29 de outubro de 2004

Vicente Jorge Silva acha que o sistema eleitoral dos Estados Unidos é «anacrónico» e «irracional», pois «permite que o candidato mais votado perca as eleições e o vencedor seja apurado numa lotaria mafiosa». É uma opinião como qualquer outra, evidentemente. Só é pena que assente na mais pura ignorância do sistema eleitoral americano.
O Daniel de Oliveira já se esqueceu que os atentados de 11 de Março mudaram o sentido de voto em Espanha. Isto é, puniram quem estava no poder.

27 de outubro de 2004

Marcelo Rebelo de Sousa diz que Paes do Amaral lhe terá dado duas semanas para «repensar» o teor do programa que mantinha na TVI. O patrão da Media Capital nega. Perante isto, ninguém tem dúvidas de que lado está a verdade. E com que factos chegaram à verdade? Até ver, nenhuns. E como souberam que um deles fala verdade e o outro mente? Até ver, um mistério. Cada um tirou a conclusão que mais lhe conveio, e os factos — ou a ausência deles — não têm qualquer importância. Aliás, já toda a gente tinha chegado a uma conclusão antes do episódio de hoje. Está visto que os factos — ou a ausência deles, repito — só são relevantes quando servem os nossos propósitos. Quando não servem, dispensam-se. Tão extraordinário só a teoria da cabala do ministro Gomes da Silva, assente em nada e coisa nenhuma. Assim vai a vidinha.
E A Capital, Daniel Oliveira? Não terá sido um importante apoio a John Kerry, quiçá decisivo?

25 de outubro de 2004

O Governo liderado pelo prof. Cavaco Silva, que se apressou a criticar o Governo de Santana por alegadamente ter pressionado a TVI no sentido de calar Marcelo, terá pressionado a televisão de Paes do Amaral. Aliás, segundo o próprio Paes do Amaral, o Governo do prof. de Boliqueime terá sido o único a fazê-lo.
Mas, afinal, a imprensa americana não está nas mãos dos apoiantes de George W. Bush?

21 de outubro de 2004

«Era uma sardinha tão grande que ia da Rotunda ao Restauras, mas ali por alturas do Parque Mayer já estava toda comida... Não fiques para aí a pedalar no ontem. Vamos às Marchas! Eu com fardas não quero nada, filha! São uns gulosos! Ó macilento, tira daqui os presuntos! Não trouxeste o arquinho, mas trouxeste o balão e é bim bão! Aquele gajo não despega os clísios de cima de mim, chá biste uma bida assim! Olha, rapariga, o Santo António já se acabou, o São João está-se a acabar, toca mas é a aproveitar! Havia de ser mas era no Porto! Levavas com o alho na fronha... Estes tipos aqui nem se sabem divertir. Sabem é encostar-se, ceboleiros duma figa! Olé... Temos pombo a arrulhar? Ó falinhas, chega-te mas é pra lá! Sai da área, rapaz, senão daqui a bocado trabalha a alcachofra e apareces todo picado em casa, oubites? Conta lá como foi da outra vez, Esmeraldina! Então, estava eu com aquela minha colega, a que trabalhava na Lapa, e não é que um decências começa a encostar-se, a encostar-se que até parecia que eu tinha visgo? Mas olha, rapariga, nem a gabardina que trazia no braço à laia de capote de toureiro lhe serviu de nada. As Marchas a passar, as Marchas a Passar, mais Graça pràqui, mais Alcântara pràcolá e o diabo do homem a esfregar-se por mim! Então, como aquela que dizia espera aí que eu já te arranjo, disse alto e bom som, que eu nestas coisas gosto sempre de avisar:
— DAQUI A BOCADO TRABALHA A ALCACHOFRA!
Ele teve assim como um estremeção. Deve ter compreendido a sorte que eu lhe preparava. É que o marmelo não podia fugir. Gente por todos os lados e, atrás, uma árvore, figura-te! Ponho a malinha encostada ao sim senhor, assim, e com a outra mão seguro na alcachofra, assim, e encosto-a à malinha, assim, para não me picar, topas? Fui-me chegando devagarinho, muito devagarinho para trás... Ó filha, até tive pena do desgraçado! Ficou todo picado e logo onde lhe fazia mais diferença!
Ó Esmeraldina, também tens cá um despacho!»

Daqui a Bocado Trabalha a Alcachofra!, de Alexandre O’Neill

20 de outubro de 2004

Confesso que não entendo as razões para tanto aplauso à tomada de posição d'A Capital face às eleições americanas. Uma decisão corajosa porquê? Será que, nos dias que correm, não é evidente que ser contra Bush é um lugar comum? Além disso, como levar a sério um jornal português que, de forma solene, decide colocar-se ao lado de um candidato numa eleição que não diz respeito aos portugueses e que não pode influenciar? De facto, não se pode, pois isso é ridículo. E mais ridículo se torna quando o mesmo jornal admite não tomar posição semelhante em eleições nacionais, como se pode ver aqui.
Está explicada a derrota do Benfica com o Porto. Não foi por causa do golo-que-foi-golo-mas-não-foi-golo, muito menos por causa dos penáltis que ficaram por marcar e que podiam ter resultado em golos. A culpa foi toda deste senhor.

