30 de outubro de 2015

PAZ À SUA ALMA. Se nada mudou na liturgia católica, um funeral costuma ser precedido de missa — a chamada missa de corpo presente. Foi isto que hoje me ocorreu durante a tomada de posse do novo Governo, cujo funeral segue dentro de momentos (10/11 dias, ao que parece). Ou, então, uma pantomina, com os pantomineiros a fazer de conta que era o que não era. Considerei acertada a decisão do Presidente da República de dar posse a um Governo de Passos Coelho. Mas, olhando para o que hoje nos foi dado ver, é difícil ver aquilo doutra maneira. Até o Presidente da República se comportou como num mortório. Contido e sereno, Cavaco deu mostras de já ter digerido meio elefante sem problemas de maior. Resta-lhe digerir o outro meio.

23 de outubro de 2015

AS RAZÕES DE CAVACO. Por razões que já disse, o Presidente Cavaco tomou a decisão acertada. Mas suspeito que, dizendo o que disse da coligação que por aí se vai cozinhando, afirmando que não tem consistência e apontando-lhe outros defeitos irremediáveis (uma evidência que qualquer mortal constata mas que o Presidente devia guardar para si), Cavaco vai ter que engolir o que disse. A não ser que o Governo liderado por Passos Coelho consiga «passar» no parlamento, que a coligação das esquerdas ainda não está consolidada — embora o «toque a reunir» que o discurso de Cavaco causou possa dar um empurrão decisivo. Dez dias para apresentar um governo e mais uns quantos para o levar a votos é muito tempo. Muita água passará, até lá, debaixo das pontes. Prognósticos, portanto, só no final do jogo.
CARLOS ALEXANDRE E O PODER. Por razões que me parecem óbvias, é pouco saudável que em Portugal (ou em qualquer outro país) todos os grandes processos estejam, há anos, nas mãos de um só juiz. Não tenho como aferir a competência (e imparcialidade) do juiz Carlos Alexandre. Mas não é normal (nem saudável) que todos os grandes casos passem, em Portugal, pelas mãos de um só juiz, no caso Carlos Alexandre. Tanto poder nas mãos de um só homem, não só é assustador como legitima até as mais descabeladas suspeitas.

16 de outubro de 2015

GOLPES E CONTRA-GOLPES. Defendi ontem que o Presidente da República deve chamar a governar a coligação vencedora das eleições de 4 de Novembro (PSD-CDS/PP). E que, uma vez empossada como governo, deve negociar caso a caso com a oposição o que houver a negociar. Embora os resultados eleitorais permitam outras soluções, igualmente constitucionais, esta será, como também disse, a solução natural. Mas se este cenártio não me oferece grandes dúvidas, discordo totalmente da tese de que o governo deve manter-se em gestão até novas eleições (parece que não antes de Maio do próximo ano) caso seja chumbado no parlamento. Se não me repugna que se chame golpada a uma coligação de esquerda como primeira opção de governo, um governo de gestão seria outra golpada.

15 de outubro de 2015

ASSIS E O SENSO COMUM. Desculpem a presunção, mas defendi, em privado, a solução que Francisco Assis agora defendeu em entrevista à RTP. Que, face aos resultados de 4 de Novembro, a coligação vencedora deve ser chamada a governar, e que o PS deve assumir-se como oposição. As negociações com a coligação vencedora, necessárias no actual quadro parlamentar, deverão ser feitas caso a caso, à medida das necessidades. Isto seria, para mim, a solução natural, a que melhor traduz o que ficou expresso nas urnas. Como Assis demonstrou com vários exemplos, uma coligação do PS com o Bloco e o PC (ou um governo PS com o apoio das duas forças políticas à sua esquerda) seria contranatura, previsivelmente destinada ao fracasso — e a curtíssimo prazo desastrosa para o país e para o PS. Não será só Assis, no PS, a pensar desse modo. Mas a partir do momento em que Assis deu a cara por outra solução que não a preconizada pelo chefe (e expressão ao que muitos pensarão mas não se atrevem a dizer), espera-se que mais vozes constatem o óbvio.

9 de outubro de 2015

DOS SANTOS E PECADORES. Devo dizer que não aprecio José Rodrigues dos Santos como jornalista, e como romancista ainda me haviam de pagar para o ler. Mas não contem comigo para o apedrejar no «caso» Quintanilha. Li várias notícias sobre o incidente, e não entendi bem o que se passou (pareceu-me que não passou de um mal-entendido, mas não tenho a certeza). Mas constatei que o jornalista assumiu logo o erro, e logo pediu desculpa por ele. Assim sendo, o assunto morreu ali. Estranha-se, por isso, tamanho alarido e a indignação que causou. Mais postiça que real, mas isso são outras contas.

7 de outubro de 2015

OPINAR SOBRE O QUE NÃO SE CONHECE. Numa coisa tem Ana Gomes razão: houve, na campanha eleitoral para as legislativas, mais opinião que informação. Quanto vale o PSD na coligação vencedora? E o CDS/PP? Quantos deputados elegeram cada um? Vão formar um só grupo parlamentar? Já disse que prestei escassa atenção às eleições, mas isto devia encontrar-se facilmente em qualquer lado. Como não encontrei em lado nenhum, deduzo que não está em lado nenhum. Já a opinião, mal um político deu um pu, cinco segundos depois já os jornalistas perguntavam a alguém (comentadores, politólogos, políticos em pousio e vários eteceteras) o que pensava. Não foram poucas as vezes que os desgraçados dos «pensadores de serviço» foram obrigados a botar opinião antes mesmo de lhe avaliar o cheiro.
UM BOM TÍTULO. Joana Amaral Dias teve menos votos do que leitores da “Cristina”

2 de outubro de 2015

A DEMOCRACIA QUE HÁ. Tirando «as gordas», li quase nada do que se escreveu sobre a campanha eleitoral para as eleições de domingo, e também não sei o que disseram as rádios e as televisões. Porque as férias me ocuparam o tempo todo. Porque as reportagens e as análises foram tantas que se tornou impossível manter-me actualizado. Porque acompanhar a campanha seria uma canseira e uma perda de tempo. Porque, enfim, o proveito seria escasso ou nulo. Desconfio, aliás, que a generalidade dos eleitores não ligou nenhuma à campanha eleitoral. Apesar de quilómetros de prosa nos jornais, e de centenas de horas nas rádios e nas televisões. Cada um pelas suas razões, mas parece-me que por dois ou três motivos comuns: porque o modelo da campanha está ultrapassado; porque as promessas que se fazem não são, em princípio, para cumprir; porque os eleitores se sentem cada vez menos representados pelos políticos que há; porque os eleitores estão fartíssimos de políticos que nestas alturas os beijam e abraçam e o resto do tempo os ignoram. Sim, é a democracia, o pior dos regimes excluídos todos os outros. O problema é que a falta de concorrência (a que há felizmente não chega, na prática, a sê-lo) não ajuda a torná-la melhor.

30 de setembro de 2015

FONTES E SUGADOUROS. Tudo o que nos órgãos de comunicação social é notícia com base em fontes anónimas (ou não identificadas, se preferirem) é, para mim, pouco fiável. Sabendo-se a salvo de qualquer punição (que o anonimato garante), as fontes anónimas podem dizer tudo o que lhes apetecer (verdades, meias-verdades, puras mentiras), e os jornalistas sem escrúpulos podem inventar os «factos» que muito bem lhes convier e atribuí-los a fontes anónimas. A lei de imprensa prevê, e bem, que os jornalistas possam recorrer a fontes anónimas em casos excepcionais. O problema é que os casos excepcionais se tornaram regra, e a fiabilidade da informação daí resultante nunca é escrutinada.

29 de setembro de 2015

SABER DE EXPERIÊNCIA FEITO. Um juiz, personagem de Belos Cavalos (Teorema, tradução de Graça Margarido), cujo nome nunca é referido, comenta após escutar o depoimento de John Grady, figura central do livro de Cormac McCarthy: «O problema para um mentiroso é que não consegue lembrar-se do que disse.» Quem já não foi confrontado com um caso destes que ponha o dedo no ar.

11 de setembro de 2015

DESLUMBRAMENTOS DE ESTIMAÇÃO. Costumo dizer que houve três escritores fundamentais na minha vida: primeiro, Fernando Pessoa (de que li toda a poesia então publicada e talvez a maior parte da prosa); depois, Eça de Queirós (de que li praticamente tudo); a seguir, Cardoso Pires (só não li alguns textos dispersos por várias publicações que nunca foram publicados em livro, e A Cartilha do Marialva). Isto a propósito de duas boas notícias: a reedição da obra de Cardoso Pires, agora pela Relógio D’Água, e de uma editora (E-Primatur) que promete editar grandes livros, que por uma razão ou outra nunca foram editados em português. Apesar do lixo que por aí se vai publicando, cada vez mais numeroso, é gratificante saber que ainda há quem edite «por amor à camisola», quem aposte em livros e autores que não são, em princípio, um bom negócio.

10 de setembro de 2015

ISABEL DOS SANTOS. Qualquer jornalista que hoje se atreva a dizer mal de Isabel dos Santos arrisca-se a ser despedido. Porque Isabel dos Santos é proprietária do jornal onde o jornalista trabalha. Porque pode vir a sê-lo. Porque os investimentos de Isabel dos Santos onde o jornalista trabalha são de tal modo importantes que não resta aos proprietários outra saída que não seja meter a ética no bolso e o jornalista na rua. Daí que sejam cada vez menos os jornalistas que se atrevem a dar uma simples notícia onde Isabel dos Santos não sai com a imagem que certamente gostaria. Veja-se a mais recente. O Estado angolano, por acaso presidido pelo pai Eduardo dos Santos, comprou 40% de uma sociedade liderada por Isabel dos Santos. Em nome da «necessidade da realização de investimentos estratégicos», justificou. Ora, não duvidando da legalidade da transacção, esta operação merecia, no mínimo, ser conhecida com alguma profundidade. Com excepção do Observador e do Diário Económico, que se limitaram a transcrever uma notícia da Lusa, ninguém falou do assunto. É um silêncio eloquente.
PRESO POR TER CÃO, PRESO POR NÃO TER. Só Passos Coelho saberá se está a usar a doença da esposa para fins eleitorais. Como o caso pode ser visto de duas maneiras, na dúvida não o acuso. Mas se não for assim, se estiver a usar a doença da esposa para fins eleitorais, não é seguro que ganhe algo com isso. Se é provável que o gesto lhe renda dividendos por parte de quem vê a atitude como genuína, é igualmente provável que perca os de quem não vê assim. Somados os ganhos e subtraidas as perdas (na prática impossíveis de contabilizar), não é seguro, como meio mundo garante, que ganhe alguma coisa com isso.

