17 de maio de 2006
16 de maio de 2006
A prédica de Luiz Felipe Scolari antes de anunciar os eleitos para o Mundial da Alemanha, que a RTP transmitiu em directo (e certamente os outros canais) durante largos minutos, foi perfeitamente escusada. Já toda a gente sabia quem manda nas selecções, até porque Scolari já tinha dito, sem rodeios e à bruta, que é ele quem manda. Numa altura em que é preciso cerrar fileiras em torno das selecções (é bom não esquecer que estamos a uma semana de os sub-21 iniciarem o Europeu da categoria), esperar-se-ia tudo menos situações como esta — além de que foi chover no molhado.
12 de maio de 2006
O sociólogo Rui Pena Pires resolveu pedir à comunicação social que ignore o protesto do Partido Nacional Renovador, que faça de conta que a manifestação de Vila de Rei não existiu. A razão é compreensível: o protesto «pode gerar uma onda de xenofobia se for noticiado», e ter consequências que ninguém deseja. Acontece que o papel da comunicação social é divulgar as notícias, as boas e as más, e seguramente que não haveria notícias caso a comunicação social olhasse a consequências. Além de que a medida proposta por Pena Pires — fingir que nada se passou — é esconder o gato mas deixar-lhe o rabo de fora.
11 de maio de 2006
É possível que Manuel Maria Carrilho tenha razões de queixa pelo tratamento de que foi alvo por parte da comunicação social por ocasião das Autárquicas, mas quando ele ataca tudo e todos torna-se difícil acreditar. Além disso, o deputado-filósofo apresenta-se como juiz em causa própria, o que também não se recomenda. Por mais que garanta que não, Sob o Signo da Verdade é um mero ajuste de contas, ressentimento puro — e só convence quem já está convencido. Tirando uns cobres que lhe possa render, duvida-se que o livro lhe traga um pingo de estima pessoal ou política, além de que atacar os jornalistas é um erro que, por regra, se paga caro.
10 de maio de 2006
As minhas leituras são cada vez mais releituras. Cada vez me interesso menos pelas «novidades», cada vez me apetece mais regressar aos livros onde fui feliz. Hoje decidi reler a História Universal da Infâmia, que li pela primeira vez em meados de 99. Os «exercícios de prosa narrativa» (a caracterização é do próprio Borges) começam assim:
«Em 1517 o Padre Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas e propôs ao Imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas. A essa curiosa variação dum filantropo devemos factos infinitos: os blues de Handy, o êxito alcançado em Paris pelo pintor doutor oriental D. Pedro Figari, a boa prosa bravia do também oriental D. Vicente Rossi, o tamanho mitológico de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra de Secessão, os três mil e trezentos milhões gastos em pensões militares, a estátua do imaginário Falucho, a admissão do verbo linchar na décima terceira edição do Dicionário da Academia, o impetuoso filme Aleluya, a forte carga de baioneta conduzida por Soller à frente dos seus Pardos y Morenos no Cerrito, a graça da menina Fulana, o mulato que assassinou Martín Fierro, a deplorável rumba El Manisero, o napoleonismo corajoso e encarcerado de Toussaint Louverture, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cabras degoladas pela catana do papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe.»
9 de maio de 2006
8 de maio de 2006
Não há bela sem senão no caso dos brasileiros de Vila de Rei. A prová-lo está a manifestação do Partido Nacional Renovador marcada para aquela localidade, onde os nacionalistas irão exigir a demissão da presidente da autarquia local e o fim da «colonização». O pior é que tudo isto é bem capaz de não se tratar, apenas, de um sentimento de extremistas, de meia dúzia de gatos-pingados. A coisa é bem capaz de merecer a concordância silenciosa de muita gente e, a prazo, muitíssimo mais.
5 de maio de 2006
O ministro António Costa terá apelado em Viena a uma maior troca de informações entre os países, nomeadamente entre os países da União Europeia, no que respeita à luta contra o terrorismo. Ora, contando que estes apelos já têm barbas, quer isto dizer que nada se fez? Mas há mais: o ministro de Estado e da Administração Interna quer combater «as causas e factores que podem conduzir à radicalização e recrutamento» de terroristas. E quais são «as causas e factores que podem conduzir à radicalização e recrutamento» de terroristas? Infelizmente, o ministro não disse. Mas suspeito que as causas são as do costume: exclusão social, desemprego, por aí fora. Isto é, causas que não têm em conta os factos que todos os dias demonstram que a realidade é outra.
4 de maio de 2006
Raro é o dia que não tenho dois ou três crashes no Firefox do PC. (Curiosamente, nunca me aconteceu no MAC, mas não uso o Firefox do MAC vezes suficientes de molde a tirar conclusões.) Posso estar enganado, mas cheira-me que aqui anda mão da concorrência. Devo dizer que tenho razões para suspeitas. Há anos, usava eu um sistema operativo muitíssimo melhor (e mais barato) que o sistema então dominante, vi-me obrigado a desinstalá-lo porque determinado programa não se «entendia» com ele. Bem se apressou a empresa proprietária do «meu» sistema a fazer uma actualização e a enviá-la aos utilizadores, mas já não foi a tempo. Mais tarde descobriu-se que o sistema operativo supostamente defeituoso não tinha incompatibilidade alguma com o tal programa, mas o mal estava feito e nunca se provou que houve marosca. Por razões que compreenderão, omito o nome dos produtos e das empresas proprietárias. Direi apenas que o sistema operativo então dominante pertencia à mesma empresa que hoje faz concorrência ao Firefox.
