31 de agosto de 2010

UBALDO. Tenho ali Viva o povo brasileiro, que me custou os olhos da cara, e que procurei durante alguns anos. Li 89 páginas das 700, e confirmo que o livro é para ler em ocasiões especiais, quando estiver sedento de leituras e nada me satisfizer. Tal como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, um livro que sabe bem ter ao alcance da mão quando me cansar de leituras, e mais dois ou três de que agora não me lembro. Bem sei que isto é um juízo à priori, e se há juízos precipitados são os juízos à priori. Mas eu quero pensar que são bons, fora de série, excepcionais, e estou pouco interessado em saber que não é assim.
COISAS BOAS


Além do blogue, o Francisco Duarte Azevedo tem uma página pessoal. A imagem que aqui reproduzo, um acrílico sobre papel, é uma das várias que vale a pena ver.

27 de agosto de 2010

SILÊNCIO ENSURDECEDOR. O que mais impressiona nos casos de lapidação e outras práticas medievais, sempre por razões incompreensíveis ao comum dos mortais, é constatar-se que o Islão dito moderado não abre a boca sobre tais práticas. Quando se esperaria que os moderados fossem os primeiros a insurgir-se, até para demonstrar que não existe motivo para que se olhe para eles com desconfiança, os sujeitos não dizem um ai sobre o assunto, nem mexem uma palha para impedir a barbaridade. Depois queixam-se que há quem suspeite que eles são coniventes com tais práticas.
PANTOMINEIROS. Se ninguém rasgou as vestes por causa de um clube de strip perto do Ground Zero, porquê tanto alarido por causa de uma mesquita no mesmo local? A pergunta é de Luís Rainha, e encerra um raciocínio que pretende ser óbvio: as duas coisas são comparáveis, logo deviam ter reacções equivalentes. Acontece que as duas coisas não são comparáveis, como Rainha bem sabe. O que talvez não saiba é que as pessoas não são tão estúpidas como ele imagina, e que pantomineiros como ele se detectam à légua.

25 de agosto de 2010

DA POUCA-VERGONHA. Parece que a palmeira que domingo caiu em Porto Santo e matou uma pessoa e feriu outras duas era para ter caído em cima de Alberto João Jardim, como insinuou o próprio. «É muito estranho cair uma palmeira no meio de um comício do PSD», disse o presidente da Madeira. Como não foi assim, como a palmeira caiu em cima de cidadãos anónimos, não vai andar «à procura de arranjar culpados», que «todos os dias caem milhões de palmeiras em todo o mundo». Que a dita palmeira tivesse a raiz «completamente podre», como admitiu o autarca local, ou que o caso já tenha sido detectado há anos, como descobriu o Público, não importa. O que importa é que não caiu em cima dele, logo não vai andar para aí «a fazer demagogia». Quanto aos três desgraçados que levaram com a palmeira, pêsames à família da falecida, e as melhoras aos restantes.
LOBO ANTUNES (2). Os militares que combateram na guerra colonial merecem respeito? Sem dúvida que merecem. Deve o Estado fazer tudo o que puder para minimizar os danos que a guerra eventualmente lhes causou? É evidente que sim. Mas isso não invalida que se possa falar de abusos cometidos na guerra por esses mesmos militares, gostem, ou não, da ideia. E não só de abusos, que nem todos os militares foram exemplares. Fica-lhes mal, portanto, esconder o óbvio, e ameaçar quem se atreve a dizer o que, afinal, todos sabem.

23 de agosto de 2010

LOBO ANTUNES (1). Quem ignora que os militares portugueses cometeram abusos na guerra colonial como os que Lobo Antunes descreve em Uma Longa Viagem? Além de me custar a crer que o escritor tenha mentido, não me parece que os episódios narrados no livro ponham em causa a honra e a dignidade dos militares portugueses na guerra colonial. Como eles muito bem sabem, as guerras prestam-se a toda a espécie de abusos, e a guerra colonial não foi excepção. Há, aliás, inúmeros relatos que o demonstram, e adivinha-se que outros casos não sejam conhecidos porque é desagradável recordá-los. Eu próprio ouvi, de viva voz, relatos de abusos contados pelos próprios que os cometeram, alguns deles verdadeiramente chocantes, mas nem por isso concluí que os militares que fizeram a guerra colonial eram uns patifes. O pior que os militares podem fazer para defender a honra e a dignidade a que têm direito é armarem-se em virgens ofendidas e prometerem esmurrar quem revelar verdades inconvenientes.
LIVROS. Ao contrário de quem vive angustiado pelos livros que não leu, saber que há livros que ainda não li, e provavelmente não lerei, é um prazer. Imaginem a chatice que seria se eu já tivesse lido tudo o que gostaria, ou tudo o que considero importante. Almada Negreiros provavelmente nunca pensou nisso quando escreveu que estaria perdido se não encontrasse maneira de ler todos os livros que desejava.