9 de setembro de 2015

AFINAL, ANGELA MERKEL É PIOR DO QUE SE PINTA. Numa primeira fase, Angela Merkel foi aplaudida pela generalidade da esquerda, até pela mais radical. Agora, parece que Angela Merkel resolveu abrir as portas da Alemanha a 800 mil refugiados porque vê neles mão-de-obra barata — que ela, Alemanha, precisa. E que fizeram os restantes países da União Europeia? Empurrados pelo exemplo alemão, começaram por fazer vagas promessas, depois avançaram para um número ridículo de refugiados que estariam dispostos a receber — que um dia depois triplicaram e no dia seguinte «enuplicaram», e que após uma curta estadia nos seus territórios seguirão, maioritariamente, em direcção à Alemanha. Os países europeus estão a perder população? Há muito que isto é sabido, há muito que nada se move. Detesto a palavra, que hoje em dia parece remédio para toda a espécie de calamidades, mas a Europa podia, se estivesse preparada, transformar a tragédia dos refugiados em oportunidade — como, aliás, pretende fazer a Alemanha. Seria bom para a Europa, seria bom para os refugiados.
O NÚ «PERFOMÁTICO» DE JOANA AMARAL DIAS. Estava a gente posta em sossego a contemplar a bela capa da Cristina, eis que se anuncia a libertação de José Sócrates (passou de prisão efectiva para prisão domiciliária). Só podem ser manobras de diversão para nos distrair do que realmente importa — a ex-deputada Ana Amaral Dias em pelota na capa da Cristina. Um «momento perfomático único», como escreveu João Urbano no Facebook. Somos, definitivamente, um país moderno. Mais por fora que por dentro, mas isso é outra conversa.

3 de setembro de 2015

AFINAL, ANGELA MERKEL NÃO É TÃO MÁ COMO SE PINTA. Quem diria que a sra. Merkel, ainda há um mês execrada pelo mundo em geral e pelas esquerdas em particular, seria elogiada pelo Bloco de Esquerda? Ainda por cima por causa de um tema tão «querido» às esquerdas, sobretudo às mais radicais, que se reclamam os guardiões da Humanidade?

26 de agosto de 2015

A DECADÊNCIA ANUNCIADA DAS LIVRARIAS. Três livrarias que são, para mim, de referência, onde dantes uma visita resultaria em meia dúzia de títulos comprados, tornaram-se, agora, lugares onde me limito a descobrir títulos que depois compro online (sempre que são mais baratos) ou em e-book (por serem mais baratos, e porque me escasseia o espaço onde os colocar). Imagino as consequências que a generalização desta prática terá, a prazo, para as livrarias, digamos, tradicionais, e pelo que vou observando é uma prática que vai crescendo de dia para dia. Mas como não tenho vocação — nem fundos — para me tornar um benemérito, não posso ignorar o factor custo/benefício. Infelizmente para elas (e a prazo talvez para todos), as livrarias são, cada vez mais, lugares onde se expõem livros que depois se compram noutro lado. Serão as dores do progresso.

21 de agosto de 2015

COISAS QUE VOU LENDO (31). «Muitas vezes digo que, em breve, estar fora das redes sociais depois dos 40 anos será índice seguro de elegância e sucesso profissional e afetivo (claro que esse “sucesso” é relativo; a qualquer hora, o infeliz em potencial que somos todos nós poderá recair no vício de mendigar atenção pelas redes).

Mas entre os vícios que compõem essa masmorra que são as redes sociais, um dos mais risíveis é o de ter “causas do face”. Essas causas variam desde defender o modo indígena de viver (neolítico) a partir de seu Mac, combinar passeios de bike pela zona oeste da cidade para salvar o planeta, curar o mundo do mal comendo comida vegetariana ou declarar guerra à morte de crianças na África a partir de seu Android (se tiver mais grana, do seu iPhone).

Esses pequenos fragmentos da bondade contemporânea são normalmente acompanhados da crença light de que amar todo mundo é possível, mesmo que você fracasse continuamente em amar sua irmã insuportável. A capacidade para autoindulgência se tornou uma praga entre os adultos infantilizados. Se Nietzsche vivesse hoje, teria saudades do ressentimento que se revelava pueril no modo de crer num carpinteiro frágil e fracassado. Hoje, o ressentimento se sofisticou, a ponto de assumir ares da crença no próprio ego.»

Causas do Face, in A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo, de Luiz Felipe Pondé

17 de agosto de 2015

14 de agosto de 2015

ANA DE AMSTERDAM. Não li o livro, mas li grande parte (senão a maioria) dos textos lá publicados. Pedro Mexia, um dos nossos melhores prosadores (parece que também dos nossos melhores poetas, mas essa faceta conheço mal), deu-lhe cinco estrelas no Expresso. Considerando a quantidade de estrelas que no Expresso (e restante imprensa dita de referência) se dão a qualquer mediocridade, acrescentaria mais uma.

13 de agosto de 2015

PRESIDENCIAIS AMERICANAS (3). Tal como em 2008, quando disputou com Obama a nomeação do Partido Democrático, Hillary Clinton volta a explorar a sua condição de mulher. Desta vez porque o candidato Donald Trump cuspiu umas baboseiras sobre as mulheres, que dizem mais dele que das mulheres. Há uma guerra do Partido Republicano contra as mulheres? Hillary diz que há. E quem acredita? Como é óbvio, nem ela. Mas crê que isso lhe dará votos, nomeadamente do eleitorado feminino, na minha opinião um erro. Seguramente que haverá quem vote nela por ser mulher. Mas não duvido que haverá quem não vote pela mesmíssima razão. Assim sendo, quem pesa mais? Que eu saiba, não há estudos que indiquem esta ou aquela tendência. Que os machos tendem a votar nos machos, e que as fêmeas tendem a votar nas fêmeas. Parece-me, por isso, pouco sério o argumento da guerra contra as mulheres, e de duvidosa eficácia. Como alguém que pensa pela sua própria cabeça (gabo-me de pertencer ao clube, para o bem, e para o mal), quando chegar a hora votarei, como sempre, no candidato que me parecer melhor — ou no que me parecer menos mau, no caso de nenhum deles me entusiasmar. Sempre foi assim, sempre assim será.
PRESIDENCIAIS AMERICANAS (2). Disse em privado que gostaria de ver Donald Trump disputar a nomeação pelo Partido Republicano às Presidenciais Americanas de 2016. Porque assim iria debater com os restantes candidatos, e porque aí ficaria a nu a nulidade do sujeito. Assim sucedeu no debate da semana passada. Mas, surpreendentemente, nada mudou. O sujeito continua a liderar as sondagens no campo republicano, apesar das diatribes praticamente diárias. Se é um facto que a procissão ainda vai no adro, não deixa de ser preocupante.

7 de agosto de 2015

PRESIDENCIAIS AMERICANAS (1). Algumas notas sobre o debate de ontem entre os candidatos que as sondagens dizem melhor posicionados para disputar as presidenciais americanas de 2016 pelo Partido Republicano. Estiveram bem Ben Carson (uma agradável surpresa) e Mark Rubio, exactamente por esta ordem. Na parte má, Donald Trump mostrou, sem surpresa, toda a vacuidade que lhe vai na cabeça. E a política externa resumiu-se praticamente ao Irão, quando seria de esperar que a questão cubana também fosse abordada (provavelmente os jornalistas da Fox entenderam não abordar o assunto porque Obama sairia a ganhar). Por último, o formato do debate (30 segundos para responder a cada uma das perguntas e mais uns quantos para rebater eventuais acusações) só deu para sound bites, que os candidatos traziam muito bem ensaiados. Terá sido um sucesso como espectáculo de televisão, mas em termos de substância foi de uma superficialidade confrangedora.

4 de agosto de 2015

REFERENDAR O ACORDO? Sou, desde sempre, por razões que me fartei de explicar, contra o Acordo Ortográfico, o chamado AO90, daqui em diante apenas Acordo. Qualquer iniciativa para o travar será, em princípio, bem-vinda. Mas daí até reclamar-se um referendo sobre o Acordo, tenho dúvidas. Estarão os portugueses interessados em tão abstrusa matéria? Que importância darão ao assunto a ponto de irem às urnas dizer «sim» ou «não»? Palpita-me que os adversários do Acordo suspeitam que, diante um referendo, os portugueses tenderão a dizer «não» — logo defendem um referendo. Se for o caso, devo dizer que o expediente não me alegra. Porque isso será, no mínimo, pouco sério, e para falta de seriedade já me bastam os que defendem o Acordo sem um argumento digno desse nome. Há argumentos fortíssimos contra o Acordo, e nenhum (repito: nenhum) a favor. Promovam-se debates a sério ao mais alto nível, e deixem que as evidências — ou falta delas — se imponham por si.

