16 de julho de 2003
15 de julho de 2003
Face às "evidências" que demonstram o "embuste em que se baseou a invasão do Iraque", o senhor Vital Moreira acha que "os variegados campeões da guerra" lhe devem uma explicação. E pergunta: "Por que esperam?" Ora, não querendo eu responder por eles, diria que os "campeões da guerra" esperam que Vital Moreira se retrate de todas as mentiras que não se cansou de escrever sobre a invasão do Iraque.
Segundo o "Diário de Notícias", continua a discutir-se, na Assembleia da República, que vai a Cancun participar num encontro parlamentar da Organização Mundial do Comércio. Será que esta gente não tem vergonha na cara?
14 de julho de 2003
A revista "Grande Reportagem", que parece ter os dias contados (vai passar a suplemento do "Diário de Notícias"), é uma publicação que se lê com prazer. Mais do que o conteúdo, a "GR" é uma revista muito bem escrita. Nota-se ali a mão de Francisco José Viegas, um escritor de quem só tenho lido as crónicas no "Jornal de Notícias" (muito bem escritas, aliás) e, mais recentemente, os textos publicados no Aviz. A "Grande Reportagem" mereceu, em tempos, uma crónica na minha página pessoal, onde eu manifestei reservas aquando da saída de Miguel Sousa Tavares, então director. Contrariamente ao que eu temia, não tenho dúvidas de que a revista mudou para melhor. Não propriamente ao nível do conteúdo, que me parece mais ou menos na mesma, mas ao nível da escrita e dos colunistas (estou a lembrar-me das crónicas de António Sousa Homem, por exemplo). Francisco José Viegas está de parabéns.
«The Iraqi government in the 1990s admitted to U.N. weapons inspectors that it had produced 8,500 liters of anthrax and a few tons of VX. Where are they?», pergunta Robert Kagan no Washington Post. Esta e outras perguntas, que os mais recentes acontecimentos procuram escamotear, continuam por responder.
11 de julho de 2003
Manuel Falcão chama a atenção para o "Código de Conduta" que o "Expresso" estará em vias de publicar. «A dúvida está em saber como regulamentam a publicação de fretes e em conhecer o livro de estilo da publicação de escutas telefónicas», adverte o jornalista. Os Marretas (atenção às «pequenas histórias sobre uma curta viagem» à Alemanha) tratam o semanário do arquitecto Saraiva por "jornal do saco". Está visto que há por aí um ódio de estimação ao "Expresso". E, já que se fala de jornais, atenção ao Guerra e Pas, onde se faz uma interessante análise sobre a imprensa portuguesa ("Visão", "Público" e "Expresso", até ver). Ainda em matéria de novidadas fresquinhas, Miguel Esteves Cardoso acha que os blogues constituem uma autêntica «revolução». E a entidade do Pipi conheceu mais um palpite: Rui Ângelo Araújo desconfia que se trata de João Pereira Coutinho, e diz não estar sozinho: há, pelo menos, mais uma pessoa que assim pensa. E mais outra, que sou eu.
«A recente guerra no Iraque não provocou apenas baixas militares: também causou baixas no jornalismo de referência», diz José Manuel Fernandes no editorial de hoje. Segundo o director do "Público", as baixas foram a BBC e o "New York Times", embora eu pense que tenha havido muitas mais (ver Valete Fratres!). Ainda no "Público" de hoje, especialmente para quem gosta de ler, a crónica de João Bénard da Costa.
Afinal, não foi só no dia da bola que os nossos deputados se baldaram aos trabalhos parlamentares em quantidades industriais, avisa o "Diário de Notícias" de hoje. Vinte e três por cento dos ditos senhores (65, pelas minhas contas) faltou ao plenário do dia 11 de Junho, um dia que teve a particularidade de ficar entalado entre os feriados do Dia de Portugal e de Santo António.
10 de julho de 2003
Mário Bettencourt Resendes atribui o abaixamento das vendas da imprensa generalista por todo o mundo ao «progresso dos media electrónicos», à «modificação de hábitos quotidianos» e ao «envelhecimento da idade média dos leitores». Mas acrescenta que, em Portugal, «o número de leitores de jornais, designadamente diários, aumentou ao longo da última década». Assim sendo, como explicará ele a queda de vendas do "DN"? Não será porque aligeirou demasiado o conteúdo, aproximando o "DN" da chamada imprensa popular?
"Polícia que leva nos cornos" é o título da crónica de Francisco José Viegas, no "Jornal de Notícias" de hoje. Para ler e recomendar.
