8 de dezembro de 2007

A avaliar pelo relatório de uma Organização Não Governamental, estamos muitíssimo bem cotados no ranking da corrupção. Dois por cento dos portugueses inquiridos admitiram ter pago subornos para obter um serviço, diz o estudo da Transparency International. Não pondo em causa o rigor da investigação, devo dizer que dois por cento me parece pouco. É que basta olhar à nossa volta para se constatar que a realidade ultrapassa — e muito — esse número, e não me parece que a realidade que me rodeia seja diferente dos outros lados. Além disso, falamos de quê quando falamos de subornos? Do fulano altamente colocado a quem passamos um cheque com uma quantia pré-determinada? Do funcionário a quem mandamos um presunto lá a casa por nos ter resolvido um assunto complicado? Da conta do senhor doutor na mesa lá ao fundo? Ou das palmadas nas costas ao amigo ou conhecido antes de lhe pedirmos um favor? É bom sabermos do que falamos quando falamos de subornos. É que, se falamos de suborno em todas as suas variantes, quem nunca subornou que atire a primeira pedra.
Escassos dias após ter admitido a derrota num referendo que o manteria no poder por tempo indeterminado caso tivesse vencido, um gesto muito saudado pelos crentes na «revolução bolivariana», Hugo Chávez, o tal presidente que foi eleito, anunciou novo plebiscito com idêntico propósito. Claro que o presidente venezuelano não cometerá nenhuma ilegalidade caso avance para o acto que anuncia. Aliás, é sabido que o referendo é um instrumento democrático por excelência, e não me consta que na Venezuela haja limites ao seu uso. Assim sendo, nada impede que Chávez o use as vezes que achar necessário até alcançar o resultado que pretende. É que Chávez deve saber que não há nada mais difícil de combater que um ditador «legitimado» pelo povo.

6 de dezembro de 2007

«A Cordilheira dos Andes ergue suas torres de pedra. Nelas, durante séculos, bateram o vento e a chuva. Escorreu lava de vulcão. A neve cobriu tudo e depois desceu, rio veloz, até a planície. E o vento, sempre. Por aí passou Bolívar e seu Exército. Borba Gato e seu Exército. San Martín e seu Exército. As várias bandeiras, nas várias épocas, esfarrapadas. Os homens duros, empurrando os canhões molhados, fustigados pelo vento irredutível, pela chuva gelada, pela noite de mil cristais, pelas madrugadas de escarpas rubras, pelo pânico dos cavalos, pela solidão.» Tabajara Ruas, O Amor de Pedro por João

5 de dezembro de 2007

É possível que a democracia esteja doente, como disse um deputado comunista no Parlamento, mas não deixa de ser irónico o PC ralar-se com a democracia. Afinal, como já foi amplamente demonstrado em todo o lado, incluindo em Portugal, a primeira coisa que o PC faria caso o deixassem seria pôr fim à democracia. Pena é que haja quem não tome a sério a evidência.

3 de dezembro de 2007

É verdade que quem anda à chuva está sujeito a molhar-se. Mas arriscar uma manchete como a do Público, dando como certo um cenário ainda longe de se confirmar, é como jogar a roleta russa. Pedir desculpas pelo sucedido era, de facto, o mínimo que se impunha, mas as desculpas não apagam a péssima imagem que daí resultou.
Estranha Esquerda que precisa sair em defesa de Hugo Chávez e de tudo o que ele representa.

30 de novembro de 2007

A Sábado fez saber que os deputados portugueses no Parlamento Europeu gostam de ter familiares entre os seus assessores. Segundo a revista, Edite Estrela contratou o genro e a enteada, Capoulas Santos a filha, Manuel dos Santos o genro, Duarte Freitas o irmão, e Sérgio Matos a mulher. Tudo legal, pelos vistos. Já quanto ao mérito destas contratações, que alguns garantem ter estado na base da escolha, há razões para dúvidas, e de ética é melhor nem falar.
A avaliar pela considerável descida de leitores aqui no blogue durante o dia de hoje, a greve da função pública foi um sucesso. Aliás, este método de aferir a adesão à greve da função pública é bem capaz de ser mais certeiro que os métodos utilizados pelos sindicatos ou pelo Governo. Afinal, e para não variar, os sindicatos garantem que a greve rondou os 80%, enquanto o Governo se fica pelos 21%.

29 de novembro de 2007

Sim, a gente ouve falar numa professora britânica condenada a 15 dias de prisão seguida de expulsão do país (o Sudão) por ter autorizado que os seus alunos atribuíssem o nome de Maomé a um urso de brincar, e encolhe os ombros. É assim a cultura deles, a religião por aqueles lados é coisa de vida ou de morte, e podia ter sido pior. Fosse uma mulher de burka impedida de entrar numa escola europeia, e teríamos caso. Como não é, lamentamos — mas ninguém quer saber. A começar pelas feministas, que nestas ocasiões nunca se ouvem. É que, como sabemos, tudo é relativo, e hoje em dia a relatividade tudo explica e desculpa.
Recordações meteorológicas
Assino por baixo o que Pedro Correia escreveu sobre Luiz Felipe Scolari.

27 de novembro de 2007

Fernando dos Santos Neves, reitor da Lusófona, perguntou no DN: «Quem tem medo do Acordo Ortográfico?» Numa prosa manhosa e com partes a requererem segunda e terceira leituras para se entenderem, Santos Neves diz que «os receios e resistências» ao Acordo vêm de «patrioteiros valentões», de quem nunca foi «além de Badajoz», e dos que preferem continuar «orgulhosamente sós». Quanto a argumentos em defesa do Acordo, nem um. Por junto, o reitor limitou-se a dizer que é «inevitável», mas não explicou a sua necessidade. Vindo de quem vem, é pouco.

