31 de março de 2004

Ahmed Yassin foi canonizado. Duvidam? Então vão ver o "post" do Rui Tavares ("As desvantagens da rotina").

30 de março de 2004

Definitivamente que não me interessa se os escritores são progressistas ou reaccionários, comunistas ou fascistas, anti-semitas ou nazistas. Para mim, um escritor é bom ou mau. Ou, então, faz parte dos que não conheço, seguramente a maioria. Se o escritor é vermelho ou azul, heterossexual ou homossexual, nunca me interessou. Nunca deixei de ler um escritor por ser anti-semita, comunista ou fascista, e não vejo razão para mudar. Aliás, cada vez me interessa menos se o escritor é de direita ou de esquerda, e acho perfeitamente idiota dizer-se que os escritores de esquerda são melhores que os de direita — ou o contrário. Qualquer palerma que leu meia dúzia de livros sabe que há bons escritores na esquerda e na direita. O resto é conversa, geralmente idiota, como a crónica de Baptista-Bastos sobre Nelson Rodrigues. Tal como o Bruno, mil vezes prefiro «um velhaco, um pederasta, um ladrão de galinhas que escreva como Nelson Rodrigues a dez mil almas bem intencionadas que pensem como Vital Moreira».
O governo francês resolveu não apoiar a intervenção militar no Iraque. Resultado: os eleitores resolveram puni-lo nas eleições de domingo. Um argumento estúpido? Sem dúvida. Tão estúpido como o argumento de que os espanhóis decidiram punir o governo de Aznar por ter apoiado a intervenção militar no Iraque. Afinal, a base do raciocínio é a mesma: suposições e coisa nenhuma.

26 de março de 2004

O Alberto Gonçalves escreveu um "post" magnífico sobre Saramago ("Ensaio sobre a toleima"). Está lá tudo o que eu gostaria de ter dito mas não fui capaz. E, já agora, façam o favor de ler esta prosa.
Fazia tenções de comentar as últimas crónicas de Miguel Sousa Tavares e Villaverde Cabral, mas pus-me a ler "A República dos Corvos" e passou-me a vontade. A "A República dos Corvos" é um daqueles livros que se começam a ler e não apetece parar. Como, aliás, todo o Cardoso Pires. De maneira que espero que Miguel Sousa Tavares e Villaverde Cabral passem bem, que eu muito obrigado.
Help, help! Estou farto de procurar o "link" para o texto (sobre a Casa Eça de Queirós) de Maria Filomena Mónica no "Público" da última quarta, e não encontro. Alguém sabe onde está ou me manda uma cópia? Obrigado.

25 de março de 2004

Andam por aí umas almas caridosas a exorcizar o anti-semitismo que até mete dó. Ou melhor, a tentar exorcizar, porque quanto mais explicam, mais complicam, quanto mais tentam sair do buraco em que se meteram, mais se afundam. Mas que é de saudar o esforço higiénico, lá isso é.

24 de março de 2004

José Saramago insiste que o "Ensaio sobre a Lucidez" vai causar polémica. Se assim não for, «é porque as pessoas estão tão adormecidas que questionar a democracia não as afecta». Ora, eu confesso que só de ler esta tirada fiquei logo com sono. E posso garantir-vos que é já um avanço, pois a última vez que li Saramago irritei-me. E só eu sei o que me custa adormecer quando me irrito. Mas fiquei logo desperto quando ele disse que o seu novo romance critica os jornalistas, porque os jornalistas são demasiado submissos (ao governo) e mudam de cor como quem muda de camisa. E acrescentou em defesa da tese: «Acredito que muitos jornalistas se adaptam com demasiada facilidade à cor ambiente». Estará ele a referir-se aos jornalistas do "DN" dos tempos em que foi director? Não me parece. Afinal, o que consta é precisamente o contrário: alguns jornalistas adaptaram-se mal à cor ambiente — e foram postos na rua.

23 de março de 2004

Ahmed Yassin ordenou dezenas de atentados terroristas de que resultaram a morte de centenas de civis inocentes. Ordenou ataques, fuzilamentos e apedrejamentos contra os seus. Não hesitou em usar crianças na «guerra santa», em usar mulheres para cometer actos suicidas e defendia abertamente a destruição do estado de Israel. Perante isto, e muito mais, Vital Moreira acha que Ahmed Yassin não passava de «um idoso tetraplégico numa cadeira de rodas» que foi apanhado pelo exército israelita «à saída de um serviço religioso». Razão tem a esquerda inteligente (também há, também há) em demarcar-se de gente assim.
José Luís Zapatero terá dito um chorrilho de lugares-comuns em entrevista ao "El País" (que não li) que deixou o João Morgado Fernandes vaidoso por já os ter dito antes. E que disse Zapatero de tão excitante assim? Segundo o próprio João, isto: «A melhor resposta [ao terrorismo] é a comunidade mundial de serviços secretos. Tem de haver muito mais cooperação entre os serviços de informações. E devemos reduzir ao máximo os focos que produzem fanatismo e violência. A guerra é o último recurso. É um factor que pode provocar mais ódio, mais fanatismo, mais risco de violência.»
Chama-se a isto e isto duas boas notícias.

22 de março de 2004

Sem dúvida que o assassinato de Ahmed Yassin, conhecido activista dos direitos humanos que terá salvo de vida de dezenas de pessoas (ou centenas, não sei bem), sobretudo judeus, pode dar origem a uma escalada de violência sem precedentes, e isso só pode ser lamentável. Daí que foram importantes (e comoventes) as reacções de repúdio de todo o mundo, nomeadamente de Ana Gomes, que se apressou a dizer: «é urgente a União Europeia actuar, não deixando falhar o processo de paz no Médio Oriente». E actuar como? E de que processo de paz está ela a falar? Infelizmente não explicou. Mas explicou — e não precisava — que a culpa do conflito do Médio Oriente é da administração Bush, como será culpa de Bush caso o PS não a despache para o Parlamento Europeu e como será culpa de Bush caso chova em Agosto. Como se o papel que lhe cabe se resumisse a criticar o que os outros fazem ou não fazem.

19 de março de 2004

Só mais uma coisa acerca do terramoto político de Espanha: o povo que deu uma estrondosa vitória ao PSOE é o mesmo que se preparava, três dias antes, para votar no PP. Ora, tendo o povo sido considerado inteligente e heróico por rejeitar o PP e votar no PSOE, quer isso dizer que antes era estúpido e cobarde?

18 de março de 2004

As comunidades muçulmanas espalhadas pelo mundo dizem estar preocupadas com a escalada terrorista do fundamentalismo islâmico — e eu acredito que seja verdade. Acontece que eu ainda não os vi condenar de forma veemente e inequívoca os diversos atentados cometidos até agora, quando seria desejável que fossem os primeiros a fazê-lo. Até para que não restassem dúvidas de que não se revêem em tais atitudes, demonstrando aos candidatos a fundamentalistas que há outro caminho.

17 de março de 2004

Corre por aí uma discussão acerca da segurança e da liberdade que chega a ser hilariante. Sim, ser revistado à entrada do avião, tudo bem. Mas limitar a liberdade, isso nunca. Ora, não será a revista à entrada do avião uma limitação à liberdade? Não será a revista à entrada do avião uma forma de transformar um pacato cidadão em suspeito?
Depois de ter dito que «outros países [Inglaterra e Itália] virão antes de Portugal» no caso de haver retaliações pelo apoio à Guerra do Iraque — dando mostras de que a sua visão não vai além do seu próprio umbigo —, o dr. Mário Soares diz, agora, que é preciso negociar com os terroristas. Ora, eu confesso que já não me espantava com nada do que o dr. Soares diz. Mas esta deixou-me de boca aberta.
Parece não restarem dúvidas de que o governo espanhol mentiu e manipulou quem pôde com o objectivo de fazer passar a «verdade» que mais lhe convinha. Pelos dados que se vão conhecendo, não há dúvida de que o comportamento do sr. Aznar face à autoria dos atentados de Madrid chega a ser chocante. Se o PP perdeu as eleições de domingo por causa disso, foi muito bem feito.

16 de março de 2004

«(...) o mais elementar bom senso levaria a pensar que o Governo, ao focar todas as responsabilidades na ETA, estava a cometer um erro de palmatória. Como é que tantos estrategas, tantos conselheiros, tantos homens políticos experimentados não viram o que se metia pelos olhos dentro»?, pergunta o prof. Prado Coelho. Como se vê, após ter descoberto que os atentados de Madrid representam «uma guerra declarada do fundamentalismo islâmico contra os valores ocidentais» (provavelmente a mais importante descoberta depois da pólvora), o ilustre cronista demonstrou ser um génio, pois não me lembro de quem fizesse previsão tão certeira sobre os resultados das eleições espanholas após o desfecho ser conhecido.

