8 de novembro de 2020

REGRESSO À NORMALIDADE. Esgotei o repertório sobre Trump, tantos foram os textos que escrevi contra ele. O que mais me custou nos últimos quatro anos foi ver os seus apoiantes, alguns por quem tenho respeito intelectual, mandar a decência às urtigas. Custou-me, sobretudo, ver a explicação que eu julgava coisa do passado, nunca dada mas sempre implícita: «O gajo pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta.» A grande divisão entre americanos deve-se, sobretudo, ao ainda Presidente, aos esforços constantes de pôr uns contra os outros, deitando gasolina nas fogueiras que foi ateando ou de que se foi aproveitando. Graças à vitória de Biden, o pesadelo aproxima-se, felizmente, do fim. Celebro, por isso, com grande alívio, o regresso à normalidade, e naturalmente a derrota de Trump e de tudo o que ele representa. Restam, porém, dois meses de apreensão, em que Trump continuará Presidente com plenos poderes. Que seja uma tragicomédia mais cómica que trágica.

25 de outubro de 2020

A VERDADE E A MENTIRA. Já disse e repeti que sou, politicamente, independente, por razões que também já disse e repeti. Considero-me, contudo, moderado, avesso a radicalismos de qualquer natureza, sobretudo de natureza política. Mas os tempos não estão (nunca estiveram) de feição para moderados. Hoje é tudo preto ou branco, a favor ou contra, e não há ouvidos, paciência ou tolerância para quem recusa esse quadro mental. Estamos numa espécie de regresso às cavernas do pensamento, e isso é assustador. Dizia-me alguém, apontando para um objecto, que aquilo não é mais preto, mas a cor que cada um lhe queira atribuir. É um facto que se constata quase diariamente, porque os «factos alternativos», «verdades alternativas» ou «pós-verdades» (leia-se mentiras) criam, pelo menos, a dúvida. Bem e mal informados entram, assim, no mesmo saco. A verdade e a mentira são hoje o que cada um quer que sejam, e os factos só interessam se cumprirem essa função. Chamar-lhe-iam louco a quem previsse, há dois ou três anos, uma coisa destas, o que demonstra bem que os acontecimentos são mais imprevisíveis que as profecias melhor fundamentadas.

5 de outubro de 2020

ESCOLHER A DECÊNCIA. Joe Biden não arrebata multidões, e por vezes é-me difícil não adormecer quando o ouço. Kamala Harris, candidata a vice, também não me entusiasma. Mas ambos têm, para mim, o essencial: são pessoas decentes, disputam o lugar de Trump e de Pence, e contra Trump e Pence não se pode exigir muito. A questão das presidenciais americanas de Novembro não é entre republicanos e democráticos, embora também. É, essencialmente, entre a decência e a falta dela. Reparem na quantidade de republicanos que votarão Trump em Novembro, e como alguns dão mesmo a cara pelo adversário. Verdade que sempre houve quem, liberal ou conservador, em determinado momento escolhesse o outro. Mas isso foi no tempo em que a política era a cores. Hoje é quase só preto e branco, a decência conta pouco e até se faz gala disso. É possível, contudo, travar a espiral de loucura, dando uma vitória clara ao candidato democrático antes que as coisas vão longe demais. Trump já avisou que não aceitará os resultados caso perca. Porque se perder, diz ele, foi porque houve fraude (a questão não se porá se ganhar), e agora, infectado pelo vírus que já matou mais de 210 mil norte-americanos, grande parte por culpa dele, a situação tornou-se ainda mais volátil, introduzindo um novo factor de surpresa cujo alcance ninguém parece em condições de avaliar. Votar contra Trump é, no entanto, o mínimo que se pode fazer para que não se entre por um caminho irreversível, e não me parece que seja preciso dizer que caminho será esse.

29 de setembro de 2020

UMA ESPÉCIE DE BOMBA ATÓMICA. Para quem não lê inglês, ou não tem paciência para ler um texto que demora uma boa meia hora a ler, o NY Times revelou, domingo, basicamente o seguinte: o Presidente Trump pagou 750 dólares de impostos federais no ano em que conquistou a presidência (2016), e o mesmo montante no primeiro ano na presidência (muito menos que um trabalhador por conta de outrem pertencente ao escalão mais baixo). Depois, não pagou impostos em 10 dos 15 anos anteriores, alegando mais perdas que ganhos. Diz mais o Times: o alegado sucesso de Trump nos negócios é pura ficção (uma investigação do jornal USA Today já o tinha demonstrado há mais de dois anos), e tem uma dívida de mais de 400 milhões de dólares que vai ter que pagar nos próximos quatro anos, circunstância que o coloca à mercê dos credores — todos, ou quase todos, estrangeiros, o que levanta preocupações ao nível da segurança do país. Promete mais o diário nova-iorquino sobre os impostos do Presidente, mas isto chega para dizer duas coisas: não haverá explicação de Trump ou dos seus advogados capaz de convencer que não houve aqui vigarices — e das grandes; dizer que a história do Times é falsa, como dizem Trump e os seus advogados, é fácil e barato, mas só funciona para quem for mais trumpista que Trump.

15 de setembro de 2020

OU O PODER, OU A CADEIA. Donald Trump sabe melhor que ninguém que se perder em Novembro pode acabar na cadeia. Resta-lhe, por isso, apostar num cenário catastrófico: ou ele, ou o apocalipse. Muito pior: interessa-lhe criar o caos para depois aparecer como o presidente da «lei e da ordem», o último slogan da sua campanha. Os manifestantes contra o racismo e a violência policial são radicais perigosos. Os seus apoiantes que os combatem, com armas de guerra e matando, são patriotas. É isto o que o sujeito diz e repete. Em vez de reconciliar os desavindos, como faria qualquer presidente, faz os possíveis para os manter desavindos. Porque suspeita, a meu ver com razão, que o caos o beneficiará em Novembro, apesar de toda a violência de que se queixa ocorrer durante o seu mandato como Presidente — logo ele ser o primeiro responsável. Escrevi ainda antes de Trump ser eleito que o sujeito era perigoso. Mas hoje, quatro anos volvidos, demonstrou-se que é mais perigoso do que eu pensava. Como sabe que os sarilhos em que entretanto se meteu podem ter um desfecho cruel caso não seja reeleito, não hesitará em fazer o que for preciso para salvar a pele. E o que for preciso, para ele, inclui o pior que possam imaginar.

2 de setembro de 2020

CALIXTOS HÁ MUITOS. A morte de 18 idosos no lar de Reguengos de Monsaraz em circunstâncias não inteiramente esclarecidas colocou, a reboque do caso, de novo na ribalta o poder local. Os jornalistas que lá foram investigar a ocorrência descobriram que José Calixto, presidente da autarquia local, ocupa pelo menos 13 cargos, incluindo o de presidente da fundação do lar onde a tragédia ocorreu, e o assunto voltou a ser questionado. Calixto, uma espécie de senhor feudal lá do sítio, ocupa todos estes cargos graças ao partido a que pertence, o PS, e os que não ocupa são ocupados por companheiros do mesmo partido. Como é sabido, as autarquias locais estão cheias de calixtos. Do PS e do PSD, mas também do PC e, talvez, do CDS. Como raramente são escrutinados (a imprensa regional vive refém das receitas das autarquias e a imprensa nacional não presta atenção às regiões), grande parte das autarquias funciona em roda livre, sem qualquer escrutínio, e quem abrir a boca contra o poder instalado arrisca perder o emprego, próprio ou de um familiar, e o jornal local o mais certo é fechar. Gostaria de pensar que este cenário só se aplica a um caso ou outro, mas sabemos que não é assim. Não creio, já agora, que a regionalização, de que se recomeçou a falar, resolveria o problema. Antes pelo contrário. Agravá-lo-ia, e muito.

23 de agosto de 2020

E VÃO DEZ. Com a prisão de Steve Bannon, acusado de fraude e desvio de dinheiro proveniente de uma agremiação filantrópica (sem ironia) que angaria fundos para construir um muro na fronteira dos EUA com o México, aumentou para 10 o número de acusados de crimes vários no círculo do chefe — alguns já a cumprir pena, outros já condenados, outros ainda em vias disso. O lunático que até há pouco comandou o Breitbart News, site da extrema-direita especializado em títulos incendiários de carácter racista, anti-semita e misógino, e que depois de corrido pelo chefe foi para a Europa pregar, sem sucesso, a revolução, e tentar, também sem sucesso, vigarizar o governo italiano com o aluguer de um mosteiro, mostrou que é humano, demasiado humano. Agora só falta o chefe, mas quem esperou até agora consegue esperar mais um tempo. Cada vez é maior a lista de vigaristas e outros patifes de que o chefe, personagem inverosímil até do mais medíocre dos romances, se rodeou para tomar o poder. Sim, o chefe de que falo, que se apressou a dizer, mal soube da prisão do arquitecto da sua campanha presidencial de 2016, que se sentia «muito mal» (recorde-se que o chefe o despediu e o despedido escreveu um livro onde disse do chefe o piorio), e que no mesmo dia manifestou simpatia por uma seita de doentes mentais que dá pelo nome QAnon (que o FBI considera fonte potencial de terrorismo doméstico), é esse mesmo que estão a pensar. Aposto que a prisão do sujeito lhe vai causar pesadelos.

18 de agosto de 2020

VIVO E DE BOA SAÚDE. Não sou ingénuo a ponto de pensar que o jornalismo e os jornalistas são um mundo de virtudes, que não cometem erros e pecados, por vezes grosseiros. Mesmo o jornalismo e os jornalistas sérios, e não me refiro ao jornalismo que se engana, corrige o erro e se penitencia. Refiro-me ao jornalismo que tem uma agenda para lá dele, que se dispõe a contar os factos de modo a construírem a narrativa que mais lhe convém. Mas também não sou ingénuo a ponto de pensar que isto é prática corrente. Muito pelo contrário. É graças ao jornalismo e aos jornalistas que em democracia sabemos o que se passa, apesar de o poder do dia, mesmo o poder democrático, fazer os possíveis e os impossíveis para mostrar o que lhe interessa e esconder o que não lhe interessa — e em alguns casos chegar a intimidar quem se atreve a incomodá-lo. Dito isto, o jornalismo e os jornalistas não são heróis. Fazem o que lhes compete fazer, embora por vezes heroicamente. Nunca foi — nunca será — fácil fazer jornalismo (diria jornalismo a sério não fosse uma redundância), porque fazer jornalismo tem custos, por vezes demasiado altos — como ser votado ao ostracismo, o despedimento, a prisão, por vezes a morte. Como jornalista num jornal despretensioso, nunca estive exposto a estes cenários. Talvez por isso admire tanto os jornalistas que arriscaram — e continuam a arriscar — fazer jornalismo apesar dos constrangimentos. Não são poucos, e é graças a eles que o jornalismo está melhor que nunca. Se os jornais estão numa agonia sem fim à vista, nunca o jornalismo esteve tão vivo, apesar de se ver obrigado a competir com o falso jornalismo que prolifera nas redes sociais que tantos levam a sério.

30 de julho de 2020

O GÉNIO DO MAL. Falhada a tentativa de multiplicar os protestos violentos resultantes do assassinato de um afro-americano por um polícia branco, de modo a legitimar uma intervenção federal musculada, o Presidente americano repetiu a receita, desta vez enviando agentes federais para algumas cidades onde os protestos ainda decorrem. Como Trump pretendia, a situação não só piorou como alastrou a outras cidades (onde os protestos já tinham acalmado) — todas, por sinal, e não por coincidência, dominadas pelo Partido Democrático. O ponto de Trump é abrir caminho à tomada de medidas excepcionais que possam inviabilizar as presidenciais de Novembro em locais tradicionalmente dominados pelos democráticos — accionando mecanismos que dificultarão o acesso dos eleitores às urnas, generalizando as suspeitas de fraude, criando o caos a que só ele, Presidente, poderá pôr fim. Como todas as sondagens indicam que perderá em Novembro, incluindo as sondagens dos «amigos» da Fox News e muito por culpa da forma criminosa como lidou — e continua a lidar — com a pandemia de coronavírus, resta-lhe, a seu ver, este caminho. Pelos vários crimes de que é suspeito, por enquanto sem acusação formal por Trump ser quem é, o Presidente corre o risco de acabar na cadeia caso não seja reeleito. Sim, na cadeia, e só surpreenderá quem anda muito distraído. Donald Trump está, por isso, disposto a fazer tudo o que for preciso para vencer, e o tudo incluirá não só a sujeira a que já nos habituou mas outros esquemas mais preocupantes — e, pior, muito perigosos. Oxalá me engane.

