15 de setembro de 2010

MUDAM-SE OS TEMPOS. Carlos Cruz insurgiu-se, com razão, contra o julgamento de que foi vítima nos media, que de um modo geral o condenaram. Mas agora, que se desmultiplica em entrevistas em todo o lado com o propósito de demonstrar a sua inocência, já achará bem ser julgado pelos media? Será preciso dizer que, segundo esta lógica, o julgamento nos media é bom quando a sentença nos convier, e mau quando não convier?
INDIGNAÇÕES DE PACOTILHA. Anda para aí meio mundo indignado com a forma como Carlos Queiroz foi afastado da selecção, e estou em crer que alguns genuinamente. Mas o que diria esta gente se a federação da bola o tivesse despedido de outro modo e lhe tivesse pago os milhões a que teria direito por quebra de contrato? Estaria bem? Não seriam estes senhores os primeiros a indignarem-se caso isso sucedesse? Não tenho a mais leve simpatia por quem manda na bola, nem por quem manda nos mandantes da bola. Mas isto de criticar por ter cão e criticar por não ter acaba por demonstrar que os mandantes da bola talvez tenham alguma razão, e talvez por isso mereçam o benefício da dúvida.

13 de setembro de 2010

TIROS DE PÓLVORA SECA. Não sei se Carlos Cruz é, ou não, culpado do que foi acusado, mas convenhamos que é fraquinho o argumento segundo o qual o tribunal decidiu condená-lo com base em preconceitos e que a investigação terá andado a reboque da opinião pública. Como explicar tanto erro junto quando é sabido que o processo envolveu investigadores da Judiciária, magistrados do Ministério Público e cinco juízes? São todos preconceituosos? Todos incompetentes? Como é evidente, o argumento não é fácil de digerir.
CAMPANHA MEDIÁTICA. Carlos Cruz sempre foi, para os media, o rosto do processo Casa Pia. Por se tratar do arguido mais mediático, porque foi um profissional de televisão conhecido por todos e por todos respeitado. Não estranho, por isso, que surja em toda a comunicação social, que a comunicação social não tem obrigação de dar tratamento equivalente aos restantes arguidos nem funciona por quotas, ao contrário do que alguns julgam e outros desejariam. Posto isto, duvido que as constantes aparições de Cruz nas televisões e nos jornais o beneficiem aos olhos da opinião pública, apesar da ajudinha que lhe têm dado e da falta de profissionalismo com que alguns lidaram com o caso, como foi público e notório no Prós e Contras. Aliás, as explicações que Cruz entendeu dar na tentativa de demonstrar a sua inocência não têm, a meu ver, beneficiado a sua tese. Bem pelo contrário.
MONSTRUOSIDADES. Tirando Carlos Silvino, que confessou ter cometido alguns crimes de que foi acusado, nenhum dos restantes arguidos no processo Casa Pia diz ter praticado os actos pelos quais foi condenado. (Continue a ler aqui.)

8 de setembro de 2010

OBSCENO. Carlos Cruz passou a semana que antecedeu a sentença da Casa Pia a «perturbar a ordem e a tranquilidade públicas», como alertou o advogado José Maria Martins, que chegou a dizer que se fosse outro o arguido teria sido preso. Agora, depois de saber que foi condenado a sete anos de cadeia, colocou, na sua página pessoal, vídeos com que pretende demonstrar a sua inocência, matéria cuja divulgação terá sido proibida pelo tribunal. Como nada sucedeu até agora, como Carlos Cruz e seus advogados continuam a dizer o que muito bem entendem sem que nada lhes suceda e a fazer toda a espécie de ameaças sem que alguém se rale, tudo isto será normal. Anormal, pelos vistos, seria a justiça dar-se ao respeito e fazer-se respeitar.
SURPRESA. Depois de ter assumido que a perseguição aos homossexuais foi um erro, Fidel Castro não pára de surpreender. Agora defendeu o povo judeu, que considera «muito mais difamado que os muçulmanos» — e aconselha o regime iraniano a procurar entender os motivos pelos quais os judeus foram perseguidos ao longo da história. Mas há mais: Fidel admite que o modelo económico cubano deixou de funcionar. Ler para crer a entrevista da Atlantic Monthly.

7 de setembro de 2010

TRAULITEIRO PINTO. O bastonário da Ordem dos Advogados não conhece o processo, nunca viu o processo, mas acha que as penas de Carlos Silvino e de Carlos Cruz foram «excessivas». Já quando lhe perguntaram pelas vítimas, se tinha alguma coisa a dizer sobre as vítimas, o cavalheiro meteu os pés pelas mãos e refugiou-se em generalidades. Como demonstrou variadíssimas vezes durante o Prós e Contras sobre o processo Casa Pia, as vítimas, para ele, não contam, e nem se preocupou em disfarçar o desprezo que por elas sentia. Bem sei que a missão do sujeito é defender os seus pares, embora também aqui demonstrasse preferência pelos advogados dos arguidos, como lembrou um dos presentes no debate. Esperar-se-ia, contudo, mais substância e menos foguetório, embora já se soubesse que Marinho Pinto é mais para o tendeiro.

3 de setembro de 2010

BORGES. Onze centímetros de lombada, quase mil e setecentas páginas, mais de quilo e meio de peso. Eis a minha última aquisição, praticamente ao preço do transporte, depois de me ter cansado de esperar pela tradução inglesa (ou portuguesa), que a língua de Borges não é o meu forte. Como geralmente leio deitado, não vai ser fácil aguentar o peso, e o volume também não ajuda. Mas não vai ser por isso que vou deixar de o ler, deitado ou doutro modo. Só espero que não haja problema de maior quando, já a dormir, o livro me cair em cima, como sucede cada vez com maior frequência quando leio antes de adormecer.

2 de setembro de 2010

O MENOS MAU. O processo que ditará o afastamento de Queiroz da selecção nacional foi um bocado manhoso? Não há dúvida que foi. O ideal seria que corressem com ele logo que demonstrou que não servia, não há dúvida que seria. Acontece que despachá-lo dessa maneira teria custos muito elevados, que estariam agora a ser questionados caso tivesse sido esse o caminho. Como as coisas chegaram onde chegaram, abrindo-se a porta do despedimento por justa causa, não há o problema da indemnização por contrato não cumprido. Podia ter corrido melhor o processo? Podia. Podia ter sido melhor o desfecho? Duvido.

31 de agosto de 2010

UBALDO. Tenho ali Viva o povo brasileiro, que me custou os olhos da cara, e que procurei durante alguns anos. Li 89 páginas das 700, e confirmo que o livro é para ler em ocasiões especiais, quando estiver sedento de leituras e nada me satisfizer. Tal como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, um livro que sabe bem ter ao alcance da mão quando me cansar de leituras, e mais dois ou três de que agora não me lembro. Bem sei que isto é um juízo à priori, e se há juízos precipitados são os juízos à priori. Mas eu quero pensar que são bons, fora de série, excepcionais, e estou pouco interessado em saber que não é assim.
COISAS BOAS


Além do blogue, o Francisco Duarte Azevedo tem uma página pessoal. A imagem que aqui reproduzo, um acrílico sobre papel, é uma das várias que vale a pena ver.