30 de julho de 2015

NÓS, OS AFOGADOS. Mais de um ano depois de começar a ler (sou dos que lê vários livros ao mesmo tempo), terminei Nós, Os Afogados, do dinamarquês Carsten Jensen. Como então escrevi após duas centenas de páginas (o livro tem quase 800), é uma obra notável. Cada vez sou mais poupado nos elogios que faço a um livro. Porque me fui tornando mais exigente, porque o entusiasmo pelos livros já viu melhores dias, porque estou a perder qualidades, por outra razão que não estou a ver. Mas hoje, terminadas as últimas páginas, abro mão deles sem reserva ou hesitação. Nós, Os Afogados, é um clássico antes de o ser.
COISAS QUE VOU LENDO (30). «País que não produz bom vinho é como o Alto Volta: não quero nem saber onde fica. Meu planisfério restringe-se a nove países: França, Itália, Espanha, Portugal, Alemanha, Chile, Argentina, Austrália e EUA. Ando com vontade de tirar a Alemanha e a Argentina do mapa. O Brasil é apenas o lugar onde vivo. Não fosse pelo meu Pinot Noir, já teria me mudado para a França - a única superpotência na geopolítica enológica. Estou pouco me lixando para o barril de petróleo a 100 dólares. O diabo é uma garrafa de Mystère-de-la-Toilette a 380 euros.»

24 de julho de 2015

TEORIA DAS INSTALAÇÕES. O brasileiro Juremir Machado da Silva escreveu, no livro Um escritor no fim do mundo, relato de uma viagem à Patagónia na companhia de Michel Houellebecq, o seguinte: «Numa exposição, dessas de arte contemporânea, (...) um artista famoso pendurou num varal uma cueca suja de cocô. A crítica ficou deslumbrada. Boa parte da literatura experimental, na busca desesperada do novo, é cueca com cocô. A novidade é visível. Só que cheira mal.» Não morro de amores por aquilo que genericamente se designam «instalações», mas nada contra. O meu problema com elas é quando as põem ao nível do que a arte tem de melhor. Não conheço, mas haverá uma ou outra em que a equiparação não chocará. Mas serão, quando muito, as tais excepcções que confirmam a regra.

22 de julho de 2015

KRUGMAN E A INCOMPETÊNCIA PRÓPRIA E ALHEIA. De facto, Paul Krugman engana-se muito. Até eu, que de economia e finanças pouco mais sei que nada, nos últimos tempos tenho acertado mais que o Nobel da Economia, desculpem a presunção. A realidade está sempre a desmentir as suas belas teorias (são mais fezadas, mas chamemos-lhe teorias), mas ele não desarma. Até um astrólogo já teria consultado os astros e corrigido a pontaria.

17 de julho de 2015

DIZER SEM DIZER. Já repararam que sempre que se diz mal do ministro alemão das Finanças, nos jornais ou nas redes sociais, ele aparece na fotografia em cadeira de rodas? Não, não me venham dizer que eu defendo que se deva esconder a sua deficiência, muito menos que o caso dele se compara à novela em cena (a esposa do primeiro-ministro português apareceu no Correio da Manhã sem cabelo após ter feito quimioterapia e logo originou uma pequena polémica). A exibição de Wolfgang Schäuble na cadeira de rodas não engana ninguém: ela pretende dizer, sem dizer, que o todo-poderoso ministro não passa, afinal, de um deficiente. Que a deficência seja apenas física, não importa para o caso. O que importa é passar a ideia de que Schäuble é um deficiente, logo age como tal.

16 de julho de 2015

CENSURA NA TVI? Face às variadíssimas acusações que Augusto Santos Silva tem vindo a fazer, ainda não vi, devo dizer que estranhamente, qualquer explicação da TVI para o seu afastamento, e neste momento até me parece que, a haver, já vem tarde. Com certeza que as televisões têm o direito de mudar os colaboradores quando assim o desejarem. Por razões editoriais, comerciais, ou outras. Convém é que em casos destes, que envolve um destacado militante do PS e destacadíssimo apoiante do seu líder (mas podia ser doutro partido e outro líder qualquer), se expliquem os motivos do seu afastamento, de modo a não parecer o que efectivamente parece.

9 de julho de 2015

QUANDO O ÓBVIO SE TORNA SURPREENDENTE. Guy Verhofstadt, ex-primeiro-ministro belga e actual líder do grupo liberal no Parlamento Europeu, resolveu dizer duas ou três verdades ao primeiro-ministro grego e tornou-se, de repente, um herói. Bem sei que andamos com falta de heróis (é ver como de uma hora para a outra se transforma em herói alguém que se limitou a cumprir o seu dever), mas custa a crer que só agora, meio ano depois de a Grécia jogar ao rato e ao gato com as «instituições», alguém tenha dito o óbvio, e que o óbvio se tenha tornado uma coisa extraordinária. Os entusiastas do Syriza descobriram, logo depois, com indisfarçável euforia, que Verhofstadt também terá cometido não sei que pecadilhos. Ora, a ser verdade, isso muda o quê? Passou a ser mentira o que Verhofstadt disse no Parlamento sobre Tsipras e o seu Governo?

25 de junho de 2015

A FUMAÇA CONTINUA. Definitivamente que o futuro da Grécia só os melhores astrólogos conseguem prever. Como esta notícia bem o demonstra (os analistas financeiros não conseguiram prever o colapso do BES), só por acaso alguém acertará no desfecho do «caso» grego. Bem sei que no início da semana, meio ano depois do começo das negociações entre o Governo grego e as agora chamadas «instituições financeiras», anunciaram, como mal contida euforia, «uma base sólida» para um acordo. Reparem: mesmo que sólida, apenas uma base. Hoje constata-se que nem isso é. À semelhança das anteriores, as negociações caminham penosa e rapidamente para o ponto de partida. Haverá um desfecho, com certeza que haverá, e respectiva fotografia da praxe. Mas duvido que alguém fique bem no retrato.
COISAS QUE VOU LENDO (28). «A desconfiança em relação às novas formas de transporte não é inédita. Há coisa de um século, a indústria do cavalo e dos transportes hipomóveis desconfiava do new kid on the block, que ameaçava satisfazer as necessidades de deslocação do ser humano de forma mais capaz, porque mais rápida, confortável e conveniente — o automóvel. A força do lobby do cavalo era tal que o legislador do Estado da Pensilvânia, quiçá sob o efeito do cavalo, aprovou uma lei segundo a qual “qualquer condutor que aviste uma parelha de cavalos a vir na sua direção deve encostar o automóvel à berma e cobri-lo com uma manta que se confunda com a paisagem”. O final da história é conhecido: o automóvel democratizou-se e o cavalo ficou confinado ao Jockey do Campo Grande e à vila da Golegã no São Martinho.» Tito Rendas, Público de 24/06/2015

24 de junho de 2015

KEITH JARRETT, TÓQUIO, 1984. Uma só palavra para adjectivar este concerto: fenomenal.

23 de junho de 2015

O JORNALISMO ONTEM E HOJE. Provavelmente desde A Capital, de Eça de Queirós, onde roubei o título do blogue, que não me ria tanto. Falo de Enviado Especial, paródia de Evelyn Waugh a um certo jornalismo que se praticava na época (Scoop, título original, publicado pela primeira vez em 1938). Terminado o livro, atiro-me a Número Zero, romance de Umberto Eco acabadinho de sair, que leio com um permanente sorriso desde a primeira página. Apesar de separadas no tempo por quase oito décadas, um traço em comum entre estas duas obras: o mau jornalismo. Sim, o bom não se presta a romances.

18 de junho de 2015

POR CAUSA DAS TOSSES. Talvez haja algum exagero, mas Keith Jarrett não se livra da fama de ter uma relação problemática com o público. Tive ocasião de o comprovar no último concerto que vi dele, de que aqui já falei. O primeiro tema da noite terminou com um espectador a tossir mesmo em cima da última nota, que provocou uma reacção intempestiva de Jarrett, que não conseguiu conter a irritação, embora temperada com ironia. Levantou-se de imediato, foi ao microfone e disse, mais coisa, menos coisa, que há pessoas que têm uma pontaria de tal modo afinada que conseguem tossir em momentos cruciais, como foi o caso. Como pouco depois se comprovou, a irritação já vinha de trás. Como estava um dia péssimo (as ruas de Nova Iorque estavam cobertas de neve e escorregava-se por todo o lado), houve quem se atrasasse, como se notou durante a meia hora de atraso com que Jarrett decidiu, e bem, iniciar o concerto. Irritação que o levaria a dizer que os atrasados lhe mereciam um enorme respeito, pois alguns tinham feito três e mais horas de automóvel debaixo de uma tempestade para ali estar — uma alusão à pateada com que os impacientes espectadores o brindaram antes do concerto, reclamando o seu início. Mas houve mais: cavalgando a onda, falou da sua lendária má relação com o público, e apontou para o piano onde acabava de tocar um tema complexíssimo (como, aliás, todos os que tocou naquela noite) para dizer que sem o público não o teria conseguido. Lembrei-me deste episódio enquanto ouço Alfred Brendel tocar o Adagio Un Poco Mosso do Concerto para Piano #5 de Beethoven (que já ouvi dezenas de vezes e a que, por uma razão ou outra, volto sempre), onde as tosses são uma autêntica praga, e provavelmente evitáveis. É conhecido o feitio de Jarrett, que se recusa a tocar enquanto o público não estiver em completo silêncio. (Há notícias de concertos em que se recusou a tocar por esse motivo, entre os quais um concerto em Lisboa em 1981.) Como alcançou um estatuto que lhe permite dar-se a esse luxo, falo-o, e eu acho muitíssimo bem. Até porque o barulho não perturba, apenas, o concertista, mas também o público que vai lá para ouvir. E eu, confesso, detesto ser perturbado, sobretudo por barulhos facilmente evitáveis. Anuncia-se, já depois destas linhas, o fim do trio (Jarrett, Peacock, DeJohnette). Dada a idade dos seus membros, é um fim anunciado. A confirmar-se, tive o privilégio de assistir ao último concerto, de que aqui dei conta. Ficam as memórias, as gravações, a música. A grande música.