15 de março de 2004

Parece que foi necessário um atentado de grande envergadura em Espanha — aparentemente cometido pela Al-Qaeda — para pôr a Europa a discutir o terrorismo. Ora, perante tão tardia descoberta, o mínimo que se pode dizer é que os dirigentes europeus são um bando de irresponsáveis. Como irresponsável (e ridícula) é a conduta do dr. Mário Soares, quanto diz que, «se houver retaliações [pelo apoio à Guerra do Iraque], outros países virão antes de Portugal, como Inglaterra e a Itália». Até por ter acabado de dizer — e com razão — que os líderes europeus «têm vistas curtas».

12 de março de 2004

Bem sei que os tempos não vão de feição para estas coisas, mas não resisto. Independentemente de os atentados em Madrid terem sido cometidos pela ETA ou pela Al-Qaeda — ou por outra seita qualquer —, é evidente que ali há mão do sr. Aznar. Porque domingo há eleições em Espanha, e tragédias destas costumam beneficiar quem está no poder. O plano nem sequer foi original. Como se recordarão, George W. Bush estava ao corrente do 11 de Setembro — ou mesmo por trás do 11 de Setembro. Ora, tendo em conta que Bush e Aznar são unha com carne, é provável que o primeiro tenha inspirado o segundo. Temos, pois, que o verdadeiro culpado dos atentados em Espanha nem é o sr. Aznar, mas o sr. Bush. E está bom de ver porquê: Bush defende que não se pode ficar de braços cruzados perante a escalada do terrorismo, e nada melhor que um atentado de grande envergadura para dar consistência à tese. Como já houve por aí quem notasse, a coisa é tão clara que até cega.

11 de março de 2004

O último ataque terrorista em Espanha veio lembrar o que toda a gente sabe mas não quer acreditar: por mais voltas que se dê, por mais medidas que se tomem, não há maneira de evitar ataques terroristas. Assim sendo, o que fazer? George W. Bush, o ignorante, defende que é preciso agir contra os terroristas antes que eles ajam contra nós. É a famosa guerra preventiva, outra versão da tese de que a melhor defesa é o ataque. Outros dizem que nem pensar, que assim não pode ser, mas não apresentam alternativas. E, se apresentam, não passam de abstracções. Infelizmente o terrorismo não se compadece com abstracções e só conhece uma forma de negociar: à bomba. De modo que só há duas soluções: ou eles, ou nós.

10 de março de 2004

Graças à Voz do Deserto, descobri o julioiglesias — e já está na minha lista de favoritos. Aproveitei, ainda, para actualizar a lista de blogues aqui ao lado, tirando uns e acrescentando outros. Ah, já me esquecia. Consta-me que ando a mandar e-mails com vírus. Ora, eu quero avisar que, a ser verdade (e deve ser, porque tenho recebido vários e-mails dando-me conta disso), não faço a mais pequena ideia do que se passa. O Norton diz-me que não há nada, mas eu não confio no Norton. Pelo sim, pelo não, já fiz uma cópia de segurança dos ficheiros importantes, provavelmente já infectados com vírus. É a vida. Se alguém souber como resolver o caso, agradeço. E desculpem qualquer coisinha.
A notícia de que a Câmara de Lisboa comprou o Hotel Bragança com o objectivo de lá instalar a futura Casa Eça de Queirós — que está a gerar controvérsia, pois há dúvidas de que seja o mesmo Hotel Bragança de que fala "Os Maias" (ou "A Correspondência de Fradique Mendes", já agora) — fez-me lembrar uma carta de Fradique Mendes a Madame de Jouarre em que este lhe conta as peripécias de uma viagem de comboio entre o Porto e Lisboa. Vale a pena ler na íntegra:

*

Lisboa, Março.

Minha querida madrinha.

