25 de maio de 2010

SELECÇÃO (1). Enquanto as selecções apuradas para o Mundial da África do Sul fazem testes a valer (a Inglaterra joga com o México, a Argentina com o Canadá, o Brasil com o Peru, a África do Sul com a Bulgária, o Paraguai com a Irlanda, a Grécia com a Coreia do Norte, os Estados Unidos com a República Checa, a Holanda com o México, a França com a Costa Rica), nós jogamos com Cabo Verde. Jogamos, e jogamos pessimamente. Repararam como os jogadores portugueses assumiram, no final do jogo, que não se empenharam o que deviam? Se estes jogos não são a sério, se não servem para os jogadores mostrarem o que podem fazer e para o treinador ficar a saber com quem pode contar, servem para quê?

21 de maio de 2010

QUEIROZ. Estarei a ver mal, ou Carlos Queiroz tem vindo a baixar as expectativas de Portugal no Mundial? Claro que ninguém espera que a selecção chegue à final — e, muito menos, que a ganhe. Mas daqui a nada contentamo-nos com uma vitoriazita na primeira fase — porque a Coreia não é pêra doce, porque a Costa do Marfim é a melhor selecção africana, porque o Brasil é um colosso. A selecção portuguesa terminou no quarto lugar no último Mundial, lembram-se? Depois da euforia na época Scolari, a quem tudo era exigido, já só nos falta baixar as calças.

20 de maio de 2010

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. É impressão minha, ou os que andam para aí raladíssimos com a eventualidade de o primeiro-ministro ter mentido no Parlamento quando disse desconhecer o negócio entre a PT e a TVI são os mesmos que não abrem a boca sobre o que se passa na Madeira? Aliás, nem agora, nem nunca, que o problema da Madeira não é de hoje — e será desnecessário lembrar que o Jornal da Madeira é financiado praticamente na totalidade (99,7 por cento) por dinheiros públicos.

19 de maio de 2010

Todas as ocasiões são boas para ouvir Beethoven, provavelmente o meu compositor favorito. Mas os tempos que correm recomendam-no mais do que nunca.

18 de maio de 2010

O MUNDO À NOSSA ESPERA. Graças ao Nuno Guerreiro, acabo de descobrir o blogue do Francisco Duarte Azevedo, ex-cônsul de Portugal em Newark, que em boa hora me recomendou Los pasos perdidos, do cubano Alejo Carpentier. Para quando, já agora, O Trompete de Miles Davis?

14 de maio de 2010

SÓ PARA CHATEAR (2). Por razões que não vêm ao caso, acompanhei, pela RTP Internacional, grande parte do programa da visita do Papa a Portugal, e tenho a declarar o seguinte: nunca ouvi tanto lugar-comum, tantas ideias pré-concebidas, tantos estereótipos, tanto disparate. A «operação jornalística» só podia ter sido comandada por Fátima Campos Ferreira, sempre pronta a derramar filosofia de vão de escada, a interromper toda a gente para acrescentar irrelevâncias, e a fazer comentários inoportunos. Decididamente que o jornalismo que se praticou durante a visita papal, pelo menos pela RTP, se demitiu da sua função.

12 de maio de 2010

SÓ PARA CHATEAR (1). Se bem me lembro, não ouvi, durante todo o tempo que assisti, pela RTP, à missa do Papa no Terreiro do Paço, um único jornalista lembrar que aquele local foi, em tempos, palco de autos-de-fé. Como nas guerras, onde a verdade é sempre a primeira vítima, também as visitas do Papa causam inúmeras vítimas entre os jornalistas.

10 de maio de 2010

ALDRABICES. Não deve haver um único eleitor que não saiba o motivo que leva os comunistas a apresentar um candidato à Presidência da República, e que as hipóteses de ser eleito são nulas. Assim sendo, será que o tempo de antena de que os comunistas usufruirão os beneficia? Posso estar enganado, mas o expediente é bem capaz de produzir o efeito contrário. Estão a ver o candidato comunista a dizer que está ali para ganhar, como já se viu no passado? Quem não vê que a previsível resposta será uma aldrabice? E depois queixam-se os políticos da escassa confiança que neles depositam, como se os políticos, com os seus (maus) exemplos, não fossem os primeiros responsáveis pelo juízo que se faz deles.
O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (4). Obviamente que Ricardo Rodrigues deixou de ter condições para exercer o cargo para que foi eleito a partir do momento que subtraiu os gravadores aos jornalistas da Sábado. O cavalheiro é deputado, vice-presidente da bancada do PS, e membro do Conselho Superior de Segurança Interna. Não é, portanto, um cidadão qualquer, a quem bastaria admitir que cometeu um erro para se dar o caso por encerrado, em última instância esperar que os tribunais decidam se é culpado ou não. Será preciso lembrar que num país civilizado o sujeito se teria demitido na hora?

4 de maio de 2010

A VÍTIMA. Como se costuma dizer, quem não deve, não teme. Se Inês de Medeiros achou — e continua a achar — que a razão lhe assiste no caso da comparticipação, pela Assembleia da República, nas suas viagens entre Lisboa e Paris, e que tem estado a ser vítima de «uma sórdida campanha», por que motivo resolveu abdicar da comparticipação? Porque o CDS achou por bem opor-se a tal prática? Desculpe lá, mas o motivo não me convence. Se Inês está realmente convicta de que a decisão da AR é irrepreensível do ponto de vista legal e inatacável do ponto de vista ético, esperar-se-ia que se mantivesse firme nas suas convicções e lutasse por elas. Afinal, Inês é deputada, e de um deputado espera-se que lute pelas suas convicções. Abdicando da comparticipação atribuída pela AR a pretexto de não querer ser «bandeira eleitoralista do CDS», não convence o mais ingénuo. Pelo contrário, abdicar é admitir que o expediente encontrado pela AR é, no mínimo, frágil. Querer agora virar o feitiço contra o feiticeiro, considerando-se a deputada «mais prejudicada» do Parlamento, é um caso em que a emenda é pior que o soneto, pois soa a manobra destinada a sair por cima de uma trapalhada de que ela é a primeira responsável e não a vítima.
O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (3). O eurodeputado Vital Moreira escreveu, a propósito do «caso Inês de Medeiros», que há «deputados que, ao longo do tempo, têm declarado uma morada fictícia fora de Lisboa para beneficiar de vantagens indevidas», sem que isso alguma vez tenha sido motivo de denúncia. Ora, eu pergunto: e não devia ser motivo de denúncia? Acaso Vital Moreira conhece casos concretos? Se conhece, está à espera de quê para os denunciar? É normal ninguém dizer nada?

3 de maio de 2010

PRIORIDADES. Não digo que esta história do PEC não me rale, mas o que realmente me chateia é o e-mail da Barnes & Noble dando-me conta de que Dublinesca só vai estar disponível daqui a um mês.
E DAS TREVAS SE FEZ LUZ. Embora tarde e a más horas, é uma decisão que se saúda.

