo que alimentava artificialmente Terri Schiavo foi a melhor, se a legislação especial do Congresso que autorizou os pais da infeliz a recorrer para o Supremo Tribunal se justificava, se a recusa do Supremo em pronunciar-se sobre o caso foi uma atitude sensata. Aliás, quanto mais pormenores conheço sobre este caso, mais dúvidas tenho. A única coisa que eu sei é que não gostaria de estar na pele de quem tem que decidir.
Acabo de saber que há «uma vasta campanha nacional em curso que tem como objectivo levar o Benfica ao título».

24 de março de 2005

«Todas as noites, antes de deitar, os moradores da casa reuniam-se nas esteiras e, de pernas cruzadas, como é prática universal destes ilhéus, iniciavam um cântico sereno, soturno e monótono, acompanhando as vozes com melodias instrumentais produzidas por dois paus meio podres com que batiam simultaneamente, de que cada pessoa presente tinha o seu par. Assim ficavam durante uma ou duas horas, por vezes mais tempo.» Taipi, de Herman Melville.

23 de março de 2005

Time After Time é um daqueles temas que não me canso de ouvir, e ainda estou para conhecer uma versão que me desagrade. Sem puxar pela cabeça, lembro-me de três versões/interpretações diferentes: de Eva Cassidy e Mary Black, ambas divinas, e de Miles Davis, belíssima. Curiosamente, nunca ouvi o original (de Cyndi Lauper), e até receio que me desiluda.
Provavelmente «um dos melhores blogues de saias»? Não será isto um caso de «enviesamento masculinocêntrico»?
Absolutamente imprescindível uma visita aos blogues do maradona (com minúscula) e do Alexandre Soares Silva.

22 de março de 2005

Nos poucos dias que leva de governação, Freitas do Amaral destacou-se por duas coisas: por não assumir o que disse sobre George W. Bush, e por ter sido expulso do Partido Popular Europeu. Com um personagem assim nos Negócios Estrangeiros, Portugal ainda vai dar muito que falar.
Quando se lê, num cartaz de protesto contra a guerra do Iraque, que George W. Bush é «o terrorista número um do mundo», só se pode ter simpatia por George W. Bush e ficar de pé atrás perante quem assim pensa.
O editorial da mais recente edição da «revista para imbecis» merece atenção.

18 de março de 2005

Afinal, em que ficamos? Vai haver aumento dos impostos ou não vai haver aumento dos impostos? Num dia, o ministro das Finanças anuncia que vai aumentar os impostos. No outro, o primeiro-ministro diz que «não está no programa [do Governo] nenhum aumento de impostos». No tempo de Santana Lopes isto era, no mínimo, uma trapalhada. Como os tempos são outros, ninguém se indigna que se anuncie o contrário do que se prometeu, e que num dia se diga uma coisa e no dia seguinte o contrário. Um caso a seguir com atenção.
Será impressão minha, ou o Governo do eng. Sócrates já tem um Luís Delgado?

17 de março de 2005

O cardeal Bertone anunciou ao mundo que O Código Da Vinci é uma distorção «absurda e grosseira da História» e pediu às livrarias católicas que retirem o livro das estantes. Tudo isto porque o autor do dito resolveu dizer que Cristo casou com Madalena e teve filhos, quando a versão oficial da Igreja Católica garante que Cristo nunca casou e não deixou descendência. Como Dan Brown terá calculado quando escreveu esta e outras heresias, o Vaticano caiu na esparrela. O sr. Brown arranjou, assim, publicidade da melhor — e de borla. Mas nem precisava.

15 de março de 2005

Quem gosta de Miles Davis e ainda não viu Live in Munich não sabe o que perde, pois o concerto é uma delícia. Do excelente naipe de instrumentistas, uma descoberta: Marilyn Mazur, uma percussionista de se lhe tirar o chapéu. Um único senão: o registo em vídeo não é lá grande espingarda. Mas garanto-vos que quase não se nota.