Foi ontem, por noite morta, no comboio, ao chegar a Lisboa (vindo do Norte e do Porto), que de repente me acudiu à memória estremunhada o juramento que lhe fiz no sábado de Páscoa em Paris, com as mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa edição dos «Deveres» de Cícero. Juramento bem estouvado, este, de lhe mandar todas as semanas, pelo correio, Portugal em «descrições, notas, reflexões e panoramas», como se lê no subtítulo da «Viagem à Suíça» do seu amigo o barão de Fernay, comendador de Carlos III e membro da Academia de Toulouse. Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus juramentos (quando feitos sobre a moral de Cícero, e para regalo de quem reina na minha vontade) que, apenas o recordei, abri logo escancaradamente ambos os olhos para recolher «descrições, notas, reflexões e panoramas» desta terra que é minha e que está a la disposition de usted... Chegáramos a uma estação que chamam de Sacavém — e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu país, através dos vidros húmidos do vagão, foi uma densa treva, donde mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas remotas e vagas. Eram lanternas de faluas dormindo no rio: — e simbolizavam de um modo bem humilhante essas escassas e desmaiadas parcelas de verdade positiva que ao homem é dado descobrir no universal mistério do Ser. De sorte que tornei a cerrar resignadamente os olhos — até que, à portinhola, um homem de boné de galão, com o casaco encharcado de água, reclamou o meu bilhete, dizendo «Vossa Excelência»! Em Portugal, boa madrinha, todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos nos tratamos por «Excelência».
Era Lisboa e chovia. Vínhamos poucos no comboio, uns trinta talvez — gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem depressa atravessou a busca paternal e sonolenta da Alfândega, e logo se sumiu para a cidade sob a molhada noite de Março.
No casarão soturno, à espera das bagagens sérias, fiquei eu, o Smith* e uma senhora esgrouviada, de óculos no bico, envolta numa velha capa de peles. Deviam ser duas horas da madrugada. O asfalto sujo do casarão regelava os pés.
Não sei quantos séculos assim esperámos, Smith imóvel, a dama e eu marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao comprido do balcão de madeira, onde dois guardas de Alfândega, escuros como azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta do fundo, uma carreta, em que oscilava o montão da nossa bagagem, veio por fim rolando com pachorra. A dama de nariz de cegonha reconheceu logo a sua caixa de folha-de-flandres, cuja tampa, caindo para trás, revelou aos meus olhos que observavam (em seu serviço, exigente madrinha!) um penteador sujo, uma boceta de doce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda enterrou o braço através destas coisas íntimas, e com um gesto clemente declarou a Alfândega satisfeita. A dama abalou.
Ficámos sós, Smith e eu. Smith já arrebanhara a custo a minha bagagem. Mas faltava inexplicavelmente um saco de couro, e em silêncio, com a guia na mão, um carregador dava uma busca vagarosa através dos fardos, barricas, pacotes, velhos baús, armazenados ao fundo, contra a parede enxovalhada. Vi este digno homem hesitando pensativamente diante de um embrulho de lona, diante de uma arca de pinho. Seria qualquer desses o saco de couro? Depois, descoroçoado, declarou que positivamente nas nossas bagagens não havia nem couro nem saco. Smith protestava, já irritado. Então o capataz arrancou a guia das mãos inábeis do carregador, e recomeçou ele, com a sua inteligência superior de chefe, uma rebusca através das «arrumações», esquadrinhando zelosamente caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e garrafões... Por fim sacudiu os ombros, com indizível tédio, e desapareceu para dentro, para a escuridão das plataformas interiores. Passados instantes voltou, coçando a cabeça por baixo do boné, cravando os olhos em roda, pelo chão vazio, à espera que o saco rompesse das entranhas deste globo desconsolador. Nada! Impaciente, encetei eu próprio uma pesquisa sôfrega através do casarão. O guarda da Alfândega, de cigarro colado ao beiço (bondoso homem!), deitava também aqui e além um olhar auxiliador e magistral. Nada, Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho na cabeça, que ali vadiava, naquela madrugada agreste, apontou para a porta da estação:
— Será aquilo, meu senhor?
Era! Era o meu saco, fora, no passeio, sob a chuvinha miúda. Não indaguei como ele se encontrava ali, sozinho, separado da bagagem a que estritamente o prendia o número de ordem estampado na guia em letras grossas — e reclamei uma tipóia. O carregador atirou a jaleca para cima da cabeça, saiu ao largo, e recolheu logo anunciando com melancolia que não havia tipóias.
— Não há! Essa é curiosa! Então como saem daqui os passageiros?
O homem encolheu os ombros. «Às vezes havia, outras vezes não havia, era conforme calhava a sorte...» Fiz reluzir uma placa de cinco tostões, e supliquei àquele benemérito que corresse às vizinhanças da estação, à cata de um veículo qualquer com rodas, coche ou carroça, que me levasse ao conchego de um caldo e de um lar. O homem largou, resmungando. E eu logo, como patriota descontente, censurei (voltado para o capataz e para o homem da Alfândega) a irregularidade daquele serviço. Em todas as estações do mundo, mesmo em Tunis, mesmo na Romélia, havia, à chegada dos comboios, ónibus, carros, carretas, para transportar gente e bagagem... Porque não as havia em Lisboa? Eis aí um abominável serviço que desonrava a Nação!
O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena consciência de que todos os serviços eram abomináveis, e a Pátria toda uma irreparável desordem. Depois para se consolar puxou com delícia o lume ao cigarro. Assim se arrastou um destes quartos de hora que fazem rugas na face humana.
Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, afirmando que não havia uma tipóia em todo o bairro de Santa Apolónia.
— Mas que hei-de eu fazer? Hei-de ficar aqui?
O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manhã seguinte, com uma carruagem certa (contratada talvez por escritura), a viesse recolher «muito a meu contento». Essa separação porém não convinha ao meu conforto. Pois nesse caso ele não via solução, a não ser que por acaso alguma caleche, tresnoitada e tresmalhada, viesse a cruzar por aquelas paragens.
Então, à maneira de náufragos numa ilha deserta do Pacífico, todos nos apinhámos à porta da estação, esperando através da treva a vela — quero dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera estéril! Nenhuma luz de lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez daqueles ermos.
Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que «iam dar três horas, e ele queria fechar a estação!» E eu? Ia eu ficar ali na rua, amarrado, sob a noite agreste, a um montão de bagagens intransportável? Não! nas entranhas do digno capataz decerto havia melhor misericórdia. Comovido, o homem lembrou outra solução. E era que nós, eu e o Smith, ajudados por um carregador — atirássemos a bagagem para as costas, e marchássemos com ela para o hotel. Com efeito este parecia ser o único recurso aos nossos males. Todavia (tanto costas amolecidas por longos e deleitosos anos de civilização repugnam a carregar fardos, e tão tenaz é a esperança naqueles a quem a sorte se tem mostrado amorável) eu e o Smith ainda uma vez saímos ao largo, mudos, sondando a escuridão, com o ouvido inclinado ao lajedo, a escutar ansiosamente se ao longe, muito ao longe, não sentiríamos rolar para nós o calhambeque da Providência. Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha querida madrinha, seguindo estes lances, deve ter já lágrimas a bailar nas suas compassivas pestanas. Eu não chorei — mas tinha vergonha, uma imensa e pungente vergonha do Smith! Que pensaria aquele escocês da minha pátria — e de mim, seu amo, parcela dessa pátria desorganizada? Nada mais frágil que a reputação das nações. Uma simples tipóia que falta de noite, e eis, no espírito do estrangeiro, desacreditada toda uma civilização secular!
No entanto o capataz fervia. Eram três horas (mesmo três e um quarto), e ele queria fechar a estação! Que fazer! Abandonámo-nos, suspirando, à decisão do desespero. Agarrei o estojo de viagem e o rolo de mantas: Smith deitou aos seus respeitáveis ombros, virgens de cargas, uma grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a enorme mala de cantoneiras de aço. E (deixando ainda dois volumes para ser recolhidos de dia) começámos, sombrios e em fila, a trilhar à pata a distância que vai de Santa Apolónia ao Hotel Bragança! Poucos passos adiante, como o estojo de viagem me derreava o braço, atirei-o para as costas... E todos três, de cabeça baixa, o dorso esmagado sob dezenas de quilos, com um intenso azedume a estragar-nos o fígado, lá continuámos, devagar, numa fileira soturna, avançando para dentro da capital destes reinos! Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de luxo. Este era o luxo, este o repouso! Ali, sob a chuvinha impertinente, ofegando, suando, tropeçando no lajedo mal junto de uma rua tenebrosa, a trabalhar de carrejão!...
Não sei quantas eternidades gastámos nesta via dolorosa. Sei que de repente (como se a trouxesse, à rédea, o anjo da nossa guarda) uma caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do negrume de uma viela. Três gritos, sôfregos e desesperados, estacaram a parelha. E, à uma, todas as malas rolaram em catadupa sobre o calhambeque, aos pés do cocheiro, que, tomado de assalto e de assombro, ergueu o chicote, praguejando com furor. Mas serenou, compreendendo a sua espantosa omnipotência — e declarou que ao Hotel Bragança (uma distância pouco maior que toda a Avenida dos Campos Elísios) não me podia levar por menos de «três mil réis». Sim, minha madrinha, «dezoito francos»! Dezoito francos em metal, prata ou ouro, por uma corrida, nesta Idade Democrática e Industrial, depois de todo o penoso trabalho das Ciências e das Revoluções para igualizarem e embaratecerem os confortos sociais. Trémulo de cólera, mas submisso como quem cede à exigência de um trabuco, enfiei para a tipóia — depois de me ter despedido com grande afecto do carregador, camarada fiel da nossa trabalhosa noite.
Partimos enfim, num galope desesperado. Dai a momentos estávamos assaltando a porta adormecida do Hotel Bragança, com repiques, clamores, punhadas, cócegas, injúrias, gemidos, todas as violências e todas as seduções. Debalde! Não foi mais resistente ao belo cavaleiro Percival o portão de ouro do Palácio da Ventura! Finalmente o cocheiro atirou-se a ela aos coices. E, decerto por compreender melhor esta linguagem, a porta, lenta e estremunhada, rolou nos seus gonzos! Graças te sejam, meu Deus, Pai inefável! Estamos enfim sob um tecto, no meio dos tapetes e estuques do Progresso, ao cabo de tão bárbara jornada. Restava pagar o batedor. Vim para ele com acerba ironia:
— Então, são três mil réis?
À luz do vestíbulo, que me batia a face, o homem sorria. E que há-de ele responder, o malandro sem par?
— Aquilo era por dizer... Eu não tinha conhecido o sr. D. Fradique... Lá para o sr. D. Fradique é o que quiser.
Humilhação incomparável! Senti logo não sei que torpe enternecimento que me amolecia o coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza que nos enlaça a todos nós Portugueses, nos enche de culpada indulgência uns para os outros, e irremediavelmente estraga entre nós toda a disciplina e toda a ordem. Sim, minha cara madrinha... Aquele bandido conhecia o sr. D. Fradique. Tinha um sorriso brejeiro e serviçal. Ambos éramos portugueses. Dei uma libra àquele bandido!
E aqui está, para seu ensino, a verídica maneira por que se entra, no último quartel do século XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu, aquele que longe de si sempre pena,

Fradique

* O velho criado de quarto de Fradique Mendes.

9 de março de 2004

A reacção do dr. Mário Soares ao desafio de Paulo Portas — um debate na televisão «à velha maneira» — foi contundente... mas não convenceu. Embora se tenha escusado de forma airosa, cá para mim o dr. Soares cortou-se. E foi pena, porque podia ser um debate interessante.

8 de março de 2004

Não sou simpatizante do CDS/PP, mas custou-me ver como os políticos usaram e abusaram do caso Ferreira Torres para atacarem o CDS/PP. Porque eu não duvido que Ferreira Torres — cuja ideologia ninguém conhece — podia estar no PS, no PC ou no PSD, só para falar dos grandes partidos. Também não sou simpatizante de Paulo Portas, mas tiro-lhe o chapéu por desafiar Mário Soares para um debate televisivo «à velha maneira». E pago para ver.
Afinal, o ex-candidato a candidato Howard Dean afastou-se da corrida à Casa Branca por causa do mau funcionamento de um microfone, diz o Filipe Moura. Não, o "post" ("Howard Dean - A Verdade") não é para rir.

5 de março de 2004

"África Minha" é um livro que só conhecia por ter dado um filme, por sinal um filme famoso que nunca vi. Daí que foi sem grande entusiasmo que espreitei as primeiras páginas, e só o comprei porque tenho um contrato com o meu distribuidor de jornais que prevê a compra do "Público" de quarta enquanto este vier acompanhado de um livro. Mas enganei-me redondamente. Lidas as primeiras páginas, fiquei completamente agarrado. É verdade que o tema ajuda, mas um bom tema nem sempre dá um bom livro. E nem algumas ideias politicamente incorrectas que lá se defendem diminuem a beleza do livro, porque não é um livro de ideias e as que há não podem deixar de ser vistas à luz da época.

