31 de dezembro de 2008

O PRÓXIMO INIMIGO. Faltam 20 dias para Barack Obama passar a ser, como presidente americano, o principal responsável pelo conflito do Médio Oriente — e, de um modo geral, por todos os males do mundo. Se tudo correr dentro da normalidade, os primeiros a crucificá-lo serão alguns dos que estiveram na primeira fila a apoiá-lo. Não é uma previsão. É um facto que o tempo confirmará.
AMOS OZ. Passaram cinco anos sobre esta conferência de Amos Oz na Universidade de Princeton, mas o tema é tão actual que bem podia ter sido ontem. Escusado será dizer que a considero muitíssimo recomendável, especialmente nos tempos que correm. (Via jugular.)

30 de dezembro de 2008

REACÇÃO DESPROPORCIONADA. Por aquilo que se vê, a tese de que a reacção israelita aos rockets do Hamas foi «desproporcionada» ganha adeptos de dia para dia. Hoje foi a vez do nosso ministro dos Estrangeiros, ontem do secretário-geral da ONU, amanhã de outra figura qualquer. Ora, o que seria, para esta gente, uma reacção aceitável? Israel responder às pedradas com mais pedradas, e aos rockets com mais rockets? É evidente que, num conflito destes, cada um ataca (ou defende-se) como pode, e o resto é retórica. A reacção «desproporcionada» que se repete por aí não é, portanto, um argumento. Nem bom, nem mau. Como não é um argumento o facto de estarmos perante um combate de David contra Golias ou de fisgas contra aviões, pois quem tem menos capacidade para atacar (ou para se defender) não tem necessariamente razão.
O MENTIROSO E O COXO. Diz mais esta observação do Daniel sobre o que ele pensa acerca de Israel que os quilómetros de prosa que já escreveu sobre o conflito israelo-palestiniano em que procurou convencer-nos do contrário.

29 de dezembro de 2008

LAVAR AS MÃOS. Confesso que voltei a não perceber a comunicação ao País do Presidente da República a propósito do Estatuto dos Açores. Foi para nos dizer que promulgou um diploma que acha que vai abrir um «precedente muito grave», capaz de abalar o equilíbrio de poderes e afectar o normal funcionamento das instituições? Para nos dar conta de que «a qualidade da nossa democracia sofreu um sério revés», que o diploma põe em causa o «interesse do Estado», e que os interesses partidários falaram mais alto que os interesses do País? Se é tão grave assim, esperar-se-ia que o PR anunciasse que resolveu agir em conformidade. Se a ideia foi dizer-nos que fez tudo ao seu alcance, e que, a partir daí, agiu como Pilatos, a última coisa que se esperaria de um Presidente da República é que lavasse publicamente as mãos sobre um assunto que, segundo as suas próprias palavras, coloca em causa o futuro do País.
MODERADOS. Se Israel tivesse reagido aos rockets do Hamas de forma «moderada», compreender-se-ia. É isto, em resumo, o que disse o Alto Comissário para os Direitos Humanos, para quem Israel reagiu com uma «força desproporcionada». E o que seria, para ele, reagir de forma moderada? Infelizmente, não esclareceu, mas não é difícil adivinhar. Sobre a violação do cessar-fogo por parte do Hamas, que despoletou o presente conflito, nem uma palavra. É por estas e por outras que a reputação da ONU anda pelas ruas da amargura.

26 de dezembro de 2008

Sublime.

TIROS DE PLÁSTICO. O ensino nas escolas portuguesas entrou na fase da pistola. De plástico, até ver, para nos irmos habituando. Apontar uma arma a uma professora, ainda por cima numa sala de aula, é bem capaz de ser «uma brincadeira de mau gosto», como diz a vítima, mas nunca caso para castigar os alunos, como diz o presidente de uma federação de associações de pais. O caso «é mais sério do que uma brincadeira de mau gosto», admite Manuel Valente, mas não é castigando os alunos que, no seu entender, o problema se resolve. De facto, olhando bem o pressuposto, o sr. Valente é capaz de ter razão. Imaginemos um aluno a dar um tiro num professor e o professor ir desta para melhor. Não é castigando o aluno que se devolve a vida ao morto, não é?