3 de maio de 2006
A ArcosOnline anunciou que o romance O Salústio Nogueira, de Teixeira de Queirós, está disponível para download.
2 de maio de 2006
Os vários exemplos demonstram que as decisões como a que hoje tomou o presidente boliviano — nacionalizar as reservas do petróleo e do gás — pagam-se caras. Os vários exemplos demonstram, também, a quem vai ser atribuída a culpa logo que os resultados desta medida se façam sentir. Os vários exemplos demonstram, por último, que serão os mais carenciados quem mais vai sofrer. Mas pode ser que não, que haja um milagre, que a regra contemple uma excepção.
1 de maio de 2006
Como pressionar o regime iraniano de forma a alcançar resultados sem a ameaça de uma intervenção militar? Tirando as forças políticas do costume, que se recusam a ver um palmo à frente do nariz, não se vê como. Infelizmente a ameaça não chega, como demonstrou o presidente Ahmadinejad, que já disse que não quer saber das resoluções do Conselho de Segurança. Está visto, também, que só um milagre fará com que se alcance uma solução diplomática, a não ser que a solução diplomática passe por aceitar a nuclearização do Irão — o que é pouco provável e muitíssimo perigoso. O que virá a seguir?
Já só faltava que um juiz desse uma ajudinha a'O Código Da Vinci. Foi no texto da sentença que ilibou Dan Brown de uma acusação de plágio, onde o magistrado resolveu espalhar algumas palavras de modo a constituírem uma mensagem cifrada. O juiz terá dito não ver por que razão uma sentença não há-de ser «matéria de diversão». De facto, imagina-se perfeitamente Dan Brown (e a Random House) a rir às gargalhadas.
27 de abril de 2006
Como devem ter reparado, sempre que o comportamento dos deputados merece reparo logo surge alguém disposto a lembrar que as críticas aos parlamentares se prestam a demagogia, até porque é moda dizer mal dos políticos. Têm razões para o fazer, alguns mais do que outros, mas a verdade é que quem os critica também as tem. Aliás, nem são precisas razões para criticar o comportamento dos deputados. Os factos, como os registados ontem (os deputados demonstraram não saber a quem justificar as faltas, dando origem a uma enorme barafunda), falam por si. Mas há mais: Macário Correia escreveu hoje, no Público, que «é por de mais evidente que metade dos deputados não fazem nada de útil para o país». E acrescentou: «durante as semanas ditas de "trabalho parlamentar", metade [dos deputados] vagueiam pelos corredores, tratando de intrigas ou de assuntos particulares, sem qualquer interesse público». Se bem se lembram, Macário Correia foi deputado durante seis anos. Sabe, portanto, do que fala.
25 de abril de 2006
A revista Sábado defendeu, em editorial, que os deputados não deveriam ter faltas. Porque os deputados ocupam «um cargo de demasiada responsabilidade para que lhes seja exigido que piquem o ponto»; porque «os deputados devem estar sempre disponíveis»; e porque «sujeitar os deputados à humilhação de picarem o ponto» e de «verem controladas as horas de entrada e de saída é ajudar a desfazer a sua credibilidade». Ora, eu acho a ideia excelente no plano dos princípios. Só que, na prática, e como os deputados já demonstraram inúmeras vezes, o «relógio de ponto» é bem capaz de ser o menor dos males. É triste, mas é assim.
24 de abril de 2006
«When this country [Malawi] became independent it had very few institutions. It still doesn’t have many. The donors aren’t contributing to development. They maintain the status quo. Politicians love that, because they hate change. The tyrants love aid. Aid helps them stay in power and contributes to underdevelopment. It’s not social or cultural and it certainly isn’t economic. Aid is one of the main reasons for underdevelopment in Africa.» Dr. Jonathan Banda, citado por Paul Theroux em Dark Star Safari
Embora afirmando desconhecer o conteúdo do discurso que Cavaco Silva vai proferir nas comemorações do 25 de Abril, Manuel Alegre foi dizendo que «será um péssimo começo» caso o Presidente resolva «puxar as orelhas aos deputados». Infelizmente não explicou porquê, talvez porque não seja fácil explicar porquê. Mas já não me parece difícil explicar a atitude do PR caso ele entenda dar um «puxão de orelhas» aos deputados. Aliás, tirando Manuel Alegre, quem não entenderá?
20 de abril de 2006
«De norte a sul do país, é notória a onda crescente de entusiasmo suscitada pelo MIC de Manuel Alegre», escreveu Luís Costa no Público de hoje. E prosseguiu: «só os mais distraídos ou os menos lúcidos poderão ignorar a dinâmica imparável do MIC». Significa isto que eu ando distraído e tenho um défice de lucidez, pois ainda não dei pela onda de entusiasmo ou pela «dinâmica imparável». Aliás, ainda não dei pela existência do MIC, mas deve ser distracção minha. Mas há mais, muitíssimo mais. Segundo o cavalheiro, a ausência de Manuel Alegre nas votações da semana passada «só poderá ser criticada por manifesto populismo e pelos adeptos da cultura antiparlamentar», pois «Alegre teve o cuidado de "picar o ponto"» antes de se ausentar — «e só o esforço de ter passado pelo Parlamento na antevéspera de Sexta-Feira Santa já deveria ser por todos aclamado». Comovente, não é?
