19 de fevereiro de 2009

PRIMATAS. Custa-me a crer que alguém de quem se espera um pensamento um pouco mais elaborado nos venha dizer que gosta de «malhar na Direita», como fez o ministro Santos Silva. Não que eu espere grande coisa dos políticos ou dos governantes, e menos ainda em termos de pensamento político, mas parece-me razoável esperar que eles sejam um pouco mais sérios (no caso de estarem a mentir), ou um pouco mais cultos (no caso de ser ignorância). Quem, tirando os indefectíveis, não reconhece boas e más ideias à Direita e à Esquerda? Quem está honestamente convencido de que o Bem está de um lado e o Mal do outro? «Malhar» no outro, no caso na Direita (mas podia ser na Esquerda), porquê? Porque a Direita é intrinsecamente má e a Esquerda intrinsecamente boa? A julgar pelo que disse o ministro, sobretudo a forma como o disse, não há dúvida que assim pensa. Ora, isto demonstra que o pensamento do sr. ministro ultrapassa o que se designa por um pensamento primário. Isto, sr. ministro, é um pensamento de primatas.
HOLOCAUSTO. Negar o Holocausto, só por ignorância ou má-fé. Se o primeiro motivo não é aceitável, o segundo é abominável. (O restante está aqui.)

17 de fevereiro de 2009

TALVEZ PODER. Não sei se é o sistema informático que não funciona (ou funciona mal), como garantem, ou se é má vontade dos srs. juízes. O que me parece evidente é que tudo o que se apresente como visando melhorar o funcionamento da Justiça acaba por atrapalhar. É certo e sabido que as reformas significam sangue, suor e lágrimas. É, portanto, natural (e compreensível) que os atingidos por essas reformas resistam como podem. Não sei se é o caso dos srs. juízes face ao novo sistema informático. Mas, se for, vai ser difícil mudar o que quer que seja. É que os srs. juízes, como se sabe, podem muito. Na minha opinião, muito mais do que deviam.
PELA BOCA MORRE O PEIXE. Nada impede um treinador de futebol de criticar o trabalho de um colega de profissão, mas quando há indícios de que o crítico aspira ao lugar do criticado, as coisas mudam de figura. Por mais razões que existam para o criticar, dizer-se que Carlos Queiroz cometeu um erro ao não chamar os jogadores mais experientes, como disse Manuel José, não é bonito — e traz, obviamente, água no bico, pois não é segredo para ninguém que Manuel José aspira ao cargo ocupado por Queiroz. Como não é segredo para ninguém que o actual seleccionador visava o lugar de Scolari quando criticava o seu antecessor. Resta a consolação que Queiroz tem, neste particular, o que merece, como merecerá o seu sucessor caso vá pelo mesmo caminho.

13 de fevereiro de 2009

OBAMA. Terminou o «estado de graça» do presidente Obama, e dizer isto é dizer pouco. Os inúmeros «casos» já conhecidos demonstram que Obama se rodeou de «gente do sistema», diria mesmo demasiado do sistema, e não gente capaz de o mudar, como prometeu. Sem fazer grandes ondas, o mínimo que se pode dizer nesta altura é que Obama foi ingénuo, e a ingenuidade é uma coisa estimável num cidadão comum, mas péssima num presidente. Sobretudo quando atravessamos um tempo excepcional que requer medidas excepcionais, como ele gosta de dizer. Pode ser que me engane (espero, sinceramente, que me engane), mas isto não augura nada de bom. Aliás, o mercado reagiu com desconfiança ao plano de estímulo económico de Obama, quando se esperaria o contrário.

12 de fevereiro de 2009

KINDLE 2. Como utilizador regular de leitores de livros electrónicos (já vou na terceira versão), deveria receber com entusiasmo a notícia do lançamento do novo modelo da Amazon (o Kindle 2). Por razões que passo a explicar, não foi assim. Uma rápida vista de olhos à maquineta bastou para confirmar o que eu já sabia: nada de essencial mudou, pelo menos o que eu reputo de essencial. A maquineta continua sem ecrã táctil e sem iluminação interior, e o espaço reservado ao ecrã permanece subaproveitado (a área dos botões podia ser usada pelo ecrã, tornando-o maior). Resumindo, nada de realmente importante mudou em relação ao modelo anterior, muito menos em relação à concorrência. Aliás, o novo Sony Reader, principal concorrente do Kindle, colmatou, precisamente, duas falhas que apontei: introduziu o ecrã táctil e a iluminação interior, embora a solução encontrada para esta última função deixe muito a desejar. Utilizo o primeiro modelo da Sony praticamente desde que foi lançado. Como disse então, está muito longe de ser um modelo perfeito, e chega a parecer que os seus criadores nunca leram um livro na vida — além de nem sequer se terem dado ao cuidado de copiar o que estava bem em modelos anteriores, como também disse na altura. Mas não tenho uma única razão para o trocar por qualquer um dos recentes modelos, muito menos o modelo da Amazon, e quando digo isto refiro-me, apenas, às funções essenciais, as que realmente podem fazer a diferença. Por mais interessantes que sejam as alterações introduzidas, só mudaram o visual. Passou a ser mais bonitinho, passou a ser mais levezinho, mas continua igualzinho no que interessa.

10 de fevereiro de 2009

DAS BOAS INTENÇÕES. Investigar a investigação ao «caso Freeport», para colocar a coisa de forma a que todos entendam, seria uma boa ideia. Digo «seria uma boa ideia» e não que é uma boa ideia porque falamos de Portugal, onde estas coisas costumam acabar em nada e coisa nenhuma. Pior: a investigação que agora se anuncia é bem capaz de se tornar em mais uma areia na já emperrada engrenagem. Resta saber se propositadamente.

9 de fevereiro de 2009

IMAGEM. O problema de Manuela Ferreira Leite não é a imagem, como diz Marcelo. O problema de Manuela começou por ser a forma como resolveu exercer o cargo para o qual foi eleita, e rapidamente evoluiu para a substância. Bem pode a líder social-democrata jurar que vai «ganhar ao Sócrates», como terá prometido a Jardim, e garantir que a história lhe dará razão, como fez hoje. A realidade é o que é, e a realidade demonstra que é praticamente impossível recuperar o tempo perdido a tempo das próximas eleições. Claro que também se dizia do outro que jamais chegaria a primeiro-ministro, e a história demonstrou precisamente o contrário. Além disso, aplicando a célebre teoria segundo a qual o treinador do Benfica, seja ele quem for, arrisca-se a ser campeão, quem dirige o PSD arrisca-se a ser primeiro-ministro. Até porque a turbulência que o «caso Freeport» tem vindo a gerar bem pode acabar por lhe pôr o menino nos braços.
ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM. Tomara você, meu caro Vasco, chegar-lhe aos calcanhares.
MAR ENCRESPADO. Está bem... façamos de conta

6 de fevereiro de 2009

ORDINARICE. Não sei se Manuel Alegre é «uma referência para o PS», como ele se intitulou. Mas não há dúvida de que, comparado com ele, Santos Silva é «um pigmeu», como também se intitulou, embora com ironia. Dizer que gosta de «malhar na direita», e com «especial prazer nesses sujeitos e sujeitas» que se dizem «de esquerda plebeia ou chique» mas que, segundo ele, são «as forças mais conservadoras e reaccionárias» que conhece, roça a ordinarice. Aliás, não é a primeira vez que o ministro dos Assuntos Parlamentares recorre à ordinarice para impor os seus pontos de vista, expediente largamente utilizado por quem não tem argumentos.