16 de junho de 2015

COISAS QUE VOU LENDO (26). «Marques Mendes assessorou Efromovich através da Abreu Advogados; [António] Vitorino assessorou Neeleman através da Cuatrecasas. O que está aqui em causa não é este trabalho de mediação negocial. O problema é que estes mediadores de negócios acabam o seu trabalho às cinco e depois às nove da noite já estão a comentar a pátria nas televisões, como se fossem observadores desligados da realidade que estão a comentar. Nessa noite imprecisa, todos os gatos são pardos.» Henrique Raposo, Expresso Diário de 15/06/2015
COISAS QUE VOU LENDO (25). «Ao propor ao arguido a aceitação de outra medida em substituição da prisão preventiva, o Estado está a dizer que já não a entende necessária, adequada e proporcional. O Estado tem obrigação de saber que o arguido pode não aceitar a prisão domiciliária com pulseira electrónica. É o Estado que faz as leis. Não o arguido. Ao regressar à prisão preventiva, após recusa do arguido em aceitar a pulseira electrónica, o Estado está a dar o dito por não dito. Nem se percebe que agora se prescinda da prisão preventiva e daqui a bocado se volte a aplicá-la. Sem qualquer alteração de facto ou circunstância.» Alberto Pinto Nogueira, Público de 15/06/2015

13 de junho de 2015

O INFERNO DA GRITARIA. Vi duas emissões da Barca do Inferno e fiquei vacinado. Tirando uma senhora, cujo nome não me ocorre, aquilo era uma gritaria pegada. Bem pode Raquel Varela, que o país conheceu graças a um programa de televisão onde um jovem empresário lhe arruinou uma bela teoria com uma evidência que só ela não viu, dizer que o programa foi «inovador», que há vídeos seus no dito programa «que tiveram meio milhão de visualizações», que foi visto e comentado «de norte a sul do país, em universidades e câmaras municipais». Só não viu quem não quis (as emissões estão online): aquilo, como debate, valeu zero. Também o novíssimo programa de debate da RTP, As Palavras e os Atos, é um fiasco. É ruído do princípio ao fim, ninguém deixa falar ninguém. Sabe-se de antemão o que os convidados vão dizer, o moderador fala de mais. Pior: como modelo, o programa não tem conserto. Querem um debate a sério? Copiem o Conversas à Quinta, do Observador, onde os temas são abordados de forma serena e profunda.

10 de junho de 2015

PARADISO. Graças à internet, possuo, desde algum tempo, Paradiso, de Lezama Lima, na língua em que foi escrito (espanhol), que estou longe de dominar. Lidas algumas dezenas de páginas, constato, apesar das dificuldades com a língua, que é um grande livro. Procurada a tradução portuguesa, não há. Só em português do Brasil. Caríssima, e difícil de arranjar. Parafraseando Almada Negreiros, «deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido». Não é caso para tanto, mas vinha mesmo a calhar uma tradução em português «sem sotaque» — e, já agora, sem Acordo Ortográfico (AO90), mas talvez seja pedir muito.

5 de junho de 2015

POBRES E MAL-AGRADECIDOS. Imaginem que ando pelas ruas a anunciar que o jornal X traz a notícia Y, e forneço as direcções do quiosque onde se pode comprar o jornal X. Imaginem agora que cobro um centavo pelo serviço a cada pessoa que informo. Devo reparti-lo com o jornal X? É isto que defende quem acha que a Google deve pagar aos jornais sempre que alguém usa o seu motor de busca para fazer uma pesquisa e a pesquisa remete para esses mesmos jornais. O ponto dos defensores desta ideia é o seguinte: como de cada vez que o motor de busca sugere as ligações exibe publicidade (pela qual a empresa proprietária é paga), não devia a Google pagar aos jornais determinada quantia por revelar que a notícia Y está no jornal X? Não tenho certezas absolutas sobre esta matéria, muito menos o que a lei, a existir, prevê para casos destes, mas a minha resposta tende a ser um rotundo não. Reparem: a questão pode ser vista ao contrário. O que muitos consideram um roubo da Google pode, igualmente, ser visto como publicidade gratuita aos jornais para onde a Google remete quem pesquisa, que dessa forma ganham leitores que doutro modo talvez não tivessem. Imaginem que a Google teria que pagar cada ligação que sugere sempre que o seu motor de busca é usado para efectuar qualquer outra pesquisa. Como a lógica é a mesma, teria, igualmente, de pagar. Assim sendo, teríamos Google? Por mim, desde que a Google me forneça os preciosos serviços que me tem fornecido até agora, pelos quais não pago um centavo, que ganhe muitíssimo dinheiro. Não me escandalizaria, aliás, que o seu motor de busca venha a ser considerado serviço público (que, na prática, já é), e a usufruir dos benefícios que o estatuto lhe confere. O Observador lembrou, por ocasião do seu primeiro aniversário, que vários dos seus textos remetem para artigos da concorrência, para os quais disponibiliza as respectivas ligações. Ora aqui está outro caso (e uma prática que se saúda). Invocando a mesma lógica, não devia o Observador pagar à concorrência sempre que a recomenda?

4 de junho de 2015

A LÓGICA QUE ME ESCAPA. Nem tudo o que reluz é ouro, como nem tudo é verdade o que se diz nos jornais, sobretudo desportivos, especialmente nesta altura do ano. Mas há meses que os jornais vêm dizendo que o Benfica e Jorge Jesus negociavam um novo contrato, que passava pelo Benfica baixar o salário ao treinador, e não vi quem o desmentisse. Ora, tendo em conta os resultados de Jorge Jesus à frente do Benfica, é normal assegurar a sua continuidade baixando-lhe o salário? A lógica aponta para o contrário, e o contrário seria manter-lhe — ou melhorar-lhe — o contrato, por melhor que ele já fosse. Caberá na cabeça de alguém que uma empresa que vê os seus lucros aumentarem substancialmente graças ao desempenho de um gestor (ou em grande parte graças a ele) «premiá-lo» baixando-lhe o salário? Confesso que não percebo. Como não percebo que a direcção «encarnada» se tenha apressado a apagar Jorge Jesus da foto do bicampeonato mal se confirmou a transferência de Jesus para o rival de Lisboa, um gesto próprio de quem não tem memória, nem princípios.

28 de maio de 2015

SAIR OU NÃO DO ARMÁRIO. Embora considere «evidente que ninguém pode ser empurrado para fora do armário ou ser forçado a assumir a sua homossexualidade», João Miguel Tavares acha que assumir a homossexualidade em países onde ela não constitui problema é um «dever de consciência». É «lastimável que neste triste país não se consiga arranjar um único homem ou uma única mulher, do PS, do PSD, do CDS, capaz de assumir de uma vez por todas a sua homossexualidade», escreveu o jornalista no Público. Foi mais longe: «é inconcebível que a totalidade dos políticos gays portugueses continue barricada nos respectivos armários». Devo dizer que João Miguel Tavares é, para mim, dos melhores cronistas em actividade. Pela forma como escreve, pelo modo como pensa, pela substância com que fundamenta o que pensa. Foi, por isso, com surpresa que o vi defender uma ideia que me parece absurda, de que discordo absolutamente. Por que devem os gays assumir publicamente que o são? Se ninguém pede aos heterossexuais que assumam publicamente tal condição, certamente por não se considerar necessário, por que deveriam os gays assumi-lo? Confesso que não estou a ver a lógica do raciocínio. Se há gays (bissexuais, travestis, transexuais, transgéneros e sabe-se lá que mais) que se recusam a «sair do armário», qual é o problema? Tirando questões de natureza legal (o Estado precisa de saber o sexo com que cada um nasce), a sexualidade de cada um diz respeito a cada um. Se uns decidem divulgá-la (ou até gabar-se dela), o problema só diz respeito aos próprios. Se outros decidem não a divulgar (ou até escondê-la), o problema só diz respeito aos próprios. Ou há aqui qualquer coisa que me escapa, ou isto, vindo de quem vem, é inacreditável.

27 de maio de 2015

QUEM PÕE FIM A ISTO?aqui chamei a atenção, mas volto a insistir: a RTP, pelo menos a RTP Internacional, está a dar cabo da música portuguesa. São tantas as vezes que passa as mesmas músicas, durante semanas a fio e por vezes com intervalos que não chegam a uma hora, que mesmo a melhor música acaba por se tornar insuportável. Parece que o líder do PS pretende, se for primeiro-ministro, melhorar a «qualidade das emissões da RTP Internacional». Não sei o que isso significa (se calhar nem ele), mas eu já me contentava que acabassem com esta pouca-vergonha.