27 de agosto de 2010

SILÊNCIO ENSURDECEDOR. O que mais impressiona nos casos de lapidação e outras práticas medievais, sempre por razões incompreensíveis ao comum dos mortais, é constatar-se que o Islão dito moderado não abre a boca sobre tais práticas. Quando se esperaria que os moderados fossem os primeiros a insurgir-se, até para demonstrar que não existe motivo para que se olhe para eles com desconfiança, os sujeitos não dizem um ai sobre o assunto, nem mexem uma palha para impedir a barbaridade. Depois queixam-se que há quem suspeite que eles são coniventes com tais práticas.
PANTOMINEIROS. Se ninguém rasgou as vestes por causa de um clube de strip perto do Ground Zero, porquê tanto alarido por causa de uma mesquita no mesmo local? A pergunta é de Luís Rainha, e encerra um raciocínio que pretende ser óbvio: as duas coisas são comparáveis, logo deviam ter reacções equivalentes. Acontece que as duas coisas não são comparáveis, como Rainha bem sabe. O que talvez não saiba é que as pessoas não são tão estúpidas como ele imagina, e que pantomineiros como ele se detectam à légua.

25 de agosto de 2010

DA POUCA-VERGONHA. Parece que a palmeira que domingo caiu em Porto Santo e matou uma pessoa e feriu outras duas era para ter caído em cima de Alberto João Jardim, como insinuou o próprio. «É muito estranho cair uma palmeira no meio de um comício do PSD», disse o presidente da Madeira. Como não foi assim, como a palmeira caiu em cima de cidadãos anónimos, não vai andar «à procura de arranjar culpados», que «todos os dias caem milhões de palmeiras em todo o mundo». Que a dita palmeira tivesse a raiz «completamente podre», como admitiu o autarca local, ou que o caso já tenha sido detectado há anos, como descobriu o Público, não importa. O que importa é que não caiu em cima dele, logo não vai andar para aí «a fazer demagogia». Quanto aos três desgraçados que levaram com a palmeira, pêsames à família da falecida, e as melhoras aos restantes.
LOBO ANTUNES (2). Os militares que combateram na guerra colonial merecem respeito? Sem dúvida que merecem. Deve o Estado fazer tudo o que puder para minimizar os danos que a guerra eventualmente lhes causou? É evidente que sim. Mas isso não invalida que se possa falar de abusos cometidos na guerra por esses mesmos militares, gostem, ou não, da ideia. E não só de abusos, que nem todos os militares foram exemplares. Fica-lhes mal, portanto, esconder o óbvio, e ameaçar quem se atreve a dizer o que, afinal, todos sabem.

23 de agosto de 2010

LOBO ANTUNES (1). Quem ignora que os militares portugueses cometeram abusos na guerra colonial como os que Lobo Antunes descreve em Uma Longa Viagem? Além de me custar a crer que o escritor tenha mentido, não me parece que os episódios narrados no livro ponham em causa a honra e a dignidade dos militares portugueses na guerra colonial. Como eles muito bem sabem, as guerras prestam-se a toda a espécie de abusos, e a guerra colonial não foi excepção. Há, aliás, inúmeros relatos que o demonstram, e adivinha-se que outros casos não sejam conhecidos porque é desagradável recordá-los. Eu próprio ouvi, de viva voz, relatos de abusos contados pelos próprios que os cometeram, alguns deles verdadeiramente chocantes, mas nem por isso concluí que os militares que fizeram a guerra colonial eram uns patifes. O pior que os militares podem fazer para defender a honra e a dignidade a que têm direito é armarem-se em virgens ofendidas e prometerem esmurrar quem revelar verdades inconvenientes.
LIVROS. Ao contrário de quem vive angustiado pelos livros que não leu, saber que há livros que ainda não li, e provavelmente não lerei, é um prazer. Imaginem a chatice que seria se eu já tivesse lido tudo o que gostaria, ou tudo o que considero importante. Almada Negreiros provavelmente nunca pensou nisso quando escreveu que estaria perdido se não encontrasse maneira de ler todos os livros que desejava.

20 de agosto de 2010

JUSTIÇA ASININA. Como notou o João Miranda, a justiça não dorme. Andava a gente a pensar que ela não funciona, ou funciona mal, e descobre-se que funciona na perfeição.
LIVROS. Eu sei que todos os dias fecham livrarias devido ao comportamento de leitores como eu, mas como resistir a um livro (Borges, de Bioy Casares) que me custou menos de sete dólares quando numa livraria me custaria cinco vezes mais? A diferença é abissal porque o livro é usado, mas a diferença entre comprar um novo na livraria ou online justificaria, na mesma, a compra online. Não sei o que vai suceder às livrarias, e angustia-me pensar que grande parte delas vai desaparecer. Mas eu não sou benemérito, e não me posso dar ao luxo de comprar por dez o que posso comprar por cinco.

18 de agosto de 2010

16 de agosto de 2010

CENAS TRISTES. Se Pinto da Costa e Luís Filipe Viera acham o caso «ridículo» e outros personagens da bola põem as mãos no fogo por ele, dificilmente Queiroz será removido da selecção. De facto, está demonstrado que o seleccionador tem as costas bem quentes, e só um tufão o removerá. Que permaneça em funções desacreditado e/ou ridicularizado, é uma questão de somenos. Importante é que permaneça, em nome não se sabe de quê, custe isso o que custar. Como perceberão pelas razões que expus em variadíssimos posts, lamento que assim seja. Curiosamente, todos os dias surgem notícias a confirmar a incompetência do sujeito. Enquanto uns saem à rua para defender (e potenciar) a matéria-prima de que dispõem (o caso de Mourinho por Cristiano Ronaldo), outros fazem exactamente o contrário (o caso de Queiroz por Cristiano Ronaldo). Então o seleccionador acha que «Ronaldo foi capitão cedo de mais»? Não será isso um atestado de incompetência ao nosso maior craque? O que pensará ele disso? Terá encarado o recado como um estímulo? Quando é que Queiroz pára de sacudir a água do capote e deixa de atribuir a terceiros a culpa que só a ele lhe pertence? Com certeza que a braçadeira de capitão no braço de Ronaldo é uma decisão questionável, mas espera-se que o seleccionador não corrija um erro com outro. Afinal, espera-se de um seleccionador que estimule os seus comandados, não o contrário. Razão tinha o craque quando se virou para o seleccionador e lhe disse: «Assim não ganhamos, Carlos.» Foi de capitão.
TAMBÉM ACHO. «(...) devia ser considerada falta grave que algum cidadão minimamente alfabetizado tivesse passado uma parte da sua vida sem ler Eça.»