17 de julho de 2020

A TERRA NÃO É REDONDA. Os americanos discutem pelo menos há três meses se as máscaras são, ou não são, uma forma eficaz de evitar a propagação do coronavírus. Não porque a comunidade científica tenha dúvidas, mas porque uns quantos indivíduos, emulando o idiota que mora na Casa Branca, decidiram não usar máscara porque sim, politizando um assunto consensual entre os especialistas — e, se virmos bem, do senso comum. (O idiota mudou o comportamento nos últimos dias, numa tentativa, tardia, de acertar o passo, até porque grande parte dos seus apoiantes está a apanhar por tabela.) Estamos, portanto, à mercê dos sujeitos que não usam máscara, mesmo em situações em que a lei os obriga. Porque a obrigatoriedade da máscara viola os direitos dos sujeitos, dizem eles, e os direitos dos sujeitos podem, pelos vistos, violar os direitos dos outros — dos que a usam e não querem ser infectados, e porque ter direitos pressupõe ter deveres. Tudo isto porque o idiota-em-chefe fez os possíveis e os impossíveis para instalar a dúvida no rebanho, sempre predisposto a acreditar no que ele diz e a engolir as suas patranhas. A ignorância (ou cegueira, ou o que for) impede-os de enxergar o que está diante o nariz, e o resultado está à vista: comparado como o resto do mundo, os EUA estão, nesta matéria, ao nível do terceiro mundo. Fosse eu um homem de fé e estaria a rezar para que o idiota apanhasse um susto a sério, embora duvide que aprendesse alguma coisa com isso.

26 de junho de 2020

MODINHA DOS COBARDES. Tirando os dois ou três do costume, os congressistas republicanos não abrem a boca sobre o comportamento de Trump. Nem para apoiar, nem para condenar. Quando seria de esperar que se pronunciassem sobre as acções do Presidente, até porque foram eleitos para dizer o que pensam sobre as acções do Presidente, os sujeitos permanecem mudos e quietos, e fogem dos jornalistas como o diabo foge da cruz. Mesmo dos jornalistas amigos da Fox News, da Breitbart e da One America. «O último tuíte? Não vi.»; «Vi mas já não me lembro.»; «Não costumo prestar atenção aos tuítes do sr. Presidente.». Etc. etc. Se isto não é cobardia, e não só cobardia política, então é o quê? Os republicanos com assento nas duas câmaras do Congresso são cúmplices de Trump, de quem não se atrevem a discordar por medo de perder o emprego. É verdade que nos últimos dias alguns se afastaram de Trump quando Trump defendeu que o antecessor devia ser julgado por traição (não apresentou qualquer evidência que fundamentasse a acusação) e quando acusou um manifestante de 75 anos, de novo sem fundamento, de ser membro da Antifa. Mas isso não explica o silêncio a que se devotaram, e ainda menos a cumplicidade activa diante as poucas-vergonhas do Presidente. Isto para não falar da coluna vertebral, que a generalidade dos políticos não tem — e os republicanos são, de momento, o melhor exemplo.

2 de junho de 2020

O INCENDIÁRIO. Donald Trump nunca perde uma oportunidade de atirar mais lenha para a fogueira do ódio. Agora devido aos distúrbios de Minneapolis resultantes da morte de um afro-americano sob custódia policial, que rapidamente alastraram a dezenas de outras cidades. Em tom de desafio, o Presidente começou por escrever, no Twitter, que mandaria disparar contra os «bandidos» que se envolvessem em distúrbios, nos dias seguintes prosseguiu de igual modo, e ontem insultou os governadores que, na sua opinião, não estão a fazer o que devem de molde a pôr fim à violência. Como não bastasse, montou circo na Casa Branca, e depois, numa igreja lá perto, insultou quem quis apoiar, embora imagine que os evangélicos e outras pessoas de fé sejam mais inteligentes do que Trump supõe. Em vez de fazer os possíveis e os impossíveis para acalmar os ânimos e pôr fim à violência que varre o país, como seria de esperar de um chefe de Estado, o Presidente ameaçou com ainda mais violência. Trump não é, obviamente, o único responsável pela violência racial. Mas é-o, em grande medida, por acção e omissão. Acusar a esquerda radical pelos distúrbios (não havia evidências até à hora a que escrevo) sem dizer uma única palavra sobre a direita radical (há indícios de supremacistas brancos infiltrados nas manifestações), é pôr mais água na fervura. Valha a verdade que não se esperaria outra coisa do «valentão» que mora na Casa Branca, que cobardemente correu para o bunker mal lhe cheirou a pólvora (ele é mais pólvora retórica). Afinal, a única preocupação do sujeito é ser reeleito em Novembro, e para que isso suceda os fins justificam os meios. Como está convencido, talvez com razão, que o clima de confronto o beneficia, dispõe-se a tudo para que isso aconteça. Afinal, há quem se reveja nos comportamentos do Presidente, mesmo nos comportamentos mais censuráveis. Depois há o racismo, o supremacismo branco e outros ismos, que com Trump no poder nuns casos ganharam fôlego, noutros saíram da clandestinidade — para gozo, lamento dizê-lo, da maioria que o apoia.

14 de maio de 2020

OS FACTOS NÃO INTERESSAM. Vi num canal de televisão um repórter confrontar um «popular» com os factos e este responder-lhe que os factos não interessam. A surpresa foi a candura com que o sujeito o disse, como se fosse óbvio e a coisa mais natural do mundo. Ironicamente, nunca como hoje tivemos tanta informação e tantas formas de verificar a sua credibilidade. Mas a grande maioria (creio que é a maioria) só está disponível para acreditar no que lhe convém, pelo que os factos só interessam se cumprirem essa função. Estamos, por isso, num ponto que nunca julguei possível: depois dos «factos alternativos», que pretendiam demonstrar que havia «outros factos» para além dos factos propriamente ditos, os factos não interessam. A «verdade» é o que cada um quer ouvir, e tudo o resto são «fake news». Milhões de pessoas a dizer que a Terra não é redonda não a tornam plana. Mas é assustador.

7 de maio de 2020

AI BRASIL. Quem acompanha, mesmo que por alto, o que politicamente se passa nos EUA e no Brasil, chega a ser reconfortante ver o que se passa nos EUA, por comparação com o Brasil um país a funcionar normalmente. Apesar dos malabarismos de Bolsonaro serem em tudo parecidos com os de Trump, a realidade no terreno mostra que se é preocupante nos EUA é aterradora no Brasil. Não só por causa do modo criminoso como ambos estão a lidar com o coronavírus, mas porque o presidente brasileiro chega a participar numa manifestação onde se pede a dissolução do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e como não fosse bastante o regresso dos militares ao poder. Tudo porque o clã Bolsonaro (o Presidente e os filhos Carlos e Eduardo, respectivamente vereador e deputado) é alvo de toda a espécie de suspeitas, incluindo de crimes de sangue, cujo desfecho se adivinha explosivo. À hora a que escrevo, o ex-ministro da Justiça, demissionário por discordar do afastamento do director-geral da Polícia Federal, alegadamente por se recusar a pôr o Presidente ao corrente das investigações que envolvem os filhos e aliados (e já substituído por um amigo da família), depõe na Polícia Federal sobre o caso, de que diz ter provas. A ser verdade o que diz o ex-ministro Sergio Moro, e a confirmarem-se as suspeitas de que o clã Bolsonaro é suspeito, o Brasil caminha para um no impeachment ou pior. O ministro da Defesa fez saber, nos últimos dias, que as Forças Armadas estão comprometidas com a democracia, ao lado da lei, da ordem e da liberdade. Como suspeito que o aviso foi mais para dentro que para fora, tenho dúvidas.

25 de abril de 2020

É SIMPLES. Não há comemoração oficial do 25 de Abril de 74 que não esteja envolta em polémica. Este ano por causa do coronavírus, que desaconselha ajuntamentos e alguns não querem ver na Assembleia da República alegando este motivo, e outros querem por outros motivos. O problema, como sempre, é a data que se pretende comemorar, que uns querem, outros não. Já dei para este peditório pelo menos uma dezena de vezes. O 25 de Abril de 74 pôs fim a uma ditadura, e como abomino ditaduras, é motivo para comemorar. É verdade que a coisa ia dando para o torto, mas o 25 de Novembro de 75, outra data a comemorar, evitou o pior, e o pior seria nova ditadura. Isto, 25 de Abril e 25 de novembro, são, para mim, datas essenciais, como tal comemoráveis. O resto são detalhes.

24 de abril de 2020

O MATA-BICHO. Para quem pensa que Trump bateu no fundo, o sujeito demonstra diariamente, agora nos briefings sobre o coronavírus, que o fundo não tem fim à vista. Não fosse trágico (e criminoso), os malabarismos do sujeito seriam apenas hilariantes, talvez embaraçosos para os mais crentes. Ontem sugeriu tratar o vírus injectando desinfectante, raios ultravioleta e o mais que não percebi (não é fácil percebê-lo mesmo quando fala do que sabe), levando a comunidade científica, que Trump ostensivamente despreza, a demarcar-se de imediato, dizendo com todas as letras que a sugestão de Trump foi irresponsável e perigosa. Depois de ter recomendado um remédio usado para combater a malária como sendo eficaz para combater o vírus (mesmo depois de ter sido rejeitado pelos médicos), o idiota vem agora com a mezinha que promete matar o bicho. Que mais será preciso para accionar a 25ª Emenda da Constituição e correr com ele da Casa Branca? Que mais será preciso para demonstrar que o sujeito não está bom da cabeça? E onde estão os republicanos, incluindo os que terão coluna vertebral? Quando deixarão eles de se esconder debaixo das secretárias?

11 de abril de 2020

UM MAL NUNCA VEM SÓ. O presidente Trump procura, desesperadamente, livrar-se das culpas que lhe cabem, apesar de todos sabermos como ele ignorou, criminosamente, os avisos do seu próprio governo. Sabemos hoje que Trump ignorou informação dos serviços de intelligence, em Novembro e Dezembro do ano passado (as «secretas» alertaram-no para o facto de o coronavírus estar a espalhar-se rapidamente na região chinesa de Wuhan, avisando para uma situação potencialmente catastrófica), e já em Janeiro e Fevereiro deste ano o seu próprio gabinete alertou-o para uma provável pandemia, que poria em risco a saúde e a vida de milhões de norte-americanos. Como também sabemos, Trump dizia, por essa altura, já com mortos no terreno, que o coronavírus não passava de um simples vírus como tantos outros e aconselhava os seus concidadãos a viver como habitualmente, queixando-se de que tudo o que se dizia não passava de uma mistificação criada pelos opositores, um exagero dos media destinado a lesar-lhe a reputação. Agora, depois de mais de quase 19.000 mortos só nos EUA, Trump insiste em vender-nos um medicamento que lhe foi impingido pela Fox News e que os médicos rejeitam (provocando uma escassez no mercado para quem dele necessita, porque Trump comprou 29 milhões de unidades), e acusa a Organização Mundial de Saúde (OMS) de não o ter alertado a tempo, apesar de Trump ter continuado com a mesma bazófia já depois de a OMS ter declarado a pandemia. Como já vimos noutras situações, imagino que Trump sairá incólume de mais esta, senão mesmo por cima, porque a OMS, o bode expiatório caído do céu, não vai entrar em guerra com ele, logo ficará a suspeita que foi a OMS a culpada. E porque, lamento dizê-lo, a sua base de apoio já demonstrou vezes sem conta que come tudo o que ele diz, mesmo as mais rematadas mentiras. Dirão alguns que não perco uma oportunidade para atacar o sujeito. Pelas oportunidades que deixo passar, acho um exagero. A verdade é que Trump não perde uma oportunidade para falhar miseravelmente. Nem sequer é capaz de mostrar empatia com quem sofre, o mais elementar princípio de qualquer ser humano.

26 de fevereiro de 2020

AVENTURAS PERIGOSAS. Um professor escreveu, no Público, a propósito do caso Marega, que «a máscara [de André Ventura] vai caindo e mostrando o racista, xenófobo, oportunista e populista» que ele é. O problema é que o deputado do Chega sobe fortemente nas sondagens à medida que vai deixando cair «a máscara», como diz o professor, embora me pareça que Ventura nunca tenha escondido ao que vem. Também não acho que os media lhe dêem demasiada atenção, como se diz por aí. Dando-lhe espaço, os media evitam que a cartilha passe apenas pelas redes sociais, onde se dizem as maiores barbaridades impunemente e sem contraditório. Fazer de conta que Ventura não existe é pior que dar-lhe exposição, mesmo que demasiada. Como se viu com a reacção do sujeito à proposta da deputada Joacine Katar Moreira (o deputado do Chega disse que Joacine devia ser devolvida à origem, Guiné-Bissau, quando esta defendeu que Portugal devia devolver às ex-colónias o património que será das ex-colónias), o sujeito usou o caso para estimular os seus apoiantes e simpatizantes e promover a agenda que, com grande sentido de oportunidade, resolveu abraçar, apesar de pouco tempo antes pensar o contrário — e isto é demasiado sério para se ficar por discussões de Facebook e afins. O racismo existe, e em vez de Ventura o reconhecer e combater (como se esperaria de um deputado), há que alimentá-lo para servir a sua cruzada. Joacine Katar Moreira, já agora, começou por ser um desastre, e agora tornou-se um embaraço até para quem não votou nela. Mas nada disso justifica a «ironia» com que Ventura resolveu brindá-la. O líder do Chega sabia bem como a suposta «ironia» seria interpretada pelos seus apoiantes e simpatizantes, e por isso não hesitou em usá-la. Como não hesitou em dizer que não viu insultos racistas a Marega quando toda a gente viu o contrário.

