30 de junho de 2005

Depois de muita hesitação, resolvi comprar A History of the American People, de Paul Johnson. A avaliar pela primeira meia centena de páginas, não estou arrependido. Resta saber se vai ser assim nas restantes mil e tantas que faltam.
Cada vez gosto mais de ler o Casmurro.

29 de junho de 2005

Três milhões de telespectadores consideraram George W. Bush o sexto «maior americano» da história, à frente de figuras como Bill Clinton ou Franklin Roosevelt e depois de Reagan, o primeiro da lista. Mas este pequeno facto não tem qualquer importância se comparado com suposições como estas.
Um externato português resolveu premiar os melhores alunos com uma viagem. Até aqui, nada de extraordinário. O extraordinário está no facto de isto ser notícia no Telejornal de ontem, o que me leva a perguntar: isto é notícia porque não há notícias, ou premiar os melhores alunos é tão invulgar que acaba por ser notícia? Mas há mais: o Telejornal de hoje «esqueceu-se» de noticiar a morte de Emídio Guerreiro.
Os links aqui ao lado foram actualizados. Muitas entradas e algumas saídas, todas por desistência dos proprietários.

23 de junho de 2005

O episódio que envolveu o secretário de Estado da Administração Interna e um semanário regional, mais exactamente a retirada das bancas da última edição do Notícias de Vila Real por causa de uma entrevista que terá sido publicada naquele semanário sem a revisão prévia do entrevistado, teve o condão de trazer para a ribalta um problema que nunca deveria sair dela: as relações do poder com os media, neste caso do poder político com os media regionais. O resto está aqui.
Não sei se os polícias têm razão para protestos. O que me parece bizarro é ouvir palavras de ordem a dizerem que os governantes são «uma cambada de gatunos» e o ministro da tutela um «aldrabão».
É impressão minha, ou Pacheco Pereira passa a vida a escrever sobre assuntos que promete continuar mas, depois, não continua?

22 de junho de 2005

Uma pergunta que ando a fazer a mim mesmo há muito tempo: será correcto — e legal — postar um texto na íntegra proveniente de uma publicação online que só está disponível mediante pagamento?

21 de junho de 2005

A estória do «arrastão» da Caparica devia servir para os media procurarem um consenso sobre a cor da pele dos protagonistas. Porquê negro e não preto? Não será negro uma forma politicamente correcta (e hipócrita) de dizer preto? E desde quando um cidadão nascido em Portugal é africano? Por favor, entendam-se e chamem as coisas pelos nomes. Sem preconceitos nem hipocrisia.

17 de junho de 2005

O secretário de Estado da Administração Interna terá obrigado o Notícias de Vila Real a retirar das bancas a mais recente edição, alegando que o semanário em causa não teria cumprido o acordo que previa a leitura da entrevista por ele concedida àquele semanário antes de ser publicada. Mais: a edição em causa terá sido reimpressa e posteriormente colocada nas bancas com a versão «editada» por Ascenso Simões. Pelo menos é o que diz esta notícia, e eu não tenho razões para duvidar. Aliás, tenho a certeza que já vi este filme em qualquer lado e que não faltam por aí casos que só não chegam a sê-lo porque não são do conhecimento público. A fragilidade da imprensa regional (e não só da imprensa regional) e a prepotência de quem tem o poder prestam-se a estes episódios, e só é pena que raramente se saibam. De maneira que só nos resta esperar que alguma alma caridosa esteja na posse das duas versões da entrevista ao Notícias de Vila Real e as queira divulgar pela internet.
Afinal, houve «arrastão» ou não houve «arrastão»?

16 de junho de 2005

«Esse negócio de dizer que as elites são corruptas mas o povo é honesto é conversa fiada. Nós somos um povo de comportamento desonesto de maneira geral, ou pelo menos um comportamento pouco recomendável. Se você me acompanhar à rua, a gente pode até fazer uma experiência. A população da Zona Sul do Rio de Janeiro é formada em grande parte de gente da terceira idade. Quando um idoso atravessa a rua, os motoristas de ônibus costumam acelerar em ponto morto, fazendo um barulhão. Eles querem dar um susto no velho, eles querem matar o velho. Já vi fazerem isso com crianças, que acabam saindo correndo. Eu mesmo, que tenho 64 anos, já tomei um susto assim. Os brasileiros estão convictos de que, se um pedestre atravessar fora da faixa, o motorista tem o direito de atropelá-lo e matá-lo.» João Ubaldo Ribeiro, Veja de 18 de Maio de 2005
O Aviz, que hoje faz dois anos, é um dos melhores blogues portugueses. Os outros são A Causa Foi Modificada, Voz do Deserto, Contra a Corrente, Fora do Mundo, Mar Salgado e O Acidental.

15 de junho de 2005

Volto a citar Vergílio Ferreira só para dizer mais uma coisa sobre Álvaro Cunhal: «Ter firmeza de carácter é ser fiel àquilo em que já não se acredita.»