12 de agosto de 2010

FONTES ANÓNIMAS. Vale a pena ler a última crónica do Provedor do Leitor do Público — e, já agora, não só a última crónica. Chamo a atenção para a última crónica porque nela se fala das fontes anónimas, do uso e abuso das fontes anónimas quando se esperaria que apenas fossem usadas em circunstâncias excepcionais, em casos em que a informação é de tal modo relevante que não há como as ignorar — e, claro, sempre que não seja possível identificar as fontes sem as expor a situações delicadas. Apesar de o provedor se revelar crítico com o uso das fontes anónimas, não abordou, como se esperaria, um tema de que nunca se fala quando se abordam estes assuntos: as fontes anónimas que não passam de invenções dos jornalistas, que vêem nelas um expediente seguro para dizerem o que lhes apetece sem terem que identificar a origem da informação. Como não bastasse o facto de as fontes anónimas se prestarem, pela circunstância de os seus autores não serem identificados (e não estarem, por isso, sujeitos a escrutínio acerca da veracidade do que dizem), a que sobre elas se levantem as mais legítimas suspeitas (até porque custa a crer que algumas das fontes anónimas não possam identificar-se sem correr riscos maiores), a possibilidade de os jornalistas atribuírem a fontes anónimas o que eles próprios inventam reduz ainda mais a confiança na informação que não pode ser confirmada. Tenho, aliás, cada vez mais dúvidas de que se deva recorrer às fontes anónimas, mesmo em caos mais extremos. É que o precedente das fontes anónimas abre caminho a toda a espécie de abusos, não só por parte dos jornalistas, e suspeito que o que se ganha não vale o que se perde.

10 de agosto de 2010

QUEIROZ (2). Independentemente do que venha a suceder, já todos perceberam que Carlos Queiroz deixou de ter condições para se manter no cargo de seleccionador nacional. Saia a bem, saia a mal, não há outro caminho: a porta da rua, com indemnização ou sem ela. Já repararam que não há uma única criatura que o defenda? Já viram que os únicos reticentes quanto à sua saída apontam o dinheirinho que ele poderá embolsar com a quebra de contrato? Alguém imagina Carlos Queiroz sentado no banco depois de as coisas terem chegado onde chegaram? Bem sei que gente importante acabou de jurar por Queiroz, mas nisto da bola nunca se sabe o que é genuíno e o que é interesse. Certo e sabido é que Queiroz perdeu o crédito que lhe restava, nomeadamente dos seus comandados, e sem ovos não se fazem omeletas.
QUEIROZ (1). Ignoro se o presidente da República e o primeiro-ministro estão na lista das testemunhas abonatórias de Queiroz no processo disciplinar de que está a ser alvo, mas não me surpreenderia que estivessem. Depois do corrupio de figuras de peso da bola (Alex Ferguson, Luís Figo, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira) que depuseram — ou vão depor — em abono do seleccionador, seguramente que não será fácil uma decisão que contrarie a vontade destes senhores. Até porque uns já disseram que o processo «é ridículo» (Pinto da Costa), e outros que é «lamentável» (Alex Ferguson). Aliás, não percebo por que razão foram estes senhores chamados à Federação para falar sobre o caso. O que terão eles a dizer sobre os insultos que o seleccionador terá proferido? Que Queiroz é uma excelente pessoa? Se assim é, que importância terá isso para o caso?

9 de agosto de 2010

PRAGAS. É moda dizer-se que ninguém é isento, logo não é possível redigir uma notícia de forma equilibrada. (Continuar a ler aqui.)

6 de agosto de 2010

FREEPORT. O caso Freeport poderá ser reaberto? Pelo menos servirá para vender mais uns jornais, que bem necessitados andam de vender mais uns exemplares. Isto partindo do princípio que ainda há quem se interesse pelo Freeport, o que não é seguro. Não, não sei se houve razão para encerrar o caso ou para agir de outro modo, que desisti de perceber o que é relevante e o que é mero ruído, e cansei-me de ver as bombas atómicas lançadas pelo jornal de Manuela Moura Guedes transformadas em bichas-de-rabear no dia seguinte. O que sei é que a justiça se tornou uma anedota nos melhores casos e uma tragédia nos piores, sem que se vislumbre o que está a ser feito para que mude alguma coisa.

5 de agosto de 2010

O ÓBVIO ULULANTE. Não conheço o caso com profundidade bastante para que sobre ele possa ter uma opinião fundamentada, mas não me parece normal existir um Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, e até me parece perigoso que ele tenha o poder que lhe atribuem. Mas numa coisa tem o sindicato razão: a hierarquia do Ministério Público está «moribunda», provavelmente por «falta de capacidade» de Pinto Monteiro para exercer os poderes de que dispõe. De facto, o PGR tornou-se uma figura desacreditada, um factor de instabilidade, e cada dia que passa nota-se mais. Se a sua saída não resolverá, por si só, a questão de fundo, seguramente que será um bom começo.

3 de agosto de 2010

OBVIAMENTE DEMITA-SE. Se o PGR «tem os poderes da Rainha de Inglaterra» (leia-se muito poucos) e não consegue mandar no Ministério Público, por que se mantém Pinto Monteiro no cargo? Por que assumiu ele o lugar sabendo que os poderes que teria seriam, na sua opinião, pouco mais que simbólicos? Alguém acredita que só agora o PGR descobriu a pólvora? E, se foi só agora, por onde andou estes anos todos? Quando é que o PGR reconhece a incompetência para dirigir o tal órgão de que se queixa e age em conformidade?
UM ENIGMA. O que quererá o PGR dizer quando diz nunca ter visto, «na [sua] longa vida de magistrado», um despacho igual ao caso Freeport? Quererá dizer que houve pressões governamentais que provocaram o seu desfecho? Quererá dizer que os titulares do processo foram incompetentes? Quererá dizer as duas coisas? Já ouvi que o PGR anunciou um inquérito destinado ao «integral esclarecimento de todas as questões de índole processual ou deontológica» que o arquivamento do caso possa suscitar. Acontece que os inquéritos mandados abrir pelo procurador acabam em nada, e são tantos os exemplos que se torna legítimo suspeitar que os inquéritos apenas servem para calar os mais exaltados e pôr uma pedra sobre o assunto.

2 de agosto de 2010

FAÇAM UM PEDITÓRIO. A cena dos insultos à malta do doping será, provavelmente, o pretexto que faltava para afastar o seleccionador nacional. Para quem, como eu, manifestou reservas face ao desempenho de Carlos Queiroz à frente da selecção, todas as razões são boas para correr com ele, pelo que tanto me faz que seja por uma razão, ou por outra. O «professor» já demonstrou variadíssimas vezes que não serve, e nem os objectivos cumpridos escondem a evidência. E a evidência demonstra que o sujeito só arranja sarilhos, impede que os jogadores façam o que sabem, e como líder é um desastre. Pior: não tem ambição, não tem currículo, nem tem competência. Se o problema for o dinheirinho que ele há-de arrecadar caso o ponham na rua, experimentem fazer um peditório. Verão que não será por aí que o homem não deixará de se ir embora.

26 de julho de 2010

FÉRIAS (3). Comecei pela McNally (onde nunca tinha ido mas conto voltar em breve), segui para a Strand (provavelmente a melhor livraria de Manhattan), terminei num antiquário de livros de viagens (The Complete Traveller). Da romaria resultou dois livros comprados (Without Stopping: An Autobiography, e Days: A Tangier Diary, ambos de Paul Bowles), e uma lista de títulos a comprar via internet nos sítios do costume (calculo que assim pouparei o custo de dois livros). Fora isso, ópera na estação do metropolitano da Union Square, guitarra de primeira na Penn Station. Não fora o calor no metropolitano, alguma chuva no lombo e a pizza a pingar óleo, diria que foi um dia perfeito.