Um colóquio sobre a designação «Ética e Política» na Assembleia da República (é favor não sorrir), a proposta do PSD para a criação de um conselho de ética e conduta que fiscalize o comportamento e que possa propor a perda de mandato dos deputados (é favor não sorrir) e mais não sei quantas propostas de alteração ao regimento de modo a controlar as faltas dos ditos relegaram para secundaríssimo plano a «ponte» da semana passada. Não digo que tudo isto não seja importante e que estejamos perante manobras destinadas a varrer para debaixo do tapete as faltas dos senhores deputados, mas a verdade é que só se vê quem queira mudar a lei e ninguém que reclame o seu cumprimento. Tirando os cinco deputados faltosos do CDS, que justificaram as suas faltas e tornaram públicas as suas razões, não se conhecem as justificações dos restantes deputados faltosos. Ora, eu julgo que o país tem o direito de saber.
19 de abril de 2006
A temática abordada pel’O Código Da Vinci presta-se a controvérsias e êxitos de vendas, mas há sempre alguém disposto a dar uma ajudinha no marketing. Depois de pedir alterações ao filme que aí vem, a pretexto de que o casamento de Jesus e Maria contraria a versão da Igreja Católica e ofende os cristãos, a Opus Day resolveu, agora, pedir que a película seja considerada ficção. E porquê? Confesso que não percebi. Que importância terá o facto de o filme ser considerado ficção ou outra coisa qualquer? Um mistério. O que se percebe é que atitudes destas são claramente contraproducentes, e custa a crer que os inúmeros exemplos conhecidos não tenham servido para nada. Além de que a pouca simpatia que a Opus Day goza fora da Igreja Católica (e não só fora da Igreja Católica) é bem capaz de reforçar o contrário do que pretende. Aliás, não me surpreenderia que os responsáveis pelo filme mandassem imprimir nos cartazes do filme uma frase do género: «O filme que a Opus Day queria censurar». Para o caso de ainda não terem pensado nisso, prescindo, desde já, dos direitos de autor.
17 de abril de 2006
Faz hoje cinco anos que deixei de fumar. Não, não sou fundamentalista anti-tabaco, como grande parte dos ex-fumadores, e também não me revejo na onda politicamente correcta que pretende proibir o fumo em restaurantes e afins, a pretexto de males por demonstrar. Nem, sequer, me sinto no direito de aconselhar outros a largar o vício, porque conselhos é coisa que não gosto de dar (mesmo a quem mos pede) e cada um sabe de si. Sei, apenas, como é difícil, e estou convencido de que apenas sabe do que falo quem passou pela experiência. Deixar de fumar não é, apenas, largar o tabaco. Deixar de fumar é abandonar um estilo de vida, de certo modo morrer e nascer de novo. Um pouco dramático, mas é assim.
13 de abril de 2006
Cento e tal deputados resolveram ausentar-se da Assembleia da República e deixar uma série de leis por aprovar devido a falta de quórum. Mais: a grande maioria assinou o livro de presenças no início da sessão e, depois, foi-se embora. O Estatuto dos Deputados considera motivos justificados para se faltar a doença, o casamento, a maternidade e a paternidade, o luto, a missão ou trabalho parlamentar e o trabalho político. Adivinhem lá qual vai ser a principal justificação dos deputados faltosos. Eu sei, eu sei. Isto é um caso que se presta a demagogia, mas os factos são o que são.
12 de abril de 2006
O julgamento de Avelino Ferreira Torres, que terminou com a aplicação de uma pena de dois anos e três meses de prisão ao ex-presidente da Câmara de Marco de Canaveses, corre o risco de ser anulado devido a falhas processuais. Pior: o caso corre sérios riscos de prescrever. Entretanto, o Supremo Tribunal de Justiça considerou «lícitos» e «aceitáveis» os castigos corporais aplicados por uma responsável de um lar de crianças deficientes, castigos que incluíram palmadas e bofetadas em menores, encarceramentos à chave em despensas com a luz apagada, e amarrar à cama quem «acordasse os restantes utentes do Lar» ou perturbasse o descanso matinal da senhora. Como se vê com mais estes dois exemplos, a Justiça portuguesa continua a ser um caso consensual: ninguém acredita nela.
O Hospital Padre Américo tornou-se a primeira unidade hospitalar do país a ter um canal interno de televisão onde se pode assistir a conselhos de saúde, saber quais são as farmácias de serviço e outras informações do género. Parece que o principal objectivo é sensibilizar os utentes para as questões da saúde e do funcionamento daquela unidade hospitalar, e que a coisa é um sucesso. Acontece que os responsáveis disseram que o público-alvo do projecto são os utentes internados ou em circulação, e isso colocou-me uma dúvida: quererão os utentes internados num hospital assistir a um canal de televisão que a toda a hora lhes lembre as razões por que ali se encontram? Com certeza que, à vista desarmada, a ideia parece bem-intencionada, mas é bem capaz de ser contraproducente nos objectivos que pretende atingir.
