9 de novembro de 2004

Duas entrevistas de Lobo Antunes (uma aqui e outra aqui) salvaram-me o dia. Salvaram-me o dia e fizeram-me lembrar o dia em que eu li, praticamente de uma vez só, Auto dos Danados, tinha eu vinte e tal anos. Foi tal o deslumbramento que não descansei enquanto não li todo o Lobo Antunes, de Memória de Elefante a Fado Alexandrino. Duas frases a reter me ficaram das entrevistas de hoje: «Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é» (Público); «Saber ler é tão difícil como saber escrever» (DN).
Mais do que o suposto declínio do Diário de Notícias (ou «agonia», como lhe chamou o director do Expresso, mete dó a troca de acusações sobre o dito por parte de quem se esperaria alguma continência verbal. Mas o que mete ainda mais dó é ver como um título de referência como o DN se transformou num campo de batalha política, de que certamente não sairá vencedor.

5 de novembro de 2004

Miguel Sousa Tavares continua a fazer o que melhor sabe: mentir sobre George W. Bush. Segundo ele, o presidente americano «pôs a economia num caos» (que os factos facilmente desmentem) e «desfez o sistema de segurança social» (que nunca existiu).

4 de novembro de 2004

Não há dúvida de que Pacheco Pereira está mesmo obcecado com o governo de Santana Lopes e com quem o apoia. Tão obcecado que às vezes chega a parecer que perdeu a lucidez e a sensatez que o caracterizam.
Alguém é capaz de me explicar o que esta senhora quer dizer com este post?

3 de novembro de 2004

Como aqui tinha prometido, votei em George W. Bush. Votei em George W. Bush pela razão que, então, apontei, mas não só por essa razão. Por exemplo, nunca achei que John Kerry fosse alternativa credível a Bush. Pior: nunca lhe vislumbrei firmeza em nada de substancial, e os tempos que correm requerem firmeza. Além de que, quer se goste ou não da ideia, uma vitória de Kerry não deixaria de ser vista como uma condenação da política de combate ao terrorismo seguida pelo presidente Bush e, por arrasto, uma vitória do terrorismo, apesar de ser claro que nada de substancial mudaria sobre esta matéria caso Kerry ganhasse. Mas já tenho dúvidas qual seria o melhor candidato se falarmos de política interna, assunto irrelevante para o resto do mundo mas que, para os americanos, é tão ou mais importante que a questão da segurança. Por todas estas razões, e por outras que seria fastidioso enunciar, não tenho grandes motivos para comemorar a vitória de Bush, como não teria ficado deprimido caso tivesse ganho Kerry. Mas não digo que não apreciei a vitória. Apreciei, mas encaro-a com um misto de alívio e apreensão.

1 de novembro de 2004

O Independente noticiou que a Polícia Judiciária terá sob vigilância um cidadão argelino suspeito de pertencer a uma rede terrorista. Há uns meses atrás, o mesmo Independente noticiava que a PJ e o SIS vigiavam um grupo fundamentalista islâmico que se distingue por rejeitar os valores da sociedade ocidental, nomeadamente a televisão, o cinema e a música, além de defender a separação total dos sexos a partir da adolescência e considerar que o ensino oficial destrói a fé islâmica. E mais notícias houve que deram conta de suspeitas de actividades terroristas em território português, de que também se disse estarem sob vigilância policial. Acontece que uma notícia da Lusa da semana passada, que não vi em mais lado nenhum, dava conta de que um director da Polícia Judiciária dizia, não me lembro onde, que Portugal deve preocupar-se mais com o terrorismo, lamentando uma «certa desatenção» das autoridades portuguesas face a um fenómeno que é «uma luta de todas as democracias». Afirmava ainda o director da Judiciária: «não estamos a acompanhar a realidade, mas a tentar negá-la». E ainda: «mais tarde ou mais cedo, teremos de nos confrontar com a realidade do terrorismo». Quer isto dizer que as polícias portuguesas continuam a movimentar-se como se o terrorismo não existisse? Não me surpreenderia.
Oh João Pedro Henriques, olhe que a apropriação do papelinho pode ter sido uma emergência, uma daquelas emergências que não se podem adiar. Vá lá, não dramatize.
Isto só pode ser uma conspiração contra os homens.

29 de outubro de 2004

Vicente Jorge Silva acha que o sistema eleitoral dos Estados Unidos é «anacrónico» e «irracional», pois «permite que o candidato mais votado perca as eleições e o vencedor seja apurado numa lotaria mafiosa». É uma opinião como qualquer outra, evidentemente. Só é pena que assente na mais pura ignorância do sistema eleitoral americano.
O Daniel de Oliveira já se esqueceu que os atentados de 11 de Março mudaram o sentido de voto em Espanha. Isto é, puniram quem estava no poder.

27 de outubro de 2004

Marcelo Rebelo de Sousa diz que Paes do Amaral lhe terá dado duas semanas para «repensar» o teor do programa que mantinha na TVI. O patrão da Media Capital nega. Perante isto, ninguém tem dúvidas de que lado está a verdade. E com que factos chegaram à verdade? Até ver, nenhuns. E como souberam que um deles fala verdade e o outro mente? Até ver, um mistério. Cada um tirou a conclusão que mais lhe conveio, e os factos — ou a ausência deles — não têm qualquer importância. Aliás, já toda a gente tinha chegado a uma conclusão antes do episódio de hoje. Está visto que os factos — ou a ausência deles, repito — só são relevantes quando servem os nossos propósitos. Quando não servem, dispensam-se. Tão extraordinário só a teoria da cabala do ministro Gomes da Silva, assente em nada e coisa nenhuma. Assim vai a vidinha.
E A Capital, Daniel Oliveira? Não terá sido um importante apoio a John Kerry, quiçá decisivo?