23 de dezembro de 2008

UM LIVRO. Procurei, durante anos, Viagem à Alcarria, de Camilo José Cela, que Alexandre O’Neill considerou «um livro maravilhoso». Um dia destes descobri um exemplar em inglês de mil novecentos e troca o passo bastante manuseado e largamente anotado, que comprei por meia dúzia de patacos mas como quem compra um tesouro. Chegada a hora de ler, apercebo-me, logo aos primeiros parágrafos, que o livro me é familiar. Percorro as estantes de casa em busca de Vagabundo ao Serviço de Espanha, leio o primeiro parágrafo, e confirmo que estou diante do mesmo livro. É o que dá, pensei, atribuir títulos completamente diferentes às traduções. Meses depois, folheio, de novo, os exemplares, e descubro que são livros diferentes. Vagabundo ao Serviço de Espanha é uma antologia de textos de Cela «vagabundo e viajeiro» extraída de vários livros, incluindo Viagem à Alcarria, de que integra um texto. Ganhei, portanto, o tal livro que procurei durante anos. A avaliar pela dezena de páginas que já li, valeu a pena esperar tanto tempo.
EMPRÉSTIMOS. O Governo decidiu emprestar dinheiro aos trabalhadores da função pública que dele necessitem para «situações de emergência». Não percebi bem como a coisa funciona, nomeadamente a forma como pretende reembolsar os empréstimos, mas nada contra. Há, porém, uma coisa que não percebi mesmo nada: porquê empréstimos, apenas, aos funcionários públicos?

22 de dezembro de 2008

CHICO-ESPERTICES. Pacheco Pereira confirmou, ao Público, o que já se sabia: vai recensear-se em Rio Maior para não ter de votar em Santana Lopes em Lisboa. Desconheço os contornos em que a coisa se processa, mas não duvido que é legal. Já do ponto de vista ético, tenho as minhas dúvidas. Afinal, parece-me um expediente pouco saudável, e nada recomendável. Talvez mais: cheira a chico-espertice. Vindo de quem passa a vida a pugnar pela dignidade da classe política, é caso para dizer: «Bem prega Frei Tomás.»
ANTÓNIO BARRETO. «Os reguladores e os políticos conhecem intimamente os especuladores e os predadores. Não só se conhecem, como se estimam e convivem. Têm mesmo, simultânea ou sucessivamente, interesses comuns. O triângulo formado pelos políticos, os reguladores e os especuladores constitui um percurso pessoal que muitos fazem airosamente nas suas carreiras.»

18 de dezembro de 2008

ESTADO DO ESTADO. Em 1995, a administração Clinton disse aos bancos que só beneficiariam de condições excepcionais de crédito caso demonstrassem que estavam a emprestar dinheiro às famílias com baixos rendimentos. Quatro anos depois, a mesma administração pressionou a maior compradora de hipotecas (a Fannie Mae) a fazer o mesmo. Em 2005, a administração Bush requereu que 45% dos empréstimos adquiridos pela Fannie Mae e Freddie Mac (semelhante à Fannie Mae) fossem empréstimos concedidos às famílias com médios ou baixos rendimentos. Numa altura em que uns defendem maior intervencionismo do Estado e outros acusam os modelos económicos de funcionarem sem rei nem roque, isto devia dar que pensar. Afinal, o problema do subprime, que provou a catástrofe financeira que se conhece, talvez não tivesse existido caso não fossem as pressões governamentais. Com os Estados cada vez mais intervenientes na economia, por razões que nem sempre se entendem, há que temer o pior.