4 de março de 2004

Se vi bem, um comandante da GNR não sei de onde foi notícia no "Jornal da Tarde" da RTP... por ter cumprido a lei. Mais exactamente por não ter perdoado uma multa de trânsito ao próprio filho. Ora, quando um cidadão é notícia por se ter limitado a cumprir as suas obrigações só pode ser um sinal de que estamos perante uma excepção. Não é assim? Bom, é capaz de não ser bem assim. Mas é a ideia que fica, e isso já é mau que chegue.

3 de março de 2004

Custa-me a entender porque se insiste tanto na tecla de que Ferreira Torres devia ter sido preso na hora dos desacatos. Ora, preso por quem? Por meia dúzia de agentes que se encontravam no campo? Por amor de deus! Os agentes estão fartos de saber que Ferreira Torres é o manda-chuva lá do sítio, praticamente dono do campo que estavam a policiar e não tem medo de nada e ninguém. Prendê-lo seria um erro. Um erro que pagariam caro.
Há séculos que os países europeus gastam rios de dinheiro a combater a droga. E os resultados estão à vista: o tráfico e o consumo continuam a aumentar, diz um relatório da ONU. Ora, vai sendo tempo de reflectir seriamente nas vantagens da legalização da droga.

2 de março de 2004

João Miguel Tavares chamou atenção para o óbvio: as derrotas das equipas de futebol não se devem, somente, aos erros cometidos — mas, também, ao mérito dos adversários. Ora, há anos que ando a lembrar esta evidência e ninguém me liga.
Ainda não foi desta que vi a cerimónia dos Óscares. Mas já ouvi, de raspão, a música de Sting e de mais não sei quem, e gostei. Pode ser que para a próxima arranje pachorra.

1 de março de 2004

Gostei do pontapé do sr. Avelino Ferreira Torres e de o ouvir dizer que voltaria a fazer o mesmo caso fosse confrontado com situação idêntica. Digo gostei porque, logo a seguir, o senhor Madaíl veio dizer que nunca imaginou que «situações destas pudessem acontecer no Portugal de 2004», e eu fiquei logo maldisposto. Porque eu prefiro um pontapé genuíno a uma indignação hipócrita.

26 de fevereiro de 2004

Francisco José Viegas resolveu arrear no carnaval à portuguesa, e eu assino por baixo. Porque o carnaval à portuguesa dos últimos anos — com desfiles por todo o lado e donzelas seminuas a desafiarem a meteorologia — mais não é que uma imitação barata do carnaval brasileiro. Basta olhar com um pouco de atenção para se perceber que aquilo é uma mentira pegada. Não se vê espontaneidade, não se vê alegria genuína, não se vê nada que se aproveite.

25 de fevereiro de 2004

Há séculos que não ouvia tantos efectivamente seguidos. Hoje, durante o intervalo do Porto-Manchester, um tal prof. Hernani Gonçalves deu um festival que só visto (ou ouvido, já que foi na TSF). Ele era efectivamente para cá e para lá que até metia dó. Como não lhe bastassem os lugares-comuns, os disparates e as piadas de mau gosto. Valeu que o Porto ganhou e fez boa figura.

24 de fevereiro de 2004

A Ana Albergaria escreveu um texto magnífico no "Crónicas Matinais". Como não sei fazer o "link" directo, o texto em causa chama-se "Técnicas de Sedução".
Vital Moreira acha que «é totalmente disparatado afirmar que a condenação da política israelita em relação aos palestinianos releva de qualquer forma de antijudaísmo ou de anti-semitismo». Não passa de um «deliberado estratagema para tentar ocultar a repressão e a negação dos direitos dos palestinianos» com o objectivo de «inibir e condicionar as críticas a Israel», diz ele. Ora, isto é meia verdade. Em primeiro lugar, porque todos sabemos que há muita gente que é contra os judeus, independentemente da questão palestiniana. Eu, por exemplo, conheço várias pessoas que odeiam os judeus. Depois, porque se tornou claro que os palestinianos querem varrer Israel do mapa. E não é preciso ser judeu para ver esta evidência. Um mínimo de imparcialidade e distanciamento bastam.

23 de fevereiro de 2004

Falta pouco mais de um mês para o lançamento do "Ensaio Sobre a Lucidez". O tal livro que, segundo o autor, vai causar «um escândalo dos diabos», ainda maior que "O Evangelho Segundo Jesus Cristo". Ora, por causa do tal «escândalo», ofereceram-me o "Evangelho" mal ele foi editado, e sabe deus como o tentei ler. Hoje fui ver onde o deixei encalhado e se mantenho a mesma opinião. Lidos os dois primeiros períodos, acho que piorou. Ora vejam:
«O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo.»

20 de fevereiro de 2004

Miguel Sousa Tavares acha que Santana Lopes não tem currículo, «competência, estatuto e mérito para se tornar Presidente da República». Que nunca teve «qualquer sombra de ideia, de projecto, de pensamento político próprio». E que, se for Presidente da República, vai «ter vergonha de ser português». Mas, depois, contradiz-se. Santana Lopes «tem qualidades humanas» raras no meio, que «merecem respeito e solidariedade». A «forma politicamente incorrecta como ele [Santana Lopes] gere a sua vida privada», a «fidelidade que tem para com os amigos» e a «maneira como não se deixa conduzir por um código de conduta virtuoso que qualquer assessor de imagem lhe recomendaria» merecem, igualmente, realce. Quanto ao currículo, que começou por dizer que não tinha, o candidato presidencial tem-no e não é pequeno: «Desde que eu me lembro de seguir a política portuguesa Santana Lopes esteve lá sempre. Trabalhou com Sá Carneiro, com Balsemão, com Cavaco, com Barroso. Foi deputado no Parlamento e deputado em Bruxelas, secretário de Estado e autarca, presidente do Sporting e vice-presidente do PSD, figura incontornável em todos os congressos do partido, a favor, contra e novamente a favor da aliança com o CDS/PP, detentor crónico de tribunas em todos os meios de informação em acumulação com os cargos políticos, enfim, juntamente com Mário Soares, talvez a figura mais presente na política portuguesa dos últimos trinta anos». Eu não quero dar a ideia que estou a embirrar sistematicamente com Miguel Sousa Tavares, embora tenha embirrado bastante ultimamente. Até porque, como ele, também não simpatizo com Santana Lopes. Só que a prosa contra Santana foi um tiro no pé, pois MST começou por dizer uma coisa e terminou a dizer o contrário.

19 de fevereiro de 2004

Finalmente fora do júri. Após quatro dias de incontáveis esperas e intermináveis secas, a defesa resolveu dispensar-me. Nem cheguei a saber qual era o assunto do julgamento, mas pareceu-me um caso bicudo. A juíza explicou-nos que se tratava de uma teoria da conspiração, mas não entrou em detalhes. Não sei porque fui dispensado, nem quero saber. O que importa é que já não vou decidir quem é culpado ou inocente.
«A três meses das eleições europeias, discutem-se as eleições presidenciais de 2006. Não há problema, também quando forem as europeias vai-se discutir futebol.» Assim começa a crónica de Pacheco Pereira, no "Público" de hoje, onde arrasa Santana Lopes. Vale a pena ler.

17 de fevereiro de 2004

Se bem me lembro, Manuel Maria Carrilho foi protagonista de um dos mais mediáticos casamentos dos últimos anos. Lembro-me perfeitamente de ter visto fotografias do acontecimento na imprensa do coração e fora dela, e também me lembro de assistir a uma guerra intestina por causa da publicação de pormenores mais ou menos escabrosos sobre a vida de uma das partes. Ora, isso chegou e sobrou para se ficar com a ideia de que Manuel Maria Carrilho se presta a telenovelas mexicanas — ou pior. De modo que o mais recente episódio — envolvendo o deputado e um fotógrafo de uma revista cor-de-rosa — não pode deixar de ser visto à luz disso mesmo.

16 de fevereiro de 2004

Um dia destes tentaram subornar-me com um garrafão de vinho «feito lá em casa». Foi um casal de avós, que gostaria de ver publicada uma determinada notícia acerca da neta. A notícia saiu no jornal, mas o garrafão continua «lá em casa». Isto fez-me pensar na natureza da corrupção e chegar a uma conclusão preliminar: da palmada nas costas ao garrafão de vinho, passando por formas mais sofisticadas e valores mais substanciais, toda a gente corrompe e é corrompida.