7 de fevereiro de 2020

A FARSA DOS COBARDES. Confirmou-se a farsa anunciada: o Senado americano, de maioria republicana, fez ouvidos de mercador (recusou-se a ouvir testemunhas cruciais que poderiam ter mudado o desfecho do processo de impugnação), e depois votou pela não destituição do presidente Trump. Quem não viu que Trump tentou chantagear o presidente ucraniano só pode ter sido porque não quis ver — e quem acha que o crime de que foi acusado não foi motivo bastante para o afastar da presidência jamais encontrará motivo bastante. Quem tomou conhecimento das evidências que foram surgindo viu que a acusação é cristalina e devidamente fundamentada, pelo que insistir que não houve nada, só quem está mal-informado ou mente descaradamente. As acusações que são feitas a Donald Trump não são matéria de opinião: são factos comprovados por testemunhas credíveis e às quais poderiam juntar-se outras mais que os republicanos não quiseram ouvir, porque os republicanos no Senado sabiam que as testemunhas iriam prejudicar Trump e eles, senadores republicanos, têm medo de Trump. Preocupados com os lugares que vão disputar em próximas eleições, os senadores republicanos preferiram acobardar-se a levar com a ira com que Trump iria brindá-los caso se atrevessem a contrariá-lo, como já se viu com o senador Mitt Romney, que teve a coragem de votar segundo a sua consciência e já está a pagar as consequências. É a democracia, dirão, o pior regime excluindo todos os outros. Sim, é a democracia no que tem de pior. É o regime que hoje se combate abertamente, que tem vindo a ser minado por ditadores e candidatos a ditadores diante a impotência de uns, a indiferença de outros e o aplauso geral de quem vê o mundo a preto e branco, dos que acreditam em soluções simples para problemas complicados e que por isso alimentam os evangelistas do ressentimento e os pregadores do ódio.

31 de janeiro de 2020

OS BOIS PELOS NOMES. Talvez por ser independente, nunca percebi os motivos de tanto ódio ao ex-presidente Obama. Tudo de que o acusam e é verdadeiro (a maior parte das acusações são falsidades) não me parece bastante para tanto ódio, extensivo, também, à ex-primeira dama. Que não se goste de Obama, é normal. Que se pense politicamente de modo contrário, normalíssimo. Que se pertença a uma força política que se lhe opõe, faz parte de uma democracia saudável. Mas odiar, confesso que não vejo porquê. A não ser porque Obama é negro (ou de cor, ou afro-descendente, ou afro-americano), e como não fosse bastante, não foi uma tragédia eleger um presidente negro. Sim, tanto ódio não fundamentado só pode ser racismo, neste caso de brancos contra negros (também há de negros contra brancos), essa praga que ainda nenhum remédio foi capaz de erradicar. Claro que, tirando os supremacistas brancos, que os há mais do que parece, a maioria dos racistas não se assume como tal. Porque nalguns casos a lei o impede, por ser publicamente condenável, pela correcção política, por mera cobardia. Mas, sobretudo, porque não têm um único argumento que sustente a superioridade de uma raça sobre outra.

15 de janeiro de 2020

A FARSA. Com que argumentos pode um tribunal, mesmo que meramente político, rejeitar o testemunho de alguém que teve conhecimento directo sobre o que está a ser julgado? Até à hora em que escrevo, nem um para amostra. Mas o Senado americano decidiu, mesmo assim, que o julgamento de Donald Trump não terá testemunhas, porque os republicanos mandam no Senado e não querem que o povo americano saiba o que realmente se passou. Os republicanos com assento no Senado querem, apenas, inocentar o Presidente, e quaisquer factos que contrariem esse desígnio não interessam. Escusado será dizer que um julgamento que não permite a audição de testemunhas, ainda por cima testemunhas cruciais, com conhecimento directo do sucedido e prontas a dizer o que sabem, não é um julgamento: é uma farsa, um insulto à inteligência do comum dos mortais. Se isto é possível num país tão elogiado pela eficácia do seu sistema de freios e contrapesos, mas que não consegue punir crimes políticos mesmo com provas para todos os gostos, rezem aos santinhos pela democracia.

10 de janeiro de 2020

JOACINE E O OPORTUNISMO. Posso estar enganado, mas o Livre viu nas características pessoais de Joacine Moreira (mulher, negra, gaga) uma oportunidade de eleger um deputado que de outro modo não conseguiria, e Joacine percebeu que estava a ser um instrumento desse jogo — ou então aproveitou o jogo para impor as suas regras, reclamando que venceu as eleições graças à sua pessoa e só a ela. Mas não é isto o que aqui me traz. A gaguez da senhora merecia, por si só, um debate — que ninguém quer, mas que valia a pena fazer. Porque suspeito que é necessário ter uma altura mínima para ingressar na Marinha, que os obesos (espero que não seja ofensivo chamar obesos a quem tem excesso de peso) não se metem a praticar ballet e que quem não joga futebol não se candidata a ponta-de-lança do Real Madrid, suspeito, igualmente, que nunca terá passado pela cabeça de Joacine candidatar-se ao festival da canção — e todas estas obviedades mereciam reflexão. Mas como dizer isto sem ser logo considerado racista, misógino, preconceituoso? Como se viu pelas reacções de desagrado aquando da tomada de posse de Joacine, é praticamente impossível. O que foi visto por uns como puro circo (foi penoso de ver o assessor vestido de mulher), foi visto por outros como um momento corajoso, talvez mesmo histórico. Escusado será dizer que cenas destas só contribuem para debilitar ainda mais a já tão debilitada democracia, e que apenas servem para dar munições a trumps e bolsonaros. A Esquerda rala-se tanto com o acessório que esquece o essencial. E o essencial são as causas de todos, ou as causas da maioria, que hoje, por não se sentir representada, vai caindo nos braços de quem ainda ontem era o inimigo.

28 de dezembro de 2019

DA DECÊNCIA. O meu problema com Donald Trump não é ele ser republicano ou democrático, conservador ou liberal (no sentido americano). O meu problema é a decência, que ele não tem, nunca teve e nunca terá. Depois é a admiração que ele tem por ditadores como Putin, Erdogan ou Kim Jong-un, que inveja por não ter o poder que eles têm — e eu abomino ditadores. Terceiro, é um mentiroso como nunca se viu (mais de 15 mil mentiras desde que entrou na Casa Branca, segundo o Washington Post). Quarto, porque é racista, provavelmente supremacista branco (tem um supremacista branco no seu gabinete), misógino até à náusea. Tem, por último, um problema mental (a hilariante «teoria do vento» é só o último exemplo), que ninguém se atreve a diagnosticar — porque a saúde do Presidente é hoje mais do foro político que do foro clínico, e não há quem esteja disposto a arruinar a reputação. Mas alguma coisa parece estar a mudar. Multiplicam-se, à hora a que escrevo, sinais de oposição a Trump dentro do eleitorado tradicionalmente republicano. Primeiro foram os evangélicos (as várias correntes evangélicas começaram a guerrear-se por causa de Trump), agora é um grupo republicano que colocou anúncios no «coração» trumpista, a Fox News, exigindo ao Senado que não transforme numa farsa o julgamento a que Trump vai ser sujeito, e está a usar outdoors para questionar a idoneidade do Presidente. Não se pode, portanto, dar por adquirido que o julgamento sejam favas contadas para o Presidente, como ainda há pouco se previa. O que já se vai insinuando pode muito bem ser o princípio do fim da paz podre que reina à volta de Trump, a que vêm juntar-se as teorias mirabolantes do caquético Giuliani, advogado de Trump, que de tão mal-amanhadas já nem os crentes convencem.

20 de dezembro de 2019

TRUMP E A RÚSSIA. Vladimir Putin garantiu a Donald Trump, na cimeira de Helsínquia, que não interferiu nas Presidenciais americanas de 2016, e Trump fez questão de acreditar no ditador russo e desacreditar todas as agências governamentais americanas (19) que afirmam o contrário. Agora, o mesmo Vladimir Putin veio dizer publicamente, como se o assunto lhe dissesse respeito, que não havia motivo para a impugnação de Trump, acusado de condicionar uma ajuda militar à Ucrânia (para se defender dos russos) à abertura de uma investigação destinada a liquidar o potencial adversário às eleições de 2020 (Joe Biden). Confirma-se, portanto, a conjugação dos astros: todos os caminhos do Presidente americano vão dar à Rússia.

17 de dezembro de 2019

E VÃO SETE. Não restava ao Partido Democrático alternativa que não fosse impugnar o Presidente Trump. Independentemente das perdas ou ganhos que venha a ter, difíceis de avaliar neste momento, deixar correr seria um precedente grave, e mesmo que o Senado não o destitua, não torna a impugnação inconsequente ou menos importante. Há razões de sobra para impugnar e, depois, destituir o Presidente, e se estivéssemos a falar de um crime cometido por uma pessoa, digamos, «normal», Trump estaria, há muito, na cadeia. O inquilino da Casa Branca é um sujeito perigoso, e até os duros de ouvido, leia-se os que só ouvem o que lhes convém, acabarão por admitir, nem que seja para eles próprios. Rick Gates, ex-vice-presidente de campanha de Trump, foi hoje mesmo condenado a mês e meio de cadeia por irregularidades cometidas nessa mesma campanha. É o sétimo do círculo próximo de Trump a conhecer a cadeia. Repito: o sétimo. Uns já lá estão, outros já lá estiveram, outros para lá irão. Um poço de virtudes, como Trump se reclama e os duros de ouvido aplaudem, não se rodeia de gente desta.

11 de dezembro de 2019

OS FILHOS DA OUTRA. Retomando o que já é uma tradição, o Nobel da Literatura deste ano ficou envolto em controvérsia. Porque o premiado apoiou, na Guerra dos Balcãs, Slobodan Milosevic, acusado de genocídio. Jennifer Egan, vencedora de um Pulitzer e actual presidente do PEN America, repudiou a escolha de um escritor que «persistentemente colocou em dúvida crimes de guerra minuciosamente documentados». O escritor britânico Hari Kunzru diz que Peter Handke sofre de «uma cegueira ética alarmante». Joyce Carol Oates acusou a academia sueca de ter mais simpatia pelos verdugos que pelas vítimas, e o filósofo esloveno Slavoj Zizek escreveu que foi eleito «um apologista de crimes de guerra». O Times de Londres escreveu, em editorial, que a escolha do austríaco foi «um insulto às vítimas do genocídio». Aleksandar Hemon, escritor de origem bósnia, diz que Handke é «o Bob Dylan dos negacionistas do genocídio». Também houve elogios, mas poucos. O crítico literário Denis Schek afirmou que o prémio foi uma bofetada na correcção política, e houve quem dissesse, sobre o conflito ex-Jugoslávia, que o nobelizado esteve do lado certo da história. Sem surpresa, houve protestos na cerimónia de entrega do prémio, depois da inevitável petição online para revogar a decisão. Como é óbvio, discordo dos pressupostos dos que discordam. Não que me seja indiferente que o escritor tenha apoiado gente da pior espécie, mas a obra literária que ele produziu, que desconheço, não deve ser enaltecida — ou denegrida — porque o autor é um canalha ou um santo. Se o prémio se destina à literatura, premie-se a literatura — e a literatura, como é sabido, está cheia de grandes livros escritos por grandes canalhas, que não se recomendam como seres humanos mas se recomendam como escritores. Mas se afastarmos as obras dos canalhas, sobra quem? Alguns, com certeza, mas desconfio que não muitos. Miguel Esteves Cardoso disse numa entrevista à revista Ler: «Se tirarmos os filhos da puta da literatura e da pintura ficamos com nada. Se se tirarem os bêbados fica-se com zero. Se deixarmos só os livros feitos por pessoas que se portavam bem, tratavam bem a mulher, eram bons amigos e pagavam as contas a horas, ficamos só com merda.» É isto.

