15 de fevereiro de 2023
PECADORES (1). Os mandantes da Igreja Católica sempre gostaram de pregar, como aparente humildade, que a Igreja a que pertencem é feita de pecadores. De facto, nota-se bastante. Como não chegassem a Inquisição e outras misérias passadas, todos os dias somos confrontados com novos episódios escabrosos, no caso em apreço ocultados pelas chefias durante décadas. O que inicialmente pareciam excepções, sabe-se agora que são mais do que se supunha. Vejamos, apenas, o caso português, que esta semana ficamos a conhecer com a divulgação dos resultados de uma investigação aos abusos sexuais de crianças na Igreja Católica. Quase cinco mil menores foram vítimas de abusos sexuais entre 1950 e 2022, um terço dos quais com idades entre os dois e os nove anos — números, como é óbvio, muito longe da totalidade dos casos existentes. Dos cinco mil, apenas 25 dos 512 testemunhos recolhidos pela comissão foram enviados para o Ministério Público, justificando a comissão tão reduzido número devido à prescrição de grande parte dos casos, por um lado, e ao anonimato das vítimas, por outro. Setenta e sete por cento das vítimas detectados pela comissão nunca apresentaram queixa à Igreja, e só 4% fez queixa judicial. Os abusos, cometidos maioritariamente por padres, aconteceram, sobretudo, em seminários, colégios internos, confessionários, sacristias ou na casa dos padres, havendo ainda casos a registar em agrupamentos de escuteiros. O pedopsiquiatra Pedro Strecht, que chefiou a investigação, alerta que não se deve confundir a parte com o todo. O problema é que são tantas as excepções que se torna difícil ver a regra. Bem ou mal, justamente ou injustamente, os pastores da Igreja Católica portuguesa arriscam-se a ser vistos pela generalidade das pessoas como suspeitos de malfeitorias da pior espécie até prova em contrário.
25 de janeiro de 2023
TRÊS MESES. A Polícia Judiciária (PJ) demorou três meses a localizar e prender o autor de uma carta ao Presidente da República em que ameaçou matá-lo caso não lhe desse um milhão de euros. Leram bem: três meses. Isto depois de a PJ saber, desde a primeira hora, a identidade do sujeito, que não só se identificou na missiva como ainda forneceu dados bancários onde o dinheiro deveria ser depositado. E, sabe-se agora, pela voz do director da PJ, que o sujeito é perigoso e tem antecedentes criminais. O episódio prestar-se-ia ao anedotário se não fosse verdadeiro. Mas até uma anedota precisa de factos verosímeis para cumprir a função, e demorar três meses a fazer o que se faria em três dias soa pouco plausível.
11 de janeiro de 2023
OS DONOS DA BOLA. Quem segue de perto as andanças da FIFA e as competições que ela promove não achará novidades, mas não há como a cronologia a pô-las em perspectiva. O documentário «FIFA Uncovered» (poder-se-á traduzir por «FIFA a descoberto»), na Netflix desde Novembro, faz um retrato muito instrutivo sobre as práticas dos seus dirigentes desde os primórdios da organização. Eleições fraudulentas, atribuição de competições em troca de subornos, lavagem de dinheiro, corrupção generalizada. Eis, até há pouco, as práticas correntes da FIFA desde a sua fundação, embora duvide que os hábitos da prepotência e da roubalheira se mudem só porque uns quantos caíram nas malhas da justiça. Portugal é candidato a organizar o Mundial de 2030, juntamente com a Espanha e Ucrânia. Daí a romaria ao Qatar das mais altas figuras do Estado — presidente da República, presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro. Dinheiro que possa competir com a Arábia Saudita, também candidata, não temos. Mas pode ser que a FIFA queira melhorar a imagem, mostrando que não se move apenas pelo vil metal.
14 de dezembro de 2022
ASSUSTADOR. Os planos de Elon Musk para o Twitter pouco me importam. O que realmente me importa (e assusta) é ver um privado com um papel preponderante num conflito militar, no caso o que opõe a Ucrânia à Rússia. Musk fornece as comunicações por satélite à Ucrânia, ao que dizem cruciais para o desfecho do conflito. Se neste caso me parece estar do lado certo, imagine-se quando não estiver. É um facto que as guerras de hoje são feitas, em parte, por forças privadas, cujas actividades decorrem longe da vista e as regras são a ausência de regras. Mas o caso Musk ganhou dimensão tal que os governos vão ter que agir legislando. Brinquedos destes são demasiado perigosos para estarem nas mãos de privados, ao sabor dos interesses e dos humores de quem os possui.
29 de novembro de 2022
A FIFA E A HIPOCRISIA. Não é verdade que não tenham havido protestos quando ficou a saber-se que o Qatar tinha sido escolhido pela FIFA para sede do Mundial de 2022. O problema é que não passaram de fogachos e se limitaram à imprensa desportiva. Agora, que o assunto está na ribalta, toda a gente protesta, porque agora os protestos têm o impacto que dantes não tinham. Serão hipócritas as críticas à forma como o Qatar trata os direitos humanos, como disse o presidente da FIFA. Mas quando um organismo que lidera o futebol mundial chega ao ponto de atribuir uma prova como o Mundial a um país que, tirando as infraestruturas desportivas, hoteleiras e rodoviárias, não cumpre os seus próprios objectivos para sediar um evento do género porque os seus mais altos dirigentes se deixaram corromper, mais valia estar calado. Hipócritas ou não, os protestos em cena no Qatar são bem-vindos e muito oportunos.
7 de novembro de 2022
DESONESTIDADE. Rui Ramos escreveu que «os políticos (…) perceberam que diabolizar os adversários é uma maneira fácil de arranjar votos». Deu um exemplo que diz ser «óbvio»: «Atormentado pela inflação, não (..) ocorreu [ao Partido Democrático] nada de melhor do que descobrir que afinal o Partido Republicano tinha sido fundado e é dirigido por Hitler.» Procurei e não vi isto em lado nenhum, mas acredito que esteja a inventar. O curioso é que o historiador tenha pegado talvez no único exemplo que conhece para tentar demonstrar que o ódio é uma coisa de democráticos contra republicanos, quando os factos dizem precisamente o contrário. O colunista do Observador certamente que não ignora que o actual clima de ódio que se vive nos EUA começou com a candidatura de Trump à presidência, que depois foi multiplicado pelos acólitos. Não é uma opinião. Há dezenas de factos que o comprovam, e Rui Ramos sabe bem disso. Ilustrar o raciocínio da diabolização dos adversários políticos usando uma excepção vinda do campo democrático em vez da regra constituída por dezenas de casos oriundos do campo republicano é desonestidade intelectual.
21 de outubro de 2022
CRISTALINO. O Presidente da República pediu ao parlamento que clarifique a lei das incompatibilidades dos titulares de cargos públicos. Porque a lei das incompatibilidades, diz ele, está cheia de «remendas das remendas», que a tornam difícil de aplicar. Não conheço a lei em causa, muito menos se as alegadas incompatibilidades de pelo menos quatro ministros constituem, ou não, matéria para clarificação. O que julgo saber é que sempre que é necessário aplicar uma lei proveniente da Assembleia da República é preciso pedir um parecer a um gabinete de advogados. Porque a lei, de facto, nunca é clara. E não é clara porquê? Por incompetência de quem a fez e desleixo de quem a aprovou? Também. Mas não é clara, sobretudo, porque convém a muitos que não seja clara. Aos grandes gabinetes de advogados, desde logo, que assim têm uma mina inesgotável. E a quem tem poder, político ou outro, que assim explora a seu favor as deficiências da lei. Pelo menos isto é cristalino.
12 de outubro de 2022
O BOTÃO. Conta-se que o general Milley, chefe das Forças Armadas na administração Trump (que Biden manteve no cargo), fez o que havia a fazer para que Trump, desesperado pela derrota nas presidenciais de 2020 (que nunca assumiu), fosse impedido de accionar o «botão» nuclear. E que não sei quem durante a administração Nixon tomou medidas mais ou menos iguais para a eventualidade de Nixon, obrigado a demitir-se, cometer idêntica loucura. Espero, por isso, que haja um plano para deter Putin, ou que alguém na cadeia de comando recuse obedecer-lhe. Afinal, sempre será mais fácil sobreviver à desobediência que ao apocalipse.
28 de setembro de 2022
CORRUPÇÃO NA JUSTIÇA. Passou praticamente despercebida a notícia do Público dando conta de que um quarto dos juízes portugueses acredita que há corrupção na justiça, mesmo que «muito raramente». «A troco de dinheiro, vantagens não monetárias ou outros favores», prossegue a notícia, citando um inquérito aos magistrados sobre a avaliação que fazem da sua independência, individual ou de todo o sistema. «Houve distribuição de processos a juízes à revelia das regras ou dos procedimentos estabelecidos», diz ainda o inquérito. Ora, se um quarto dos juízes reconhece a existência de corrupção na instituição, o número será, certamente, maior. Ou seja, se a imagem da justiça já não não era boa, piorou depois desta revelação. E quem são, afinal, os juízes corruptos? Como só conhecemos dois ou três casos, não sabemos — logo todos estão sob suspeita. Todos querem resolver os problemas na justiça — os operadores judiciais, os governos, os políticos, etc. O problema é que, na prática, ninguém está verdadeiramente interessado em resolver. Continuamos, portanto, a ter uma justiça para quem pode comprar, outra para quem não pode.
16 de agosto de 2022
O TEMPO DA JUSTIÇA. Escrevi, logo nos primeiros meses de Presidência, que Trump iria acabar na cadeia, mas nunca me passou pela cabeça que demorasse tanto. Cinco anos e meio passados sobre a tomada de posse e mais umas dezenas de atropelos à lei, o ex-presidente continua por aí a espalhar mentiras, a insultar meio mundo, e a cometer toda a espécie de ilegalidades. As autoridades policiais anunciaram agora uma busca à sua residência, de que resultou a apreensão de documentos que acreditam servir para o acusar de espionagem, obstrução à Justiça e destruição ou ocultação de documentos. Como não são meros casos de polícia, o tempo da justiça será mais demorado. Mas não me passa pela cabeça que a justiça não fará o que dela se espera, apesar das ameaças de que está a ser alvo. A justiça não é perfeita, bem sei. Mas estou convencido de que a justiça americana é das que melhor funciona. Tenho, por isso, razões para crer que nada a demoverá.
19 de julho de 2022
DO MELHOR.
Blood River: A Journey to Africa’s Broken Heart, originalmente publicado em 2007 e 10 anos depois em português com o título Rio de Sangue: Uma Aventura Apaixonante no Coração de África, é um dos poucos livros de viagens de autores contemporâneos que vale a pena ler. Entusiasmado pela ideia de replicar a expedição ao rio Congo do escocês Henry Morton Stanley, considerado um dos maiores exploradores de todos os tempos e que em 1878 publicou Through the Dark Continent (em Portugal editado mais de um século depois sob o título Através do Continente Negro), o inglês Tim Butcher publicou uma reportagem (também pode ser lido como relato de viagem) memorável que se lerá de um trago caso haja disponibilidade para isso. Percebe-se por que John le Carré o considerou uma obra-prima.
Blood River: A Journey to Africa’s Broken Heart, originalmente publicado em 2007 e 10 anos depois em português com o título Rio de Sangue: Uma Aventura Apaixonante no Coração de África, é um dos poucos livros de viagens de autores contemporâneos que vale a pena ler. Entusiasmado pela ideia de replicar a expedição ao rio Congo do escocês Henry Morton Stanley, considerado um dos maiores exploradores de todos os tempos e que em 1878 publicou Through the Dark Continent (em Portugal editado mais de um século depois sob o título Através do Continente Negro), o inglês Tim Butcher publicou uma reportagem (também pode ser lido como relato de viagem) memorável que se lerá de um trago caso haja disponibilidade para isso. Percebe-se por que John le Carré o considerou uma obra-prima.