22 de julho de 2010

FÉRIAS (2).

Immediately when you arrive in the Sahara, for the first or the tenth time, you notice the stillness. An incredible, absolute silence prevails outside the towns; and within, even in busy places like the markets, there is a hushed quality in the air, as is the quiet were a conscious force which, resenting the intrusion of sound, minimizes and disperses sound straightway. Then there is the sky, compared to which all other skies seem faint-hearted efforts. Solid and luminous, it is always the focal point of the landscape. At sunset, the precise, curved shadow of the earth rises into it swiftly from the horizon, cutting it into light section and dark section. When all daylight is gone, and the space is thick with stars, it is still of an intense and burning blue, darkest directly overhead and paling toward the earth, so that the night never really grows dark.

You leave the gate of the fort or the town behind, pass the camels lying outside, go up into the dunes, or out onto the hard, stony plain and stand awhile, alone. Presently, you will either shiver and hurry back inside the walls, or you will go on standing there and let something very peculiar happen to you, something that everyone who lives there has undergone and which the French call le baptême de la solitude. It is a unique sensation, and it has nothing to do with loneliness, for loneliness presupposes memory. Here, in this wholly mineral landscape lightened by stars like flares, even memory disappears; nothing is left but your own breathing and the sound of your hearth beating. A strange, and by no means pleasant, process of reintegration begins inside you, and you have the choice of fighting against it, and insisting on remaining the person you have always been, or letting it take its course. For no one has stayed in the Sahara for a while is quite the same as when he came.

Paul Bowles, Their Heads Are Green and Their Hands Are Blue: Scenes from the Non-Christian World

16 de julho de 2010

FÉRIAS (1). Vou de férias nas próximas duas semanas, e tenciono preguiçar o mais possível. Se tudo correr conforme o previsto, os posts, a haver, serão bastante mais espaçados. Ficam, portanto, avisados os três leitores deste blogue, que espero reencontrar no regresso à «normalidade».

15 de julho de 2010

O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (5). Tirando os próprios e os organismos que os representam (Ordem, sindicatos, por aí fora), ainda não vi quem defendesse um limite de vagas no acesso à medicina. Qualquer cidadão escassamente informado sabe bem que há falta de médicos, ou que estão mal distribuídos, o que vai dar ao mesmo. Custa, portanto, ouvir o bastonário da Ordem dos Médicos dizer que «devíamos estar a reduzir o número de vagas disponíveis», a pretexto de que com a actual política de vagas haverá desemprego dentro de dez anos. Diz mais Pedro Nunes: não há garantias de que os estudantes de medicina vão ser pagos durante o internato — nem, sequer, que terão vagas no internato. A única garantia, diz o bastonário, é que não haverá emprego para todos. Ora, seguindo a «doutrina» do ilustre, quem garante emprego aos advogados, aos economistas, aos engenheiros e aos carpinteiros que pretendem entrar no mercado de trabalho? Sim, porque estes e outros profissionais deviam ter garantias idênticas às que o bastonário reclama para os médicos. Ou não?
Perdidos e achados

14 de julho de 2010

IGREJA UNIVERSAL. A propósito do cidadão que destruiu um templo (ou lá como se chama) da Igreja Universal, alegando que a dita ficou «com o dinheiro de todos os seus bens», talvez não fosse má ideia rever o vídeo na imagem.

12 de julho de 2010

MEIAS VERDADES. Águas passadas recomendam prudência face às notícias do Sol, embora me custe a crer que o jornal tornasse uma coisa no seu contrário. De uma coisa, porém, não duvido: pela gravidade da reacção do seleccionador nacional de futebol à notícia daquele semanário (Queiroz negou ter dito ao Sol que com «a estrutura amadora» da Federação seria difícil ir mais longe no Mundial e considerou «vigarista» e «aldrabão» o autor da peça), faria bem o autor da notícia divulgar a gravação que diz possuir. Infelizmente, o Sol já disse que não irá divulgar o teor da conversa, alegando tratar-se de um assunto que deve ficar entre o jornalista e a fonte. Permanecerá, portanto, a dúvida sobre quem fala verdade e quem mente, e quer-me parecer que o Sol perderá, a prazo, o que terá ganho no presente. Já o seleccionador, é evidente que a dúvida o prejudica de imediato. Ironicamente, quando poderá ter a razão que ainda não teve.

7 de julho de 2010

COISAS SEM IMPORTÂNCIA. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social descobriu, de repente, que o facto de o Governo de Alberto João Jardim deter maioritariamente o Jornal da Madeira (99,98%) põe «em risco objectivo» o pluralismo da imprensa no território. Vai daí, deu-lhe 10 dias (já passaram cinco) para adoptar as providências «necessárias e adequadas à supressão dos efeitos nefastos», recomendando-lhe a «observância de práticas não discriminatórias» na distribuição de publicidade pelos diferentes órgãos de comunicação social, bem como o uso de critérios de «equidade», «proporção» e «transparência». Evidentemente que a denúncia peca por tardia, e com certeza que nada mudará. Veja-se, por exemplo, o barulho causado pela alegada tentativa de compra da TVI por parte da PT e compare-se com o silêncio generalizado à volta do JM. Como é que um caso merece tanto barulho e o outro o silêncio generalizado? Por aqui se vê que o episódio dará em nada, mas nem era preciso.

5 de julho de 2010

NO PASA NADA. Carlos Queiroz disse que Portugal foi inteligente frente à Costa do Marfim, que frente ao Brasil fizemos «uma boa exibição», e no balanço final disse que Portugal fez «um bom trabalho», que o dever foi cumprido, e que «prestigiámos o futebol português». Tudo isto dito com ar grave, presumo que convencido do que estava a dizer. Ora, procurar tapar o sol com a peneira e relativizar o fracasso, ainda vá. Mas estar sinceramente convicto de que correu bem o que visivelmente não correu bem, já é grave.
AO CUIDADO DOS QUEIROZIANOS. Ronaldo tem jogado quase nada na selecção? É um facto. Valia, porém, a pena apurar por que razão isso sucede em vez de se fazer dele o bode expiatório de todas as frustrações. Dou uma ajuda: no tempo em que o devoto da Senhora do Caravaggio comandava a selecção Ronaldo jogava e metia golos, e não será preciso grande esforço de memória para se constatar que Ronaldo «desapareceu» com a entrada de Queiroz. E por que razão terá isso sucedido? Porque anda amuado? Porque está desmotivado? Porque não está em forma? Porque está com azar? Porque se está borrifando para a selecção? Desculpem lá o mau jeito, mas nada disto me convence. Como também não me convence a aparente mediania dos nossos jogadores, como há muito quem diga por aí, assim procurando passar a ideia de que o seleccionador se limitou a fazer o possível face ao que tinha. O problema é que «assim não ganhamos», como disse Ronaldo no jogo frente à Espanha. É tão evidente que mete dó. (Nota: o famoso vídeo de Ronaldo frente à Espanha foi, entretanto, retirado de circulação, aparentemente por violar direitos de autor.)