10 de abril de 2006
A França perdeu uma oportunidade de fazer alguma coisa pelos seus jovens desempregados. Curiosamente, ou talvez não, por culpa da esquerda e dos sindicatos, que gostam de se armar em campeões da defesa dos trabalhadores. O Contrato de Primeiro Emprego proposto pelo Governo de Dominique de Villepin podia ter os seus defeitos, mas iria permitir que alguns jovens alcançassem o primeiro emprego. Assim, chumbado o Contrato, tudo ficou como dantes. Isto é, o desemprego dos jovens vai ficar como estava. Os sindicatos e a esquerda já saudaram a decisão do Governo como «uma grande vitória». Uma grande vitória dos sindicatos e da esquerda, é claro, que dos jovens desempregados não se vê como.
7 de abril de 2006
Os cartoons sobre o profeta Maomé publicados num obscuro jornal dinamarquês constituíram uma blasfémia e deram origem a reacções «compreensíveis» do Islão. Um atentado no interior de uma mesquita de Bagdad, que provocou 74 mortos e 140 feridos (até ver), não suscita qualquer reacção do Islão. Como se vê, os factos falam por si.
6 de abril de 2006
Contrariamente ao que me pareceu a generalidade das opiniões, não achei nada de especial de Sábado. Pelo contrário, achei Amesterdão magnífico. Quer dizer, magnífico não é bem o termo, mas excelente já não me parece bem. Espero que o meu terceiro McEwan (A Criança no Tempo, um livro que me veio parar às mãos integrado na Colecção Mil Folhas) não me decepcione.
4 de abril de 2006
Compreende-se o mea culpa e a desilusão de quem apoiou a invasão do Iraque, coisa que, em parte, subscrevo. Mas dizer-se que Saddam Hussein não tinha armas de destruição maciça, já me parece demais. Não havia, antes da invasão, provas (ou evidências credíveis) de que o ditador iraquiano possuía armas de destruição maciça? Muito bem. E que provas (ou evidências credíveis) passou a haver que Saddam Hussein não as tinha? Será que o facto de não terem aparecido significa, por si só, que não as havia? Evidentemente que o não aparecimento das armas de destruição maciça pode significar que não existiam, mas isso é uma possibilidade. E, se falamos de possibilidades, temos que falar doutras. Por exemplo, as armas podem ter sido destruídas nos primeiros dias da invasão, passado a fronteira e estar nas mãos sabe-se lá de quem, estar escondidas sabe-se lá onde. Convenhamos que são possibilidades tão credíveis como a que aponta para a inexistência de armas de destruição maciça, por mais que se tentem desvalorizar. Mas são possibilidades, repito. Não factos, como muitos pretendem. Daí que ache lamentável que os «arrependidos» se rendam tão facilmente à ditadura das suposições e ao politicamente correcto, embora vivamos num tempo em que até os jornalistas têm dificuldade em separar os factos das opiniões.
3 de abril de 2006
Face à questão dos emigrantes portugueses do Canadá, Joana Amaral Dias acha que o Governo português «deveria ter evitado que a situação chegasse a este ponto» e «reforçar o auxílio e apoio à legalização dos emigrantes». Ou seja, Joana Amaral Dias não tem a mais pequena ideia do que está a falar.
31 de março de 2006
«Um estudo divertido», diz quem tenta impedir a venda de um livro onde se arrasa completamente a obra de Margarida Rebelo Pinto™. Confesso que a mim me parece tudo, menos um estudo divertido. Diria mais: o livro que João Pedro George se prepara para dar à estampa é um autêntico linchamento, embora um linchamento com base em factos, carradas de factos. Pelo menos a versão a que tive acesso, a que foi publicada no Esplanar e que parece ter sido a base para o livro. Mas não é isso o que aqui me traz. Nem isso, nem, sequer, a tentativa de silenciar a obra, tão estouvada quanto grotesca. O que me faz espécie é o pormenor da notícia em que se diz que as vendas dos livros de Margarida Rebelo Pinto™ sofreram uma enorme queda após a publicação do texto no blogue e a notícia do 24 Horas. É que, a ser verdade, isto significa que os críticos literários têm mais poder do que se diz. Claro que a notícia do 24 Horas ajudou muito, e duvido que o texto em causa tivesse chegado aos leitores de margaridas caso não fosse o 24 Horas. Mas é preciso dizer que o texto de João Pedro George chegou lá porque continha a substância de que são feitas as notícias: os factos, coisa rara de se ver numa crítica literária e que, por si só, fazem toda a diferença.
30 de março de 2006
Freitas do Amaral, outra vez. Agora por causa de uma conferência de imprensa na sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros canadiano em que recusou participar por ter sido vedada à imprensa portuguesa, que posteriormente considerou «um pequeno acidente de percurso». Desconhece-se, à hora a que escrevo, mais pormenores sobre o caso, nomeadamente as razões invocadas para impedir o acesso aos jornalistas portugueses. Mas uma coisa é certa: independentemente das razões que lhe poderão assistir, Freitas do Amaral agiu com pouca diplomacia. É preciso não esquecer que o ministro dos Negócios Estrangeiros se deslocou ao Canadá para defender os interesses dos portugueses que lá se encontram em situação ilegal, pelo que seria de esperar todos os cuidados diplomáticos e um pouco mais de humildade. Cuidados que também não foram muitos quando Freitas do Amaral resolveu afirmar, antes da partida para o Canadá, que lhe parecia ter havido algum excesso de zelo no processo de deportação dos portugueses. Mas há mais: pouco depois do incidente da conferência de imprensa, o ministro dos Negócios Estrangeiros resolveu advertir o Governo canadiano para o «grave prejuízo para a economia do Canadá» caso «os trabalhadores portugueses [do sector da construção civil] começassem todos a ser mandados embora». Isto é, Freitas do Amaral resolveu dar lições de economia ao Governo canadiano. E depois ainda me acusam de ter um problema com Freitas do Amaral.