16 de dezembro de 2008

SAPATADAS. Espancado o jornalista dos sapatos? Isso seria inadmissível! Que o cavalheiro atire com os sapatos ao presidente Bush e o insulte e o gesto ainda mereça aplauso geral, promessas de ajuda de centenas de advogados, o estatuto de «herói» e uma comenda da filha de Kadhafi, compreende-se. Agora, que alguém lhe tenha chegado a roupa ao pêlo, isso seria intolerável. Espero, sinceramente, que nada disso tenha acontecido, como as autoridades garantem. Mas, pelo sim, pelo não, já pus a barqueta de prevenção para o caso de vir por aí um vale de lágrimas.
DEPUTADOS. Um líder eleito «por alguns milhares de militantes» (Manuela Ferreira Leite, no caso) não pode (ou não deve) mandar «num grupo parlamentar eleito por mais de um milhão de portugueses», diz o João Miranda. Aparentemente, assim devia ser. Acontece que, na prática, não é isso o que, em Portugal, sucede desde que existe democracia. Não são os candidatos a deputados «eleitos» pela direcção do partido a que pertencem antes de irem a votos? Não são os candidatos premiados (ou punidos) consoante o grau de fidelidade à direcção do dia? Quer o João Miranda queira, quer não, um deputado, em Portugal, é «um servidor do partido» pelo qual se apresentou a sufrágio, e ai dele que não seja. Se «a decisão de Ferreira Leite [exigir explicações aos deputados do seu partido que faltaram a uma votação importante] é incompatível com os princípios da democracia representativa», como diz (e eu concordo), estranha-se que continue a praticar-se por todos os partidos políticos com assento parlamentar sem que ninguém se rale ou mexa uma palha para alterar o actual estado de coisas.

12 de dezembro de 2008

A AVALIAÇÃO E O FACTOS. Como já disse neste post, a ministra da Educação perdeu a autoridade para defender o actual modelo de avaliação dos professores a partir do momento em que admitiu substituí-lo. Se as negociações entre sindicatos e Ministério pouco têm adiantado (o Ministério da Educação limitou-se a simplificar o actual modelo e os sindicatos a complicar ainda mais o processo), nada mudará num modelo cuja morte é anunciada pela própria ministra. Se isto me parece uma evidência, há outra evidência de que pouco se fala e, na minha opinião, devia falar-se. Segundo os jornais, o actual modelo foi introduzido em algumas escolas sem que se registassem problemas. Assim sendo, o que quer isso dizer? Quer dizer, evidentemente, que o modelo funciona desde que não haja, pelo menos, má vontade em o aplicar. Nada que já não se soubesse, mas é bom que os factos o demonstrem.
PROFETAS. Não me lembro de um único profeta da economia prever uma crise financeira como a que atravessamos, como não me lembro de ninguém (politólogo, sociólogo, filósofo) prever um 11 de Setembro. Apesar do ror de «especialistas» que por aí andam a dizer-nos que se fartaram de avisar, a verdade é que ninguém se lembra do que disseram, e de profetas a acertar previsões no final do jogo já estamos servidos. Quem, perante hecatombes como a actual crise financeira ou o 11 de Setembro, não se interrogou: como foi possível ninguém prever coisas destas? Pois é, os factos insistem em demonstrar a evidência. E a evidência, convém lembrar, demonstra que ninguém sabe nada de essencial, a começar por especialistas como o último Nobel da Economia, que acaba de fazer uma previsão (a crise financeira poderá ir além de 2011) tão esquecível como as outras.
Esclarecedor, não há dúvida. (Via Mar Salgado.)

LER FAZ BEM À SAÚDE (33). Olhem que não, stôres, por Fernanda Câncio. Blog, por Francisco José Viegas.

11 de dezembro de 2008

PAPAGAIOS. Qualquer pedante com pretensões de passar por culto sabe de ciência certa que ler é importante, ouvir música erudita essencial, e que a pintura devia fazer parte da formação de qualquer um. (O resto está aqui.)