14 de março de 2005

Só duas mulheres no Governo? Muito bem. E gays? Haverá algum gay neste Governo? Sim, por que não sei quantos por cento dos portugueses são gays, e não vejo porque razão os gays não haveriam de estar representados no Governo. Meio sub-secretário de Estado? Que seja meio sub-secretário de Estado. E os pretos? Será que os pretos não mereciam ter um secretário de Estado? E por aí adiante, pois não se vislumbra que a lógica aplicada às mulheres não havia de aplicar-se aos gays e aos pretos. Agora a sério: por que haveria um primeiro-ministro de escolher os membros do seu gabinete com base noutro critério que não fosse a competência? Por que razão se há-de querer impor as mulheres na política se é visível que as mulheres se interessam menos por política que os homens? Confesso que isto de querer meter as mulheres na política por decreto já cheira mal. (Nota: não sei se é politicamente correcto chamar-se pretos aos pretos, mas não sei qual é o termo politicamente usado em Portugal.)
Se bem me lembro, a introdução dos genéricos provocou uma tempestade. Agora, a Associação de Farmácias e a Ordem dos Farmacêuticos opõem-se à venda, nos hipermercados, de medicamentos não sujeitos a receita médica, quando é sabido que tal prática é corrente em vários países e não constitui problema. A argumentação destas duas respeitáveis agremiações é claríssima: a concorrência é uma chatice.
A pouca simpatia que ainda nutria por Pedro Santana Lopes esboroou-se com o anunciado regresso à Câmara de Lisboa. Poderá ser juridicamente inatacável, mas é evidente que é politicamente insustentável. Além de moralmente confrangedor.
O tempo dirá se a nomeação de Freitas do Amaral como ministro dos Negócios Estrangeiros foi um erro ou não. Mas concordo com o editorial da Sábado quando diz: «Escolher Freitas do Amaral para ministro dos Negócios Estrangeiros é tão inteligente como pôr o major Mário Tomé nas Finanças, Cristiano Ronaldo na Cultura ou Donald Trump no Trabalho.»
«O jornalismo de causas é uma fraude que serviu e serve para que se editem, sob a forma de notícia, conteúdos de propaganda. Os jornalistas não têm, nem devem de estar comprometidos com nada a não ser com a qualidade e o rigor do seu trabalho. Isto não invalida que pessoalmente tenham as suas causas, mas ajuda a que não coloquem as notícias ao serviço do seu ideário.» Helena Matos, no Público de sábado.
Interessante a análise das manchetes do 24 Horas feita por Eduardo Cintra Torres.
Recebi, pela manhã, dois DVDs: Live at Open Theater East, de Keith Jarrett (mais Gary Peacock, mais Jack DeJohnette ), e Live in Munich, de Miles Davis (mais uma porrada de excelentes músicos). É o que se chama começar bem o dia.

10 de março de 2005

Faz hoje 12 dias que assinei os serviços da Biblioteca Universal on-line e continuo sem acesso aos serviços da Biblioteca Universal on-line. Preenchido o formulário e fornecidos os dados referentes ao pagamento, continuo à espera do e-mail com a senha que ficaram de me enviar. Isto depois de já lhes ter enviado dois e-mails inquirindo a razão de tamanha demora, a que ainda não me responderam. Será que vou ter que lhes rogar o favor de me aceitarem como cliente? Será que, mesmo assim, vou conseguir?
Quem se lembra de Paul Wolfowitz?

9 de março de 2005

Infelizmente não ouvi o discurso do Presidente Sampaio durante a sessão comemorativa do Dia Internacional da Mulher. Mas chegaram-me ecos de pérolas como esta: «Não é justo nem razoável que persistam enviesamentos masculinocêntricos tão acentuados na selecção das questões políticas agendáveis».
Como seria de esperar, o maradona (com minúscula) fez a análise definitiva do Chelsea-Barcelona.

7 de março de 2005

A ideia de enviar o retrato do prof. Freitas do Amaral do Largo do Caldas para o Largo do Rato é, obviamente, ridícula, além de configurar uma atitude estalinista, como muito bem disse Narana Coissoró. Tem, além disso, o efeito contrário ao desejado, pois transforma o futuro ministro em vítima — e não havia necessidade.
A grande maioria das pessoas desconhece que motivos levaram as forças americanas a atacar a viatura em que seguia a jornalista Giuliana Sgrena, de que resultou a morte de um agente da secreta italiana e o ferimento da própria jornalista. Desconhece mas tem uma opinião formada acerca do assunto. Adivinhem qual é.
Extraordinário! O futuro ministro das Finanças anuncia um aumento dos impostos — nunca admitido por Sócrates em campanha — e toda a gente acha bem.
Parabéns Ana! I love you!