26 de novembro de 2007

Definitivamente que os técnicos que conceberam as mais recentes maquinetas de leitura não lêem um livro. Não lêem, nem aprenderam nada com os modelos anteriores, em alguns aspectos superiores aos actuais. Por exemplo, qualquer modelo mais antigo possui iluminação interior, possibilitando a leitura em ambientes escassamente iluminados — ou mesmo completamente às escuras. Nenhum dos recentes modelos (Sony Reader e Amazon Kindle) possui esta função. Aliás, como sucedeu com o Sony Reader, o agora lançado Amazon Kindle é mais um modelo falhado. Nem a ligação à Internet o salva — ou, sequer, o torna um concorrente de peso do modelo da Sony. Começa logo pelo design, a roçar o mau gosto. Em vez de aproveitarem ao máximo o espaço com o ecrã, como fez o Sony Reader, quase metade do dito é ocupado com uma infinidade de botões. Pior: à semelhança do Sony Reader, não se percebe a ausência de ecrã táctil, uma tecnologia cada vez mais em uso e que, no caso, faria uma enorme diferença, além de que teria evitado uma infinidade de botões. Mas o mais inacreditável de tudo é constatar-se que os fabricantes destes aparelhos não aprenderam nada com os modelos anteriores. Caso tivessem prestado atenção, teriam copiado o que estava bem, melhorado o que precisava de ser melhorado, e adicionado novas funcionalidades. E foi pena, pois o Sony Reader nunca me satisfez. Como, aliás, já aqui disse.

23 de novembro de 2007

Claro que os jornalistas têm o direito de fazer as perguntas que muito bem entenderem, incluindo perguntas parvas e a despropósito, mas o seleccionador também tem o direito de não gostar delas — e de reagir em conformidade. Não é assim? A avaliar pelas reacções, não é assim. Scolari é detentor de um cargo importante, e principescamente pago para o desempenhar. Deve, por isso, comer e calar, e não fazer ondas. Acontece que os regulamentos não o proíbem de dizer o que pensa, ou de discordar quando achar caso disso. Por muito que custe a alguns, são estas as regras do jogo. Posto isto, devo acrescentar, ainda, que em nenhuma ocasião me senti envergonhado com a postura de Scolari, mesmo quando não se portou como devia. Aliás, duvido que haja um único português que tenha razões para sentir vergonha de Scolari. Afinal, o seleccionador sempre fez o que achou melhor para a selecção, e os frutos estão aí para o demonstrar. Dizem alguns que os resultados não são tudo, que outros valores se levantam. Discordo. Se o seleccionador fosse uma excelente pessoa mas não tivesse resultados, há muito que teria sido despedido. Se a selecção que comanda jogasse bonito mas não alcançasse os objectivos, ninguém hesitaria em crucificá-lo. Como se vê por estes exemplos, a que se poderiam juntar muitos mais, as coisas são o que são. O resto pode ser muito bonito, mas só os resultados é que contam.
É normal um programa da RTP, no caso o Portugal no Coração, usar o hino nacional para se promover?

21 de novembro de 2007

De facto, não se percebeu a estratégia da Finlândia frente à selecção portuguesa, como lembrou Scolari. Quando seria de esperar que jogasse ao ataque, pois só a vitória lhe interessava, os finlandeses jogaram como se o empate chegasse. Quanto ao resto, safámo-nos. Podíamos ter ganho, mas também podíamos ter perdido. O seleccionador nacional tem razão em reagir da forma como reagiu. Afinal, que mais queremos? Bons resultados e melhores exibições? E por que não exigimos ser os melhores em tudo o resto?
O acordo ortográfico é «uma irresponsabilidade política, social, económica e geostratégica».

19 de novembro de 2007

O director da PJ afirmou, ao Expresso, que Portugal é «uma boa retaguarda» para os terroristas. «Somos uma boa retaguarda para todas essas pessoas. Somos um sítio de fuga, de esconderijo. Essas pessoas precisam de descansar, arranjar dinheiro e documentos. E nesse aspecto somos retaguarda», disse Alípio Ribeiro. Espera-se, agora, que os terroristas tenham ouvido a mensagem, e que os mais cépticos se tenham finalmente convencido de molde a abalar para o nosso país rapidamente e em força.
Um presunto para o Filipe Nunes Vicente.

16 de novembro de 2007

Como seria de esperar, o veto do presidente americano à proposta de Patrick Kennedy (o congressista propôs que o Governo federal financiasse o ensino da língua portuguesa nos EUA) causou grande alarido. Primeiro, porque a coisa veio de Bush, e vindo de Bush não pode ser coisa boa. Depois, porque a decisão é uma estupidez, e ofende os portugueses. Ora, um pouco menos de patriotismo idiota bastaria para ver a coisa de outra maneira. Por exemplo, o que se diria se o Governo português resolvesse gastar uns milhões de euros a ensinar os ucranianos residentes em Portugal a falar a sua própria língua? Ou a ensinar a escrever chinês aos chineses? Achariam bem? O que faz sentido o governo americano apoiar nos EUA é o ensino do inglês destinado aos emigrantes que têm dificuldades com a língua inglesa, sejam eles portugueses ou não. O resto é uma excentricidade. Uma excentricidade que nos dava jeito, mas uma excentricidade.
Não há dia que passe que os portugueses na Venezuela não sejam notícia pelas piores razões. Ou porque são assassinados, ou porque são raptados, ou porque são acusados de crimes vários. Não sou adepto das teorias da conspiração, mas há demasiadas coincidências para acreditarmos que estamos, apenas, perante coincidências.
Coincidência a tomada de posição do Conselho de Redacção da RTP face ao caso Rodrigues dos Santos precisamente no dia em que se anuncia a saída de Almerindo Marques? Pode ser. Mas por que levou tanto tempo o Conselho de Redacção da RTP a dizer o óbvio?
Independentemente das razões que possa haver para trocar «húmido» por «úmido» ou «facto» por «fato», o que eu gostaria de ver discutido é a necessidade de um acordo ortográfico. (O resto está aqui)

14 de novembro de 2007

Se «Chávez fez os possíveis por encerrar um canal de televisão venezuelano que lhe era desfavorável», diz Rui Tavares, «Juan Carlos não está isento de telhados de vidro». Como se vê, o relativismo serve para tudo, e tudo pretende explicar. Temos, assim, que o cronista do Público não distingue o aprendiz de ditador do rei de Espanha, o que só vem confirmar o velho ditado de que o pior cego é aquele que não quer ver.