6 de julho de 2022
SUICÍDIO EM DIRECTO. Assisti ao patético pedido de desculpas do ministro Pedro Nuno Santos, aparentemente por ter feito o que não devia. Quando seria de esperar que anunciasse que tinha apresentado a demissão ao primeiro-ministro e o primeiro-ministro tivesse aceitado, até porque António Costa o terá colocado entre a saída pelo próprio pé e a demissão pura e simples, o ministro das Infraestruturas desfez-se em desculpas e não se demitiu. Apontado como provável sucessor de Costa, dificilmente Nuno Santos faria pior pelo seu futuro político. Como também era difícil ao primeiro-ministro fazer pior aceitando manter o ministro. É possível que a história esteja mal contada, que as coisas não sejam o que parecem — embora, como dizia o outro, em política o que parece é. E o que parece nem com antiácidos se digere.
3 de junho de 2022
UM INSULTO. A sentença de seis anos de prisão efectiva vai acelerar a morte de Ricardo Salgado, alertou a defesa do ex-banqueiro na «Operação Marquês». Pediu, por isso, a revogação do acórdão de modo a que o seu cliente não tenha o destino de outros que, por não terem os recursos que a Salgado sobejam, não se livraram da cadeia. Suponho que é um argumento a ponderar, mas não deixa de ser, para os restantes mortais, um insulto. Nunca estive numa cadeia, mesmo na condição de visitante. Mas imagino que a cadeia não fará bem à saúde de ninguém, sobretudo à saúde dos idosos, e Ricardo Salgado, além de idoso (78 anos), terá Alzheimer. Nada me move, também, contra o ex-presidente do BES. Mas é público que o sujeito corrompeu meio mundo e vigarizou outro tanto, sempre com a cumplicidade, por incompetência ou desleixo, das autoridades que tinham a missão de lhe fiscalizar as actividades como banqueiro e puni-lo se fosse caso disso. Livrar-se da cadeia só não será um escândalo porque a incompetência da justiça já não escandaliza. Seria, contudo, um insulto na mesma.
13 de maio de 2022
A AGONIA DO PC. O ocaso do Partido Comunista Português (doravante PC) surpreende, apenas, pelo tempo que demorou. Há décadas que os comunistas portugueses vivem do passado e para o passado, a defender causas que o tempo tornou obsoletas. E agora a defender Putin, como se Putin fosse a luz que dantes brilhava no Kremlin ou da mesma família política, embora em comum desprezem a democracia. Não lamentarei o desaparecimento do PC, como é óbvio. Mas insurgir-me-ei contra quem o queira extinguir por decreto, como já vi por aí quem defenda. E não acho que o PC faz falta à democracia, como também já ouvi. Afinal, se é verdade que o PC foi dos que mais lutou pelo fim do Estado Novo, não é menos verdade que não o fez por amor à democracia. Fê-lo porque ambicionava instalar a sua própria ditadura, a ditadura do proletariado, seguramente pior. Quem conhece os factos à época (de 25 de Abril de 1974 a 25 de Novembro de 1975) e os viu com distância sabe que seria assim caso os planos lhe tivessem corrido de feição. Saudades do PC, portanto, só da festa do Avante!, onde fui durante sete ou oito anos seguidos e me deliciei com a música, a pintura, a comida, as noites até às tantas e o ambiente em geral. Por isso, e só por isso, paz à sua alma.
4 de maio de 2022
AGACHEMO-NOS. Talvez se possa dizer que somos, todos, contra a guerra. Seja a guerra que for, pelos motivos que for. Não basta, porém, ser contra as guerras para impedir que elas sucedam. É o caso da Ucrânia, que pegou em armas para se defender da invasão russa. E fazer o quê diante um facto consumado? Apelar à paz e ao diálogo entre as partes de modo a pôr fim às hostilidades e encontrar uma solução pacífica? Acontece que os apelos à paz e ao diálogo não têm mudado um milímetro os planos de Putin, que são, é bom não esquecer, retomar o controlo dos países que integravam a extinta União Soviética e «reescrever a História». A bem, ou a mal. Assim sendo, fazer o quê? Agacharmo-nos e esperar que Putin alcance o objectivo, como nos agachámos quando anexou a Arménia? Culpar a NATO por pretender alargar a sua área de influência e com isso impedir os delírios de Putin? Inventar teorias conspirativas de modo a «demonstrar» que o preto é branco e a culpa é da Ucrânia? E seguir-se-á quem depois da Ucrânia? Claro que o carniceiro de Moscovo tem armas nucleares e já avisou que as pode usar. Mas ceder à chantagem de Putin e ficar eternamente refém dessa ameaça é o caminho mais curto para o desastre.
13 de abril de 2022
O MUNDO AO CONTRÁRIO. Impressionante o contorcionismo das esquerdas esclerosada e moderna para legitimar a decisão de Vladimir Putin invadir a Ucrânia — e, por consequência, deslegitimar Volodymyr Zelenskyy. Do presidente russo, dizem apenas que não deveria ter invadido a Ucrânia; do presidente ucraniano, que tratam por ex-comediante para o apoucar, ficam-se por generalidades que não se percebem e que, segundo eles, o tornam responsável pela tragédia em curso. Que a tropa russa eleja os ainda há pouco designados danos colaterais (morte de civis) como alvo principal, execute sumariamente civis e pratique a tortura e a violação, não lhes merece reparo — e, se merece, dizem que as alegações devem ser alvo de «investigação independente», como se as imagens que nos entram pelos olhos dentro se prestassem a dúvidas. É nestas alturas que se vê quem é pela democracia — ou, se quiserem, quem é incondicionalmente pela democracia. Putin, para eles, é um ditador que está «do lado certo» (leia-se o deles), logo o resto não interessa. E o resto são milhares de mortos, milhões de refugiados, uma tragédia sem fim à vista. Por culpa, evidentemente, do presidente russo, por mais acrobacias que façam para demonstrar o contrário.
15 de março de 2022
PUTIN JÁ PERDEU (2). Leio que o Presidente Zelensky estará disposto a aceitar, com algumas nuances, as exigências do Presidente Putin em troca do fim das hostilidades na Ucrânia. E que se o Presidente ucraniano tivesse aceitado antes as exigências russas ter-se-ia evitado a tragédia que estamos a ver. Quer isto dizer que a culpa da guerra é do Presidente ucraniano? Pouco me importa, numa guerra, quem tem razão. Importa-me, antes de mais, que ela não aconteça, e o resto é secundário. Mas dizer que a culpa é do presidente ucraniano, como vi dito por alguns colunistas, é deprimente. O presidente da Ucrânia não será um modelo de virtudes, muito menos o Churchill dos tempos modernos, mas tem razão e os ucranianos do lado dele. Não chegará para vencer, mas tem os argumentos que Putin não tem. Como escrevi pouco depois do início das hostilidades, é provável que Putin vença a batalha da Ucrânia. Mas a guerra, que o Presidente russo pretende fazer até reconstruir territorialmente a ex-URSS, está claramente perdida. E Putin com ela.
6 de março de 2022
OLHO POR OLHO. Imagino que os oligarcas russos, com quem Putin se reuniu logo no primeiro dia da invasão da Ucrânia, precisamente no dia em que ficou a saber-se que as sanções aos oligarcas tinham sido agravadas, estejam inquietos acerca dos seus futuros. Imagino, também, que os sujeitos não estejam dispostos a aguentar por muito tempo as restrições de que estão a ser alvo — e daí a pressa de Putin em acalmá-los. O Presidente russo criou e alimenta esta gente, que por isso o mantém no poder. Faltar-lhes com o alimento por muito algum tempo ser-lhe-á, portanto, fatal.
2 de março de 2022
PUTIN JÁ PERDEU (1). Vladimir Putin pode ganhar as próximas batalhas na Ucrânia, mas já perdeu a guerra. O sonho de recuperar o império perdido (a extinta URSS, que na fase final englobava 15 países, Ucrânia incluída) por todos os meios, incluindo meios violentos, morreu — ou morrerá — na Ucrânia. Falhada a Ucrânia (mesmo que a conquiste a curto prazo), desmoronar-se-á o sonho imperial de Putin. Para bem de todos, povo russo incluído, aguardá-lo-ão as monografias sobre corrupção e o caixote do lixo da História.
8 de fevereiro de 2022
OS MAUS PELOS PIORES. Quem não percebeu por que razão, ou conjunto de razões, Trump ganhou em 2016? Quem não percebeu por que razão, ou conjunto de razões, Ventura cresceu em 2022? A explicação já foi dada e amplamente demonstrada, pelo que duvido que alguém não tenha percebido. Não é preciso fazer um desenho, consultar politólogos ou cientistas, tudólogos ou astrólogos. Quem votou Trump ou Ventura fê-lo porque despreza os políticos, que de um modo geral tem por pantomineiros, aldrabões, vigaristas, corruptos. Mas se isto me parece claro e normal, já me custa entender que se penalizem os maus e se premiem os piores. Como não será por masoquismo, fá-lo-ão por ressentimento ou ignorância, ou porque desprezam a democracia. Seja o que for, o resultado não se recomenda.
26 de janeiro de 2022
TEMPOS DE CÓLERA. Trump e seus papagaios derramam diariamente o que há de pior no ser humano. Dantes discutiam-se as diferenças de forma civilizada; agora descarrega-se ódio no outro à primeira oportunidade — e quando as coisas acalmam, ninguém pede desculpa a ninguém. As redes sociais potenciam, e muito, estes comportamentos, embora o ódio que prolifera nas redes já existisse. Destilava-se em doses moderadas, porque naquele tempo havia o que hoje escasseia: decência e respeito pelo outro. Não sei até onde isto vai, que o fundo é quase sempre mais fundo do que se pensa. Mas a continuarmos por aqui, não tarda que necessitemos de reaprender as regras básicas da convivência humana para nos diferenciarmos, pelas melhores razões, dos animais ditos irracionais.
12 de janeiro de 2022
COMEÇAR BEM O ANO. Começo o ano a reler A Estrada Para Oxiana, do inglês Robert Byron, depois de ter lido a versão original há uma década. Depressa descubro que já não me lembro do que li, pelo que é como se fosse a primeira vez. Já tudo se disse sobre o livro. Acrescentarei apenas, e apesar de ainda ir a meio, que é um dos cinco melhores livros de viagens que já li. E que nos restantes quatro que figuram no meu panteão de livros de viagens só um deles, A Sombra da Rota da Seda, do britânico Colin Thubron, é considerado como tal. Aproveito para dizer que os livros de viagens de autores contemporâneos são, regra geral, penosos de ler.
6 de janeiro de 2022
NÃO ESQUECER. Trump falhou, por pouco, faz hoje um ano, o golpe de Estado de 6 Janeiro de 2021, depois de ter perdido a eleição de 2020 e insinuado, durante a campanha, que só perderia se houvesse fraude. Como se demonstrou, o processo decorreu com normalidade, e o adversário ganhou com uma diferença de sete milhões de votos. Mas Trump não se conformou, e ainda hoje insiste em vender aos fanáticos a teoria de que foi roubado, porque os fanáticos só querem ouvir o que lhes convém. Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, prepara-se para fazer o mesmo se não for reeleito, e até já avisou que as presidenciais deste ano poderão ser adiadas caso suspeite que não há condições para as fazer «livremente» (leia-se caso suspeite que as possa perder). Se houver eleições e for derrotado, não vão ser bonitas as manobras para se manter no poder — e, por arrasto, ficar impune dos crimes de que é acusado, ele e os filhos, que são muitos e feios. Resta esperar que o famoso «sistema», que ambos odeiam e nos EUA tremeu mas não caiu, seja capaz de o tirar do Planalto caso perca e não saia pelo próprio pé.