13 de fevereiro de 2004

Há séculos que não via um programa de televisão com tão impressionante quantidade de lugares-comuns como o "Descobrir Portugal". Não exagero muito se disser que já não via coisa assim desde os tempos da RTP a preto-e-branco. Como se já não bastasse, o operador de câmara passa a vida a fazer uns malabarismos perfeitamente despropositados. Ele são planos inclinados; ele são planos de esguelha; ele são planos que não lembra ao diabo. Depois, o realizador (ou lá quem foi) resolveu colocar umas macaquices nas imagens, tapando metade do ecrã sem que se perceba porquê. Para cúmulo, o programa é anunciado como sendo «inovador». Mas inovador em quê? Só se for por ter transformado um documentário que podia ser interessante numa coisa intragável.

12 de fevereiro de 2004

Prometi contar como foi o meu segundo dia no tribunal, mas não devia. Porque me esqueci de que a lei me impede de divulgar o que lá se passou, o que vem mesmo a calhar. A única coisa que vos posso dizer é que fui escolhido para membro do júri e que ainda me dói o esqueleto de tanta hora sentado num banco de madeira. Duas boas razões para ficar mudo e quedo.

10 de fevereiro de 2004

Passei o dia num tribunal, para o qual fui convocado como potencial membro do júri. Depois de ter sido escolhido numa primeira fase, um advogado entendeu pedir a minha exclusão. Se tudo corresse conforme estava previsto, o julgamento — um caso que envolve um tipo acusado de atacar três mulheres — ia durar quatro dias. De modo que eu só posso agradecer a minha exclusão. Primeiro, por me ter poupado quatro dias enfiado num edifício que mete medo e num assunto que não me diz respeito. Depois, porque só me faltava que eu tivesse que decidir quem é culpado ou inocente. Infelizmente o meu caso com o tribunal não terminou aqui. Amanhã posso ser escolhido para outro caso, e ainda mais tenebroso. Fica a promessa de contar como foi.

9 de fevereiro de 2004

Já aqui lamentei a saída de Miguel Sousa Tavares da direcção da "Grande Reportagem" — mais exactamente numa crónica publicada na minha página pessoal. Hoje é a vez de lamentar a saída de Francisco José Viegas, também da "GR". No primeiro lamento, enganei-me redondamente. No segundo, o tempo dirá. Mas arrisco dizer que a saída de FJV é uma má notícia. Porque eu habituei-me a ler textos muito bem escritos na "GR", e não sei se isso vai continuar.

6 de fevereiro de 2004

Afinal, Saddam Hussein abriu os seus palácios às inspecções da ONU e cedeu a todas as «exigências dos inspectores e da Casa Branca». Como se calcula, isto faz toda a diferença na apreciação que se possa fazer acerca da intervenção militar no Iraque. E quem garante que assim tenha sido? Miguel Sousa Tavares, quem haveria de ser?

5 de fevereiro de 2004

Ora aqui está o manual que faltava e que poupará umas dorzitas no esqueleto.

4 de fevereiro de 2004

Andam para aí uns aldrabões — digo aldrabões porque recorrem à mentira com uma frequência e um despudor impressionantes — a tentar demonstrar que o relatório do juiz Hutton foi um embuste, pois a BBC teve um comportamento exemplar na cobertura da guerra — exemplar por ter sido ferozmente contra, bem entendido. Só que a argumentação é tão tosca que chega a ser patética, como patéticos são os argumentos dos ex-dirigentes da BBC, que não se compreende porque se demitiram achando que tinham razão. Extraordinário como os «paladinos da verdade» não se inibem de dizer que esperavam do juiz Hutton um relatório «equilibrado» — em vez de um relatório isento, como qualquer cidadão desejaria. Impressionante como se chega a tamanha cegueira.
Consta que o príncipe regente da Noruega terá dito que Portugal é banhado pelo Mediterrâneo. Segundo a "Lusa", a «gaffe» terá sido cometida durante um banquete em honra do presidente Sampaio e foi prontamente corrigida pelo porta-voz da Casa Real norueguesa, alegando que o príncipe quis dizer «às portas» do Mediterrâneo e não banhado pelo Mediterrâneo. Consultados os blogues do costume, verifico, umas horas depois, que está tudo muito calado. Imaginem que tinha sido o presidente Bush o autor de semelhante «gaffe».

3 de fevereiro de 2004

A extraordinária cabecinha do sr. Vital Moreira pariu mais uma pérola de antologia: «a interrupção da inspecção das Nações Unidas [no Iraque] e o desencadeamento precipitado da guerra não se ficou a dever a uma forte convicção de que as armas existiam, mas sim, inversamente, ao receio de se provar que elas não passavam de uma mistificação», diz ele. Ora digam lá que o homem não é um génio.
O Contra-a-Corrente publicou um belo texto sobre a cultura e a esquerda com o título "I Insist" (quem me ensina a fazer um "link" directamente para um texto?).

2 de fevereiro de 2004

A jornada de luto por Fehér e o clima de conciliação alardeado pela generalidade dos mandantes da bola terminou à pancada. Após uma semana de beijos e abraços, em que fizeram de conta que se gramavam uns aos outros, uma leve brisa bastou para que tudo ruísse com estrondo. Tendo em conta a elevadíssima dose de hipocrisia que nos foi servida a toda a hora durante uma semana inteira, eu só posso suspirar de alívio.

30 de janeiro de 2004

Daniel Oliveira acha que o relatório Hutton sobre o caso Kelly-BBC é um embuste. Porque o relatório acusa a BBC de ter mentido e iliba o primeiro-ministro britânico. E escuda-se numa sondagem para defender a sua teoria, calando o facto de a BBC já ir na terceira demissão (presidente do conselho de administração, director-geral e jornalista que elaborou a peça da discórdia) e no enésimo pedido de desculpas. Termina dizendo que «o descaramento não tem limites». Pois parece que não. Passa pela cabeça de alguém que a BBC ande a pedir desculpas a toda a hora se acha que não tem culpa? Pelos vistos passa.
Como seria de prever, o espectáculo da morte de Fehér, que as TVs transmitiram em directo e repetiram até à exaustão, causou náuseas em alguns estômagos mais sensíveis. O caso deu azo a que se voltasse a falar de autoregulação — uma peça de retórica de cuja ineficácia ninguém duvida — e se voltasse a pedir que sejam banidas das TVs cenas obscenas e de puro "voyeurismo", embora falte explicar o que são cenas obscenas e puro "voyeurismo", o que é razoável passar e o que ultrapassa os limites. Presume-se que as televisões ouviram o recado, como se presume que se borrifaram no assunto. Afinal, quem se lembra do sucedido daqui a dois ou três dias?
«A questão está em saber se [os EUA] têm ou não o direito de decidir unilateralmente o que é terrorismo e quando é que a ameaça [aos EUA] é verdadeira», diz Miguel Sousa Tavares. Ou seja, antes de pensarem em defender-se, os americanos têm que perguntar a terceiros (presume-se que à ONU) o que é terrorismo, e se esse terrorismo constitui uma verdadeira ameaça. O disparate não tem limites.

28 de janeiro de 2004

O presidente da BBC demitiu-se na sequência da divulgação do relatório sobre a morte do cientista britânico David Kelly. Tendo em conta o comportamento vergonhoso da BBC durante a intervenção anglo-americana no Iraque — fartou-se de mentir e de manipular os factos de modo a defender os seus pontos de vista —, a demissão só pecou por tardia.

27 de janeiro de 2004

Henrique Monteiro acha «necessário que o Estado seja duro e exemplar» para com os jornalistas que não honram as suas responsabilidades, nomeadamente com os «maus editores que mandam em jornalistas inexperientes, ignorantes ou com situações laborais periclitantes». Eduardo Cintra Torres, citando um sociólogo alemão, acha que «a imprensa é livre, mas os jornalistas não». João Miguel Tavares lembra que «não há manchetes grátis», e que «o grande problema da comunicação social portuguesa não é o excesso de poder dos jornalistas, mas o excesso de poder das fontes». Nada mau para um início de autocrítica.

26 de janeiro de 2004

José António Saraiva, jornalista, diz «que ser português é muito perigoso». José Manuel de Mello, empresário, diz que «Portugal deve juntar-se imediatamente a Espanha». O que pensarão disto os adeptos das teorias da conspiração?

23 de janeiro de 2004

Quando nada há para dizer, mais vale ficar calado. Ou, então, recomendar quem tem algo para dizer, como Luís Fernando Verissimo, que escreveu este texto notável.

