31 de janeiro de 2007

É sempre bom ouvir Mário Soares dizer que «as mulheres devem ser tudo o que quiserem pelo seu mérito e não por serem mulheres», e que «o problema dos alter-mundialistas é que não propõem modelos» alternativos. A coisa pode ser óbvia, mas é bom que tenha sido dita por quem foi dita.
Excelente o último Prós e Contras sobre o aborto, que só hoje pude ver. Houve argumentos sérios de ambos os lados, e a generalidade dos intervenientes esteve à altura do exigido. Se contribuiu para convencer mais alguns a votar no dia 11 ou para tirar dúvidas a quem as tinha, temo bem que não tenha sido um sucesso. Por mim falo. Continuaria a votar «sim» no referendo caso pudesse votar, mas com as mesmíssimas dúvidas que tinha antes do debate.

30 de janeiro de 2007

Comecei a escrever com determinação aos trinta anos, quando corria o bairro des Abbesses, em Paris, para meter-me nalguma casa que tivesse a porta aberta, e ir dormir na retrete. Explico: em Paris, os três filhos de Deus debatiam-se com o árduo problema da dormida. Éramos um português e dois espanhóis, desaparecidos um dia de suas casas, das pátrias, e encontrados no acaso de vadiagens e bebedeiras. Tínhamos assuntos religiosos comuns. Para dormir, havia acidentais quartos de amigos, a entrada do metropolitano e, no bom tempo, as pontes do rio. Mas eu precisava de solidão e conforto (era a obra que, secretamente, se desenvolvia em mim) – e tomei como minha uma ideia que circulava pela cidade. Era possível dormir nas retretes, nas retretes privadas, nas retretes das casas das outras pessoas! A ideia abalou-me tanto que andei confuso e comovido durante dias. Fui ao ponto de escrever um poema inteiramente inspirado nela. Eu e os meus amigos, poucas semanas passadas sobre o início desta nova vida surpreendente, tínhamos já uma lista de cento e vinte e dois prédios onde devíamos tentar a entrada. Simples: estudávamos as portas de determinado bairro residencial, a ver se poderiam ser abertas de um modo qualquer, ou se as deixavam abertas. Chegava a hora do sono alheio, cada um subia até à sua retrete. Uma ascensão! Talvez Deus estivesse lá em cima à nossa espera. Claro que só escolhíamos edifícios antigos, com sentina de patamar para uso comum dos inquilinos. Acendia a luz, instalava-me fechado por dentro, e pensava ou lia, ou escrevia às vezes. Nunca a solidão foi para mim tão fértil. Se alguma pessoa vinha à retrete a meio da noite, eu puxava o autoclismo e saía como inquilino também, natural, desenvolto nos meus direitos. Defecação democrática, por ludíbrio, no seio da grande família burguesa. No dia seguinte reuníamo-nos os três, os filhos de Deus, para falar das nossas aspirações e meditações, da inspiradora solidão nocturna.
Foi assim que me pus a escrever - enquanto esperava a oportunidade de entrar numa casa (numa retrete, digo) ou quando, já nela, começava a pensar, a investigar, a decifrar, entregue e defendido na retrete, na profundidade que eu mesmo transportara ao longo dos anos, mal aflorada por instantes e agora enfim oferecida. O mundo não me tocara e fecundara em vão. Eu apurara a experiência, encontrara os meus centros. Levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas. A minha obra nascia.
Herberto Helder, Vida e Obra de Um Poeta (in Os Passos Em Volta)

26 de janeiro de 2007

«Mais de metade dos participantes num inquérito promovido pela Associação Académica da Universidade Beira Interior (AAUBI) respondeu que não está esclarecida sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez», diz um inquérito realizado naquela instituição de ensino que abrangeu alunos, professores e funcionários. Desconheço se foram feitos estudos idênticos noutras universidades, e se foram quais foram os resultados. Mas não custa imaginar que, a existirem, os resultados não serão muito diferentes. Ora, se na universidade é assim, como será fora dela? A não ser que haja uma explicação improvável, imagina-se que pior. Temos, assim, que as campanhas que por aí vão não esclarecem nada nem ninguém. Talvez pior: aumentam as dúvidas de quem as tem, e confundem quem já está confundido. Vejo isto por mim, que já aqui disse que votaria «sim» caso votasse no referendo de Fevereiro. Apesar de não ter lido um décimo do que se publicou nos jornais e na blogosfera, não tenho dúvida de que teria gasto melhor o meu tempo caso o tivesse investido noutra actividade. É que a demagogia e os insultos não ajudam ninguém, e desanimam qualquer um.
Existem centenas de funcionários do Fisco que acumulam o exercício da actividade pública com trabalhos realizados para o sector privado.