25 de outubro de 2004

O Governo liderado pelo prof. Cavaco Silva, que se apressou a criticar o Governo de Santana por alegadamente ter pressionado a TVI no sentido de calar Marcelo, terá pressionado a televisão de Paes do Amaral. Aliás, segundo o próprio Paes do Amaral, o Governo do prof. de Boliqueime terá sido o único a fazê-lo.
Mas, afinal, a imprensa americana não está nas mãos dos apoiantes de George W. Bush?

21 de outubro de 2004

«Era uma sardinha tão grande que ia da Rotunda ao Restauras, mas ali por alturas do Parque Mayer já estava toda comida... Não fiques para aí a pedalar no ontem. Vamos às Marchas! Eu com fardas não quero nada, filha! São uns gulosos! Ó macilento, tira daqui os presuntos! Não trouxeste o arquinho, mas trouxeste o balão e é bim bão! Aquele gajo não despega os clísios de cima de mim, chá biste uma bida assim! Olha, rapariga, o Santo António já se acabou, o São João está-se a acabar, toca mas é a aproveitar! Havia de ser mas era no Porto! Levavas com o alho na fronha... Estes tipos aqui nem se sabem divertir. Sabem é encostar-se, ceboleiros duma figa! Olé... Temos pombo a arrulhar? Ó falinhas, chega-te mas é pra lá! Sai da área, rapaz, senão daqui a bocado trabalha a alcachofra e apareces todo picado em casa, oubites? Conta lá como foi da outra vez, Esmeraldina! Então, estava eu com aquela minha colega, a que trabalhava na Lapa, e não é que um decências começa a encostar-se, a encostar-se que até parecia que eu tinha visgo? Mas olha, rapariga, nem a gabardina que trazia no braço à laia de capote de toureiro lhe serviu de nada. As Marchas a passar, as Marchas a Passar, mais Graça pràqui, mais Alcântara pràcolá e o diabo do homem a esfregar-se por mim! Então, como aquela que dizia espera aí que eu já te arranjo, disse alto e bom som, que eu nestas coisas gosto sempre de avisar:
— DAQUI A BOCADO TRABALHA A ALCACHOFRA!
Ele teve assim como um estremeção. Deve ter compreendido a sorte que eu lhe preparava. É que o marmelo não podia fugir. Gente por todos os lados e, atrás, uma árvore, figura-te! Ponho a malinha encostada ao sim senhor, assim, e com a outra mão seguro na alcachofra, assim, e encosto-a à malinha, assim, para não me picar, topas? Fui-me chegando devagarinho, muito devagarinho para trás... Ó filha, até tive pena do desgraçado! Ficou todo picado e logo onde lhe fazia mais diferença!
Ó Esmeraldina, também tens cá um despacho!»

Daqui a Bocado Trabalha a Alcachofra!, de Alexandre O’Neill

20 de outubro de 2004

Confesso que não entendo as razões para tanto aplauso à tomada de posição d'A Capital face às eleições americanas. Uma decisão corajosa porquê? Será que, nos dias que correm, não é evidente que ser contra Bush é um lugar comum? Além disso, como levar a sério um jornal português que, de forma solene, decide colocar-se ao lado de um candidato numa eleição que não diz respeito aos portugueses e que não pode influenciar? De facto, não se pode, pois isso é ridículo. E mais ridículo se torna quando o mesmo jornal admite não tomar posição semelhante em eleições nacionais, como se pode ver aqui.
Está explicada a derrota do Benfica com o Porto. Não foi por causa do golo-que-foi-golo-mas-não-foi-golo, muito menos por causa dos penáltis que ficaram por marcar e que podiam ter resultado em golos. A culpa foi toda deste senhor.

19 de outubro de 2004

Olha, agora é que o presidente americano está mesmo tramado! Como não bastasse o apoio explícito do New York Times e doutras publicações americanas ao candidato democrata, A Capital resolveu solenemente defender que não se deve votar em George W. Bush nas próximas eleições presidenciais. Aguarda-se, agora, na maior das expectativas, qual vai ser a posição sobre o assunto da Gazeta de Alguidares de Baixo.
Um pós-escrito mortífero de António Ribeiro Ferreira no DN de hoje: «Miguel Sousa Tavares tem a certeza que Marcelo Rebelo de Sousa saiu da TVI por pressão do Governo. Mesmo assim continua comentador. Que saudades de Francisco Sousa Tavares.»

18 de outubro de 2004

Porra! Nunca mais digo que o blogue da Ana tem o template mais feio da blogosfera, apesar da evidência. Muito menos que gosta de Saramago (do José, claro está, que do Alfredo parece-me bem). Já quanto ao contraditório, calma aí, pois o que se passou na Luz, onde o meu Benfica foi miseravelmente espoliado (como diz o sr. Vieira), não tem direito a contraditório. Só a sarrafo.

15 de outubro de 2004

Depois de Edwards, chegou a vez de Kerry se intrometer na vida privada de Cheney. Além de ser um assunto que não devia ser chamado à campanha eleitoral, já toda a gente conhece em detalhe o caso da filha do vice americano. Insistir num assunto do foro pessoal e há muito encerrado, é rasteiro demais para o meu gosto. De maneira que já desfiz as dúvidas: esta gente não terá o meu voto.
Depois de Vital Moreira, para quem os americanos que não votarem em George W. Bush são «estúpidos», Miguel Sousa Tavares. Entre as mentiras e a mais pura ignorância, MST diz que os americanos deviam meditar numa sondagem onde se demonstra que o «mundo inteiro», se pudesse votar nas eleições americanas, dava uma esmagadora vitória a Kerry. Isto é: os americanos deviam pôr os olhos em quem sabe, e não ajuizar pelas suas próprias cabeças. Diz mais o ilustre cronista: «Bush desfez o sistema social de saúde montado por Clinton». A que «sistema social de saúde» estará ele a referir-se? Ao sistema que nunca existiu?