1 de julho de 2010

DO SENSO COMUM. Humberto Coelho sobre Cristiano Ronaldo: «Quando uma equipa tem um jogador deste valor, tem de jogar o mais possível para ele. Foram os casos do Portugal de Eusébio, do Brasil de Pelé, da Argentina de Maradona e Messi.»
FORA DE JOGO. Não duvido que o Mundial de Futebol convém ao Governo em funções, e se as coisas correrem bem à selecção portuguesa ainda conviria mais. (Continuem a ler aqui.)

30 de junho de 2010

O TAMANHO NÃO CONTA? Compreendo a celeuma à volta dos kits destinados às aulas de educação sexual, e também eu tenho uma dúvida: como chegou a Associação para o Planeamento da Família ao tamanho do pénis que a imagem documenta? Baseou-se no padrão português, ou nas normas europeias? Não sou especialista no assunto, mas quer-me parecer que o modelo não está conforme os padrões portugueses ou europeus. Ora reparem bem na imagem.
SAUDADES DE SCOLARI. Scolari foi crucificado por não ter ganho o Europeu de Portugal (perdemos na final), e por não ter chegado à final do Mundial da Alemanha (ficámos no quarto lugar). Fora isso, caíram-lhe em cima por mobilizar os portugueses em torno da selecção como nunca se tinha visto, ele que nem português era. Já o seu sucessor, que passou a vida a complicar-lhe o trabalho, merece benevolência, apesar do currículo à frente da selecção se saldar por uma penosa qualificação para o Mundial da África do Sul e no Mundial da África do Sul só ter chegado aos «oitavos». Alguém me explica por que razão um, com obra feita, foi crucificado, e outro, sem nada que se veja, merece benevolência?
TIRO AO RONALDO. Cristiano Ronaldo sempre foi o primeiro alvo das críticas quando as coisas não correm bem à selecção. Porque Ronaldo é um fora-de-série que raramente «aparece» quando joga pela selecção, porque há quem não se conforme com os rios de dinheiro que ele ganha e com as resmas de catraias que lhe passam pela cama (dizem), porque Ronaldo se põe a jeito. Para não variar, choveram críticas após a derrota frente à Espanha, a meu ver exageradas. Como poderia ele ter feito mais se o ataque de Portugal não existia? Que outro artista da bola teria feito melhor com aquele «sistema» de jogo?

29 de junho de 2010

SOMOS OS MAIORES, NÃO ÉRAMOS? Depois do jogo «inteligente» frente à Costa do Marfim, nas palavras do professor Queiroz, a goleada à Coreia do Norte escondeu as misérias de Portugal até ao jogo com o Brasil, e revelou-se em todo o esplendor frente à Espanha. Não, não é perdermos com nuestros hermanos que custa. O que custa é ser confrontado com o futebol vergonhoso que praticamos. Eduardo, o único que se salvou da mediocridade geral, não merecia tal sorte. Já o dito professor, confirmou o que já se sabia: é um génio incompreendido que urge despachar para onde o entendam.
SAIR PELA PORTA DO CAVALO













Compreende-se que o momento não é particularmente inspirador, mas podia ter saído de cena com dignidade. Presunção e água benta fica-lhe pessimamente, e seria a última coisa a esperar mesmo de quem nunca se esperou grande coisa.
PENSEM NISTO. Se não errei as contas, esta notícia significa que a imprensa generalista (JN, DN, Público, Correio da Manhã, Expresso, Sol, Visão, Sábado e Focus) perdeu, nos primeiros quatro meses do ano, mais de quinze mil leitores. Leram bem: mais de quinze mil leitores.

28 de junho de 2010

NADIR AFONSO. A entrevista já tem alguns dias, mas não perde pela demora.

25 de junho de 2010

Para desenjoar da bola, das vuvuzelas, e dos comentadores desportivos.

PORTUGAL-BRASIL. Como diria o outro, prognósticos só no fim do jogo. Previ que iria haver problemas entre portugueses e brasileiros por causa do Portugal-Brasil, felizmente não se confirmaram. Confesso que não me passou pela cabeça que o jogo pudesse terminar num empate, e sem casos de maior. Enganei-me, e ainda bem que assim foi. Já o ódio, esse continua.

24 de junho de 2010

PRIORIDADES. Imaginem que isto se passava em Portugal.

23 de junho de 2010

PRESO POR TER CÃO, PRESO POR NÃO TER. O Presidente da República continua a levar por tabela por não ter estado no funeral de Saramago, como continuaria a levar por tabela caso tivesse estado. O curioso é que ninguém tem dúvidas quanto à decisão que ele deveria tomar. Não tem dúvidas quem acha que ele devia ter estado, não tem dúvidas quem acha que ele não devia ter estado. Ora, parece-me que o caso se presta a algumas dúvidas. Têm razão uns e outros, mas nenhum a tem toda — e nenhum tem nenhuma quando a verdadeira razão não é a que invocam. Depois, como explicar que ninguém tivesse criticado Cavaco por não ter ido ao funeral de Couto Viana? Não foi tão bom como Saramago? Estava do lado errado e o outro do lado certo? Os esqueletos no armário de um eram menos embaraçosos que os esqueletos no armário do outro? Palavra de honra que gostaria que me explicassem.
PROGNÓSTICO PARA O PORTUGAL-BRASIL. Apesar de pouco haver a decidir, o Portugal-Brasil da próxima sexta tem, por aqui, contornos peculiares, que por aqui (EUA) residem milhares de portugueses e brasileiros que se odeiam nem sempre cordialmente. Acabei de ouvir um sujeito dizer que gostaria de ver Portugal vencer o Brasil por três ou quatro para assim vingarmos a humilhação de há dois anos, embora o jogo (6-2 a favor do Brasil) não contasse para coisa nenhuma. Como é evidente, não está sozinho, e por aqui nota-se bastante. Os portugueses odeiam os brasileiros, os brasileiros odeiam os portugueses, e a ocasião vem mesmo a calhar. Se tudo correr conforme as previsões, a coisa saldar-se-á por umas escaramuças sem importância, que ódio não paga a renda e a polícia não brinca em serviço. No dia seguinte odiar-se-ão ainda com mais fervor, e a vida seguirá como dantes.

18 de junho de 2010

SARAMAGO. Bem sei que são declarações de circunstância e que morto não tem defeito, mas esperar-se-ia algum comedimento sobre a morte de Saramago. Ainda o cadáver não arrefeceu, já andam para aí a dizer barbaridades. Até para falar bem é preciso decência.
UM FIASCO ANUNCIADO. Estava escrito nas estrelas que a comissão de inquérito ao negócio PT/TVI iria parir um rato. De facto, só podia acabar com os deputados divididos sobre a importância (ou irrelevância) da matéria em análise conforme o alinhamento partidário de cada um e não conforme a importância (ou irrelevância) da dita. Sabia-se que os argumentos dos parlamentares estavam, à partida, inquinados, pelo que se adivinhava difícil perceber as razões de cada um fora do contexto político-partidário. Como não bastasse, o caso era delicado do ponto de vista jurídico, e sabia-se de antemão que os juristas estavam divididos, provavelmente mais por razões políticas que jurídicas. Assim sendo, o resultado só podia ser uma mão cheia de nada, e outra de coisa nenhuma.

