30 de março de 2015

FILHOS E ENTEADOS. Não sei se o livro de Sócrates (A Confiança no Mundo) foi escrito por ele, nem isso me interessa. Mas, perante as notícias que põem em causa a sua real autoria (presumo que está bom de mais para ter sido escrito por ele), ocorreu-me que tal prática, a ser verdadeira, devia ser imitada por alguns dos «nossos» escritores, que deviam encomendar os seus livros a quem os soubesse, de facto, escrever. Poupar-se-iam, assim, algumas misérias em forma de livro, críticas lisonjeiras que não se percebem, embaraços aos amigos e conhecidos que, coitados, estão obrigados a dizer bem.

27 de março de 2015

DEIXEM O HOMEM EM PAZ. Não li 90% do que se já se escreveu sobre Herberto Helder após a sua morte, e não tenciono ler 90% do que ainda está para vir. Os 10% chegaram e sobraram para me deixar à beira do vómito, apesar de ter lido alguns textos excelentes. (Este, por exemplo, e uma auto-entrevista que desconhecia.) Ana Cristina Leonardo escreveu no Facebook: «As pessoas quando morrem deviam sempre deixar uma lista das criaturas proibidas de aparecer no enterro.» Eu diria mais: deviam deixar uma lista de criaturas proibidas de falar sobre o morto, especialmente quando o cadáver ainda está quente.

24 de março de 2015

HERBERTO HELDER, 1930-2015. Extracto de Os Passos em Volta, um dos livros da minha vida:
Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) — e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.

Foi assim que me pus a escrever — enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia.

20 de março de 2015

NÃO ME COMPROMETAM. Já toda a gente percebeu a estratégia de António Costa: esperar que Passos Coelho e o Governo caiam de maduros. Provavelmente não haverá melhor expediente para ganhar eleições e chegar ao poder, e daí tantas vezes dizer-se que não foi fulano quem as ganhou, mas sicrano quem as perdeu. Tirando uma argolada aqui e além (o episódio dos chineses, por exemplo), o líder do PS promete tudo em abstracto, mas nada em concreto. Sempre achei que qualquer líder do PS seria melhor que António José Seguro, e que António Costa seria, de longe, melhor do que ele. Hoje, se não tenho saudades de Seguro (não sou militante do PS, nem, sequer, simpatizante), sou forçado a admitir que António Costa saiu pior que a encomenda. É previsível que um candidato a primeiro-ministro com fortes probabilidades de ser eleito tenha um discurso de meias-tintas no que toca a promessas concretas. Mas começo a fartar-me de quem não diz ao que vem, de quem não se compromete com receio de não cumprir — ou de fazer o oposto do que prometeu. Ou, o que ainda é pior, quem vê o poder não como um meio de mudar o que julga estar mal, mas como um fim em si mesmo. Isto de considerar encerrado o caso de Passos Coelho com os impostos, quando se esperaria que não ficasse satisfeito com a informação que ficou por prestar (e, se fosse caso disso, pedisse mesmo a demissão do primeiro-ministro), pareceu-me uma esperteza saloia. Imagina-se que António Costa prefere que Passos Coelho seja, nas próximas legislativas, o alvo a abater, e não outro que o viesse substituir. O primeiro-ministro está desgastado pelo poder, e o episódio dos impostos desgastou-o ainda mais — e vai, seguramente, entrar na campanha eleitoral. Foi isto, a meu ver, o que travou o líder do PS, demonstrando que politicamente é farinha do mesmo saco.
A VITÓRIA DO ACORDO ORTOGRÁFICO. A avaliar pelo que vou lendo, parece-me definitivamente perdida a «guerra» contra o Acordo Ortográfico (AO90). Não imaginam como lamento, pelas razões que já disse e repeti. E estranho que um tão grande movimento contra tamanha aberração, que reuniu centenas de milhares de assinaturas e foi objecto de discussão no parlamento, não tenha, até ver, mudado uma vírgula, e a passagem do tempo dificultará ainda mais qualquer mudança. Os anunciados exames onde a grafia «antiga» será considerada erro, é o mais forte sinal disso mesmo. É que, a partir daí, o «acordês» será irreversível.

17 de março de 2015

É SÓ FUMAÇA. O ministro Varoufakis diz estar arrependido de abrir as portas de casa à Paris Match. Não percebo porquê. Afinal, ele são os atrasos de meia-hora a reuniões importantes (onde chega seguido pelas câmaras de televisão), ele é a fralda de fora e a gravata que não usa, ele é o cachecol marca não sei quê e as golas levantadas, ele são as calças de ganga, ele é agora o dedo do meio levantado à Alemanha (que ele diz ser uma montagem mas ninguém acredita). Resumindo, o famoso «ar descontraído» do ministro grego das Finanças não passa, afinal, de exibicionismo. Sobre o que realmente importa, até ver é só parra, e nenhuma uva. Imagino, a partir do episódio da revista francesa, o sacrifício que os parceiros na Europa farão para manter a compostura (isto é, não se rirem) quando tiverem que o aturar. Sim, dantes Varoufakis inspirava não sei bem o quê, agora tornou-se risível.
ARRUMANDO PAPÉIS. «In the Soviet Union a writer who is critical, as we know, is taken to a lunatic asylum. In the United States, he’s taken to a talk show.»
Carlos Fuentes, entrevista de 1981 à Paris Review integrada no volume Latin American Writers at Work