14 de outubro de 2004

Pertinente o comentário de Pacheco Pereira a um post de Vital Moreira, onde o cavalheiro fez esta brilhante pergunta: «perante a patente superioridade do candidato democrata, os eleitores norte-americanos serão estúpidos?» Pertinente mas inútil, pois Vital Moreira há muito que se especializou em linguagem de carroceiro para conquistar a atenção que, doutra forma, ninguém lhe dá.
«Num local pequeno, não ter acesso às fontes oficiais de informação é como viver em clandestinidade informativa; (...) a Câmara [da Figueira da Foz] deixou de colocar publicidade institucional e nós, até aí, recebíamos anúncios com fartura», diz o ex-director de não sei que jornal regional, que acusou Santana Lopes de ter cortado relações com a publicação que dirigia. Segundo o que o cavalheiro em questão disse ao Público, os problemas não se ficaram por aqui: «como a nossa relação difícil era do domínio público, os anunciantes, num meio pequeno como este, também se coibiam de anunciar, com medo de estarem a ser coniventes com o jornal.» Não sei se isto é verdade ou não, e nem me interessa saber. O que me interessa reter é que estas declarações fazem um verdadeiro retrato da imprensa regional que temos. E que é, salvo raríssimos casos, uma imprensa absolutamente dependente do poder local. Nada que já não se soubesse, mas não há nada com os factos para o virem relembrar.

12 de outubro de 2004

Assisti à intervenção televisiva de Santana Lopes e não gostei do que vi. Nem do que vi, nem do que ouvi. Mas ainda gostei menos de quem acusou Santana Lopes de propaganda — ou de tempo de antena, o que vai dar ao mesmo. Propaganda e tempo de antena porquê? O que distingue o tempo de antena de ontem do tempo de antena dos anteriores governos, que decidiram falar ao país quando muito bem entenderam e nunca vi acusados de propaganda? E do tempo de antena do Presidente Sampaio, que «fala ao país» por tudo e por nada? De facto, não se entende. O que se entende cada vez mais é que vale tudo para atacar o Governo de Santana Lopes. Aliás, hão-de reparar que o Governo de Santana Lopes já era péssimo antes de o ser — isto é, antes de tomar posse. É por estas e por outras que eu ainda vou acabar por gostar de Santana Lopes.
A Ana Albergaria, que se distingue por ter o blogue com o template mais feio da blogosfera e por gostar da prosa de Saramago, divulgou mais um atentado à liberdade de expressão por parte de Santana Lopes. Eu confesso que estava a alinhavar o meu caso, também ele com Pedro Santana Lopes e igualmente cheinho de liberdade de expressão (ou falta dela), mas acho que já não é preciso. Afinal, já toda a imprensa — da esquerda à direita, da popular à de referência — arreou forte e feio em Santana Lopes, a ponto de eu me interrogar: como será possível que toda a gente fale mal de Santana Lopes quando é sabido que ele silenciou a liberdade de expressão?

11 de outubro de 2004

O maior atentado à liberdade de expressão desde o 25 de Abril de 74 o caso Marcelo? Por amor de deus. E então a Madeira, onde a falta de liberdade de expressão é o pão-nosso de cada dia? Será que o caso foi reduzido ao folclore político? Meus senhores: haja decoro. A reacção do ministro Rui Gomes da Silva foi intempestiva, atabalhoada e infeliz. Não há dúvida nenhuma sobre isso. Mas quanto à liberdade de expressão, alguém acredita mesmo que uma reacção daquelas é caso para ir tão longe? E o Presidente da República, será que vai passar a receber no Palácio de Belém todos os comentadores e jornalistas que se zanguem com os patrões? Mas o que mais me custa é ver algumas pessoas que tenho por sensatas andarem para aí aos gritos, sem nenhuma dúvida de que estamos perante um caso gravíssimo e sem precedentes. Olhando para eles, eu só posso concluir uma de duas coisas: ou sabem coisas que não dizem, o que está mal; ou contra o Governo de Santana vale tudo, o que é pior.
«Contrariamente ao que julgo ser a maioria, não vejo porque razão o Governo não haveria de protestar caso entenda haver razão para protestar. Se o Governo se sente lesado com o que diz serem «mentiras» e «falsidades», o mínimo que se pode dizer é que lhe assiste o direito de protestar.» Foi basicamente isto o que eu quis dizer sobre o caso Marcelo na crónica que coloquei na minha página pessoal.
O Alberto Gonçalves chegou inspirado de Amesterdão. Será do Rembrandt? Do American Book Center? Do Stabat Mater? Do arroz de javali que ele lá sabe? Ou será do que ficou por dizer?

8 de outubro de 2004

Para quem gosta de música do período medieval e da Renascença, mas não só do período medieval e da Renascença, este site é obrigatório. Aqui se podem ouvir os discos na íntegra e baixar (pagando, mas pouco) os respectivos ficheiros em inúmeros formatos.
Alguém me sabe dizer para quando está previsto nascer o rei que o sr. Carlos Magno tem na barriga?

7 de outubro de 2004

«Quanto mais asneiras fizerem mais provável será a sua derrota», diz o Daniel Oliveira, a propósito do Governo de Santana Lopes. A propósito do Governo de Santana Lopes mas podia ser doutro qualquer, pois o que realmente interessa ao cavalheiro e ao Bloco de Esquerda é a derrota dos adversários políticos a qualquer preço. As asneiras, que a serem-no prejudicam o país, pouco importam. Aliás, como é claro na frase citada, quantas mais asneiras, melhor. Nada que já não se soubesse, mas os factos ajudam a perceber melhor a cabecinha desta gente.
O director de A Capital acha que o Presidente da República «não deve deixar cair o governo nesta altura», pois isso seria oferecer «de mão beijada, ao mais incompetente primeiro-ministro da história da democracia portuguesa, uma hipótese de redenção». Para Luís Osório, o Presidente da República «deve aceitar em silêncio os escândalos e deixar a história seguir o seu curso» até que a oposição esteja em condições de «construir um efectivo e credível projecto de poder». Dito de outra maneira, o Presidente da República só deve «deixar cair o governo» e convocar eleições quando a esquerda estiver em condições de as ganhar. Brilhante, não há dúvida.