9 de dezembro de 2008

SÍNDROME DAS SEXTAS. O DN fez contas e descobriu que as sextas-feiras são os dias em que os deputados mais faltam às sessões plenárias (quase o dobro dos outros dias). Descobriu mais: «a invocação de trabalho político é campeã nas justificações apresentadas pelos deputados». Como o «trabalho político» é uma justificação suficientemente ampla para nela caber tudo, surpresa seria se não fosse esta a desculpa mais utilizada. Já Vasco Pulido Valente dizia ter utilizado o expediente para ir ao cinema nos tempos em que foi deputado. Aliás, seria interessante (e didáctico) que Pulido Valente contasse o dia-a-dia daquela casa nos tempos em que por lá andou, bem como alguns episódios caricatos que lhe ouvi contados por alto num programa de rádio. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos guarda-chuvas que se deixavam não sei onde e desapareciam ninguém sabia como, das casas de banho a transbordar de urina a partir de certa hora, coisas assim. Imagino que os deputados não ficariam lá muito bem no retrato, mas a Pátria certamente agradecia.
SARAMAGO. Saramago diz que o Nobel «significou [para ele] uma responsabilidade importante do ponto de vista cívico e político». De facto, por aquilo que se lhe ouve a propósito de tudo e de nada, nota-se bastante. Mas, sinceramente, não havia necessidade. Afinal, esperar-se-ia, quando muito, mais responsabilidades literárias, nunca mais responsabilidades cívicas ou políticas. Suspeito, aliás, que Saramago assumiu um papel que não estava no guião, e passou a agir como quem pode mudar o Mundo. É o que acontece a quem se leva demasiado a sério.

5 de dezembro de 2008

BPN. Imagina-se que não foi de «ânimo leve» que o procurador Rosário Teixeira decidiu aplicar a medida mais drástica (prisão preventiva) a Oliveira Costa, como diz o responsável pelas investigações ao caso BPN em resposta às dúvidas levantadas pelo bastonário dos Advogados. Afinal, não deve ter sido por acaso que o ex-administrador do BPN praticou, durante anos, toda a espécie de malabarismos sem que alguém o tenha incomodado, e ninguém acredita que os supervisores não sabiam de nada. Aliás, quem viu as declarações de Paulo Portas à TVI só pode ter concluído uma de duas coisas: ou o líder do CDS está a mentir, ou a história do governador do Banco de Portugal está muito mal contada. Mas há mais sobre tão malcheiroso caso. Quando estourou o processo Casa Pia, envolvendo gente ligada ao PS, pôs-se a correr a tese de que se pretendia decapitar a direcção do PS. Agora, que o caso atinge o PSD, o alvo é o Presidente da República. Ou seja, querem-nos fazer crer que estamos perante um caso de política, não um caso de polícia. Não que não seja de esperar um aproveitamento político, que até me parece legítimo. Mas não misturem alhos com bugalhos, nem venham deitar-nos areia nos olhos.
CAPITULAÇÃO. A notícia de que a ministra da Educação admite substituir o actual modelo de avaliação dos professores é um claro sinal de que a avaliação foi por água abaixo. Embora só admita suspendê-lo no próximo ano lectivo e faça questão de lembrar que, até lá, continua em vigor, admitir essa possibilidade significa, na prática, passar-lhe uma certidão de óbito. Que autoridade tem a ministra para defender um modelo que admite substituir? Evidentemente que nenhuma. Agora também eu defendo que a ministra devia ir embora. De facto, depois de uma capitulação destas, não me parece que tenha condições para se manter no Governo. Aliás, surpreendeu-me que o Governo não tivesse capitulado há mais tempo. Temos, assim, e como era de prever, que a avaliação segue dentro de momentos. Pior: parece que não se podem fazer reformas contra quem delas discorda, como se os cidadãos concordassem com todas as leis que têm de cumprir.

3 de dezembro de 2008

ISLÃO. Se não houvesse «uma forte resistência em conhecer o islão» ou uma «vontade deliberada em permanecer na ignorância», como diz Faranaz Keshavjee (Público de domingo), compreender-se-iam as acções como aquela que ocorreu na Índia, acrescentaria eu. Para não variar, sempre que acontecem actos destes, lá vem o argumento de que é preciso pôr as coisas em perspectiva. Como já disse e repeti, quando se esperaria que os islamitas moderados (no caso de os haver) fossem os primeiros a condenar tais actos, calam-se muito caladinhos, e ainda vêm com sermões. Por mais esforço que se faça, por mais abertura de espírito que haja, assim é difícil entendê-los.

2 de dezembro de 2008

MUDANÇA. Nunca a célebre frase de Lampedusa (é preciso mudar para que tudo fique na mesma) fez tanto sentido quando se olha para o próximo Executivo americano. De facto, olha-se para o leque de escolhas de Obama, e o que se vê? Tudo menos mudança. Não que eu tenha isto como um mau sinal, como já aqui disse. Mas que vem contrariar aquilo que prometeu, disso não há dúvida.