4 de fevereiro de 2009

A ESQUERDA. Mário Soares acha que o Fórum de Belém serviu para demonstrar que o «capitalismo financeiro-especulativo» morreu, e que morreu «em favor do socialismo». «Não, seguramente, o socialismo de tipo soviético», ressalva o ex-Presidente, e, muito menos, o chinês. Mas um socialismo que, segundo ele, «não ficou claro», pois o fórum brasileiro foi, essencialmente, «protestatório». Nada disto constitui novidade, evidentemente. Mas é bom que sejam figuras como Mário Soares a pintar o retrato da Esquerda que temos. E a Esquerda que temos serve, apenas, para fazer barulho, como acabamos de verificar. Quando se trata de apresentar alternativa, a Esquerda embrulha-se em abstracções que não sabe como concretizar, e se calha de chegar ao poder a primeira medida que toma é meter o socialismo na gaveta. Como já disse e repeti, a falência do actual modelo económico-financeiro pôs à vista, entre outras evidências, que não há modelo para lhe contrapor. O modelo que sairá do actual será, quando muito, uma versão melhorada do mesmo. Como também já disse e repeti, infelizmente. E não se trata, apenas, de uma opinião, no caso da minha opinião. É um facto.
SÓCRATES E OS MEDIA. Ao contrário do que já me acusaram, nunca tive especial vocação para remar contra a maré, mas também nunca gostei de consensos do género maria-vai-com-as-outras. Dito isto, o «caso Freeport» demonstrou, entre outras coisas, que é um exagero dizer-se que o Governo controla os media, como toda a gente diz, a começar por quem se esperaria um pouco mais de seriedade, ou que estivesse melhor informado. Dei conta das minhas dúvidas sobre esta matéria a propósito de outros episódios, mas o «caso Freeport» tornou o caso evidente. Bem sei que estou a defender o Governo, e também sei que defender o Governo não é politicamente correcto — ou traz água no bico. Mas os factos são, para mim, tão importantes como Maomé é para os muçulmanos. Goste-se deles, ou não.
VOTO DA EMIGRAÇÃO. O voto da emigração é uma questão que preocupa os partidos políticos, nomeadamente os partidos do arco do poder, por razões contabilísticas. Ao PSD interessa-lhe que tudo fique como está porque os resultados lhe têm sido favoráveis, ao PS interessa-lhe mudar as regras porque os resultados, tirando uma ocasião, lhe têm sido desfavoráveis. O resto é conversa fiada.

2 de fevereiro de 2009

A PROCISSÃO AINDA VAI NO ADRO. Não se devem tirar conclusões com base, apenas, em evidências, sobretudo quando se está diante um caso de enorme gravidade, e as evidências carecem de solidez. Mas como ignorar a demissão de um director da Judiciária que enquanto tal terá dado prioridade à investigação do «caso Freeport» (embora não se saiba se foi afastado por esse motivo), e o afastamento de dois técnicos cujos pareceres chumbariam o projecto de Alcochete caso fossem considerados? Como ignorar que a «campanha negra» de que Sócrates diz estar a ser vítima teve origem na Procuradoria-Geral da República (que reabriu o processo) e no departamento governamental britânico Serious Fraud Office (que colocou Sócrates numa lista de suspeitos)? Como fazer de conta que não existem factos (repito: factos) que ninguém contesta, sobre os quais se legitimam, naturalmente, especulações? É certo que ainda estamos na fase em que as perguntas são mais que as respostas, e provavelmente jamais sairemos dela. Mas se ainda é cedo para se tirarem conclusões, também é cedo para que se possa dizer que estamos diante uma invenção dos media destinada a atingir pessoal e politicamente o primeiro-ministro, como o próprio garante. O que parece certo é que o «caso Freeport» se transformou num «assunto de Estado», como disse o presidente da República, embora se duvide que o tenha dito com essa intenção. Queiramos ou não, quem olha para o primeiro-ministro neste preciso momento só vê uma coisa: o «caso Freeport», sobre o qual quer saber se é culpado, ou não.
DUPLO ASSALTO. Homejacking? Como não bastassem os assaltos às residências, resolveram assaltar a língua portuguesa. Haverá necessidade?

30 de janeiro de 2009

CAMPANHA NEGRA. «A menos que haja informações ocultas, se existe uma campanha negra [contra o primeiro-ministro] pode-se desde já indicar suspeitos pela sua origem: a Procuradoria-Geral da República, que desenterrou o processo, e a Serious Fraud Office, que fez as perguntas sobre José Sócrates.» Manuel Carvalho, Público de hoje

29 de janeiro de 2009

JORNAL DE LETRAS. Bem sei que o período não é apropriado (comemora-se a milésima edição), mas apetece-me dizer que faz sete anos que deixei de comprar o Jornal de Letras. Digo mais: por falta de espaço, desfiz-me, há muito, do arquivo (que transportei de Portugal para a América e, na América, da primeira para a segunda residência), excepto dois exemplares onde publiquei umas coisas sem importância. Como calcularão, não foi uma decisão fácil (refiro-me ao arquivo), mas nunca me arrependi. Pelas razões que apontei, mas, também, porque me fartei de jornalismo de capelinha. Fartei-me de ver promovidos escritores e artistas cujo único mérito era o passado antifascista, fartei-me de ver silenciado quem era bom por não ter esse passado. Desde então para cá, numa mais vi um exemplar (é praticamente impossível encontrar o JL onde resido). Pode ser, portanto, que tenha mudado. Mas era assim.
FUGAS DE INFORMAÇÃO. Ouvi, de raspão, a magistrada Cândida Almeida dizer, à RTP, que vai instaurar um inquérito para apurar a origem das fugas de informação referentes a não sei que processo, e apeteceu-me logo perguntar: quantas vezes já ouvimos esta história? Conhece-se o desfecho de outros inquéritos também prometidos? Terão sido feitos? Terão sido encontrados (e punidos) os responsáveis pelas fugas de informação? Que se saiba, nada se fez, nada se apurou, e nada se disse.
JUSTIÇA. Isto será mesmo verdade?

28 de janeiro de 2009

DA LIBERDADE. Como seria de esperar, as declarações do cardeal-patriarca de Lisboa a propósito do casamento entre cristãos e muçulmanos deram azo a reacções da malta do costume, pelas razões do costume. (Continuação aqui.)

27 de janeiro de 2009

HUMOR NEGRO. O procurador-geral da República disse, hoje, que a investigação criminal é feita «sem olhar a quem», que «todos são iguais perante a lei», e que «nada justifica que alguém seja especialmente visado só por ocupar lugar de relevo». Até aqui, nada de extraordinário. O extraordinário é a gente ler isto sem se rir.
DO PENSAMENTO ÚNICO. Mário Soares escreveu que um comentador «se atreveu a criticar o discurso» de Obama, que o terá considerado «banal». Espera-se, agora, depois de Soares ter feito a denúncia, que o sujeito seja exemplarmente punido.

26 de janeiro de 2009

LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Esta história do deputado holandês ser julgado por ter incitado, através de comentários à comunicação social, «ao ódio e à discriminação das suas crenças», bem como por ter feito um filme onde o Islão é descrito como um culto violento, só pode estar mal contada. É que, a ser verdade, estamos diante um grave atentado à liberdade de expressão. Goste-se ou não do sujeito (eu não gosto), parece-me que ele tem o direito de pensar como pensa, e de exprimir o que pensa da forma como o tem feito. Que o politicamente correcto nos queira impor as suas regras, compreende-se. Mas que os tribunais se rendam a essa pretensão, é preocupante. Pior: o caso não mereceu a condenação de ninguém. Fosse um islamita a dizer que os católicos deviam ser espingardeados por não pensarem como ele e alguém responder-lhe ameaçando-o com um par de tabefes, e a esta hora já se tinham publicado resmas de prosa a defender a liberdade de expressão do sujeito.

23 de janeiro de 2009

ESPÍRITO CRÍTICO, PRECISA-SE. Como lembrou o Pedro Lomba, o espírito crítico desapareceu em parte incerta. Diria mais: parece que a quadra festiva que a posse de Obama originou anestesiou tudo e todos. Se bem me lembro, Guantánamo começou por ser uma prisão a fechar imediatamente. Já presidente-eleito, os assessores apressaram-se a anunciar que seriam precisos cem dias. Agora, depois de tomar posse, o prazo já passou para um ano. Perante isto, não se vê a mais leve crítica — nem, sequer, dos que nunca viram Obama como o Sol da Terra. Espantoso, não há dúvida. (Ver, já agora, esta notícia, a que cheguei via O Insurgente.)

22 de janeiro de 2009

PROFESSORES. Estes senhores conseguem superar a imaginação mais delirante.