4 de março de 2005

Minutos após terem sido divulgados os nomes que vão integrar o Governo de José Sócrates, Carlos Magno não teve dúvidas em dizer — e repetir — que se trata de um «Governo coeso». Ou seja, o Governo ainda não tomou posse, ainda não começou a governar, e já é coeso. Impressionante.
Embora não tenha sido propriamente uma surpresa (o apelo à maioria absoluta para o PS não terá sido de borla), não se percebe a nomeação do prof. Freitas do Amaral para ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Que mais-valia será, para o Governo socialista, o homem que nos últimos anos se distinguiu por comparar George W. Bush a Hitler?

3 de março de 2005

Percebe-se o problema e a postura de Pacheco Pereira durante a campanha para as Legislativas. Percebe-se e saúda-se. Mas não terá sido também ele, com a postura que entendeu assumir, responsável pela derrota do PSD? Além disso, porque haveriam os «leigos» de votar num partido (o PSD) onde meia dúzia de «papas» nada fizeram para os estimular?
Parabéns!
«É muito triste que não existam em Portugal ambientalistas a sério, ambientalistas que não pensem o Património Natural como uma vaca sagrada desligada da vivência quotidiana das pessoas. O que acontece as mais das vezes é que se discutem as coisas do ambiente de forma fascista, ou seja, abolindo toda e qualquer negociação política. Quem perde é o ambiente, mas, infelizmente, o estado do ambiente nunca foi coisa que preocupasse por aí além o ambientalista português: ele quer é mostrar-se indignado, mostrar ao mundo o sensivel que é, deixando para os outros a responsabilidade de lhe confeccionar os jeeps e refinar o gasóleo com que se locomove até à "natureza", de lhe transformar maravilhosas árvores em magníficos guias ilustrados da natureza, de lhe minar o cobre por onde passa toda a informação que circula no mundo e que permite que a causa ambientalista seja hoje verdadeiramente global, de lhe concentrar os elementos radioctivos que lhe fazem o raio x à perna quando se aventuram demais na escarpa para ver os ovos de uma águia-imperial (era bom era).»
Do grande maradona (com minúscula), é claro.

28 de fevereiro de 2005

O Daniel Oliveira está indignado com a posição do Papa face ao aborto. Compreende-se. Mas já se compreende menos que não invoque a mesma «laicidade do Estado» quando o Papa assume posições com as quais está de acordo. E ainda menos quando aplaude, como foi o caso da posição do Papa sobre a intervenção militar no Iraque. Estou à vontade para falar da questão do aborto, pois também eu discordo do Papa. Discordo mas não me parece que ponha em causa a «laicidade do Estado», como não foi posta em causa a «laicidade do Estado» quando o Papa decidiu condenar a invasão do Iraque.

24 de fevereiro de 2005

Está provado: quanto menos escrevo, mais leitores tenho. Hoje, por exemplo, tive muito mais que o habitual — e não escrevi uma linha. Assim sendo, vou-me às Memórias do Cárcere, o meu terceiro Graciliano acabadinho de chegar pelo correio.

23 de fevereiro de 2005

Eu, se fosse primeiro-ministro ou membro da Direcção do PS, fazia com este texto o que Mourinho costuma fazer com as declarações dos jornais que procuram desestabilizar a equipa que dirige antes de um jogo importante.
«Dentro de um partido, que é uma colectividade, paga-se um preço por falar livremente», disse Pacheco Pereira à Antena 1. Não será novidade para ninguém, mas é bom ouvir isto por parte de quem sabe do que fala.
Aleluia!

21 de fevereiro de 2005

Como estarão lembrados, o Conde d’Abranhos foi eleito por Freixo de Espada à Cinta sem nunca lá ter posto os pés. Aliás, ele até julgava que Freixo de Espada à Cinta ficava no Minho em vez de Trás-os-Montes, e logo que pôde «livrou-se para sempre daquela horda da carrapatos». Face a isto, apetece-me perguntar: quantos deputados destes terão sido eleitos nas últimas Legislativas?
Sim, também eu fiz uma leitura dos resultados das eleições. Só que, face às 321 que já li (ou ouvi) desde o encerramento das urnas, acho melhor guardá-la para mim. Direi, apenas, o seguinte: os portugueses foram às urnas demonstrar, de forma clara e inequívoca, que estavam fartos de Santana Lopes. Pena que ele não tenha percebido isso.
Corre por aí a tese de que a maioria absoluta do PS veio demonstrar «que os motivos que levaram [o Presidente da República] à dissolução do Parlamento eram correctos». Quer isto dizer que o Presidente da República se teria enganado caso o PS não tivesse maioria absoluta?