6 de outubro de 2004

Uma empresa privada (a TVI) e um assalariado (o prof. Marcelo Rebelo de Sousa) entenderam pôr fim a um casamento de conveniência que durava há quatro anos e meio. Vai daí, toda a gente se acha no direito de saber os motivos do divórcio, e há até quem ameace «tomar iniciativas concretas no Parlamento» caso as partes entendam não revelar os motivos. Calada a gritaria e assente a poeira, aguarda-se um pouco de bom-senso. Porque a questão também pode — e deve — ser vista por este ângulo. E aconselha a mais elementar prudência que não canonizem já o prof. Marcelo.

5 de outubro de 2004

Descontando a guerra intestina que estalou entre o Jornal de Notícias e o Correio da Manhã, ainda não vi quaisquer comentários aos últimos números divulgados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens. E os números divulgados pela APCT não deviam passar despercebidos, já que eles indicam uma baixa de monta nas vendas dos chamados jornais de referência e um aumento significativo dos chamados jornais populares. Quer isto dizer que os leitores dos primeiros se mudaram para os segundos? Provavelmente. Mas convinha apurar com rigor os verdadeiros motivos.
Lá vamos ter que fazer mais uma reciclagem.

4 de outubro de 2004

Não sei se esta é uma boa notícia, mas esta seguramente que é.

30 de setembro de 2004

Inteiramente de acordo com o retrato que Pacheco Pereira faz dos «populares» (a quem também chama «plebe», «massas» ou «canalha»). Mais nojento, de facto, só as televisões que lhes dão tempo de antena, e que às vezes se comportam pior do que eles.
Minhas senhoras e meus senhores: Marla Olmstead, uma menina-prodígio.

29 de setembro de 2004

A IstoÉ publicou uma reportagem sobre os negócios da fé no Brasil que devia fazer meditar o dr. Mário Soares, que não hesitou em equiparar o alegado fundamentalismo «evangélico», «judaico-ortodoxo» e «dos mercados» ao fundamentalismo islâmico.

27 de setembro de 2004

Haverá alguma relação entre o cônsul português no Canadá que «foi chamado em serviço a Lisboa, sem regresso ao posto» (Carneiro Jacinto, citado pela Lusa), e o cônsul português no Canadá que foi apanhado pela polícia a guiar embriagado?

24 de setembro de 2004

Numa entrevista ao Público (penso que já não está disponível "online"), o escritor sírio Ammar Abdulhamid admitiu que há um ódio generalizado do Islão ao Ocidente. E aponta um caminho a seguir para pôr fim a esse ódio: a «comunidade internacional» (leia-se o Ocidente) deve apoiar, «financeira e politicamente», os grupos reformistas no «caminho para uma compreensão diferente e mais moderna do Islão». Ora, a ser como ele diz, isso criaria um problema. Como iriam os sectores tradicionais do Islão entender o apoio do Ocidente aos tais grupos reformadores que não fosse uma ingerência no sentido de os controlar? Será que um apoio do género não iria gerar ainda mais ódio ao Ocidente? Será que não iria pôr em causa, porventura de forma irremediável, os fundamentos e capacidade de acção destes grupos reformadores?
Um pastor tentou comprar uma mulher por 15 cabras... mas deu buraco.

23 de setembro de 2004

Eu gosto de Pacheco Pereira e, por regra, concordo com ele (a crónica no Público de hoje é um bom exemplo). Mas a fixação em Santana Lopes (por quem eu já aqui disse que não simpatizo), a quem critica por tudo e por nada, como se ele fizesse tudo mal feito, parece-me um exagero. Que Pacheco Pereira não goste de Santana, compreende-se e respeita-se. Mas que o critique apenas por essa razão, já não se compreende. Aliás, se recordarmos o que disse Pacheco Pereira ainda antes da tomada de posse de Santana Lopes como primeiro-ministro, o Governo já era mau antes de o ser.
«A senhorita sabe o que é cona? Panasca? Pila? Paneleiro? Tirar os três? Pois, pois. E broche, minha amiga, posso lhe garantir que não é “jóia ou bijuteria provida de um alfinete longo ou de um alfinete com fecho, que se usa geralmente ao peito para prender e/ou enfeitar uma peça de vestuário”. Não, não é nada disso», diz Mário Prata, a quem coube a tarefa de «transformar o pipi português em pipi brasileiro». Já foi publicada há dois meses a crónica de onde roubei este extracto, mas vale a pena ler na mesma. Até porque o escritor brasileiro faz afirmações como esta: «o futuro da literatura está na internet».
Não há dúvida de que as coisas eram incomparavelmente melhores no tempo de Saddam Hussein.

21 de setembro de 2004

Eu sempre tive respeito e admiração por Manuel Alegre, embora cada vez me reveja menos nas ideias que ele defende — e, já agora, nos métodos de as pôr em prática. E tenho admiração e respeito porque ele é um homem frontal, que pensa pela sua própria cabeça, mesmo que isso lhe custe alguns dissabores. Custa-me, por isso, ver Manuel Alegre manifestar preocupação com o processo eleitoral no PS, porque «toda a gente sabe que há 40 militantes a morar na mesma casa e até num cemitério, que há uma rua onde há mais militantes socialistas do que eleitores». Custa-me porque isto quer dizer que Manuel Alegre conhecia a situação mas nunca se ralou. Pelo menos nunca o ouvi protestar, e seguramente que eu me lembraria caso ele protestasse. Bem sei que ele já veio dizer que, caso perca, aceitará o resultado — e, presume-se, não usará o argumento para justificar a vitória do adversário. Mas não lhe fica bem na mesma vir, agora, falar acerca do que dantes calou. Por duas razões: em primeiro lugar, porque não deixa de insinuar que a suposta aldrabice favorece um dos adversários (José Sócrates); depois, porque já o devia ter dito há mais tempo.
Vital Moreira não cabe em si de contente pelo facto de Kofi Annan ter dito, «com todas as letras», que a guerra do Iraque foi ilegal. Ora, eu acho que Vital Moreira devia ser mais comedido. Afinal, o secretário-geral da ONU disse que a guerra do Iraque foi ilegal... um ano e meio após ter começado.
O Luís Rainha, que chamou «calhau com gel» a Santana Lopes, acha que os EUA são «sinistros e concentracionários». Reparem bem: os EUA, não o presidente Bush. E depois o problema dele não é os EUA, mas o presidente Bush.

