28 de fevereiro de 2011

25 de fevereiro de 2011

AS LEIS SÃO ELES. O que espanta no episódio protagonizado por Armando Vara é alguém ter reclamado os seus direitos, coisa rara hoje em dia e a exigir alguma coragem. Parafraseando Eça de Queirós, Vara faz parte, em Portugal, de um vastíssimo grupo de pessoas para quem as leis se afastam para eles passarem, e quem se põe à frente deles arrisca-se a ser atropelado. A denúncia do caso nos media não vai, obviamente, mudar este tipo de comportamentos, que a cultura de um país não se muda por decreto.
PENSEM NISTO. Chocante o vídeo em que a polícia dispara sobre um prisioneiro uma arma desaconselhada por quem sabe sem que se perceba a necessidade do seu uso? Sem dúvida. A divulgação do vídeo pretende atingir alguém? Mais que provavelmente. O prisioneiro não é flor que se cheire? Tudo indica que sim. Mas o que realmente perturba neste episódio é imaginá-lo longe das câmaras. Será difícil imaginar uma cena destas sem uma câmara de vídeo por perto?
POIS NÃO. «A resistência à opressão não produz necessariamente a liberdade.» Vasco Pulido Valente, Público de hoje

23 de fevereiro de 2011

SANTA PACIÊNCIA. O politicamente correcto e o clima de medo estão a matar as anedotas de pretos e judeus, brasileiros e japoneses, gays e «alternativos», e a uniformizar tudo numa mistela sensaborona que não é carne, não é peixe, mas uma mistela intragável. Não se pode falar de presunto porque se ofendem os muçulmanos. Mudam-se palavras nos clássicos porque ofendem os pretos. Trocam-se as Boas Festas pelo mais abrangente Happy Holidays. Não se pode fumar em casa se a empregada doméstica estiver por perto. Tira-se o tabaco dos filmes porque o tabaco nos filmes causa fumo passivo (estou a inventar, mas lá chegaremos). Perante tudo isto, quem nos acode? A avaliar pelo silêncio generalizado (há um fogacho aqui e ali, mas não passa disso), o assunto não incomoda ninguém. Talvez pior: a grande maioria achará bem, pelo que ainda estaremos no começo.

21 de fevereiro de 2011

JAZZ. Se não erro, havia, há anos, um programa de rádio que passava excelente música sem dizer «água vai». Desde a chamada música ligeira, passando pelo jazz e pela clássica, o critério da música que lá se passava era a qualidade, e só a qualidade. Cinco minutos de jazz, programa que agora faz 45 anos, nunca me pareceu o melhor formato para promover o jazz, por mais bem-intencionado que seja, e por mais que apregoem o contrário. A melhor maneira de divulgar o jazz (e outras «músicas minoritárias») e atrair ouvintes para ele é dá-lo a ouvir sem exercícios preparatórios, que geralmente afastam mais do que aproximam. Com certeza que há espaço para programas de jazz (e doutras «músicas minoritárias»), mas se a ideia é dar jazz a quem nunca ouviu jazz, como o caso de Cinco minutos, a melhor maneira é dá-lo como quem dá outra música qualquer. É que eu não só estou convencido de que este tipo de programas não resulta como provoca o contrário do que pretende.

18 de fevereiro de 2011

ESTOU A LER. «Entre La Provence e a Penn Station havia esse caminho mágico, a Ferry Street ou a Avenida de Portugal. Não sei se era verdadeiramente a Avenida de Portugal, mas era seguramente a rua onde muitos portugueses tinham os seus negócios e onde mais se mercava. Abundavam ali criaturas mitológicas, descidas das serras do Marão ou da Estrela, de suas faldas, vales e encostas, largadas de póvoas e gândaras costeiras ao mar oceano como Aveiro, Ílhavo, Murtosa e outras baixadas em torno da ria. Coabitavam com peruanos, equatorianos, colombianos, porto-riquenhos, cubanos exilados, imigrados e aqui nascidos, e uma prole de brasileiros e brasileiras aptos para todo o serviço. Cruzavam-se línguas e sonoridades, cruzavam-se corpos e nações, cruzavam-se bazófias e «vanidades» que os mais velhos diziam ser sezões e desvios de tino por causa das modernices.» O Trompete de Miles Davis, de Francisco Duarte Azevedo, nas livrarias a partir de Março.