9 de julho de 2003
"História Secreta de Uma Novela" é um "livrinho" que me trouxe à memória gratas recordações. Digo "livrinho" porque o formato (minúsculo) me fez lembrar a colecção "Seis Balas", salvo erro editada pela Agência Portuguesa de Revistas, que teve o mérito de me incutir o hábito da leitura. Para quem não sabe ou não se lembra, a colecção "Seis Balas" era constituída por uns livrinhos de "cowboys" escritos por autores portugueses disfarçados de americanos. As estórias eram todas iguais e invariavelmente terminavam com o artista a casar com uma boazona. O livro de Vargas Llosa fez-me ainda lembrar "Cartas a Um Jovem Poeta", de Rilke, que eu comprei numa livraria das Twin Towers de Nova Iorque com o intuito de sobre ele escrever um ensaio. Lembro-me que foi o primeiro livro que eu vi num formato tão pequeno, e que decidi comprá-lo porque eu gostava de Rilke. Além destas gratas lembranças, "História Secreta de Uma Novela" não é a "obra-prima" que me recomendaram, mas quase. É uma estória despretensiosa (na realidade é o texto de uma conferência na Washington State University, em 1968), que se lê num par de horas e que deixa água na boca. Há livros assim, mas cada vez menos. Nos últimos tempos só Francisco Coloane, um chileno que escreveu estórias belíssimas e onde hei-de voltar.
8 de julho de 2003
Os portugueses emborracham-se antes de ir para a estrada. Se não se emborracham, vão para a estrada como quem vai para uma corrida. Às vezes misturam as duas coisas — e com mais frequência do que seria de imaginar. O resultado de tudo isto só podia ser catastrófico: mortos e feridos em barda, especialmente ao fim de semana. Dos 30.272 automobilistas controlados pela Brigada de Trânsito durante o mês de Junho, 1.011 beberam mais que o normal. Dos 520.533 veículos fiscalizados pela GNR no mesmo período, 17.357 foram apanhados em excesso de velocidade. Tendo em conta a escassa fiscalização das autoridades, quantos mais seriam apanhados com excesso de álcool ou velocidade caso houvesse mais fiscalização? O dobro? O triplo? Ou será que passaria a haver menos?
Tirando quando nos interessam, sondagens são sondagens. Mas a que o "Público" divulgou no último domingo, sobre o que as pessoas pensam da justiça portuguesa, parece-me muito próxima da verdade. Os portugueses acham que «existem dois pesos e duas medidas nos tribunais»; que «os ricos e os poderosos conseguem mais vezes o que querem dos tribunais»; que há demasiada lentidão nos processos e excesso de amnistias. Nada que já não se soubesse, evidentemente. Mas é sempre bom haver números que o confirmem.
7 de julho de 2003
O editorial de Nuno Pacheco no "Público" de domingo tresanda a anti-americanismo primário. E depois não gosta esta gente que lhe chamem anti-americanos primários, que eles dizem nada ter nada contra os americanos mas sim contra Bush-filho. Como ontem tiveram contra Clinton e anteontem contra Bush-pai, lembram-se?
Hoje apetece-me recomendar três cronistas brasileiros que leio regularmente. São eles Luís Fernando Verissimo (O Globo e O Estado de São Paulo), João Ubaldo Ribeiro (O Globo e O Estado de São Paulo) e Mário Prata (O Estado de São Paulo). Bem sei que deve haver mais cronistas interessantes no Brasil, mas tenho andado sem grande tempo para pesquisas. Se alguém me quiser recomendar algum, sou todo ouvidos.
4 de julho de 2003
Após semanas seguidas de chuva e de temperaturas baixas para a época, eis que chegou o Verão. Os americanos aproveitaram o dia de hoje (aniversário da independência dos EUA) para se escaparem para a praia, tanto mais que hoje se iniciou um fim-de-semana prolongado. O resultado desta ânsia de sol e de praia não podia ser pior: estradas entupidas, filas nos prontos-a-comer, gente em cada palmo de areia. Salvaram-me uma centena páginas de "The Happy Isles Of Oceânia", de Paul Theroux, o melhor escritor de viagens depois de Bruce Chatwin.
3 de julho de 2003
Tal como aconteceu com a descoberta de Fernando Pessoa e, mais tarde, António Lobo Antunes, a descoberta de Vergílio Ferreira foi um deslumbramento. Nelson de Matos lembrava recentemente, no Textos de Contracapa, alguns episódios passados com o autor de "Para Sempre", e chamou a atenção para "Alegria Breve", que considera «um dos mais enigmáticos e fascinantes romances da literatura portuguesa contemporânea». É lamentável verificar, sete anos após a sua morte, como Vergílo Ferreira está completamente esquecido.
2 de julho de 2003
À semelhança do que acontecia na China há uns anos atrás, onde o Dia Mundial do Combate à Droga seria comemorado com o fuzilamento de várias dezenas de traficantes e consumidores de droga, Luís Fernandes defendeu hoje, no "Público", o método dos chineses como «um acto importante». Porque «no combate à droga não pode haver cedências nem contemplações», argumenta. O senhor Fernandes fez-me lembrar que já vai sendo tempo de haver um debate sério sobre a legalização da droga, que eu defendo há muitos anos. Porque não começar este debate nos blogues?
1 de julho de 2003
Há por aí um ror de gente que não se cansa de lembrar que os chamados neoconservadores têm um passado de esquerda — ou mesmo de extrema-esquerda. Embora o (aparente) pudor os impeça de dizer o que pensam, é evidente que esta gente quer dizer que a mudança da esquerda para a direita constitui um pecado. Ora eu aconselharia a reflectir no seguinte: porque será que os esquerdistas se mudam com frequência para a direita e raramente se vê o contrário?
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