«(…) os responsáveis políticos cedem muitas vezes à tentação de procurar melhorar a "segurança colectiva" através da restrição das liberdades individuais», diz Bettencourt Resendes no DN de hoje. Ora, eu gostava de saber como é possível melhorar a segurança colectiva sem abrir mão das liberdades individuais. Estou a falar a sério, porque ainda não vi uma única alma explicar, com exemplos concretos, como isso se faz.
29 de março de 2006
Ainda não vi a tropa do costume tecer o mais leve comentário sobre o muçulmano convertido ao cristianismo que se viu obrigado a pedir asilo político no estrangeiro (no caso a Itália) por correr sérios riscos de ser condenado à morte no seu país (o Afeganistão). Pelos vistos, para essa gente isto é assunto sem importância. Imaginem o barulho que por aí não iria caso fosse a igreja católica a condenar uma ovelha tresmalhada a um castigo dez vezes inferior ao que paira sobre o afegão. Não, já disse que sou ateu, e não tenho razões para defender a igreja católica. Mas seria bom que não se metesse tudo no mesmo saco, que se enfrentassem as coisas tal como são.
28 de março de 2006
27 de março de 2006
24 de março de 2006
Sobre a polémica em curso por causa do iTunes, quero dizer o seguinte: recuso-me a comprar um produto (música, vídeo, o que for) que não possa usar onde me apetecer. Isto é, que não possa usar em qualquer outro leitor de ficheiros digitais ou computador que não tenha o iTunes instalado. Independentemente das razões que possam assistir à indústria, parece-me óbvio que o consumidor ganharia com a adopção de um formato que pudesse ser lido por qualquer maquineta. E se o consumidor ganharia, também me parece óbvio que a indústria ganharia. Mais: contrariamente ao que diz a indústria, esta medida contribuiria para a diminuição da pirataria e não para o seu incremento.
23 de março de 2006
Renato Carmo defende o aparecimento de «uma esquerda de vanguarda». E que «esquerda de vanguarda» seria essa? Segundo ele, uma esquerda que questione «a fundo o papel do Estado na sociedade» e não receie «apontar os seus excessos», uma esquerda que encare a globalização «como uma oportunidade de solidariedade e de criatividade», uma esquerda que perceba que «o indivíduo é o centro de qualquer acção política», uma esquerda que encare «a liberdade individual como um valor supremo». Uma esquerda, enfim, mais próxima da direita.
22 de março de 2006
Não, não tenho nada de pessoal contra Freitas do Amaral. Nem de pessoal, nem de político, muito menos político-partidário. Mas as notícias que diariamente me chegam da sua actividade como ministro dos Negócios Estrangeiros são de tal modo desconcertantes que não conseguem passar despercebidas, sobretudo quando são trapalhadas que sucedem a trapalhadas. O ainda ministro dos Negócios Estrangeiros decidiu, agora, não despedir quem já tinha despedido, porque hoje concluiu que necessitava de quem ainda ontem não fazia falta. No caso, o conselheiro cultural em Pequim, após ter descoberto que aquele funcionário era o único que falava mandarim e cantonês na Embaixada de Portugal na China. Bem sei que isto passaria facilmente despercebido caso Freitas do Amaral não tivesse um currículo invejável em matéria de trapalhadas. Mas, como tem, a coisa tende a ser vista como mais uma trapalhada — que, na realidade, é. Quantas mais trapalhadas serão necessárias para que Freitas do Amaral se dedique a outra actividade?
21 de março de 2006
20 de março de 2006
O recente episódio protagonizado por Freitas do Amaral e pelo seu homólogo dinamarquês — em que o primeiro terá pedido ao segundo que falasse à imprensa portuguesa no sentido de esclarecer o episódio dos cartoons e que acabou com Freitas do Amaral a meter, de novo, o pé na argola, como conta a revista Sábado — chega a ser hilariante. E ainda dizem que o ministro dos Negócios Estrangeiros está a ser vítima de perseguição ou má-fé por causa de águas passadas, como se as razões por que é criticado não valessem por si.