25 de dezembro de 2021
MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (8). Robert Walser descreveu, no romance Os Irmãos Tanner, as circunstâncias da morte do personagem Simon Tanner, ironicamente as mesmas que vitimarão o próprio Walser. Dando um passeio no hospício onde esteve internado nos últimos anos de vida, Walser foi encontrado sem vida faz hoje, dia de Natal, 65 anos, tal como o personagem d’Os Irmãos. «As crianças que fizeram a descoberta de seu cadáver descreveram um homem congelado à beira de um campo coberto de neve, com um longo casaco negro, botas grossas e os olhos abertos. Seu chapéu se encontrava a alguns passos e no seu rosto se desenhava um sorriso terrível. (...) É embrulhado nesse casaco escuro que cairá morto na neve no dia de Natal de 1956», lê-se na apresentação de Caminhadas com Robert Walser, de Carl Seelig, disponível na Amazon Brasil.
16 de dezembro de 2021
GUARDEM OS FOGUETES. Tirando Rui Rio, que nunca perdeu uma oportunidade para dar um tiro no pé, toda a gente deitou foguetes com a prisão de João Rendeiro, mas eu não estou seguro que a história acabe bem. É bom não esquecer que a justiça que agora o prendeu foi a mesma que o deixou fugir, e deixou-o fugir por cometer um erro tão básico que custa a crer que tenha sido inocente. Muita água irá correr até que o ex-banqueiro seja extraditado e posto numa prisão portuguesa, se é que chegará a ser extraditado e cumprirá em Portugal as penas a que foi condenado. Como se demonstrou incontáveis vezes, a justiça portuguesa é excelente a julgar pilha-galinhas, mas em se tratando de alguém que tem poder, a coisa arrasta-se anos a fio e às vezes dá em nada. Como é óbvio, o mal de que padece a justiça não se melhora de um dia para o outro, mesmo que haja vontade de todas as partes — e sabemos que não há. Até lá, o dinheiro continuará a fluir para os melhores advogados, que abrirão — ou fecharão — as portas que for preciso. Como escreveu Eça de Queirós, salvo erro no relato sobre a sua viagem ao Egipto, a justiça afastar-se-á para eles passarem.
1 de dezembro de 2021
TROPA FANDANGA. Não confundir a estrada da Beira com a beira da estrada, diz-se sempre que há «um caso» com as Forças Armadas (FA). Porque as FA são uma instituição respeitável; porque a excelência das FA nunca está em causa mesmo que por lá surjam casos de polícia; porque é preciso preservar a dignidade da instituição; e porque as FA prestigiam o país não sei onde nem porquê. A verdade é que é difícil não confundir a estrada da Beira com a beira da estrada. Ele é o caso do furto das armas, que um soldado da GNR resolveria num abrir e fechar de olhos e o tribunal arrasta há quatro anos e meio; ele é a Força Aérea, que abastecia as messes de oficiais a um preço superior ao devido e depois repartia a diferença entre fornecedores e oficiais de alta patente; ele são os comandos que se envolveram numa rede criminosa internacional de contrabando de diamantes, ouro, estupefacientes e moeda falsa; ele são as caçadas mais ou menos clandestinas em áreas militares praticadas por empresários e altas patentes das FA. Isto só para comentar o que é público e apenas os últimos quatro anos, que o Presidente da República diz serem «casos isolados» que não põem em causa a «excelência» e a «reputação» das FA, que são, para ele, «o orgulho de Portugal». Acontece que são demasiados os «casos isolados» para que se possa falar em «excelência» e boa «reputação» das FA, como o Presidente muito bem sabe, e não escandalizará ninguém dizer-se que o prestígio das FA anda pelas ruas da amargura. As Forças Armadas não são um bando de delinquentes, que fique bem claro. O meu problema com elas é a evidente rebaldaria que por lá vai, e não gosto que me tentem vender como bom o que não é bom. Andei por lá tempo suficiente para ver demasiados «casos isolados» praticados às claras e conhecidos de todos que nunca foram notícia. Nada disto, portanto, é novidade para mim. A novidade é a sofisticação com que hoje se praticam estas e outras malfeitorias e como se tornam públicas mais facilmente do que dantes.
17 de novembro de 2021
UM HERÓI PORTUGUÊS. O vice-almirante Gouveia e Melo, até há pouco coordenador do plano de vacinação contra a covid, tornou-se uma espécie de herói nacional por ter levado a bom porto a missão que lhe foi confiada. Não pretendo retirar o mérito a quem o tem. Mas quero lembrar que o sr. vice-almirante se limitou a fazer bem o seu trabalho, e fazer bem o seu trabalho não chega, para mim, para ser um herói. Um herói é alguém que fez mais, muito mais, do que cumprir o seu dever. É alguém que foi para lá do dever e isso resultou em benefício de todos. Pelo menos era assim até há pouco. A mediocridade de quem hoje desempenha cargos públicos generalizou-se de tal modo que torna herói quem se limita a fazer bem o seu trabalho. É triste, mas é assim.
22 de outubro de 2021
O ALBERGUE DO PECADO. Trezentas mil vítimas de pedofilia praticada pela Igreja Católica, no caso a Igreja Católica francesa, que vieram juntar-se a muitos outros milhares em todo o mundo, significam que a Igreja Católica tem um problema mais grave do que se supunha. A gente vê os números que vão surgindo um pouco de todo o lado, nomeadamente de países tradicionalmente católicos, e não pode deixar de se interrogar se o que o que ainda há pouco se dizia excepção é, afinal, a regra. Salvo melhor opinião, a Igreja Católica tornou-se um albergue de frustrados sexuais, que lá encontraram acolhimento, depois encobrimento, por fim impunidade. Sim, a Igreja Católica é uma agremiação de pecadores, como gostam de lembrar quando ficam na mira da crítica. Convenhamos, no entanto, que não há água benta que chegue para tanto pecado.
19 de outubro de 2021
SOL E SOMBRA. Sigo com atenção cada novo argumento em defesa das touradas, mas continuam a não me convencer. Tirando os aficionados e os directa ou indirectamente interessados, contra os quais nada tenho, as touradas são, para mim, um espectáculo grotesco, em que o animal não tem as mesmas armas para lutar que o adversário — e, por isso, perde sempre. Também o argumento de que se trata de uma actividade que faz parte da cultura portuguesa, uma tradição com centenas ou milhares de anos, não me convence. A irmos por aqui, estaríamos hoje a ver lutas de gladiadores como no império romano (não é uma tradição portuguesa, mas serve para o caso), a praticar outras tradições entretanto banidas pelo mesmo motivo que hoje, como dantes, um fidalgo não mata o seu criado e fica impune. Não vejo, honestamente, um argumento atendível em defesa das touradas, muito menos das touradas onde o touro, torturado e exausto, é morto na arena. E não me venham com o argumento de que a proibição das touradas abre a porta à proibição da matança do porco e da galinha para a cabidela, como vi já escrito por aí. Dizer que uma coisa leva a outras é uma falácia, um «argumento» de quem os não tem.
6 de outubro de 2021
MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (7). Tendo escrito, num obscuro jornal, acerca de não sei que problema que o apoquentava, e não tendo a reclamação surtido qualquer efeito (o mais provável é que ninguém leu), o meu amigo voltou à carga na edição seguinte com novo texto que titulou: «Terei malhado em ferro frio?» Teodorico Raposo, n’A Relíquia, também prometeu comer os fígados a um certo hércules caso o apanhasse em Lisboa, fora de portas, num sítio que ele lá sabia. Não sei por que relaciono os dois episódios, mas aqui fica a passagem: “Vagarosamente, calado, com método, o hércules pousou a vela no chão, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmantelou-me as ilhargas... Eu rugi: «Bruto!» Ele ciciou: «Silêncio!» E outra vez, tendo-me ali acercado contra o muro, a sua bota bestial e de bronze me malhou tremendamente quadris, nádegas, canelas, a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranquilamente, apanhou o seu castiçal. Então eu, lívido, em ceroulas, disse-lhe com imensa dignidade:
— Sabe o que lhe vale, seu bife? É estarmos aqui ao pé do túmulo do Senhor, e eu não querer dar escândalos por causa da minha tia... Mas se estivéssemos em Lisboa, fora de portas, num sítio que eu cá sei, comia-lhe os fígados! Nem você sabe de que se livrou. Vá com esta, comia-lhe os fígados! (...) E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes fricções de arnica.”
24 de setembro de 2021
CONTRA PORQUE SIM. Fernando Nobre, outrora uma figura estimável, voltou à ribalta pelos piores motivos. Diz o médico ter-se curado da covid com fármacos cuja eficácia ninguém confirma, entre eles a hidroxicloroquina, tratamento recomendado, entre outros, por pantomineiros como o ex-Presidente Trump e o ainda Presidente Bolsonaro. Fernando Nobre opõe-se à vacinação e ao uso de máscara, negou sempre a gravidade do vírus, e pôs em causa os testes para o detectar. Tudo isto porque, na sua opinião, as medidas adoptadas para combater a covid atropelam os direitos e liberdades consagrados na Constituição, lei fundamental que serve para quase tudo e o seu contrário. Infelizmente, não demonstrou, com factos cientificamente comprovados, a validade da sua argumentação — tal como, de resto, todos os negacionistas. Depois de nunca ter perdido uma oportunidade para insultar os políticos e diabolizar os partidos, é oportuno lembrar que o fundador da AMI se candidatou à Presidência da República em 2011. Derrotado por Cavaco Silva, e porque o PSD lhe acenou com a possibilidade de ser eleito presidente da Assembleia da República, aceitou, um mês depois de jurar nunca o fazer, ser candidato nas legislativas desse mesmo ano, mas uma derrota de contornos humilhantes impediu-o de cumprir essa ambição. Apesar de prometer exercer o cargo de deputado até ao fim da legislatura caso não fosse eleito presidente do parlamento, um mês depois renunciou ao mandato. O cidadão Fernando Nobre demonstrou, assim, que não é para levar a sério. Viu-se agora que, como médico, também não.
1 de setembro de 2021
TRAFICANTES DE LETRAS. Dada a escassa dimensão do país, o «mundo literário» português é um lugar acanhado. Toda a gente conhece toda a gente, pelo que sempre que falam mal uns dos outros em público, é só elogios. Quando um crítico (ou escritor, quase sempre as duas coisas) não aprecia um livro de um autor português contemporâneo, cai o Carmo e a Trindade. Não será por acaso que os críticos só dão três ou menos estrelas a autores estrangeiros, quase sempre falecidos, que esses não estão cá para os incomodar. Se o autor é português, raramente dão menos de quatro estrelas. (António Araújo e João Pedro George são casos à parte, e haverá mais um ou dois que não conheço.) Temos, portanto, a fiarmo-nos neste «critério», excelentes escritores portugueses no activo, que tirando dois ou três não conheço. Imagino que não será fácil mudar esta prática. Não impede, contudo, que se denuncie.