12 de novembro de 2007

Pilhas de cartas e manuscritos descobertos após a sua morte revelam que Faulkner nunca abria a correspondência enviada por leitores e admiradores. Ao contrário, as cartas dos editores abria-as com todo o cuidado, não fossem elas conter um cheque e ficar inutilizado. Conrad odiava Dostoievsky por ser russo, e por achar que o autor de Crime e Castigo era louco e confuso. A simples menção do seu nome provocava-lhe ataques de fúria. Isto e muito mais em Written Lives, do espanhol Javier Marías (ignoro se existe tradução portuguesa), acabadinho de me chegar às mãos e que não hesito em recomendar.

9 de novembro de 2007

«Passei toda a manhã a corrigir as provas de um dos meus poemas e tirei uma vírgula. À tarde, voltei a pô-la.» Oscar Wilde, citado por Enrique Vila-Matas em Da cidade nervosa
Não me parece que falte aos portugueses «aquele sentido de pertença comunitária que impede a um britânico, a um alemão, a um canadiano ou a um australiano tirar vantagem pessoal de algo que está ao serviço da comunidade», como diz Miguel Castelo Branco (o post já tem alguns dias mas só hoje o li). O que falta aos portugueses são mecanismos que os obriguem a portarem-se de forma decente, e que lhes dêem com o sarrafo quando se portam mal. É isso o que sucede, por exemplo, nos países que aponta, não por causa do «sentido de pertença comunitária».

8 de novembro de 2007

Não discuto os motivos que levaram os sindicatos a marcar uma greve para o próximo dia 30, pois não estou informado de molde a ter opinião. Mas há um expediente a que os sindicatos invariavelmente recorrem que não acho sério e raramente vejo denunciado: as greves são sempre marcadas para as sextas-feiras, sem dúvida no intuito de convencer os mais cépticos.

5 de novembro de 2007

Que raio de país é o nosso onde se sucedem coisas destas? Claro que a situação de Maria Brandão seria grave mesmo que fosse caso único, mas quando não há semana em que não conheçamos casos destes, deixando adivinhar que muitos mais haverá que nunca chegarão aos telejornais, alguma coisa está muito mal com os organismos que decidem estas coisas. Fez bem o ministro das Finanças em mandar reapreciar o caso da funcionária pública. É que os portugueses precisam de saber que algo está a ser feito para que situações destas não se repitam — e, muito menos, se generalizem. Quanto aos profissionais que decidem estas matérias, o mínimo que se pode dizer é que se esperaria mais profissionalismo. Esperar-se-ia, para começar, que nos explicassem em que pressupostos assentou o veredicto de Maria Brandão — ou, então, que assumissem o erro. Mas não vale a pena ter ilusões. Por aquilo que se viu até agora, é melhor esperar sentado.

2 de novembro de 2007

Pedro Arroja meteu a cabeça na sanita. Haja quem puxe o autoclismo.

1 de novembro de 2007

Podem crer que não exagero se disser que já vi analfabetos com teorias mais sofisticadas contra os judeus que as do Pedro Arroja.

31 de outubro de 2007

O Executivo de Sócrates não tem vontade política para mudar a Casa Pia, diz o ex-ministro Bagão Félix. De facto, o processo Casa Pia está à beira de se tornar uma montanha que pariu um rato — se é que já não é. Pior: não só não houve condenados por pedofilia, como continua a praticar-se a pedofilia na maior das impunidades. Houve quem fosse acusado estando inocente? A ser verdade, é grave. Mas onde estão os culpados dos crimes da Casa Pia? Sim, porque houve crimes na Casa Pia, e para haver crimes supõe-se que tenha de haver criminosos. Passados quatro anos sobre a denúncia do caso, eis algumas perguntas que continuam por responder. Mais: há demasiadas perguntas e quase nenhuma resposta. Pelo caminho que as coisas estão a levar, provavelmente continuará a não haver daqui a mais quatro anos. Nem respostas, e talvez já ninguém se lembre das perguntas. Aliás, a estratégia da defesa parece ser essa: deixar que o assunto caia no esquecimento e termine em águas de bacalhau.

30 de outubro de 2007

«O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.» Eça de Queirós pela boca de Afonso da Maia, Os Maias

29 de outubro de 2007

Como nada tenho para dizer, a palavra a quem tem. Por exemplo, ao Francisco José Viegas (O terror em Angola), ao Nuno Crato (O eduquês envergonhado), e ao Joaquim Manuel Magalhães (Derrocada), os dois últimos graças aos bons ofícios do João Gonçalves.

25 de outubro de 2007

Não li Equador, nem tenciono ler Rio das Flores. Por razões que não vale a pena explicar, mas que se devem, sobretudo, ao escasso tempo para leituras, que me obriga a definir prioridades. Tenho, também, discordâncias de fundo com Miguel Sousa Tavares, mas não misturo o que não é misturável. Posto isto, fiquei com vontade de rever os meus planos de leitura e os pressupostos em que assentam as discordâncias com MST depois de ler esta ordinarice disfarçada de crítica. O que terá levado João Céu e Silva a escrever uma coisa tão baixa?

24 de outubro de 2007

Quatrocentas farmácias não cumprem a lei, diz o ministro da Saúde. Reparem bem: não é um cidadão qualquer que faz uma acusação destas, mas o ministro Correia de Campos. Perante isto, o organismo a quem cabe agir nesta matéria (o Infarmed) diz nada saber, e a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos diz saber outro tanto. Segundo o Público, o Infarmed garante ter agido em conformidade nos «poucos casos» que conheceu, e a bastonária diz que só conheceu um caso — e que terminou, assegura, devidamente punido. Por coincidência (presumo), no mesmo dia em que o ministro da Saúde divulgou este caso o DN noticiava que um farmacêutico do Porto decidiu vender vacinas «a preço de fábrica» e a prestações, mas logo veio o Infarmed dizer que é proibido. Como se vê, há transgressões e transgressões em matéria de lei. Umas detectam-se rapidamente, mesmo sendo excepções — ou, ao que parece, caso único; outras, sucedendo às centenas, não se conhecem.
Bem pode Jardim Gonçalves assumir a dívida da criação que o BCP está ferido de morte. É que, como se vê com mais este episódio, não há dia em que o BCP não seja notícia, e sempre pelas piores razões. Ainda pareceu que as mudanças na administração pusessem fim à balbúrdia, mas não. Como se constata diariamente, há demasiados problemas por resolver, e adivinha-se que outros surgirão a qualquer momento. Com certeza que não deve faltar por aí quem aproveite para meter o pauzinho na engrenagem mal surja a oportunidade, mas isso não desmente (ou desvaloriza) os factos conhecidos por todos.
Então não é normal que o novo líder da bancada laranja substitua os presidentes das comissões parlamentares por gente da sua confiança? O deputado Matos Correia, um dos afastados por Santana Lopes, acha que não. Segundo ele, «a única motivação para afastar as pessoas dos lugares só pode ser política». Ora, que outra motivação esperaria ele que fosse?
Isto é uma péssima notícia.