21 de janeiro de 2009

FARTO. Terminada a entronização (ouvi quem lhe chamasse canonização), chegou a hora de Obama mostrar o que vale. Como disse e repeti, estou longe de partilhar o entusiasmo da grande maioria dos que nele votaram. Lembro-me do discurso de ontem, é um facto. Mas ainda me lembro melhor da costela de vaca que comi a seguir ao discurso, que essa foi simplesmente divina. A comparação é um bocado grosseira, eu sei. É que eu estou farto de retórica, e o folclore nunca me entusiasmou.
POUCA VERGONHA. Ora aí está: a culpa, segundo Ferreira Diniz, é dos miúdos, que decidiram prostituir-se a troco de dinheiro. Aqui chegados, já nada surpreende no processo Casa Pia. Surpresa será se alguém for condenado por práticas pedófilas, e quando digo alguém não me refiro ao ex-motorista Carlos Silvino, que esse pagará pelos crimes que terá cometido, e ainda pelo crime maior de não ter a capacidade de se defender que têm os restantes arguidos. Note-se que não estou a dizer que Ferreira Diniz é culpado, que todos são inocentes até prova em contrário. Falo do caso em geral, que águas passadas indiciam que vai acabar em nada. Em nada, evidentemente, para os prevaricadores, que as vítimas correm o risco de serem vítimas de novo.

19 de janeiro de 2009

GAFES. É fácil e barato atacar os jornalistas quando os jornalistas não fazem o que achamos que deviam, ou quando fazem o que achamos que não deviam. É fácil porque os jornalistas quase nunca se defendem, e é barato porque casos destes só raramente acabam nos tribunais. Mas, sendo fácil e barato, já não me parece que o expediente seja eficaz, especialmente quando são os políticos a queixarem-se. Qual foi a Oposição que não se queixou dos media controlados pelo Estado? Qual foi o Governo que não se queixou dos media que considerou hostis? Que me lembre, todos os governos e todas as oposições se queixaram. Não pretendo tirar razão a quem a tem, ou dizer que é inútil criticar os jornalistas — nem, muito menos, dizer que os jornalistas não têm, por vezes, culpas no cartório. Pretendo, apenas, dizer que já todos vimos este filme demasiadas vezes, e a um filme visto demasiadas vezes dá-se pouca ou nenhuma importância. Fez mal, portanto, Manuela Ferreira Leite em acusar a Lusa de ter sido instrumentalizada pelo Governo no caso do TGV. Pelas razões que apontei, mas também porque os argumentos invocados por Manuela não me convenceram. Razão terão os que, no PSD, disseram que estamos diante de «mais uma das suas gafes», embora me pareça que o caso é bem mais grave do que isso.
ALBERTO GONÇALVES. Não é aceitável, por exemplo, que uma alta figura da Igreja recomende cautela aos matrimónios inter-religiosos, mas aceita-se que imãs possessos preguem diariamente a extinção dos infiéis. Não é aceitável a influência da Igreja na sociedade, mas simpatiza-se com diversos estados estritamente submetidos ao Alcorão. Não é aceitável que a Igreja subalternize simbolicamente as mulheres e discrimine simbolicamente os homossexuais, mas ignora-se que a sharia reduza à animalidade as primeiras e execute os segundos. Não é aceitável que um responsável clerical revele eventuais indícios de xenofobia ou racismo, mas promovem-se insultos ao "estado hebraico" (sic) em manifestações e lamentos, implícitos ou explícitos, de que Hitler tivesse visto a sua obra interrompida. Não é aceitável impor limites à liberdade individual, mas impõe-se censura atenta aos críticos do "multiculturalismo", que sob o verniz ecuménico é um óbvio princípio totalitário e um monte de sarilhos que Alá sabe onde acabam.
ALICE VIEIRA. Aconteceu uma coisa terrível na Educação: tudo tem de ser divertido, nada pode dar trabalho.

15 de janeiro de 2009

MENEZES. Nunca dei um tostão por Menezes como líder do PSD, e o tempo foi-me dando razão. Mas lembro-me de o ver crucificado ainda antes de dar os primeiros passos, e não gostei do que vi. Não que não houvesse legitimidade para o criticar, mesmo acabado de sair de um congresso que o elegeu e sem tempo ainda de mostrar o que valia. Não gostei porque Menezes não mereceu o benefício da dúvida a que todos têm direito, pois já era mau antes de o ser. Concedo que as declarações diárias de Menezes após abandonar a liderança são um manifesto exagero e em grande parte motivadas pelo ressentimento. Mas eu estou mais interessado nos argumentos que ele usa para disparar sobre a actual direcção, e convenhamos que são bem mais contundentes que os argumentos contra si utilizados quando era líder dos sociais-democratas. Não fosse a boa imprensa de que goza Manuela Ferreira Leite, ao contrário do que alguns querem fazer crer, e teríamos uma contestação à actual liderança que Menezes nunca teve.

14 de janeiro de 2009

ALDRABÕES. Lembro-me de Vital Moreira fazer, num Prós e Contras, o seguinte aparte quando esgrimia argumentos com não sei quem a propósito de não sei quê: «Sejamos sérios.» Como segui de perto o que o cavalheiro foi publicando sobre a intervenção militar no Iraque e o conflito israelo-palestiniano, o aparte provocou-me um sorriso. Por razões idênticas à que ontem foi dada à estampa no Público: «Porque [sic] é que as operações militares contra os palestinianos se saldam sempre pela destruição de infra-estruturas básicas, incluindo edifícios escolares e sanitários, pela morte de tantas pessoas sem nenhuma responsabilidade nos combates, por impiedosos desastres humanitários?», pergunta o professor. A pergunta destina-se, evidentemente, a «demonstrar» que Israel não pretende, com a incursão militar em Gaza, liquidar o Hamas mas o povo palestiniano, uma insinuação largamente utilizada por quem não se distingue pela frontalidade. Quem, apesar das aldrabices que diariamente nos chegam de Gaza disfarçadas de «relatos imparciais» e dos opinantes que não se inibem de recorrer à mentira para impor os seus pontos de vista, não sabe que o Hamas usa escolas e bairros como bases de operações militares? Assim sendo, como proceder à destruição dos seus recursos militares sem causar vítimas inocentes? Evidentemente que não é possível, como bem sabe Vital Moreira. Não é possível, nem desejável, que as vítimas inocentes são, para o Hamas, tão necessárias como o pão para a boca, como Vital Moreira também sabe. Mas de factos não lhe convém falar, porque os factos lhe estragam a sua bela teoria. Pois é graças a quem pensa como ele que o conflito israelo-palestiniano está no ponto em que está.

13 de janeiro de 2009

UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA. O Daniel Oliveira começou desta maneira a sua crónica no último Expresso: «De 2001 até ao começo desta incursão punitiva em Gaza, morreram, vítimas dos rockets do Hamas, 23 israelitas. No mesmo período foram mortos pelos israelitas mais de 2000 civis palestinos de Gaza. Esta contabilidade macabra não diz quem tem razão neste conflito. Mostra apenas a razão porque [sic] a paz tem sido impossível no Médio Oriente. A assimetria de força militar e política é, pelo menos desde 1973, absoluta.» Como se vê, o Daniel admite que a desproporção de mortos não diz quem tem razão, uma evidência que, vinda de quem vem, me surpreendeu. Mas, depois, retomou a «normalidade». E a «normalidade», para ele, é dizer que a paz tem sido impossível devido à desproporção de meios militares, como se o argumento não fosse tão falacioso como seria dizer-se que a desproporção de mortes demonstra quem tem razão. Isto de ter ideias e não ter argumentos para as sustentar é uma chatice.
A CARTA. O problema não é Margarida Moreira ter escrito uma carta com os pés. O problema é que talvez não estejamos perante um caso isolado — ou, sequer, uma excepção.

12 de janeiro de 2009

GUANTÁNAMO. Votei Obama por razões que então expliquei, entre elas por estar convencido de que Obama se renderia ao pragmatismo mal chegasse a hora de tomar decisões. Como acabamos de ver no caso de Guantánamo, em que o presidente-eleito admitiu adiar a sua extinção por cem dias, o pragmatismo falou mais alto. É certo e sabido que uma coisa é o que se deseja, outra aquilo que é. E aquilo que é tem, no caso, muita força. Isto, claro, para não dizer que Obama devia estar melhor informado quando garantiu, em campanha, que ia acabar com Guantánamo mal fosse eleito, e naturalmente partindo do princípio que se trata de informação deficiente — embora isso não invalide que se possa dizer, desde já, que Obama quebrou uma promessa de campanha. Foi a primeira vez que o fez (façamos de conta que a equipa governamental por si constituída marcou a tal rotura com o «sistema» que prometeu), mas não será a última.
RACIOCÍNIOS. Ora aqui está mais um «raciocínio brilhante» sobre o conflito israelo-palestiniano: «Estamos a assistir a um combate de David (os palestinianos com os seus roquetes, armas ligeiras e fundas com pedras...) contra Golias (os israelitas com os seus mísseis teleguiados, aviões, tanques e se necessário... a arma atómica!)», diz Fernando Nobre. A coisa, segundo ele, é simples: tem razão, no conflito israelo-palestiniano, quem menos capacidade tem para se defender (ou atacar). E quem não pensa dessa maneira, acrescenta, é «ignorante». Vale a pena lembrar que Fernando Nobre é presidente da AMI (Assistência Médica Internacional), uma organização que tenho por estimável — e ao serviço da qual diz ter participado «em mais de duzentas missões de estudo, coordenação e assistência médica humanitária em cerca de sessenta países de todos os continentes». É que me custa a crer que um homem com tão larga experiência de vida não seja capaz de um raciocínio mais elaborado, e que se refira ao Hamas como um movimento de «resistentes».