19 de agosto de 2021
UM HOMEM PERIGOSO. Setenta por cento dos brasileiros consideram que o governo de Jair Bolsonaro é corrupto. Depois de anos a fio a viver à custa do Orçamento (foi deputado federal durante quase três décadas), foi eleito Presidente do Brasil precisamente por ter prometido meter os corruptos na cadeia. Não deixaram dúvidas os votos que o puseram em Brasília: mais de 55,13% dos eleitores acreditaram que ele era o homem certo para pôr fim à roubalheira, apesar de noutras matérias nunca esconder ao que ia. Elogiou, por exemplo, a ditadura militar (devia, segundo ele, ter matado mais 30 mil brasileiros), e afirmou, entre outras barbaridades, preferir «um filho morto num acidente de viação a um filho gay» — mas nada disso o impediu de ser eleito. Agora prepara-se para fazer o que o ex-presidente Trump tentou sem sucesso: se não for reeleito no ano que vem, será porque houve fraude. Como, aliás, como tem dito e repetido, já houve fraude em 2018, que o impediu de ganhar logo à primeira volta — embora, como Trump em 2020, não tenha qualquer prova disso. Dizer que Bolsonaro é um sujeito perigoso, demasiado perigoso, é uma redundância. A dúvida é se as instituições brasileiras estão à altura do desafio.
11 de agosto de 2021
NEM, NEM. Rui Rio é uma daquelas figuras a quem assenta bem a velha e boa expressão «nem coisa, nem sai de cima». A oposição interna no partido a que preside questiona a liderança ou falta dela? Rio convoca um congresso extraordinário, e quem se propõe substituí-lo sai de lá com o rabo entre as pernas. A cena e o resultado repetem-se pouco tempo depois, mais coisa, menos coisa. É verdade que o Presidente Marcelo, sempre apressado a dizer o que pensa sobre tudo o que o Governo faz ou não faz, condiciona, e muito, o líder da sua família política, pelo não é fácil, mesmo para um líder mais expedito, seguir outro caminho caso assim o deseje. Como outros num passado não muito distante, o líder do maior partido da oposição espera que o poder caia de maduro, pelo que a inércia será, para ele, a melhor estratégia. O problema é que o poder não cai de maduro por si só. É preciso que a alternativa o faça cair, e Rio não serve para isso. Não surpreenderá, portanto, vermos o PSD mendigar um ou dois ministérios ao partido de Ventura para viabilizar uma alternativa ao Governo Costa. Verdade que os sociais-democratas antes de Rio não eram carne, nem peixe. Em boa verdade, talvez nunca tenham sido nem uma coisa, nem outra. Mas com Rio tornaram-se uma espécie de coisa nenhuma.
28 de julho de 2021
MENTIRAS COM PERNA CURTA. Perdi a paciência para quem não deixa escapar uma oportunidade para dizer mal da imprensa dita mainstream (ou dominante), e depois fundamenta a crítica exibindo «cartazes» onde se diz cobras e lagartos de quem não se gosta, geralmente falsidades, que remetem para sites de escassa credibilidade para validar a origem da «informação» — ou simplesmente omitem a origem da «informação». Onde se informará esta gente que diz não acreditar na imprensa dominante? Como está bom de ver, o mistério tem o rabo de fora. Conheço quem não acredita na imprensa em geral mas sempre que recebe um mail anónimo onde é dito o que quer ouvir vai logo apregoar aos sete ventos o que ele diz já saber, mas agora, graças ao tal mail, tem a prova provada que a imprensa mente. Outros, talvez a maioria, dizem não se lembrar quando interrogados acerca da origem da informação. E outros «argumentos» do género, sempre toscos, sempre esfarrapados. Temos, assim, segundo estes sujeitos, que a imprensa mainstream, que tem que defender os pergaminhos pelo que diz, não é credível, mas já são credíveis mails de proveniência duvidosa com matérias quase sempre falsas ou muito difíceis de comprovar. Moral da história? Com todos os defeitos, a imprensa mainstream, e na imprensa mainstream incluo todas as plataformas informativas de referência, é a única em que podemos confiar. O resto são teorias tão mal-amanhadas que nem esse nome merecem.
14 de julho de 2021
A COR DO PODER. Há um número considerável de americanos brancos convencidos de que o poder lhes pertence por serem brancos, embora muito poucos o assumam. Tirando numa roda de amigos, onde estão à vontade para dizer as maiores barbaridades, não defendem o princípio diante mais ninguém. Porque eles sabem que não há argumentos que fundamentem o que têm como direito adquirido (os brancos são superiores às outras raças, nomeadamente aos negros), e não, como possa pensar-se, por receio da incorreção política. A eleição de Barack Obama, primeiro negro na Casa Branca, impulsionou esta gente, e não foi por acaso que os supremacistas brancos saíram do armário com a eleição de Trump, que os defendeu por acção e omissão. Afinal, os activistas pela supremacia branca são o lado visível do que dantes era quase invisível, e com Trump passaram a contar com os que dantes permaneciam no armário. Tucker Carlson, entertainer da Fox News, supremacista branco nunca assumido, exaltou a atitude de um adolescente que, na sequência dos distúrbios que se seguiram à morte de um negro às mãos de um polícia branco (já condenado a 22 anos de cadeia), veio para a rua armado de metralhadora e matou duas pessoas. Segundo Carlson, o miúdo fez o que a polícia deveria ter feito, e por isso não hesitou em chamar-lhe «patriota». Tirando a indignação de uns poucos, a afirmação do sujeito não chegou a escandalizar, e dois dias depois já não se falava do assunto. Os americanos brancos de que falo julgam que o poder lhes pertence, pelo que estão dispostos a apoiar quem se disponha a lutar, mesmo com armas de fogo, por esse «direito». Com a saída de Trump da Casa Branca, terá passado o pior. Continuam, no entanto, à espera de oportunidade para ir mais longe do que já foram. Convém, portanto, estar atento, e o mal que causaram nos últimos anos deve servir de aviso. Permanecer indiferente ao supremacismo branco nos dias que correm é demasiado arriscado. Ou então é sinónimo de cumplicidade.
1 de julho de 2021
19 de junho de 2021
RONALDO METEU ÁGUA. Parece-me consensual que Cristiano Ronaldo é um dos dois ou três melhores futebolistas da actualidade, se não o melhor. Qualquer apreciador de futebol lhe reconhece, como desportista e profissional, um desempenho excepcional, só ao alcance de quem é, de facto, excepcional. Pessoalmente, devo-lhe alguns momentos felizes, não só ao serviço da selecção, pelos quais agradeço. Já o desempenho como cidadão é questionável, e como figura pública, nem sempre se comporta como modelo a seguir — como muitos exigem e eu, por motivos que não cabem aqui, sempre discordei. Dito isto, o episódio da Coca-Cola, em que Ronaldo surge numa conferência de imprensa a recomendar que se beba água em vez de refrigerante, teve graça, soou bem e foi muito elogiado, mas não me comoveu. Entre outras empresas, Ronaldo é patrocinado pela Nike, várias vezes acusada, sempre com razão, de utilizar mão-de-obra escrava e infantil. Não me consta que o jogador alguma vez se tenha mostrado desagradado com tais práticas, muito menos que tenha boicotado os produtos da Nike — da qual, segundo a Der Spiegel, receberá 162 milhões de euros até 2026. Acresce que Ronaldo conhece bem as regras do universo em que se move, e não me consta que no Europeu tenham mudado. Participar num evento como o Europeu significa, à partida, aceitar as regras, pelo que se percebe mal o gesto de Ronaldo, na minha opinião irreflectido. Até porque é injusto criticar, de um modo geral, os patrocinadores, que estão lá porque foram convidados a contribuir com milhões. Não que o tenham feito por filantropismo, como é óbvio, mas porque os patrocinadores acharam um bom negócio — como achou um bom negócio quem os convidou.
14 de junho de 2021
AS MENTIRAS DE GOMES FERREIRA. José Gomes Ferreira (JGF) publicou um livro sobre História de Portugal unanimemente considerado intragável. Lidas meia dúzia de críticas e ouvido um podcast (Falando de História, para o qual chamo particular atenção), percebe-se porquê. Factos Escondidos da História de Portugal é uma mentira total. JGF (não confundir com o escritor José Gomes Ferreira, falecido em 1985) partiu para a «investigação» com ideias pré-concebidas, pelo que investigou o que se ajustava às suas ideias pondo de parte tudo o que o desviasse desse propósito — procedimento, como está bom de ver, inaceitável em qualquer investigação digna desse nome. Depois desafiou os historiadores portugueses (que acusou de estarem a mando de «agentes do Estado nomeados pelos governos» sem nunca o demonstrar) a ter a coragem de mudar o que assegurou, já se viu como, estar errado. JGF promete um segundo volume, resultante de uma «investigação» que lhe levou dois anos e meio a concluir. Convém lembrar que Gomes Ferreira é jornalista, ao que dizem prestigiado na área da economia, segundo as más-línguas uma ciência que tem o seu quê de astrologia — e que o caso em apreço parece confirmar. Mas há mais: JGF é director-adjunto de informação da SIC, pelo que as mentiras dadas à estampa, comprovadas por quantos falaram do livro, levanta uma questão presumo que embaraçosa: o que acharão deste episódio os jornalistas da casa?
4 de junho de 2021
DESTRUIR A DEMOCRACIA. O ex-presidente Trump e grande parte do Partido Republicano (PR) prosseguem a cruzada para destruir a democracia. Sim, a democracia, embora também o Partido Democrático. Não são os adversários políticos que o dizem. São destacadas figuras do próprio PR, que arriscam as suas carreiras só por dizer o elementar. A arma é a mesma de sempre: desmentir os factos comprovados todos os dias, nos casos piores repetir até à exaustão a grande mentira (a eleição de Trump foi roubada apesar de nenhuma prova e dezenas em contrário). Embora sejam a minoria do PR (mas a minoria que manda), as sondagens demonstram que há quem se dê bem com isso. Temos, assim, o que resta do PR que se conhecia resumido a meia dúzia de voluntaristas, que se recusam a engolir as patranhas do chefe e, a seu tempo, arriscam o destino da ex-número três, afastada do cargo por não alinhar na doutrina segundo a qual Trump perdeu as eleições porque foi roubado. O que resta do partido de Lincoln é um bando de cobardes, que de momento alinha com quem manda e amanhã alinhará com quem lhe suceder. Resta dizer que o outrora Grand Old Party faz falta à democracia americana.
24 de maio de 2021
MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (5). Alterno As Rotas da Seda com A Sombra da Rota da Seda, dos britânicos Peter Frankopan e Colin Thubron. Se não me atrevo a julgar o primeiro (funciona essencialmente como suporte histórico), do segundo não tenho dúvidas em dizer, mesmo tendo lido pouco mais de metade, que é um dos melhores livros de viagens que já li. Graças a Thubron, que n’A Sombra relata a viagem que fez pela China, Afeganistão, Irão, Turquia e antiga União Soviética, viajo num tempo e lugares de que pouco ou nada sabia, e de que tenho pena não ter conhecido como viajante. São poucos os escritores de viagens que captam o essencial, e ainda menos com a mestria de Thubron.
20 de maio de 2021
TRISTES FIGURAS. A número três do actual Partido Republicano, Elise Stefanik, eleita depois de afastada a antecessora (recusou calar-se diante as mentiras de Trump), falou aos jornalistas pela primeira vez nessa condição referindo-se ao ex-presidente como Presidente Trump e ao actual Presidente apenas pelo nome (Joe Biden). Isto dito e repetido para que não restassem dúvidas, e a surpresa foi que ninguém a tenha confrontado com isso. A congressista Marjorie Taylor Greene, grande entusiasta das teorias da conspiração e defensora da execução de adversários políticos, entre eles o ex-presidente Obama, comporta-se de modo inadmissível diante os adversários políticos, no caso Alexandria Ocasio-Cortez, e a direcção do partido a que pertence fez de conta que desconhecia o episódio grotesco um dia depois de toda a gente o ter visto nas televisões — talvez por não saber o que dizer, e por ter escassa autoridade moral para o fazer. São duas emergentes do novo partido Republicano, onde outrora figuras estimáveis se prestam hoje a papéis lamentáveis. Assim vai o partido de Trump, dantes conhecido como Partido Republicano.