22 de maio de 2015

CANÇONETAS E OUTRAS TRETAS. Tal como a generalidade dos portugueses (presumo), e da quase totalidade dos que gostam de música (volto a presumir), estou-me absolutamente nas tintas para o eurofestival das cantigas. Tanto se me dá que a catraia que «nos representa» termine em primeiro ou em último, que o primeiro não me alegra, e o último não me entristece. Dito isto, parece que a «nossa» cantiga, que ontem foi afastada da fase final, é fracota, e está, segundo Simone de Oliveira, longe de representar a música ligeira portuguesa, segundo ela «outra coisa» (leia-se muito melhor). «Há milhares daquelas [cantigas] pela Europa toda», diz Simone, cuja cançoneta a que deu voz no presente certame foi excluída na fase de selecção nacional (se calhar a razão de Simone vem daí). Vulgaridade, na sua opinião, que só pode ser má para as cantigas, e, presumo de novo, para o país. Ora, o que me surpreende é que ainda haja quem leve a sério uma coisa mais que moribunda, que já deu o que tinha a dar pelo menos há três décadas. Quem se lembra de uma única cantiga portuguesa que tenha ido à Eurovisão? (Vá lá, a Tourada e a Desfolhada, cantada pela mesma Simone.) Quem, já agora, se lembra das cantigas que nas últimas décadas ganharam o eurofestival? O tempo, esse grande juiz, encarregou-se de as remeter para onde nunca deveriam ter saído, e nestas coisas o tempo dificilmente se engana. Definitivamente que haverá qualquer coisa que desconheço que justifica o empenho das televisões numa coisa destas. «Aquilo é um grande espetáculo de televisão», garante Simone. Será. Mas eu, honestamente, nem isso consigo ver. Quando o produto é mau, como pode o espectáculo ser bom? É o velho ditado dos ovos e das omeletas.
O INSULTO COMO ARGUMENTO. Paulo Jorge de Sousa Pinto escreveu no Público o seguinte: há um «bruaá irracional e insensato» por parte de quem se opõe ao Acordo Ortográfico (o chamado AO90), que atribui «a cegueira», «falta de informação», «má-fé», «mero preconceito», «ignorância», «temor», «preguiça», «seguidismo» e «ligeireza». Disse mais: quem se opõe ao Acordo enferma de «arrogância», «nacionalismo básico», «provincianismo serôdio», «estreiteza de vistas», «reacionarismo». Sobre o arrazoado, direi, apenas, duas coisas: há dezenas (repito: dezenas) de argumentos contra o Acordo, e até ver zero (repito: zero) argumentos a favor do Acordo. (Falo de argumentos concretos, não de abstracções.) Para não variar, Sousa Pinto não se pronunciou, em concreto, sobre um só mérito do Acordo. Falou em vagos «desafios à língua portuguesa» que o Acordo irá impedir, num «avanço imparável do inglês» a que o Acordo porá cobro (não se riam), que o Acordo não é mais do que um «aspeto menor de uma convenção». Resumindo, generalidades, e mais generalidades. Sobre os deméritos que os opositores apontam ao Acordo, o sujeito não só não se pronunciou como ainda os insultou. Ainda não foi desta que alguém alinhou dois ou três argumentos dignos desse nome. Por razões cada vez mais óbvias: não os há.

20 de maio de 2015

SE NADA MUDA, MUDAR PORQUÊ? Diz Henrique Monteiro no Expresso sobre o Acordo Ortográfico, o chamado AO90, procurando desvalorizar as razões de quem se opõe, na sua opinião por «patrioterismo a mais e conhecimentos a menos»: «Continuaremos todos a falar igualzinho, podemos é escrever (...) de forma ligeiramente diferente.» Acontece que o Acordo pretendeu, antes de mais, unificar a grafia entre os falantes de língua portuguesa. Se continuarmos a escrever «de forma ligeiramente diferente», como garante o cronista, o Acordo serviu para quê? É uma espécie de fatalidade (pelos vistos sem qualquer importância), que devemos aceitar com um mero encolher de ombros?
O CORREIO DA MANHÃ SEMPRE A INFORMAR.
COISAS QUE VOU LENDO (24). «As televisões (...), que andam por aí numa fúria vingadora contra o polícia de Guimarães, são as principais responsáveis pela atmosfera violenta que envolve o futebol. Sim, são as televisões que legitimaram esta cultura de ódio e de desconfiança através dos painéis que envenenam há décadas qualquer conversa sobre a bola.» Henrique Raposo, Expresso de 19/5/15
COISAS QUE VOU LENDO (23). «Enquanto dirigentes, treinadores, gestores de comunicação continuarem a trocar, todos os dias, insinuações e insultos; enquanto não proibirem e não deixarem de subsidiar claques violentas; enquanto não penalizarem adeptos criminosos; enquanto acharem normal a berraria com que se vive a paixão pelo futebol, a brutalidade, já banalizada nas ruas, crescerá mais e mais.» Pedro Tadeu, Diário de Notícias de 18/5/15

15 de maio de 2015

ALMADA E OS LIVROS QUE NUNCA LEU. Almada Negreiros angustiava-se diante a possibilidade de não conseguir ler todos os livros que gostaria face ao tempo que lhe restava de vida. Imaginem se fosse hoje, com milhares de livros ao alcance de um clique, centenas de textos imperdíveis diariamente disponibilizados na internet. Ao contrário de Almada, não vivo angustiado com os livros que nunca lerei, alguns nas estantes cá de casa. Mas é um facto que são cada vez mais os livros em formato digital que tenciono ler, e cada vez mais numerosos os textos na internet a que não resisto. A Revista Bula foi a mais recente descoberta. Mas podia falar da Babelia, das sugestões de leitura do Arts & Letters Daily, da New York Review of Books, da revista Ñ. É cada vez mais difícil escolher o que ler, porque escolher significa excluir. Não é bem um lamento. É, quando muito, um lamento de quem tem que escolher o que julga melhor entre o melhor.
COISAS QUE VOU LENDO (22). «Marcelo Rebelo de Sousa representa, ao mais alto nível, um discurso que quer passar por análise ou comentário políticos, mas de onde a política foi evacuada. Ele assimilou completamente a política quer à luta pelo poder, quer ao exercício e ao objecto desse poder. Para ele, toda a política é uma questão de tácticas e estratégias, de fintas e simulações. E ganha o que for mais cretino. É desta matéria que são feitas as suas prelecções, enquanto animador do crochet televisivo.» António Guerreiro, Público de 15/05/2015

13 de maio de 2015

COISAS QUE VOU LENDO (21).
Já para a jornalista e escritora Suzanne Rodriguez-Hunter (...), o início da festança [Paris dos anos vinte] ocorreu bem antes, no jantar que Picasso ofereceu, em 1908, ao pintor Henri Rousseau, que, mesmo com 64 anos, era admirado pela geração mais jovem. Dele participaram várias pessoas, entre elas os pintores Georges Braque e Marie Laurencin, os escritores André Salmon e Guillaume Apollinaire, os americanos Gertrude Stein, seu irmão Leo e sua nova amiga (e futura amante) Alice B. Toklas. Planejaram que se reuniriam aos pés de Montmartre para aperitivos no bar Fauvet e depois subiriam a ladeira até o estúdio de Picasso, onde comeriam arroz à valenciana. Plano bom, execução desastrosa. 
Realmente, até aí tudo fora bem, mas a coisa desandou: no bar, Laurencin embriagou-se e ficou inconveniente; a namorada de Picasso, Fernande Olivier, ficou desconsolada porque alguns produtos encomendados não foram entregues, saindo então com Alice Toklas para tentar encontrar alguma mercearia aberta, o que não conseguiram; na subida de Montmartre, Gertrude e Leo tiveram de carregar Laurencin, que não conseguia mais andar; Fernande barrou a entrada de Laurencin no ateliê, e Gertrude Stein disse-lhe então que, depois de carregá-la, ela teria que ser aceita, com o que Picasso concordou, mas Laurencin, já dentro do ateliê, caiu sobre uma bandeja; Appollinaire, que era amante de Laurencin, levou-a para fora e, ao que tudo indica, deu-lhe uns tabefes, fazendo-a recuperar um pouco a sobriedade; vizinhos esfomeados roubaram comida; um frequentador do famoso Lapin Agile passeou dentro do estúdio com seu burro, que bebeu bastante e comeu o chapéu de Alice Toklas; cantores de rua italianos juntaram-se à bagunça e foram expulsos por Fernande; André Salmon, também embriagado, começou a brigar com todo mundo e então estátuas começaram a ser derrubadas, para desespero de Braque, que inutilmente tentava segurá-las; um dos pintores dançou músicas religiosas espanholas e estendeu-se no chão como um Cristo crucificado; uma convidada não identificada rolou ladeira abaixo e caiu dentro de um esgoto; Rousseau adormeceu debaixo de uma vela que pingava cera derretida sobre a sua cabeça e, quando acordou, passou a tocar violino. Festa estranha, com gente esquisita.
Marcelo Franco, Eterna meia-noite em Paris

12 de maio de 2015

GREVES. Parece que a greve dos pilotos da TAP demonstrou, por uma vez, que há greves injustas. Valha-nos isso.
COISAS QUE VOU LENDO (20). «O cancro da mulher de Passos é propaganda?», pergunta, em título, Pedro Tadeu na sua crónica de hoje. Adivinhem a resposta.

5 de maio de 2015

ENTREGUES À BICHARADA. O primeiro-ministro defendeu que para vencer na vida é preciso, entre outras qualidades, ser exigente e metódico. E apontou um exemplo: Dias Loureiro, ex-administrador do BPN, que além de ter as qualidades que refere, é um «empresário bem-sucedido». Hoje anuncia-se que a biografia de Passos Coelho refere, a páginas tantas, que o parceiro de coligação se demitiu por SMS (a tão falada demissão «irrevogável») e não lhe atendia o telefone — isto quando PSD e CDS acabam de anunciar casório em segundas núpcias. Da oposição, as notícias são, igualmente, surpreendentes. Um jornalista escreveu que não morre de amores pelo programa económico de António Costa, e António Costa reagiu insultando o jornalista por SMS. Estamos, portando, entregues a governantes sem memória nem princípios, e a candidatos a governantes se calhar ainda piores.
COISAS QUE VOU LENDO (19). «(...) os povos que preferem a igualdade à liberdade vão produzir mais pobreza. Perante a pobreza, vão exigir ainda mais igualdade. E obterão mais pobreza. Quando descobrirem que outros povos estão a produzir riqueza, exigirão que a igualdade seja estendida a esses povos (talvez através de um “imposto global”). Obviamente, se isso fosse aceite pelos outros, todos ficariam mais pobres — mas seguramente também mais iguais, na pobreza.» João Carlos Espada, Público de 04/05/2015

28 de abril de 2015

DESCONFORTOS CONFORTÁVEIS. Se a Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública (CReSAP) não conseguiu evitar que a Segurança Social tenha sido invadida por «boys» do PSD e do CDS, então serve para quê? Se o objectivo da CReSAP é indicar ao Governo três nomes (os vencedores do concurso que ela própria promove) para preencher determinado cargo na administração pública e o Governo faz ouvidos de mercador (quando devia, segundo o seu presidente, escolher «aleatoriamente» um deles), por que não se demitem os seus dirigentes? O actual presidente, João Bilhim, que diz ter tomado conhecimento deste assunto pela comunicação social (um clássico), veio candidamente manifestar «muito desconforto» e «tristeza», porque sempre achou que o Governo «iria escolher em termos técnicos», e que na hora da verdade «não iam ligar à ligação política ou partidária». Apesar da surpresa (presumo) e da enorme decepção (volto a presumir), João Bilhim mantém que a entidade a que preside, curiosamente criada pelo actual Governo, acabou com os «jobs for the boys». «A CReSAP assegura com transparência, isenção, rigor e independência as funções de recrutamento e seleção de candidatos para cargos de direção superior da Administração Pública e avalia o mérito dos candidatos a gestores públicos», lê-se, na internet, logo na página de entrada. Como não assegura coisa nenhuma, volto a perguntar: para que serve a CReSAP? Serve, até ver, para que o presidente aufira um ordenado mensal ilíquido de 5.436,61 euros + 2.174,61 de despesas de representação + telemóvel com um plafond de 80 euros, e para que três vogais aufiram, no mesmo período, ordenados mensais de 4.892,96 euros + 1.957,18 de despesas de representação + telemóvel com um plafond de 80 euros. Despesas a somar a muitíssimas outras, como é bom de ver, e que acabarão na factura a pagar de quem estão a pensar.
A GRANDE MÚSICA (10).