22 de outubro de 2007

Rodrigues dos Santos lançou «um romance que vai abrir os olhos de muitas pessoas para os gigantescos problemas que nos esperam». Segundo ele, «temos de estar preparados para o que aí vem, e só o poderemos estar se soubermos o que se passa». Estar preparado para o que aí vem e saber o que se passa é, no caso, ler O Sétimo Selo, a mais recente obra de Rodrigues dos Santos que, segundo ele, tem a particularidade de ter sido revista pelas «maiores sumidades portuguesas» em aquecimento global e energias renováveis. Disse mais o romancista sobre o miolo do livro: «os cientistas estão em pânico com as alterações climáticas», metade do planeta «vai transformar-se num deserto», e «o cidadão comum não tem noção disto». Temos, assim, que nada disto vai suceder graças ao livro de Rodrigues dos Santos. O cidadão comum vai ficar de olhos abertos após ler o romance, e não custa imaginar que quem for capaz de ler um livro destes sem pregar olho é capaz de tudo. De maneira que, caso não haja imprevistos de maior e a Humanidade não acabar até lá, temos Nobel na próxima colheita.

19 de outubro de 2007

Al Gore e Michael Moore têm uma coisa em comum: ambos se especializaram em documentários ficcionados. (O resto está aqui)

18 de outubro de 2007

O ideal seria que só alguns pudessem viajar, e que todos os viajantes fossem cultos e com cabedais de molde a poderem usufruir das coisas boas da vida. Como há os privilegiados e os outros, e como não é possível varrer da paisagem as hordas de labregos, a vida, às vezes, é uma chatice. Mas mais chato ainda, para mim, é a alergia aos labregos. Leio em Pensar (Vergílio Ferreira), por mera coincidência, que «o grande não diz mal do pequeno porque da sua altura não vê». Ora nem mais.

15 de outubro de 2007

Mafalda Azevedo, editora em Portugal de Doris Lessing, disse à RTP que a escritora mereceu o Nobel da Literatura porque é «de esquerda», porque aborda questões políticas e feministas, e porque é uma escritora «preocupada» e «activista» dos direitos das crianças. A Academia Sueca disse que Lessing é «um exemplar de experiência feminina», e que a inglesa «sujeitou uma civilização ao escrutínio» graças ao seu «poder visionário». Como se vê, nenhum deles falou do que seria normal falar-se nestas ocasiões: da qualidade literária do premiado. Não que Lessing, de quem nunca li um parágrafo (e não tenho, por isso, opinião), não mereça a distinção. O meu problema é que a qualidade literária conta pouco, ou nada. O que conta é a «mensagem», o activismo, a política — e da qualidade literária nunca se fala. É por isso que, tirando o negócio, o Nobel das letras se vai tornando cada vez mais irrelevante. Pior: pelo caminho que as coisas estão a levar, não tarda que os laureados sejam desprezados por ostentarem tal título.

11 de outubro de 2007

Acusado, pela ERC, de ter contratado jornalistas sem ouvir o Conselho de Redacção, o director de Informação da Lusa respondeu que tal se deveu a um lapso. Ora, quem acredita que coisas destas sucedem por lapso? Alega Luís Viana que os membros daquele órgão não cooperam com a direcção. A ser verdade, isso dá-lhe o direito de passar por cima das regras? Quando é que esta gente mete na cabeça que os cargos políticos não estão acima da lei?
Que os governos sejam bons ou maus, é coisa que não importa. O que importa, para o Daniel Oliveira, é que os governos sejam de esquerda, e «contrários aos interesses dos EUA». Infelizmente, não estou a inventar nada — nem, sequer, a exagerar. Foi tudo claramente dito aqui, e não foi propriamente uma surpresa. Surpresa seria se ele dissesse que os bons governos são os que melhor servem os países e os cidadãos que os elegeram, e que os «interesses dos EUA» e dos outros nem sempre são antagónicos.

9 de outubro de 2007

A Administração da RTP diz que Rodrigues dos Santos vai ter que fundamentar, presume-se que em tribunal, as acusações que fez na entrevista à Pública. Até aqui, tudo bem, embora se saiba que assuntos destes nunca se provam e raramente dissipam dúvidas. O caricato da coisa é que os mandarins da televisão pública resolveram, em comunicado redigido num português medonho, tratar Rodrigues dos Santos por «empregado», fazendo questão de lembrar que o jornalista não passa de um mero assalariado de suas excelências cujo futuro naturalmente depende de suas excelências. Até pode ter razão a Administração da RTP, mas o tratamento que está a dar a um dos principais rostos da televisão pública não dignifica a instituição que dirigem.
Fico de pé atrás sempre que o Governo é acusado de comportamento autoritário, e não falo, apenas, deste Governo. Não que eu não ache que não tenha havido comportamentos autoritários, deste ou doutros governos, mas porque geralmente acusações deste tipo são feitas por quem tem interesses na matéria ou não merece confiança — além de as acusações serem, quase sempre, exageradas. A ser verdade o que diz a governadora civil de Castelo Branco, a visita da PSP ao sindicato que preparava um protesto contra o Governo deixa de ter o significado que lhe atribuem, e não tenho motivo para duvidar da senhora. Além disso, se a ideia era intimidar os sindicalistas, torna-se difícil acreditar num expediente tão mal-amanhado. Afinal, qualquer aprendiz de política seria capaz de prever que as buscas da polícia terminariam na praça pública e por beneficiar quem pretendiam intimidar, não é?