20 de setembro de 2004

Se você descobrisse que o seu vizinho se preparava para o destruir logo que tivesse oportunidade, qual seria a sua reacção? Deixava-se ficar à espera que isso sucedesse, ou destrui-lo-ia antes que o destruísse a si? É esta a lógica da guerra preventiva, que o sr. Putin já ameaçou pôr em prática e que a mim me deixa reservas — como me deixou reservas a guerra preventiva iniciada pelos EUA. Como ter a certeza de que o nosso vizinho se prepara para nos destruir antes de isso suceder? Com que direito se destrói o nosso vizinho com base em ameaças que nunca se concretizaram? Este é o dilema, terrível dilema, e a razão porque a guerra preventiva não pode — nem deve — ser um tema pacífico. Mas seria de mais pedir que se discutisse o caso com espírito aberto, sem ideias pré-concebidas?

17 de setembro de 2004

«Não se pode combater o terrorismo sem eliminar as suas causas», disse Guterres numa entrevista a um semanário moçambicano. E quais são as causas do terrorismo para o ex-primeiro ministro? «A pobreza, a falta de coesão social e o facto de os povos não poderem "determinar, por si, os seus destinos".» Ora, tirando a primeira (a pobreza), não percebo o que Guterres quer dizer com a coesão e o destino. Mas como a tese da pobreza já foi largamente desmentida pelos factos, parece-me que não vale a pena matar a cabeça para perceber o resto.
Mário Bettencourt Resendes resolveu desafiar o presidente da Madeira: «dr. Alberto João: coragem, avance, exproprie, respeite a sua reputação de pagador de promessas eleitorais. Cá estaremos para ver o que acontece». Bettencourt Resendes refere-se às recentes ameaças de expropriação do Diário de Notícias (da Madeira) por parte do dr. Alberto João, e aproveitou para lembrar: «Há muitos anos que o Governo da Madeira, num esforço comovente de "defesa do pluralismo", tem enterrado milhões — muitos milhões... — provenientes de dinheiros públicos no apoio, a fundo perdido, a projectos jornalísticos que pretendem disputar o terreno ao pesadelo maior de Alberto João [Diário de Notícias da Madeira]. Como os leitores não são parvos, a cruzada acabou por ser um auxílio precioso, que contribuiu para fortalecer a imagem de credibilidade do jornal dirigido por José Câmara.» Nada disto é novidade, mas é bom que alguém o volte a lembrar.

16 de setembro de 2004

Ainda não sei em quem vou votar nas eleições presidenciais de Novembro. Mas a trapalhada da CBS (nada inocente, como se calcula), ao revelar documentos que colocam em causa o passado militar do presidente americano e se revelaram falsos — só me empurra para Bush. Aliás, toda a minha (pouca) simpatia por Bush resultou de situações como esta. O que me leva, uma vez mais, a perguntar: porque será que os adversários de Bush têm necessidade de recorrer sistematicamente às meias verdades e à mais pura mentira para impor os seus pontos de vista?
«Ideias, frases e factos circulam na blogosfera e, quando verificados, dão ao resto da comunicação social uma dimensão complementar - mais memória, mais conhecimento especializado, mais variedade de temas, novos ângulos de aproximação a um assunto, mais imaginação, maior cobertura regional através de blogues locais.» Pacheco Pereira no Público de hoje. Vale a pena ler, ainda, e também no Público de hoje, um (excelente) artigo de Guilherme Valente.

14 de setembro de 2004

Acabei de ler uma entrevista de Agualusa à revista Época (dica de Francisco José Viegas) e lembrei-me imediatamente de Fradique Mendes quando ele diz: «Flaubert catava dos seus livros todos os termos que não pudessem ser usados na conversa pelo seu criado: daí vem ele ter produzido uma prosa imortal. E a razão é que só os termos simples, usuais, banais, correspondendo às coisas, ao sentimento, à modalidade simples, não envelhecem. O homem, mentalmente, pensa em resumo e com simplicidade, nos termos mais banais e usuais. Termos complicados, são já um esforço de literatura — e quanto menos literatura se puser numa obra de arte, mais ela durará».

13 de setembro de 2004

«Trinta anos depois da instauração da democracia, existem ainda sociedades secretas com membros em postos importantíssimos do Estado reivindicando a democracia, dizendo defender a democracia, dizendo-se até mais democráticos que outros, mas que não observam a mais elementar das regras da democracia: a participação aberta na sociedade aberta, a divulgação franca pelos seus membros dos objectivos da sua militância.» Eduardo Cintra Torres, sobre a maçonaria.
Apesar da retórica, a União Europeia não fez nada — ou quase nada — para reforçar a segurança dos países membros face ao terrorismo. É a ideia que fica após a leitura da entrevista ao Público de António Vitorino.

9 de setembro de 2004

Você sabe o que é uma rotura dos ligamentos? Uma mialgia? Uma contratura muscular? Onde fica o adutor esquerdo? Eu logo vi que você não percebe nada de bola.

8 de setembro de 2004

Acabei de descobrir que as minhas leituras nocturnas dos últimos dias começaram com Philip Roth (Pastoral Americana), prosseguiram com Cardoso Pires (E Agora, José?) e acabaram em Camilo (Novelas do Minho). Que raio quererá isto dizer?