21 de janeiro de 2004

Francisco José Viegas escreveu uma crónica no "JN" de se lhe tirar o chapéu. Óscar Mascarenhas tem um blogue onde a excelência da prosa e a pertinência do que lá abordou são altamente recomendáveis. Carlos Vaz Marques regressou à blogosfera, agora em nova morada. Três boas notícias, três vozes que vale a pena ouvir.

20 de janeiro de 2004

Parece que os "Repórteres Sem Fronteiras" (RSF) concluíram, como base em não sei o quê, que os americanos cometeram um «duplo homicídio» ao dispararem contra o Hotel Palestina, que resultou na morte de dois jornalistas. Mais: os "Repórteres Sem Fronteiras" consideram uma «mentira de Estado» a explicação das autoridades americanas, que alegaram ter disparado em legítima defesa. Ora, se bem me lembro, o Hotel Palestina servia de abrigo a membros afectos ao regime de Saddam, como a televisão demonstrou. Lembro-me perfeitamente de ter visto imagens da família de destacados membros do regime refugiada dentro do Hotel Palestina quando a tropa americana lá entrou, e penso não estar a delirar. Quer isto dizer que tese dos americanos é, pelo menos, verosímil, até porque é razoável admitir-se que os membros do regime que lá se encontravam estavam armados. Já a tese dos "Repórteres Sem Fronteiras" — que acusa os americanos de homicídio e mentira de estado sem apresentarem a mais leve prova — não tem ponta por onde se lhe pegue.

19 de janeiro de 2004

Não sou um amante de fado, embirro com os maneirismos que o rodeiam e, de modo geral, não simpatizo com os fadistas. Foi isto o que tentei dizer na crónica que acabei de colocar na minha página pessoal.

16 de janeiro de 2004

Miguel Sousa Tavares, que não se tem cansado de demonstrar que não tem quaisquer problemas em transformar suposições em factos e factos em suposições (ou mesmo a mentira em verdade e a verdade em mentira), resolveu dar largas ao seu ódio de estimação: o presidente George W. Bush e sua administração. E que disse MST? O que já tinha dito variadíssimas vezes: que Bush «só conseguiu ser eleito graças a uma batota eleitoral»; que Bush fugiu no dia 11 de Setembro; que a resposta ao 11 de Setembro devia ter sido política e não militar; que basta olhar para a cara de Bush para se perceber que o homem é estúpido. Enfim, nada que não tenha sido dito e repetido em qualquer conversa de taberna. Acontece que MST não ignora que, sobre a suposta «batota eleitoral», ter-se-ia dito a mesmíssima coisa caso tivesse ganho Al Gore, pelo é pouco rigoroso (e sério) envolver Bush num caso de fraude eleitoral. MST também não ignora que a suposta fuga de Bush no 11 de Setembro não passou de uma mentira, e que a resposta política em vez de militar é uma daquelas coisas que se deitam da boca para fora por tudo e por nada sempre que não se tem a mínima ideia acerca do que fazer. Por último, a famosa estupidez e ignorância do presidente Bush, que MST tanto gosta de salientar, é capaz de ser um juízo tão ligeiro que nem o próprio Bush se atreveria a fazer, apesar da sua infinita ignorância. Além de que um juízo desta natureza pressupõe uma superioridade intelectual que MST está longe de ter demonstrado.

15 de janeiro de 2004

Chova ou troveje, há meia dúzia de coisas que não dispenso de fazer semanalmente. Uma delas é ler as crónicas de Art Buchwald e Jon Carroll, apesar de quase sempre discordar dos seus pontos de vista no que à política diz respeito.

14 de janeiro de 2004

O dr. Manuel Pinto Coelho acha que «é um erro grosseiro» ter «uma atitude mais tolerante em relação às drogas». Diz ele que «terminar com a proibição tornaria o problema ainda pior», pois a liberalização conduziria a «um aumento de consumo». E está convencido de que «mesmo que as drogas fossem legais as pessoas ainda roubariam e se prostituiriam para as pagar», porque «continuariam a necessitar de dinheiro para alimentar o seu vício». Finalmente, que é possível uma sociedade livre de drogas. Ora, vindo isto de um senhor que diz ter gasto vinte anos da sua vida a acompanhar toxicodependentes, não podia passar sem comentário. Em primeiro lugar, onde foi ele buscar a ideia de que a liberalização da droga conduziria a um aumento de consumo? Tem números que o comprovem ou é uma mera suposição? Depois, não será razoável esperar-se uma diminuição drástica do roubo e prostituição associado ao consumo de droga caso ela seja legal? Sim, porque parece não haver dúvidas de que a droga baixaria drasticamente de preço caso fosse legal. Por último, o dr. Pinto Coelho acha que é possível uma sociedade sem drogas. Será um mero desejo ou estrá mesmo convencido disso? Se está, não há dúvida de que o dr. é um lírico.

13 de janeiro de 2004

Consta que a BBC vai transmitir os célebres «4 minutos e 33» de John Cage, uma das obras-primas do compositor norte-americano cuja principal característica é o silêncio total. Mais: a obra vai ser interpretada por uma orquestra sinfónica. Ora, não estando eu em condições de discutir a obra (nunca ouvi) e não percebendo como ela possa ser tocada por uma orquestra sinfónica, parece-me que a transmissão de quatro minutos e tal de silêncio é, por si só, uma boa notícia. Digo mais: é uma excelente notícia. Porque faz bem escutar o silêncio e, sobretudo, praticar o silêncio. Quem já escutou o silêncio sabe do que falo. Quem nunca escutou, aproveite agora.

12 de janeiro de 2004

Se tudo estiver a correr como eu espero, atravessam o Atlântico neste preciso momento "Fantasia Para Dois Coronéis e uma Piscina" (Mário de Carvalho), "Às Avessas" (Vasco Pulido Valente), "Porto-Sudão" e "A Invenção do Mundo" (Olivier Rolin), "O Pintor de Retratos" (Luiz Antonio de Assis Brasil) e "O Fascínio" (Tabajara Ruas). Quatro euros mais caros por unidade devido ao transporte, mas que se há-de fazer. São os custos da exterioridade.

9 de janeiro de 2004

O "Expresso" é o jornal mais odiado pela «inteligência» — e, provavelmente, o mais lido. Falar mal do "Expresso" — e também eu já falei mal do "Expresso" — fica bem no currículo de qualquer um. Desconfio, contudo, que este falar mal é mais uma moda que outra coisa. Ou, então, deve-se à portuguesíssima dor de corno. A transferência de João Pereira Coutinho foi, desta vez, o pretexto. Pretexto, também, para arrearem em Pereira Coutinho, em parte também por dor de corno. Está visto que esta gente anda necessitada de ler o livro do arquitecto Saraiva.
Miguel Sousa Tavares insiste em fazer de conta que as pessoas são estúpidas. De uma penada, isenta de culpas a comunicação social no processo Casa Pia — como se ele não soubesse que a comunicação social não está isenta de culpas. Depois, diz que há uma campanha da Justiça destinada a punir os notáveis, nomeadamente os notáveis do PS. Razão para se interrogar: «Quantos implicados anónimos estarão a escapar incólumes por cada notável que (...) se pretende implicar?» Ou seja, Miguel Sousa Tavares pretende fazer passar a ideia de que a implicação de cidadãos anónimos ou de notáveis é a mesmíssima coisa, e que a hipotética condenação de uns ou outros têm o mesmo efeito dissuasor. Acontece que não é assim, como Miguel sabe bem que não é.
Começam a surgir discordâncias acerca da oportunidade (e do conteúdo) da última intervenção do Presidente da República. Eu já estava a estranhar tanto consenso.
Interessante o falatório acerca da lei de imprensa que a divulgação das cartas anónimas veio precipitar. A «discussão» encontra-se na fase em que toda a gente acha que deve haver censura e o contrário. Escusado será dizer que a questão vai morrer por aqui.

8 de janeiro de 2004

Um pouco de frieza e lucidez — tão arredados dos meios políticos e jornalísticos nos últimos dias — são sempre recomendáveis. Por isso saúdo a crónica de Pacheco Pereira no "Público" de hoje, depois acrescentada no Abrupto. O ilustre comentador chamou a atenção para duas ou três coisas essenciais que a gritaria tem impedido de ouvir e desfez um aparente (e estranho) consenso à volta do processo Casa Pia. Tudo com base nos factos, como mandam as regras.