17 de março de 2006
A notícia de que hospitais e clínicas privadas portugueses estarão em condições de receber ingleses que se encontram à espera de uma cirurgia (o Público fala em 150 mil) quando é sabido que em Portugal existem 242 mil desgraçados na mesma situação, só pode ser uma anedota de mau gosto. A gente só fica realmente a saber que a coisa é a sério depois de ouvir o presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada dizer, ao Público, que isto das cirurgias aos ingleses pode ser uma boa notícia para o turismo português, ao mesmo tempo que atribui a espera dos portugueses (oito meses em média) a problemas «administrativos». Mas há mais dados curiosos revelados por Teófilo Leite: «os privados fazem cerca de 100 mil cirurgias por ano e não teriam problemas em assegurar mais cerca de 50 mil». Sim, parece que há um expediente que permite aos utentes portugueses do sector público fazer cirurgias nos privados a expensas do Estado em casos excepcionais, embora a coisa também tenha os seus problemas administrativos. Num cartoon publicado na Sábado da semana passada, Luís Afonso procurava saber junto de um cidadão finlandês «como é possível sobreviver num país [a Finlândia] onde há muita produtividade e não há iliteracia nem corrupção». O cartoon deixa a resposta no ar. Mas, pelo sim, pelo não, desaconselha-se a emigração portuguesa para a Finlândia.
Sou ex-fumador mas sou contra esta decisão, absolutamente contra. Aliás, sobre este assunto sou profundamente anti-americano.
Recomendo ao J. Rentes de Carvalho três livros de viagens que não são livros de viagens: Porto-Sudão, de Olivier Rolin, O Céu que nos Protege, de Paul Bowles, e Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry. (Se é que já não leu, evidentemente.)
16 de março de 2006
O primeiro-ministro presidiu à sessão de encerramento de um encontro destinado a promover a introdução das novas tecnologias nas pequenas e médias empresas. Até aqui, tudo normal. Acontece que a coisa se chamou «Webização da Comunidade Empresarial do Comércio», uma macaquice perfeitamente escusada e que não lembra ao diabo.
15 de março de 2006
Faz tempo que as primeiras páginas de um livro me fascinaram como estão a fascinar-me as primeiras páginas de Modigliani: A Life (de Jeffrey Meyers), a biografia de um pintor italiano que eu, além do nome, pouco mais conhecia. O fascínio deve-se à forma como está escrita, pois do conteúdo ainda é cedo para falar. Espero ter a mesma sorte com as minhas últimas aquisições, também elas biografias: Miles Davis: The Definitive Biography, de Ian Carr, Mozart: A Life, e Beethoven, ambas de Maynard Solomon.
13 de março de 2006
Não há dia que passe sem que um político importante nos venha dizer que é possível resolver o problema do Irão pela via diplomática. Não há dia que passe que não se torne mais evidente que é cada vez mais remota essa possibilidade. Não há dia que passe que não se torne mais claro que o trabalho sujo vai sobrar para os americanos.
10 de março de 2006
O ministro dos Negócios Estrangeiros considerou «ignorantes» os que não «perceberam» o conteúdo do comunicado que sua excelência resolveu emitir para condenar a publicação dos cartoons sobre o profeta Maomé. Temos, assim, que eu sou ignorante, porque também eu «não compreendi» o que ele disse sobre tão douta matéria. Nada que me rale por aí além e que eu, no fundo, não seja, mas confesso que ainda me ralaria menos se Freitas do Amaral fosse ministro do Burundi. Como ele julga que está certo e que os que dele discordaram são uma cambada de estúpidos (ou mal-intencionados, ou ignorantes), teme-se que a cegueira do ministro seja maior da que se costuma atribuir ao pior cego. É que a cegueira de Freitas do Amaral é bem capaz de ser uma variante da ignorância, no caso uma variante para pior. E quando a ignorância se junta à arrogância, mais vale nada a dizer.
9 de março de 2006
«O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.» Eça de Queirós, Os Maias
8 de março de 2006
Pode ser muito bem intencionado, mas o projecto que pretende impor uma quota mínima para as mulheres nas listas para eleições legislativas, autárquicas e europeias — a chamada Lei da Paridade — é um disparate completo. Por que razão as mulheres hão-de entrar na política por decreto e não por vocação ou competência? Não será isto um insulto às mulheres?
7 de março de 2006
6 de março de 2006
Esta senhora deu voz a milhões de pessoas que pensam como ela mas não têm voz — ou, então, preferem refugiar-se no politicamente correcto. Pode ser que isto seja um começo. Pode ser que se comece a discutir o Islão com rigor e frontalidade.
2 de março de 2006
Era só o que faltava que o sagrado não pudesse ser posto em questão, como defende o cardeal-patriarca de Lisboa. O sagrado pode (e deve) ser questionado por qualquer criatura pensante, a sério ou a brincar, por crentes e não crentes. Mas se não surpreende a posição de D. José Policarpo, o desempenho do ministro dos Negócios Estrangeiros não se compreende. Depois de ter feito asneira atrás de asneira (asneira é o mínimo que se pode dizer), Freitas do Amaral disse, agora, que condenar a violência por causa dos cartoons «não era o essencial». O essencial, para ele, é «não deitar mais achas para a fogueira», e a melhor maneira de promover a paz e a concórdia é condenar uma parte e esquecer a outra. Esquecer é como quem diz, que o problema de Freitas do Amaral não foi o esquecimento. O problema é ele achar que a violência por causa dos cartoons é compreensível (logo desculpável), e que o acto de os publicar só pode ser condenável. Isso é que é lamentável.