18 de maio de 2021
Marcel Duchamp | Fonte
7 de maio de 2021
Almada Negreiros | Retrato de Fernando Pessoa
MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (3). A psicologia, primeiro, e a filosofia, depois, levaram-me à literatura, sobretudo a Fernando Pessoa, com quem adquiri o hábito da leitura. Seguiram-se, nos portugueses, quase todo o Eça (a quem roubei o título desta série), quase todo o Cardoso Pires, e mais tarde Camilo e Herberto Helder, de quem li Os Passos em Volta pelo menos três vezes. Na literatura não portuguesa, muitos outros, de que menciono onze títulos que foram marcantes: A Montanha Mágica (Thomas Mann), Crime e Castigo (Fiodor Dostoievski), Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez), Debaixo do Vulcão (Malcolm Lowry), Obra ao Negro (Marguerite Yourcenar), Meridiano de Sangue (Cormac McCarthy), A Educação Sentimental (Gustave Flaubert), Ficções (Jorge Luis Borges), Pedro Páramo (Juan Rulfo), O Céu que nos Protege (Paul Bowles), e O Homem Sem Qualidades (Robert Musil). Outros houve de que já não me lembro, e alguns há que, lidos hoje, talvez não entrassem na lista. Mas como não pretendo vender nada a ninguém, cada um que chegue à sua lista — e, já agora, que a compartilhe, que eu gosto de listas. Dir-me-ão que estou a armar-me em não sei quê, mas há muito que digo o que me apetece sem receio de asneirar — e, se for caso disso, assumir as consequências.
29 de abril de 2021
Keith Jarrett
MEMÓRIAS DE UM ÁTOMO (2). Na minha adolescência, a música servia para dançar ou não servia — logo era boa ou má consoante cumprisse, ou não, essa função. Julio Iglesias é o primeiro músico de que me lembro. Depois veio o rock, que naquela altura não tinha as sub-designações que hoje tem, de que me fui afastando depois de conhecer praticamente tudo dos Dire Straits e Pink Floyd, e algum rock-jazz. Comecei a ouvir música clássica pouco depois graças a um programa de rádio, o Em Órbita, que na altura passava o que designavam por música antiga, quase sempre do período barroco, ao mesmo tempo que ouvia o primeiro jazz a sério, sobretudo Keith Jarrett, de quem viria, anos depois, a assistir a concertos memoráveis, a solo e em trio. Vieram outros depois, Miles Davis e assim, e contemporâneos de várias origens. E Beethoven, na música clássica, talvez o compositor que mais aprecio, a par de Mahler, de quem um dia vi o registo da Sinfonia Nº 5 pela Lucerne Festival Orchestra dirigida por Claudio Abbado e me ficou para sempre.
23 de abril de 2021
Henri Matisse | Still Life with Asphodels
12 de abril de 2021
O QUE SE PÔDE ARRANJAR. Face ao que foi dito ao longo dos últimos sete anos, as acusações a José Sócrates na chamada Operação Marquês revelaram-se um fiasco monumental. A ser verdade o que disse o juiz Ivo Rosa, a acusação foi de uma incompetência difícil de explicar. Recordo pelos jornais o que disse o juiz Rosa sobre os fundamentos de grande parte das acusações: «Só especulação e fantasia»; A acusação tem «pouco rigor e consistência»; «Total falta de prova»; A acusação «é pura especulação»; «A acusação não prima pelo rigor necessário»; «Apenas com recurso à criatividade e à especulação será possível sustentar uma conclusão dessa natureza». E por aí fora. Dos 31 crimes de que Sócrates era acusado pelo Ministério Público, o juiz pronunciou-o, apenas, por seis: três por branqueamento de capitais e outros tantos por falsificação de documentos. Os mais graves, de corrupção, caíram, segundo o juiz, por erros grosseiros nas acusações, e outros por terem prescrito. Dito isto, não acho que Sócrates esteja inocente, mesmo do que não foi pronunciado. Também não acredito que o juiz manipulou (deturpou, enviesou, como queiram) as provas que a acusação lhe pôs nas mãos, como já vi quem dissesse. Por mais voltas que desse, parece-me que o juiz não poderia ter feito outra coisa. Teve, além disso, a coragem de o dizer cara a cara aos portugueses. Que mais podia ter feito? Permitiam os dados de que dispunha concluir outra coisa? Não sei. O que ficou claro é que a justiça portuguesa é de grande competência a produzir julgamentos mediáticos e de grande incompetência a produzir prova nos tribunais.
6 de abril de 2021
MASSACRES NA AMÉRICA. Qualquer pessoa com senso comum percebe à vista desarmada que os massacres que têm assolado os EUA nos últimos meses se devem, antes de mais, às leis que permitem a venda e posse de armas pesadas, e depois ao clima de ódio que o ex-presidente Trump foi instalando no país nos últimos anos. Os defensores da venda e porte de armas agarram-se à Segunda Emenda da Constituição, mas a Segunda Emenda não especifica que tipo de armas se pode usar — logo pode comprar-se ou vender-se quase tudo, incluindo metralhadoras. Depois há os lobbies, à cabeça de todos a National Rifle Association, que investe fortunas nos políticos de vários quadrantes, sobretudo conservadores, tornando-os reféns dos seus interesses. Há outros motivos para os massacres quase diários, mas estes explicam quase tudo. Basta olhar para a generalidade dos países «civilizados», onde existem leis que restringem fortemente a venda e posse de armas, para constatar que há uma relação de causa-efeito. E não me venham com o argumento de que se podem comprar armas mesmo sendo o comércio ilegal. Um cidadão comum (os massacres americanos têm sido cometidos por cidadãos comuns) não teria facilmente acesso a armas pesadas caso elas fossem proibidas — de vender, de comprar, de usar. É o que diz o senso comum.
17 de março de 2021
PARA QUE CONSTE. Quarenta por cento das mortes por covid-19 nos Estados Unidos teriam sido evitadas se o então presidente Trump tivesse encarado o problema como devia. Comparados os números dos EUA com os restantes países do G7 (grupo que integra as sete maiores economias do mundo do qual os EUA faz parte), 180 mil vidas poderiam ter sido poupadas se Trump tivesse feito o que lhe competia. Em vez disso, preferiu atacar a comunidade científica, minimizar a gravidade da doença, espalhar teorias conspiratórias, promover medicamentos sem eficácia comprovada, e desvalorizar medidas como o uso de máscaras e distanciamento social. É o que diz, preto no branco, o estudo assinado por mais de três dezenas de investigadores provenientes dos EUA, Reino Unido e Canadá publicado na revista Lancet. Trump foi responsável directo e indirecto por milhares de mortes, e não foi por desconhecimento. Trump conhecia a gravidade do problema, e chegou a dizê-lo em privado. Daí que, à cautela (e pela calada), se vacinou logo que pôde. Instado pelas actuais autoridades sanitárias a recomendar a vacina aos seus apoiantes (mais de metade está renitente em tomá-la), Trump respondeu dando uma no cravo, outra na ferradura. Sim, a vacina é óptima, mas a liberdade de não a tomar também é óptima. Recomendar agora a vacina sem qualquer hesitação seria admitir erros passados, e não está no ADN de Trump admitir erros passados. Nem que isso poupe a vida dos seus.
22 de fevereiro de 2021
SALVADORES DA PÁTRIA. André Ventura é uma espécie de Trump dos pequeninos. Veio agitar o que estava calmo, despertar o que estava adormecido, criar problemas que não existiam (ou estavam adormecidos, controlados, resolvidos). Como o ex-presidente americano, Ventura está-se nas tintas para os problemas que dizem incomodá-lo, e ainda mais para quem os tem realmente. Encontrou nessa gente o seu nicho de mercado, e como bom oportunista que é, vai usá-los até onde lhe for útil. Exactamente como Trump usou, e que por esse motivo chegou ao poder e por pouco não ficou lá para sempre. O ex-presidente americano devia, aliás, servir de aviso a quem toma estes sujeitos como salvadores da pátria. Porque eles não só não salvam a pátria como ainda a afundam mais. Os americanos pagam caro o legado de Trump — a desvalorização criminosa do vírus da covid, a promoção constante do ódio ao outro, a tentativa de destruir o jornalismo que não agrada, a mentira institucional a níveis impensáveis. Isto para não falar do golpe destinado a anular a eleição que perdeu de modo inequívoco, que os salvadores da pátria são capazes de tudo para se perpetuarem no poder. Em nome dos altos desígnios da pátria, como se calcula.
8 de fevereiro de 2021
JULGAMENTOS POLÍTICOS. Donald Trump teria sido condenado no processo de destituição do ano passado caso o julgamento no Senado tivesse sido de natureza exclusivamente criminal. Trump seria condenado caso o julgamento em curso, igualmente no Senado, fosse de natureza exclusivamente criminal. A não ser que algo aconteça que não está no guião, Trump será, de novo, ilibado. Porque os factos têm, nos julgamentos políticos, pouca, ou nenhuma, importância, como já se viu no julgamento do ano passado e se verá no que hoje começa. Isto depois de no actual julgamento haver provas ainda mais consistentes — e de maior gravidade. Qualquer um que conheça as acusações e os factos em que assentam, não terá dúvidas que sobram razões para o ex-presidente ser condenado. Mas como o julgamento é político, Trump ficará, de novo, impune. Haverá uma lei qualquer que explique esta aberração. Mas suspeito que nem com uma boa dose de boa vontade se compreenderá. O segundo julgamento de Trump servirá, apenas, para enlamear ainda mais a política, e colocar a justiça ao mesmo nível.
22 de janeiro de 2021
QANON. Parece que a grande mentira está com problemas de credibilidade. Falhou, ao que se diz, o essencial, e o essencial era desencadear a «Grande Tempestade» — impedir que Biden tomasse posse como Presidente dos EUA, e que Trump se mantivesse no poder. Há devotos que se sentem defraudados e questionam a sua fé. Crentes perdidos como se fossem órfãos. E gente, muita gente, disposta a engrossar as fileiras do supremacismo branco. Porque já não haverá prisões em massa, execuções sumárias de alegados traficantes de crianças, pedófilos, praticantes de canibalismo e seguidores de Satanás, entre os quais se incluem, segundo a grande mentira, figuras proeminentes do Partido Democrático como Hillary Clinton e Barack Obama, o milionário George Soros, celebridades de Hollywood, o Papa Francisco e o Dalai Lama — o que, a ter acontecido, seria um golpe de estado, obviamente comandado pelo criminoso que ainda há pouco morava na Casa Branca. Como todas as teorias conspiratórias, também esta não passa disso. Mas como há quem as leve demasiado a sério, quando elas não se materializam pode ser uma tragédia. Foi mais ou menos o que sucedeu. Para os devotos mais fervorosos, o falhanço da QAnon foi como se lhes tivesse morrido um parente chegado, nalguns casos ainda mais trágico. Pode ser que ganhem, com isso, algum juízo. Recomendar-lhes-ia, se me pedissem um conselho, um bom livro sobre o tema, que na tradução portuguesa se chama Uma Conspiração de Estúpidos.