7 de janeiro de 2004

Os políticos acusam os jornalistas de serem os principais culpados pelo actual clima que rodeia o processo Casa Pia. Precisamente os mesmos políticos que usam os jornalistas para criar climas semelhantes sempre que isso lhes convém, e que não hesitam em lançar nomes na lama caso seja preciso. Ora, para começar, a quem interessa esta gritaria? Às televisões e aos jornais? Sem dúvida nenhuma. Mas é só às televisões e aos jornais? Evidentemente que não é. Ela interessa a uma cada vez mais evidente estratégia destinada a descredibilizar todo o processo, e que há-de levar a que algumas das vítimas se transformem em culpados.
Vicente Jorge Silva escreveu uma carta à dra. Ana Gomes pedindo-lhe para não se calar. E era preciso?

6 de janeiro de 2004

À crítica musical devo o meu interesse pela música. Mesmo aos críticos com quem nunca estive de acordo, que me obrigaram a reexaminar os meus gostos e acabaram por reforçar as minhas convicções. À crítica musical devo, ainda, a evolução dos meus gostos para outras músicas, nomeadamente para o jazz e para a chamada música clássica, neste caso por ignorá-la. De tanto ouvir os críticos, cheguei a um ponto em que estava tão cheio de preconceitos que quase não conseguia fruir a música livremente. Ouvir música quase deixou de ser um prazer lúdico para ser um mero exercício, interessante ao princípio mas cansativo depois. Hoje não leio uma crítica musical e não mexo uma palha para saber o que estou a ouvir. Assim me sinto inteiramente livre para fruir o que ouço, e estou-me nas tintas que os especialistas o considerem bom ou mau. Vem isto a propósito de Mary Black e Eva Cassidy, que estive a ouvir esta manhã e recomendo vivamente. Sei quase nada de cada uma delas, excepto que são duas vozes que não me canso de ouvir.

5 de janeiro de 2004

As reacções à comunicação ao país de Jorge Sampaio vão todas no mesmo sentido. Isto é, toda a gente a achou oportuna e concordou com o conteúdo. Não querendo ser um desmancha-prazeres, eu achei a intervenção despropositada. Como, aliás, achei despropositada a primeira intervenção de Sampaio sobre o mesmo assunto. Além de não ter percebido muito bem o que ele disse, tantas foram as que deu no cravo como as que deu na ferradura. Mas deve ser deficiência minha.
Enjoado com os balanços do ano que findou e com as últimas peripécias da Justiça? Então leia esta pérola de Luís Fernando Verissimo.
O Fumaças colocou o Esmaltes e Jóias na lista dos 15 melhores blogues portugueses do ano que findou. Quer isto dizer que o Fumaças é uma pessoa de bom-gosto, embora eu nunca tivesse duvidado. O mais curioso é que eu não conheço nem metade dos nomes por ele escolhidos, o que talvez signifique uma escolha politicamente incorrecta. Seja lá como for, gostei de aparecer na lista.

30 de dezembro de 2003

O presidente da Líbia decidiu renunciar ao desenvolvimento de armas de destruição maciça. Independentemente das contrapartidas que terão havido das partes envolvidas no acordo (EUA, Inglaterra e Líbia), parece-me evidente que se trata de uma boa notícia. Estranho, por isso, o silêncio dos «pacifistas», que tanto têm feito pela paz do mundo e arredores. Ou, pensando melhor, talvez não. Afinal, este acordo deixou à vista uma evidência: não foi com acções pacifistas e boas intenções que o senhor Kadhafi tomou a decisão que tomou, e tudo leva a crer que a invasão do Iraque pela tropa americana e inglesa pesou na decisão do presidente libanês. As coisas são o que são, e contra factos não há argumentos.

29 de dezembro de 2003

O Esmaltes e Jóias termina o ano com uma média de vinte e poucas visitas diárias. Sim, vinte e poucas visitas diárias. Não vou chamar ingratos aos leitores — até porque os não tenho. Mas não nego que ficaria mais satisfeito se fossem 2 000. Ou 20 000. Ou 100 000. Bem vistas as coisas, não tenho razões para me queixar. Muito menos para deixar de aqui vir dizer o que me apetece, quando me apetece. Olhando para trás, não tenho dúvidas de que valeu a pena. Porque o objectivo continua a ser o prazer da escrita — e, às vezes, o prazer das ideias. Sem dúvida que ser lido é um prazer. Mas, neste caso, um prazer que vem por acréscimo.

22 de dezembro de 2003

Não dou grande importância a efemérides. Mas, por regra, os jornais dão. E não me lembro de ver um jornal português, sobretudo os jornais de «referência», falar no aniversário do nascimento de Alexandre O'Neill, a 19 de Dezembro. O'Neill é um poeta a que volto sempre, mais tarde ou mais cedo, a propósito de tudo e de nada. Para me deliciar com versos assim:

(...)
Virilhas colaborando com parêntesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.
(...)


Ou assim:

No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.

19 de dezembro de 2003

Parece que o discurso do presidente Chirac — a favor de uma lei que proíbe, nas escolas e noutros estabelecimentos públicos, a utilização da burka e outros símbolos religiosos considerados «ostensivos» — pôs, em França, toda a gente de acordo. Ou melhor: pôs quase toda a gente de acordo, porque os muçulmanos ficaram furiosos. Muito sinceramente, espero e desejo que a coisa resulte. Mas tenho dúvidas, muitas dúvidas. Compreende-se e aplaude-se o combate ao fundamentalismo, seja ele islâmico ou doutra natureza. Mas receio que as medidas que os franceses se preparam para tomar produzam resultados inversos ao que pretendem. Um Estado laico e que se diz de direito não deve proibir que os seus cidadãos manifestem exteriormente a sua religião, quer se goste, quer não. A não ser que essas manifestações de religiosidade ponham em causa os direitos e liberdades dos outros, que parece não ser o caso. Sem dúvida que o assunto é controverso. Por isso mesmo acho que mais vale não legislar que legislar mal.

17 de dezembro de 2003

Ainda o Natal é uma criança e já fui obrigado a engolir dezenas de "Jingle Bells". É sempre assim todos os anos: música de Natal a toda a hora e por todo o lado, e eu não consigo fazer de conta que já é a décima vez que estou a ouvir a mesma música. Como já não bastasse este verdadeiro pesadelo, fui obrigado a assistir, na RTP Internacional, ao Natal dos Hospitais, uma verdadeira mistura de cantigas e de hipocrisia apresentada por peritos em lugares-comuns e conversas de treta. Pois é, o famoso espírito natalício — uma mistura de condescendência com doses cavalares de hipocrisia — está a deixar-me num estado miserável. E já não falo das prendas, que nesta altura do ano se dão e se recebem como se fossem uma fatalidade e nos tranquilizam as consciências o resto do ano. Sim, eu gosto do Natal. Palavra de honra que gosto do Natal. Porque o Natal me faz lembrar os natais da minha infância, quando o Natal era verdadeiro.

16 de dezembro de 2003

«A excitação pela captura de Saddam Hussein (...) não devia distrair-nos da gravidade do fracasso da Constituição europeia», diz o sr. Vital no "Público" de hoje. Ou seja, a prisão de Saddam foi um mero «fait divers». Mas, depois, lá acaba por condescender: «exige-se um tribunal internacionalmente acreditado» para julgar Saddam, que «somente as Nações Unidas podem legitimar». Sim, porque os crimes cometidos pelo ditador podem levá-lo a apanhar a pena máxima, e não é caso para tanto. Afinal, Saddam não passa de um inimigo da América.

15 de dezembro de 2003

Impossível não falar da captura de Saddam e de não ficar à beira do vómito com a onda de regozijos hipócritas (e muito mal disfarçados) que se vêem por todo o lado. Saddam foi um ditador brutal, um tirano sanguinário, um assassino. Mas é bom não esquecer que ele foi um inimigo da América. Eis, em resumo, a moral da estória para grande parte da esquerda, sobretudo da esquerda cuja única causa que se lhe conhece é ser contra a América. Como tal, não gostaram da forma como Saddam foi capturado, da forma como foi anunciada essa captura e, agora, que lhe tenham cortado as barbas. Porque, enfim, o homem merece respeito e deve ser tratado com dignidade. Como se não saltasse à vista de um cego que o verdadeiro problema desta gente é o facto de esta captura representar uma vitória da América. Preparemo-nos, pois, para ouvir estes beneméritos exigirem um «julgamento justo» para Saddam. A hipocrisia não têm limites.