Aconselho o registo inteiro do concerto de Jan Garbarek e a sua banda em Leverkusen. Os impacientes podem avançar para o minuto 37, onde está um dos melhores solos de contrabaixo (de Eberhard Weber) que vi até hoje. Se continuarem impacientes, vão, depois, aqui, onde podem ver um solo imperdível de Manu Katché.

24 de abril de 2015

LETRAS E TRETAS DA PARVÓNIA. Este texto de António Araújo (publicado quase há um ano mas actualíssimo) ilustra bem por que motivo a deputada Isabel Moreira votou o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90, para simplificar), e por que se abespinhou quando alguém, numa comissão parlamentar, a confrontou com a circunstância de defender o AO90 e escrever como se ele não existisse. Tratar a língua portuguesa como a deputada a tratou em Apátrida, ao que parece a sua primeira incursão literária, é, de facto, lamentável. Os exemplos de António Araújo são abundantes, e seria fastidioso estar aqui a repeti-los quando estão ao alcance de um clique. Já a crítica de Maria da Conceição Caleiro, que no Público considerou Apátrida «um belo e doloroso livro», e generosamente lhe atribui quatro estrelas (a escala vai de 1 a 5), fui ler para crer. «Apátrida é a vários níveis um livro surpreendente e dos mais interessantes que se publicaram em Portugal nos últimos tempos: belo, doloroso, denso, contagiante», diz Conceição Caleiro no parágrafo final. E porquê? Porque o livro está «superpovoado de marcas de subjectividade, de emoção grafada (interrupções, parêntesis, exortações); porque «dá a descobrir uma intimidade que o leitor deslumbrado e ofegante pressente ser extrema, incandescente, despudorada, recôndita, magmática, aflita, aflitiva»; porque é um «resíduo vivíssimo de um confronto surdo, de uma violência»; porque «toda esta fala é mais do lado da intensidade e da insistência do mesmo sempre outro, ou de cada vez já outro, pois é impossível a sobreposição absoluta»; porque a índole de Isabel Moreira «é por natureza apátrida, reinventada por uma causa, uma procura, um sentido, subsumida por uma ética». Resumindo e concluindo, por razões que não se percebem. A única coisa que se percebe é que Conceição Caleiro quis dizer bem, mas quanto a razões, não quis — ou não soube — explicar. Se não surpreende (a crítica literária está cheia destes malabarismos), exercícios destes acabam, invariavelmente (e talvez involuntariamente), por contrariar o que pretendem. Pois é muito bem feito.
É FAVOR TRADUZIREM. Reconheço que alguns jornalistas da área económica se esforçam por explicar aos não iniciados matérias do foro estritamente económico e financeiro sem recorrer ao economês, mas mesmo esses não conseguem evitar o vocabulário dos meios, e que só os meios entendem. O que é papel comercial? Activos? Rácios de capital? Protecção contra credores? Liquidez? Execução de títulos? Almofadas de capital? Provisões de imparidade? Provisões líquidas? Vendas a descoberto? Spreads? Haircut? Exposição da mercearia do sr. Joaquim ao talho do sr. Manuel? Na maioria dos casos, nem os melhores dicionários ajudam. Faziam bem os jornalistas da área económica evitar este palavreado, e não sendo possível escapar-lhe em alguns casos, então abram parêntesis e expliquem, em português que se entenda, o que pretendem dizer. Todos ganhariam com isso, a começar por eles.

21 de abril de 2015

DO SONHO À REALIDADE. Não sou portista, mas gostaria que o Porto tivesse ganho — ou, no mínimo, alcançado um resultado que lhe permitisse ultrapassar a eliminatória, e quem me conhece sabe que não estou a ser hipócrita. Dito isto, é preciso que se diga que o resultado na Alemanha (derrota por 6-1) não aconteceu por acaso, nem, sequer, me pareceu exagerado. Afinal, ao contrário do primeiro jogo, que o Porto venceu com todo o mérito (por 3-1), a derrota em Munique ilustra na perfeição a diferença entre o futebol de topo que se pratica em Portugal e na Alemanha. Isto apesar do Bayern nunca ter estado, como é sabido, na sua máxima força (ausência de cinco titulares nos dois jogos), apesar de o Porto também ter razões de queixa (ausência de dois titulares no jogo de hoje). As coisas são o que são, e os alemães são claramente melhores do que nós. Não só no futebol, mas isso é outra conversa.
TÍTULOS QUE ME DÃO VOLTA AO ESTÔMAGO. A todos os que migram: não vos podemos deixar morrer (Paulo Rangel, Público de 21/04/2015)
COISAS QUE ME FAZEM SORRIR. Sempre que alguém entra no seu apartamento e lhe pergunta se já leu todos os livros que lá tem (cerca de 30 mil), Umberto Eco recorda: «Há três respostas. A primeira é: "Li muitos mais". A segunda é: "Não li nenhum, senão porque os guardaria?" E a terceira é: "Não, mas tenho de os ler na próxima semana".» Entrevista ao Expresso de 17/4/2015.

17 de abril de 2015

PRESIDENCIAIS AMERICANAS, PRIMEIRO ROUND. Hillary Clinton anunciou a candidatura à presidência dos EUA, e logo ressuscitou a velha pergunta: haverá, ou não, vantagens para os EUA (ou qualquer outro país) em ter uma mulher presidente? Há muito que a questão, para mim, está respondida: como voto no candidato que considero melhor, seja de esquerda ou de direita, não vejo por que motivo haveria de mudar o critério quando o candidato é mulher. Sei que muitos votarão, nas presidenciais americanas, numa mulher por ser mulher e contra ela pelo mesmo motivo, razões que hoje em dia me são incompreensíveis. As mulheres que votam numa mulher só por ela ser mulher não se distinguem dos homens que votam contra uma mulher só por ela ser mulher. Vendo bem, considerando a longa cultura machista (que não se muda de um dia para o outro ou por decreto), talvez se distingam... mas pelas piores razões.

10 de abril de 2015

INSTALAÇÕES E CONFUSÕES. Provavelmente os transeuntes tinham escassa sensibilidade (e nulo conhecimento) acerca das coisas da arte. Mas confundir uma grua que caiu em cima de um museu, ainda por cima de arte moderna, com uma instalação artística, parece-me razoável. Afinal, um acidente numa obra distingue-se basicamente de uma instalação artística por ter sido involuntário, não planeado, ao contrário da instalação artística. Esteticamente, os dois casos parecem-me muito semelhantes, e no caso que hoje se anuncia, se calhar o acidente foi, «artisticamente» falando, mais interessante que uma instalação.

7 de abril de 2015

POST PATROCINADO PELA JOHNSON & JOHNSON. Estava o meu estômago posto em sossego após digerir arrobas de encómios a propósito da morte de Herberto Helder, eis que outra se anuncia, a de Manoel de Oliveira, pelos vistos um cineasta amado pelos portugueses de Faro a Melgaço, de Díli a Newark. Quantos portugueses terão visto os filmes de Manoel de Oliveira? Quantos, vá lá, terão visto um terço dos filmes que ele fez? Eu cá só vi dois (Amor de Perdição e outro de que já não me lembro). Mas, atenção, não me gabo disso. Limito-me a constatar uma evidência, no caso a ignorância da sua obra, de que também não me orgulho. A avaliar pelo vi, não deve haver um só português que não tenha visto, pelo menos, uma dúzia de filmes de Oliveira, especialmente os derradeiros (os menos convencionais, digamos assim, que o tornaram uma lenda ainda em vida). Como é evidente, a mentira é maior que a mais extensa longa-metragem de Oliveira, e deve-se aos meios ditos culturais, que não satisfeitos em se derreterem em loas mal ele se foi, inventaram o embuste. Conhecia mal Oliveira, mas desconfio que o cineasta não apreciaria malabarismos destes. E se há coisas a que jamais me habituarei é à hipocrisia, que em doses exageradas (foi o caso) me põe o estômago em alvoroço. Se em circunstâncias normais já dependo dos antiácidos, imaginem com fitas destas.

30 de março de 2015

FILHOS E ENTEADOS. Não sei se o livro de Sócrates (A Confiança no Mundo) foi escrito por ele, nem isso me interessa. Mas, perante as notícias que põem em causa a sua real autoria (presumo que está bom de mais para ter sido escrito por ele), ocorreu-me que tal prática, a ser verdadeira, devia ser imitada por alguns dos «nossos» escritores, que deviam encomendar os seus livros a quem os soubesse, de facto, escrever. Poupar-se-iam, assim, algumas misérias em forma de livro, críticas lisonjeiras que não se percebem, embaraços aos amigos e conhecidos que, coitados, estão obrigados a dizer bem.