5 de outubro de 2007

Goste-se ou não da ideia, a eleição do líder de um partido político directamente pelos seus militantes é mais democrática que a eleição pelo método dos delegados. (O resto está aqui)

4 de outubro de 2007

Nunca escondi o meu nulo entusiasmo por Luís Filipe Menezes, mas há uma coisa que ele merece: o benefício da dúvida. A avaliar pelo que vai por aí, não é isso o que vai suceder. Menezes já é um mau líder ainda antes de o ser, tal como o Governo de Santana Lopes já era mau ainda antes de se conhecer. Não que isto seja mau para o novo líder social-democrata, pois quando as expectativas são baixas, tudo o que de bom fizer é lucro. Mas é do senso comum ver primeiro, e falar depois.
As «virtualidades» da Leonor Pinhão.

2 de outubro de 2007

Como não bastassem as manobras de diversão dos últimos dias, anuncia-se o afastamento do coordenador da investigação do caso Madeleine após este ter acusado a polícia britânica de investigar «unicamente» pistas e informações «trabalhadas» pelos McCann. O tal coordenador que, recorde-se, a imprensa inglesa acusou de gostar pouco de trabalhar e de beber em demasia. Provavelmente o homem falou mais do que devia, pois tudo indica que o erro dele foi dizer o que a conveniência manda calar. Seja lá como for, o afastamento de Gonçalo Amaral beneficia objectivamente a tese de que a investigação deve seguir determinado caminho e não outro.
Cuba não é «o Inferno na terra», garante o Daniel Oliveira. «O Inferno na terra» é, para ele, os Estados Unidos, onde uma sondagem diz que «quase metade dos americanos não votaria num ateu». Acontece que o «Inferno na terra» de que fala o Daniel é precisamente o país para onde os cubanos fogem cada vez em maior número, como dá conta esta notícia.

1 de outubro de 2007

Como já me fizeram notar, o meu blogue não tem espaço para comentários. Por várias razões, que passo a explicar. Primeiro, quem quiser fazer comentários que os faça enviando-me um e-mail. Depois, as caixas de comentários significariam mais trabalho, e já me escasseia o tempo para posts. Por último, cansei-me de insultos. Como julgo suceder com outros bloggers, grande parte dos comentários que recebo são meros insultos, alguns com a particularidade de me serem enviados por sujeitos que conheço (e me conhecem), que preferem o anonimato para me dizerem o que sob nome próprio não se atrevem. Ora, se há criaturas que me merecem desprezo são as que nem coragem têm para dar a cara por aquilo que pensam, quem insulta sem nunca apresentar argumentos. É que insultar não custa nada, e ainda menos quando os insultos são feitos a coberto do anonimato. Já apresentar argumentos, dá trabalho — e é preciso tê-los.

28 de setembro de 2007

Se Marques Mendes se inspirasse «na firmeza de Sá Carneiro, no saber de experiências feito e no rigor de Cavaco Silva, na versatilidade de Marcelo e na destreza política de Durão Barroso», como escreveu Vasco Graça Moura no DN, teríamos um super-líder do PSD e não o líder que hoje deixou de ser. Aliás, a vitória de Luís Filipe Menezes demonstrou isso mesmo: os militantes fartaram-se da liderança de Marques Mendes exactamente por considerarem que Marques Mendes não é nada do que diz Graça Moura. Se Luís Filipe Menezes é, ou não, a alternativa ao actual líder, só o tempo dirá. Por mim, as dúvidas são mais que muitas. Aliás, quer-me parecer que a vitória do autarca de Gaia é o estímulo que faltava para a criação de um (novo) partido de Direita.

27 de setembro de 2007

Duvido que mais algum político no activo tivesse a coragem demonstrada por Santana Lopes ao abandonar a entrevista à SIC Notícias. Contrariamente ao que diz a estação de Carnaxide, a atitude do ex-primeiro-ministro não foi desproporcionada. Desproporcionada (e prepotente) foi a reacção da SIC ao vir dizer que o incidente não vai alterar a sua linha editorial, quando se esperaria um pedido de desculpas. Espera-se, ao menos, que o episódio lhe sirva de lição. À SIC, e às outras televisões.

26 de setembro de 2007

O clima instalado fazia prever que os «nossos rapazes» que disputaram o Mundial de râguebi iriam ser recebidos como heróis. Não que tenham feito um brilharete na prova, onde perderam todos os jogos e quase sempre por mais que muitos, mas porque... Bom, para dizer a verdade, não sei porquê. Aliás, tirando os indefectíveis da modalidade, desconfio que ninguém percebeu porquê. Cantavam o hino com vigor? Bonito. Foram exemplos de fair play? Excelente. Deram o que tinham e o que não tinham? Perfeito. Mas... e o resto? A única coisa que se exige a uma selecção numa competição desta envergadura é que sejamos uns gajos porreiros? É claro que «a onda» à volta da selecção de râguebi é simpática e muito saudável, mas não exageremos. Afinal, o que se diria da selecção caso a modalidade fosse outra e os resultados idênticos?

24 de setembro de 2007

Era só o que faltava que Ahmadinejad fosse autorizado a visitar o Ground Zero. Como entenderiam as famílias dos que lá morreram a excursão do presidente iraniano? Como não tomar a coisa como um insulto ao povo americano? Depois, que outra razão haveria para Ahmadinejad visitar o local que não a mera propaganda? Já quanto à conferência na Columbia, onde o reitor fez um discurso notável (disponível aqui), nada a dizer. Uma universidade privada tem o direito de convidar quem muito bem lhe apetecer e tomar as posições que entender, goste-se ou não. Claro que não escondo que gostei do rumo que as coisas levaram. Afinal, também eu receei que a conferência da Columbia se transformasse numa tribuna para o presidente iraniano dizer o que lhe apetecesse perante a passividade geral. Como se viu, sucedeu precisamente o contrário: Ahmadinejad foi alvo de um autêntico massacre, acabando o tiro a sair-lhe pela culatra — e arrependido de lá ter posto os pés.