16 de junho de 2010

BIOGRAFIAS. Procurava The Fabulous Life of Diego Rivera, de Bertram Wolfe, saiu-me a versão em espanhol de Dreaming with His Eyes Open: A Life of Diego Rivera (Soñar con los ojos abiertos: una vida de Diego Rivera), de Patrick Marnham, também uma biografia do pintor mexicano. Lidos os primeiros parágrafos, pareceu-me tão bem escrita que não hesitei em comprá-la, apesar da minha dificuldade com o espanhol em todas as suas variantes. Sou um apreciador da bela prosa e um entusiasta de biografias, embora compre mais do que leia. Tirando Modigliani: A Life, de Jeffrey Meyers, não me lembro de concluir uma única, embora possua uma boa dezena de que já li, por junto, algumas centenas de páginas. Provavelmente devido aos primeiros capítulos, onde invariavelmente se descreve os antecedentes dos biografados, quase sempre uma estopada. Leio que um entusiasta de biografias costuma baldar-se aos preliminares, precisamente pela mesma razão que lamento. Nunca me tinha ocorrido tal coisa, mas acho que vou por aí.
POIS. «"A Costa do Marfim queria que a gente arriscasse e assumisse o jogo, mas fomos inteligentes." Os norte-coreanos, malandros, também vão querer que a gente jogue, mas vamos ser inteligentes, não jogamos. E, isso, não jogar, esta selecção de Queiroz sabe fazê-lo melhor do que ninguém.»

15 de junho de 2010

AI NOSSA SENHORA. Claro que uma derrota teria sido pior, e até nem estivemos longe disso. Mas os argumentos que justificam a má prestação portuguesa no primeiro jogo do Mundial — a Costa do Marfim estava muito fechada, havia que não cometer erros, era preciso defender bem — não me convencem. O que se viu foi uma selecção a jogar devagar e devagarinho, a errar passes como uma frequência impressionante, e a perder sistematicamente a bola para o adversário. Resumido, o futebol praticado pelos portugueses chegou a ser aflitivo. Pode ser que me engane, mas adivinha-se uma humilhação frente à Coreia do Norte, que hoje demonstrou ser bem melhor que Portugal.

14 de junho de 2010

FUTEBOLÊS. «Quando um especialista fala no "falso ponta-de-Iança" quer insinuar que o genuíno ficou retido no trânsito? Os "problemas nos flancos" têm alguma relação com a dor ciática? Um "médio-ala" remete para a expressão" ...que se faz tarde"? O avançado que "joga melhor sem bola" não será alguém que escolheu a profissão errada? O futebolista a quem "falta cultura" é um desgraçado que confunde Tolstoi com Turgueniev? O "jogo apoiado" significa que os espectadores aplaudem ambas as equipas? As "deficiências no balneário" prendem-se com chuveiros avariados? Se uma equipa inicia um desafio em "baixa pressão" é provável que chova na segunda parte?» Alberto Gonçalves, Sábado de 9 de Junho

10 de junho de 2010

ISRAEL (6). Presume-se que os activistas pro-palestinianos (dantes chamavam-se pacifistas) pretendem, antes de mais, pôr fim ao conflito entre israelitas e palestinianos. Assim sendo, por que insistem eles, a pretexto da ajuda humanitária, em reacender o conflito? Como esta notícia bem o demonstra, a situação não pára de degradar-se desde o incidente com o navio turco, e adivinha-se que os palestianianos serão quem mais vai sofrer. Palestinianos, sublinhe-se, para quem os activistas se estão nas tintas, que eles estão mais interessados em provocar Israel que no destino dos palestinianos. Como os recentes episódios bem o demonstram, os palestinianos são, para os activistas, um mero pretexto para atacar Israel e o que ele representa.

8 de junho de 2010

TEORIAS. Sempre que há escaramuças entre Israel e os palestinianos, lá vem a tese da fisga e dos canhões. Segundo ela, os palestinianos defendem-se (ou atacam) com pedras e fisgas, logo têm razão. Israel defende-se (ou ataca) com armas sofisticadas, logo não tem. É tanta a pressa em condenar Israel que não enxergam um palmo à frente do nariz.
O TRANSATLÂNTICO. Excelente entrada de Paulo Nogueira na blogosfera. Oram leiam este texto.

4 de junho de 2010

ISRAEL (4). Apesar do jornalismo se ter ausentado para parte incerta, vai-se sabendo, à medida que o tempo passa e a poeira assenta, que a ajuda humanitária da «Frota da Liberdade» foi planeada não de modo a que a mercadoria chegasse ao destino sem sobressaltos, mas de modo a que houvesse uma reacção de Israel, de preferência violenta, como sucedeu. Curiosamente, este «pequeno detalhe» não interessa a ninguém, a começar pelos jornalistas de causas, mais interessados em meter a colherada do que relatar o que realmente se passou. Mas os factos continuam a surgir, e depois de se saber que a frota integrava cineastas, escritores, deputados, jornalistas, líderes islamitas, activistas de espécies várias e pelo menos um Nobel da Paz, ficou-se agora a saber que três das vítimas mortais ansiavam ser mártires, o que explica melhor o que se passou e confirma que o pior que podia suceder a esta gente era nada suceder. Reparem que falo de factos, não de opiniões, embora também as tenha. Por exemplo, não sei se Israel reagiu de forma desproporcionada (hão-se reparar que as reacções israelitas são, sempre, desproporcionadas, incompetentes, desastradas, estúpidas, etc.), e também não sei se caiu numa armadilha. Mas já é evidente que a armadilha tem servido para criticar quem caiu nela, não se vendo a mais leve crítica a quem a montou. Montar uma armadilha que pode resultar em tragédia (como se verificou) não tem, portanto, mal algum. Mal é cair nela. Não percebo bem onde está a lógica, mas deve ser defeito meu.
SOARES & ALEGRE. Não tenciono votar Manuel Alegre — nem, já agora, Cavaco (os restantes candidatos não contam). Mas gostava que Mário Soares explicasse o motivo para não votar no candidato do partido que foi o seu. Até ver, Soares limitou-se a debitar generalidades, nunca abordando as razões de fundo — presumindo-se, naturalmente, que as tem. À semelhança do que sucederá à generalidade dos portugueses, desconfio que as razões do ex-PR não valem uma missa, mas é só um palpite.