23 de janeiro de 2007

Dificilmente poderiam ter estado pior os convidados do Prós e Contras sobre o caso da adopção da criança. Então aquele senhor que veio do Porto fazer o enorme favor de estar ali para partilhar a sua sabedoria com o comum dos mortais, e que se embrulhou num despropósito interminável que ninguém percebeu, foi de fazer perder a paciência a um santo. Só vi a primeira parte do programa (as restantes não estavam disponíveis na internet ontem à noite), mas cheira-me que não perdi grande coisa.

22 de janeiro de 2007

Consta que terá sido aberto um inquérito destinado a apurar as circunstâncias em que a cópia de um despacho da juíza Maria José Morgado foi parar à internet. A ideia, presumo, é encontrar o culpado (ou culpados), e, presumo outra vez, agir em conformidade. Não será assim? Não, não é, como todos estamos fartos de saber. Não é porque ninguém conhece o desfecho dos variadíssimos inquéritos que volta e meia se anunciam com grandes parangonas. Aliás, toda a gente sabe quem são os responsáveis pelas fugas de informação, pelo que os inquéritos mais não são do que um expediente destinado a calar as críticas fingindo que se vai fazer alguma coisa.

18 de janeiro de 2007

Já se sabia que a Justiça era incompetente, mas não se sabia que era tanto. A sentença do Tribunal de Torres Novas sobre o caso da criança adoptada por um casal do Entroncamento até pode ser inatacável do ponto de vista jurídico, mas como entender que o tribunal tenha decidido tirar uma criança aos pais adoptivos (os únicos que a criança conhece e com quem vive desde que nasceu) e entregá-la a um estranho? E como entender a decisão de punir com seis anos (?!) de cadeia um pai (mesmo que adoptivo) que se limitou a defender (como qualquer pai faria) quem trata e acolheu como filha e premiar quem a abandonou no momento em que ela mais precisava? E a criança? O que achará uma criança de cinco anos que se vê afastada de quem mais ama e nas mãos de um cavalheiro que só a Justiça conhece como pai? Não verá o Tribunal de Torres Novas que a decisão que tomou prejudica, sobretudo, quem mais devia proteger? Que raio de Justiça é esta que nem o óbvio é capaz de ver? Conseguirá dormir sem sobressaltos quem decidiu tamanha monstruosidade?

16 de janeiro de 2007

Primeiro, o problema do Iraque era por causa de Bush e dos Republicanos. Agora, é por causa de Bush, dos Republicanos e dos Democratas. Dito de outra maneira, o problema do Iraque é os americanos. Foi isso o que Daniel Oliveira escreveu no Expresso e neste post, e só espantou quem não o conhece. Afinal, o problema, para ele, sempre foi os americanos, embora só agora o tenha assumido. Nada que um psicólogo de vão de escada não seja capaz de explicar.
Quero crer que esta história está mal contada. É que, a serem verdadeiros os pressupostos em que se baseou a sentença, a criança (a vítima) foi a mais prejudicada.

12 de janeiro de 2007

Muito mais do que uma questão polícia, o aumento do contingente militar no Iraque anunciado pelo presidente Bush é uma questão militar. Mas isso pouco interessa para o caso, como se vê por aí com abundância. O que importa é criticar George W. Bush, e se ele decidisse não enviar nem mais um soldado teria sido criticado na mesma — ou talvez mais. Como se vê, vale tudo quando se trata de arrear no presidente americano. Até discorrer sobre estratégia militar, o que chega a dar vontade de rir.
Miguel Sousa Tavares insiste em desvalorizar o Apito Dourado e tentar ridicularizar a ex-companheira de Pinto da Costa. Pior: insiste que há uma cabala contra o FC Porto e seu presidente montada pelos adversários, nomeadamente o Benfica. O caso torna-se ainda mais difícil de entender quando se sabe que Sousa Tavares é licenciado em Direito, ou coisa que o valha. Será que a clubite o impede de ver o óbvio? Conhecendo-se o jornalista doutras batalhas, é evidente que não. Qual é, então, a ideia dele?, perguntar-me-ão. Responderei que isso gostaria eu de saber. Há, no entanto, uma coisa evidente: Sousa Tavares tem-se desdobrado em tentativas de desvalorizar o Apito e tudo o que possa constituir matéria de prova. Mais: para ele, os suspeitos estão inocentes, os que os acusam estão a mentir, e a existência de vítimas não passa de uma invenção. Para demonstrar tudo isso, vale tudo. Até enxovalhar a Justiça, apesar de jurar que não.