6 de janeiro de 2021
ASSALTO À DEMOCRACIA. Depois do assalto ao Capitólio, onde decorria o que em circunstâncias normais seria uma mera formalidade, sobram perguntas. Como conseguiram os desordeiros entrar tão facilmente no coração da democracia americana? Não deveriam as polícias estar preparadas para um cenário destes, e, por isso, evitá-lo? Não morro de amores por teorias conspirativas, mas a passividade das polícias é muito suspeita. Lamento dizê-lo, mas se os desordeiros fossem afro-americanos, teríamos visto uma reacção policial musculada. Quando ao resto, confirmou-se o que um demente desesperado é capaz de fazer. Pôr o rebanho, e no rebanho incluo cento e tal congressistas, a fazer o que fez, e mais fará se e quando quiser. Aproveito, já agora, para dizer que tinha escasso respeito pelos trumpistas. Mas hoje, depois de ver o que vi, o respeito é nenhum.
4 de janeiro de 2021
O PESADELO NÃO ACABOU. Se nada mudar até lá, uma dúzia de senadores e mais de uma centena de congressistas, todos do Partido Republicado, vão quarta-feira tentar roubar a eleição de Joe Biden. Porque Trump foi vítima de fraude eleitoral, dizem eles, e porque o sujeito, apesar de derrotado, vale 74 milhões de votos. Contam, para isso, com apoiantes de Trump na rua, e alguns deles até já apelaram à violência. É a mais recente tentativa de incendiar o país e com isso destruir a democracia, desta vez com base em «alegações» e, segundo o Presidente, «rumores». Reparem: não com provas ou evidências, que dezenas de tribunais demonstraram não existir, mas com base em «alegações» e «rumores». Escrevi que é a mais recente tentativa de incendiar o país mas já houve outra, ainda mais grave: o Presidente exigiu ao responsável pela certificação dos votos presidenciais no estado da Geórgia que inventasse — ou destruísse — milhares de votos, de modo a transformar a derrota em vitória — provavelmente o crime mais grave que o Presidente cometeu até hoje. Sabia que Trump iria fazer tudo o que estiver ao seu alcance até ao seu último dia na Casa Branca (20 de Janeiro), incluindo o pior que se possa imaginar. Mas pensei que, depois da derrota em todas as frentes (nas urnas e nos tribunais), tínhamos, enfim, regressado à normalidade. Enganei-me. Nunca imaginei que a democracia americana lutasse neste momento pela sobrevivência. Como não bastasse o sujeito, que trava uma guerra de vida ou de morte unicamente para salvar a pele, cento e tal políticos eleitos preparam-se para dizer ao país que são tão maus ou piores do que ele.
23 de dezembro de 2020
TÃO BOM COMO LE CARRÉ. O episódio contado por Alexey Navalny, líder da oposição russa que há muito denuncia a corrupção na administração Putin, e que por esse motivo as secretas locais o terão tentado matar, obviamente a mando de Putin, valia o melhor Le Carré, de quem li sete romances e um livro de memórias (O Túnel de Pombos). David John Moore Cornwell, que adoptou o pseudónimo literário Le Carré quando ainda era agente dos serviços secretos britânicos, faleceu a semana passada, aos 89 anos, vítima de pneumonia; já Navalny, 44 anos, escapou, por milagre, em Agosto passado, a uma dezena de assassinos que o seguia há três anos e continua a recuperar algures na Alemanha do envenenamento de que foi vítima. Se o primeiro já estava no panteão da literatura, o segundo passou a destacar-se na já longa lista de vítimas do ditador russo — não por morrer, mas pela proeza de pôr os seus assassinos a revelar o plano, falhado, de o matar. O que Le Carré não faria com um episódio destes.
13 de dezembro de 2020
VALSINHA DOS COBARDES. Num esforço final para subverter o resultado das presidenciais americanas de 3 de Novembro, o procurador-geral do Texas, a que se juntaram 17 procuradores de outros tantos estados, 126 congressistas eleitos pelo Partido Republicano e o próprio Presidente Trump, pediu ao Supremo Tribunal que anulasse milhões de votos legítimos nos estados da Geórgia, Michigan, Pensilvânia e Wisconsin, pedido que a ser bem-sucedido roubaria a vitória de Biden. Tiveram, porém, um revés: como em todos os processos anteriores movidos contra estes e outros estados, que os tribunais rejeitaram por falta de evidências, também este não apresentou evidências de irregularidades. A ser verdade que o procurador do Texas, a contas com a justiça, se prestou a esse serviço na esperança de um perdão presidencial, é da natureza humana querer salvar a pele. Mas que 18 estados e mais de uma centena de congressistas quisessem roubar a eleição «mais segura de sempre», no dizer da agência governamental responsável pela cibersegurança, diz muito onde a democracia chegou. Felizmente que as instituições, muito abanadas nos últimos quatro anos, se mantêm sólidas. Como se previa, o Supremo fez o que havia a fazer: rejeitou o pedido, porque sem ovos não se fazem omeletes. Foi mais uma derrota para Trump, talvez a maior de todas a seguir às eleições. Tendo em conta a natureza do sujeito, que jamais terá assumido uma derrota, será mais uma que não aceitará como tal. E teve ele, depois de quatro anos em que ultrapassou as piores previsões, 74 milhões de votos nas presidenciais em que disputava a reeleição. Desde que sei alguma coisa sobre a natureza humana que deixei de ter ilusões sobre ela, mas nunca pensei que me decepcionasse tanto.
3 de dezembro de 2020
DECLÍNIO E QUEDA(*). Que o Presidente Trump reclame ter sido vítima de fraude eleitoral, antes e depois das eleições, sem apresentar uma só evidência, seria mais uma mentira a juntar às milhares com que já nos brindou não fosse grave, demasiado grave. Mas que o advogado Giuliani se apresente nos tribunais alegando a mesmíssima fraude, de novo sem uma só evidência, nem para anedota serve. Como pode um advogado experiente, pago a peso de ouro, apresentar-se nos tribunais implorando que estes condenem alegadas fraudes sem nada que o demonstre, a ponto de ser humilhado pelos juízes? Só quem não está bom da cabeça, ou tem outro objectivo em mente. O Times de Nova Iorque revelou que estará em cima da mesa um perdão presidencial para Giuliani, embora o próprio desminta. Faz todo o sentido. Mas é preciso ver que um perdão presidencial, a concretizar-se, só contempla crimes federais, e Giuliani tem contas a ajustar com o estado de Nova Iorque (pelo menos). O «mayor da América», como ficou conhecido depois do 11 de Setembro de 2001, vai para a História com a imagem de um cadáver em decomposição que se viu na patética conferência de imprensa onde tentou demonstrar o indemonstrável. Assenta-lhe bem o retrato que fez por merecer.
(*) Título da tradução portuguesa de Decline and Fall (Relógio D'Água), de Evelyn Waugh
8 de novembro de 2020
REGRESSO À NORMALIDADE. Esgotei o repertório sobre Trump, tantos foram os textos que escrevi contra ele. O que mais me custou nos últimos quatro anos foi ver os seus apoiantes, alguns por quem tenho respeito intelectual, mandar a decência às urtigas. Custou-me, sobretudo, ver a explicação que eu julgava coisa do passado, nunca dada mas sempre implícita: «O gajo pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta.» A grande divisão entre americanos deve-se, sobretudo, ao ainda Presidente, aos esforços constantes de pôr uns contra os outros, deitando gasolina nas fogueiras que foi ateando ou de que se foi aproveitando. Graças à vitória de Biden, o pesadelo aproxima-se, felizmente, do fim. Celebro, por isso, com grande alívio, o regresso à normalidade, e naturalmente a derrota de Trump e de tudo o que ele representa. Restam, porém, dois meses de apreensão, em que Trump continuará Presidente com plenos poderes. Que seja uma tragicomédia mais cómica que trágica.
25 de outubro de 2020
A VERDADE E A MENTIRA. Já disse e repeti que sou, politicamente, independente, por razões que também já disse e repeti. Considero-me, contudo, moderado, avesso a radicalismos de qualquer natureza, sobretudo de natureza política. Mas os tempos não estão (nunca estiveram) de feição para moderados. Hoje é tudo preto ou branco, a favor ou contra, e não há ouvidos, paciência ou tolerância para quem recusa esse quadro mental. Estamos numa espécie de regresso às cavernas do pensamento, e isso é assustador. Dizia-me alguém, apontando para um objecto, que aquilo não é mais preto, mas a cor que cada um lhe queira atribuir. É um facto que se constata quase diariamente, porque os «factos alternativos», «verdades alternativas» ou «pós-verdades» (leia-se mentiras) criam, pelo menos, a dúvida. Bem e mal informados entram, assim, no mesmo saco. A verdade e a mentira são hoje o que cada um quer que sejam, e os factos só interessam se cumprirem essa função. Chamar-lhe-iam louco a quem previsse, há dois ou três anos, uma coisa destas, o que demonstra bem que os acontecimentos são mais imprevisíveis que as profecias melhor fundamentadas.
5 de outubro de 2020
ESCOLHER A DECÊNCIA. Joe Biden não arrebata multidões, e por vezes é-me difícil não adormecer quando o ouço. Kamala Harris, candidata a vice, também não me entusiasma. Mas ambos têm, para mim, o essencial: são pessoas decentes, disputam o lugar de Trump e de Pence, e contra Trump e Pence não se pode exigir muito. A questão das presidenciais americanas de Novembro não é entre republicanos e democráticos, embora também. É, essencialmente, entre a decência e a falta dela. Reparem na quantidade de republicanos que votarão Trump em Novembro, e como alguns dão mesmo a cara pelo adversário. Verdade que sempre houve quem, liberal ou conservador, em determinado momento escolhesse o outro. Mas isso foi no tempo em que a política era a cores. Hoje é quase só preto e branco, a decência conta pouco e até se faz gala disso. É possível, contudo, travar a espiral de loucura, dando uma vitória clara ao candidato democrático antes que as coisas vão longe demais. Trump já avisou que não aceitará os resultados caso perca. Porque se perder, diz ele, foi porque houve fraude (a questão não se porá se ganhar), e agora, infectado pelo vírus que já matou mais de 210 mil norte-americanos, grande parte por culpa dele, a situação tornou-se ainda mais volátil, introduzindo um novo factor de surpresa cujo alcance ninguém parece em condições de avaliar. Votar contra Trump é, no entanto, o mínimo que se pode fazer para que não se entre por um caminho irreversível, e não me parece que seja preciso dizer que caminho será esse.
29 de setembro de 2020
UMA ESPÉCIE DE BOMBA ATÓMICA. Para quem não lê inglês, ou não tem paciência para ler um texto que demora uma boa meia hora a ler, o NY Times revelou, domingo, basicamente o seguinte: o Presidente Trump pagou 750 dólares de impostos federais no ano em que conquistou a presidência (2016), e o mesmo montante no primeiro ano na presidência (muito menos que um trabalhador por conta de outrem pertencente ao escalão mais baixo). Depois, não pagou impostos em 10 dos 15 anos anteriores, alegando mais perdas que ganhos. Diz mais o Times: o alegado sucesso de Trump nos negócios é pura ficção (uma investigação do jornal USA Today já o tinha demonstrado há mais de dois anos), e tem uma dívida de mais de 400 milhões de dólares que vai ter que pagar nos próximos quatro anos, circunstância que o coloca à mercê dos credores — todos, ou quase todos, estrangeiros, o que levanta preocupações ao nível da segurança do país. Promete mais o diário nova-iorquino sobre os impostos do Presidente, mas isto chega para dizer duas coisas: não haverá explicação de Trump ou dos seus advogados capaz de convencer que não houve aqui vigarices — e das grandes; dizer que a história do Times é falsa, como dizem Trump e os seus advogados, é fácil e barato, mas só funciona para quem for mais trumpista que Trump.