7 de setembro de 2004

Só agora dei conta, mas ainda vai a tempo. O José Mário Silva diz que «Os Meios de Transporte» (de Marta Cristina de Araújo) é «um livro que é preciso celebrar», pois foi escrito por uma «autora singular e muitíssimo interessante». Dá um exemplo no Diário de Notícias («O automóvel rompe o começo da noite que amacia os contornos, menos o volume das casas focadas de branco, isoladas, das fincas, onde arquitectos anónimos não registaram o invento de uma fresta de luz»), e outro no Blogue de Esquerda («O mar ali ao lado, mediterrânico, familiar, dos jantares a vê-lo adormecer do terraço, das grandes verdades sustidas na margem, árvores entre o sal e a terra, conhecidas desde a hastezinha e da estaca domadora. Jardineiro sorri entre buganvílias e gerânios, altera o estender à sombra da acácia e do chorão, Ofélia pendente sobre os rios da largura de um corpo longo, vestido de linho e algas. Parca a corrente, assim se ouvem as vozes e loucura do canto. Perto, ainda não as amaráguas do rio Verde, só na estação distante das nuvens raras.»). Face a prosa deste calibre, José Mário Silva recomenda que se goze bem o livro, pois «a essência desta escrita é a subtileza» e «tão depressa não nos deve chegar outro [livro da mesma autora] às mãos». Subtileza? Sim, ele disse subtileza, embora os exemplos transcritos me levem a crer que a prosa da senhora tenha a subtileza de um tijolo.

3 de setembro de 2004

Face à tragédia de Moscovo de há dois anos, de que resultou a morte de cento e tal pessoas, seria de prever que a mais recente tragédia na Rússia — o sequestro de largas centenas de pessoas por parte de alegados independentistas tchetchenos — terminasse numa tragédia ainda maior. Centena e meia de mortos, até ver, só pode querer dizer que a operação foi um desastre. Seria possível fazer melhor? Provavelmente nunca se saberá. O que me parece é que pior seria difícil.

2 de setembro de 2004

Parece claro que o Governo geriu de forma desastrosa o caso do "barco do aborto". Desastrosa porque acabou por ter a repercussão que não teria caso o governo não o tivesse impedido de entrar em Portugal. Mas isso não significa que o governo não tivesse razões para impedir o barco de entrar em Portugal. Muito mais razões que os senhores que por aí andam a fingir indignação e a mostrar-se «preocupados» com o problema do aborto, como se não soubéssemos que o objectivo deles é aproveitarem a situação para «facturar» mais uns minutos de telejornal — e não o real problema do aborto ou das mulheres que o decidem praticar.

1 de setembro de 2004

O que dizer sobre os últimos acontecimentos do processo Casa Pia? Como compreender que uma juíza decrete a prisão preventiva de meia dúzia de cavalheiros e outro juiz revogue a decisão? Há explicações técnicas que fundamentam uma e outra decisões? E quem as percebe?

31 de agosto de 2004

Fui de férias com a estória das cassetes, regressei de férias com o "barco do aborto". Desconheço os desenvolvimentos do primeiro caso, ainda não tive tempo para me informar do segundo. Mas o pouco que li sobre os dois chegou e sobrou para perceber que o caso das cassetes fede que tresanda e o barco tem contornos hilariantes. Avisei no "post" anterior que ia mudar de casa. Quer isso dizer que não tive tempo para mais nada, e ainda menos cabeça. Regresso, pois, bruto que nem um tijolo, além de intrigado com a descoberta de que o meu blogue tem mais leitores quando não escrevo.

6 de agosto de 2004

Se tudo correr conforme o previsto, vou estar de férias nas próximas duas semanas. De férias e com mudança de casa, o que me vai deixar sem internet durante algum tempo e afastado do que se passa à minha volta. Voltarei logo que a situação estiver normalizada.

3 de agosto de 2004

Hepatite C é um blogue sobre isso mesmo: Hepatice C. Segundo o autor, Almeida Neto, o blogue «pretende ser um ponto de apoio e fonte de informação aos demais portadores» do vírus da Hepatite C. Pede-me que o divulgue, o que faço com todo o gosto.

2 de agosto de 2004

Certamente que movida pela melhor das intenções, a dona Carla Hilário de Almeida Quevedo resolveu publicitar este produto. Porque o dito permite «ler no quarto até às tantas da noite sem ser o chato que tem sempre a luz acesa», diz ela. Acontece que o produto em causa — que eu já experimentei bem experimentado — é uma belíssima merda, e juro que não estou a exagerar. A menos que não nos importemos de ficar toda a noite a olhar para as duas páginas abertas sem as voltar. Querem ler no escuro? Comprem um e-book.

27 de julho de 2004

Três mulheres ao meu lado põem as notícias em dia. Diz uma que, lá em casa, passa a vida ao telefone. O marido até já lhe disse que se ele tivesse um telefone entre as pernas era o homem mais feliz do mundo. Depois riem-se alarvemente. A do telefone chama agora um empregado para lhe comunicar que acabou de dizer às amigas que ele tem uns olhos bonitos. O empregado, coitado, não sabe onde se meter. E elas voltam a rir-se alarvemente. Dizia Eça que as mulheres são «pessoas excelentes, que têm a doçura de fingir que não têm espírito — só para não humilharem os maridos!». «E são ternas?», perguntaram-lhe. Ao que ele respondeu: «Aprenderam a ternura de cor — mas recitam-na mal.»

26 de julho de 2004

Seria bom que a questão levantada por este trabalho da Spectator não continuasse a ser ignorada.
Extraordinária a teoria de Augusto Santos Silva: «(...) até demonstrar o contrário, [Santana Lopes] deve ser tratado como incompetente em boa governação.»

23 de julho de 2004

Já o disse várias vezes mas não me importo de repetir: não gosto de Santana Lopes. Mas parece-me que o governo por ele chefiado só será mau quando demonstrar que o é, e só o pode demonstrar depois de começar a governar. Até lá, as críticas só podem cheirar a ressentimento e mau perder.