18 de fevereiro de 2005

Dois jornais portugueses de referência — o Público e o Expresso — tornaram-se protagonistas pelas piores razões. O primeiro porque resolveu dar uma «notícia» que não passou de um mera opinião, o segundo por dar uma notícia que se revelou falsa. Nada disto teria grande importância caso os visados não fossem políticos em campanha, no caso Santana Lopes, que ambos procuraram atingir a qualquer preço. Como se disse e repetiu, bem podem os jornais fazer «mea culpa» que o mal está feito e os objectivos alcançados. Curiosamente, O Independente — jornal por muitos considerado «sensacionalista» — foi mais sério e comedido ao dar a notícia de que José Sócrates está a ser investigado pela Judiciária, além de que, até ver, não disse nada que não tenha acontecido. A sensação com que se fica após estes episódios é que se chegou a um ponto que vale tudo, incluindo esbanjar um capital de credibilidade que não deve ter sido fácil construir.
O Miguel Sousa Tavares escreveu um artigo notável.
Além de ter sido o único blogue que se lembrou do segundo aniversário do Esmaltes e Jóias (as minhas desculpas por não ter agradecido), O Intermitente fez dois anos.

17 de fevereiro de 2005

Pior que o drama de Santana Lopes, só mesmo o drama de Pacheco Pereira. Se o do primeiro roça o exagero, o do segundo parece teatro amador.

16 de fevereiro de 2005

A Igreja Católica foi condenada por se meter em assuntos de política e, no dia seguinte, elogiada por se meter em assuntos de política. Curiosamente, os que a condenaram foram os mesmos que a aplaudiram. Isto é, gente sem memória e sem vergonha.
Será que existem mesmo eleitores que se dão ao trabalho de ler uma carta que lhes foi enviada por um político?
Consta que um grupo terrorista islâmico planeou uma série de atentados contra alvos em França, nomeadamente a Torre Eiffel, um grande armazém no centro de Paris, edifícios onde estão instalados interesses israelitas e esquadras de polícia. Ora, tendo em conta que a França foi dos países que mais se opôs à intervenção militar no Iraque, como explicar a ofensiva que só o desmantelamento da rede veio abortar? Sim, é preciso não esquecer que os atentados de 11 de Março em Madrid foram considerados «uma retaliação» pela participação espanhola no invasão do Iraque.

15 de fevereiro de 2005

Não tenho comissão nos discos, ninguém me paga para o promover, mas recomendo na mesma este senhor.
Contrariamente a José Vítor Malheiros, a quem reconheço alguma razão, não tenho dúvidas de que os blogues mudaram o jornalismo para melhor.

14 de fevereiro de 2005

O maradona (com minúscula) provou, de forma definitiva e com três gralhas (pelo menos), que não há nada como a sabedoria empírica para se atingir o nirvana: «No exercicio da manhã saiu-me um opedaço de feijão verde intacto pelo nariz, na actividade da tarde descobri que as melhores sanitas são sem sombra de dúvida as de marca Roca, e à noite fiquei a saber que acabaram com os termómetros movidos a mercurio.»
Além de ser contraproducente, não me parece inteligente atacar a comunicação social. Mas que ela tem sido globalmente contra Santana Lopes, e ainda ele não era primeiro-ministro, é um facto. O que não deixa de ser bizarro, pois Santana foi acusado de controlar a comunicação social.
Estava a ver que ninguém ia falar no assunto.
«(...) as mais recentes posições do episcopado português e as palavras do padre Lereno» são «insuportáveis quando transportadas para um espaço profano, um espaço público, para uma sociedade que, constitucionalmente, não é confessional», escreveu o director-adjunto de A Capital. Como aqui alertei há uma semana, não será isto uma tentativa de calar a Igreja Católica? Não será isto uma atitude anti-democrática?
Concordo em absoluto com a acusação de «oportunismo político» que o antigo bispo de Setúbal fez aos partidos que interromperem a campanha eleitoral por causa da morte da Irmã Lúcia, mesmo reconhecendo que é uma acusação que roçou a demagogia. Mas já não me merece tanto entusiasmo as críticas de alguns políticos, à esquerda e à direita.