9 de janeiro de 2009

SONDAGEM. A popularidade do Hamas junto dos palestinianos andava, pelos vistos, pelas ruas da amargura. Nada, portanto, como uma guerra para aumentar a popularidade de quem está no poder. Não é isto o que se costuma dizer nestes casos? Ou a tese apenas se aplica quando nos convém?
ESMERALDA. Cada vez se percebem menos os contornos do «caso Esmeralda», mas cada vez se tornam mais evidentes duas coisas: a criança vale pouco, e a Justiça não fez o que lhe competia. Pior: a Justiça passou o tempo a fazer o que não devia, e quando fez o que devia não foi em tempo útil. Salvo melhor opinião, todos são vítimas: a pequena Esmeralda, os pais biológicos, e os pais adoptivos. Pode ser que me engane, mas este caso ainda vai acabar pior.
DO AQUECIMENTO GLOBAL. Frio de rachar como nunca se viu? Neve nas regiões mais improváveis? Ninguém me tira da cabeça que isto se deve ao aquecimento global.

7 de janeiro de 2009

PACIFISTAS. Lembram-se do autarca que ameaçava puxar de pistola caso alguém lhe falasse de cultura? Pois apetece-me fazer o mesmo quando ouço falar de pacifistas. (Continuem a ler aqui.)

6 de janeiro de 2009

RIDÍCULO. Vítor Malheiros comparou a invasão da Faixa de Gaza pela tropa israelita a uma hipotética invasão, pelas polícias portuguesas, do Bairro da Cova da Burra. A pretexto de que o local se transformou num covil de meliantes, e que os meliantes «saíam de vez em quando para atacar e roubar os pacatos cidadãos dos bairros limítrofes» em operações que, às vezes, resultavam em mortes, o jornalista do Público, procurando traçar um paralelismo entre a Cova da Burra (belo nome) e a Faixa de Gaza, disparou: seria legítimo que as forças policiais lançassem uma gigantesca rusga e que a operação se saldasse em «500 mortos, entre os quais várias famílias inteiras e dezenas de crianças»? Temos, pois, que Vítor Malheiros é ingénuo, não conhece a natureza do conflito israelo-palestiniano, pretende tomar-nos por parvos, ou está a ser intelectualmente desonesto. Admito, como hipótese meramente académica, que o jornalista colocou a questão nestes termos de forma a simplificar e a fazer com que todos percebam o que está em causa, mas o que está em causa não é, evidentemente, tão simples — nem o exemplo da Cova da Burra serve, obviamente, de comparação. O Hamas é um bando de malfeitores que sai «de vez em quando para atacar e roubar os pacatos cidadãos dos bairros limítrofes»? O Hamas, sr. Malheiros, não é, de modo algum, o que nos quer fazer crer. O Hamas é uma organização que pretende varrer Israel do mapa, e foi o próprio Hamas quem o disse. Isto devia chegar e sobrar para não se meter a comparar o que não é comparável, e a poupar-nos a um exercício, no mínimo, ridículo.
VÍTIMAS. Amos Oz dizia, há pouco, o seguinte: «Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor.» Para que o desejo dos mandarins da Faixa de Gaza se torne realidade, vale, portanto, tudo. E tudo inclui usar escolas como bases de operações de guerrilha, como hoje se confirmou, pois o Hamas pretende que a reacção israelita a ataques desta natureza provoque vítimas inocentes. Quem viu os vídeos do Hamas que por aí circulam, a começar por este, sabe bem do que o Hamas é capaz. Usar alvos civis como bases para lançar operações de guerrilha, bem como os seus próprios concidadãos como escudos humanos, tornou-se, há muito, rotina, e à rotina ninguém dá importância. Importância só quando os sujeitos exibem as vítimas de ataques como os de hoje como quem exibe troféus, pois eles sabem que as vítimas alimentam os «pacifistas» e outros malabaristas. Vítimas, recorde-se, que nada fizeram para evitar. Como disse Amos Oz, quanto mais vítimas, melhor.

5 de janeiro de 2009

BORGES. Já vos falei deste alfarrabista, que então caracterizei como uma espécie de Strand sem novidades. Mas caracterizei mal, como descobri posteriormente. O Montclair Book Center tem o dobro do tamanho que eu julgava, e é bem capaz de ser maior que a livraria nova-iorquina em livros usados. Conversations with Jorge Luis Borges, de Richard Burgin (edição de 1968), foi a mais recente preciosidade que lá comprei.
POIS. A população mundial na situação de carência (menos de 1,25 dólares por dia) caiu de 35% do total para menos de 26% nos últimos dez anos. Isso significou arrancar à miséria 50 milhões de pessoas por ano. Quem fez isto não foi a ajuda ao Terceiro Mundo, a caridade cristã ou a sociedade socialista, mas a entrada na economia de mercado pela globalização.

31 de dezembro de 2008

O PRÓXIMO INIMIGO. Faltam 20 dias para Barack Obama passar a ser, como presidente americano, o principal responsável pelo conflito do Médio Oriente — e, de um modo geral, por todos os males do mundo. Se tudo correr dentro da normalidade, os primeiros a crucificá-lo serão alguns dos que estiveram na primeira fila a apoiá-lo. Não é uma previsão. É um facto que o tempo confirmará.
AMOS OZ. Passaram cinco anos sobre esta conferência de Amos Oz na Universidade de Princeton, mas o tema é tão actual que bem podia ter sido ontem. Escusado será dizer que a considero muitíssimo recomendável, especialmente nos tempos que correm. (Via jugular.)

30 de dezembro de 2008

REACÇÃO DESPROPORCIONADA. Por aquilo que se vê, a tese de que a reacção israelita aos rockets do Hamas foi «desproporcionada» ganha adeptos de dia para dia. Hoje foi a vez do nosso ministro dos Estrangeiros, ontem do secretário-geral da ONU, amanhã de outra figura qualquer. Ora, o que seria, para esta gente, uma reacção aceitável? Israel responder às pedradas com mais pedradas, e aos rockets com mais rockets? É evidente que, num conflito destes, cada um ataca (ou defende-se) como pode, e o resto é retórica. A reacção «desproporcionada» que se repete por aí não é, portanto, um argumento. Nem bom, nem mau. Como não é um argumento o facto de estarmos perante um combate de David contra Golias ou de fisgas contra aviões, pois quem tem menos capacidade para atacar (ou para se defender) não tem necessariamente razão.
O MENTIROSO E O COXO. Diz mais esta observação do Daniel sobre o que ele pensa acerca de Israel que os quilómetros de prosa que já escreveu sobre o conflito israelo-palestiniano em que procurou convencer-nos do contrário.

29 de dezembro de 2008

LAVAR AS MÃOS. Confesso que voltei a não perceber a comunicação ao País do Presidente da República a propósito do Estatuto dos Açores. Foi para nos dizer que promulgou um diploma que acha que vai abrir um «precedente muito grave», capaz de abalar o equilíbrio de poderes e afectar o normal funcionamento das instituições? Para nos dar conta de que «a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés», que o diploma põe em causa o «interesse do Estado», e que os interesses partidários falaram mais alto que os interesses do País? Se é tão grave assim, esperar-se-ia que o PR anunciasse que resolveu agir em conformidade. Se a ideia foi dizer-nos que fez tudo ao seu alcance, e que, a partir daí, agiu como Pilatos, a última coisa que se esperaria de um Presidente da República é que lavasse publicamente as mãos sobre um assunto que, segundo as suas próprias palavras, coloca em causa o futuro do País.
MODERADOS. Se Israel tivesse reagido aos rockets do Hamas de forma «moderada», compreender-se-ia. É isto, em resumo, o que disse o Alto Comissário para os Direitos Humanos, para quem Israel reagiu com uma «força desproporcionada». E o que seria, para ele, reagir de forma moderada? Infelizmente, não esclareceu, mas não é difícil adivinhar. Sobre a violação do cessar-fogo por parte do Hamas, que despoletou o presente conflito, nem uma palavra. É por estas e por outras que a reputação da ONU anda pelas ruas da amargura.