22 de julho de 2004

Tal como Pacheco Pereira, Manuel Alegre faz parte de um reduzido número de pessoas que, na política, pensa pela própria cabeça, e de um número ainda mais reduzido de pessoas que diz alto e bom som o que pensa — mesmo que isso vá contra o que pensa o seu próprio partido. Daí que me custe ver Manuel Alegre candidatar-se a secretário-geral do PS, um cargo para o qual não me parece que tenha qualquer vocação. Além de ser uma surpresa, provavelmente só comparável à surpresa que foi a candidatura de Vasco Pulido Valente a um lugar no Parlamento.
Francisco José Viegas no seu melhor: «Quando o Estado se mete a ser moderno, dá asneira. O Estado é uma personagem vetusta, com cabeleira postiça, anterior à penicilina e que escreve em resmas de papel almaço - quando se veste de boca-de-sino e lycra, a tremer ao som do hip-hop, parece uma velha gaiteira, inadequada para ser apresentável entre gente decente. Digamos que, em meu entender, deve conservar uma certa pose, a de quem não faz aeróbica nem vai a Vilar de Mouros acampar entre pulgas e lagartixas participando em cerimónias rituais para fumar haxixe.»
«Não inviabilizar» não é o mesmo que «viabilizar», diz Ana Gomes. Se não percebem a diferença, leiam este post. Se continuarem a não perceber, desistam.

21 de julho de 2004

«Caminhávamos pelos passadiços arruinados, de mão dada. Uma ligeira brisa fazia esquecer por um momento a fornalha. Eu sentava-me, ela agachava-se, juntava as mãos esguias sob o queixo, eu tirava uma harmónica do bolso e tocava, era a única ocasião em que uma expressão de alegria infantil surgia no seu rosto (mesmo no amor, porque acontecia mesmo assim que o fizéssemos, ela mantinha uma máscara impassível), olhávamos as aves deslizando no céu incandescente, ou então víamos vogar as velas irisadas dessas medusas a que os ingleses chamam "barcos de guerra portugueses", e cujos longos filamentos purpurinos e azuis podem causar a morte. Tomar-nos-iam por loucos, ou por fantasmas. Sentíamo-nos bem, um e outro, imagino, casal caminhando na água profunda e triste, porque o mundo parecia de repente afastado.» (Porto-Sudão, Olivier Rolin)

20 de julho de 2004

Parece que um conselheiro de segurança do presidente Clinton terá desviado documentos secretos que deveriam ser apresentados à comissão que investiga o 11 de Setembro. Repito: parece, porque a investigação continua. «Devolvi tudo o que tinha, à excepção de alguns documentos que deitei fora acidentalmente», disse Sandy Berger, admitindo que o fez «inadvertidamente». Reparem no «acidentalmente» e no «inadvertidamente». É que entre os documentos que foram deitados fora «acidentalmente» e «inadvertidamente» constam rascunhos de um relatório sobre a forma como a administração Clinton lidou com as ameaças feitas pela Al-Qaeda aquando das celebrações do Milénio, em Dezembro de 1999. Coisas sem importância, portanto, a ponto de se deitaram fora «acidentalmente» ou «inadvertidamente». Como também não terá importância o facto de Sandy Berger ser um dos conselheiros de John Kerry, candidato democrata às eleições presidenciais de Novembro. Pensarão que eu vejo esta notícia com grande regozijo. Não é verdade. E não é verdade por uma razão muito simples: estou farto de saber que a mentira não é exclusivo de uma das partes, apesar de nos quererem fazer crer que assim é. Curiosamente, ou talvez não, horas depois desta notícia estar em todo o lado, na BBC e no portal Terra nem sombra dela. Assim vai a imprensa «independente».

19 de julho de 2004

Depois de ter decidido dar nova oportunidade ao PSD em vez de convocar eleições antecipadas, o Presidente Sampaio passou a fazer tudo mal. Agora é a Lei de Bases da Educação (que vetou), amanhã será outra coisa qualquer. Também já se sabe que Santana Lopes não vai beneficiar do «estado de graça» de que costumam gozar os chefes do governo nos primeiros meses — nem, sequer, do benefício da dúvida, como ficou claro à medida que foram conhecidos os novos ministros. A política — a pequena política — continua em brasa, e adivinha-se que mais tempo. Resta saber se o país ganha alguma coisa com isso.
Aqui está um interessante artigo sobre o comportamento dos adeptos ingleses durante o Euro2004.

16 de julho de 2004

Tirando a crónica de João Bénard da Costa, que cada vez me dá mais gozo ler, nada que mereça o mais leve comentário.

15 de julho de 2004

Devido aos últimos acontecimentos político-partidários, que reputo da maior importância e mexeram profundamente com a minha sensibilidade, decidi suspender o Esmaltes e Jóias. Assim, caso não haja qualquer impedimento de última hora ou manifesta falta de assunto, cá estarei amanhã à mesma hora.

14 de julho de 2004

O juiz que integrava o colectivo dos casos de pedofilia da Casa Pia pediu uma licença sem vencimento de longa duração, diz a Lusa. O novo juiz titular do processo «Apito Dourado» «é filho de um assessor de Valentim Loureiro e irmão de um fiscal de obras da Câmara Municipal de Gondomar», diz o DN, embora já desmentido por não sei quem. Sim, as coisas nem sempre são o que parecem. Mas convinha que não se lançassem ainda mais dúvidas sobre quem já há dúvidas que chegue.