11 de fevereiro de 2005

Como toda a gente sabe, o desprezo de Cavaco Silva pelo PSD não é de hoje. Isto é, não se deve ao facto de o PSD ser liderado por Santana Lopes. O problema de Cavaco Silva com o PSD é antigo e tem outros motivos, como o próprio por mais de uma vez demonstrou. Dizer que o problema do ex-primeiro-ministro é Santana Lopes, não custa nada e pode ser eleitoralmente eficaz — mas não é sério. Aliás, eu cada vez tenho mais dúvidas que o PSD, mesmo depois de correr com Santana Lopes (se é que o vai conseguir a curto prazo), apoie uma candidatura presidencial de Cavaco. As sucessivas descolagens do partido de que foi presidente são bem capazes de ter consequências desagradáveis para o ex-presidente dos social-democratas. Como, aliás, esta notícia deixa antever.
O Luís Osório acha que «não existem jornalistas livres e sérios».
Parece que a Polícia Judiciária tem obrigação de se preocupar com a «gestão política» das investigações que faz.

10 de fevereiro de 2005

Não há dia que passe sem que um barão do PSD apareça a criticar o partido de que faz parte — ou a direcção do partido de que faz parte. Hoje foi a vez de António Borges, que se diz desiludido com o rumo da campanha. Mas os piores são os que aparecem uma vez por acaso a apelar ao voto nos social-democratas quando é público que desejam uma derrota do PSD. Uma derrota, de preferência, por muitos.

9 de fevereiro de 2005

O Bloco de Esquerda está muito incomodado com a tomada de posição da Igreja Católica face às eleições do dia 20. Vai daí, resolveu pedir à Igreja Católica que se cale. Ora, será que isto não configura uma tentativa de calar vozes incómodas? Porque haveria a Igreja Católica de não poder pronunciar-se sobre o que muito bem entender? E porque é que os bloquistas não se coíbem de aplaudir a Igreja Católica sempre que ela defende o que lhes interessa e a tentam calar sempre que é contra? Não será isto uma atitude anti-democrática?
A explicação do Público sobre a alegada aposta de Cavaco Silva numa maioria absoluta do PS é mais que esfarrapada.

8 de fevereiro de 2005

Como estarão recordados, à invasão do Iraque seguiu-se as eleições no Afeganistão, na Palestina, no Iraque e, agora, na Arábia Saudita, embora estas um pouco originais. Todas elas eleições históricas, e todas elas a excederem largamente as expectativas. Hoje, Ariel Sharon e Mahmud Abbas anunciaram um cessar-fogo, coisa que o primeiro-ministro israelita não conseguiu com esse grande paladino da liberdade que foi Yasser Arafat. Como julgo ser evidente, trata-se de uma sucessão de acontecimentos que representam importantes vitórias para os povos afegão, palestiniano, iraquiano, saudita e israelita. Mas como algumas dessas vitórias representam, também, vitórias dos Estados Unidos, há quem não se conforme. E não se conforma porque o que importa é que as coisas corram mal aos Estados Unidos, tenha lá isso os custos que tiver. Que os povos sofram as consequências caso as coisas corram mal aos americanos, é um mero detalhe. Um mero detalhe que nunca os interessou e jamais os interessará. Tão claro que só não vê quem não quer.
Palpita-me que o Público de amanhã vai revelar mais detalhes acerca da alegada aposta de Cavaco Silva numa maioria absoluta do PS nas eleições do dia 20, até porque a fundamentação da notícia do dia foi fracota.

4 de fevereiro de 2005

O Francisco José Viegas resolveu chamar a atenção para o seguinte: «O parágrafo primeiro do ponto sexto do regulamento do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, publicado no Jornal de Letras, menciona a consignação de mensões honrosas». Ora, meu caro Francisco, então você não vê que é de uma gralha que se trata? Não vê que eles queriam dizer «mansões honrosas»?

3 de fevereiro de 2005

Pedro Santana Lopes esteve melhor do que eu esperava, José Sócrates pior do que eu esperava. Digo isto sem emoção ou interesse, pois não tenciono votar em nenhum deles. Sócrates raras vezes demonstrou à-vontade, enquanto Santana esteve como peixe na água. Santana demonstrou trabalho de casa, Sócrates raramente transmitiu convicção no que disse. Falo da forma como ambos «passaram» na televisão, mais importante que o conteúdo num debate do género. É claro que, amanhã, os jornais vão dizer o contrário, pois a clubite fala mais alto. Como é um bom exemplo o caso de Luís Osório, que eu vi na RTP jurar a pés juntos que Sócrates dominou claramente a primeira parte do debate.
Não me importava mesmo nada que me pagassem para escrever pulhices destas.