10 de março de 2015

O PRESIDENTE DE ALGUNS PORTUGUESES. O Presidente da República tem-se distinguido por falar pouco, e mal. A última vez que abriu a boca, a propósito da embrulhada em que o primeiro-ministro se viu metido, insultou os portugueses. Passos Coelho admitiu que falhou nos impostos, que não se orgulha disso, e que não é um cidadão perfeito. E o que tem o Presidente a dizer sobre tão melindrosa matéria? Mais papista que o Papa, acha que o caso é uma questão político-partidária, pré-campanha eleitoral, um fait divers. Já estou a ver o Presidente a enfrentar os microfones para dizer, um dia destes, com o cinismo que o caracteriza, que foi mal interpretado, e que a culpa foi dos jornalistas, esses malvados, que não há maneira de perceberam o alcance das suas palavras.
COISAS QUE ME DEIXAM PERPLEXO (2). O que é uma biografia poética? Li e reli a resposta de António Cândido Franco à crítica de António Araújo (que reduziu a pó O Estranhíssimo Colosso, biografia de Agostinho da Silva editada por Cândido Franco), e fiquei sem saber. Pior: a resposta do biógrafo não desmente um só facto dos muitíssimos em que a crítica de António Araújo assentou. Se razões tivesse para torcer o nariz ao «produto» depois de ler a crítica, mais razões passei a ter após a resposta de Cândido Franco. Pelo que já aqui deixei dito, para grande pena minha.

9 de março de 2015

E DEPOIS NOTA-SE BASTANTE NOS RESULTADOS.

Lá fora, o ofício de escrever depende da planificação e do método, implica ler e estudar muito, exige passar várias horas por dia a escrever. Os escritores portugueses não vão nisso. Trabalho, aprendizagem, disciplina, esforço, estudo? Isso seria cair no óbvio e na redundância, deixar-se encurralar nos lugares comuns e no tédio das frases feitas, das fórmulas gastas.

João Pedro George, O Observador
PARA PERCEBER MELHOR AS ESQUERDAS PORTUGUESAS.

Isto é tudo muito simples. A ex-deputada do Bloco de Esquerda (BE) Joana Amaral Dias saiu do movimento Juntos Podemos (JP) para fundar o grupo Agir (A). Recorde-se que o JP era uma "plataforma de cidadãos" fechada a partidos que num ápice se transformou em partido, sobretudo por intervenção do Movimento Alternativa Socialista (MAS), que dantes dava pelo nome de Ruptura/FER (R/FER) e integrava dissidentes do BE que ainda andavam pelo BE. Para início de conversa, se não se desintegrar antes, o A vai promover daqui a 15 dias uma conferência internacional em Lisboa, a qual curiosamente contará com a presença de membros do Tempo de Avançar (TA), outra candidatura cidadã que integra cidadãos dos partidos e movimentos antipáticos Livre (PL), MIC--Porto (MIC-P), Renovação Comunista (RC) e Fórum Manifesto (FM).

Não tem nada que saber. O PL é, sucintamente, aquele antigo eurodeputado do BE que se zangou com Francisco Louçã e, por honradez, abandonou o partido mas não o emprego. O MIC-P deriva regional e obviamente do Movimento Intervenção e Cidadania (MIC), que por sua vez resulta da candidatura presidencial de Manuel Alegre, aquela que em tempos se demarcou da formação da organização Nova Esquerda (NE), que ninguém sabe onde pára. Quanto à RC, trata-se dos dissidentes do PCP que apoiaram o PS nas "europeias". E o FM surgiu da corrente Política XXI (PXXI) que esteve na formação do BE, pelo que não deve ser confundido com o Movimento 3D (M3D), que também saiu do BE para se reunir com todas as siglas acima e falir de seguida. Pelo meio, ou por outro lado qualquer, também há o Movimento Esquerda Alternativa (MEA - antes Rupturavizela) e o MAS (antes R/FER), que podem ser ou não a mesma quadrilha. O importante é que as coisas sejam assim claras. E que a esquerda esteja unida.

Alberto Gonçalves, Diário de Notícias

6 de março de 2015

4 de março de 2015

A VIDA SÃO DOIS DIAS E TRÊS MÚSICAS. Depois de há três meses ter visto Keith Jarrett e sus muchachos (Gary Peacock no baixo e Jack DeJohnette na bateria) no New Jersey Performing Arts Center (salvo erro o quarto concerto que vi deles), voltei ontem a vê-lo, no Carnegie Hall, agora a solo, numa dúzia de peças improvisadas que, por ignorância (só me ocorrem lugares-comuns), me abstenho de comentar. Daqui a uma semana será Hiromi, em Princeton, também a solo, depois de memoráveis concertos no Blue Note (com Anthony Jackson no baixo e Simon Phillips na bateria). Isto, já agora, e com o único propósito de causar inveja a eventuais melómanos, de há um ano e pouco ter visto, pela segunda vez, John McLaughlin, também no Blue Note, desta vez com Etienne Mbappé (baixo eléctrico), Gary Husband (teclados e bateria), e Ranjit Barot (bateria). Sim, admito, sem qualquer humildade, que sou um privilegiado. Mas só de me lembrar que em pleno século XXI há gente que morre, de forma atroz, só por gostar de música, apetece-me ver, daqui a três semanas, ainda no Carnegie Hall, o Kronos Quartet, naquele que seria o meu terceiro concerto — o primeiro, salvo erro, com a «nova» violoncelista (Sunny Yang). Nao fossem as contas ao final do mês, até ver mais ameaçadoras que os jihadistas, pecaria de novo, e com todo o gosto. Isto de um dia a gente ir desta para melhor (ou para pior, consoante as opiniões), e depois não ter pecados para contrapor às virtudes, não me agrada nada. Imagino que Deus, a existir (sou agnóstico), não achará graça a quem nunca pecou, muito menos que não tenha sentido de humor e não goste de música. É que, se assim for, declaro-me, desde já, ateu.