1 de junho de 2010

ISRAEL (3). Se bem entendi, a «Frota da Liberdade» integrava cineastas, escritores, deputados, jornalistas, líderes islamitas, activistas de espécies várias e um Nobel da Paz. Estarei a delirar, ou o pior que lhes podia suceder era nada suceder?
ISRAEL (2). Diz o «analista» que a frota de navios era uma armadilha organizada por «activistas» pro-palestinianos próximos do Hamas destinada a provocar o ataque israelita, coisa que não lhe merece o mais leve reparo — nem, muito menos, condenação. Reparo e condenação merece Israel por reagir à provocação, que provocar não tem mal nenhum. Eis um exemplo como a obsessão anti-israelita tolhe o raciocínio a qualquer um.
ISRAEL (1). Lidas quatro notícias sobre o ataque israelita no Público online (aqui, aqui, aqui e aqui), constato, sem surpresa, que não há contraditório — nem, sequer, para dar a conhecer a versão de Israel. Curiosamente, o mesmo jornal faz a ligação para um vídeo israelita chamando a atenção para o facto de se tratar de um «alegado "linchamento de soldados israelitas"». Ou seja, quando o Público fala de ajuda humanitária, fala como se isso fosse um facto indesmentível. Já quando fala de actos que as imagens documentam, considera necessário usar o «alegado». E é o Público um jornal de referência.
LAMENTÁVEL. Depois de explicar a nuestros hermanos que são precisos dois para dançar o tango, o primeiro-ministro ensaiou novo passo de dança — e voltou a dar-se mal. Como não lhe bastasse a atribulada viagem ao Rio de Janeiro, o primeiro-ministro mandou dizer que teve um encontro com Chico Buarque a pedido do músico, quando foi precisamente o contrário que sucedeu. Infelizmente, a mentirinha foi mais do que isso: foi uma humilhação a Portugal na pessoa do primeiro-ministro.

28 de maio de 2010

LUZ AO FUNDO DO TÚNEL. Não mudei de opinião sobre Passos Coelho (muita parra e pouca uva), mas não há dúvida de que o seu desempenho à frente do PSD excede as expectativas mais optimistas — e, claro, mantém calados os críticos mais ferozes. Sócrates tem contribuído bastante para este sucesso, não há dúvida que tem, mas já tinha contribuído generosamente no tempo de Ferreira Leite, e nem por isso a antecessora de Passos Coelho ganhou alguma coisa com isso. De facto, para quem começou sob a desconfiança de barões e baronetes, a sondagem ontem conhecida não está nada mal. Bem sei que se trata, apenas, de um sinal de que pode haver alternativa a Sócrates e ao PS, mas é um bom sinal.

27 de maio de 2010

SELECÇÃO (2). Longe vão os tempos em que a generalidade dos portugueses sentia empatia com a selecção, curiosamente estimulada por um cidadão brasileiro (Scolari), a quem se exigiu o Céu e a Terra. Os acontecimentos dos últimos dias (o miserável ensaio com Cabo Verde e a falta de tacto com que a Federação lidou com o incidente dos adeptos impedidos de ver o treino) deixam isso bem à vista. Espero que me engane, mas a evidência não prenuncia nada de bom.

25 de maio de 2010

SELECÇÃO (1). Enquanto as selecções apuradas para o Mundial da África do Sul fazem testes a valer (a Inglaterra joga com o México, a Argentina com o Canadá, o Brasil com o Peru, a África do Sul com a Bulgária, o Paraguai com a Irlanda, a Grécia com a Coreia do Norte, os Estados Unidos com a República Checa, a Holanda com o México, a França com a Costa Rica), nós jogamos com Cabo Verde. Jogamos, e jogamos pessimamente. Repararam como os jogadores portugueses assumiram, no final do jogo, que não se empenharam o que deviam? Se estes jogos não são a sério, se não servem para os jogadores mostrarem o que podem fazer e para o treinador ficar a saber com quem pode contar, servem para quê?

21 de maio de 2010

QUEIROZ. Estarei a ver mal, ou Carlos Queiroz tem vindo a baixar as expectativas de Portugal no Mundial? Claro que ninguém espera que a selecção chegue à final — e, muito menos, que a ganhe. Mas daqui a nada contentamo-nos com uma vitoriazita na primeira fase — porque a Coreia não é pêra doce, porque a Costa do Marfim é a melhor selecção africana, porque o Brasil é um colosso. A selecção portuguesa terminou no quarto lugar no último Mundial, lembram-se? Depois da euforia na época Scolari, a quem tudo era exigido, já só nos falta baixar as calças.

20 de maio de 2010

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. É impressão minha, ou os que andam para aí raladíssimos com a eventualidade de o primeiro-ministro ter mentido no Parlamento quando disse desconhecer o negócio entre a PT e a TVI são os mesmos que não abrem a boca sobre o que se passa na Madeira? Aliás, nem agora, nem nunca, que o problema da Madeira não é de hoje — e será desnecessário lembrar que o Jornal da Madeira é financiado praticamente na totalidade (99,7 por cento) por dinheiros públicos.

19 de maio de 2010

Todas as ocasiões são boas para ouvir Beethoven, provavelmente o meu compositor favorito. Mas os tempos que correm recomendam-no mais do que nunca.

18 de maio de 2010

O MUNDO À NOSSA ESPERA. Graças ao Nuno Guerreiro, acabo de descobrir o blogue do Francisco Duarte Azevedo, ex-cônsul de Portugal em Newark, que em boa hora me recomendou Los pasos perdidos, do cubano Alejo Carpentier. Para quando, já agora, O Trompete de Miles Davis?

14 de maio de 2010

SÓ PARA CHATEAR (2). Por razões que não vêm ao caso, acompanhei, pela RTP Internacional, grande parte do programa da visita do Papa a Portugal, e tenho a declarar o seguinte: nunca ouvi tanto lugar-comum, tantas ideias pré-concebidas, tantos estereótipos, tanto disparate. A «operação jornalística» só podia ter sido comandada por Fátima Campos Ferreira, sempre pronta a derramar filosofia de vão de escada, a interromper toda a gente para acrescentar irrelevâncias, e a fazer comentários inoportunos. Decididamente que o jornalismo que se praticou durante a visita papal, pelo menos pela RTP, se demitiu da sua função.

12 de maio de 2010

SÓ PARA CHATEAR (1). Se bem me lembro, não ouvi, durante todo o tempo que assisti, pela RTP, à missa do Papa no Terreiro do Paço, um único jornalista lembrar que aquele local foi, em tempos, palco de autos-de-fé. Como nas guerras, onde a verdade é sempre a primeira vítima, também as visitas do Papa causam inúmeras vítimas entre os jornalistas.

10 de maio de 2010

ALDRABICES. Não deve haver um único eleitor que não saiba o motivo que leva os comunistas a apresentar um candidato à Presidência da República, e que as hipóteses de ser eleito são nulas. Assim sendo, será que o tempo de antena de que os comunistas usufruirão os beneficia? Posso estar enganado, mas o expediente é bem capaz de produzir o efeito contrário. Estão a ver o candidato comunista a dizer que está ali para ganhar, como já se viu no passado? Quem não vê que a previsível resposta será uma aldrabice? E depois queixam-se os políticos da escassa confiança que neles depositam, como se os políticos, com os seus (maus) exemplos, não fossem os primeiros responsáveis pelo juízo que se faz deles.
O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (4). Obviamente que Ricardo Rodrigues deixou de ter condições para exercer o cargo para que foi eleito a partir do momento que subtraiu os gravadores aos jornalistas da Sábado. O cavalheiro é deputado, vice-presidente da bancada do PS, e membro do Conselho Superior de Segurança Interna. Não é, portanto, um cidadão qualquer, a quem bastaria admitir que cometeu um erro para se dar o caso por encerrado, em última instância esperar que os tribunais decidam se é culpado ou não. Será preciso lembrar que num país civilizado o sujeito se teria demitido na hora?