2 de fevereiro de 2005

Quem viu a entrevista de Judite de Sousa a José Sócrates e, depois, a Paulo Portas, ficou com a sensação de que não foram feitas pela mesma pessoa. Compreende-se que os jornalistas de política tenham simpatias — e não só os jornalistas de política. Mas será assim tão difícil usar apenas critérios jornalísticos quando se faz uma entrevista? Será assim tão difícil fazer uma entrevista com um mínimo de isenção e distanciamento? Será demais pedir que se adopte um critério uniforme para todos os líderes políticos? Será exagero esperar que o entrevistador se comporte como um profissional? As entrevistas a José Sócrates e a Paulo Portas chegaram a parecer um frete, no primeiro caso, e um linchamento, no segundo.
No tempo de Saddam Hussein, que ganhava eleições com 100 por cento dos votos, nada disso acontecia.

1 de fevereiro de 2005

Olha, esteve cavalheiro acha que as eleições no Iraque se realizaram devido à pressão dos «pacifistas» (as aspas são dele).

31 de janeiro de 2005

Apesar de uma onda de violência ter matado algumas dezenas de pessoas, todas as fontes indicam que as eleições no Iraque correram bem. Mais: correram melhor do que as previsões mais optimistas. Perante isso, este cavalheiro não se conforma.
Olha, o primeiro-ministro espanhol respondeu a uma carta de Maria Barroso e a senhora resolveu vir para os jornais fazer alarde disso.

28 de janeiro de 2005

Invocando a qualidade de «cidadão independente», Freitas do Amaral publicou um artigo na Visão onde defendeu a maioria absoluta para os socialistas. Como seria de esperar, o caso deu azo a reacções várias, nomeadamente da direita, e quase todas para o criticar. Tirando o PS, não me lembro de ver uma só criatura aplaudir a decisão do professor. Nem à direita, nem à esquerda. Surpresa também não foi para ninguém, pois quem compara George W. Bush a Hitler e Paulo Portas a Estaline já não surpreende. Temos, assim, que foi um acontecimento trivial? Evidentemente que não foi. Em primeiro lugar, porque Freitas do Amaral foi o fundador do partido mais à direita em Portugal. Depois, porque não abundam os casos de mudança da direita para a esquerda.

26 de janeiro de 2005

Francisco Louçã admitiu que o argumento por ele usado no debate com Paulo Portas «não foi claro», e que não o voltaria a usar caso o confronto se repetisse. Acontece que isto não convence ninguém. Se há uma coisa de que não se pode acusar Louçã é de não ter sido claro, pois o que ele disse toda a gente entendeu. A não ser que ele ache que deveria ter levado mais longe a investida moralista, o que não me espantaria.
Mais um post politicamente incorrecto do Alexandre Soares Silva e mais um post magnífico do Filipe Nunes.
Descobri, absolutamente por acaso, uma pérola.

25 de janeiro de 2005

Segundo o Público, Matilde Sousa Franco quer ser provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. A viúva do ex-ministro das Finanças terá mesmo aceitado ser cabeça de lista pelo PS em Coimbra com essa condição. Temos, assim, que a senhora não está interessada em ser deputada — apesar de se apresentar ao eleitorado como se estivesse. Se esta estória tivesse moral, a moral só podia ser esta: a senhora ainda agora chegou à política e já se meteu num esquema pouco edificante. Pouco edificante mas muitíssimo esclarecedor.
Quando seria de esperar que explicasse o episódio com Paulo Portas ou fizesse mea culpa (ou as duas coisas), Francisco Louçã limitou-se a fazer de conta que nada se passou. Um artista, o cavalheiro.

24 de janeiro de 2005

Se bem entendi, os presidentes do Sporting e do Benfica querem que seja o Governo a nomear os árbitros para os jogos de futebol. Em nome da «verdade desportiva», asseguram, e porque os clubes jamais se entenderão quando o assunto é arbitragem. Os donos da bola querem que o governo crie um organismo para o efeito — uma espécie de Conselho Superior da Magistratura ou Ministério Público para o futebol. Assim sendo, e fazendo a vontade aos cavalheiros, teríamos um organismo para decidir quem apitaria o Benfica-Sporting ou o Serapicos-Vila Pouca. Infelizmente não entraram em detalhes quanto ao funcionamento do dito organismo, nomeadamente como se arranjaria um responsável para o dirigir que fosse sério e sem simpatias clubísticas. Foi pena, pois o assunto prestava-se a umas gargalhadas. Até já estou a ouvir a turba a exigir a demissão do Governo por causa do desempenho do árbitro. Havia de ser lindo.

