24 de janeiro de 2026

ELES ANDAM POR AÍ

Dois dias antes de o Ministério Público (MP) anunciar que o grupo neonazi 1143 se preparava para se ​​transformar em «milícia» e «passar das palavras aos actos», eis que o líder da agremiação criminosa apela ao voto em Ventura na segunda volta das presidenciais.

Segundo o MP, o grupo, liderado por Mário Machado, a cumprir pena na cadeia de Alcoentre por incitamento ao ódio e à violência, terá mesmo efectuado treinos de combate com réplicas de armas de fogo.

Tudo isto se ficou a saber depois de uma operação da Polícia Judiciária (PJ) que esta semana deteve 37 indivíduos suspeitos de pertencerem ao grupo 1143, entre os quais um sargento da Força Aérea, um agente da PSP, membros das claques de futebol Juventude Leonina e Super Dragões, e pelo menos cinco militantes do Chega.

Segundo o MP, o 1143, até agora o único grupo de extrema-direita que apelou ao voto em Ventura, planeava pelo menos duas acções violentas contra a comunidade muçulmana, nomeadamente com ofensas ao profeta Maomé, a quem chamariam pedófilo. A intenção dos sujeitos era provocar reacções violentas dos imigrantes muçulmanos, algo mesmo à medida de Ventura.

Vale a pena lembrar que existem em Portugal pelo menos 11 grupos de extrema-direita, pelo que será de esperar que também eles, de um modo ou doutro, apelem ao voto no candidato do Chega.

Além do 1143, classificado pela PJ como organização criminosa, denominam-se Ergue-te, Reconquista, Habeas Corpus, Portugal Hammerskins, Blood & Honour, Movimento Armilar Lusitano, Nova Ordem Social, Escudo Identitário, Movimento Nacional-Sindicalista e Direita Nacional.

Resta dizer que esta gente admira Ventura e Ventura os protege.

2 de janeiro de 2026

O CRIME COMPENSA

Se já não é, a justiça portuguesa está a caminho de ser um caso de polícia. Os exemplos são incontáveis e há-os para todos os gostos: incompetência, prepotência, ajustes de contas, escutas telefónicas sem que se perceba porquê, denúncias anónimas sopradas para a imprensa amiga com propósitos inconfessáveis e sempre em momentos suspeitos, processos distribuídos a juízes ao arrepio das regras e um longo etcétera. Vale a pena recordar uma notícia do Público de 2022 que dava conta do resultado de um inquérito aos magistrados sobre a avaliação que faziam de si próprios. Ficou a saber-se, entre outras coisas, que um em cada quatro juízes acreditava haver corrupção na justiça — «a troco de dinheiro, vantagens não monetárias ou outros favores».

Tudo isto há muitos anos, sem nunca haver punições, e se alguma coisa mudou foi para pior. Vejam-se as megaoperações, que se anunciam sempre com estrondo e estrondosamente acabam — quando acabam — em nada. E por que motivo — ou motivos — assim acontece? Para não variar, sempre pelos mesmos do costume. Desde logo porque a máquina da justiça parece mover-se em roda livre, em que cada um faz o que lhe apetece, como lhe apetece, quando lhe apetece. Depois, porque os políticos eleitos não têm coragem de fazer o que é preciso fazer, porque isso lhes traz perdas de votos.

Soube-se agora que o almirante Gouveia e Melo, candidato a presidente da República, está a ser investigado pelo Ministério Público (MP) por alegadas irregularidades cometidas quando era comandante da Marinha. Segundo a Sábado, a investigação do MP está em curso desde 2021, pelo que a revelação feita agora, a escassos dias das eleições, como sempre a coberto do anonimato, é mais que suspeita. Por que só agora o MP entendeu revelar, ainda por cima de forma criminosa, o que entendeu revelar? Constituindo um crime a revelação pública do que está em segredo de justiça, não se pode dizer que tenha sido uma coincidência, e se foi seria mais uma a somar a tantas outras igualmente suspeitas.

Devo acrescentar que Gouveia e Melo não é, nunca foi, o meu candidato à Presidência, e espero não ter que votar nele por falta de alternativa. O que agora digo sobre a sacanice de que foi vítima di-lo-ia fosse outro o candidato. Em causa está, de novo, a intromissão da justiça na política, promovendo julgamentos na praça pública, corroendo as instituições e a democracia sem que ninguém seja punido por isso. Para a justiça, incapaz de se emendar e de ser emendada por quem devia, o crime compensa.