20 de setembro de 2007

A selecção portuguesa de basquetebol que competiu no último Europeu limitou-se a não ser tão má como dantes — mas diz-se que fez uma grande figura. Agora, a selecção portuguesa de râguebi apanha cabazadas atrás de cabazadas — e garantem que foi um sucesso a participação no Mundial. O mais espantoso disto tudo é que a regra não se aplica ao futebol, onde não se aceita que a selecção não esteja ao nível das melhores — e chega a ser trágico ficarmos em segundo lugar num Europeu ou em quarto num Mundial. Está tudo doido, ou sou eu que não percebo?
O episódio que envolveu o seleccionador nacional de futebol e um jogador sérvio foi aproveitado por uns para desopilar o fígado, e por outros para se posicionarem na corrida à sua sucessão. (O resto está aqui.)

18 de setembro de 2007

Não sei se o novo Código Penal entrou em vigor sem que a máquina estivesse pronta para o receber, e se a situação é tão dramática como alguns dizem. O que sei é que a confusão instalada não deixará de ajudar quem, no caso Madeleine, aposta em todos os meios que possam descredibilizar a investigação — e o que resta da Justiça portuguesa. Repare-se no que hoje disse o porta-voz dos McCann: a mera suspeita de envolvimento dos pais na morte da filha «é tão inacreditável quanto disparatada», e «daria vontade de rir» caso a suspeita não fosse tão grave. E ainda o senhor Mitchell desconhecia, presumo, as reacções da Justiça ao novo Código Penal. Quando tomar conhecimento de que a Judiciária desconhece o novo Código, que os funcionários judiciais não receberam qualquer directriz sobre a nova lei e que os magistrados não conseguem chegar a uma «uniformidade de critérios e procedimentos», é que vão ser elas.

17 de setembro de 2007

Não há jornal que se preze que não tenha zurzido nos media por causa de Madeleine. O curioso é que as críticas se destinam aos outros, que invariavelmente criticam os outros. Como ninguém chama os bois pelos nomes, e nunca — mas nunca — incluem nas críticas os jornais em que escrevem, ninguém sabe de quem falam quando falam dos outros. Entretanto, os jornais, incluindo os jornais que publicam as prosas de que falo, fazem o que podem e o que não devem para manter o assunto «atraente». Naturalmente que há excepções, só que ainda não vi onde.
«Segundo o relativismo ignorante, ninguém pode dizer se uma música é boa ou não. É tudo uma questão de gosto. Depende das circunstâncias. Depende da idade. Às vezes sabe bem uma coisa que, noutra altura, sabe mal. Cada um é como é e aquilo que agrada a um ... perdoem-me se me fico por aqui no blá blá blá.
Tem ou não tem graça como esta atitude coincide exactamente com a conveniência comercialista do cliente ter sempre razão; que os números não mentem; que os ouvintes é que sabem; que os anunciantes é que pagam e quem somos nós para dizer que não está bem assim?
O pior é que esta humildade é uma subserviência e este deixar decidir, este respeito pelos gostos dos outros, é uma gulosa cobardia.»

Miguel Esteves Cardoso, Público
Um verdadeiro serviço público.

14 de setembro de 2007

Luiz Felipe Scolari errou e, por isso, deve ser castigado? Sem dúvida. Mas que mal fizemos nós para aturar chusmas de moralistas de ocasião, que na hora do pugilato se algum mal viram na cena foi ter ficado por ali? O episódio de Scolari ralou-me, não digo que não, mas cá vou sobrevivendo. Já estes cavalheiros obrigam-me a ter sempre à mão um saco para o enjoo.

13 de setembro de 2007

É pena que a prosa de Alexandre O’Neill — Uma Biografia Literária não se distinga pela elegância formal. Pena porque O’Neill merecia melhor, muito melhor. Chega a ser penoso ler algumas passagens, e confesso que ainda não desisti porque o assunto me interessa.
Assuntos prioritários remeteram para dias mais calmos temas como este, que só hoje li. Como não perdeu actualidade, e porque julgo haver quem se interesse pelo assunto que ainda não leu, aqui fica a referência.
Onde quer se descobre um patriota.

12 de setembro de 2007

Contrariamente ao que se diz por aí, acho lamentável que o Vaticano tenha apagado as notícias sobre o desaparecimento de Madeleine do site que mantém na Internet sem dar uma explicação. Concluiu o Vaticano que procedeu erradamente? Nesse caso, ficar-lhe-ia bem uma explicação. Fazer de conta que não existiu o que toda a gente viu, só revela esperteza saloia. Além de que esconder os erros é quase sempre pior que assumi-los.
O Francisco descobriu a receita para emagrecer.

11 de setembro de 2007


Por que é que os filhos da puta nos querem matar?

10 de setembro de 2007

A enviada da RTP à Inglaterra para acompanhar o caso Madeleine diz que há um volte face da imprensa inglesa. Isto é, depois de alinhar ao lado dos pais da criança, a imprensa inglesa já questiona o comportamento dos McCann. Depois, para sustentar a tese do volte face, a jornalista socorre-se de um testemunho ouvido num fórum de rádio. Temos, assim, que um simples participante num fórum de rádio bastou para Sandra Felgueiras concluir que há um volte face da imprensa britânica. Mas há mais: na intervenção que fez no Prós e Contras, a jornalista foi toda convicções e sentenças por interpostas pessoas que não identificou e cujo valor representativo se desconhece. Infelizmente, um caso corriqueiro de mau jornalismo. Como, aliás, salientou o director do Expresso, ao dizer que se tratou de «uma peça totalmente orientada».
Ora nem mais.

7 de setembro de 2007

Moita Flores insiste que há uma campanha destinada a descredibilizar todas as hipóteses que não apontem para o rapto da pequena Maddie. Uma campanha, segundo ele, dirigida pelo «próprio governo inglês», uma «poderosa teia que denegriu Portugal e a polícia». Mas, depois, notícias recentes dão conta que um laboratório britânico chegou a resultados que se afastam da tese do rapto, e fica-se baralhado. Não, não simpatizo com teorias da conspiração — o que não quer dizer, evidentemente, que não as haja. Não simpatizo porque raramente vão além da suposição, do palpite, da fezada. Quanto a factos, nem um para amostra.