7 de dezembro de 2019

A FEZADA DO CLIMA. Apesar de não se falar doutra coisa, as alterações climáticas continuam a ser uma questão de fé: uns crêem, outros não. De ciência fala-se pouco, e quando se fala, duvida-se muito. Com razão. Porque os próprios cientistas parecem mais interessados em passar as suas opiniões que em demonstrar as evidências científicas — ou ditar as suas opiniões sem as fundamentar cientificamente. Por isso estamos onde estamos: de um lado, os que garantem estarmos diante uma catástrofe iminente; do outro, os que acham que tudo não passa de um embuste. Paradoxalmente, Greta Thunberg, o principal rosto do activismo pelo clima, também não ajuda. A ignorância própria da idade e o oportunismo à volta dela confundem mais que esclarecem, e no final ganham os incréus.

29 de novembro de 2019

LULA. Não celebro, nem lamento, a libertação de Lula da Silva. Afinal, não conheço os sarilhos em que se meteu para lhe dar «vivas» ou «morras». Mas há uma coisa que lamento: o funcionamento da justiça brasileira, ao que parece pior que o nosso. Depois, o juiz que lhe sentenciou a prisão foi logo a seguir «promovido» a governante, o que levantou as mais legítimas suspeitas. Como não fosse bastante tornar-se ministro logo após ter metido na cadeia o principal concorrente de Jair Bolsonaro, sabe-se agora que o então juiz Sergio Moro cometeu erros inadmissíveis, que aliados a toda a espécie de tropelias processuais acabaram por ditar a libertação do ex-presidente. Depois há o Presidente, que ainda há uns meses chegou ao Planalto e já é suspeito, ele e a família mais próxima, de patifarias várias, incluindo o envolvimento em esquemas de corrupção — ele que fez do combate à corrupção a grande bandeira da campanha, e, suspeito, levou grande parte dos eleitores a votar nele. Se Lula da Silva foi injustamente condenado a cadeia ou injustamente sentenciado a sair dela, não sei. O que é claro é que no Brasil os políticos decentes não se distinguem dos políticos criminosos, e só não digo que o Brasil vai acabar mal porque se anda, há décadas, a fazer este prognóstico, e nunca se concretizou. Millôr Fernandes escreveu que «o Brasil tem um enorme passado pela frente». Resta saber se também tem futuro.

5 de novembro de 2019

O DESERTO. Não me lembro de ler uma única entrevista de um jovem escritor português (o conceito de jovem pode ir aqui até aos 50) que tenha citado um livro ou autor. Por comparação com os «antigos», que citavam com abundância as leituras que tinham feito e os autores que admiravam, a gente lê estes sujeitos e fica com a ideia de que não leram, que a literatura começou com eles. Sendo um escritor um leitor que escreve, como bem disse Vila-Matas, é estranho. De facto, fica-me sempre a interrogação quando deparo com um caso destes: se não leram, o que os motivou a escrever? Eis um bom caso para um Freud dos tempos modernos. Podia citar os dois ou três do costume (já falei deles em textos anteriores), mas talvez fosse injusto para com quem fica de fora. Todos «consagrados» pela «crítica» e, suponho, por se «venderem» bem em feiras e romarias (hoje praticamente obrigatórias), apesar de obrarem entre o vulgar e o confrangedor. Falo do que me parece a realidade portuguesa, mas o fenómeno talvez seja global. Extensivo, de resto, a outras áreas, nomeadamente à política, um deserto total.

20 de outubro de 2019

HEMINGWAY. Nunca foi um dos meus favoritos, e só concluí O Velho e o Mar depois de um amigo me ter garantido que o tinha lido mais de uma dúzia de vezes. Como suspeitava, não me entusiasmou. Gostei mais de Paris é uma Festa e de O Sol Nasce Sempre, pelo que os cinco títulos restantes que aguardam nas estantes provavelmente ficarão por ler. Mas gostei de visitar a casa-museu de Hemingway, de que me ficaram agradáveis memórias. Indo eu à procura do local, já farto de caminhar e a duvidar que estava no caminho certo, eis que me cruzo com um sósia de Hemingway, que só podia vir de lá. Chegado ao local, calhou-me uma visita guiada num grupo com outro Hemingway, este um pouco menos perfeito mas que passaria por Hemingway caso fosse preciso. Mas o espanto não acabou aí. Manteve-se quando subi, por uma escada íngreme, ao primeiro andar da cabana que Hemingway mandou construir nas traseiras da residência (onde, ao que consta, se isolava para escrever), imaginando-o a subi-las e a descê-las embriagado. Como não há notícia de qualquer incidente neste sobe e desce, deduzo, sem grande convicção, que não tenha havido. Mas custou-me a crer quando desci, tão sóbrio como subi. Afinal, tratei de não me distrair para não me estatelar — e a sobriedade é-me infinitamente mais fácil de gerir que a embriaguez. No caso de Hemingway, talvez a lendária embriaguez, o seu estado normal quando não escrevia, lhe fosse mais eficaz.

4 de outubro de 2019

DOIS MAIS DOIS IGUAL A CINCO. Muito curioso de saber até onde os republicanos estão dispostos a ir para defender o inocente até prova em contrário. Como já disseram nada ver na conversa de Trump com o homólogo ucraniano, onde Trump tentou, não se sabe com que sucesso, chantagear Zelensky, ou vão ter que recuar muito, ou vão ter que mentir muito. Mas nem com uma imaginação prodigiosa poderão afirmar que a conversa entre os dois presidentes se presta a duas interpretações. É claríssimo o que lá está, a não ser que dois mais dois sejam cinco. E é preciso lembrar que o episódio da Ucrânia é mais um dos muitos já conhecidos, porventura o mais grave. E que há mais ucrânias. As conversas com os mandantes russo e saudita, que Trump mandou pôr longe de «olhares indiscretos», e agora também com o primeiro-ministro australiano (à hora a que escrevo já se fala dos primeiros-ministros britânico e italiano e, quem diria, do mandarim chinês), são os casos mais recentes. E que fazem os republicanos diante esta avalanche? Sem mais a que se agarrarem, os poucos que abrem a boca fazem-no para discordar dos factos, como se fosse possível discordar dos factos, ou «justificam» pela enésima vez o que não tem justificação. E depois há Rudy Giuliani, sempre a meter os pés pelas mãos, a jurar uma coisa e o seu contrário — e que, presumo que involuntariamente, vai comprometendo ainda mais o Presidente. Pobre Partido Republicano, que a sobreviver a Trump vai precisar de anos para colar os cacos. A coisa chegou a um ponto que, não fosse ele quem é, seria um caso de polícia. Será, no entanto, uma questão de tempo. Mais tarde do que seria desejável, provavelmente depois de mais alguns danos irremediáveis, a justiça há-de chegar.

4 de setembro de 2019

NOVILÍNGUA. Lembro-me de Ricardo Salgado, já com o BES em queda livre, dizer, nas televisões, que o banco que então dirigia iria dispensar não sei quantos colaboradores. Fiquei a pensar no verbo (dispensar) e no substantivo (colaboradores), expediente na altura pouco usado e que agora se generalizou. Mas se isto me pareceu normal vindo de quem vinha, já me chateia ver os jornalistas repetir a novilíngua dos salgados. Chateia-me que se diga dispensar em vez de despedir, colaboradores em vez de trabalhadores — e a crise mais ou menos generalizada dos media não serve de desculpa, muito menos neste caso concreto. Se há assuntos que não se justificam com as desculpas do costume, este é um deles. Mais que impotência, é puro desleixo, pelo que fariam bem os jornalistas prestar mais atenção a quem tenta vender gato por lebre, pois não o fazendo acabam por ser cúmplices. Fariam bem, já agora, escrever ou falar de modo a serem entendidos pela generalidade dos leitores, ouvintes, telespectadores, que não têm que saber vocabulário técnico. E não falo do jornalismo económico, jurídico ou cultural, embora também a este fizesse bem esforçar-se para chegar ao público em geral. Não é fácil, eu sei. Mas quem sabe realmente o que diz, descobrirá maneira de o dizer de modo a que todos entendam.

21 de agosto de 2019

A GRANDE ILUSÃO. Divido os actuais apoiantes de Trump em quatro grupos distintos: os ingénuos, os mal-informados, os republicanos que acham que mais vale um republicano mau que um democrático bom, e os mentirosos (nalguns casos acumulam). Notem que digo actuais apoiantes, não quem votou nele, que alguns terão mudado de ideias. Quem se revê no Trump racista e supremacista branco? Não duvido que muitos dos seus apoiantes, antigos e actuais, embora não tenham coragem de o dizer. Trump, aliás, tem dito o que tem dito porque sabe que é isso que grande parte quer ouvir, e com certeza que está a contar com eles para a reeleição. É um caminho perigoso, mas Trump já demonstrou que está disposto a trilhar o mais perigoso dos caminhos se isso o salvar da derrota em 2020 e das contas a ajustar com a justiça. E quem se revê nas constantes mentiras, nos mais reles insultos? Acho que todos os ingénuos (poucos), os mal-informados (a grande maioria), os republicanos de que falei, e os mentirosos. Os primeiros porque acreditam no menino Jesus, os segundos porque não sabem como informar-se (ou só lhes interessa o que lhes convier), os restantes porque discordam dos factos (como se fosse possível discordar dos factos) e não hesitam em usar a mentira e a calúnia contra os adversários, a quem acusam de ser inimigos da América e idiotices do género. É um facto que o sistema de freios e contrapesos tem resistido, mas a corrosão é por demais evidente — e por este caminho não tardará que comece a desmoronar-se. Não é só a democracia que está em causa, embora isso já seria bastante. É a civilização como a conhecemos, onde as virtudes compensam largamente os defeitos — e que esta gente, usufruindo dela, vai fazendo o possível para destruir, de forma consciente ou não, em nome de alternativas piores.

12 de agosto de 2019

A PORCARIA. Tirando um caso ou dois, os republicanos em funções no Congresso estão totalmente reféns de Trump. Porque ser contra Trump significa arruinar as carreiras políticas, acobardam-se de um modo nunca visto. Só quem abandonou — ou se prepara para abandonar — a vida política se atreve a desculpar o que não tem desculpa, e são menos do que seria de esperar. Escusado será dizer que em caso de impeachment uns e outros votarão contra, nem que se demonstre que Trump baleou alguém na Quinta Avenida, como em tempos se gabou de poder fazer e ficar impune. Lamento (o Partido Republicano faz falta à democracia americana), mas esta gente não tem coluna vertebral — como, aliás, os políticos em geral. E prometeram eles ajudar o idiota-em-chefe a limpar a porcaria.

16 de julho de 2019

BONIFÁCIO E AS GENERALIZAÇÕES. O que mais me impressionou no texto de Fátima Bonifácio foi ela ter dito o que disse sem fundamentar. Porque eu tinha respeito por ela, custa-me a crer que uma reputada académica não tenha melhores argumentos que o «olhómetro» e o «achómetro», traves-mestras do «pensamento» da historiadora sobre racismo e afins. O que disse Fátima Bonifácio poderia ser dito por um iletrado, e isso é que me chocou. Também não me convenceu quem veio em sua defesa, ora dizendo que ela não disse o que disse, ora dizendo que ela foi mal interpretada, ora dizendo que é uma péssima ideia impedir a liberdade de expressão (inteiramente de acordo neste ponto). O que ela disse, a propósito das quotas raciais nas universidades, e com que estou basicamente de acordo, foi claro e claramente estúpido, que só pode resultar de preconceito, ignorância, ou das duas coisas. E nenhuma delas é aceitável, ainda menos vindo de uma «intelectual consagrada», como lhe chamou o director do Público, que disse ter sido um erro publicar-lhe a prosa e eu discordo. Ainda bem que o texto foi publicado, mesmo que involuntariamente. Como demonstram inúmeros exemplos passados, calar quem pensa de forma que julgamos aberrante tem o efeito contrário do que pretende. A esquerda é, neste aspecto, igual ou pior que a direita? Honestamente, não sei. O que me parece é que um erro não se justifica com outro.

8 de julho de 2019

FACEBOOK (2). Agora que o Facebook é coisa de velho, tornei-me utilizador frequente. Porque descobri pintores cuja obra julgava conhecer praticamente na totalidade (Chagall, Kandinsky, Gauguin, Van Gogh, Picasso) e não era assim, e porque descobri outros que não conhecia ou pouco mais conhecia que os nomes (Paul Klee, Gustav Klimt, Munch, Rembrandt, Tintoretto, El Greco). Mas não foi só a pintura. Descobri quem escreve maravilhosamente, quem pensa excepcionalmente, quem fala de assuntos que me interessam que não vejo em mais lado nenhum. Tornei-me, portanto, um entusiasta, eu que tão mal falei do Facebook — e continuo a falar, embora por outros motivos. Há lá tanta coisa boa que seria estupidez ignorar, burrice não frequentar. Se grande parte do que lá há é do pior, é o preço a pagar.