19 de outubro de 2004

Olha, agora é que o presidente americano está mesmo tramado! Como não bastasse o apoio explícito do New York Times e doutras publicações americanas ao candidato democrata, A Capital resolveu solenemente defender que não se deve votar em George W. Bush nas próximas eleições presidenciais. Aguarda-se, agora, na maior das expectativas, qual vai ser a posição sobre o assunto da Gazeta de Alguidares de Baixo.
Um pós-escrito mortífero de António Ribeiro Ferreira no DN de hoje: «Miguel Sousa Tavares tem a certeza que Marcelo Rebelo de Sousa saiu da TVI por pressão do Governo. Mesmo assim continua comentador. Que saudades de Francisco Sousa Tavares.»

18 de outubro de 2004

Porra! Nunca mais digo que o blogue da Ana tem o template mais feio da blogosfera, apesar da evidência. Muito menos que gosta de Saramago (do José, claro está, que do Alfredo parece-me bem). Já quanto ao contraditório, calma aí, pois o que se passou na Luz, onde o meu Benfica foi miseravelmente espoliado (como diz o sr. Vieira), não tem direito a contraditório. Só a sarrafo.

15 de outubro de 2004

Depois de Edwards, chegou a vez de Kerry se intrometer na vida privada de Cheney. Além de ser um assunto que não devia ser chamado à campanha eleitoral, já toda a gente conhece em detalhe o caso da filha do vice americano. Insistir num assunto do foro pessoal e há muito encerrado, é rasteiro demais para o meu gosto. De maneira que já desfiz as dúvidas: esta gente não terá o meu voto.
Depois de Vital Moreira, para quem os americanos que não votarem em George W. Bush são «estúpidos», Miguel Sousa Tavares. Entre as mentiras e a mais pura ignorância, MST diz que os americanos deviam meditar numa sondagem onde se demonstra que o «mundo inteiro», se pudesse votar nas eleições americanas, dava uma esmagadora vitória a Kerry. Isto é: os americanos deviam pôr os olhos em quem sabe, e não ajuizar pelas suas próprias cabeças. Diz mais o ilustre cronista: «Bush desfez o sistema social de saúde montado por Clinton». A que «sistema social de saúde» estará ele a referir-se? Ao sistema que nunca existiu?

14 de outubro de 2004

Pertinente o comentário de Pacheco Pereira a um post de Vital Moreira, onde o cavalheiro fez esta brilhante pergunta: «perante a patente superioridade do candidato democrata, os eleitores norte-americanos serão estúpidos?» Pertinente mas inútil, pois Vital Moreira há muito que se especializou em linguagem de carroceiro para conquistar a atenção que, doutra forma, ninguém lhe dá.
«Num local pequeno, não ter acesso às fontes oficiais de informação é como viver em clandestinidade informativa; (...) a Câmara [da Figueira da Foz] deixou de colocar publicidade institucional e nós, até aí, recebíamos anúncios com fartura», diz o ex-director de não sei que jornal regional, que acusou Santana Lopes de ter cortado relações com a publicação que dirigia. Segundo o que o cavalheiro em questão disse ao Público, os problemas não se ficaram por aqui: «como a nossa relação difícil era do domínio público, os anunciantes, num meio pequeno como este, também se coibiam de anunciar, com medo de estarem a ser coniventes com o jornal.» Não sei se isto é verdade ou não, e nem me interessa saber. O que me interessa reter é que estas declarações fazem um verdadeiro retrato da imprensa regional que temos. E que é, salvo raríssimos casos, uma imprensa absolutamente dependente do poder local. Nada que já não se soubesse, mas não há nada com os factos para o virem relembrar.

12 de outubro de 2004

Assisti à intervenção televisiva de Santana Lopes e não gostei do que vi. Nem do que vi, nem do que ouvi. Mas ainda gostei menos de quem acusou Santana Lopes de propaganda — ou de tempo de antena, o que vai dar ao mesmo. Propaganda e tempo de antena porquê? O que distingue o tempo de antena de ontem do tempo de antena dos anteriores governos, que decidiram falar ao país quando muito bem entenderam e nunca vi acusados de propaganda? E do tempo de antena do Presidente Sampaio, que «fala ao país» por tudo e por nada? De facto, não se entende. O que se entende cada vez mais é que vale tudo para atacar o Governo de Santana Lopes. Aliás, hão-de reparar que o Governo de Santana Lopes já era péssimo antes de o ser — isto é, antes de tomar posse. É por estas e por outras que eu ainda vou acabar por gostar de Santana Lopes.
A Ana Albergaria, que se distingue por ter o blogue com o template mais feio da blogosfera e por gostar da prosa de Saramago, divulgou mais um atentado à liberdade de expressão por parte de Santana Lopes. Eu confesso que estava a alinhavar o meu caso, também ele com Pedro Santana Lopes e igualmente cheinho de liberdade de expressão (ou falta dela), mas acho que já não é preciso. Afinal, já toda a imprensa — da esquerda à direita, da popular à de referência — arreou forte e feio em Santana Lopes, a ponto de eu me interrogar: como será possível que toda a gente fale mal de Santana Lopes quando é sabido que ele silenciou a liberdade de expressão?