26 de dezembro de 2008

Sublime.

TIROS DE PLÁSTICO. O ensino nas escolas portuguesas entrou na fase da pistola. De plástico, até ver, para nos irmos habituando. Apontar uma arma a uma professora, ainda por cima numa sala de aula, é bem capaz de ser «uma brincadeira de mau gosto», como diz a vítima, mas nunca caso para castigar os alunos, como diz o presidente de uma federação de associações de pais. O caso «é mais sério do que uma brincadeira de mau gosto», admite Manuel Valente, mas não é castigando os alunos que, no seu entender, o problema se resolve. De facto, olhando bem o pressuposto, o sr. Valente é capaz de ter razão. Imaginemos um aluno a dar um tiro num professor e o professor ir desta para melhor. Não é castigando o aluno que se devolve a vida ao morto, não é?

23 de dezembro de 2008

UM LIVRO. Procurei, durante anos, Viagem à Alcarria, de Camilo José Cela, que Alexandre O’Neill considerou «um livro maravilhoso». Um dia destes descobri um exemplar em inglês de mil novecentos e troca o passo bastante manuseado e largamente anotado, que comprei por meia dúzia de patacos mas como quem compra um tesouro. Chegada a hora de ler, apercebo-me, logo aos primeiros parágrafos, que o livro me é familiar. Percorro as estantes de casa em busca de Vagabundo ao Serviço de Espanha, leio o primeiro parágrafo, e confirmo que estou diante do mesmo livro. É o que dá, pensei, atribuir títulos completamente diferentes às traduções. Meses depois, folheio, de novo, os exemplares, e descubro que são livros diferentes. Vagabundo ao Serviço de Espanha é uma antologia de textos de Cela «vagabundo e viajeiro» extraída de vários livros, incluindo Viagem à Alcarria, de que integra um texto. Ganhei, portanto, o tal livro que procurei durante anos. A avaliar pela dezena de páginas que já li, valeu a pena esperar tanto tempo.
EMPRÉSTIMOS. O Governo decidiu emprestar dinheiro aos trabalhadores da função pública que dele necessitem para «situações de emergência». Não percebi bem como a coisa funciona, nomeadamente a forma como pretende reembolsar os empréstimos, mas nada contra. Há, porém, uma coisa que não percebi mesmo nada: porquê empréstimos, apenas, aos funcionários públicos?

22 de dezembro de 2008

CHICO-ESPERTICES. Pacheco Pereira confirmou, ao Público, o que já se sabia: vai recensear-se em Rio Maior para não ter de votar em Santana Lopes em Lisboa. Desconheço os contornos em que a coisa se processa, mas não duvido que é legal. Já do ponto de vista ético, tenho as minhas dúvidas. Afinal, parece-me um expediente pouco saudável, e nada recomendável. Talvez mais: cheira a chico-espertice. Vindo de quem passa a vida a pugnar pela dignidade da classe política, é caso para dizer: «Bem prega Frei Tomás.»
ANTÓNIO BARRETO. «Os reguladores e os políticos conhecem intimamente os especuladores e os predadores. Não só se conhecem, como se estimam e convivem. Têm mesmo, simultânea ou sucessivamente, interesses comuns. O triângulo formado pelos políticos, os reguladores e os especuladores constitui um percurso pessoal que muitos fazem airosamente nas suas carreiras.»

18 de dezembro de 2008

ESTADO DO ESTADO. Em 1995, a administração Clinton disse aos bancos que só beneficiariam de condições excepcionais de crédito caso demonstrassem que estavam a emprestar dinheiro às famílias com baixos rendimentos. Quatro anos depois, a mesma administração pressionou a maior compradora de hipotecas (a Fannie Mae) a fazer o mesmo. Em 2005, a administração Bush requereu que 45% dos empréstimos adquiridos pela Fannie Mae e Freddie Mac (semelhante à Fannie Mae) fossem empréstimos concedidos às famílias com médios ou baixos rendimentos. Numa altura em que uns defendem maior intervencionismo do Estado e outros acusam os modelos económicos de funcionarem sem rei nem roque, isto devia dar que pensar. Afinal, o problema do subprime, que provou a catástrofe financeira que se conhece, talvez não tivesse existido caso não fossem as pressões governamentais. Com os Estados cada vez mais intervenientes na economia, por razões que nem sempre se entendem, há que temer o pior.

16 de dezembro de 2008

SAPATADAS. Espancado o jornalista dos sapatos? Isso seria inadmissível! Que o cavalheiro atire com os sapatos ao presidente Bush e o insulte e o gesto ainda mereça aplauso geral, promessas de ajuda de centenas de advogados, o estatuto de «herói» e uma comenda da filha de Kadhafi, compreende-se. Agora, que alguém lhe tenha chegado a roupa ao pêlo, isso seria intolerável. Espero, sinceramente, que nada disso tenha acontecido, como as autoridades garantem. Mas, pelo sim, pelo não, já pus a barqueta de prevenção para o caso de vir por aí um vale de lágrimas.
DEPUTADOS. Um líder eleito «por alguns milhares de militantes» (Manuela Ferreira Leite, no caso) não pode (ou não deve) mandar «num grupo parlamentar eleito por mais de um milhão de portugueses», diz o João Miranda. Aparentemente, assim devia ser. Acontece que, na prática, não é isso o que, em Portugal, sucede desde que existe democracia. Não são os candidatos a deputados «eleitos» pela direcção do partido a que pertencem antes de irem a votos? Não são os candidatos premiados (ou punidos) consoante o grau de fidelidade à direcção do dia? Quer o João Miranda queira, quer não, um deputado, em Portugal, é «um servidor do partido» pelo qual se apresentou a sufrágio, e ai dele que não seja. Se «a decisão de Ferreira Leite [exigir explicações aos deputados do seu partido que faltaram a uma votação importante] é incompatível com os princípios da democracia representativa», como diz (e eu concordo), estranha-se que continue a praticar-se por todos os partidos políticos com assento parlamentar sem que ninguém se rale ou mexa uma palha para alterar o actual estado de coisas.

12 de dezembro de 2008

A AVALIAÇÃO E O FACTOS. Como já disse neste post, a ministra da Educação perdeu a autoridade para defender o actual modelo de avaliação dos professores a partir do momento em que admitiu substituí-lo. Se as negociações entre sindicatos e Ministério pouco têm adiantado (o Ministério da Educação limitou-se a simplificar o actual modelo e os sindicatos a complicar ainda mais o processo), nada mudará num modelo cuja morte é anunciada pela própria ministra. Se isto me parece uma evidência, há outra evidência de que pouco se fala e, na minha opinião, devia falar-se. Segundo os jornais, o actual modelo foi introduzido em algumas escolas sem que se registassem problemas. Assim sendo, o que quer isso dizer? Quer dizer, evidentemente, que o modelo funciona desde que não haja, pelo menos, má vontade em o aplicar. Nada que já não se soubesse, mas é bom que os factos o demonstrem.
PROFETAS. Não me lembro de um único profeta da economia prever uma crise financeira como a que atravessamos, como não me lembro de ninguém (politólogo, sociólogo, filósofo) prever um 11 de Setembro. Apesar do ror de «especialistas» que por aí andam a dizer-nos que se fartaram de avisar, a verdade é que ninguém se lembra do que disseram, e de profetas a acertar previsões no final do jogo já estamos servidos. Quem, perante hecatombes como a actual crise financeira ou o 11 de Setembro, não se interrogou: como foi possível ninguém prever coisas destas? Pois é, os factos insistem em demonstrar a evidência. E a evidência, convém lembrar, demonstra que ninguém sabe nada de essencial, a começar por especialistas como o último Nobel da Economia, que acaba de fazer uma previsão (a crise financeira poderá ir além de 2011) tão esquecível como as outras.
Esclarecedor, não há dúvida. (Via Mar Salgado.)

LER FAZ BEM À SAÚDE (33). Olhem que não, stôres, por Fernanda Câncio. Blog, por Francisco José Viegas.