3 de julho de 2019

FACEBOOK (1). As redes sociais em geral e o Facebook em particular deram voz a quem a não tinha. O resultado está à vista, e não me parece que seja surpreendente: descontando uma minoria, embora uma minoria substancial, as redes sociais vieram pôr a nu o que o homem tem de pior. Revelaram a existência de uma maioria silenciosa que esperava uma oportunidade para liquidar o próximo (como as caixas de comentários dos jornais começaram por demonstrar), apesar de no dia-a-dia nos parecer gente pacata. Publico textos online muito antes das redes sociais, e recordo-me bem dos emails recebidos só com o intuito de me insultar. Graças aos blogues, primeiro, e às redes sociais, depois, esta gente passou a manifestar-se doutra maneira, e talvez porque o que hoje dizem é mais ou menos público, há que insultar o mais grosseiramente possível. Como isto acontece geralmente no Facebook, que há quem diga ser já coisa de velhos (ver texto que publicarei em breve), talvez sejam apenas ressentidos que querem desabafar. Como agora toda a gente tem voz, ou julga ter, é possível que, despejado o veneno, acabe por passar. Como dantes se dizia do vinho, o Facebook, mas não só o Facebook, é o novo ópio do povo. Embora o povo seja aqui invocado como uma espécie de albergue espanhol, onde se diz que cabem todos.

26 de junho de 2019

O PADEIRO DE PORTALEGRE. O discurso de João Miguel Tavares (JMT) no Dia de Portugal causou embaraço à direita e à esquerda — mas, sobretudo, à esquerda. Li o texto e confesso que não percebo porquê. Antes de mais porque, sendo JMT assumidamente de direita, não escandalizaria se tivesse sido proferido por alguém de esquerda, e só não foi aplaudido pela generalidade da direita porque JMT, sendo de direita, vive à margem dos partidos, e nem a direita nem a esquerda partidárias apreciam quem pensa pela sua própria cabeça. Depois há coisas que não entendo. Inês Pedrosa, cuja ultima vez que ouvi falar dela foi a propósito de um episódio pouco edificante que metia estrelas que um determinado crítico literário atribuiu — ou ia atribuir — a um dos seus livros mas não atribuiu (ou atribuiu por pressão não sei de quem), começou por se mostrar escandalizada com a escolha de JMT para presidir à comissão organizadora das comemorações do Dia de Portugal e se agarrar à circunstância de JMT se ter assumido como um homem comum, que ela interpretou no pior sentido do termo (o homem comum podia muito bem ser, segundo ela, o «padeiro de Portalegre»). Prosseguiu acusando-o de populista, de fazer um discurso antidemocrático, de ofender o país, e de mais umas coisas de que já não me lembro. Infelizmente, a escritora não fundamentou o que disse. Mas a sobranceria com que se aliviou deixou antever que não há nada que possa acrescentar. Está, portanto, dispensada de mais explicações, até porque suspeito que a emenda seria pior que o soneto.

20 de junho de 2019

DESTINO MARCADO. Fiz parte de um júri que decidiu a inocência de um jovem acusado de ter agredido um agente da autoridade. Como não havia provas materiais do que estava acusado, a decisão foi remetida para um júri, que decidiu com base em factos circunstanciais. Havia, realmente, alguns factos circunstanciais considerados credíveis, mas como a dúvida persistia, o júri decidiu, por unanimidade (a decisão tinha que ser por unanimidade), pela não-culpabilidade. Reparem que a terminologia usada não previa a inocência — o arguido era culpado ou não-culpado. Acompanhei, também, neste caso por motivos profissionais, o caso do futebolista americano O. J. Simpson, acusado de matar a esposa, que foi considerado não-culpado graças a uma equipa de advogados que conseguiu pôr em causa tudo o que era evidência, incluindo um teste de ADN, até então uma prova inquestionável. Apesar de mais de cem evidências encaixarem umas nas outras como um puzzle, o júri não conseguiu considerá-lo culpado do que parecia evidente, e o tipo acabou inocentado. Tudo isto para dizer que o Presidente Trump não é, até ver, culpado do que é suspeito, apesar das inúmeras provas materiais e circunstanciais indicarem ter cometido crimes de vária espécie que a seu tempo se hão-de provar. Repito: provas materiais, não apenas circunstanciais. São tantos os esqueletos no armário e fora dele que o Presidente americano acabará, mais tarde ou mais cedo, na cadeia. Sim, acredito na justiça americana, apesar de não ter grande margem de manobra enquanto Trump estiver no poder (é a política, e não a justiça, quem decide). Mas seja durante ou depois, Trump será confrontado com os seus crimes, e pagará em conformidade. Como já estão a pagar dois colaboradores próximos e um terceiro em vias disso.

7 de junho de 2019

OBRIGADO. Peço ao sr. do talho que me avie uns pés de porco, se faz favor. O sr. vira-se para mim e diz-me que faz favor coisa nenhuma, que está ali para me servir, que é o trabalho dele. Sorrio, e mecanicamente digo obrigado. O colega interrompe o assobio. O sr. repete que ora essa, que não tenho nada que agradecer, que mais não faz que o seu dever — e desta vez seguro-me a tempo e fico-me por um sorriso de assentimento. O colega retoma o assobio. O sr. do talho faz o que tem a fazer e entrega-me os pés de porco — que eu, já esquecido dos entretantos, volto a agradecer com um obrigado. O sr. quase se exalta. Repete asperamente o que já tinha dito, para trás e para a frente, e o colega interrompe novamente o fadinho. Despeço-me com um aceno de cabeça — que o sr. do talho, para meu alívio, não terá visto como um agradecimento. Dali a pouco já tinha a cabeça na próxima etapa, o chouriço, onde mo venderiam sem dizer uma palavra — nem, sequer, um simples obrigado. É o que se chama a lei das compensações, que não sei bem o que é mas para o efeito serve perfeitamente. Muito desequilibrada, mais tarde, por uma feijoada, que costumo comer sempre que preciso de acertar contas com o estômago. Sim, a canja é óptima, sobretudo quando acrescentada à minha maneira, mas não há como uma feijoada para certos desarranjos. Talvez o remédio só funcione para estômagos delicados, género alface e tofu três dias seguidos, mas nos tempos que correm, cheios de receitas para salvar o mundo e, com sorte, o canastro, o conselho não será de desprezar. Sobretudo quando acompanhado de um tinto insuspeito, que a medicina dos magazines há muito consagrou como remédio para santos e pecadores.

19 de maio de 2019

FAKE NEWS. Numa altura em que os políticos começam a discutir o problema das chamadas fake news, e eventualmente propor legislação para lhes pôr cobro, o Parlamento russo começou por aprovar uma lei que condena, com prisão ou pesadas multas, quem, online, divulgar fake news ou fizer comentários «desrespeitosas sobre o governo», e poucos dias depois aprovou outra lei que permite ao Presidente Putin desligar a internet no país sempre que exista uma «ameaça à segurança nacional». Escusado será dizer que estas medidas servirão para que todas as notícias contra o Governo possam ser consideradas «desrespeitosas», e uma «ameaça à segurança nacional» será quando Putin quiser. Apesar das movimentações que se têm visto, ainda ninguém descobriu o remédio para as fake news, até porque o «fenómeno» não é novo. Graças às redes sociais, nomeadamente ao Facebook, multiplicaram-se astronomicamente nos últimos anos, porque o poder das fake news é enorme e muitíssimo barato. Encontrar-se-ão, quando muito, receitas que atenuem os seus efeitos, que reduzam o volume, que até ver o único remédio realmente eficaz é a censura. Sim, a censura, que os portugueses mais velhos ou sentiram na pele e abominam, ou não sentiram na pele e agora glorificam — porque a censura de Salazar e Caetano lhes mostrou um país que nunca existiu, e de que têm, naturalmente, saudades. Gostaria de estar enganado, mas as fake news só serão reduzidas à insignificância quando se preferir a verdade à «verdade» que convém. Enquanto houver quem se disposta a acreditar no que lhe interessa, haverá quem se disponha a dar-lhe o que lhe interessa. Não por passatempo, divertimento ou assim. As fake news tornaram-se uma arma de destruição maciça nas mãos de extremistas e de regimes autoritários, que as usam com grande eficácia e proveito. Urge, por isso, inventar a receita que cure a doença sem matar o doente.

1 de maio de 2019

BOAS NOTÍCIAS. Conhecido grande parte do relatório Muller, demonstrou-se, desde já, que a generalidade dos media fez o que lhe competia. Não há, até ver, um único episódio no relatório que não tenha sido prévia e certeiramente noticiado, excepto pelos media do costume. Mas se isto não surpreende, é bom que a sociedade tenha motivos para que possa confiar na generalidade dos media, tão enxovalhados têm sido nos últimos tempos. As «fake news» e os «inimigos do povo americano», como Trump designa tudo o que seja notícia que lhe desagrada e todos os meios que considera hostis, não passam, afinal, de tentativas malsucedidas de Trump calar vozes incómodas, como os episódios do CEO da Amazon e do tablóide National Enquirer bem o demonstram. Não é preciso ir muito longe para ver que o dono da Amazon é o mesmo do Washington Post, jornal que, fazendo o que se espera que faça, não lhe tem feito a vida fácil — e quanto ao Enquirer, que deu à estampa um affair de Bezos com o objectivo de o prejudicar, demonstrou-se que Trump tinha o hábito de comprar o silêncio do pasquim sempre que este desencantava uma história que não lhe convinha, e não custa a crer que fez publicar histórias que lhe convinham usando idêntico expediente. O pior é que o relatório do procurador-especial pouco mudará na sua base eleitoral, avessa aos media e entusiasta de propaganda. Começa-me até a parecer que são bem capazes de defender Trump mesmo que o sujeito fique impune por matar alguém em plena Quinta Avenida, como sugeriu, a brincar, na campanha eleitoral, mas o ex-advogado Michael Cohen já avisou que deve ser tomado a sério.

4 de abril de 2019

PIOR SERIA DIFÍCIL. Assisti, com alguma perplexidade, ao Prós e Contras em que se debateu a eventual entrada das terapias alternativas no Serviço Nacional de Saúde, a que os médicos se opõem e os «alternativos» defendem. Um debate que se pretendia esclarecedor descambou, rapidamente, para o confronto, e cedo se percebeu de que lado estava a maioria dos presentes na plateia: do lado das terapias alternativas, vá lá saber-se porquê. Não fosse a moderadora, os médicos que se apresentaram para debater teriam saído dali apupados e humilhados. Por dizerem o óbvio que se esperava que dissessem: que não se pode pôr em pé de igualdade o que tem evidência científica com o que não tem evidência científica. Quase vinha abaixo a sala quando um médico começou por recordar isto. Quando se esperaria que os «alternativos» fossem confrontados com práticas duvidosas e aldrabices comprovadas, bem como com argumentos que merecem ser ouvidos, eis que acontece precisamente o contrário. Enalteceram, para gáudio da plateia, as proezas que juraram ter cometido, gabando-se da eficácia que os «tradicionais» não terão. Não fosse a suspeita de que os «alternativos» tomaram conta do espaço do debate, dir-se-ia que está tudo doido. Temo, porém, que o debate tenha contribuído para aumentar a confusão e a ignorância sobre as terapias ditas alternativas, ou complementares. Quem desesperadamente precisa de cuidados de saúde e ali viu uma oportunidade para se esclarecer, provavelmente saiu ainda pior do que entrou. Ironicamente, graças à televisão pública, a quem compete prestar este tipo de serviços e não soube – ou não quis – fazer o que devia. O que se viu foi tempo de antena gratuito em horário nobre para uma das partes, precisamente a parte a quem competia esclarecer todas as dúvidas que pairam sobre ela.

21 de março de 2019

SAIA UM ARGUMENTO A SÉRIO. Quem, nesta altura, depois de covardemente voltar a atacar o senador John McCain (que não está cá para se defender) e dizer outras coisas inconcebíveis, ainda apoia Donald Trump, só pode ser por um de três motivos: está mal informado (quero acreditar que seja a maioria), não quer dar o braço a torcer, ou então odeia tudo o que Trump odeia e aprecia tudo o que Trump aprecia. Gostava de estar enganado, e não estou a ironizar. Mas, se estou enganado, digam-me em quê, e porquê. Relembro que os insultos com que por vezes me brindam quando falo de Trump não são argumentos — ou são «argumentos» de quem os não tem. Gostava, de facto, de ver um argumento a sério em defesa de Trump — e, de novo, não estou a ironizar. Não consigo ver qual, mas gosto de imaginar que há, pelo menos, um argumento devidamente fundamentado. E não me venham dizer que Trump é contra o sistema, que o sistema pode ser tudo o que quiserem mas já impediu que Trump conduzisse os EUA para um regime como o de Putin, Orbán, Duterte ou Kim Jong-un, tudo gente que não se recomenda e que Trump admira e inveja. Sim, é de um regime autoritário que falo, onde Trump poderia exercer a autoridade com que sonha mas nunca terá.