30 de abril de 2010

INÊS, OUTRA VEZ. Se bem entendi, Inês de Medeiros fez um favor ao país ao candidatar-se a deputada, e o país não foi suficientemente grato ao elegê-la. É isto o que se depreende do que disse o líder parlamentar do PS, que hoje deu à estampa, no Público, um texto de «solidariedade» para com a colega. Há, contudo, um pequeno senão: Francisco Assis escreveu que o Parlamento não «concedeu qualquer tratamento excepcional» a Inês de Medeiros, mas os factos indicam precisamente o contrário. Que se saiba, havia uma lacuna legal, obrigando o presidente da AR a pedir um parecer jurídico e a decidir com base nele. Houve, portanto, tratamento de excepção, e o tratamento de excepção beneficiou a deputada. Por razões inatacáveis do ponto de vista formal, tudo indica, mas difíceis de digerir no plano dos princípios.
VERDADES EM OFF. A gaffe do primeiro-ministro britânico (Gordon Brown chamou «preconceituosa» a uma eleitora que o questionou sobre pensões de reforma e imigração quando se julgava afastado dos microfones) poder-lhe-á ter custado a reeleição, diz a imprensa britânica. Não sei se isso irá suceder, até porque, se perder, não haverá maneira de saber se foi por esse motivo. Também não sei se o caso marcará uma reviravolta na relação entre eleitores e eleitos, como deseja um jornal britânico. De uma coisa, porém, não duvido: não se podendo por aqui concluir que os eleitos são todos assim, a gaffe de Brown está longe de ser uma excepção. Não será a regra, quero acreditar, mas não duvido que andará lá perto.

29 de abril de 2010

MOURINHO. Eliminar o Chelsea e o Barcelona, a nata do futebol mundial, ainda por cima com uma equipa (o Inter) que pratica um futebol a roçar o miserável, não é, de facto, tarefa para qualquer um. Se dúvidas houvesse, o treinador português voltou a demonstrar que quando o técnico é a principal «estrela» de uma equipa está tudo dito.

26 de abril de 2010

HUMOR INVOLUNTÁRIO. A dra. Manuela Ferreira Leite tem a «certeza absoluta» que Sócrates mentiu no Parlamento sobre o caso PT/TVI. E tem a «certeza absoluta» com base em quê? Segundo a própria, com base em «suspeitas» e pressentimentos. Se não estivéssemos a falar de coisas sérias, seria risível.
ESCREVER COM OS PÉS. Por razões que não vêm ao caso, só agora li a entrevista que António Barreto deu ao i, pelo que só agora me apercebi que o texto roça o miserável (sim, o miserável), como alguém já tinha alertado. Barreto não merecia isso, os leitores não mereciam isso, provavelmente o i não merecia isso.
Obviamente
Conselhos seriamente fingidos

25 de abril de 2010

25 DE ABRIL. O 25 de Abril pôs fim a uma ditadura de 48 anos. Isto chega e sobeja para eu achar que valeu a pena, apesar do que seguiu, apesar de quase termos passado de uma ditadura para outra provavelmente ainda pior.

22 de abril de 2010

AINDA A MAQUINAÇÃO. Não é novidade para ninguém que a Igreja Católica costuma «premiar» os padres «que se portam mal» transferindo-os para outras paróquias, de preferência no quinto dos infernos (salvo seja). Incomoda-me, por isso, a indignação que por aí vai por alguns acusarem a Igreja Católica de ter escondido — e continuar a esconder — as misérias caseiras, no caso a pedofilia, como se a pedofilia fosse uma maquinação e não um facto indesmentível. Negar os factos contra todas as evidências, confundir alhos com bugalhos, invocar o que de bom a Igreja Católica deu à humanidade, dizer que se estão a utilizar casos isolados para generalizar ou que se pretende atingir o Papa a qualquer preço, não é sério nem inteligente, e atrapalha em vez de ajudar. Quanto mais se pretende fazer crer que há uma campanha contra a Igreja Católica porque meia dúzia de sujeitos andam para aí a dizer umas palermices, mais possibilidades terá ela de vir a existir. A fuga para a frente não é, no caso da pedofilia, o melhor caminho, como a presente discussão bem o demonstra.
RIDÍCULO. Imagino que o ministro Jorge Lacão estava a gozar com a malta quando disse que o cancelamento do jornal de Manuela Moura Guedes «não é saudável», mas ameaçar tomar medidas legislativas para que tal não se repita, substituindo-se à administração das empresas no que só à administração das empresas diz respeito, roça o ridículo. Claro que não se vislumbra a mais leve hipótese disso vir a acontecer, o que torna o episódio ainda mais ridículo.
O CULPADO DO COSTUME. Confirmam-se as minhas previsões de há duas semanas: a culpa foi do porteiro. Agora vou ali jogar no Euromilhões.

21 de abril de 2010

INÊS DE MEDEIROS. O presidente da Assembleia da República decidiu que as viagens semanais de Inês de Medeiros entre Paris (onde vive) e Lisboa (onde trabalha) continuarão a ser pagas pelo Parlamento, justificando a decisão com um parecer jurídico e alegando que a deputada já residia em Paris quando foi eleita. Jaime Gama adverte, no entanto, que se trata de uma «excepção», que não fará «jurisprudência». Ora, se as razões de Jaime Gama não me convencem, a «excepção» ainda me convence menos. Abrir uma excepção, porquê? Não duvido que a decisão seja inatacável do ponto de vista jurídico, mas já não estou a ver que o não seja no plano ético. Expedientes legais que tudo justificam e desculpam é a última coisa que se espera do primeiro órgão do Estado.

20 de abril de 2010

NÃO ME LIXEM. A TVI tem documentos sobre o caso Freeport com relevância noticiosa? Então está à espera de quê para os divulgar? Acaso as saídas de Moniz e Manuela impedem a sua divulgação? Se não impedem, quem impede? Quem está a amordaçar a informação da TVI? Já se queixaram à entidade respectiva? Eu não sei se o primeiro-ministro cometeu alguma ilegalidade no caso Freeport. O que eu sei é que as «bombas» que a TVI tem lançado sobre o caso Freeport se transformaram em traques ao segundo dia, e ao terceiro já ninguém se lembrava do assunto. Mais: apesar de tanta investigação que o jornal de Manuela diz ter feito, os portugueses continuam sem perceber o que realmente se passou no caso Freeport. Convenhamos que não é normal.

16 de abril de 2010

Comecei a lê-lo mal saiu, e terminei-o agora mesmo. Apesar da interrupção prolongada (quase três anos), mantém-se a ideia com que fiquei logo às primeiras páginas. Embora o livro relate uma experiência pessoal, no caso a experiência pessoal de Zita Seabra, fica-se com uma ideia bastante precisa do que era o comunismo naquela época - como funcionava, o que pretendia, o que estava disposto a fazer para chegar ao poder. Felizmente, as coisas correram-lhe mal. Imaginem a tragédia que não teria sido caso tivesse sido bem-sucedido.
I. Desconfiei, desde o início, do projecto i, por desde o início me parecer que o i não acrescentava um milímetro ao que já existia. Pelo que se tem visto nas últimas semanas (os proprietários anunciaram que pretendem vendê-lo, e hoje mesmo foi conhecida a demissão do seu director), parece que também é um fiasco em termos financeiros. Uma pena, sinceramente, que o desaparecimento de um jornal não é uma boa notícia.
SABER NÃO OCUPA LUGAR. «Em Portugal, os mais chiques dizem retrete e não sanita, presente e não prenda, saudades à Rita em vez de cumprimentos à esposa. É extraordinário - ou melhor, "estodinário" -, como a linguagem, que serve para fazer pontes e aproximar as pessoas, é usada para construir barreiras e cavar diferenças sociais.»