11 de dezembro de 2008

PAPAGAIOS. Qualquer pedante com pretensões de passar por culto sabe de ciência certa que ler é importante, ouvir música erudita essencial, e que a pintura devia fazer parte da formação de qualquer um. (O resto está aqui.)

10 de dezembro de 2008

9 de dezembro de 2008

SÍNDROME DAS SEXTAS. O DN fez contas e descobriu que as sextas-feiras são os dias em que os deputados mais faltam às sessões plenárias (quase o dobro dos outros dias). Descobriu mais: «a invocação de trabalho político é campeã nas justificações apresentadas pelos deputados». Como o «trabalho político» é uma justificação suficientemente ampla para nela caber tudo, surpresa seria se não fosse esta a desculpa mais utilizada. Já Vasco Pulido Valente dizia ter utilizado o expediente para ir ao cinema nos tempos em que foi deputado. Aliás, seria interessante (e didáctico) que Pulido Valente contasse o dia-a-dia daquela casa nos tempos em que por lá andou, bem como alguns episódios caricatos que lhe ouvi contados por alto num programa de rádio. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos guarda-chuvas que se deixavam não sei onde e desapareciam ninguém sabia como, das casas de banho a transbordar de urina a partir de certa hora, coisas assim. Imagino que os deputados não ficariam lá muito bem no retrato, mas a Pátria certamente agradecia.
SARAMAGO. Saramago diz que o Nobel «significou [para ele] uma responsabilidade importante do ponto de vista cívico e político». De facto, por aquilo que se lhe ouve a propósito de tudo e de nada, nota-se bastante. Mas, sinceramente, não havia necessidade. Afinal, esperar-se-ia, quando muito, mais responsabilidades literárias, nunca mais responsabilidades cívicas ou políticas. Suspeito, aliás, que Saramago assumiu um papel que não estava no guião, e passou a agir como quem pode mudar o Mundo. É o que acontece a quem se leva demasiado a sério.

5 de dezembro de 2008

BPN. Imagina-se que não foi de «ânimo leve» que o procurador Rosário Teixeira decidiu aplicar a medida mais drástica (prisão preventiva) a Oliveira Costa, como diz o responsável pelas investigações ao caso BPN em resposta às dúvidas levantadas pelo bastonário dos Advogados. Afinal, não deve ter sido por acaso que o ex-administrador do BPN praticou, durante anos, toda a espécie de malabarismos sem que alguém o tenha incomodado, e ninguém acredita que os supervisores não sabiam de nada. Aliás, quem viu as declarações de Paulo Portas à TVI só pode ter concluído uma de duas coisas: ou o líder do CDS está a mentir, ou a história do governador do Banco de Portugal está muito mal contada. Mas há mais sobre tão malcheiroso caso. Quando estourou o processo Casa Pia, envolvendo gente ligada ao PS, pôs-se a correr a tese de que se pretendia decapitar a direcção do PS. Agora, que o caso atinge o PSD, o alvo é o Presidente da República. Ou seja, querem-nos fazer crer que estamos perante um caso de política, não um caso de polícia. Não que não seja de esperar um aproveitamento político, que até me parece legítimo. Mas não misturem alhos com bugalhos, nem venham deitar-nos areia nos olhos.
CAPITULAÇÃO. A notícia de que a ministra da Educação admite substituir o actual modelo de avaliação dos professores é um claro sinal de que a avaliação foi por água abaixo. Embora só admita suspendê-lo no próximo ano lectivo e faça questão de lembrar que, até lá, continua em vigor, admitir essa possibilidade significa, na prática, passar-lhe uma certidão de óbito. Que autoridade tem a ministra para defender um modelo que admite substituir? Evidentemente que nenhuma. Agora também eu defendo que a ministra devia ir embora. De facto, depois de uma capitulação destas, não me parece que tenha condições para se manter no Governo. Aliás, surpreendeu-me que o Governo não tivesse capitulado há mais tempo. Temos, assim, e como era de prever, que a avaliação segue dentro de momentos. Pior: parece que não se podem fazer reformas contra quem delas discorda, como se os cidadãos concordassem com todas as leis que têm de cumprir.

3 de dezembro de 2008

ISLÃO. Se não houvesse «uma forte resistência em conhecer o islão» ou uma «vontade deliberada em permanecer na ignorância», como diz Faranaz Keshavjee (Público de domingo), compreender-se-iam as acções como aquela que ocorreu na Índia, acrescentaria eu. Para não variar, sempre que acontecem actos destes, lá vem o argumento de que é preciso pôr as coisas em perspectiva. Como já disse e repeti, quando se esperaria que os islamitas moderados (no caso de os haver) fossem os primeiros a condenar tais actos, calam-se muito caladinhos, e ainda vêm com sermões. Por mais esforço que se faça, por mais abertura de espírito que haja, assim é difícil entendê-los.

2 de dezembro de 2008

MUDANÇA. Nunca a célebre frase de Lampedusa (é preciso mudar para que tudo fique na mesma) fez tanto sentido quando se olha para o próximo Executivo americano. De facto, olha-se para o leque de escolhas de Obama, e o que se vê? Tudo menos mudança. Não que eu tenha isto como um mau sinal, como já aqui disse. Mas que vem contrariar aquilo que prometeu, disso não há dúvida.

28 de novembro de 2008

MANOBRAS. Auto-avaliação? Perfeito! Depois sou eu que sou mauzinho, que só digo disparates quando digo que os professores não querem ser avaliados. Digo avaliados por um sistema que realmente avalie, não uma fantochada cujos resultados se adivinham. Aliás, o modelo agora proposto pelos sindicatos não é novo, e os resultados são conhecidos. Ao menos podiam embrulhar a coisa de modo a disfarçar. (Ver, a propósito, este post.)

27 de novembro de 2008

QUEIROZ. Claro que Queiroz não é o culpado da derrota frente ao Brasil. O culpado da derrota frente ao Brasil foi... bem, já não me lembro bem quem foi. Mas uma coisa julgo saber: com a meia dúzia que levou em Brasília, ninguém lhe rouba um lugar na história. Sim, parece que vai haver sangue na próxima convocatória, de onde serão excluídos uns quantos jogadores que não se terão empenhado como deviam. Ora, a ser verdade, eu pergunto: quem são os malandros? E, já agora, o que resultará de tão drásticas medidas? Como é evidente, nada e coisa nenhuma. O problema é de outra natureza, e não vale a pena fingir que não é. O problema é a falta de liderança, e não só, como se tem dito, dentro do campo. Pena é que tenhamos de esperar até ao próximo jogo a doer, quando for tarde demais para remediar os estragos, para se perceber que Queiroz não serve, e agir em conformidade. É claro que, bem vistas as coisas, o verdadeiro culpado disto tudo é Scolari, cujo palmarés à frente da selecção colocou a fasquia bem alta ao seu sucessor, curiosamente um sujeito que nunca se coibiu de lhe infernizar a vida sempre que teve oportunidade para tal, e que ainda há pouco teve o desplante de se queixar que Scolari não lhe passou o testemunho. Estarão lembrados por que razão Queiroz lhe infernizou a vida, mas eu recordo. O «professor» queria o lugar de Scolari, e para lá chegar valia tudo, incluindo tirar olhos. É verdade que Queiroz nunca foi santo da minha devoção, mas também vi com desconfiança os amores de Scolari à Sra. de Caravaggio — e nunca percebi algumas decisões que ele tomou. Só que isso são pormenores sem importância, e que não contam para coisa nenhuma. O essencial, como sabemos, são os resultados. E Scolari teve-os.

25 de novembro de 2008

ESTADO DE GRAÇA. É visível que Manuela Ferreira Leite beneficia de um «estado de graça» a que nenhuma desgraça consegue pôr fim. A pretexto de que a líder do PSD não tem jeito para o folclore, e que não tem de pronunciar-se sobre tudo e sobre nada nem tem queda para a ironia, tudo serve para a desculpar — e, por arrasto, justificar-lhe um desempenho medíocre. Também eu tenho estima pela senhora (sem ironia), e também eu não duvido da sua competência profissional (de novo sem ironia). Mas falo das qualidades de Manuela Ferreira Leite enquanto líder do maior partido da Oposição. É que nisso, convenhamos, tem sido um desastre. Aliás, não é por acaso que já se fala que Cristo pode voltar à terra.