6 de setembro de 2007

Era só o que faltava que não tivessem sido cumpridos os requisitos necessários à realização das análises de sangue referentes ao «caso Madeleine» efectuadas em Birmingham, e que por esse motivo os resultados dessas análises não venham a ter qualquer valor jurídico, como já se diz por aí. Não fosse a hipótese ter sido aventada por um académico (um professor de direito penal da Católica cujo nome não me ocorre), diria tratar-se de uma anedota de mau gosto. É que um erro destes nem a amadores se admite, pelo que só podemos estar diante de uma hipótese meramente académica.
Graças ao mérito próprio (vitória sobre a Letónia) e à desgraça alheia (derrota da Espanha frente à Croácia), parece que «fizemos história». E a história que fizemos, vale a pena lembrar, deve-se à qualificação da selecção portuguesa de basquetebol para a fase seguinte do Europeu, onde vai defrontar a Rússia, Israel e a Grécia. Ora, a ser assim, onde está o motivo para tanto foguete? Afinal, Portugal limitou-se a demonstrar que já não é tão mau como antigamente, não é?

5 de setembro de 2007


Experimentem O salutaris hostia e vejam se não é divino.

4 de setembro de 2007

Não sei quem tem razão na disputa que opõe o Ministério da Educação aos sindicatos dos professores por causa dos docentes «que não foram colocados», mas é provável que ambos tenham alguma e nenhum a tenha toda. Percebi, porém, as razões da ministra da Educação, mas já não posso dizer o mesmo dos sindicatos. A ministra diz que o Estado não pode empregar professores de que não necessita — o que, a ser verdade, é um argumento que se entende. Já os sindicatos dizem que isso não é verdade, que o ensino público precisa de mais professores — mas não dizem onde nem porquê. Há outro aspecto também evidente: existem professores a mais para as necessidades, públicas e privadas, e o Estado não tem que lhes dar de comer. A ser verdade o que diz a ministra (Maria de Lurdes Rodrigues diz que o ensino público tem um professor por cada onze crianças no primeiro ciclo e um professor por cada sete estudantes no secundário), o ensino público está, em termos de quantidade, muitíssimo bem servido de professores. Aliás, que países do primeiro mundo se podem gabar de tais números?
Continuo sem perceber por que razão os portugueses falam de Ingrid Betancourt quando falam dos presos em poder das FARC e nunca — mas nunca — falam do cidadão luso-americano Marc Gonçalves, também preso pelas FARC. Será, apenas, por ignorância? Ou será porque Marc Gonçalves não tem pedigree?

31 de agosto de 2007

Vista a entrevista, devo dizer que não aprecio a forma utilizada por Mário Crespo, pelo menos a forma utilizada para entrevistar Gualter Baptista — por quem, devo acrescentar, não nutro a mais leve simpatia. É que aquilo não foi bem uma entrevista, mas um interrogatório. Um interrogatório em que me revejo nos argumentos, mas um interrogatório. E uma entrevista não é — não pode ser — um interrogatório. Pacheco Pereira, que aplaudiu a forma como a entrevista foi conduzida, devia lembrar-se disso. Não podemos aplaudir os métodos quando eles servem os nossos propósitos, e condenar quando não nos convém.
O secretário-geral da Associação Sindical Independente de Agentes da PSP atribuiu aos baixos salários praticados por aquela corporação o eventual envolvimento de agentes daquela polícia em esquemas de segurança privada. Ernesto Rodrigues acha que não haveria a tentação de ganhar uns dinheiros na segurança privada caso «os salários [dos agentes da PSP] fossem decentes», coisa que não acontece por culpa do Governo. Ora, por mais bem-intencionado que seja, o pressuposto do sindicalista é um absurdo inadmissível. É que, a verificar-se esta lógica, qualquer cidadão que não tem um «salário decente» tem o direito de recorrer a expedientes à margem da lei para aumentar os seus rendimentos, e de um agente da lei espera-se tudo — menos que a transgrida. Há, depois, outro problema. O que é um salário decente? Desde quando um salário decente impediu alguém de fazer uns biscates para aumentar a mesada? Não sei se os agentes da PSP são, ou não, mal pagos, mas não me custa acreditar que sim. Mas daí até desculpar o que não tem desculpa, vai um abismo.
Como não está em linha, não resisto a transcrever parte do editorial da Sábado de ontem.
«De tempos a tempos, como aquele adepto do FC Porto, o SIS põe a cabecinha de fora e tenta aparecer na fotografia. Faz sempre má figura. Há dias surgiu um relatório sobre o Ecotopia, o acampamento de onde supostamente saiu o grupo que destruiu um hectare de milho transgénico em Silves. Primeira dúvida: o que faz o SIS à volta do Ecotopia? Um grupo de hippies cometeu um crime, certo, mas convenhamos: não estamos propriamente perante aquilo a que a lei chama "sabotagem, terrorismo, espionagem e prática de actos que, pela sua natureza, possam alterar ou destruir o Estado de direito constitucionalmente estabelecido". Segunda dúvida: tendo o SIS andado à volta do Ecotopia, como é que não percebeu o que ia acontecer?
Os nossos espiões reapareceram pouco depois com declarações sobre a eventual presença da ETA em Portugal. E pelo que se lê percebe-se que as únicas informações que têm são conhecidas de toda a gente que compra jornais.
Convém esclarecer, para não haver confusões com os traumatizados de Guantánamo: o problema não é Portugal ter um serviço de informações; o problema é, como salta à vista, não ter

30 de agosto de 2007

Apesar de a minha conta bancária ter menos zeros à direita do que eu gostaria e de nunca me passar pela cabeça tornar-me accionista, pondero suspender a minha relação com o BCP. Posso estar enganado, mas não deve faltar por aí quem esteja a pensar o mesmo que eu — ou quem já tenha ido mais longe do que eu. É que o circo montado à volta de que manda no BCP excedeu o razoável, e não augura nada de bom. Quando seria de esperar contenção e o máximo de descrição, os cavalheiros desdobram-se em declarações incendiárias aos media. Quando se recomendaria bom senso e um esforço de consenso, cada vez se entrincheiram mais nas razões que dizem ter. Entretanto, a forma como se movimentam indicia que, para eles, os clientes — pelo menos os pequenos clientes — não contam. Assim sendo, é provável que eu deixe de contar com eles.