10 de janeiro de 2007

A gente lê esta notícia e fica baralhado. Procura saber os motivos e conhecer os detalhes, e depara com isto. Sou eu que percebi mal, ou está tudo doido?
Para quem não tem acesso ao Público online, eis a Nota da Direcção publicada na edição de hoje:
O caso relatado pelo provedor dos Leitores do PÚBLICO na coluna publicada na edição do passado domingo não deixou indiferente a Direcção Editorial. Em causa está uma suspeita de plágio por parte de uma jornalista da redacção do PÚBLICO num artigo editado na revista Pública de 22 de Outubro de 2006.
O provedor dos Leitores já fez, na referida coluna, a análise e julgamentos que considerou pertinentes dentro do pleno exercício das funções que o seu estatuto lhe confere. Essa exposição pública constitui já, e só por si, uma dura crítica aos métodos que são atribuídos à referida profissional para a realização do trabalho em causa. Poderíamos, por isso, dar o caso por encerrado aqui mesmo, confortados pela consciência de ser o PÚBLICO o órgão da comunicação social portuguesa que vai mais longe na prática regular da auto-análise e autocrítica e de as partilhar com os leitores.
No entanto, a Direcção Editorial considera que a suspeita em causa exige que o assunto não seja encerrado e que os padrões de exigência, transparência e auto-regulação devem aumentar e não diminuir.
Nesse sentido, foi solicitada uma reunião urgente ao Conselho de Redacção do jornal, órgão que tem como principal função a avaliação das condutas éticas e deontológicas dos jornalistas. O mesmo fez, de resto, a profissional em causa. Essa reunião vai realizar-se esta manhã e o director do jornal, que preside ao CR por inerência, vai solicitar uma tomada de posição tão rápida quanto possível.
Entretanto a Direcção Editorial do PÚBLICO compromete-se a tornar públicos todos os documentos que já foram e venham a ser elaborados sobre este caso, criando para tal um espaço especial no nosso site na internet (www.publico.pt).
A Direcção Editorial

9 de janeiro de 2007

O texto já foi publicado há uns dias, mas não perdeu actualidade. Pior: a avaliar pelas reacções (que não vi), parece ter passado despercebido.

5 de janeiro de 2007

Não é seguro que as coisas estranhas que Ana Gomes diz ter visto nos Açores tenham sido motivadas pela fé, como suspeita o presidente do Governo local, embora a comparação das «aparições» da deputada com a visão dos pastorinhos de Fátima não seja, de todo, descabida. Nem descabida, nem surpreendente. Afinal, quando se tem uma ideia pré-concebida e os factos teimam em não encaixar-se, só há dois caminhos: desistir, ou recorrer aos santinhos. Ana Gomes é das que prefere os santinhos. Pena é que eles não façam o milagre de a iluminar.

3 de janeiro de 2007

A acreditar na maioria dos comentários que se lêem por aí, o problema não foi a execução de Saddam. O problema foi o vídeo que registou o acontecimento — que não devia ter sido feito, que não devia ter sido divulgado, ou que não devia ter sido divulgado da forma como foi. Tivesse a coisa sido feita discretamente, e não se teria falado um décimo sobre o assunto. Aliás, nem era preciso tanto. Bastaria que não metesse americanos para nem um pio se ouvir.
Pode-se discordar da pena de morte; pode-se criticar a forma como a execução de Saddam ocorreu; pode-se criticar o vídeo oficial e o pirata; pode haver dúvidas acerca de como o julgamento decorreu — mas será que nada distingue «os invisíveis assassínios políticos no tempo de Saddam» das imagens «captadas à socapa em estilo de reportagem», como diz Vicente Jorge Silva? Falamos da mesma coisa quando falamos da execução de Saddam e dos assassínios políticos por ele ordenados? Haja decoro!
Rui Ramos no Público de hoje: «É curioso ver os mesmos que declararam a democracia de tipo ocidental imprópria para o Médio Oriente a exigirem agora a abolição da pena capital no Iraque.»