24 de novembro de 2008

CONSTÂNCIO. Vi, por alto, a entrevista de Constâncio à RTP, mas ficou-me uma pergunta: se o BPN foi o banco mais supervisionado, como garante o governador do Banco de Portugal, e as entidades supervisoras não conseguiram detectar — muito menos punir — situações que agora se conhecem, o que conseguem detectar as entidades supervisoras? Dito de outra maneira, se as autoridades não vêem o que está à vista de um cego, como conseguirão elas detectar operações mais subtis?

21 de novembro de 2008

ZAFÓN. Li, com prazer, A Sombra do Vento, um livro que considero notável. Ao que parece por vender às mãos-cheias, o autor, Carlos Ruiz Zafón, tornou-se motivo de desconfiança. Percebe-se porquê. Afinal, um livro que vende como pão quente costuma ser mau, logo motivo de desconfiança. Mas já não percebo algumas coisas que se disseram a propósito. Por exemplo, Lídia Jorge acha que A Sombra é um livro «feito com uma habilidade extraordinária», mas está fora de questão colocar o autor ao lado de escritores que «escrevem com a verdade ontológica em sangue». Segundo ela, Zafón «não explora o mergulho abismal da contradição interna» nem «subverte os códigos do sentimento», muito menos pertence ao grupo dos que «procuram falar de uma verdade intrínseca». Os livros dele não passam, para ela, de «literatura popular», do género Pérez-Reverte. Fernanda Abreu, que também compara Zafón a Pérez-Reverte, acha que não há, no escritor catalão, «um trabalho linguístico» ou «narrativo». Embora confesse ter lido, apenas, o início, percebeu, de imediato, que A Sombra «traz uma receita de ‘best-seller’ internacional». Foi mais longe a professora: «uma coisa é um livro, outra coisa é a literatura». Sobre a arte de contar uma história, não tem dúvidas: «já os folhetinistas do século XIX o faziam, e bem melhor». Como já perceberam, discordo praticamente de tudo o que as senhoras disseram ao Público (Ípsilon de 14 de Novembro) a propósito do «fenómeno» Zafón, e faço a ressalva porque não percebi algumas coisas que foram ditas. Não percebi, por exemplo, o que é escrever «com a verdade ontológica em sangue», ou «falar de uma verdade intrínseca». Não percebi «o mergulho abismal da contradição interna», muito menos o que são «os códigos do sentimento». Depois, contar uma história é uma arte menor? Pérez-Reverte, que também sofre do mal de Zafón (vende muito), é um autor de segunda? O Pintor de Batalhas, para só falar no último livro que li dele, faz farte do que as senhoras designam «literatura popular»? Pena é que o grosso dos argumentos não chegue, sequer, a entender-se, o que me leva a suspeitar que as senhoras procuraram esconder a ignorância atrás de frases grandiloquentes, que se desmoronam logo que «traduzidas» para português corrente. Já os argumentos que se entendem, é evidente que são preconceitos que não convencem ninguém. Infelizmente, não são as únicas praticantes da modalidade, o que me leva a perguntar: gostarão elas de literatura? Sinceramente, duvido. Pior que aqueles que acham que um livro é bom porque vende às mãos-cheias, só quem acha um livro mau por esse motivo. Se, no primeiro caso, a conclusão se deve, essencialmente, à ignorância, no segundo esperar-se-iam melhores argumentos. Argumentos que, pelos vistos, não têm.

19 de novembro de 2008

DA IMPUNIDADE. Toda a gente viu as fotografias onde Leonor Cipriano aparece com o rosto repleto de hematomas, que terão resultado de uma queda nas escadas da prisão onde estava detida. (O resto está aqui.)
AVALIAÇÃO. Contrariamente ao que diz Vítor Malheiros (Público de ontem), pode-se, e deve-se, avaliar os professores «usando critérios que os professores recusam», ou «usando avaliadores que os professores não reconhecem». Deve-se, a todo o custo, evitar que isso aconteça, mas deve-se avançar para essa via caso falhem todas as outras. Evidentemente que a avaliação não pode, nem deve, ser contra os professores. A avaliação deve ser feita com os professores, mas contra os professores se eles recusarem ser avaliados. Por aquilo que se tem visto, é isso o que está em causa. A não ser que a avaliação seja idêntica à que Alberto João Jardim impôs na Madeira, que não mereceu a condenação dos professores — e dos sindicatos dos professores — do continente. Aliás, nem podia, visto que é precisamente essa a avaliação que, na prática, vigora no continente.

18 de novembro de 2008

EMBARAÇOS. Falei em desnorte da líder do PSD quando Manuela Ferreira Leite disse que «não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite». Pelos vistos, pequei por defeito. É que Ferreira Leite acaba de sugerir que «seria bom haver seis meses sem democracia» para «pôr tudo na ordem», e não me venham com ironias. Mais: a líder social-democrata disse, entre outras coisas, não crer em reformas «quando se está em democracia», e não me consta que foi com ironia. O desempenho de Ferreira Leite à frente do PSD ultrapassa, de facto, a imaginação mais delirante. Razão tinham os que defendiam a «estratégia do silêncio». Pelo menos sempre se evitavam embaraços.
MODELO. Outro modelo de avaliação dos professores? Sim, com toda a certeza. Não o modelo sugerido por António Vitorino (comissão de sábios), ou o modelo defendido por Ferreira Leite (avaliação externa), mas o modelo que os professores e sindicatos defendem. Que é... Como é mesmo o modelo que eles defendem?
PALIN. Evidentemente que a maldade que fizeram à sra. Palin é um episódio lamentável. Lamentável porque se trata de uma falsidade, e porque a falsidade foi divulgada, entre outros, pelo New York Times, de quem se esperaria um pouco mais de rigor. Mas convenhamos que a acusação à vice de McCain não lhe fica nada mal. Afinal, não foi por acaso que toda a gente acreditou que ela não soubesse onde ficava África. É que ela já tinha demonstrado ignorar coisas que um candidato à vice-presidência não pode ignorar.

17 de novembro de 2008

SURDOS. Como oportunamente fiz referência, Obama prometeu, durante a campanha eleitoral, matar bin Laden. Disse bem: matar bin Laden, pois foi precisamente nestes termos que o agora presidente-eleito se referiu ao líder da Al-Qaeda. Curiosamente, nunca McCain falou em tal coisa quando prometeu, caso fosse eleito, lutar contra o terrorismo, e ainda mais curioso o facto de não se ter visto um único apoiante de Obama indignar-se com a promessa. Por aquilo que tenho visto, temo que fizeram de conta que não ouviram. Hoje mesmo, no Público, Boaventura de Sousa Santos escreveu que Obama «entenderá que a Al-Qaeda não pode ser destruída militarmente», mas «isolada pela paz e pela cooperação não colonialista». O sr. Boaventura deve ser um dos que não ouviu.
ALDRABICES. João Lopes, no DN, acusou as televisões de vender gato por lebre quando passaram imagens de uma manifestação onde apareceram alunos «a pular para... as próprias câmaras». É que a televisão, diz ele, também funciona «como indutora de acontecimentos», pois é capaz de produzir situações susceptíveis de induzir em erro, como terá ocorrido. Não vi as imagens que motivaram o comentário de João Lopes, mas acredito que tenham sido como ele diz. Acontece, porém, que a mentira não envolve, apenas, crianças e jovens. Quem já não viu os mais variados protestos propositadamente encenados para os telejornais? Quem já não viu manifestantes aos pulos logo que se apercebem dos directos das TVs, e que logo cessam uma vez terminados os directos? Serei só eu a ver isto a toda a hora?

13 de novembro de 2008

MENSAGEM. O problema não é a mensagem de Manuela Ferreira Leite ter dificuldade em passar através da comunicação social, como diz a líder social-democrata. O problema é não haver mensagem para passar. Se as acções do partido são a 14ª notícia das televisões, como diz Ferreira Leite, seguramente que a culpa não é das televisões. Aliás, é claro o desnorte da líder social-democrata. Senão, atente-se no que ela acaba de dizer: «Não pode ser a comunicação social a seleccionar aquilo que transmite». Passa pela cabeça de alguém que Manuela Ferreira Leite pense desta maneira?
JARDIM. Mas não será isto o que, há anos, se verifica em todo o país?