14 de abril de 2010

JORNALEIRISMO (1). É difícil discordar de Fernanda Câncio quando ela diz não ser pêra doce obter informação oficial. Há, no entanto, uma evidência que não se pode ignorar: houvesse jornalismo a sério, e nenhum dos obstáculos que menciona o seria. Os exemplos invocados pela jornalista para defender a ideia de que não é fácil obter informação oficial, apesar dos gabinetes de comunicação e outras modernices, indicam que os gabinetes e as modernices estão a fazer o que deles se espera: divulgar o melhor possível o que lhes interessa divulgar, e esconder o melhor possível o que lhes interessa esconder. O jornalismo é que não está a fazer o que lhe compete, goste-se, ou não, da ideia. Não por culpa dos jornalistas na generalidade dos casos, mas por culpa do jornalismo que, por razões nem sempre compreensíveis, se demitiu das suas funções.

9 de abril de 2010

SKIPER, 2000-2010. Só eu sei a dor que me vai na alma e as saudades que vou ter dele.
TEORIA DO MEXILHÃO. Concluído o inquérito da Inspecção Regional de Educação, que não confirma que o pequeno Leandro foi «vítima de frequentes agressões, perseguições ou ameaças na escola», e «não aponta para a instauração de procedimento disciplinar a responsáveis na dependência directa do Ministério da Educação», eis que a Câmara de Mirandela anuncia que vai averiguar se houve, ou não, falha do porteiro da escola de onde Leandro terá escapado para a morte, e se existiam, ou não, orientações da direcção da escola sobre entradas e saídas. Temos, portanto, em aberto a hipótese de a morte de Leandro ter sido culpa do porteiro. Onde é que eu já vi este filme?

7 de abril de 2010

UMA VELINHA PELO JORNALISMO. Como estava escrito desde o início, a Comissão de Ética que tenta saber se o primeiro-ministro mentiu, ou não, quando disse desconhecer o aparente negócio PT/TVI, não produziu nada que se visse, e outro tanto do que pretendia. A única coisa que lá se passou foi o enxovalho do jornalismo, como ainda ontem se viu com as declarações de Emídio Rangel e Pais do Amaral. Mesmo admitindo que nem tudo o que se disse na comissão foi verdade, os portugueses têm razões de sobra para desconfiar do jornalismo que se pratica em Portugal. A começar pelos media tidos como de referência.

6 de abril de 2010

MAQUINAÇÕES. É possível que exista uma «maquinação» contra a Igreja Católica usando a pedofilia como pretexto, como desconfia o cardeal Saraiva Martins, mas se vamos por aí também é provável que a Igreja Católica esteja a usar a teoria da «maquinação» como manobra de diversão. (Continuar a ler aqui.)

5 de abril de 2010

1 de abril de 2010



FUTEBOLÂNDIA
. Vista a entrevista de Pinto da Costa, apetece voltar a ouvir os registos telefónicos captados pela Judiciária. É que eles são todo um programa, como agora se costuma dizer, e que programa. Também vale a pena a entrevista do presidente do Conselho de Disciplina da Liga (imagem acima), esta por razões bem diferentes, e porque Ricardo Costa é um caso aparte na futebolândia.

30 de março de 2010

CARRILHO. Parece que o Governo se prepara para substituir Manuel Maria Carrilho no cargo de embaixador de Portugal na UNESCO por este ter recusado — e bem — votar no candidato à chefia daquela organização cujo currículo se distinguia por defender que deviam ser «queimadas» todas as obras em hebraico. Acontece que Carrilho permitiu que um funcionário votasse em vez dele, naturalmente segundo a vontade de quem lhe paga a mesada, como se um expediente destes fosse coisa normal, e assim ficasse a salvo de críticas. Como é evidente, e apesar dos aplausos que então se ouviram, não ficou. Afinal, esperar-se-ia que Carrilho fosse consequente ao recusar votar no candidato anti-semita, e ser consequente implicaria demitir-se. Como nada disso sucedeu, fica-lhe mal o papel de vítima em que agora o querem colocar.

26 de março de 2010

MAQUINAÇÃO. Nada contra a Igreja Católica, mas é bom que ela esteja debaixo de fogo por causa da pedofilia. Já a existência de uma «maquinação», e a ideia de que estarão a usar a pedofilia como mero pretexto para atacar a Igreja Católica, como diz Saraiva Martins, é um absurdo. Com certeza que os casos de pedofilia não são exclusivos da Igreja Católica, mas o cardeal também não ignora que a política da Igreja face ao sexo estimula as práticas pedófilas, e dos servidores da Igreja Católica espera-se que se comportem um pouco melhor que a generalidade dos cidadãos. Bem sei que a Igreja Católica não está imune ao pecado, como gostam de lembrar os seus representantes. Mas convenhamos que dela se espera que peque menos que os outros.

24 de março de 2010

CLAQUES (1). Uma tese de doutoramento sobre claques de futebol defendia, há pouco, que seria um erro acabar com elas, e até avançava alguns factos demonstrando que as ditas não são tão más como se pintam. Como não conheço o assunto com a profundidade que a uma tese se exige, não me atrevo a contestar. Mas ainda não percebi o que terão de positivo as claques de futebol, se é que terão algo de positivo. O que se vê torna-as difíceis de distinguir de meros bandos de delinquentes, e estou a ser benevolente. Como as claques dos «três grandes» demonstraram nos últimos dias, o que se vê são bandos de arruaceiros que as autoridades protegem em vez de pôr cobro às suas práticas. Como se pode ver por este exemplo, e pelas declarações de um dirigente de uma claque que se gabou, à TVI, de agredir não sei quantos espanhóis sem que nada lhe tenha sucedido (o indivíduo chegou a ponto de dizer que não hesitaria agredir mulheres e crianças se lhe aparecessem pela frente), as coisas já foram longe de mais. É tempo, portanto, de as autoridades se deixarem de contemplações, e já vão tarde.

23 de março de 2010

NOSSA SENHORA. Se dúvidas houvesse, o debate televisivo de segunda-feira entre os candidatos à liderança do PSD demonstrou que os sociais-democratas não são alternativa a Sócrates e ao PS. Como as sondagens bem o demonstram, a gente olha para aqueles candidatos, e a imagem de Sócrates melhora consideravelmente. Provavelmente é um exagero, mas a verdade é que eu nem consigo escolher o menos mau.

22 de março de 2010

A PRÓXIMA VÍTIMA. Não sei quem será o próximo líder do PSD, mas caso seja Passos Coelho adivinha-se que a oposição interna será maior que a externa. Como os casos de Santana Lopes e Luís Filipe Menezes bem o demonstraram, Pacheco Pereira encarregar-se-á de trucidar Passos Coelho se ele for eleito, pelo que o destino do ex-líder da Juventude Social-democrata se adivinha idêntico ao de Santana e Menezes. Devo dizer que simpatizo com Pacheco Pereira apesar das muitas discordâncias, e que não votaria em Passos Coelho se votasse nas eleições do PSD. Mas a guerrilha que se seguirá se Passos Coelho vencer, não vai ser boa para ninguém. Nem para o PSD, nem para o País.