11 de outubro de 2004

O maior atentado à liberdade de expressão desde o 25 de Abril de 74 o caso Marcelo? Por amor de deus. E então a Madeira, onde a falta de liberdade de expressão é o pão-nosso de cada dia? Será que o caso foi reduzido ao folclore político? Meus senhores: haja decoro. A reacção do ministro Rui Gomes da Silva foi intempestiva, atabalhoada e infeliz. Não há dúvida nenhuma sobre isso. Mas quanto à liberdade de expressão, alguém acredita mesmo que uma reacção daquelas é caso para ir tão longe? E o Presidente da República, será que vai passar a receber no Palácio de Belém todos os comentadores e jornalistas que se zanguem com os patrões? Mas o que mais me custa é ver algumas pessoas que tenho por sensatas andarem para aí aos gritos, sem nenhuma dúvida de que estamos perante um caso gravíssimo e sem precedentes. Olhando para eles, eu só posso concluir uma de duas coisas: ou sabem coisas que não dizem, o que está mal; ou contra o Governo de Santana vale tudo, o que é pior.
«Contrariamente ao que julgo ser a maioria, não vejo porque razão o Governo não haveria de protestar caso entenda haver razão para protestar. Se o Governo se sente lesado com o que diz serem «mentiras» e «falsidades», o mínimo que se pode dizer é que lhe assiste o direito de protestar.» Foi basicamente isto o que eu quis dizer sobre o caso Marcelo na crónica que coloquei na minha página pessoal.
O Alberto Gonçalves chegou inspirado de Amesterdão. Será do Rembrandt? Do American Book Center? Do Stabat Mater? Do arroz de javali que ele lá sabe? Ou será do que ficou por dizer?

8 de outubro de 2004

Para quem gosta de música do período medieval e da Renascença, mas não só do período medieval e da Renascença, este site é obrigatório. Aqui se podem ouvir os discos na íntegra e baixar (pagando, mas pouco) os respectivos ficheiros em inúmeros formatos.
Alguém me sabe dizer para quando está previsto nascer o rei que o sr. Carlos Magno tem na barriga?

7 de outubro de 2004

«Quanto mais asneiras fizerem mais provável será a sua derrota», diz o Daniel Oliveira, a propósito do Governo de Santana Lopes. A propósito do Governo de Santana Lopes mas podia ser doutro qualquer, pois o que realmente interessa ao cavalheiro e ao Bloco de Esquerda é a derrota dos adversários políticos a qualquer preço. As asneiras, que a serem-no prejudicam o país, pouco importam. Aliás, como é claro na frase citada, quantas mais asneiras, melhor. Nada que já não se soubesse, mas os factos ajudam a perceber melhor a cabecinha desta gente.
O director de A Capital acha que o Presidente da República «não deve deixar cair o governo nesta altura», pois isso seria oferecer «de mão beijada, ao mais incompetente primeiro-ministro da história da democracia portuguesa, uma hipótese de redenção». Para Luís Osório, o Presidente da República «deve aceitar em silêncio os escândalos e deixar a história seguir o seu curso» até que a oposição esteja em condições de «construir um efectivo e credível projecto de poder». Dito de outra maneira, o Presidente da República só deve «deixar cair o governo» e convocar eleições quando a esquerda estiver em condições de as ganhar. Brilhante, não há dúvida.

6 de outubro de 2004

Uma empresa privada (a TVI) e um assalariado (o prof. Marcelo Rebelo de Sousa) entenderam pôr fim a um casamento de conveniência que durava há quatro anos e meio. Vai daí, toda a gente se acha no direito de saber os motivos do divórcio, e há até quem ameace «tomar iniciativas concretas no Parlamento» caso as partes entendam não revelar os motivos. Calada a gritaria e assente a poeira, aguarda-se um pouco de bom-senso. Porque a questão também pode — e deve — ser vista por este ângulo. E aconselha a mais elementar prudência que não canonizem já o prof. Marcelo.

5 de outubro de 2004

Descontando a guerra intestina que estalou entre o Jornal de Notícias e o Correio da Manhã, ainda não vi quaisquer comentários aos últimos números divulgados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragens. E os números divulgados pela APCT não deviam passar despercebidos, já que eles indicam uma baixa de monta nas vendas dos chamados jornais de referência e um aumento significativo dos chamados jornais populares. Quer isto dizer que os leitores dos primeiros se mudaram para os segundos? Provavelmente. Mas convinha apurar com rigor os verdadeiros motivos.
Lá vamos ter que fazer mais uma reciclagem.

4 de outubro de 2004