13 de junho de 2005

Como não acho que as pessoas e suas ideias passam a ser melhores depois de mortas, não tenho qualquer elogio a fazer a Álvaro Cunhal ou Vasco Gonçalves. Uma perda para o País? Não me lixem. Só faz falta quem cá está, costuma dizer-se e com razão. A coisa é um pouco brutal, reconheço, mas mais vale assim que embarcar na hipocrisia que por aí vai. Além de que sou capaz de apostar que os ilustres falecidos ficariam menos incomodados com esta brutalidade do que com o paleio de circunstância e as lágrimas de crocodilo.
Vasco Pulido Valente no Público do último sábado: «A "extraordinária revolução" de Sócrates pune a melhor parte da "classe política" e favorece a pior.»
«Percebo mal que exista gente que compra livros meus. Mas que alguém queira o meu autógrafo, isso ultrapassa toda a compreensão. Para mim, qualquer exemplar vendido é um foguetório. E então um autógrafo é uma apoteose.»
«Ele começava todas as conversas com a frase "vamos supor, ó", ou "quer ver, vamos supor, ó" - ou, quando queria chamar muito a minha atenção recalcitrante, "Silváá, quer ver, ó, vamos supor, Silváá - Síílva! Ó, vamos supor", e em seguida começava a falar muito excitado, freqüentemente cuspindo na minha cara, "Vamos supor, ó: desce um disco voador na sua casa e eles te obrigam a escolher entre fritar o seu próprio pau ou estuprar a sua avó, que que cê escolhia, hein, Silva", e todas as conversas dele eram mais ou menos assim.» Isto para começar.
Citando Saúl Dias, Vergílio Ferreira dizia: «Quando morre um poeta é como se um relógio humano desse corda a todos os relógios humanos do distrito.»

9 de junho de 2005

Há séculos que ando para dizer isto mas tem-me esquecido: tenho as obras (quase) completas de Eça e parte das obras de Camilo em formato pdf. Se alguém estiver interessado, é só mandar um e-mail.
O vice-presidente da Assembleia da República Manuel Alegre acusou a televisão estatal de «falta da respeito pela selecção portuguesa» por não ter transmitido o hino nacional antes do jogo de futebol Estónia-Portugal, que terá substituído por publicidade. Segundo ele, «honrar os símbolos nacionais é obrigação primeira do serviço público», pelo que a atitude da RTP configura «uma falta de respeito pela selecção portuguesa» que «não é compreensível». Ora, a ter sido exactamente assim que tudo se passou, Manuel Alegre tem toda a razão. Tem toda a razão e demonstra uma posição que é raro ver-se na esquerda portuguesa face aos símbolos nacionais.
Sobre o estatuto profissional do artista, sobre o qual o PS e o Bloco terão um projecto de lei a apresentar brevemente, diz o Pedro Picoito: «Então a inspiração passa a ter dia e hora marcada? As musas não poderão visitar o artista em férias? Ou depois das 5 da tarde? E, nesse caso, o artista recebe horas extraordinárias?» Vale a pena ler, ainda no mesmo post, um hipotético diálogo entre um artista e um funcionário da Segurança Social.

7 de junho de 2005

Não é nada que já não se soubesse, mas é sempre bom haver estudos que o comprovem. Estudos e gente que jamais deixaria escapar uma coisa destas.
Desde quando um ministro tem posições políticas pessoais e posições políticas institucionais? Não será óbvio que as posições políticas de um ministro são sempre institucionais?

3 de junho de 2005

Volta e meia, os músicos do costume lembram-se de exigir que o Estado obrigue os portugueses a consumir a música que eles fazem. Sim, eu sei que a questão não é tão simples assim, até porque há actividades similares que beneficiam de benesses do Estado. Mas a questão coloca-se na mesma: porque hão-de os portugueses ser obrigados a consumir «quotas mínimas» de música portuguesa? Sim, porque o decreto que eles exigem aprovado na Assembleia da República obriga as rádios a passar não sei quantos por cento de música portuguesa, o que equivale a dizer que, na prática, os portugueses vão ter que consumir não sei quantos por cento de música portuguesa. E quem vai beneficiar com as «quotas mínimas» além dos directamente interessados? O Estado português? A cultura portuguesa? Os portugueses? Por amor de deus. Os únicos beneficiados são os directamente interessados — e só eles. O resto é conversa fiada.

2 de junho de 2005

Tirando as crónicas de João Bénard da Costa e Vasco Pulido Valente (Público), Ferreira Fernandes e Alberto Gonçalves (Sábado e Correio da Manhã), Constança Cunha e Sá (Sábado), João Pereira Coutinho (Expresso e Folha de S. Paulo), Francisco José Viegas (Jornal de Notícias e Volta ao Mundo) e Pedro Mexia (Diário de Notícias), e ressalvando o facto de não ler a Visão, a Focus, a Grande Reportagem e O Independente (e talvez mais alguns que, agora, me escapam), estou cansado dos nossos cronistas. Já sei que vai chover bordoada, mas pode ser que no meio da tempestade apareça alguém a sugerir-me um nome que eu não conheça e valha a pena. Se assim for, valeu a pena.