17 de março de 2010

QUEIMAR LIVROS. Pacheco Pereira dizia, há pouco, sentir-se incomodado pelo facto de entidades públicas ou privadas destruírem livros a pretexto de não terem espaço para os armazenar, defendendo que em casos desses deviam ser oferecidos a instituições ou a quem deles precisasse. Há dias, um professor escreveu, no Público, mais ou menos o seguinte: é escandaloso que se proceda à destruição de dezenas de milhares de livros que podiam ser oferecidos a bibliotecas, escolas, universidades, centros culturais ou prisões. Mais recentemente, Vasco Graça Moura defendeu que os livros «poderiam com vantagem ser distribuídos no País, ou nos países de língua portuguesa, a título gratuito, em escolas, hospitais, prisões, lares da terceira idade, bibliotecas populares, clubes desportivos, etc.». Acontece que a aparente evidência não passa de uma miragem. Conheço casos em que se ofereceram dezenas de milhares livros que ainda hoje, anos passados, continuam encaixotados e armazenados sabe-se lá onde, por falta de interesse de quem os recebeu e de quem se interesse em os ler. Tirada a fotografia da praxe, repetidos os lugares-comuns nos discursos de ocasião, os livros são logo despachados para um local onde não atrapalhem, e acabarão, a prazo, por se tornar um empecilho, o mesmo empecilho que os levou até ali. Bem sei que destruir livros faz lembrar práticas abomináveis, e daí as reacções indignadas. Mas não é dando livros que se passa a ler mais, por mais triste que seja reconhecê-lo, e os exemplos que dou não são, infelizmente, casos isolados. Hoje em dia só não lê quem não quer, e excepções são isso mesmo.

15 de março de 2010

TIRO NO PORTA-AVIÕES. A gente passa um fim-de-semana longe das notícias e mal chega a elas depara com isto: o PSD anuncia sanções aos militantes que discordarem de quem lá manda. Lidos os pormenores, confirma-se: o congresso social-democrata resolveu punir os militantes que discordarem da direcção do partido nos dois meses anteriores a actos eleitorais com penas que poderão ir até à expulsão, e Manuela Ferreira Leite não só aplaudiu como avisou que as regras são para cumprir. Bem sei que os candidatos à liderança do PSD e outras figuras sociais-democratas discordaram da decisão, mas isso serve de pouco. O mal está feito e amplamente anunciado, e a oposição já facturou o que havia a facturar. O partido que passou os últimos meses a acusar o Governo de asfixia democrática deixa, portanto, de ter autoridade para se pronunciar sobre esta matéria. Aliás, a direcção do PSD já tinha demonstrado tiques autoritários quando escolheu candidatos a deputados a contas com a justiça mas fiéis a quem mandava e excluiu outros pelo crime de discordarem da liderança. Como se fosse preciso, o PSD demonstrou, de novo, que não é alternativa a Sócrates e ao PS, como as recentes sondagens bem o demonstram. Entre dois males, os portugueses preferem os maus aos piores.

12 de março de 2010

MAIS DO MESMO. Depois dos «achismos» e das fezadas, dos números de circo e outros malabarismos, anuncia-se uma comissão de inquérito para saber se o chefe mentiu, ou não, no Parlamento, quando disse ignorar o que provavelmente sabia. Coisa séria, ao que dizem, presidida pelo insuspeito Mota Amaral, que desconfio não ter percebido bem onde se meteu. Pode ser que a comissão de inquérito produza algo que se veja, mas eu já lhe adivinho resultado idêntico ao da comissão de Ética. Enquanto as sondagens demonstrarem que os portugueses preferem Sócrates à oposição (e as mais recentes sondagens demonstram isso mesmo), não há comissão que remova o engenheiro e o seu Governo. É que a oposição não quer ouvir falar de eleições antecipadas, e não estou a ver que se contente com uma vitória na secretaria.

11 de março de 2010

PORCA MISÉRIA. Como se tornou evidente desde o início, a comissão parlamentar que investiga a alegada existência de um plano governamental para controlar a comunicação social serviu, até agora, para expor as misérias do jornalismo e seus protagonistas. Não sendo um mal em si mesmo (é bom que os cidadãos saibam como se cozinha a informação que lhes vendem), é péssimo para o objectivo inicialmente traçado, pois complicou o que pretendia simplificar, confundiu em vez de esclarecer, e ajudou quem queria condenar.

9 de março de 2010

ENTRE DOIS MALES. A sondagem do Público sobre a credibilidade do nosso primeiro-ministro diz, basicamente, o seguinte: os portugueses preferem aldrabões a incompetentes. Dito de outra maneira, os portugueses acham que o Governo mente, mas consideram a oposição um bando de incompetentes. Ainda de outra maneira: para os portugueses que responderam à sondagem do Público, uns são maus, outros são piores. Como calcularão, não aprecio uns, nem outros, mas é provável que também eu escolhesse os primeiros caso fosse chamado a escolher um dos dois. Afinal, a mentira nem sempre é um mal, e até há exemplos que o demonstram. Já a incompetência nada tem que se aproveite.

8 de março de 2010

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. A Sábado não gostou de ser acusada, por um dirigente do PSD, de pagar a não sei quem para prestar declarações falsas sobre não sei quê, e resolveu apresentar queixa-crime contra o autor da calúnia. Não sendo uma prática inédita na imprensa portuguesa, é uma decisão que, por rara, se saúda. Pena que a Sábado não aplique o mesmo princípio a outros casos, como aquele em que acusou o DN de ter sido beneficiado pelo Governo na publicidade institucional, que se verificou não ser verdadeiro. As desculpas que a Sábado agora reclama são as mesmas que outrora não foi capaz de pedir. Em matéria de princípios, estamos, portanto, conversados, e de seriedade é melhor nem falar.
Mais uma crónica cinco estrelas de Ferreira Fernandes.

5 de março de 2010

O ÓBVIO ULULANTE. «Há sinais evidentes [de] que o poder judicial está a funcionar segundo uma agenda política mais ou menos oculta», diz o bastonário dos Advogados. Segundo Marinho Pinho, «basta ver o discurso público de alguns magistrados para ver que eles têm uma agenda política». Mais: o bastonário acusou o poder judicial de estar «empenhado em derrubar o primeiro-ministro». De facto, nota-se bastante. Nota-se que alguns defendem o primeiro-ministro para além do razoável, e nota-se que outros o querem liquidar a qualquer preço. Ambos por razões políticas, e não, como seria de esperar, por haver, ou não, matéria criminal. Não terá sido por acaso que Cândida Almeida propôs que os magistrados possam ser escutados como qualquer outro cidadão, a pretexto de que o combate à violação do segredo de justiça seria, assim, mais eficaz. É que os magistrados também são suspeitos de violação do segredo de justiça, para não dizer os principais suspeitos, obviamente em nome da tal agenda política.
MADUREIRA, O MACACO. Só agora tomei conhecimento do livro do sr. Madureira, vulgo o Macaco, mas a prosa não perdeu actualidade. Gostei, especialmente, daquela passagem que reza assim: «Surgiu a ideia de criar os ultras portugal com elementos dos super dragões e da claque do Sporting. A primeira viagem foi contra a Itália. (...) No caminho, o Borrego lançou um concurso que consistia em ver qual era a claque que mais roubava (...) Foi o caos em Andorra! Lojas e mais lojas cheias de máquinas de filmar, roupa, tabaco...Tudo à mão de semear. Ficámos em transe.» Para o caso de alguém não saber quem é o sr. Madureira e onde pendura o pote, registe-se que o sujeito é o chefe da claque «Super Dragões», mas bem podia ser dos «No Name Boys» ou da «Torcida Verde».