12 de novembro de 2008

OUTRA VEZ OS PROFESSORES. Como seria de esperar, o meu post de anteontem rendeu-me alguns mails pouco simpáticos. Considerando o que li neles, bem como alguns argumentos que fui conhecendo, cheguei a pensar que exagerei. Mas por pouco tempo. Depois de ter visto este vídeo, que recomendo vivamente, voltei à primeira forma. Bem sei que a fita em causa pode não representar o que pensa a generalidade dos professores, tanto mais que se trata de uma «peça» elaborada por uma organização política que não se distingue pela seriedade. Mas a verdade é que as medidas que lá se defendem não se distinguem, em nada, do que se ouve por todo o lado, incluindo aos partidos políticos «responsáveis». Darei a mão à palmatória caso me demonstrem, com argumentos, que estou enganado. Isto é, caso me demonstrem que os professores querem ser avaliados. E não me venham com excepções, que excepções são isso mesmo: excepções. Quanto aos insultos com que resolveram brindar-me, direi que são os argumentos de quem os não tem.
AI A CONTABILILIDADE. Afinal, o problema de Manuel Alegre com os professores que são contra a avaliação é que eles «dificilmente voltarão a votar no PS». E eu a pensar que Manuel Alegre os defendia por uma questão de princípio.

10 de novembro de 2008

CAVALGAR A ONDA. Manuela Ferreira Leite resolveu apanhar «o comboio» dos professores. Na minha opinião, fez mal. Fez mal porque a «avaliação externa» que agora propõe não passa de um modelo que, a seu tempo, será chumbado pelos mesmos de sempre; depois, porque o timing em que anunciou o «novo modelo» revelou um oportunismo político impróprio de um partido da área do poder. Sobre a avaliação dos professores, aproveito a ocasião para dizer que não mudo uma vírgula ao que aqui disse aquando da outra manifestação. Os professores não querem ser avaliados, por este ou por outros modelos, como o passado demonstrou e o futuro confirmará. Por isso atacam o modelo em vigor, por isso sairão à rua pelo modelo que vier a seguir, por isso farão o que puderem fazer para impedir que a avaliação se torne uma realidade. A desculpa, continuarão a dizer, será porque o modelo é mau, porque todos os modelos têm deficiências que os tornam atacáveis. Repetirão, depois, que os professores não podem ser responsabilizados pelo que vai mal no ensino, que a culpa é do Governo e do ministro da Educação, que as «políticas educativas» são uma merda, e que os professores não podem ser os bodes expiatórios. Para não variar, voltarão a não admitir que existem maus professores e maus profissionais, e que a culpa também é dos professores. Assim se varrerá o assunto para debaixo do tapete, e se adiará, de novo, a questão de fundo. E a questão de fundo, desculpem lembrar, é melhorar a qualidade do ensino público e o desempenho dos seus alunos. (Ver, a propósito, Guerra o ano todo.)
PUBLICIDADE. O Esmaltes e Jóias foi citado, pelo Francisco, no Correio da Manhã. Já agora, Isabel Coutinho, no Público, fez uma referência simpática a um texto aqui publicado já lá vai um mês. Agradeço a ambos a referência, e o bom gosto.
LER FAZ BEM À SAÚDE (32). A luta final, por António Barreto. Tonturas, por J. Rentes de Carvalho.

8 de novembro de 2008

FELGUEIRAS. Prometi estar na primeira fila a fazer mea culpa caso o tribunal ilibasse Fátima Felgueiras de todos os crimes de que foi acusada. Como assim não sucedeu, como o Tribunal de Felgueiras condenou a autarca por três crimes e lhe suspendeu o mandato, aqui estou a fazer mea culpa. Posto isto, é preciso dizer que a decisão do Tribunal de Felgueiras é capaz de não ir longe. Como se esperaria, Fátima Felgueiras anunciou que vai recorrer para a Relação, expediente que suspende a decisão do Tribunal de Felgueiras até que a Relação se pronuncie, e na prática deixa a sentença em banho-maria — além de permitir à autarca cumprir o mandato até ao fim. Quando a Relação se pronunciar, ao que se diz daqui por um ano, já a sra. Felgueiras terminou o mandato como autarca. Quer isto dizer que a Justiça falhou, de novo, no essencial. Nada a que já não estivéssemos habituados, mas é sempre bom relembrar.

6 de novembro de 2008

MAIS LENHA PARA A FOGUEIRA. Cansei-me de levar bordoada por dizer que José Saramago não sabe escrever. É, por isso, reconfortante ler esta tirada de Miguel Esteves Cardoso à LER: «Acho os livros do Saramago mal escritos». Aliás, basta pegar no último livro do Nobel português (A Viagem do Elefante) para se constatar a evidência. Por exemplo, neste excerto publicado no Bibliotecário de Babel: «A caravana de homens, cavalos, bois e elefante foi engolida definitivamente pela bruma, nem sequer se distingue a mancha do extenso vulto do ajuntamento que formam. Vamos ter de correr para alcançá-la. Felizmente, considerando o pouco tempo que ficámos a assistir ao debate dos hércules da aldeia, o pessoal não poderá ir muito longe. Em situação de visibilidade normal ou de bruma menos parecida com puré que esta, bastaria seguir os rastos das grossas rodas do carro de bois e do carro da intendência no chão amolecido, mas, agora, nem mesmo com o nariz a roçar a terra se conseguia descobrir que por aqui passou gente.» É bom, isto? Se é, confesso, desde já, a minha total ignorância na matéria, embora não esteja inteiramente convencido de que tenha razões para lamentar.

5 de novembro de 2008

SEXO. Alguém é capaz de me explicar a razão por que as cirurgias para a mudança de sexo são, em Portugal, comparticipadas pelo Estado?
LOBO ANTUNES. Só agora tomei conhecimento desta palhaçada. (Via Bibliotecário de Babel)
LER FAZ BEM À SAÚDE (31). O clã único, por João Gonçalves.

4 de novembro de 2008

OBAMA. Como prometi há uma semana, votei Obama. Por razões que então expliquei, mas que passaram, essencialmente, por me parecer que Obama é o mal menor. Hoje, conhecida a vitória do dito, não mudei de opinião. Venceu o candidato em quem votei, mas nem por isso sinto entusiasmo. O vinhito que ali tinha, bebi-o antes de saber o resultado.

3 de novembro de 2008

FUNDAMENTALISMO ISLÂMICO. Seja qual for a intenção, é sempre interessante ver alguém sair à rua em defesa dos talibãs e do fundamentalismo islâmico. Foi o que fez Faranaz Keshavjee, no Público, onde se diz «perplexa» por não se considerar terrorismo os actos que visam liquidar os talibãs e outros fundamentalistas islâmicos, que ela considera iguaizinhos ao terrorismo praticado por talibãs ou outros fundamentalistas islâmicos contra quem não pensa como eles. Vindo de quem vem, isto é, de quem se intitula «estudiosa de temas islâmicos», dá que pensar, pois quando se vêem «estudiosos» a pensar desta maneira, imagina-se o que pensará quem tem menos instrução. Certamente a senhora não ignora que foi o fundamentalismo islâmico quem decidiu atacar o Ocidente e seus valores, não o Ocidente o fundamentalismo islâmico. Contrariamente ao que ela pensa, o Ocidente não tem um problema com o Islão, mas o Islão tem, definitivamente, um problema com o Ocidente. Diz ainda a ilustre que «ninguém pede ao mundo cristão ou aos seus líderes que se levantem e condenem esta versão da cristandade», como se estivesse a falar de uma evidência à prova de bala. Acontece que não é. Não é a «cristandade», nem qualquer outra religião, que combate os talibãs e outros fundamentalistas, mas uma coligação internacional composta por gente de várias religiões, incluindo muçulmanos. Curiosamente, na mesma semana em que um ataque em território sírio despachou um dirigente talibã, que tanto a indignou, a execução de uma criança (de 13 anos) na Somália, por apedrejamento, não lhe mereceu a mais leve referência, muito menos repulsa. Isto para já não falar no atentado ocorrido na Índia cometido por um grupo islamita, ainda na mesma semana, de que resultaram oito dezenas de mortos e três centenas e meia de feridos. Como se vê, Faranaz Keshavjee indigna-se facilmente contra o que toma por relativismo, mas socorre-se, também ela, do relativismo, quanto mais não seja omitindo o que não lhe convém. Sim, porque o normal seria uma pessoa indignar-se mais rapidamente com a morte de uma criança nas circunstâncias em que ocorreu do que com um líder talibã. O que mais me chateia no fundamentalismo islâmico é constatar-se que os «estudiosos», de quem se esperaria que condenassem tais práticas, são os primeiros a legitimá-las. Umas vezes calando o que não devem, outras vezes fazendo de conta que não vêem, outras ainda relativizando.