21 de janeiro de 2005

Dois séculos após o Presidente Sampaio dissolver a Assembleia da República, Mota Amaral veio dizer que, na sua «opinião pessoal», as razões apresentadas pelo Presidente da República para a dissolução do Parlamento são mais que discutíveis. Razão tem o dr. Alberto João ao dizer que não tenciona levantar «o rabo da caminha para fazer campanha» caso Mota Amaral seja candidato à Presidência da República.
Miguel Sousa Tavares gastou 1.389 caracteres para dizer o que podia ter dito desta maneira (e em 21 caracteres) caso tivesse coragem: os americanos são burros. Luís Osório gastou 2.402 caracteres para dizer o que podia ter dito desta maneira (e em 21 caracteres) caso tivesse coragem: os americanos são burros. Mesmo assim, e embora a tese não seja original, o exercício não deixou de ser divertido.
Não há eleições em que não se acuse quem está no poder de o usar para fins eleitorais — e, provavelmente, não há quem esteja no poder que não o use para fins eleitorais. Mas se de um lado se usa o poder para fins eleitorais, do outro exagera-se nas acusações. Assim sendo, governo e oposição saem invariavelmente mal desta estória. Por uma razão: ambos exageram, e ambos mentem.

19 de janeiro de 2005

Não sei se Nuno Cardoso é culpado do que é suspeito. O que eu sei é que o cavalheiro deu um espectáculo lamentável na conferência de imprensa que convocou para explicar a chamada à Judiciária. Lamentável e nada convincente quanto a argumentos em defesa do que jura estar inocente.

18 de janeiro de 2005

Sim, eu sei que há taxistas honestos, decentes, respeitadores. Mas porque será que nunca me calhou nenhum a mim?

17 de janeiro de 2005

Não exagero se disser que a única coisa que me interessa na revista Veja é a crónica de Diogo Mainardi. Como o acesso à edição na Internet não é gratuito, uma das formas de ler a revista online é através de uma senha impressa na versão em papel. Mas como a versão em papel é distribuída dentro de um saco plástico — pelo menos a versão em papel a que eu tenho acesso —, a única forma de saber qual é a senha é comprando mesmo a revista. Dir-me-ão que uma vez adquirida em papel não é necessária a versão online, mas não é bem assim. Embora só por uns dias, a senha dá para ler a última edição e as edições anteriores. Como sou contra edições pagas na Internet, confesso que me apetecia divulgar a senha da última Veja. Mas fico-me pelo apetite.

14 de janeiro de 2005

Céu nublado, chuva, algum vento, frio. Um texto sereno de João Bénard da Costa, uma crónica mais que oportuna de Vasco Pulido Valente, toda a música de Jacob Heringman. À noite, um cálice de Porto autêntico e alguns contos de Cardoso Pires antes de adormecer. Há dias quase perfeitos.
A dra. Maria Belo acha que Portugal deve «abrandar o investimento em território português» e «procurar investimentos» em Angola e Cabo Verde. Palavra de honra que há muito tempo que não me ria tanto.

12 de janeiro de 2005

Escassos dias após ter defendido que é preciso eliminar o «inimigo sionista», Mahmud Abbas garantiu que os palestinianos estão prontos a estender a mão aos vizinhos. Ignoro se isto é para valer ou só para inglês ver (Arafat era perito nesta manobras), mas o gesto merece aplauso. Afinal, isto marca uma ruptura com a direcção anterior, além de demonstrar que a estratégia do ex-presidente da Autoridade Palestiniana estava errada.
Será que os spots publicitários que a RTP exibe a toda a hora — pelo menos a RTP Internacional — a dizerem que a televisão do Estado foi a primeira a chegar ao local da tragédia asiática e não sei mais o quê não são uma exploração da miséria humana?

11 de janeiro de 2005

Consta que mais de uma centena de empresários em busca de «oportunidades de negócio» viajou com a comitiva do Presidente da República na sua deslocação à China. Ora, perante isto, eu tenho uma perguntinha: tendo em conta que só meia dúzia de empresários paga impostos — 10 por cento, ao que dizem —, em que é que o País vai beneficiar com a deslocação destes cavalheiros?