27 de março de 2015

DEIXEM O HOMEM EM PAZ. Não li 90% do que se já se escreveu sobre Herberto Helder após a sua morte, e não tenciono ler 90% do que ainda está para vir. Os 10% chegaram e sobraram para me deixar à beira do vómito, apesar de ter lido alguns textos excelentes. (Este, por exemplo, e uma auto-entrevista que desconhecia.) Ana Cristina Leonardo escreveu no Facebook: «As pessoas quando morrem deviam sempre deixar uma lista das criaturas proibidas de aparecer no enterro.» Eu diria mais: deviam deixar uma lista de criaturas proibidas de falar sobre o morto, especialmente quando o cadáver ainda está quente.

24 de março de 2015

HERBERTO HELDER, 1930-2015. Extracto de Os Passos em Volta, um dos livros da minha vida:
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.

Foi assim que me pus a escrever — enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia.

20 de março de 2015

NÃO ME COMPROMETAM. Já toda a gente percebeu a estratégia de António Costa: esperar que Passos Coelho e o Governo caiam de maduros. Provavelmente não haverá melhor expediente para ganhar eleições e chegar ao poder, e daí tantas vezes dizer-se que não foi fulano quem as ganhou, mas sicrano quem as perdeu. Tirando uma argolada aqui e além (o episódio dos chineses, por exemplo), o líder do PS promete tudo em abstracto, mas nada em concreto. Sempre achei que qualquer líder do PS seria melhor que António José Seguro, e que António Costa seria, de longe, melhor do que ele. Hoje, se não tenho saudades de Seguro (não sou militante do PS, nem, sequer, simpatizante), sou forçado a admitir que António Costa saiu pior que a encomenda. É previsível que um candidato a primeiro-ministro com fortes probabilidades de ser eleito tenha um discurso de meias-tintas no que toca a promessas concretas. Mas começo a fartar-me de quem não diz ao que vem, de quem não se compromete com receio de não cumprir — ou de fazer o oposto do que prometeu. Ou, o que ainda é pior, quem vê o poder não como um meio de mudar o que julga estar mal, mas como um fim em si mesmo. Isto de considerar encerrado o caso de Passos Coelho com os impostos, quando se esperaria que não ficasse satisfeito com a informação que ficou por prestar (e, se fosse caso disso, pedisse mesmo a demissão do primeiro-ministro), pareceu-me uma esperteza saloia. Imagina-se que António Costa prefere que Passos Coelho seja, nas próximas legislativas, o alvo a abater, e não outro que o viesse substituir. O primeiro-ministro está desgastado pelo poder, e o episódio dos impostos desgastou-o ainda mais — e vai, seguramente, entrar na campanha eleitoral. Foi isto, a meu ver, o que travou o líder do PS, demonstrando que politicamente é farinha do mesmo saco.
A VITÓRIA DO ACORDO ORTOGRÁFICO. A avaliar pelo que vou lendo, parece-me definitivamente perdida a «guerra» contra o Acordo Ortográfico (AO90). Não imaginam como lamento, pelas razões que já disse e repeti. E estranho que um tão grande movimento contra tamanha aberração, que reuniu centenas de milhares de assinaturas e foi objecto de discussão no parlamento, não tenha, até ver, mudado uma vírgula, e a passagem do tempo dificultará ainda mais qualquer mudança. Os anunciados exames onde a grafia «antiga» será considerada erro, é o mais forte sinal disso mesmo. É que, a partir daí, o «acordês» será irreversível.

17 de março de 2015

É SÓ FUMAÇA. O ministro Varoufakis diz estar arrependido de abrir as portas de casa à Paris Match. Não percebo porquê. Afinal, ele são os atrasos de meia-hora a reuniões importantes (onde chega seguido pelas câmaras de televisão), ele é a fralda de fora e a gravata que não usa, ele é o cachecol marca não sei quê e as golas levantadas, ele são as calças de ganga, ele é agora o dedo do meio levantado à Alemanha (que ele diz ser uma montagem mas ninguém acredita). Resumindo, o famoso «ar descontraído» do ministro grego das Finanças não passa, afinal, de exibicionismo. Sobre o que realmente importa, até ver é só parra, e nenhuma uva. Imagino, a partir do episódio da revista francesa, o sacrifício que os parceiros na Europa farão para manter a compostura (isto é, não se rirem) quando tiverem que o aturar. Sim, dantes Varoufakis inspirava não sei bem o quê, agora tornou-se risível.
ARRUMANDO PAPÉIS. «In the Soviet Union a writer who is critical, as we know, is taken to a lunatic asylum. In the United States, he’s taken to a talk show.»
Carlos Fuentes, entrevista de 1981 à Paris Review integrada no volume Latin American Writers at Work

10 de março de 2015

O PRESIDENTE DE ALGUNS PORTUGUESES. O Presidente da República tem-se distinguido por falar pouco, e mal. A última vez que abriu a boca, a propósito da embrulhada em que o primeiro-ministro se viu metido, insultou os portugueses. Passos Coelho admitiu que falhou nos impostos, que não se orgulha disso, e que não é um cidadão perfeito. E o que tem o Presidente a dizer sobre tão melindrosa matéria? Mais papista que o Papa, acha que o caso é uma questão político-partidária, pré-campanha eleitoral, um fait divers. Já estou a ver o Presidente a enfrentar os microfones para dizer, um dia destes, com o cinismo que o caracteriza, que foi mal interpretado, e que a culpa foi dos jornalistas, esses malvados, que não há maneira de perceberam o alcance das suas palavras.
COISAS QUE ME DEIXAM PERPLEXO (2). O que é uma biografia poética? Li e reli a resposta de António Cândido Franco à crítica de António Araújo (que reduziu a pó O Estranhíssimo Colosso, biografia de Agostinho da Silva editada por Cândido Franco), e fiquei sem saber. Pior: a resposta do biógrafo não desmente um só facto dos muitíssimos em que a crítica de António Araújo assentou. Se razões tivesse para torcer o nariz ao «produto» depois de ler a crítica, mais razões passei a ter após a resposta de Cândido Franco. Pelo que já aqui deixei dito, para grande pena minha.

9 de março de 2015

E DEPOIS NOTA-SE BASTANTE NOS RESULTADOS.

Lá fora, o ofício de escrever depende da planificação e do método, implica ler e estudar muito, exige passar várias horas por dia a escrever. Os escritores portugueses não vão nisso. Trabalho, aprendizagem, disciplina, esforço, estudo? Isso seria cair no óbvio e na redundância, deixar-se encurralar nos lugares comuns e no tédio das frases feitas, das fórmulas gastas.

João Pedro George, O Observador
PARA PERCEBER MELHOR AS ESQUERDAS PORTUGUESAS.

Isto é tudo muito simples. A ex-deputada do Bloco de Esquerda (BE) Joana Amaral Dias saiu do movimento Juntos Podemos (JP) para fundar o grupo Agir (A). Recorde-se que o JP era uma "plataforma de cidadãos" fechada a partidos que num ápice se transformou em partido, sobretudo por intervenção do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que dantes dava pelo nome de Ruptura/FER (R/FER) e integrava dissidentes do BE que ainda andavam pelo BE. Para início de conversa, se não se desintegrar antes, o A vai promover daqui a 15 dias uma conferência internacional em Lisboa, a qual curiosamente contará com a presença de membros do Tempo de Avançar (TA), outra candidatura cidadã que integra cidadãos dos partidos e movimentos antipáticos Livre (PL), MIC--Porto (MIC-P), Renovação Comunista (RC) e Fórum Manifesto (FM).

Não tem nada que saber. O PL é, sucintamente, aquele antigo eurodeputado do BE que se zangou com Francisco Louçã e, por honradez, abandonou o partido mas não o emprego. O MIC-P deriva regional e obviamente do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC), que por sua vez resulta da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aquela que em tempos se demarcou da formação da organização Nova Esquerda (NE), que ninguém sabe onde pára. Quanto à RC, trata-se dos dissidentes do PCP que apoiaram o PS nas "europeias". E o FM surgiu da corrente Política XXI (PXXI) que esteve na formação do BE, pelo que não deve ser confundido com o Movimento 3D (M3D), que também saiu do BE para se reunir com todas as siglas acima e falir de seguida. Pelo meio, ou por outro lado qualquer, também há o Movimento Esquerda Alternativa (MEA - antes Rupturavizela) e o MAS (antes R/FER), que podem ser ou não a mesma quadrilha. O importante é que as coisas sejam assim claras. E que a esquerda esteja unida.

Alberto Gonçalves, Diário de Notícias

6 de março de 2015

É ISTO.



Nicolau Santos, Expresso Diário de 6/3/2015

4 de março de 2015

A VIDA SÃO DOIS DIAS E TRÊS MÚSICAS. Depois de há três meses ter visto Keith Jarrett e sus muchachos (Gary Peacock no baixo e Jack DeJohnette na bateria) no New Jersey Performing Arts Center (salvo erro o quarto concerto que vi deles), voltei ontem a vê-lo, no Carnegie Hall, agora a solo, numa dúzia de peças improvisadas que, por ignorância (só me ocorrem lugares-comuns), me abstenho de comentar. Daqui a uma semana será Hiromi, em Princeton, também a solo, depois de memoráveis concertos no Blue Note (com Anthony Jackson no baixo e Simon Phillips na bateria). Isto, já agora, e com o único propósito de causar inveja a eventuais melómanos, de há um ano e pouco ter visto, pela segunda vez, John McLaughlin, também no Blue Note, desta vez com Etienne Mbappé (baixo eléctrico), Gary Husband (teclados e bateria), e Ranjit Barot (bateria). Sim, admito, sem qualquer humildade, que sou um privilegiado. Mas só de me lembrar que em pleno século XXI há gente que morre, de forma atroz, só por gostar de música, apetece-me ver, daqui a três semanas, ainda no Carnegie Hall, o Kronos Quartet, naquele que seria o meu terceiro concerto — o primeiro, salvo erro, com a «nova» violoncelista (Sunny Yang). Nao fossem as contas ao final do mês, até ver mais ameaçadoras que os jihadistas, pecaria de novo, e com todo o gosto. Isto de um dia a gente ir desta para melhor (ou para pior, consoante as opiniões), e depois não ter pecados para contrapor às virtudes, não me agrada nada. Imagino que Deus, a existir (sou agnóstico), não achará graça a quem nunca pecou, muito menos que não tenha sentido de humor e não goste de música. É que, se assim for, declaro-me, desde já, ateu.