4 de maio de 2010

A VÍTIMA. Como se costuma dizer, quem não deve, não teme. Se Inês de Medeiros achou — e continua a achar — que a razão lhe assiste no caso da comparticipação, pela Assembleia da República, nas suas viagens entre Lisboa e Paris, e que tem estado a ser vítima de «uma sórdida campanha», por que motivo resolveu abdicar da comparticipação? Porque o CDS achou por bem opor-se a tal prática? Desculpe lá, mas o motivo não me convence. Se Inês está realmente convicta de que a decisão da AR é irrepreensível do ponto de vista legal e inatacável do ponto de vista ético, esperar-se-ia que se mantivesse firme nas suas convicções e lutasse por elas. Afinal, Inês é deputada, e de um deputado espera-se que lute pelas suas convicções. Abdicando da comparticipação atribuída pela AR a pretexto de não querer ser «bandeira eleitoralista do CDS», não convence o mais ingénuo. Pelo contrário, abdicar é admitir que o expediente encontrado pela AR é, no mínimo, frágil. Querer agora virar o feitiço contra o feiticeiro, considerando-se a deputada «mais prejudicada» do Parlamento, é um caso em que a emenda é pior que o soneto, pois soa a manobra destinada a sair por cima de uma trapalhada de que ela é a primeira responsável e não a vítima.
O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (3). O eurodeputado Vital Moreira escreveu, a propósito do «caso Inês de Medeiros», que há «deputados que, ao longo do tempo, têm declarado uma morada fictícia fora de Lisboa para beneficiar de vantagens indevidas», sem que isso alguma vez tenha sido motivo de denúncia. Ora, eu pergunto: e não devia ser motivo de denúncia? Acaso Vital Moreira conhece casos concretos? Se conhece, está à espera de quê para os denunciar? É normal ninguém dizer nada?

3 de maio de 2010

PRIORIDADES. Não digo que esta história do PEC não me rale, mas o que realmente me chateia é o e-mail da Barnes & Noble dando-me conta de que Dublinesca só vai estar disponível daqui a um mês.
E DAS TREVAS SE FEZ LUZ. Embora tarde e a más horas, é uma decisão que se saúda.

30 de abril de 2010

INÊS, OUTRA VEZ. Se bem entendi, Inês de Medeiros fez um favor ao país ao candidatar-se a deputada, e o país não foi suficientemente grato ao elegê-la. É isto o que se depreende do que disse o líder parlamentar do PS, que hoje deu à estampa, no Público, um texto de «solidariedade» para com a colega. Há, contudo, um pequeno senão: Francisco Assis escreveu que o Parlamento não «concedeu qualquer tratamento excepcional» a Inês de Medeiros, mas os factos indicam precisamente o contrário. Que se saiba, havia uma lacuna legal, obrigando o presidente da AR a pedir um parecer jurídico e a decidir com base nele. Houve, portanto, tratamento de excepção, e o tratamento de excepção beneficiou a deputada. Por razões inatacáveis do ponto de vista formal, tudo indica, mas difíceis de digerir no plano dos princípios.
VERDADES EM OFF. A gaffe do primeiro-ministro britânico (Gordon Brown chamou «preconceituosa» a uma eleitora que o questionou sobre pensões de reforma e imigração quando se julgava afastado dos microfones) poder-lhe-á ter custado a reeleição, diz a imprensa britânica. Não sei se isso irá suceder, até porque, se perder, não haverá maneira de saber se foi por esse motivo. Também não sei se o caso marcará uma reviravolta na relação entre eleitores e eleitos, como deseja um jornal britânico. De uma coisa, porém, não duvido: não se podendo por aqui concluir que os eleitos são todos assim, a gaffe de Brown está longe de ser uma excepção. Não será a regra, quero acreditar, mas não duvido que andará lá perto.

29 de abril de 2010

MOURINHO. Eliminar o Chelsea e o Barcelona, a nata do futebol mundial, ainda por cima com uma equipa (o Inter) que pratica um futebol a roçar o miserável, não é, de facto, tarefa para qualquer um. Se dúvidas houvesse, o treinador português voltou a demonstrar que quando o técnico é a principal «estrela» de uma equipa está tudo dito.

26 de abril de 2010

HUMOR INVOLUNTÁRIO. A dra. Manuela Ferreira Leite tem a «certeza absoluta» que Sócrates mentiu no Parlamento sobre o caso PT/TVI. E tem a «certeza absoluta» com base em quê? Segundo a própria, com base em «suspeitas» e pressentimentos. Se não estivéssemos a falar de coisas sérias, seria risível.
ESCREVER COM OS PÉS. Por razões que não vêm ao caso, só agora li a entrevista que António Barreto deu ao i, pelo que só agora me apercebi que o texto roça o miserável (sim, o miserável), como alguém já tinha alertado. Barreto não merecia isso, os leitores não mereciam isso, provavelmente o i não merecia isso.
Obviamente
Conselhos seriamente fingidos

25 de abril de 2010

25 DE ABRIL. O 25 de Abril pôs fim a uma ditadura de 48 anos. Isto chega e sobeja para eu achar que valeu a pena, apesar do que seguiu, apesar de quase termos passado de uma ditadura para outra provavelmente ainda pior.

22 de abril de 2010

AINDA A MAQUINAÇÃO. Não é novidade para ninguém que a Igreja Católica costuma «premiar» os padres «que se portam mal» transferindo-os para outras paróquias, de preferência no quinto dos infernos (salvo seja). Incomoda-me, por isso, a indignação que por aí vai por alguns acusarem a Igreja Católica de ter escondido — e continuar a esconder — as misérias caseiras, no caso a pedofilia, como se a pedofilia fosse uma maquinação e não um facto indesmentível. Negar os factos contra todas as evidências, confundir alhos com bugalhos, invocar o que de bom a Igreja Católica deu à humanidade, dizer que se estão a utilizar casos isolados para generalizar ou que se pretende atingir o Papa a qualquer preço, não é sério nem inteligente, e atrapalha em vez de ajudar. Quanto mais se pretende fazer crer que há uma campanha contra a Igreja Católica porque meia dúzia de sujeitos andam para aí a dizer umas palermices, mais possibilidades terá ela de vir a existir. A fuga para a frente não é, no caso da pedofilia, o melhor caminho, como a presente discussão bem o demonstra.
RIDÍCULO. Imagino que o ministro Jorge Lacão estava a gozar com a malta quando disse que o cancelamento do jornal de Manuela Moura Guedes «não é saudável», mas ameaçar tomar medidas legislativas para que tal não se repita, substituindo-se à administração das empresas no que só à administração das empresas diz respeito, roça o ridículo. Claro que não se vislumbra a mais leve hipótese disso vir a acontecer, o que torna o episódio ainda mais ridículo.