3 de março de 2010

CURIOSIDADE MÓRBIDA. Presumo que o Pedro Tadeu não faz parte do quadro de administradores de empresas em crise que auferem salários astronómicos, não pertence à classe de políticos profissionais que simultaneamente cobram milhares de euros nos seus escritórios de advogados, nem integra o grupo de directores de jornais que ganham salários obscenos. Assim sendo, defende que «as declarações de impostos (...) deveriam ser públicas», pela simples razão de que há inúmeros pelintras que procuram esconder a penúria em que vivem que ele, Tadeu, gostaria de conhecer. Se mais razão não houvesse para não tornar públicas as declarações de impostos, sejam elas de quem for, aqui está um bom motivo.
COISAS QUE NÃO SE PERCEBEM. Não sei se os factos agora conhecidos, que não terão sido devidamente investigados, são, ou não, relevantes. Há, no entanto, um dado que não bate certo: se Madeleine McCann foi morta pelos pais, ainda que por acidente (como sustenta o ex-inspector Amaral), por que não deixaram eles que o caso caísse no esquecimento logo após ter sido arquivado por falta de provas? Depois de terem sido julgados e condenados na praça pública com a conivência — para dizer o mínimo — das autoridades judiciárias, a desacreditada justiça portuguesa arrisca-se a cair no ridículo.

2 de março de 2010

VERGAR A ESPINHA. Como diria o outro, cada um trata a coluna vertebral conforme entender. O problema é que o vergar da espinha de uns dificulta a vida aos que não a vergam, e quando falamos de fundamentalismo islâmico nem é preciso entrar em detalhes. O pedido de desculpas aos «descendentes de Maomé», ainda a propósito dos cartoons dinamarqueses, é um bom exemplo do que falo, e um péssimo sinal.
COISAS BOAS. Ainda há pouco alguém dizia que Paulo Moura é o nosso melhor repórter, e não há dúvida de que as reportagens do Haiti e da Madeira o comprovam. Mas Paulo Moura é, também, um excelente cronista, como este texto bem o demonstra. E já que falo de cronistas, de bons cronistas, façam o favor de ler Ferreira Fernandes no DN de hoje.

1 de março de 2010

LI E GOSTEI (13)

Frank Sinatra, holding a glass of bourbon in one hand and a cigarette in the other, stood in a dark corner of the bar between two attractive but fading blondes who sat waiting for him to say something. But he said nothing; he had been silent during much of the evening, except now in this private club in Beverly Hills he seemed even more distant, staring out through the smoke and semidarkness into a large room beyond the bar where dozens of young couples sat huddled around small tables or twisted in the center of the floor to the clamorous clang of folk-rock music blaring from the stereo. The two blondes knew, as did Sinatra's four male friends who stood nearby, that it was a bad idea to force conversation upon him when he was in this mood of sullen silence, a mood that had hardly been uncommon during this first week of November, a month before his fiftieth birthday.

Gay Talese
, Frank Sinatra Has a Cold, incluído no volume The Gay Talese Reader: Portraits and Encounters

25 de fevereiro de 2010

SÓ PARA CHATEAR. Porque me apetece chatear os detractores dos e-books (poucos, mas bons), damas e cavalheiros: acaba de me chegar o nook, a minha quarta maquineta do género. Transferidos os livros do modelo anterior (a primeira versão do Sony Reader), inaugurei a novíssima coisa com O Vinho do Porto, de Camilo (do outro também tenho ali), um texto que descobri na internet que provavelmente nunca leria caso não fosse a dita, e que não me passa pela cabeça ler no écran do computador. Tem defeitos, a geringonça? Alguns que eu já conhecia e outros que vou detectando, embora a compra signifique que as vantagens superam os defeitos, pois resultou de uma análise dos prós e dos contras, e da comparação com a concorrência. O écran táctil é uma miragem (só funciona numa pequena área), a luz embutida continua ausente, e quer-me parecer que a bateria não aguenta o que se propagandeia. Estes são, para mim, os defeitos, estranhamente por corrigir desde os primeiros modelos, que já possuíam estas características. O resto é excelente, a começar pelo écran, realmente muito bom. A possibilidade de adquirir instantaneamente um dos milhares de títulos ao alcance de um download não me seduz, e duvido que algum dia me seduzirá. Prefiro o papel se os títulos estiverem disponíveis em papel, mesmo que isso signifique pagar mais. O e-book é um complemento dos livros em papel, não um substituto dos livros em papel. Pelas razões que já expliquei até à exaustão, e não vou repetir.

24 de fevereiro de 2010

O MEU NOME É JOMBA. Uma limpeza no computador permitiu-se descobrir uma pérola que eu julgava perdida. Ora ouçam lá.

23 de fevereiro de 2010

NOBRE, MAS POUCO. Como cidadão e médico, Fernando Nobre tem um percurso notável. Já como político, tudo o que dele se sabe é que participou numa convenção do PSD, integrou a comissão política da candidatura de Soares à Presidência da República, foi mandatário nacional do Bloco nas eleições europeias, e membro da Comissão de Honra do candidato social-democrata à Câmara de Cascais. Resumindo, não tem currículo político, e eu não acredito que a ausência de currículo político seja, como alguns dizem, uma mais-valia. Dizem as más-línguas que a candidatura do presidente da AMI terá sido «estimulada» por Mário Soares, que verá nela uma pequena vingança sobre o ex-companheiro Alegre, que há quatro anos lhe impôs uma derrota humilhante. Embora Soares já tenha dito que votará no candidato que o PS designar, poderá ser. Uma coisa, porém, convém recordar: Fernando Nobre acha que os membros do Hamas que lançam rockets contra Israel não são terroristas mas «resistentes» (ver aqui), facto que ainda não vi mencionado nas biografias que por aí se têm publicado. Um pequeno detalhe, bem sei, mas um pequeno detalhe que é todo um programa.

22 de fevereiro de 2010

A FORÇA DO HÁBITO. Como o João Gonçalves, também acho deplorável que Alberto João Jardim «tivesse pedido aos jornalistas que evitassem "especulações" e "dramatizações"» para não prejudicar o turismo. Mas é preciso não esquecer que Alberto João Jardim está demasiado habituado a mandar nos jornais e nos jornalistas, pelo que o gesto de pedir é já um progresso.
Muito apropriado aos tempos que correm.

18 de fevereiro de 2010

TELHADOS DE VIDRO. Já se percebeu que as audições parlamentares dos jornalistas sobre as alegadas tentativas de Sócrates controlar os media não vão surtir o efeito desejado. Nem para os que pretendem que elas vão num determinado sentido, nem para os que pretendem o contrário. Numa coisa, porém, podem dar resultados: é bem capaz de lá surgirem episódios que não abonem os jornalistas, como este bem o demonstra. Não que isso seja mau em si mesmo ou que não tenha o seu interesse, nalguns casos até seria do interesse público, mas porque isso seria um caso em que a emenda seria pior que o soneto.
O animal ferido.

17 de fevereiro de 2010

O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (2). Como não bastasse o escarcéu com um caso em que não se vislumbra onde está a notícia, o circo saiu à rua.
ESCREVER BEM. Um belo texto que só agora descobri, e que devia ser lido com atenção por todos quantos fazem da escrita uma actividade permanente.