1 de março de 2006
28 de fevereiro de 2006
Confesso que já achei mais graça à gripe das aves. Como todas as epidemias anunciadas mas nunca concretizadas, também eu me convenci desde o início que estávamos perante mais uma epidemia que dois meses depois de anunciada já ninguém se lembra do nome. Afinal, parece que a coisa é mais séria do que se pensava, e é bem capaz de haver riscos de uma epidemia generalizada. As autoridades sanitárias portuguesas já garantiram que está tudo a postos, que há um plano de emergência. Ninguém acredita, é claro, mas pode ser que não seja nada.
A publicação dos cartoons foi uma estupidez, disseram os mais moderados. A publicação dos cartoons foi um acto racista, disseram os mais radicais. Mas há uma coisa que ficou por dizer: será que alguém teria dado pela bonecada caso não tivesse havido uma acção concertada com a finalidade que todos sabemos? Pois é, não custa nada fazer juízos de valor à posteriori, mas é bom não perder de vista o que está na origem do que se pretende julgar.
Muito oportunos os extractos do testemunho de Elie Wiesel a um tribunal francês publicados na Rua da Judiaria.
27 de fevereiro de 2006
23 de fevereiro de 2006
Como as pessoas entenderam mal as suas palavras e lhe terão atribuído declarações «com base em afirmações truncadas», o ministro dos Negócios Estrangeiros resolveu publicar uma carta no Público para esclarecer melhor a trapalhada à volta dos cartoons. E que diz Freitas do Amaral sobre tão delicada matéria? Diz que a liberdade de expressão «tem limites legais e deve ser usada com bom senso»; que pretendeu apelar ao bom senso e não «contribuir para a escalada do conflito» com «mais achas para a fogueira»; que a guerra do Iraque foi, para os muçulmanos, «uma ofensa do Ocidente aos povos islâmicos»; e que o tão glosado campeonato de futebol entre árabes e europeus mais não foi do que uma parcela de um vasto pacote de medidas com vista à promoção do diálogo entre as partes, de que também faziam parte «encontros de professores e cientistas dos dois lados, de escritores e artistas, de historiadores, de teólogos, de empresários e sindicalistas, de comerciantes, de jovens» e sabe-se lá que mais. Ora, para começar, salta à vista que não compete ao ministro contestar os «limites legais» da liberdade de expressão mas aos tribunais, e não consta que tenha havido alguma queixa. Depois, que bom senso é esse que condena quem faz as caricaturas e esquece quem a elas reage matando e incendiando? Não será isso deitar ainda mais achas para a fogueira? Finalmente, que dados tem Freitas do Amaral que lhe permitam concluir que os muçulmanos — todos os muçulmanos — foram contra a invasão do Iraque? Razão têm os que resumiram a posição do ministro dos Negócios Estrangeiros ao episódio do futebol entre árabes e europeus, pois ele ilustra bem a ligeireza (para não dizer leviandade) com que Freitas do Amaral geriu o assunto desde a primeira hora e a forma como, agora, com a publicação do esclarecimento onde nos passa um atestado de estúpidos (ou de mal-intencionados, ou as duas coisas), pretende encerrar o assunto.
22 de fevereiro de 2006
Será que o Francisco José Viegas podia meter uma cunha ao dr. Sousa Homem para que ele, ou alguém por ele, coloque online as crónicas do suplemento do DN?
21 de fevereiro de 2006
Como já disse, a condenação do historiador britânico seria ridícula se não fosse trágica. Mas há um pormenor que distingue esta condenação do episódio das caricaturas: foi feita por um tribunal, ao abrigo da lei. Goste-se ou não da legislação austríaca sobre tão delicada matéria, este facto faz toda a diferença. Claro que a proibição de se dizer que o Holocausto não existiu é pior do que negar o Holocausto, mas isso é outra conversa.
20 de fevereiro de 2006
Já disse trinta vezes o que penso acerca dos judeus e do Holocausto. Não vou, portanto, repetir-me. Mas a condenação a três anos de prisão de um historiador que há 17 anos cometeu o «crime» de ter negado o Holocausto seria ridícula se não fosse trágica. Sim, parece que há uma lei austríaca que criminaliza até dez anos de prisão quem nega ou justifica o Holocausto, mas só pode ser uma lei estúpida.
16 de fevereiro de 2006
15 de fevereiro de 2006
Não será caso para pedir uma avaliação das faculdades mentais, como o deputado da Madeira, mas não há dúvida que esta senhora está com um problema de saúde.
14 de fevereiro de 2006
Consta que o embaixador do Irão em Lisboa elogiou o comportamento do ministro Freitas do Amaral por este ter dito «coisas muito positivas e muito lógicas» acerca do episódio das caricaturas. Consta, ainda, que Mohammed Taheri terá dito que «há muito por contar» sobre o Holocausto, pois as suas contas sobre o assunto dizem-lhe que «para incinerar seis milhões de pessoas seriam precisos 15 anos». Consta, por último, que a ilustre criatura perguntou ao primeiro-ministro dinamarquês: «Que liberdade é esta que vocês têm que vos permite dizer o que querem de outros santos de outras religiões?» Infelizmente não consta que alguém lhe tenha dito que é a mesma liberdade que lhe permite dizer estas e outras baboseiras sem que nada lhe aconteça.