11 de dezembro de 2003

Eduardo Prado Coelho garante que Jessica Lynch foi «transformada em heroína pelo Pentágono para poder fornecer um argumento para um filme». Exactamente assim: «para poder fornecer um argumento para um filme». Depois, num parágrafo mais à frente, acrescenta: «A questão está em sabermos até que ponto estes reincidentes falsificadores da realidade poderão ser os melhores defensores da verdade democrática». Ou seja, Prado Coelho não hesita em recorrer ao mesmo artifício (falsificar a realidade) para defender a sua «verdade democrática». Com o agravante de ainda nos vir dar lições de moral.

10 de dezembro de 2003

José Eduardo dos Santos foi reeleito presidente do MPLA por unanimidade e aclamação. Ou seja, foi reeleito por 100 por cento dos votos, como Saddam se gabou de ter sido. Dizem as notícias que o presidente angolano terá dito, após a reeleição (de braço no ar), que se deve valorizar a diversidade de opiniões, porque é necessário que haja «pontos de vista diferentes» de modo a surgirem «ideias ricas e válidas» capazes de se constituírem «solução dos problemas». Comovente, não é?
Ainda os três jornalistas da TVI que suspenderam as colaborações com o "24 Horas". Agora resolveram vir negar que tenham sido pressionados pelo sr. Moniz ou pela dona Manuela, alegando que «a solidariedade não se pede». Não há dúvida de que há alturas em que mais vale estar calado.

9 de dezembro de 2003

A ser verdadeira a notícia do "Público" de domingo — e não há razões para duvidar que não seja verdadeira —, três jornalistas da TVI suspenderam, por ordem do chefe (José Eduardo Moniz), as suas colaborações com o "24 Horas", porque a esposa do sr. Carlos Cruz terá dito àquele jornal que o seu marido teve um caso com a esposa do sr. Moniz. A estória demonstra bem até que ponto chegou a subserviência dos jornalistas nos tempos que correm, a que não será estranho o silêncio por parte da classe. Porque ninguém duvida que ceder por uma coisa destas — afinal, um mero negócio de saias de contornos duvidosos — significa ceder em tudo. E não adianta fazer de conta que nada se passou.

8 de dezembro de 2003

Afinal, para Alfredo Barroso o problema não é o sr. Bush, mas a América. Valha a verdade que não é nada que já não se soubesse, mas não há nada como o próprio a confirmá-lo. Para Alfredo Barroso, a América é «imperial», «egoísta», «solitária», «autista», «egocentrista». A América é um país onde «a violência está inscrita no quotidiano desde a sua fundação», um país fechado sobre si próprio e armado até aos dentes que quer «impor os seus padrões aos outros e a sua fé ao mundo». Quanto ao sr. Bush, a lengalenga do costume: é um cowboy, um pistoleiro, um exterminador implacável. Enfim, nada além do lugar-comum e da conversa de taverna. E depois dizem estas criaturas que nada têm contra os americanos, porque o problema deles não é a América mas o sr. Bush. Ou seja, mentem mal e porcamente e ainda nos querem tomar por parvos.
«É preferível pagar a uma das cem meninas do que a um psicólogo», diz um anónimo de Bragança ao jornalista Alfredo Mendes. Jornalista que escreveu uma peça no "Diário de Notícias" que vale a pena ler.

5 de dezembro de 2003

Portugal fez uma «estúpida colagem aos americanos quando da invasão do Iraque» e «à revelia da Europa», diz Miguel Sousa Tavares no "Público" de hoje. Ficamos, assim, a saber que a Europa não teve duas posições sobre a intervenção militar no Iraque — contra e favor —, mas uma só: contra. Impressionante a ligeireza com que MST transforma meras opiniões em factos.

4 de dezembro de 2003

«Era óptimo poder fazer omeletes sem partir ovos — só que não é possível. Por isso não deveria ser possível pedir ao mesmo tempo o fim rápido da "ocupação" do Iraque e, logo a seguir, acrescentar que as "forças ocupantes" não podem retirar-se pois tal poderia criar o caos. Só que foi precisamente o que Jorge Sampaio foi dizer à Argélia», diz José Manuel Fernandes no "Público" de hoje. Infelizmente não é só o presidente Sampaio que assim pensa e o único a defender em simultâneo uma coisa e o seu contrário. Além de que um “raciocínio” desta natureza só pode ter uma leitura: os americanos fazem sempre tudo mal. Se fazem assim, deviam fazer assado; se fazem assado, deviam fazer assim. E depois não gostam que lhes chamem anti-americanos primários.
As várias versões da história de Jessica Lynch demonstram que a verdadeira está por contar. E, como assim é, cada um conta a que mais lhe convém. Este é o tema da mais recente crónica publicada na minha página pessoal.

3 de dezembro de 2003

Tenho andado a reler as crónicas de Vasco Pulido Valente no "DN" e descobri uma que se ajusta bem aos tempos que correm. Com a devida vénia ao autor e ao "DN", aqui vai:

Unilateralismo

Para lá da hipocrisia oficial, a grande consequência política do ataque de Ben Laden à América foi levar o antiamericanismo a um novo cume. O antiamericanismo não uniu só a esquerda e a direita - uniu o mundo. Não há pateta que não se dê ao trabalho de chamar a Bush imbecil, ignorante e vácuo; e não há «teórico» que não disserte por aí sobre a malvadez do «império». A mortandade do 11 de Setembro libertou um ressentimento universal e a vítima foi promovida a carrasco.
Paradoxal? De maneira nenhuma. Há um século que a América anda a cometer erros sem nome. Resolveu a I Guerra Mundial e ditou largamente as condições de paz. Sem ela, na II Guerra, o Exército Vermelho teria chegado à Mancha. Durante trinta anos defendeu o Ocidente e uma larga parte do planeta da expansão soviética. E, no fim, ganhou, acabando com o mito do socialismo, «real» ou virtual. Pior ainda: espalhou a sua cultura popular pela terra inteira, subverteu a ética sexual com uma revolução única na história e, na ciência e tecnologia, deixou toda a gente para trás. Fora isso, é rica, forte e livre. Coisas destas não se desculpam. A «Europa» não lhe desculpa a sua decadência. Os pobres não lhe desculpam a sua pobreza. As civilizações arcaicas não lhe desculpam o seu atraso. A América acabou por se tornar no bode expiatório da miséria humana. Tirando a América não existem responsáveis: nem o Islão, nem o racismo, nem o tribalismo, nem o ódio étnico, nem os cleptocratas que governam África. Nada e ninguém. E, depois, vêm uns senhores virtuosos protestar contra o unilateralismo da política de Bush. Que esperavam eles? Que a América se entregasse à «Europa» ou à ONU para lhe atarem seguramente as mãos? E em nome de quê? De uma lei internacional imaginária ou para ganhar a simpatia de quem já a detesta?

2 de dezembro de 2003

Cada vez tenho menos dúvidas de que a música — a boa música — nos reconcilia com a vida, nos torna melhores. Palestrina, por exemplo, que estou a ouvir cantado pelo coro da Catedral de Westminster, transmite uma sensação de bem-estar, de paz de espírito. «Se pudesse passava a vida a ouvir música», disse, um dia, Eduardo Lourenço, para quem a música é «como um mar de Deus».

1 de dezembro de 2003

Eu tenho dúvidas de que um escritor deva receber dinheiros do Estado para escrever, como tenho dúvidas de que um cineasta deva receber dinheiro do Estado para fazer filmes, um actor para fazer teatro, um músico para compor. Conforme os casos, às vezes sou contra, outras vezes a favor. Deverá o Estado sustentar coisas de que ninguém quer saber? Deverá o Estado sustentar aquilo que as pessoas querem ver, ouvir ou ler? Eis o eterno dilema. Parece óbvio que quem produz coisas de que ninguém quer saber não merece apoio do Estado, como parece óbvio que um criador de sucesso não precisa do Estado. Parece... mas não é. A questão é mais complicada do que o simplismo desta ideia deixa supor. Daí que eu gostaria de ver uma discussão profunda sobre isto, sem preconceitos ou ressentimentos. Aproveitando, aliás, a ideia do Abrupto, já continuada pelo Aviz.
Porque resolveu dar uma entrevista, Clara Ferreira Alves acha que o juiz Rui Teixeira deve estar calado. Porque resolveu dizer o que pensa da justiça que temos, Henrique Monteiro acha que o juiz Rui Teixeira não tem legitimidade para opinar, pela razão simples de que o cargo que ocupa não foi sufragado. Por este andar ainda vamos ver o juiz Rui Teixeira ser acusado de ter inventado o processo Casa Pia.