15 de fevereiro de 2011

TEMPOS PERIGOSOS. Não me parece necessário ser-se perito em questões internacionais para suspeitar que os acontecimentos do Egipto e da Tunísia podem alastrar a outros países, incluindo países onde vigoram democracias consolidadas, como se vê por esta notícia, a que ninguém prestou a atenção devida. Seguramente que as consequências dos protestos seriam outras e não teriam a mesma legitimidade que têm em países como o Egipto ou a Tunísia, mas assusta só de pensar. (A notícia a que me refiro chegou a estar no DN online, mas entretanto foi retirada sem qualquer explicação.)

11 de fevereiro de 2011

SIM, MAS. Mahmud Ahmadinejad aproveitou a queda do regime de Mubarak para dizer ao mundo e arredores que a queda do regime egípcio foi um sinal de um «novo Médio Oriente» sem «interferências» americanas nem «sionistas». Aparentemente, assim foi. Mas o presidente iraniano esqueceu-se de um detalhe: a revolta não teria sido possível sem a internet, produto americano por excelência.

9 de fevereiro de 2011

MAGISTRATURA DECEPCIONANTE. Li com atenção o que se publicou sobre o veto do Presidente da República ao diploma do Governo que permitiria ao farmacêutico substituir um medicamento prescrito pelo médico por um genérico ou similar, e não vi mencionado em lado algum um detalhe que reputo de essencial: e se o utente concordar com a substituição do medicamento originalmente prescrito? Nos Estados Unidos, onde resido, é assim que funciona, e não vejo ninguém a queixar-se. O médico receita determinado medicamento, o farmacêutico pode substitui-lo automaticamente por outro caso o médico não dê instruções em contrário, mas o consumidor tem a última palavra: aceita, ou não aceita. Tão simples como isto. Há utentes que não estão em condições de avaliar as opções que lhes são oferecidas, que nem as cores dos medicamentos conseguem distinguir? Não duvido que haja, mas devem ser os mesmos que antes da lei agora vetada já não estavam em condições de detectar uma troca de medicamentos caso houvesse uma troca de medicamentos, de se lembrar se já tinham tomado os medicamentos que tinham que tomar, de ingerir as doses recomendadas pelos médicos, etc., etc. Parece-me, portanto, que o veto presidencial prejudica os utentes, nomeadamente os mais carenciados, e que o Presidente se precipitou. Talvez o Presidente tenha pressa em pôr em prática a tal «magistratura actuante» que prometeu na campanha eleitoral, mas é sabido que a pressa é má conselheira.

8 de fevereiro de 2011

A PRESIDENTA. Como notou Vital Moreira (por uma vez estou de acordo com ele), a questão da «Presidenta», como Dilma Rousseff resolveu intitular-se, é «um disparate pretensioso». Vendo bem, um disparate que vem na linha do seu antecessor, Luís Inácio Lula da Silva, que chegou a elogiar o livro em branco «por ser mais fácil de ler». Este «Café com a Presidenta», como Dilma intitulou o programa de rádio que pretende ser um «ponto de encontro com o povo brasileiro», é de um mau gosto sem nome, e um atentado à língua portuguesa que Dilma tinha obrigação de não cometer. Se não estranho que ela não chegue lá pela sua própria cabeça, já me espanta que não tenha um colaborador que lhe diga o óbvio.

4 de fevereiro de 2011

CAVACO. As actividades do Presidente da República devem estar sob vigilância dos cidadãos, mesmo as actividades enquanto cidadão. Mas quem teve o desplante de dizer que os outros «terão de nascer duas vezes» para serem mais sérios do que ele, como disse Cavaco quando alguém pôs em causa a sua honestidade, merece que lhe escrutinem a vida até ao último detalhe. O que se tem publicado por aí pretende tramar Cavaco? Se é verdade o que se diz, não façam cerimónias. (Ver, também, Cavaco falou (mas pouco explicou), de João Miguel Tavares.)

3 de fevereiro de 2011

COISAS BOAS. Acabo de descarregar para o e-book a excelente série O Estado Novo há 50 anos, de João Carvalho. (Partes II, III, IV, V e VI.)
EVIDÊNCIAS. «Há uma primeira constatação extraordinária quando olhamos para as gigantescas e pacíficas moles humanas que invadem as ruas do Cairo ou de Alexandria: não há gritos contra o "império do mal", nem "morras a Israel", nem bandeiras americanas queimadas.» Teresa de Sousa, Público de ontem

1 de fevereiro de 2011