26 de agosto de 2015

A DECADÊNCIA ANUNCIADA DAS LIVRARIAS. Três livrarias que são, para mim, de referência, onde dantes uma visita resultaria em meia dúzia de títulos comprados, tornaram-se, agora, lugares onde me limito a descobrir títulos que depois compro online (sempre que são mais baratos) ou em e-book (por serem mais baratos, e porque me escasseia o espaço onde os colocar). Imagino as consequências que a generalização desta prática terá, a prazo, para as livrarias, digamos, tradicionais, e pelo que vou observando é uma prática que vai crescendo de dia para dia. Mas como não tenho vocação — nem fundos — para me tornar um benemérito, não posso ignorar o factor custo/benefício. Infelizmente para elas (e a prazo talvez para todos), as livrarias são, cada vez mais, lugares onde se expõem livros que depois se compram noutro lado. Serão as dores do progresso.

21 de agosto de 2015

COISAS QUE VOU LENDO (31). «Muitas vezes digo que, em breve, estar fora das redes sociais depois dos 40 anos será índice seguro de elegância e sucesso profissional e afetivo (claro que esse “sucesso” é relativo; a qualquer hora, o infeliz em potencial que somos todos nós poderá recair no vício de mendigar atenção pelas redes).

Mas entre os vícios que compõem essa masmorra que são as redes sociais, um dos mais risíveis é o de ter “causas do face”. Essas causas variam desde defender o modo indígena de viver (neolítico) a partir de seu Mac, combinar passeios de bike pela zona oeste da cidade para salvar o planeta, curar o mundo do mal comendo comida vegetariana ou declarar guerra à morte de crianças na África a partir de seu Android (se tiver mais grana, do seu iPhone).

Esses pequenos fragmentos da bondade contemporânea são normalmente acompanhados da crença light de que amar todo mundo é possível, mesmo que você fracasse continuamente em amar sua irmã insuportável. A capacidade para autoindulgência se tornou uma praga entre os adultos infantilizados. Se Nietzsche vivesse hoje, teria saudades do ressentimento que se revelava pueril no modo de crer num carpinteiro frágil e fracassado. Hoje, o ressentimento se sofisticou, a ponto de assumir ares da crença no próprio ego.»

Causas do Face, in A era do ressentimento: uma agenda para o contemporâneo, de Luiz Felipe Pondé

14 de agosto de 2015

ANA DE AMSTERDAM. Não li o livro, mas li grande parte (senão a maioria) dos textos lá publicados. Pedro Mexia, um dos nossos melhores prosadores (parece que também dos nossos melhores poetas, mas essa faceta conheço mal), deu-lhe cinco estrelas no Expresso. Considerando a quantidade de estrelas que no Expresso (e restante imprensa dita de referência) se dão a qualquer mediocridade, acrescentaria mais uma.

13 de agosto de 2015

PRESIDENCIAIS AMERICANAS (3). Tal como em 2008, quando disputou com Obama a nomeação do Partido Democrático, Hillary Clinton volta a explorar a sua condição de mulher. Desta vez porque o candidato Donald Trump cuspiu umas baboseiras sobre as mulheres, que dizem mais dele que das mulheres. Há uma guerra do Partido Republicano contra as mulheres? Hillary diz que há. E quem acredita? Como é óbvio, nem ela. Mas crê que isso lhe dará votos, nomeadamente do eleitorado feminino, na minha opinião um erro. Seguramente que haverá quem vote nela por ser mulher. Mas não duvido que haverá quem não vote pela mesmíssima razão. Assim sendo, quem pesa mais? Que eu saiba, não há estudos que indiquem esta ou aquela tendência. Que os machos tendem a votar nos machos, e que as fêmeas tendem a votar nas fêmeas. Parece-me, por isso, pouco sério o argumento da guerra contra as mulheres, e de duvidosa eficácia. Como alguém que pensa pela sua própria cabeça (gabo-me de pertencer ao clube, para o bem, e para o mal), quando chegar a hora votarei, como sempre, no candidato que me parecer melhor — ou no que me parecer menos mau, no caso de nenhum deles me entusiasmar. Sempre foi assim, sempre assim será.
PRESIDENCIAIS AMERICANAS (2). Disse em privado que gostaria de ver Donald Trump disputar a nomeação pelo Partido Republicano às Presidenciais Americanas de 2016. Porque assim iria debater com os restantes candidatos, e porque aí ficaria a nu a nulidade do sujeito. Assim sucedeu no debate da semana passada. Mas, surpreendentemente, nada mudou. O sujeito continua a liderar as sondagens no campo republicano, apesar das diatribes praticamente diárias. Se é um facto que a procissão ainda vai no adro, não deixa de ser preocupante.

7 de agosto de 2015

PRESIDENCIAIS AMERICANAS (1). Algumas notas sobre o debate de ontem entre os candidatos que as sondagens dizem melhor posicionados para disputar as presidenciais americanas de 2016 pelo Partido Republicano. Estiveram bem Ben Carson (uma agradável surpresa) e Mark Rubio, exactamente por esta ordem. Na parte má, Donald Trump mostrou, sem surpresa, toda a vacuidade que lhe vai na cabeça. E a política externa resumiu-se praticamente ao Irão, quando seria de esperar que a questão cubana também fosse abordada (provavelmente os jornalistas da Fox entenderam não abordar o assunto porque Obama sairia a ganhar). Por último, o formato do debate (30 segundos para responder a cada uma das perguntas e mais uns quantos para rebater eventuais acusações) só deu para sound bites, que os candidatos traziam muito bem ensaiados. Terá sido um sucesso como espectáculo de televisão, mas em termos de substância foi de uma superficialidade confrangedora.

4 de agosto de 2015

REFERENDAR O ACORDO? Sou, desde sempre, por razões que me fartei de explicar, contra o Acordo Ortográfico, o chamado AO90, daqui em diante apenas Acordo. Qualquer iniciativa para o travar será, em princípio, bem-vinda. Mas daí até reclamar-se um referendo sobre o Acordo, tenho dúvidas. Estarão os portugueses interessados em tão abstrusa matéria? Que importância darão ao assunto a ponto de irem às urnas dizer «sim» ou «não»? Palpita-me que os adversários do Acordo suspeitam que, diante um referendo, os portugueses tenderão a dizer «não» — logo defendem um referendo. Se for o caso, devo dizer que o expediente não me alegra. Porque isso será, no mínimo, pouco sério, e para falta de seriedade já me bastam os que defendem o Acordo sem um argumento digno desse nome. Há argumentos fortíssimos contra o Acordo, e nenhum (repito: nenhum) a favor. Promovam-se debates a sério ao mais alto nível, e deixem que as evidências — ou falta delas — se imponham por si.