15 de fevereiro de 2010

VENTOS DE MUDANÇA. Mantenho o que disse sobre o que se tem dito do primeiro-ministro acerca das escutas e doutras trapalhadas (continuo a discordar dos pressupostos em que assentaram a generalidade das críticas), mas não há dúvida de que começam a ser demasiados os casos em que o nome do primeiro-ministro aparece envolvido. Como dizia o Francisco num programa de televisão, cada vez que se arrasta uma cómoda (não me lembro se foi exactamente assim que ele disse, mas o sentido era este), lá está o primeiro-ministro. Não há, até ver, matéria criminal, mas o mesmo já não se pode dizer quanto a matéria política, que chega e sobeja. Não será por acaso que nos últimos dias surgiram dois candidatos à liderança do PSD depois de tantos meses em que Passos Coelho não teve concorrência. Cheira a poder no PSD, não há dúvida que cheira, pois é cada vez mais improvável que o PS reforce a votação caso haja eleições antecipadas, e nem me admiraria que as perdesse.
O fim do carnaval lusitano.

11 de fevereiro de 2010

DEMAGOGIA ASFIXIANTE. Apesar de não resistir aos factos, que insistem em contradizê-la, a teoria da «asfixia democrática» vai de vento em popa. Raramente passa uma semana sem que Eduardo Cintra Torres, Pedro Lomba, José Manuel Fernandes, Helena Matos, Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Rui Ramos, Constança Cunha e Sá, João Pereira Coutinho, João Miguel Tavares, Alberto Gonçalves, Baptista-Bastos, Vasco Graça Moura, Henrique Monteiro, Paulo Tunhas, Jaime Nogueira Pinto, Henrique Raposo e muitos outros não caiam em cima do Governo, com razão e sem ela, em publicações tão distintas como o Público, o DN, o Correio da Manhã, a Sábado, o Sol, o i, o Expresso ou o Jornal de Negócios — e só para falar da imprensa e dos nomes sonantes que nela colaboram. Seria isso possível caso vivêssemos num clima de «asfixia democrática»? Já disse e repeti que não alinho em patranhas — por mais jeito que me dêem, por mais que reforcem a minha causa, por mais que derrubem quem não merece estar de pé. Mentiras são mentiras, e eu não considero que as mentiras se desculpam quando usadas contra quem não simpatizo. Desconfio, aliás, que produzem o efeito contrário ao que pretendem, e estou mesmo convencido de que não sou só eu que me inclino a simpatizar com quem é vítima da mentira — e por várias vezes saí em defesa de quem discordo por considerar ignóbil tal prática. Desculpem lá a maçada, mas eu não duvido que existe liberdade de expressão, pelo menos a liberdade de expressão que se diz estar em causa, como também não duvido que a «asfixia democrática» é uma belíssima treta. O Governo está disposto a fazer o que estiver ao seu alcance para controlar os media e/ou afastar quem o incomoda? Poderá ser, mas eu duvido. Duvido porque isso seria uma estupidez, e estúpido é coisa que Sócrates não é. Mas concedo o benefício da dúvida, que aqui passamos dos factos para as opiniões — e cada um é livre de pensar o que muito bem lhe apetecer. Já os factos são o que são — e é sabido que os factos não se discutem.
COISAS SIMPLES. Cada vez tenho mais dificuldade em julgar as imagens que me chegam de cenários de guerra, terramotos e coisas afins. (Continue a ler aqui.)

9 de fevereiro de 2010

BLOGUE SEGUE DENTRO DE MOMENTOS. Razões de ordem técnica, que espero solucionar nas próximas horas, tem-me mantido afastado do blogue muito mais do que eu gostaria. Voltarei logo que o problema esteja resolvido.

5 de fevereiro de 2010

REVOLTANTE. Independentemente de quem prejudica ou beneficia, a justiça portuguesa começa a causar-me vómitos. Como um cavalheiro com responsabilidades no sector há pouco dizia num programa de televisão, as fugas ao segredo de justiça podem não vir, apenas, dos juízes, advogados ou polícias. O cavalheiro lembrava, com ar de quem acreditava no que estava a dizer, que as fugas ao segredo de justiça podiam vir da menina das fotocópias, da senhora da limpeza ou do contínuo, como se todos nós que o estivéssemos a ouvir fossemos uma cambada de estúpidos. O mais revoltante é constatar que estes sujeitos são intocáveis, digam o que disserem, façam o que fizerem.
CALHANDRICES. Como diria um político que se preze, aguardo pormenores do «caso Mário Crespo» para eventualmente me pronunciar. Valeu, no entanto, a calhandrice, uma bela palavra que terá sido pronunciada por um membro do Governo (Santos Silva, ao que me dizem) com o intuito de reduzir «o problema a resolver» à insignificância, e que eu, na minha santa ignorância, desconhecia. Quanto ao essencial, o insuspeito Vasco Pulido Valente já disse o que havia a dizer. O resto são pormenores, os tais pormenores que eu desconheço, mas que dificilmente mudarão o essencial.

4 de fevereiro de 2010

FEMINISTAS. De facto, o silêncio das feministas diante a obrigatoriedade das muçulmanas usarem burqa ou nikab, mesmo em países cujos regimes não os exigem (os europeus, por exemplo), é incompreensível. Isto, claro, em teoria, que a prática nos foi habituando a ver as coisas doutra maneira. As feministas sempre se distinguiram por uma particularidade: a opressão sobre as mulheres varia consoante quem as oprime, e para as feministas há opressores que merecem benevolência. Que o macho lusitano bata na fêmea porque a tradição não se muda por decreto, é inadmissível, e eu concordo. Mas que os regimes muçulmanos imponham às suas mulheres práticas destas ou ainda piores, fazendo delas meras escravas sem quaisquer direitos, não incomoda as feministas — e se alguém faz algum reparo logo vêm lembrar que é a cultura deles, que é preciso respeitar, mesmo que a opressão ocorra numa comunidade residente num país que abomine (e proíba) tais práticas. E quem não concordar com as feministas sofre, evidentemente, de islamofobia, um atestado que hoje se passa por tudo e por nada e que tudo reduz e simplifica, e que mais não é do que uma forma de varrer para debaixo do tapete um assunto que, desconfio, as incomoda, apesar de aparentarem o contrário.

2 de fevereiro de 2010

LI E GOSTEI (12)

Há trinta e cinco anos que um bretão anónimo lavrou na Westminster Review a condenação do vinho do Porto como deletério e empeçonhado por acetato de chumbo e outros tóxicos anglicistas. O homem, pelas rábidas violências do estilo, parece ter redigido a calúnia depois de jantar, numa exaltação capitosa do tanino do alvarilhão que ele confundiu com as aflições dos venenos metálicos. Relembra lamentosamente, com a lágrima das bebedeiras ternas, o século dezoito, em que o genuíno licor do Porto era um repuxo de vida que irrigara a preciosa existência de grandes personagens da Grã-Bretanha. Recorda Pitt e Dundas, Sheridan e Fox, famigerados absorventes do nosso vinho. Diz que Lord Eldon e Lord Stowel, graças infinitas ao Porto, reverdejaram e floriram em velhos; e Sir William Grant, já decrépito, bebia duas garrafas de Porto a cada repasto, para conservar cristalinamente a limpidez das suas faculdades mentais e a rija musculatura de todos os seus membros já locomotores, já apreensores, e o resto. Lamenta que Pitt, débil de compleição, com o uso imoderado deste tónico, e em resultado de pletoras frequentes combatidas com amoníaco e sulfato de magnésio, vivesse dez anos menos do que viveria, se possuísse o incombustível estômago curtido do venerável Lord Dundas.