20 de fevereiro de 2019

TÁ PRETA, A COISA. A investigação do procurador Muller a um eventual conluio entre a campanha de Donald Trump e a administração russa já demonstrou várias coisas, mas, sobretudo, que Trump se rodeou de gente que não se recomenda, nalguns casos de autênticos canalhas. Não há, até ver, um único colaborador próximo do Presidente que saia bem na fotografia, e quem se rodeia de gente assim, não deve ser muito melhor. Nunca duvidei que Trump acabará mal — acredito na justiça, mesmo com erros e imperfeições. Mas agora, que se anuncia uma investigação aos negócios de Trump-empresário, que aparentam ter relação com Trump-político, a coisa vai ser pior do que eu imaginava. Não acredito que as suspeitas que andam no ar (lavagem de dinheiro, ligações ao crime organizado, irregularidades de toda a espécie) sejam meros pretextos para o liquidar politicamente — e até já há factos a comprovar que as suspeitas são demasiado sérias para que possam ser ignoradas. O tempo não dirá tudo, mas dirá o bastante para que Trump acabe como acabaram — ou vão acabar — alguns dos seus compinchas. É só encaixar as peças umas nas outras, embora não queira com isto dizer que será fácil e o desfecho esteja para breve (anunciam-se novidades para a próxima semana, mas é melhor aguardar). São tantos os indícios de malfeitorias e os rabos-de-palha que só um milagre lhe permitirá terminar o mandato. Isto para não falar em cenários piores, muito piores, que apenas surpreenderão os «básicos» do sujeito ou os mais distraídos.

11 de fevereiro de 2019

SEM VERGONHA. Vejo quem diariamente acuse este e aquele, geralmente no Facebook, de cometer toda a espécie de tropelias sem a mínima evidência — ou, pelo menos, sem sinalizar a origem da informação. Geralmente socorrem-se de manipulações, distorções, situações tiradas do contexto, do diz-que-disse, da mentira pura e dura. Às vezes é só uma imagem, um cartaz onde alguém escreveu uma acusação cuja credibilidade não se dão à maçada de aferir desde que sirva de arma de arremesso contra adversários ou inimigos. Imaginem que alguém faz um cartaz (ou escreve um texto, ou manipula um vídeo) acusando estes pantomineiros de patifarias que não cometeram. Como reagiriam? Talvez isso lhes arejasse aquelas pobres cabeças — e, quem sabe, lhes servisse de emenda.

23 de janeiro de 2019

É SIMPLES. Ou Trump está a colaborar com Putin de forma ingénua e até bem-intencionada, difícil de acreditar mas possível. Ou então está a colaborar de forma consciente (em benefício próprio e de Putin), o cenário mais provável. No primeiro caso, Trump é um perigo para os EUA, e deve ser removido quanto antes. No segundo, não basta removê-lo: tem que pagar por isso. Não simplifico o que será um assunto complexo. As coisas são assim mesmo, simples, e sobram evidências que o demonstram. Difícil, aliás, imaginar opacidade mais transparente, passe a contradição.

22 de dezembro de 2018

MEA CULPA. Depois do que se passou nos últimos dias, devo dizer que a minha opinião sobre Trump é pior do que dantes. Trump garantiu que o ISIS na Síria tinha sido derrotado (mentira), e que as tropas americanas lá instaladas iriam, por isso, regressar (outra mentira). Foi, no plano externo, mais um alinhamento com o amigo Putin, e no plano interno, a gota d'água que terá levado à demissão do secretário da Defesa — que sobre este assunto não terá sido ouvido nem achado. Cometeu, além disso, a proeza de ficar sozinho, deixando aliados e adversários primeiro de boca aberta, depois seriamente preocupados. Cada vez mais encurralado pelas aventuras em que se meteu, começo a pensar se Trump já não estará a negociar a resignação em troca de impunidade. Seria, parece-me, o melhor que poderia fazer. Antes que já nem com isso se safe.

7 de dezembro de 2018

HUMILHADO MAS POUCO OFENDIDO. Se Trump percebeu alguma coisa do que foi dito na catedral de Washington sobre George Bush, só pode sentir-se humilhado. Os valores do ex-Presidente exaltados por todos os oradores demonstraram, por contraste, mesmo que involuntariamente, tudo o que Trump não é. Infelizmente, não será agora que o ainda inquilino da Casa Branca irá mudar de ideias — e, sobretudo, de comportamento. Trump continuará a ser um homem só, doentiamente só, em luta constante contra os seus próprios fantasmas — e agora, presumo, com os esqueletos prestes a sair do armário. Já disse um cento de vezes que o sujeito vai acabar mal. Só não esperava que demorasse tanto.

16 de novembro de 2018

TROPA FANDANGA. Suspeito que a tragicomédia de Tancos é só mais um caso nas Forças Armadas, que a serem investigadas a fundo dariam, suspeito de novo, uma novela a sério. Sim, é preciso preservar a dignidade da instituição, e fica bem aos políticos em geral e aos governantes em particular dizer bem das Forças Armadas. Mas eu, que por lá andei ano e meio, por sinal na mesma área do furto das armas, conheci o bastante para desconfiar, desde o desvio de arrobas de carne do quartel para a despensa de um sargento (que presenciei) a outros esquemas mais espirituosos (que só inalei). Quem, no final da tropa, não sabia onde arranjar um par de botas, uma camisa ou umas calças, que na hora de passar à peluda era preciso devolver? Claro que todos sabiam. Vendiam-se numa feira lá perto, à vista de toda a gente, ao lado de caralhotas de Almeirim e rabichas de Alcanena. E como lá iam parar? Eis uma pergunta meramente retórica. É por estas e por outras que me doem as cruzes sempre que alguém me vem dizer que as Forças Armadas são uma instituição respeitável. Têm medo que façam um golpe de Estado? Honestamente, e tendo em conta os últimos desenvolvimentos, duvido que tenham competência. Basta reparar nos detalhes de Tancos. Aquilo foi de um amadorismo a roçar o embaraçoso, e se fosse apenas ficção, dir-se-ia que era de tal modo inverosímil que ninguém lhe pegaria — ou então foi uma situação de tal modo corriqueira que só por acaso acabou nos jornais, o que ainda é pior. Depois seguiu-se o jogo das escondidas, em que meio mundo encobriu outro meio. Claro que as Forças Armadas não são um antro de corruptos ou de incompetentes. Também por isso seria bom que a história do paiol acabasse em pratos limpos.

2 de novembro de 2018

OS CRENTES DO ÓDIO. Ponto assente que o bombista da Florida é um fanático de Trump, e não me surpreenderia que seja um fanático que se limitou a fazer o que muitos gostariam de fazer — e que, apesar de as bombas não terem cumprido integralmente a sua missão, os tenham deixado a ferver de orgulho. E não me venham dizer que Cesar Sayoc é um caso isolado, porque não é. Olhando o perfil do sujeito, podia ser alguém que eu conheço — alguém que, parecendo incapaz de matar uma mosca, era homem para isso. A diferença é que o trumpista das bombas levou o fanatismo até às últimas consequências, enquanto estes que eu conheço se ficam por ódios de Facebook. Vi, como outros terão visto, quem postasse ilustrações sugerindo que teriam sido os democratas a montar o esquema das bombas. Como não disseram mais nada depois de conhecerem o autor, presumo que estejam a urdir novas teorias da conspiração — e entretanto removeram as ilustrações sem dizerem água vai, muito menos que se enganaram. Também não me convencem inteiramente as razões que explicam o trumpismo, ao qual os crentes se mantêm fiéis mesmo depois do trumpismo ter confirmado o pior. Quer-me parecer, isso sim, que o trumpismo resulta do ódio acumulado durante anos, não só contra os políticos, e que agora funciona, sobretudo, como válvula de escape. Como o ódio só gera mais ódio, desconfio que nem como catarse lhes será útil. Alguém que lhes meta a evidência nas suas pobres cabeças.

19 de setembro de 2018

O HOMEM SEM QUALIDADES. Que tenham votado Trump por estarem fartos do chamado sistema, por acharem que o sujeito era a pessoa certa ou porque merecia o benefício da dúvida, não custa entender, mesmo depois dos sinais em contrário desde o início. Mas agora, 17 meses passados, dá que pensar ver quem o defenda com o mesmo fervor, apesar de tudo o que já se passou, do que diariamente sucede, e do futuro que se adivinha. Donald Trump mente descarada e compulsivamente mais de sete vezes por dia (números do Washington Post). Rodeou-se de medíocres e oportunistas, e de um ou outro tido como sério que rapidamente perdeu a coluna vertebral. Insulta diariamente membros do seu próprio gabinete, instituições como o Departamento de Justiça e agências de segurança, e de um modo geral todos quantos não pensam como ele. Instiga o ódio entre parceiros e adversários. Zomba em público de deficientes. Embora não se assuma como tal, é claramente racista, talvez mesmo supremacista, e as mulheres ou são objectos de prazer ao alcance da mão, ou não contam. É nitidamente um ressentido, e nunca perde uma oportunidade de se vingar. Admira ditadores e outros tiranos, a quem inveja os métodos e a obediência (elogiou o ditador norte-coreano por não permitir que alguém não pense como ele). É um egomaníaco como nunca se viu, um mitómano capaz de suplantar o mais inverosímil personagem de ficção, um paranóico obstinado. Desconfia de tudo e de todos. Da comunicação social (os que lhe são hostis são «inimigos da América»), que ataca constantemente — porque assim, disse ele a uma jornalista da Fox, desacredita todos os media, pelo que quando algum publicar notícias desagradáveis acerca da sua pessoa, ninguém acredita. Da comida que lhe servem, porque tem um medo patológico de ser envenenado. É um ignorante que faz gala de o ser, um desavergonhado que só encostado à parede aceitou dizer algumas palavras simpáticas sobre o senador John McCain, a quem nunca chegará aos calcanhares. É um incompetente com provas dadas, o mais rematado imbecil, um sujeito sem escrúpulos. É, em resumo, uma criatura desprezível. Assim sendo, que qualidades terá que continuam a levar os seus apoiantes a ignorar/desvalorizar/minimizar todas estas misérias? Não me venham com a Hillary assim e Obama assado, que as alegadas trapaças de uma e as supostas patranhas de outro não explicam coisa nenhuma — e só demonstram a invariável pobreza de argumentos. Nem por que motivos foi eleito, que isso já foi mais que explicado. Digam-me, por favor, que o homem tem uma qualidadezinha, uma só para amostra — ou então que nada do que aqui enunciei tem importância. É que eu recuso-me a acreditar que os «trumpistas» não tenham vergonha e pelo menos um argumento digno desse nome.

23 de agosto de 2018

A PORCARIA FEDE QUE TRESANDA. Depois de meses a dizer que fazia questão de falar cara a cara com o procurador que investiga um eventual conluio entre a sua campanha presidencial e a administração russa, alegando nada ter a esconder e pretender pôr tudo em pratos limpos, eis que Trump vem agora dizer que talvez não seja boa ideia, pois arrisca-se a cometer perjúrio. Ora, como pode alguém meter os pés pelas mãos diante o procurador se nada fez de errado? Se quem não deve não teme, o recuo de Trump só pode significar que o sujeito deve, e teme. Como não bastasse, o advogado que até há pouco lhe consertava as avarias acaba de o incriminar, alegando que Trump comprou, por seu intermédio, o silêncio de duas mulheres que lhe terão feito uns biscates, e o ex-director de campanha vai passar o resto da vida na cadeia por obra e graça de umas falcatruas e do mais que a seu tempo veremos. Ainda pior: os sujeitos demonstram que Trump se rodeou de patifes (estou a ser benévolo), contrariando a promessa de que, uma vez Presidente, iria escolher os melhores. Temos, portanto, que o pântano instalado em Washington — de que Trump tanto falou e, uma vez Presidente, jurou drenar — atingiu um nível tal que acabará, mais tarde ou mais cedo, por engolir quem se propôs acabar com ele.