13 de julho de 2004

Até prova em contrário, a ideia de transferir ministérios da capital para a Província é um perfeito disparate. Um perfeito disparate porque isso não deixará de acarretar custos, e não se vêem vantagens. Que benefícios terá um agricultor transmontano com a transferência do Ministério da Agricultura para Santarém? Que benefícios terá um empresário algarvio com o Ministério da Economia na cidade do Porto? De facto, não se percebe. Mas já se percebe a ideia enquanto tal, mesmo que se revele impraticável. Afinal, ela dá um ar de que se pretende descentralizar, e ideias destas sempre rendem uns minutos de televisão e uns títulos nos jornais. Além de que, como dizia o outro, em política, o que parece é.

12 de julho de 2004

A demissão do secretário-geral do PS demonstrou o que já toda a gente sabia: nos momentos difíceis, quando seria de esperar um pouco de frieza e bom-senso, Ferro Rodrigues age com muita emoção e pouca razão. Tirando meia dúzia de gatos-pingados, ninguém lamenta a decisão. A começar pelo próprio PS.
A forma como algumas pessoas associaram a morte de Maria de Lurdes Pintasilgo à decisão do Presidente da República foi obscena. E não foi só Boaventura Sousa Santos. Que me lembre, foram, pelo menos, mais dois: Augusto M. Seabra e Maria João Seixas.
Olha, mais uma tempestade política.

9 de julho de 2004

Independentemente de se gostar mais desta ou doutra solução, é evidente que a única decisão sensata que podia ter sido tomado pelo Presidente da República face à actual crise política foi a decisão que tomou. Sensata e legítima porque a Constituição não deixa dúvidas quanto ao caminho a seguir, já não se podendo dizer o mesmo caso o presidente optasse por dissolver o Parlamento e convocasse eleições antecipadas. Não se compreende, pois, a «tempestade política» que tal decisão provocou, tanto mais que a hipótese de o PSD ser convidado a formar novo Governo foi sempre um cenário plausível. E ainda menos compreensível que o líder do PS se tenha demitido alegando uma «derrota pessoal», apesar de ter pelo PR uma «amizade de muitos anos». Pior só quando os jornalistas agem como se fossem funcionários políticos, como bem demonstrou Carlos Magno com uma arrogância e sobranceria impressionantes.
O presidente Jorge Sampaio deveria convocar eleições antecipadas porque é de esquerda e o Governo é de direita. Esta é a tese (pouco original) defendida por este e este senhores. Por estes senhores e por toda a esquerda em geral, pelo que eu volto a perguntar: haverá uma esquerda inteligente?

8 de julho de 2004

Eu não gosto de Alberto João Jardim. Já o disse variadíssimas vezes e por razões que expliquei. Mas não há dúvida de que ele tem razão quando diz que não há uma crise política, mas «uma instabilidade» que dura há duas semanas «por causa de alguém não gostar de outro alguém». Também nunca simpatizei com Pedro Santana Lopes, mas não convence ninguém quem diz que Pedro Santana Lopes não tem legitimidade para suceder a Durão Barroso sem que, para isso, haja eleições (no PSD ou no país). Evidentemente que toda a gente sabe qual é o verdadeiro problema: certa direita não gosta de Santana Lopes, e a esquerda quer eleições porque está convencida que as ganha. O resto é pequena política. Ou ainda mais pequena política.
Pacheco Pereira fez um retrato do português-médio que merece um caixilho. Francisco José Viegas disse umas coisas sobre Santana Lopes em que vale a pena meditar.

7 de julho de 2004

Todos os livros que emprestei até hoje fiquei sem eles. Todos — não me lembro de qualquer excepção. E fiquei sem eles por uma razão muito simples: não mos devolveram, e esqueci-me a quem os tinha emprestado. Mas, um dia, decidi cortar o mal pela raiz e não mais emprestar livros fosse a quem fosse. Não foi uma decisão fácil e custou-me várias incompreensões e inúmeros equívocos, mas nunca me arrependi de o ter feito. Cheguei, inclusive, a comprar livros para oferecer a quem mos pedia emprestados só para não ter que emprestar os meus, pois eu sabia que ia ficar sem eles. Foi mais ou menos isto o que, hoje, tentei explicar a um amigo meu que me pediu um livro emprestado, mas não me pareceu ter ficado lá muito convencido. É normal. Afinal, só quem já passou por elas ou atribui importância aos livros enquanto objectos (como é o meu caso) compreende o alcance do que estou a dizer.

5 de julho de 2004

Almoço num restaurante português. Como seria de esperar, o Portugal-Grécia domina as conversas. E todas as conversas giram à volta do mesmo: a derrota de Portugal. A derrota de Portugal que está a ser difícil de digerir, e para a qual é preciso encontrar bodes expiatórios. Scolari errou. Deco não jogou merda nenhuna. O árbitro foi um filho da puta. Portugal é o maior? Pois era.

2 de julho de 2004

A Hora da Partida

A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

1 de julho de 2004

Pedro Santana Lopes foi eleito presidente do PSD pela esmagadora maioria dos votos (98 contra 3). O actual presidente da Câmara de Lisboa sucede, assim, a Durão Barroso no cargo de presidente dos social-democratas — e poderá, em breve, tornar-se primeiro-ministro. Tudo isto em meia dúzia de dias e, aparentemente, de acordo com as regras. Mas há uma ideia que fica desta nomeação: por mais legítima que tenha sido — e nada indica o contrário —, fica a ideia de uma vitória na secretaria, e as vitórias na secretaria não se recomendam. Já os «golpes de Estado» invocados pela dra. Manuela Ferreira Leite e pelo dr. Alberto João Jardim, embora por razões distintas, são um manifesto exagero.

30 de junho de 2004

Ia escrever um «post» absolutamente genial sobre a vitória de Portugal frente à Holanda, mas o maradona (com minúscula) antecipou-se. De maneira que só quero acrescentar uma coisa: viram o que Figo jogou neste jogo? Não há dúvida que Scolari é um mestre a gerir os recursos humanos e com uma capacidade mobilizadora impressionante. E mais outra coisa: já lá vão quase cinco horas após o Portugal-Holanda e ainda não vi comentários do Francisco e do Joel. O que se passa?