27 de agosto de 2007

Parece que há uma conspiração à volta do caso Madeleine, diz Moita Flores no Correio da Manhã. Segundo ele, «serviços de contra-informação» comandados pelo «próprio governo inglês» estarão «activamente a trabalhar para destruir a credibilidade de qualquer outra resposta para o caso que não seja a hipótese do rapto». Infelizmente, Moita Flores não entra em detalhes sobre o que designa por «monumental burla», e devia. Devia porque afirmações destas são demasiado graves para ficarem pela mera insinuação, e a ausência de detalhes apenas serve para alimentar a especulação e enfraquecer a teoria.

24 de agosto de 2007

O DN publicou um artigo sobre a Wikipédia onde se diz: devido às sucessivas manipulações, «a credibilidade da enciclopédia online começa a ser posta em causa». Ora, desde quando a Wikipédia foi uma enciclopédia credível?

22 de agosto de 2007

Luís Filipe Menezes acha «ridículo» que se tenha criado um caso por causa de um plágio, pois considera «irrelevante» o facto de fazer passar por seus textos que não são seus. Mais: o candidato à liderança do PSD garante que o «blogue pessoal» que mantém na Internet não é feito por si mas por um assessor. Reparem bem: um «blogue pessoal» feito por um assessor, provavelmente caso único no mundo e a merecer entrada no Guinness. Mas há mais. «Uma fonte da candidatura» do autarca garantiu que a não identificação do local onde os textos foram subtraídos se deveu a um «lapso», embora «quem lê esses textos percebe perfeitamente que não são da autoria de Luís Filipe Menezes». Como se vê, as explicações são tão fracas que nem a boa vontade as tomaria por boas. Há, ainda, um curioso episódio. Segundo o Público, os textos publicados no blogue até à data da notícia terminavam dizendo que Menezes era o seu autor, e após a notícia «estourar» passaram a dizer que Menezes era, apenas, o responsável pela sua publicação. Ou seja, alguém se apressou a emendar a mão logo que foi dado o alarme, fazendo lembrar o caso do engenheiro que não era engenheiro e acabando por demonstrar que, afinal, o assunto é muito mais que «ridículo» ou «irrelevante». De facto, o caso configura uma situação em que alguém se apropriou do que não lhe pertencia, e não há volta a dar-lhe. Nem volta a dar-lhe, nem explicação que demonstre que assim não foi.

21 de agosto de 2007

A filha do presidente angolano vai processar o DN por aquilo que considerou «má prática jornalística» nas duas reportagens publicadas por aquele jornal, diz a Lusa. O estranho da notícia é que os advogados de Isabel dos Santos afirmam não estar em causa «a veracidade ou não dos factos desenvolvidos na notícia», e mais estranha se torna quando se constata que a Sábado da última semana concedeu, ao abrigo do Direito de Resposta, duas páginas aos mesmos advogados de Isabel dos Santos para estes contestarem uma reportagem publicada por aquela revista que os causídicos acharam conter incorrecções. Coincidência o facto de haver erros nas três reportagens que justifiquem um processo ou o uso do Direito de Resposta? Ou haverá aqui mais alguma coisa?
Por que razão nunca se fala do luso-americano Marc Gonçalves quando se fala dos reféns em poder das FARC? Por que razão o Governo português nunca se interessou pelo caso?
Miguel Portas mudou de ideias sobre o caso do milho transgénico e resolveu assumi-lo. A coisa não teria importância caso fosse uma prática corrente entre nós. Como não é, o gesto merece referência.
Luís Filipe Menezes fez passar por seu aquilo que não era seu.
O que terá a entrevista de Mário Crespo ao DN de tão heróico que não vislumbrei?

20 de agosto de 2007

Cada vez me parece mais evidente que a famosa central de comunicação do Governo de Sócrates é uma montanha que pariu um rato. Como se confirma com o episódio da Wikipédia (e com toda a novela da licenciatura do primeiro-ministro), a dita central funciona de forma tão atabalhoada que chego a duvidar que esteja nas mãos de profissionais competentes e experimentados.

17 de agosto de 2007

Um ligeiro problema de saúde e a participação num júri que decidiu o destino de um sujeito acusado de cometer dois crimes mantiveram-me afastado da blogosfera mais do que eu desejaria. Retomarei o ritmo habitual a partir da próxima semana.
Tempo quente

15 de agosto de 2007

«A seita dos saudáveis. É uma agremiação como a dos escuteiros, dos desportistas, das testemunhas de Jeová, dos comunistas até há pouco e assim. Não beber, não fumar, evitar a carne e sobretudo as gorduras, dar preferência aos vegetais, comer pouco e várias vezes ao dia mesmo sem apetite, deitar cedo, fazer exercícios, evitar o sedentarismo, vigiar o peso, a tensão arterial... Sim. Mas para que é que eles querem a vida, se não é para a utilizarem? Lembram os que compram roupa mas guardam-na e não a usam. O seu objectivo na vida não é viverem-ma mas cifrar a felicidade ao simples facto de a terem. São exemplares à vista — magros, direitos, ginasticados. Mas não tiram proveito disso, excepto o de serem saudáveis à custa de muito martírio. Ou seja, o de poderem gozar a vida na sua maior amplitude, que apenas é poder. A seita dos saudáveis. Vejo-os com frequência na TV. Mas tiro-lhes o som e ficam mais enfermiços.» Vergílio Ferreira, em Pensar

14 de agosto de 2007

«A arte é a apoteose da solidão.» Samuel Beckett, citado por Richard Davenport-Hines em Proust at the Majestic

10 de agosto de 2007

Decididamente que o transporte de Porto caseiro das berças para a América não me está a correr bem. Depois de ter estado à beira de ficar sem nove garrafas do dito (episódio contado aqui), uma garrafa mal arrolhada inundou-me uma mala e demolhou-me meia dúzia de livros, entre eles um João de Araújo Correia, que há-de estar a rir-se lá onde estiver. Nada de irremediável no que aos livros respeita, mas já não posso dizer o mesmo quanto ao resto. É que o resto, meus amigos, era um Porto que valia bem uma missa.

8 de agosto de 2007

Na FNAC do Porto, secção dos livros, uma funcionária pergunta a um colega: «É de quem A Cidade e As Serras