10 de janeiro de 2005

«Três cavalheiros, Santana, Sócrates e Portas, nomearam pessoalmente cerca de 80 deputados. Visto de outro modo, mais ou menos 5.000 pessoas dos cinco partidos, reunidas em comissões locais ou nacionais, nomearam 190 deputados, ou seja, a quase totalidade do Parlamento que entra em funções dentro de seis semanas. Falta agora os restantes oito milhões de eleitores designarem os quarenta deputados que ainda se não conhecem.» Isto é um excerto da crónica de António Barreto no Público do último domingo, que prossegue: «Ao eleitorado, os candidatos nada têm a provar. Nem competências a exibir. Nem confiança política a demonstrar. Muito menos responsabilidade pessoal. Nada! Pelo contrário, é nos circuitos estreitos dos partidos que têm de exibir talentos. Agradar aos chefes. Saber sempre qual é a linha justa, isto é, reconhecer quem manda. Negociar com os autarcas. Conquistar os funcionários. Arranjar dinheiro para o partido. Lubrificar o aparelho. E não fazer ondas.» Também Vasco Pulido Valente abordou a questão no Público de sábado, lembrando que «os chefes» nomeiam pessoalmente metade da Assembleia da República. Nada disto é novo, como todos sabemos, mas a questão levantada por António Barreto e Vasco Pulido Valente continua a não ter a atenção que merece. Não que eu esteja convencido de que os círculos uninominais (que defende António Barreto) ou uma mudança de regime (como preconiza Vasco Pulido Valente) sejam a melhor solução, mas porque me parece evidente que isto não pode continuar assim.

7 de janeiro de 2005

Três dias após a recusa do dr. Cavaco em dar a cara num cartaz eleitoral do PSD, as reacções dos social-democratas começam a ser mais serenas e fundamentadas. Depois da gritaria inicial — um abuso colocar Cavaco ao lado de Santana, Santana não devia aproveitar-se da imagem dos ex-presidentes do PSD, etc., etc. — surgem, agora, vozes críticas em relação à decisão tomada pelo ex-presidente do PSD. De facto, tirando a «espuma» do momento, não se percebe a decisão, tanto mais que o dr. Cavaco quer ser Presidente da República e não ignora que dificilmente o será sem os votos do PSD. Pior só a desculpa que deu para recusar aparecer no cartaz, pois quem acredita que isso o prejudicaria academicamente? Razão tem o dr. Alberto João ao dizer que está «farto das histórias» do dr. Cavaco, e que veria com bons olhos que o ex-primeiro-ministro abandonasse o partido.

6 de janeiro de 2005

Parece que Paulo Pedroso passou de «presumível inocente» a «presumível culpado». Pelo menos é a ideia que fica quando se vê o destino que lhe foi dado — um lugar não elegível não sei em que lista, com o compromisso de não assumir o lugar de deputado enquanto decorrer o processo judicial que envolve o seu nome. Assim sendo, é caso para dizer: longe vão os tempos em que o ex-deputado foi para a cadeia como se fosse um herói e regressou da cadeia como se fosse um mártir.
«Os inimigos a abater não são [para os terroristas islâmicos] os agentes, os responsáveis por uma política, ou uma religião, não é uma Igreja, nem um Estado, não são militares, nem polícias, mas todos, os civis, os "outros" — nós», diz Pacheco Pereira no Público de hoje. Perante isto, apetece-me perguntar: por que será que é tão difícil perceber esta evidência?

4 de janeiro de 2005

Tirando a hora fatal, passei o fim do ano a ler Graciliano Ramos. Depois de Caetés, que li há uns anos mas já não tenho qualquer ideia (a não ser que gostei), foi, agora, a vez de Angústia, e já coloquei Vidas Secas, Memórias do Cárcere e São Bernardo na lista de prioridades absolutas.
Jornalistas americanos aplaudiram um discurso de Norman Mailer. O relato da pouca-vergonha está aqui.

3 de janeiro de 2005

Se o maremoto tivesse sido há mais tempo, provavelmente o governo de Santana Lopes ainda estaria em plenas funções. É esta a ideia que fica quando vemos, ouvimos e lemos os noticiários, onde o assunto governo desapareceu literalmente de cena.
«Para aqueles que cultivam a ideia que tudo o que vem dos EUA é bom por natureza ou definição», esta senhora lembra que há, também, aqueles que cultivam a ideia que tudo o que vem dos EUA é mau por natureza ou definição.