20 de agosto de 2010

JUSTIÇA ASININA. Como notou o João Miranda, a justiça não dorme. Andava a gente a pensar que ela não funciona, ou funciona mal, e descobre-se que funciona na perfeição.
LIVROS. Eu sei que todos os dias fecham livrarias devido ao comportamento de leitores como eu, mas como resistir a um livro (Borges, de Bioy Casares) que me custou menos de sete dólares quando numa livraria me custaria cinco vezes mais? A diferença é abissal porque o livro é usado, mas a diferença entre comprar um novo na livraria ou online justificaria, na mesma, a compra online. Não sei o que vai suceder às livrarias, e angustia-me pensar que grande parte delas vai desaparecer. Mas eu não sou benemérito, e não me posso dar ao luxo de comprar por dez o que posso comprar por cinco.

16 de agosto de 2010

CENAS TRISTES. Se Pinto da Costa e Luís Filipe Viera acham o caso «ridículo» e outros personagens da bola põem as mãos no fogo por ele, dificilmente Queiroz será removido da selecção. De facto, está demonstrado que o seleccionador tem as costas bem quentes, e só um tufão o removerá. Que permaneça em funções desacreditado e/ou ridicularizado, é uma questão de somenos. Importante é que permaneça, em nome não se sabe de quê, custe isso o que custar. Como perceberão pelas razões que expus em variadíssimos posts, lamento que assim seja. Curiosamente, todos os dias surgem notícias a confirmar a incompetência do sujeito. Enquanto uns saem à rua para defender (e potenciar) a matéria-prima de que dispõem (o caso de Mourinho por Cristiano Ronaldo), outros fazem exactamente o contrário (o caso de Queiroz por Cristiano Ronaldo). Então o seleccionador acha que «Ronaldo foi capitão cedo de mais»? Não será isso um atestado de incompetência ao nosso maior craque? O que pensará ele disso? Terá encarado o recado como um estímulo? Quando é que Queiroz pára de sacudir a água do capote e deixa de atribuir a terceiros a culpa que só a ele lhe pertence? Com certeza que a braçadeira de capitão no braço de Ronaldo é uma decisão questionável, mas espera-se que o seleccionador não corrija um erro com outro. Afinal, espera-se de um seleccionador que estimule os seus comandados, não o contrário. Razão tinha o craque quando se virou para o seleccionador e lhe disse: «Assim não ganhamos, Carlos.» Foi de capitão.
TAMBÉM ACHO. «(...) devia ser considerada falta grave que algum cidadão minimamente alfabetizado tivesse passado uma parte da sua vida sem ler Eça.»

12 de agosto de 2010

FONTES ANÓNIMAS. Vale a pena ler a última crónica do Provedor do Leitor do Público — e, já agora, não só a última crónica. Chamo a atenção para a última crónica porque nela se fala das fontes anónimas, do uso e abuso das fontes anónimas quando se esperaria que apenas fossem usadas em circunstâncias excepcionais, em casos em que a informação é de tal modo relevante que não há como as ignorar — e, claro, sempre que não seja possível identificar as fontes sem as expor a situações delicadas. Apesar de o provedor se revelar crítico com o uso das fontes anónimas, não abordou, como se esperaria, um tema de que nunca se fala quando se abordam estes assuntos: as fontes anónimas que não passam de invenções dos jornalistas, que vêem nelas um expediente seguro para dizerem o que lhes apetece sem terem que identificar a origem da informação. Como não bastasse o facto de as fontes anónimas se prestarem, pela circunstância de os seus autores não serem identificados (e não estarem, por isso, sujeitos a escrutínio acerca da veracidade do que dizem), a que sobre elas se levantem as mais legítimas suspeitas (até porque custa a crer que algumas das fontes anónimas não possam identificar-se sem correr riscos maiores), a possibilidade de os jornalistas atribuírem a fontes anónimas o que eles próprios inventam reduz ainda mais a confiança na informação que não pode ser confirmada. Tenho, aliás, cada vez mais dúvidas de que se deva recorrer às fontes anónimas, mesmo em caos mais extremos. É que o precedente das fontes anónimas abre caminho a toda a espécie de abusos, não só por parte dos jornalistas, e suspeito que o que se ganha não vale o que se perde.