Camilo Castelo Branco, O vinho do Porto (actualizada a grafia)

1 de fevereiro de 2010

DAS BOAS INTENÇÕES. Como já disse a propósito doutros casos, considero as medidas como esta uma estupidez sem nome. Pior: considero-as uma estupidez perigosa, pois tratam-se de medidas que só reforçam o que pretendem condenar. Como disse, e bem, Helena Matos, «o paternalismo folclórico da fase multicultural vai agora dar lugar ao paternalismo jacobino da fase nacional». De facto, passar do oito ao oitenta, complica em vez de resolver. O islamismo radical não pára, como se vê, de receber apoios, mesmo que involuntariamente. Lamentável e ironicamente, de quem mais os pretende combater.
FERREIRA FERNANDES LAPIDAR. «A Grã-Bretanha tem duas fraquezas notórias: o desinteressante que está por cima da sua própria toalha de mesa e o seu interesse pelo que está debaixo dos lençóis alheios.»

29 de janeiro de 2010

DECEPCIONATE. Se me perguntarem que balanço faria da administração Obama, responderia com uma só palavra: decepcionante. Não que eu esperasse grande coisa da administração Obama, mas porque não esperava tão pouco. Nada mudou no plano internacional, muito menos para melhor. Hillary foi à China, e «esqueceu-se» dos direitos humanos. Em Israel continua tudo na mesma. Mantêm-se as ambições nucleares do Irão e da Coreia do Norte, se não foram reforçadas. Não há progressos visíveis no Afeganistão, uma guerra que não só não acabou (como Obama prometeu) como ainda absorveu, por ordem do mesmo Obama, mais uns milhares de soldados. Os militares do Iraque eram para regressar, mas por lá continuam, pelo menos até ao próximo ano. Guantánamo continua aberto. No Iémen, seis agentes da CIA mortos de uma vez só dão sinais de perigosa incompetência da outrora temível polícia. No plano interno, os milhões injectados nas grandes empresas financeiras ficaram aquém do objectivo (para não falar dos milhões injectados com resultados catastróficos), e o desemprego, que o pacote governamental também pretendia combater, não diminuiu. O seguro de saúde continua por aprovar, e se for aprovado (cada vez mais improvável) será uma pálida imagem do que Obama anunciou. Sobram, neste ano e pouco de mandato, os discursos, quase sempre excelentes, raramente eficazes. George W. Bush não deixou grandes saudades, mesmo ao Partido Republicano. Mas não há dúvida que a sua imagem melhora de dia para dia, e que não era tão mau como o pintaram.

28 de janeiro de 2010

CONSELHOS PRESIDENCIAIS. Não sei se a carne de porco é melhor que viagra para aquilo em que estão a pensar, até porque do segundo ainda não experimentei. Mas amanhã, que a meteorologia promete sol no quintal, talvez grelhe umas fêveras.
PROSTITUIÇÃO. Ora aqui está um sector de actividade em que somos competitivos mesmo sem ajuda do Estado.

26 de janeiro de 2010

MILAGRES. Não sou crente, mas nada tenho contra quem é. Mas por que razão os repórteres repetem que estamos diante «um milagre» sempre que, no Haiti, se descobre um sobrevivente improvável? Um milagre, que eu saiba, atribui-se a causa divina, ao sobrenatural, e como tal é entendido pelo comum dos mortais. Bem sei que os «milagres» de que falam os repórteres extravasam, e muito, o âmbito religioso, mas é perfeitamente evitável — e nada rigoroso do ponto de vista dos factos.

22 de janeiro de 2010

DEPUTADOS. Leis claras e simples? E como vão alimentar-se os escritórios de advogados com leis claras e simples?

21 de janeiro de 2010

ARREFECIMENTO GLOBAL. Que existem dúvidas acerca do aquecimento global, já se tinha notado. Que há quem aproveite a teoria para barafustar contra o capitalismo e anunciar o fim do mundo, constata-se a cada passo. O que não se suspeitava é que a teoria do aquecimento global pudesse chegar a um ponto em que não tem ponta por onde se lhe pegue. Como esta notícia demonstra, a entidade mundial que estuda as mudanças climáticas comete erros que nem o mais incompetente se atreveria. Mais: os factos em que assenta um dos principais indicadores do aquecimento global (o desaparecimento dos glaciares nos Himalaias) roçam o anedótico.

20 de janeiro de 2010

NÃO ME FAÇAM RIR. Marcelo saiu da TVI por alegadas pressões do Governo, então do PSD. Marcelo vai sair da RTP por alegadas pressões do Governo, agora do PS. Não duvido um instante que Sócrates gostaria de calar quem não pensa como ele — como, aliás, qualquer outro primeiro-ministro em exercício, da esquerda, ou da direita. Mas uma coisa é querer, outra é poder. Chamem-se o que quiserem, mas ainda me hão-de convencer de que a saída de Marcelo da RTP se deveu a pressões governamentais, ou que o Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes acabou pelos mesmos motivos. Convém lembrar que os politiqueiros aproveitam ocasiões como esta para facturar da forma que mais lhes convém, e também é sabido que os métodos utilizados incluem tirar olhos. Chamem-me presunçoso, mas eu não deixo que me impeçam de ver com tanta facilidade. Calar Marcelo? Não me façam rir. Como se fosse possível calar Marcelo, e não tivesse Marcelo mais nenhuma tribuna que lhe conceda espaço idêntico ao que dispõe na televisão pública. Aliás, tenho para mim que Marcelo é mais incómodo ao seu próprio partido (o PSD) que ao PS, esteja este, ou não, no Governo. Mas disso não é oportuno falar.

19 de janeiro de 2010

CHÁVEZ. Demorou, mas não falhou. Os Estados Unidos aproveitaram a tragédia do Haiti para ocupar militarmente o país. Até ver, Hugo Chávez está sozinho neste «raciocínio», mas quando houver notícias de que a tropa americana usou meios violentos para impor a ordem, um cenário cada vez mais provável, quero ver se a tese se vai ficar pelo pantomineiro da Venezuela.

18 de janeiro de 2010

A CARTA. Lida a missiva de Fernando Lima ao Expresso, constato que o assessor do Presidente da República se «esqueceu» de três coisas. Esqueceu-se de explicar a razão por que foi afastado do cargo de assessor de imprensa; esqueceu-se de dizer que o mesmo Presidente que não caiu na esparrela dos «arquitectos da intriga» podia ter «matado» o assunto à nascença se tivesse negado a suspeita das escutas em vez de as alimentar com um silêncio que o tempo revelaria comprometedor; esqueceu-se de dizer que o PR não negou a suspeita das escutas na tristemente famosa comunicação ao país em que meteu os pés pelas mãos e não esclareceu coisa nenhuma. Quanto ao resto da missiva, tudo previsível. O assessor de Cavaco criticou ao de leve o Público (considerou que o jornal então dirigido por José Manuel Fernandes transformou um «gesto de impaciência» em «suspeitas gravíssimas»), e arrasou o Diário de Notícias por este ter publicado um e-mail onde ficou demonstrado que o caso das escutas era mais que «um episódio pícaro da época estival», como Fernando Lima agora nos pretende fazer crer. Resumindo, a carta de Lima é mais um episódio lamentável e perfeitamente escusado, e está longe de ser uma boa defesa do seu «bom nome profissional», como diz ter pretendido.
Texto obrigatório do Francisco.
E noivos de fato-macaco?