27 de julho de 2018

MORALISTAS MAS NÃO PRATICANTES. Muito instrutivo ver o que alguns católicos disseram sobre a separação das famílias dos imigrantes ilegais nas fronteiras dos EUA. Quando seria de esperar um gesto de compaixão, no mínimo, eis que os curiosos sujeitos com uma mão batem no peito e com a outra espetam a faca. Pelo menos não surpreendem, valha-os deus. Afinal, abundam exemplos de quem pratica o contrário do que prega, e conheço algumas amostras. Imaginem que os imigrantes ilegais retidos na fronteira nas circunstâncias que se conhecem são cristãos fugidos de regimes que os perseguem. Teriam as criaturas a mesma atitude? Por ser agnóstico, presto escassa atenção às andanças dos crentes, excepto quando desdenham, nalguns casos matam, de quem não pensa como eles. Mas parto invariavelmente do princípio que os crentes são, como espécimes humanos, melhores que os não-crentes, porque as religiões tornarão o homem melhor. Como a realidade diariamente desmente, um erro crasso. Que deus tenha misericórdia deles.

22 de junho de 2018

RAZÃO ANTES DO TEMPO. Resultante de uma viagem pelos EUA entre Novembro de 1959 e Maio de 1960, Italo Calvino publicou, há meio século, Um Optimista na América, onde a páginas tantas se lê sobre a sua passagem pelo Texas:

 «Uma noite estava a jantar numa villa do Sul. (...) Era um ambiente sério de homens de negócios. A conversação deteve-se (...) no tema das eleições. Um dos convivas explicava por que motivo apoiava um determinado candidato. (...) Dizia ele que nos momentos difíceis que aguardavam os Estados Unidos, era aquele homem o que convinha, porque era um tough guy, um duro, um tipo ruthless, um que não está com cerimónias. Tentei objetar que os momentos difíceis só aparecem quando não nos apercebemos de quais são os problemas dos países do mundo e ao estudo e ao empenho para resolver esses problemas se antepõem a política da força e o apoio de regimes desacreditados e policiais: já era o tempo das pessoas sensatas e reflexivas – disse eu – e não de tipos tough. Não me entendeu; sim, tudo belas coisas, dizia ele, mas antes de mais nada é preciso mostrarmos que somos os mais fortes, que temos cabeça, que não damos sinais de fraqueza. (...) Os jornalistas, os especialistas, os políticos conscientes do que está a acontecer no mundo têm um número de apoiantes ainda limitado. O futuro decerto reservará aos Estados Unidos outras más surpresas.»

Como se vê, o texto foi premonitório. Os EUA têm um tough guy na Casa Branca, e o resultado é a barafunda que se conhece. Vale-nos que o sujeito não tem um décimo do poder que julgava, embora continue a ser demasiado para que possamos estar descansados.

16 de junho de 2018

É SÓ FUMAÇA. Como, por lapso, reportou uma jornalista da Fox, Singapura foi palco de um encontro entre dois ditadores. Foi um lapso compreensível. Afinal, houve um ditador de facto, e outro que gostaria de sê-lo. Tirando a photo opportunity para mostrar aos netos e o facto de o ditador norte-coreano ter feito sentar à mesa o todo-poderoso presidente americano (um feito que, por si só, constitui uma notável vitória), nada mais saiu dali. Tudo o que houve resume-se a um documento de intenções — os americanos comprometeram-se a apoiar a segurança da Coreia do Norte (ninguém sabe como) e acabar com os jogos de guerra (que não vão, obviamente, cumprir), e os norte-coreanos terão prometido desmantelar o arsenal nuclear (que também não vão cumprir). Quem acredita que o lunático dos foguetes vai abrir mão do poder nuclear? Quem acredita que os americanos vão aliviar as sanções à Coreia do Norte? Dir-me-ão que, mesmo saindo de mãos a abanar, o encontro foi, para os americanos, melhor que nada. Possivelmente. Mas para o regime de Pyongyang, parece não haver dúvidas de que foi um tremendo sucesso, como costuma dizer o imbecil que mora na Casa Branca sempre que se gaba do que faz e do que não faz. Valha-nos que a expectativa para a cimeira de Singapura era quase nula. E quando assim é, qualquer coisa de que lá saia de positivo — ou que passe por positivo — é lucro, como disse o «nosso» Guterres, comandante de uma agremiação que hoje, face aos grandes conflitos, pouco mais faz do que contabilizar os mortos.

25 de maio de 2018

AOS SALTOS E AOS PINOTES. Não sei se Trump é culpado de tudo o que é suspeito, nomeadamente no «caso russo», embora as peças se encaixem umas nas outras a uma velocidade estonteante. Mas se não é, por que se comporta como se fosse? Se está realmente inocente, qual é o problema com a investigação do procurador-especial? Não devia o Presidente ser o primeiro a desejar que o procurador conclua rapidamente a investigação, de modo a demonstrar-se a sua inocência? O comportamento de Trump seria, de facto, estranho, não fossem as evidências de que está metido num gigantesco sarilho. A «tese» da caça às bruxas não tem ponta por onde se lhe pegue. A hipotética conspiração para o derrubar não passa de uma fantasia. E agora a suspeita de que alguém espiou a sua campanha (o «spygate») mais não é do que a enésima manobra destinada a descredibilizar a investigação sobre o eventual conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo, tal como as escutas à Trump Tower inventadas pelo congressista Devin Nunes, que uma vez mais, inventando uma espionagem com base em zero evidências, se prestou a tão triste figura. De facto, à medida que a investigação vai avançando, o desnorte do Presidente é cada vez maior, e não é caso para menos. O «caso russo» alastrou para as actividades de Trump enquanto empresário, e tudo indica que as actividades de Trump enquanto empresário são, por si só, motivo para o levar à justiça. Sim, à justiça, que a demonstrar-se o que se suspeita, não me surpreenderá que acabe no banco dos réus. Sem surpresa, a investigação está a chegar, se é que já não chegou, ao ponto onde dói mesmo. E uma vez aí, não me parece que haja expediente que lhe valha. Demitir o procurador-especial e o procurador-geral da justiça, que ele vai ameaçando fazer para avaliar possíveis consequências, servirá, quando muito, para adiar por mais algum tempo um desfecho inevitável.

23 de abril de 2018

NO DIA MUNDIAL DO LIVRO. Conheci um sujeito que, vendo-me a ler enquanto almoçava, me disse mais ou menos assim: «Não me lembro de alguma vez o ter visto sem um livro na mão.» O sujeito, falecido há uns anos, espantar-se-ia hoje se me visse sem o tal livro na mão, e só poderia concluir que deixei de ler ou passei a ler menos. Lembro-me deste episódio depois de ter lido que hoje, ao contrário de ontem, já não se lêem livros nos transportes públicos, que foram trocados pelos smartphones. Será. Mas é preciso ver que alguns dos smartphones carregam ebooks, que muitos, por razões de ordem prática, preferem ao papel. É o meu caso, e não serei o único. Os ebooks têm «dentro» o mesmíssimo conteúdo que os livros, e num livro interessa-me, essencialmente, o conteúdo. A Guerra e Paz que se lê em ebook não é o mesmo livro que se lê em papel? O que muda em Thomas Mann se for lido em papel? Basicamente, o ebook contém a versão digital de um livro impresso, e como já enumerei em mais de uma dezena de textos as vantagens e inconvenientes de ambos os suportes, não vou repetir-me. Como faço parte da confraria, que suponho maioritária, dos que lê vários livros ao mesmo tempo, hoje faço-me acompanhar diariamente por algumas centenas de ebooks, que sempre que posso leio no tablet e quando não posso no smartphone. Quantos farão o mesmo? Ignoro a resposta, mas quer-me parecer que serão tantos — ou mais — que os que dantes liam em papel. Ao contrário de muitos, não estou convencido de que os smartphones roubaram leitores aos livros, digamos, tradicionais, como não estou convencido de que os ebooks roubam leitores aos livros em geral. Quem lia não deixou de ler por causa dos smarthphones ou ebooks. O que mudou, e muito, foram os suportes em que se lê, embora o suporte tradicional (o papel) continue a prevalecer — e nunca, como hoje, se publicou tanto livro em papel, enquanto o mercado dos ebooks parece estagnado. Apesar dos condicionalismos (falta de espaço onde os colocar, no meu caso), continuo a comprar livros em papel, embora quase só os que não encontro em ebook. Porque o que conta, repito, é o conteúdo. E nisso em nada se distinguem.

24 de março de 2018

A ÉTICA É PARA OS OUTROS. Parece que o novo Presidente do PSD tem como primeiro objectivo perder por pouco as eleições do próximo ano. A ser verdade — por si só uma coisa extraordinária —, coloca-se, desde já, uma questão prática: Rui Rio vai, na campanha eleitoral para as legislativas e europeias de 2019, apelar ao voto para vencer, ou para perder por pouco? Suspeito que a ambição — ou falta dela — lhe vai causar dissabores a curto prazo, sobretudo com os media, que não o pouparão — e são bem conhecidas as fúrias de Rio com os media. Parece, aliás, que já começaram. O novo presidente dos sociais-democratas iniciou o mandato acusando os media de lançar uma campanha contra Elina Fraga e Salvador Malheiro, ambos vice-presidentes do partido. Agora, sobre o já ex-secretário-geral Barreiras Duarte, forçado a demitir-se após ser acusado de falsificar o currículo, Rio começou por dizer que foi um erro prontamente corrigido — mas acabou, tarde e a más horas, por aceitar o inevitável, mostrando total inépcia a gerir o caso e que a ética, afinal, não se aplica a todos. Não sendo eu militante do PSD, a questão não me diz directamente respeito. Mas como Rio se arrisca a ser primeiro-ministro, já não posso dizer que me seja totalmente indiferente. Devo dizer que sempre tive o então presidente da Câmara do Porto como arrogante e autoritário. Por aquilo que tenho visto nas últimas semanas, não será fácil mudar de opinião.

14 de março de 2018

NORMALIZAR A ABERRAÇÃO. Alguma direita portuguesa tem-se esmerado com dezenas de explicações para a vitória de Trump, na minha opinião quase todas acertadas, as menos consistentes pelo menos verosímeis. Nunca disse, porém, que a vitória de Trump se deveu, em parte, à ingerência russa, reconhecida por todas as agências americanas de segurança. (Se a ingerência foi, ou não, decisiva, nunca saberemos, mas que ela existiu, e em larga escala, só Trump e seus papagaios recusam admitir.) Agora a dita direita faz os possíveis e os impossíveis para normalizar a aberração, comparando as aventuras de Trump com as aventuras dos seus antecessores ou adversários políticos — como se fosse possível comparar as aventuras de Trump com as dos seus antecessores ou adversários políticos. Isto de querer fazer com que os «nossos» sejam melhores que os «outros» só porque são os «nossos», é mais ou menos o mesmo que pretender fazer a quadratura do círculo. Por mais voltas que se dê, por mais que se estique daqui e se encolha acolá, nunca funciona. Mais valia, por isso, que a direita se preocupasse em reparar os danos da sua própria casa. É que a vitória de Trump não foi, apenas, a vitória da direita sobre a esquerda, dos conservadores sobre os liberais. Foi, também, uma vitória sobre a direita americana tradicional, que Trump está longe de representar. A mesma direita que durante as primárias fez o que pôde para se ver livre dele, como estarão recordados — e que agora, por cobardia política, se viu forçada a engolir.

18 de fevereiro de 2018

O LAMAÇAL. Razões profissionais obrigam-me a estar ao corrente do que algumas cavalgaduras da bola vão dizendo hora sim, hora sim, nomeadamente presidentes, directores de comunicação e comentadores televisivos. Tirando excepções, todos alinham pelo mesmo diapasão, e a música é conhecida: uma cacofonia de insultos do mais baixo que há. Dantes as más notícias geralmente vinham dos hooligans, uma vez ou outra das claques. Agora vêm dos arruaceiros instalados nos gabinetes dos clubes, dos incontáveis programas de «análise» futebolística, e das omnipresentes redes sociais. Bruno de Carvalho, por exemplo, em tempos ofereceu-se para dar cursos de ética aos «dirigentes que precisem». Leram bem: ética, como se o sujeito tivesse autoridade para falar de tal coisa. Presumo que o presidente do Sporting se exclui da pouca vergonha que grassa no futebol português, mas não devia. Até nem será exagero dizer-se que Bruno de Carvalho tem sido dos que mais tem contribuído para o actual clima, embora tente ser visto como o grande moralizador. Felizmente que os adeptos dos clubes envolvidos nesta lixeira a céu aberto em que se tornou o futebol português têm sido mais sensatos e não se têm envolvido em escaramuças. Para azar das cavalgaduras, a quem dava jeito que ocorresse uma ou outra tragédia para reforçar os seus pontos de vista, os adeptos mantêm-se serenos. Esperemos, portanto, que os ditos mandantes se afundem o mais rapidamente possível no pântano em que se meteram. Para bem dos clubes que representam, para bem de quem gosta de futebol, para bem da higiene mental em geral.