15 de setembro de 2020
OU O PODER, OU A CADEIA. Donald Trump sabe melhor que ninguém que se perder em Novembro pode acabar na cadeia. Resta-lhe, por isso, apostar num cenário catastrófico: ou ele, ou o apocalipse. Muito pior: interessa-lhe criar o caos para depois aparecer como o presidente da «lei e da ordem», o último slogan da sua campanha. Os manifestantes contra o racismo e a violência policial são radicais perigosos. Os seus apoiantes que os combatem, com armas de guerra e matando, são patriotas. É isto o que o sujeito diz e repete. Em vez de reconciliar os desavindos, como faria qualquer presidente, faz os possíveis para os manter desavindos. Porque suspeita, a meu ver com razão, que o caos o beneficiará em Novembro, apesar de toda a violência de que se queixa ocorrer durante o seu mandato como Presidente — logo ele ser o primeiro responsável. Escrevi ainda antes de Trump ser eleito que o sujeito era perigoso. Mas hoje, quatro anos volvidos, demonstrou-se que é mais perigoso do que eu pensava. Como sabe que os sarilhos em que entretanto se meteu podem ter um desfecho cruel caso não seja reeleito, não hesitará em fazer o que for preciso para salvar a pele. E o que for preciso, para ele, inclui o pior que possam imaginar.
2 de setembro de 2020
CALIXTOS HÁ MUITOS. A morte de 18 idosos no lar de Reguengos de Monsaraz em circunstâncias não inteiramente esclarecidas colocou, a reboque do caso, de novo na ribalta o poder local. Os jornalistas que lá foram investigar a ocorrência descobriram que José Calixto, presidente da autarquia local, ocupa pelo menos 13 cargos, incluindo o de presidente da fundação do lar onde a tragédia ocorreu, e o assunto voltou a ser questionado. Calixto, uma espécie de senhor feudal lá do sítio, ocupa todos estes cargos graças ao partido a que pertence, o PS, e os que não ocupa são ocupados por companheiros do mesmo partido. Como é sabido, as autarquias locais estão cheias de calixtos. Do PS e do PSD, mas também do PC e, talvez, do CDS. Como raramente são escrutinados (a imprensa regional vive refém das receitas das autarquias e a imprensa nacional não presta atenção às regiões), grande parte das autarquias funciona em roda livre, sem qualquer escrutínio, e quem abrir a boca contra o poder instalado arrisca perder o emprego, próprio ou de um familiar, e o jornal local o mais certo é fechar. Gostaria de pensar que este cenário só se aplica a um caso ou outro, mas sabemos que não é assim. Não creio, já agora, que a regionalização, de que se recomeçou a falar, resolveria o problema. Antes pelo contrário. Agravá-lo-ia, e muito.
23 de agosto de 2020
E VÃO DEZ. Com a prisão de Steve Bannon, acusado de fraude e desvio de dinheiro proveniente de uma agremiação filantrópica (sem ironia) que angaria fundos para construir um muro na fronteira dos EUA com o México, aumentou para 10 o número de acusados de crimes vários no círculo do chefe — alguns já a cumprir pena, outros já condenados, outros ainda em vias disso. O lunático que até há pouco comandou o Breitbart News, site da extrema-direita especializado em títulos incendiários de carácter racista, anti-semita e misógino, e que depois de corrido pelo chefe foi para a Europa pregar, sem sucesso, a revolução, e tentar, também sem sucesso, vigarizar o governo italiano com o aluguer de um mosteiro, mostrou que é humano, demasiado humano. Agora só falta o chefe, mas quem esperou até agora consegue esperar mais um tempo. Cada vez é maior a lista de vigaristas e outros patifes de que o chefe, personagem inverosímil até do mais medíocre dos romances, se rodeou para tomar o poder. Sim, o chefe de que falo, que se apressou a dizer, mal soube da prisão do arquitecto da sua campanha presidencial de 2016, que se sentia «muito mal» (recorde-se que o chefe o despediu e o despedido escreveu um livro onde disse do chefe o piorio), e que no mesmo dia manifestou simpatia por uma seita de doentes mentais que dá pelo nome QAnon (que o FBI considera fonte potencial de terrorismo doméstico), é esse mesmo que estão a pensar. Aposto que a prisão do sujeito lhe vai causar pesadelos.
18 de agosto de 2020
VIVO E DE BOA SAÚDE. Não sou ingénuo a ponto de pensar que o jornalismo e os jornalistas são um mundo de virtudes, que não cometem erros e pecados, por vezes grosseiros. Mesmo o jornalismo e os jornalistas sérios, e não me refiro ao jornalismo que se engana, corrige o erro e se penitencia. Refiro-me ao jornalismo que tem uma agenda para lá dele, que se dispõe a contar os factos de modo a construírem a narrativa que mais lhe convém. Mas também não sou ingénuo a ponto de pensar que isto é prática corrente. Muito pelo contrário. É graças ao jornalismo e aos jornalistas que em democracia sabemos o que se passa, apesar de o poder do dia, mesmo o poder democrático, fazer os possíveis e os impossíveis para mostrar o que lhe interessa e esconder o que não lhe interessa — e em alguns casos chegar a intimidar quem se atreve a incomodá-lo. Dito isto, o jornalismo e os jornalistas não são heróis. Fazem o que lhes compete fazer, embora por vezes heroicamente. Nunca foi — nunca será — fácil fazer jornalismo (diria jornalismo a sério não fosse uma redundância), porque fazer jornalismo tem custos, por vezes demasiado altos — como ser votado ao ostracismo, o despedimento, a prisão, por vezes a morte. Como jornalista num jornal despretensioso, nunca estive exposto a estes cenários. Talvez por isso admire tanto os jornalistas que arriscaram — e continuam a arriscar — fazer jornalismo apesar dos constrangimentos. Não são poucos, e é graças a eles que o jornalismo está melhor que nunca. Se os jornais estão numa agonia sem fim à vista, nunca o jornalismo esteve tão vivo, apesar de se ver obrigado a competir com o falso jornalismo que prolifera nas redes sociais que tantos levam a sério.
30 de julho de 2020
O GÉNIO DO MAL. Falhada a tentativa de multiplicar os protestos violentos resultantes do assassinato de um afro-americano por um polícia branco, de modo a legitimar uma intervenção federal musculada, o Presidente americano repetiu a receita, desta vez enviando agentes federais para algumas cidades onde os protestos ainda decorrem. Como Trump pretendia, a situação não só piorou como alastrou a outras cidades (onde os protestos já tinham acalmado) — todas, por sinal, e não por coincidência, dominadas pelo Partido Democrático. O ponto de Trump é abrir caminho à tomada de medidas excepcionais que possam inviabilizar as presidenciais de Novembro em locais tradicionalmente dominados pelos democráticos — accionando mecanismos que dificultarão o acesso dos eleitores às urnas, generalizando as suspeitas de fraude, criando o caos a que só ele, Presidente, poderá pôr fim. Como todas as sondagens indicam que perderá em Novembro, incluindo as sondagens dos «amigos» da Fox News e muito por culpa da forma criminosa como lidou — e continua a lidar — com a pandemia de coronavírus, resta-lhe, a seu ver, este caminho. Pelos vários crimes de que é suspeito, por enquanto sem acusação formal por Trump ser quem é, o Presidente corre o risco de acabar na cadeia caso não seja reeleito. Sim, na cadeia, e só surpreenderá quem anda muito distraído. Donald Trump está, por isso, disposto a fazer tudo o que for preciso para vencer, e o tudo incluirá não só a sujeira a que já nos habituou mas outros esquemas mais preocupantes — e, pior, muito perigosos. Oxalá me engane.
17 de julho de 2020
A TERRA NÃO É REDONDA. Os americanos discutem pelo menos há três meses se as máscaras são, ou não são, uma forma eficaz de evitar a propagação do coronavírus. Não porque a comunidade científica tenha dúvidas, mas porque uns quantos indivíduos, emulando o idiota que mora na Casa Branca, decidiram não usar máscara porque sim, politizando um assunto consensual entre os especialistas — e, se virmos bem, do senso comum. (O idiota mudou o comportamento nos últimos dias, numa tentativa, tardia, de acertar o passo, até porque grande parte dos seus apoiantes está a apanhar por tabela.) Estamos, portanto, à mercê dos sujeitos que não usam máscara, mesmo em situações em que a lei os obriga. Porque a obrigatoriedade da máscara viola os direitos dos sujeitos, dizem eles, e os direitos dos sujeitos podem, pelos vistos, violar os direitos dos outros — dos que a usam e não querem ser infectados, e porque ter direitos pressupõe ter deveres. Tudo isto porque o idiota-em-chefe fez os possíveis e os impossíveis para instalar a dúvida no rebanho, sempre predisposto a acreditar no que ele diz e a engolir as suas patranhas. A ignorância (ou cegueira, ou o que for) impede-os de enxergar o que está diante o nariz, e o resultado está à vista: comparado como o resto do mundo, os EUA estão, nesta matéria, ao nível do terceiro mundo. Fosse eu um homem de fé e estaria a rezar para que o idiota apanhasse um susto a sério, embora duvide que aprendesse alguma coisa com isso.
26 de junho de 2020
MODINHA DOS COBARDES. Tirando os dois ou três do costume, os congressistas republicanos não abrem a boca sobre o comportamento de Trump. Nem para apoiar, nem para condenar. Quando seria de esperar que se pronunciassem sobre as acções do Presidente, até porque foram eleitos para dizer o que pensam sobre as acções do Presidente, os sujeitos permanecem mudos e quietos, e fogem dos jornalistas como o diabo foge da cruz. Mesmo dos jornalistas amigos da Fox News, da Breitbart e da One America. «O último tuíte? Não vi.»; «Vi mas já não me lembro.»; «Não costumo prestar atenção aos tuítes do sr. Presidente.». Etc. etc. Se isto não é cobardia, e não só cobardia política, então é o quê? Os republicanos com assento nas duas câmaras do Congresso são cúmplices de Trump, de quem não se atrevem a discordar por medo de perder o emprego. É verdade que nos últimos dias alguns se afastaram de Trump quando Trump defendeu que o antecessor devia ser julgado por traição (não apresentou qualquer evidência que fundamentasse a acusação) e quando acusou um manifestante de 75 anos, de novo sem fundamento, de ser membro da Antifa. Mas isso não explica o silêncio a que se devotaram, e ainda menos a cumplicidade activa diante as poucas-vergonhas do Presidente. Isto para não falar da coluna vertebral, que a generalidade dos políticos não tem — e os republicanos são, de momento, o melhor exemplo.