15 de janeiro de 2010

HAITI. Por mero acaso, li, há pouco, El reino de este mundo, do cubano Alejo Carpentier, um livro que me abriu o apetite para Los pasos perdidos (que também já li) e outros que hão-de vir. El reino de este mundo é um romance que tem como pano de fundo a revolução haitiana, e personagens extraordinárias como Mackandal ou Ti Noel. Não acrescenta um milímetro à compreensão da tragédia haitiana, mas merece, por si só, uma leitura, e sempre acrescentará alguma coisa a quem quiser conhecer melhor o país.
INDEPENDÊNCIAS. Antigamente, era pecado zurzir em quem estava no poder, e geralmente pagava-se cara a ousadia. Hoje, é pecado defender quem está no poder, embora os custos sejam infinitamente menores. (Continue a ler aqui.)

14 de janeiro de 2010

JL. Não há uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão, como dizia o outro, mas a notícia de que o Jornal de Letras passou a estar na Internet agradou-me. Como em tempos expliquei, deixei de ler o JL porque me fartei do jornalismo de capelinha, de ver gente promovida cujo único mérito era possuír currículo antifascista, e de ver silenciado quem não merecia por não ter esse currículo. Por falta de espaço, poucos anos depois desfiz-me do arquivo, onde se incluía o número um (ou zero, se houve). Provavelmente o JL continua como sempre foi, e nesse caso não me interessa. Mas como não tenho de me deslocar ao quiosque, não custa nada voltar a tentar.

13 de janeiro de 2010

JUÍZOS DISFARÇADOS DE NOTÍCIAS. As notícias sobre o caso McCann, pelo menos as notícias que eu vi na RTP, são tão enviesadas que chegam a ser vergonhosas. Não é preciso conhecer grande coisa do processo que opõe os McCann a Gonçalo Amaral para perceber que os jornalistas estão com Gonçalo Amaral, e contra o casal McCann. Além de o trabalho dos jornalistas não ser esse, parece que não lhes passa pela cabeça a mais leve dúvida. Para um caso em que praticamente só existem dúvidas, não deixa de ser extraordinário.
ALDRABICES. No melhor pano cai a nódoa, mas ver a própria justiça envolvida num caso de polícia, é o cúmulo. Que a justiça já não surpreende, é um facto que todos os dias se confirma. Mas já me surpreende que ninguém faça o mais leve comentário.

12 de janeiro de 2010

O QUE INTERESSA. Alcançado um acordo entre Governo e sindicatos dos professores, chegou a hora de a discussão se centrar «em redor do ensino», «da escola», e «da educação», diz o Francisco, segundo ele o «que realmente interessa». Acrescenta ainda: «É o mínimo que se pede depois de um ano de acusações, de computadores Magalhães e de ressentimento.» Ora, há quantos anos se anda a pedir que se discuta o que realmente interessa? Que me lembre, desde sempre, e sempre o que realmente interessa foi preterido pela questão dos professores, pelo estatuto dos professores, pela avaliação dos professores, pelos estados de alma dos professores. Estarei a ver mal, mas não vislumbro nada de substancial que o acordo agora alcançado tenha mudado (o secretário-geral da Fenprof diz que estamos perante o mais importante acordo alcançado pelos professores nos últimos 20 anos, o que não deve ser bom sinal). A próxima etapa há-de ser os professores — a avaliação dos professores, o estatuto dos professores, a carreira dos professores, o costume. Não é um palpite. É a ordem natural das coisas.

8 de janeiro de 2010

LI E GOSTEI (11)

Senhora! O sacerdócio da imprensa, cuja invenção se deve a um agiota do século XIV, é a mais augusta das funções, depois da «Arte de cozinha». Ocioso seria provar esta atrevida proposição, quando os exemplos saltam como camarões em terra seca. A rotundidade dos abdómenes, e a estupidez prodigiosa dos proprietários dos ditos, senhora, é a mais persuasiva prova de que a culinária tem sobre a imprensa a primazia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome, embevecidos, no paradoxo da ciência.

Camilo Castelo Branco, Cenas da Foz (actualizada a grafia)
2666. Tarefa para 2010: contar os assassinatos descritos no livro do ano.

7 de janeiro de 2010

LOIRAS COM ATITUDE. Como se lembrará quem leu Montalbán, Pepe Carvalho tinha a mania de queimar livros. Não me ocorre que livros, mas eram livros que mereciam tudo menos a fogueira. Ocorreu-me este episódio enquanto lia a entrevista de Margarida Rebelo Pinto, a «escritora» de best sellers (Alexandre O'Neill chamou-lhes bestas céleres) que se define como uma «loira com atitude», e que tem em tão alta consideração o que escreve que chega a plagiar-se a si mesma. Disse ela na entrevista ao i: João Pedro George não tem autoridade para fazer crítica literária. E porquê? Porque, imaginem, não é formado em letras. Recorde-se que João Pedro George demonstrou, com exemplos, que a criatura se plagiou a si mesma, e mostrou, também por A+B, que a «obra» da criatura é uma belíssima trampa. Plágio que a «escritora» voltou a negar, como já tinha negado na entrevista a Carlos Vaz Marques para a Ler (e que por essa mesma razão ia acabando mal, como se pode ver aqui), como se fosse possível negar uma evidência tão facilmente demonstrável. Provavelmente os livros de Margarida escapariam à fogueira de Pepe Carvalho, porque Pepe Carvalho não queimava qualquer um. Também não simpatizo com livros na fogueira, que me fazem lembrar práticas que abomino. Mas que há livros que não lhes reconheço outra utilidade, lá isso há.

5 de janeiro de 2010

NOVO ANO, VIDA NOVA. Sou leitor da Sábado desde os primeiros números. Por considerar que a revista é fiável, e por ter colaboradores que aprecio. Sempre parti do princípio que o jornalismo que por lá se pratica era sério, e que assentava em factos facilmente verificáveis. A avaliar pelo silêncio face ao protesto do Diário de Notícias, que acusou a revista de falta de seriedade num trabalho sobre publicidade governamental, parece que não é assim. Provavelmente à espera que a coisa passe e o assunto caia no esquecimento, a Sábado optou pelo silêncio. É uma estratégia como qualquer outra, provavelmente a mais utilizada, possivelmente a mais eficaz. Mas eu não me esqueço facilmente. Como aqui escrevi ainda há pouco, abomino este tipo de comportamentos. A Sábado passou, portanto, a integrar a lista de publicações dispensáveis.

4 de janeiro de 2010

CAMILO, SEMPRE. Gastei umas horas a retirar da internet (e a formatar a preceito) nove livros de Camilo (A Senhora Rattazzi, Voltareis oh Cristo, O vinho do Porto, O Olho de Vidro, Suicida, Agulha em Palheiro, Anos de Prosa, Cenas da Foz e Cenas Contemporâneas, todos disponíveis aqui) que eu não sabia que existiam em formato digital, e que já estão no Sony Reader. Para os que passam a vida a zurzir no formato digital, com razão e sem ela, digam-me lá uma coisa: onde conseguiria eu arranjar estas obras? Sei, por experiência própria, que jamais teria lido alguns livros caso não existissem em formato digital, e o caso de Camilo é só um exemplo. Não por questões de gosto ou de comodidade, mas porque são livros que não se encontram noutro formato. Escusado será dizer que isto justifica, por si só, o meu entusiasmo pelo formato digital, embora o troque pelo formato tradicional caso esteja disponível e seja melhor.