7 de dezembro de 2017

PAÍS MINÚSCULO PARA TANTO EGO. Parece que há escritores portugueses que submetem as suas obras a concursos mas depois não aceitam outro resultado que não seja ganhar. Pior: atribuir o quarto lugar do Prémio Oceanos a uma autora do gabarito de Maria Teresa Horta (MTH) é, segundo Inês Pedrosa, «uma humilhação». Devo dizer que não li um único livro de MTH, mas não me gabo disso. É, ao que dizem, uma escritora estimável, e o livro a concurso também. Mas se o incidente do prémio não me afasta da sua obra, também não me aproxima. Tenho a ideia, porventura excessivamente romântica, que um escritor/criador jamais fica satisfeito com a sua obra, e que cada vez que a ela regressa lhe encontra defeitos que o embaraçam. Não será o caso de MTH, que estará convencida de que fez uma obra notável, claramente melhor que a concorrência. Ou então achará que merecia o primeiro lugar não pelo livro em si mas pela sua «já longa obra», como escreveu na carta de rejeição, onde também se lê que o fez pelo respeito que deve a si própria e aos seus leitores. É um direito que lhe assiste. Mas reza a lenda que ninguém é bom juiz em causa própria.

20 de novembro de 2017

O QUE TEM QUE SER FEITO

É possível acreditar numa coisa e no seu contrário? O Presidente Trump acha que sim. Acredita que Putin não interferiu nas presidenciais americanas, e acredita nas agências governamentais americanas que dizem precisamente o contrário. Que sentido isto fará? Para quem acredita nas suas próprias mentiras, fará todo o sentido.

Como estarão lembrados, todas as agências governamentais de inteligência garantem a intromissão russa nas presidenciais americanas, e todos os dias surgem evidências de que assim foi. Mesmo assim, Trump insiste que Putin lhe garantiu, um ror de vezes, que não interferiu, e isso parece bastar-lhe. O que é preciso, para Trump, é ultrapassar o «caso russo», porque o importante é que os EUA tenham uma boa relação com a Rússia — removendo, desde já, as sanções impostas pelo Congresso em resposta à interferência nas eleições. O resto (cada vez mais evidências de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo) não interessa para nada.

John Brennan, ex-director da CIA, acha que Trump tem, por qualquer motivo, medo do que Putin possa fazer, ou do que possa surgir da investigação sobre eventual conluio da sua campanha com Vladimir Putin — pois o comportamento de Trump só pode, segundo Brennan, dever-se a «ingenuidade, ignorância ou medo».

James Clapper, ex-diretor da NSA, considera que os líderes estrangeiros que estendem a passadeira vermelha a Trump são capazes de o manipular. «Acho que tanto os chineses como os russos pensam que podem manipulá-lo», disse Clapper — além de que negar a interferência russa nas presidenciais, como Trump continua a negar, representa, para ele, «um perigo para o país».

Temos, portanto, que só mesmo quem não quer ver não vislumbra a suspeitíssima relação entre Trump e Putin. O que haverá entre eles que explique o comportamento do Presidente americano? Eis a pergunta que muitos fazem e outros evitam fazer. Talvez nunca saibamos toda a verdade. Mas o que vamos sabendo será, a prazo, bastante para se fazer o que tem que ser feito.

12 de novembro de 2017

INSONDÁVEIS MISTÉRIOS. Ricardo Salgado é acusado pelo Ministério Público, no âmbito da «Operação Marquês», de ter cometido 21 crimes. O antigo banqueiro, que garante estar inocente, veio chorar em todos os jornais o arresto da sua pensão de velhice — ficou agora, segundo ele, «praticamente com o correspondente a dois salários mínimos». Disse mais Ricardo Salgado: que lhe dói profundamente os lesados do desmoronamento do Banco Espírito Santo, que nunca subornou ninguém, que será ilibado da «monstruosidade» de que é acusado. Como diz a lei e o senso comum, Ricardo Salgado é inocente até prova em contrário. Como são inocentes até prova em contrário todos os acusados da «Operação Marquês», embora o princípio para os restantes se note bastante menos. Por obra e graça não sei de quê, não li num único jornal que lhe deu espaço para chorar a pensão e o resto que Ricardo Salgado é acusado de 21 crimes (nove por branqueamento de capitais, três por fraude fiscal qualificada, três por falsificação de documentos, três por abuso de confiança, dois por corrupção activa e uma por corrupção activa de titular de cargo político), como sempre acontece, e bem, quando falam dos outros acusados, nomeadamente José Sócrates (31 crimes), Carlos Santos Silva (33), Henrique Granadeiro (8) e Zeinal Bava (4). Por que será? A omissão não foi por acaso, pelo que a explicação tem que ser outra. Talvez alguém da Santíssima Trindade saiba alguma coisa.

6 de outubro de 2017

COISAS QUE NÃO PERCEBO. Apesar de muitos pontos comuns, cada apoiante de Trump sê-lo-á pelos seus próprios motivos. Mas se antes de ser Presidente me custou entender-lhes os motivos (e, sobretudo, a ingenuidade), hoje, oito meses volvidos, não compreendo de todo. Como defender um ignorante do mais básico? Um mentiroso compulsivo? Um comprovado incompetente? Um egomaníaco? Um indivíduo que fomenta a divisão e o ódio entre americanos? Que não diz coisa com coisa quando lhe tiram o teleponto da frente? Que é alvo de risota no mundo inteiro? Que não consegue fazer aprovar quase nada do que prometeu? Que se rodeou de lunáticos, incompetentes, aldrabões, oportunistas? Que já foi obrigado a despedir — ou aceitar a demissão — de duas dezenas de membros da sua administração em pouco mais de meio ano de governação e a manter mais dois ou três que ainda lá estão porque não têm vergonha na cara? Que pediu a prisão de Hillary Clinton por ter usado indevidamente uma conta de email e agora está rodeado de gente que fez o mesmo? Que insiste em desvalorizar a intromissão russa nas eleições só porque foi beneficiado? Que, caso venha a ser acusado na trama russa, ameaça com um auto-perdão, extensivo a quem o rodeia? Que, se pudesse, já tinha calado os media que divulgam notícias que lhe desagradam? Que, face à recente tragédia de Porto Rico, se comportou de forma miserável, sem um pingo de humanidade? Bem sei que os apoiantes de Trump se limitam a atacar os seus adversários (nunca os vejo elogiar-lhe uma decisão, uma atitude). Mas mesmo assim continua a ser um insondável mistério. Haverá algo de bom no Presidente que não estou a ver? Se há, façam o favor de me dizer o quê.

28 de setembro de 2017

PRAZERES. Depois de o ter visto no Youtube há uns anos, voltei, agora apenas em áudio, a um programa da TVE ainda do tempo em que a televisão era a preto e branco. Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, Guillermo Cabrera Infante, Juan Carlos Onetti, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Salvador Dalí, Federico Fellini, Mario Benedetti, Ernesto Sabato e Gabriel García Márquez foram alguns dos entrevistados do programa A Fondo, que ouvi com o mesmo prazer da primeira vez. Essencialmente porque possuíam uma cultura vastíssima, experiências de vida notáveis, e tinham lido tudo o que era essencial — coisas que hoje se vêem pouco na generalidade dos escritores mais novos, como facilmente se constata nas entrevistas que dão e nos livros que escrevem.

24 de agosto de 2017

PROVOCAÇÕES DELIBERADAMENTE PERIGOSAS. Duvido que alguém que pratica a mentira como um desporto (o Washington Post contabilizou uma média de cinco mentiras diárias) consiga minar a credibilidade de quem quer que seja, que de um mentiroso só se espera que minta. Mas já me pareceu mais improvável que Trump consiga, com as suas constantes declarações incendiárias, criar um clima de violência contra os media de que não gosta (leia-se todos os que noticiam assuntos que lhe desagradam). Os ataques do Presidente ao que ele designa por «fake news» e inimigos da pátria são cada vez mais frequentes, cada vez mais violentos, cada vez mais perigosos — porque Trump sempre gostou de pôr todos contra todos, de instigar o ódio entre quem discorda do pensamento único (leia-se o dele). Como qualquer pessoa minimamente informada já terá percebido, nunca, como hoje, foi tão necessário um jornalismo competente e actuante, e se por vezes se cometem erros, no geral está bom e recomenda-se. Mas se continuo convencido de que Trump perderá a guerra com os media, cada vez me parece mais provável que não sem antes haver vítimas. Não vítimas resultantes de danos colaterais (chantagens, despedimentos, coisas assim), que também haverá. Falo de «vítimas a sério», resultantes de violência física, que neste momento só me espanta ainda não existirem. Trump demonstrou durante a campanha que é um sujeito perigoso, voltou a demonstrá-lo já eleito, confirmou-o nos últimos dias. Quase apostaria que, a suceder, será o primeiro a dizer que estavam mesmo a pedi-las.

15 de agosto de 2017

A MORTE SAIU À RUA. Olhando para a trajectória de Trump desde a campanha eleitoral até ao fatídico fim-de-semana passado, a reacção do Presidente aos acontecimentos de Charlottesville (fez umas vagas declarações a condenar a violência «de muitas partes» que depois, encostado à parede, corrigiu a contragosto) foi coerente com o que tem dito — e feito — até agora. Fosse o terrorismo da Virgínia (sim, o que se passou na Virgínia chama-se terrorismo) praticado por radicais islâmicos, e Trump andaria, e bem, para aí aos gritos. Como veio de onde veio, isto é, de racistas, supremacistas brancos, simpatizantes do nazismo e outros espécimes do género (tudo gente que o apoiou e com quem Trump simpatiza parcial ou mesmo totalmente), limitou-se a uma espécie de condenação burocrática e a mudar rapidamente de assunto. Claro que os acontecimentos da Virgínia, muito estimulados pela retórica de Trump e dos media de extrema-direita, podem ser um rastilho para mais violência. Mas estou convencido de que tiveram pelo menos o mérito (digamos assim) de mostrar a natureza de quem nos governa, de lançar dúvidas entre alguns dos seus crentes. Como se viu nas manifestações espontâneas que logo surgiram um pouco por todo o país, é clara a associação que se faz dos acontecimentos da Virgínia à trajectória de Trump. Quem duvida que o sujeito potencia comportamentos de ódio, terá ficado com menos dúvidas. Não é muito, mas já é alguma coisa.

8 de agosto de 2017

UM DESASTRE NUNCA VISTO. O Presidente Trump arranjou, finalmente, alguém ao seu nível. Um tal Scaramucci, a quem meia dúzia de dias de poder bastaram para demonstrar ser mais papista que o Papa. Depois de ter dito vezes sem conta amar o Presidente, coisa nunca vista talvez mesmo na Coreia do Norte, ameaçou «limpar» o gabinete presidencial, «matar» (metaforicamente, presume-se) os autores das fugas de informação — medidas que, juntamente com as declarações grosseiras à New Yorker, provocaram mais duas baixas no gabinete presidencial, que se vieram juntar ao general Flynn e a outras figuras menores, para não mencionar o despedimento de James Comey, ex-director do FBI (afastado em circunstâncias muito suspeitas), e o cada vez mais fragilizado Jeff Sessions, ministro da Justiça e procurador-geral, que depois de ter sido obrigado a afastar-se da investigação russa tem vindo a ser enxovalhado pelo Presidente sem que se perceba por que não o demite ou Sessions saia pelo próprio pé. Dez dias depois, Trump mudou a agulha, e Scaramucci já era. Agora estamos na fase do detector de mentiras, que a Casa Branca pondera usar como forma de acabar com as fugas de informação, que a concretizar-se levaria a gente que rodeia o querido líder a humilhar-se ou, se tiver coluna vertebral, a demitir-se (esperemos que o polígrafo não se aplique ao Presidente). E da Trump News, uma coisa inacreditável, própria de quem não tem um pingo de vergonha na cara e que não ocorreria nem ao jumento que manda na Venezuela. E hoje mesmo a cada vez mais atrevida Coreia do Norte, que o irresponsável que nos calhou em sorte perigosamente trata com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas. Tudo isto em seis meses e pouco, durante os quais a grande bandeira de Trump — acabar com o Obamacare — falhou três vezes, e o resto das medidas continuam em banho-maria ou encalhadas nos tribunais. Prognostiquei, na primeira hora, que Trump seria um desastre, e muitos pensaram que exagerei. Desculpem a presunção, mas hoje, face ao que já se conhece, se de alguma coisa me podem acusar é de ter sido excessivamente modesto.