10 de agosto de 2010

QUEIROZ (2). Independentemente do que venha a suceder, já todos perceberam que Carlos Queiroz deixou de ter condições para se manter no cargo de seleccionador nacional. Saia a bem, saia a mal, não há outro caminho: a porta da rua, com indemnização ou sem ela. Já repararam que não há uma única criatura que o defenda? Já viram que os únicos reticentes quanto à sua saída apontam o dinheirinho que ele poderá embolsar com a quebra de contrato? Alguém imagina Carlos Queiroz sentado no banco depois de as coisas terem chegado onde chegaram? Bem sei que gente importante acabou de jurar por Queiroz, mas nisto da bola nunca se sabe o que é genuíno e o que é interesse. Certo e sabido é que Queiroz perdeu o crédito que lhe restava, nomeadamente dos seus comandados, e sem ovos não se fazem omeletas.
QUEIROZ (1). Ignoro se o presidente da República e o primeiro-ministro estão na lista das testemunhas abonatórias de Queiroz no processo disciplinar de que está a ser alvo, mas não me surpreenderia que estivessem. Depois do corrupio de figuras de peso da bola (Alex Ferguson, Luís Figo, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira) que depuseram — ou vão depor — em abono do seleccionador, seguramente que não será fácil uma decisão que contrarie a vontade destes senhores. Até porque uns já disseram que o processo «é ridículo» (Pinto da Costa), e outros que é «lamentável» (Alex Ferguson). Aliás, não percebo por que razão foram estes senhores chamados à Federação para falar sobre o caso. O que terão eles a dizer sobre os insultos que o seleccionador terá proferido? Que Queiroz é uma excelente pessoa? Se assim é, que importância terá isso para o caso?

9 de agosto de 2010

PRAGAS. É moda dizer-se que ninguém é isento, logo não é possível redigir uma notícia de forma equilibrada. (Continuar a ler aqui.)

6 de agosto de 2010

FREEPORT. O caso Freeport poderá ser reaberto? Pelo menos servirá para vender mais uns jornais, que bem necessitados andam de vender mais uns exemplares. Isto partindo do princípio que ainda há quem se interesse pelo Freeport, o que não é seguro. Não, não sei se houve razão para encerrar o caso ou para agir de outro modo, que desisti de perceber o que é relevante e o que é mero ruído, e cansei-me de ver as bombas atómicas lançadas pelo jornal de Manuela Moura Guedes transformadas em bichas-de-rabear no dia seguinte. O que sei é que a justiça se tornou uma anedota nos melhores casos e uma tragédia nos piores, sem que se vislumbre o que está a ser feito para que mude alguma coisa.

5 de agosto de 2010

O ÓBVIO ULULANTE. Não conheço o caso com profundidade bastante para que sobre ele possa ter uma opinião fundamentada, mas não me parece normal existir um Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, e até me parece perigoso que ele tenha o poder que lhe atribuem. Mas numa coisa tem o sindicato razão: a hierarquia do Ministério Público está «moribunda», provavelmente por «falta de capacidade» de Pinto Monteiro para exercer os poderes de que dispõe. De facto, o PGR tornou-se uma figura desacreditada, um factor de instabilidade, e cada dia que passa nota-se mais. Se a sua saída não resolverá, por si só, a questão de fundo, seguramente que será um bom começo.

3 de agosto de 2010

OBVIAMENTE DEMITA-SE. Se o PGR «tem os poderes da Rainha de Inglaterra» (leia-se muito poucos) e não consegue mandar no Ministério Público, por que se mantém Pinto Monteiro no cargo? Por que assumiu ele o lugar sabendo que os poderes que teria seriam, na sua opinião, pouco mais que simbólicos? Alguém acredita que só agora o PGR descobriu a pólvora? E, se foi só agora, por onde andou estes anos todos? Quando é que o PGR reconhece a incompetência para dirigir o tal órgão de que se queixa e age em conformidade?
UM ENIGMA. O que quererá o PGR dizer quando diz nunca ter visto, «na [sua] longa vida de magistrado», um despacho igual ao caso Freeport? Quererá dizer que houve pressões governamentais que provocaram o seu desfecho? Quererá dizer que os titulares do processo foram incompetentes? Quererá dizer as duas coisas? Já ouvi que o PGR anunciou um inquérito destinado ao «integral esclarecimento de todas as questões de índole processual ou deontológica» que o arquivamento do caso possa suscitar. Acontece que os inquéritos mandados abrir pelo procurador acabam em nada, e são tantos os exemplos que se torna legítimo suspeitar que os inquéritos apenas servem para calar os mais exaltados e pôr uma pedra sobre o assunto.

2 de agosto de 2010

FAÇAM UM PEDITÓRIO. A cena dos insultos à malta do doping será, provavelmente, o pretexto que faltava para afastar o seleccionador nacional. Para quem, como eu, manifestou reservas face ao desempenho de Carlos Queiroz à frente da selecção, todas as razões são boas para correr com ele, pelo que tanto me faz que seja por uma razão, ou por outra. O «professor» já demonstrou variadíssimas vezes que não serve, e nem os objectivos cumpridos escondem a evidência. E a evidência demonstra que o sujeito só arranja sarilhos, impede que os jogadores façam o que sabem, e como líder é um desastre. Pior: não tem ambição, não tem currículo, nem tem competência. Se o problema for o dinheirinho que ele há-de arrecadar caso o ponham na rua, experimentem fazer um peditório. Verão que não será por aí que o homem não deixará de se ir embora.