13 de fevereiro de 2006
O ministro dos Negócios Estrangeiros resolveu dizer que Portugal «lamenta e discorda» da publicação dos cartoons sobre o profeta Maomé e não dizer uma palavra sobre a violência daí resultante. Acusado de falta de solidariedade para com o parceiro europeu e de não ter condenado a reacção islâmica, Freitas do Amaral disse que não compreenderam bem o que ele tinha dito, e que a coisa até lhe dava vontade de rir. Agora, o ministro acha que o Ocidente tem sido o «maior agressor» do mundo islâmico, e que uns joguitos de futebol entre árabes e europeus talvez acalmem os ânimos (sobretudo se os segundos facilitarem a vida aos primeiros, presumo eu). Como já toda a gente disse e repetiu, o ministro dos Negócios Estrangeiros fez asneira atrás de asneira. O que inicialmente parecia um lapso (imperdoável, mas um lapso), confirma-se todos os dias que não foi. O homem pensa assim mesmo, e não há nada a fazer. Só não percebo que haja quem se interrogue se Freitas do Amaral disse o que disse em nome pessoal ou em nome do Governo. Afinal, desde quando um ministro tem opiniões políticas pessoais?
9 de fevereiro de 2006
Bastava que o Islão dito moderado (e supostamente maioritário) se levantasse nos sítios onde pode levantar-se (na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo) e se demarcasse dos distúrbios por causa dos cartoons para acalmar a fúria fundamentalista. Isto no caso de haver um Islão moderado, bem entendido, pois está por demonstrar que existe um Islão moderado. Aliás, está por demonstrar que o Islão é uma religião de paz.
«O desiderato liberal de que hoje desfrutamos custou muito sangue, suor e lágrimas e é um dos bens mais inestimáveis da nossa civilização. A sua defesa não se compadece com posições equívocas e é, por isso, lamentável assistir ao desfile de ambiguidades de políticos timoratos.» Mário Bettencourt Resendes, DN
8 de fevereiro de 2006
7 de fevereiro de 2006
Sempre que se comete um atentado em nome do Islão, logo se diz que foi obra de fundamentalistas. Ora, como estou convencido de que grande parte dos não muçulmanos não distingue o Islão radical do Islão moderado, presumo que se tenda a julgar os segundos iguais aos primeiros. Pior: tende-se a julgá-los a todos como radicais, no mínimo potencialmente perigosos. E porquê? Porque os ditos moderados só se demarcam de atentados e afins se um jornalista lhe meter um microfone à frente a perguntar-lhes o que pensam dessas práticas. Caso assim não seja, ficam calados e caladinhos. Na melhor das hipóteses, não se ouvem as suas vozes. Quer isso dizer que os ditos moderados condenam pela frente o que por trás aprovam? Se não é assim, parece.
O episódio da censura à actuação dos Rolling Stones no intervalo da final do campeonato americano de futebol — o Superbowl — foi duplamente ridículo. Ridículo porque a organização do evento não deveria ter contratado uma banda que já se sabia que proferia obscenidades que não estava disposta a tolerar, e ridículo porque os Stones se sujeitaram à censura.
O Daniel Oliveira quer convencer-nos de que a reacção dos muçulmanos quando alguém ofende a sua religião é semelhante à reacção dos judeus ou cristãos quando alguém se mete com a religião deles. Acontece que não é. Os judeus e cristãos não destroem embaixadas nem apelam à morte de quem se mete com o deus deles. E isto, que ele finge ignorar, faz toda a diferença.
1 de fevereiro de 2006
A sensação com que fico após assistir à polémica da crítica literária é que ninguém faz fretes a ninguém, que não há capelinhas ou arranjinhos, que não se fazem omissões deliberadas ou se sobrevaloriza quem não merece. Mas devo dizer que o facto de os críticos se pronunciarem sobre os livros dos amigos — a questão que está no centro desta polémica — nunca me perturbou, até porque nunca soube quem é amigo de quem. Os meus problemas com a crítica literária (sim, também eu tenho problemas com a crítica literária) são os argumentos (quase sempre fraquinhos ou incompreensíveis) usados pelos críticos para defenderem este ou aquele livro. Que me falem bem do livro do amigo ou mal do livro do inimigo, é-me indiferente. O que eu quero realmente saber é o que pensam dos livros e com que fundamento. É que eu estou farto de críticas literárias que não dizem rigorosamente nada sobre os livros que é suposto criticarem, e de críticas que defendem uma ideia que os exemplos contrariam. São tantos os exemplos do que digo que sempre que ouço falar de crítica literária me vem logo à memória García Márquez quando, instado por um jornalista brasileiro a dizer o que pensava acerca dos críticos que analisavam a sua obra, respondeu deste modo: «A mi me gustan mucho los críticos, principalmente quando jugan fútbol.»
Provavelmente haverá razões para condecorar Bill Gates e achar que Portugal vai ganhar com o investimento da Microsoft, mas a atenção que está a ser dada à visita a Portugal do homem mais rico do mundo chega a ser provinciana. Bill Gates terá mais importância do que muitos presidentes da República, mas o comportamento dos políticos portugueses chega a ser terceiro-mundista.
«Derrota empírica»? Por amor de deus! Isso de Cavaco Silva ter ganho as eleições mas não ter ganho com a margem que não sei quem estava à espera — e, agora, por menos não sei quantas décimas do que foi anunciado — é muito mais do que mau perder: é ridículo.
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