2 de junho de 2020
O INCENDIÁRIO. Donald Trump nunca perde uma oportunidade de atirar mais lenha para a fogueira do ódio. Agora devido aos distúrbios de Minneapolis resultantes da morte de um afro-americano sob custódia policial, que rapidamente alastraram a dezenas de outras cidades. Em tom de desafio, o Presidente começou por escrever, no Twitter, que mandaria disparar contra os «bandidos» que se envolvessem em distúrbios, nos dias seguintes prosseguiu de igual modo, e ontem insultou os governadores que, na sua opinião, não estão a fazer o que devem de molde a pôr fim à violência. Como não bastasse, montou circo na Casa Branca, e depois, numa igreja lá perto, insultou quem quis apoiar, embora imagine que os evangélicos e outras pessoas de fé sejam mais inteligentes do que Trump supõe. Em vez de fazer os possíveis e os impossíveis para acalmar os ânimos e pôr fim à violência que varre o país, como seria de esperar de um chefe de Estado, o Presidente ameaçou com ainda mais violência. Trump não é, obviamente, o único responsável pela violência racial. Mas é-o, em grande medida, por acção e omissão. Acusar a esquerda radical pelos distúrbios (não havia evidências até à hora a que escrevo) sem dizer uma única palavra sobre a direita radical (há indícios de supremacistas brancos infiltrados nas manifestações), é pôr mais água na fervura. Valha a verdade que não se esperaria outra coisa do «valentão» que mora na Casa Branca, que cobardemente correu para o bunker mal lhe cheirou a pólvora (ele é mais pólvora retórica). Afinal, a única preocupação do sujeito é ser reeleito em Novembro, e para que isso suceda os fins justificam os meios. Como está convencido, talvez com razão, que o clima de confronto o beneficia, dispõe-se a tudo para que isso aconteça. Afinal, há quem se reveja nos comportamentos do Presidente, mesmo nos comportamentos mais censuráveis. Depois há o racismo, o supremacismo branco e outros ismos, que com Trump no poder nuns casos ganharam fôlego, noutros saíram da clandestinidade — para gozo, lamento dizê-lo, da maioria que o apoia.
14 de maio de 2020
OS FACTOS NÃO INTERESSAM. Vi num canal de televisão um repórter confrontar um «popular» com os factos e este responder-lhe que os factos não interessam. A surpresa foi a candura com que o sujeito o disse, como se fosse óbvio e a coisa mais natural do mundo. Ironicamente, nunca como hoje tivemos tanta informação e tantas formas de verificar a sua credibilidade. Mas a grande maioria (creio que é a maioria) só está disponível para acreditar no que lhe convém, pelo que os factos só interessam se cumprirem essa função. Estamos, por isso, num ponto que nunca julguei possível: depois dos «factos alternativos», que pretendiam demonstrar que havia «outros factos» para além dos factos propriamente ditos, os factos não interessam. A «verdade» é o que cada um quer ouvir, e tudo o resto são «fake news». Milhões de pessoas a dizer que a Terra não é redonda não a tornam plana. Mas é assustador.
7 de maio de 2020
AI BRASIL. Quem acompanha, mesmo que por alto, o que politicamente se passa nos EUA e no Brasil, chega a ser reconfortante ver o que se passa nos EUA, por comparação com o Brasil um país a funcionar normalmente. Apesar dos malabarismos de Bolsonaro serem em tudo parecidos com os de Trump, a realidade no terreno mostra que se é preocupante nos EUA é aterradora no Brasil. Não só por causa do modo criminoso como ambos estão a lidar com o coronavírus, mas porque o presidente brasileiro chega a participar numa manifestação onde se pede a dissolução do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, e como não fosse bastante o regresso dos militares ao poder. Tudo porque o clã Bolsonaro (o Presidente e os filhos Carlos e Eduardo, respectivamente vereador e deputado) é alvo de toda a espécie de suspeitas, incluindo de crimes de sangue, cujo desfecho se adivinha explosivo. À hora a que escrevo, o ex-ministro da Justiça, demissionário por discordar do afastamento do director-geral da Polícia Federal, alegadamente por se recusar a pôr o Presidente ao corrente das investigações que envolvem os filhos e aliados (e já substituído por um amigo da família), depõe na Polícia Federal sobre o caso, de que diz ter provas. A ser verdade o que diz o ex-ministro Sergio Moro, e a confirmarem-se as suspeitas de que o clã Bolsonaro é suspeito, o Brasil caminha para um no impeachment ou pior. O ministro da Defesa fez saber, nos últimos dias, que as Forças Armadas estão comprometidas com a democracia, ao lado da lei, da ordem e da liberdade. Como suspeito que o aviso foi mais para dentro que para fora, tenho dúvidas.
25 de abril de 2020
É SIMPLES. Não há comemoração oficial do 25 de Abril de 74 que não esteja envolta em polémica. Este ano por causa do coronavírus, que desaconselha ajuntamentos e alguns não querem ver na Assembleia da República alegando este motivo, e outros querem por outros motivos. O problema, como sempre, é a data que se pretende comemorar, que uns querem, outros não. Já dei para este peditório pelo menos uma dezena de vezes. O 25 de Abril de 74 pôs fim a uma ditadura, e como abomino ditaduras, é motivo para comemorar. É verdade que a coisa ia dando para o torto, mas o 25 de Novembro de 75, outra data a comemorar, evitou o pior, e o pior seria nova ditadura. Isto, 25 de Abril e 25 de novembro, são, para mim, datas essenciais, como tal comemoráveis. O resto são detalhes.
24 de abril de 2020
O MATA-BICHO. Para quem pensa que Trump bateu no fundo, o sujeito demonstra diariamente, agora nos briefings sobre o coronavírus, que o fundo não tem fim à vista. Não fosse trágico (e criminoso), os malabarismos do sujeito seriam apenas hilariantes, talvez embaraçosos para os mais crentes. Ontem sugeriu tratar o vírus injectando desinfectante, raios ultravioleta e o mais que não percebi (não é fácil percebê-lo mesmo quando fala do que sabe), levando a comunidade científica, que Trump ostensivamente despreza, a demarcar-se de imediato, dizendo com todas as letras que a sugestão de Trump foi irresponsável e perigosa. Depois de ter recomendado um remédio usado para combater a malária como sendo eficaz para combater o vírus (mesmo depois de ter sido rejeitado pelos médicos), o idiota vem agora com a mezinha que promete matar o bicho. Que mais será preciso para accionar a 25ª Emenda da Constituição e correr com ele da Casa Branca? Que mais será preciso para demonstrar que o sujeito não está bom da cabeça? E onde estão os republicanos, incluindo os que terão coluna vertebral? Quando deixarão eles de se esconder debaixo das secretárias?
11 de abril de 2020
UM MAL NUNCA VEM SÓ. O presidente Trump procura, desesperadamente, livrar-se das culpas que lhe cabem, apesar de todos sabermos como ele ignorou, criminosamente, os avisos do seu próprio governo. Sabemos hoje que Trump ignorou informação dos serviços de intelligence, em Novembro e Dezembro do ano passado (as «secretas» alertaram-no para o facto de o coronavírus estar a espalhar-se rapidamente na região chinesa de Wuhan, avisando para uma situação potencialmente catastrófica), e já em Janeiro e Fevereiro deste ano o seu próprio gabinete alertou-o para uma provável pandemia, que poria em risco a saúde e a vida de milhões de norte-americanos. Como também sabemos, Trump dizia, por essa altura, já com mortos no terreno, que o coronavírus não passava de um simples vírus como tantos outros e aconselhava os seus concidadãos a viver como habitualmente, queixando-se de que tudo o que se dizia não passava de uma mistificação criada pelos opositores, um exagero dos media destinado a lesar-lhe a reputação. Agora, depois de mais de quase 19.000 mortos só nos EUA, Trump insiste em vender-nos um medicamento que lhe foi impingido pela Fox News e que os médicos rejeitam (provocando uma escassez no mercado para quem dele necessita, porque Trump comprou 29 milhões de unidades), e acusa a Organização Mundial de Saúde (OMS) de não o ter alertado a tempo, apesar de Trump ter continuado com a mesma bazófia já depois de a OMS ter declarado a pandemia. Como já vimos noutras situações, imagino que Trump sairá incólume de mais esta, senão mesmo por cima, porque a OMS, o bode expiatório caído do céu, não vai entrar em guerra com ele, logo ficará a suspeita que foi a OMS a culpada. E porque, lamento dizê-lo, a sua base de apoio já demonstrou vezes sem conta que come tudo o que ele diz, mesmo as mais rematadas mentiras. Dirão alguns que não perco uma oportunidade para atacar o sujeito. Pelas oportunidades que deixo passar, acho um exagero. A verdade é que Trump não perde uma oportunidade para falhar miseravelmente. Nem sequer é capaz de mostrar empatia com quem sofre, o mais elementar princípio de qualquer ser humano.
26 de fevereiro de 2020
AVENTURAS PERIGOSAS. Um professor escreveu, no Público, a propósito do caso Marega, que «a máscara [de André Ventura] vai caindo e mostrando o racista, xenófobo, oportunista e populista» que ele é. O problema é que o deputado do Chega sobe fortemente nas sondagens à medida que vai deixando cair «a máscara», como diz o professor, embora me pareça que Ventura nunca tenha escondido ao que vem. Também não acho que os media lhe dêem demasiada atenção, como se diz por aí. Dando-lhe espaço, os media evitam que a cartilha passe apenas pelas redes sociais, onde se dizem as maiores barbaridades impunemente e sem contraditório. Fazer de conta que Ventura não existe é pior que dar-lhe exposição, mesmo que demasiada. Como se viu com a reacção do sujeito à proposta da deputada Joacine Katar Moreira (o deputado do Chega disse que Joacine devia ser devolvida à origem, Guiné-Bissau, quando esta defendeu que Portugal devia devolver às ex-colónias o património que será das ex-colónias), o sujeito usou o caso para estimular os seus apoiantes e simpatizantes e promover a agenda que, com grande sentido de oportunidade, resolveu abraçar, apesar de pouco tempo antes pensar o contrário — e isto é demasiado sério para se ficar por discussões de Facebook e afins. O racismo existe, e em vez de Ventura o reconhecer e combater (como se esperaria de um deputado), há que alimentá-lo para servir a sua cruzada. Joacine Katar Moreira, já agora, começou por ser um desastre, e agora tornou-se um embaraço até para quem não votou nela. Mas nada disso justifica a «ironia» com que Ventura resolveu brindá-la. O líder do Chega sabia bem como a suposta «ironia» seria interpretada pelos seus apoiantes e simpatizantes, e por isso não hesitou em usá-la. Como não hesitou em dizer que não viu insultos racistas a Marega quando toda a gente viu o contrário.
7 de fevereiro de 2020
A FARSA DOS COBARDES. Confirmou-se a farsa anunciada: o Senado americano, de maioria republicana, fez ouvidos de mercador (recusou-se a ouvir testemunhas cruciais que poderiam ter mudado o desfecho do processo de impugnação), e depois votou pela não destituição do presidente Trump. Quem não viu que Trump tentou chantagear o presidente ucraniano só pode ter sido porque não quis ver — e quem acha que o crime de que foi acusado não foi motivo bastante para o afastar da presidência jamais encontrará motivo bastante. Quem tomou conhecimento das evidências que foram surgindo viu que a acusação é cristalina e devidamente fundamentada, pelo que insistir que não houve nada, só quem está mal-informado ou mente descaradamente. As acusações que são feitas a Donald Trump não são matéria de opinião: são factos comprovados por testemunhas credíveis e às quais poderiam juntar-se outras mais que os republicanos não quiseram ouvir, porque os republicanos no Senado sabiam que as testemunhas iriam prejudicar Trump e eles, senadores republicanos, têm medo de Trump. Preocupados com os lugares que vão disputar em próximas eleições, os senadores republicanos preferiram acobardar-se a levar com a ira com que Trump iria brindá-los caso se atrevessem a contrariá-lo, como já se viu com o senador Mitt Romney, que teve a coragem de votar segundo a sua consciência e já está a pagar as consequências. É a democracia, dirão, o pior regime excluindo todos os outros. Sim, é a democracia no que tem de pior. É o regime que hoje se combate abertamente, que tem vindo a ser minado por ditadores e candidatos a ditadores diante a impotência de uns, a indiferença de outros e o aplauso geral de quem vê o mundo a preto e branco, dos que acreditam em soluções simples para problemas complicados e que por isso alimentam os evangelistas do ressentimento e os pregadores do ódio.
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