23 de fevereiro de 2015

COISAS QUE ME DEIXAM PERPLEXO (1). Demolidora a crítica de António Araújo à biografia de Agostinho da Silva recentemente editada pela Quetzal. Pelo que lá foi dito, e não vejo como possa ser desmentido, a biografia parece estar ao nível de Fernando Pessoa: Uma quase-autobiografia, de José Paulo Cavalcanti Filho, que me preparava para ler quando alguém denunciou o embuste. Como aqui dei conta, aguardava a biografia de Agostinho da Silva (O Estranhíssimo Colosso, de António Cândido Franco) com grande expectativa. Infelizmente, ou alguém desmente António Araújo (demonstrando não serem verdadeiros os factos por ele citados), ou não vou, para grande pena minha (como já foi o caso de Pessoa), ler o livro. Diz-se que os biógrafos de um e de outro são grandes admiradores dos biografados. Imaginem se não fossem.
PROGNÓSTICO RESERVADO. Sobre a Grécia, apesar dos aparentes avanços sigo à risca o conselho de um célebre futebolista: prognósticos só no final do jogo. Mas convém lembrar uma coisa básica: a situação em que a Grécia se encontra não se deve à troika, à Europa, à sra. Merkel, ou a todos juntos. Deve-se às decisões dos seus vários governos, e à corrupção mais ou menos generalizada que não só não combateram como alegremente praticaram desde tempos imemoriais. Governos, já agora, com a mesmíssima legitimidade democrática do actual. Convém igualmente lembrar que a legitimidade do actual governo não lhe confere o direito de impor regras a quem lhe emprestou o dinheiro — regras, já agora, aceites de livre vontade por governos anteriores, igualmente eleitos. Exigir melhores condições para o pagamento da dívida significa piores condições para quem emprestou, e é bom lembrar que alguns dos credores são contribuintes. Também não aprecio que a União Europeia seja dirigida por quem tem mais poder financeiro, no caso a Alemanha. Afinal, a doutrina da União prevê que todos os países tenham pesos iguais. Mas sobra uma pergunta sobre o ódio aos alemães: por que haveriam eles de pagar os erros dos países cujos governos foram, no mínimo, incompetentes? Não imagino o desfecho do «caso» da Grécia (até ver apenas houve uma extensão de quatro meses do programa de financiamento em troca de um conjunto de propostas de reformas que deveriam ter sido apresentadas hoje mas já foram adiadas para amanhã), muito menos que solução será encontrada de modo a satisfazer todas as partes. Numa coisa, porém, estarei sempre ao lado do actual governo grego: abomino gravatas. Isto partindo do princípio de que o actual governo grego abomina gravatas, que não é uma moda que o tempo traz e o tempo leva.

14 de fevereiro de 2015

ANA GOMES E OS TIROS DE PÓLVORA SECA. Em tempos, a deputada Isabel Moreira acusou de comportamento pidesco alguém que a confrontou, numa comissão parlamentar que apreciou uma petição contra o acordo ortográfico, com uma mão cheia de incongruências (a deputada defendia o novo acordo ortográfico mas escrevia como se ele não existisse). Foi aí que tomei conhecimento da sua existência, e como então escrevi, não gostei do que vi. Mas como sempre fiz noutras ocasiões, nada me impede de sair em defesa de quem quer que seja se considerar que tem razão. É o caso na polémica com Ana Gomes. Quem já não se apercebeu que a eurodeputada passa a vida a dar tiros de pólvora seca, que invariavelmente acabam em nada? Quem já não reparou que a senhora passa a vida a pôr-se em bicos de pés, a acusar meio mundo sem que daí resulte uma só consequência? Houve corrupção no negócio que envolveu a compra de dois submarinos? É público que houve (na Alemanha houve até quem fosse condenado). Paulo Portas, então ministro da Defesa, foi corrompido? Se foi, venham evidências a sério. Não asserções absurdas, extrapolações abusivas, histórias da carochinha. Se Ana Gomes quer ser levada a sério, comece por ser séria.

13 de fevereiro de 2015

ZWEIG VINTAGE. Magnífico o livro de Stefan Zweig (O Mundo de Ontem - Recordações de um europeu), que acabo de ler. Magnífico, e muitíssimo apropriado aos tempos que correm. Gostaria, já agora, de ver em ebook a biografia de Agostinho da Silva (O Estranhíssimo Colosso, de António Cândido Franco, lançado hoje), e a História de Portugal, de Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro, e Rui Ramos.

4 de fevereiro de 2015

ISTO É INACREDITÁVEL. Um tribunal de Coimbra anulou o despacho do Ministério da Educação que introduziu a chamada Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC), obrigatória para todos os professores com menos de cinco anos de serviço que queiram candidatar-se a dar aulas. Segundo a Federação Nacional dos Professores (FENPROF), o tribunal considerou que o diploma «ofende o princípio da segurança jurídica imanente da ideia de Estado de Direito Democrático, bem como a liberdade de escolha da profissão prevista na Constituição da República Portuguesa». O mesmo tribunal considerou, ainda segundo a FENPROF, que «as qualidades profissionais» dos docentes submetidos à prova «são já previamente atestadas pelos cursos de ensino superior (...) devidamente homologados», e que a prova é um obstáculo «não expectável», imposto «ao arrepio de legítimas expectativas de cidadãos que contavam ser considerados já aptos para o exercício de uma profissão». Li com a atenção o que disse a FENPROF sobre o acórdão (e li mesmo parte do acórdão, disponível aqui), e devo dizer que todo este episódio me parece estúpido. Em que é que uma prova de avaliação «ofende» os princípios do estado de direito e a liberdade de escolha da profissão? É o candidato ao emprego quem define quem está habilitado, ou não, a exercer determinada função, ou o empregador? Não haverá aqui uma inversão de papéis? Valerá a pena dizer que o empregador tem o direito de escolher quem julga capaz e excluir quem julga não ser? Que os interessados (e respectivos sindicatos que os representam) não queiram ver isso, percebe-se. Já a justiça, espera-se que seja cega — mas não por estes motivos.

3 de fevereiro de 2015

REVISÃO DA MATÉRIA DADA. Mais de um terço dos 2490 docentes do ensino público em regime de contrato temporário com o Estado que em Dezembro último se submeteram à Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidade (PACC) chumbaram, 290 pela segunda vez. Segundo o ministro da Educação, houve professores que deram vinte e mais erros de ortografia numa só frase, coisa, na sua opinião, que «não faz sentido nenhum». Os resultados revelaram ainda que quase 20% das provas registaram cinco ou mais erros de ortografia, e que foram incontáveis os erros de pontuação, nalguns casos em situações impensáveis. É bom lembrar que o objectivo da prova de avaliação é escolher os melhores professores para as escolas públicas. Uma vez que há mais candidatos que lugares a preencher, não será justo escolher os melhores? Com certeza que escolher implica excluir, neste caso os que chumbaram. Alegam os professores e quem os representa que não precisam de avaliação, que as escolas que os formaram já o fizeram. E que a prova não serve para aferir se os candidatos são, ou não, bons professores. Discordo totalmente do primeiro motivo (a realidade acaba de demonstrar que há quem não cumpra os mínimos para ensinar), e se do segundo é previsível que a prova não seja perfeita, já vimos que todas as provas têm, para os professores, defeitos irremediáveis, e que nenhuma serve para os avaliar. Devemos, por isso, ignorar os resultados que ela revelou? De maneira nenhuma. É pura demagogia (para não dizer má-fé) dizer-se, como disse a deputada Rita Rato, que o objectivo da PACC é «achincalhar os professores contratados». A prova pretende escolher os melhores e excluir os piores, e como método não conheço melhor. Tem defeitos? Imagino que tem. Não chega, por si só, para avaliar a competência dos professores? Imagino que não. Mas começa a ser insustentável a ideia de que os professores não podem ser avaliados porque já foram avaliados por quem os formou. Como é evidente, podem, e devem. Como, aliás, a última prova bem demonstrou, e os factos têm sempre razão.
O QUE É PRECISO É MAIS LENHA NA FOGUEIRA. A avaliar pelo que se vai vendo, a estratégia da defesa de Ricardo Salgado passa por revelar informação cirúrgica, e a conta-gotas. Há uma semana, foi sobre alegados encontros com o presidente da República e com o vice-primeiro-ministro, com quem terá discutido ninguém sabe o quê. (A avaliar pelo nervosismo com que Cavaco Silva enfrentou os jornalistas quando confrontado com o tema, há razões para ficar atento.) Amanhã surgirão novos detalhes envolvendo as mesmas (ou outras) figuras do regime, que manterão os media entretidos e alimentarão a fogueira por mais algum tempo, enquanto o principal incendiário, Ricardo Espírito Santo Salgado, se vai erguendo das cinzas e se mantém afastando do lume. É público e já o disse: correm investigações sobre as actividades do Espírito Santo nos Estados Unidos, Panamá, Luxemburgo, Dubai e Suíça. Pode ser que não acabem em nada, como fatalmente acabarão em Portugal, onde quando muito haverá uma ou outra prisão preventiva (nisso somos bons), que depois, por sorte, prosseguirá com acusação — e terminará, no pior dos cenários (para o arguido), em prescrição.