29 de agosto de 2008

PERTURBANTE. Que alguém tenham pregado um sapo numa cruz, supõe-se que numa alusão à crucificação de Cristo, não me aquece, nem me arrefece. Que me venham jurar que aquilo é «arte moderna» ou «conceptual», não me incomoda. Que o Papa venha dizer que estamos perante uma blasfémia, é-me indiferente. Que o Governo de Berlusconi considere o gesto inaceitável, está no seu direito. Que o governador lá do sítio tenha acabado no hospital após uma greve de fome em sinal de protesto, problema dele. Mas já me perturbaria que os responsáveis do museu onde a «obra» se encontra cedessem às pressões (do Papa, dos governos local ou nacional, do merceeiro do sítio) para retirar a obra, um gesto hoje em dia muito em voga e cuja recente não edição de um livro pela Random House, por razões de segurança, é, apenas, o último exemplo conhecido. Aliás, perturba saber que o acto de expor o boneco em causa seria impensável caso ofendesse, por exemplo, o Islão. Sim, porque o episódio dinamarquês das caricaturas causou, naturalmente, consequências, péssimas consequências. E isso é que é perturbante.
VERGONHAS OLÍMPICAS. O presidente do Comité Olímpico Português prometeu, no dia em que foi conhecido o desaire de Naide Gomes nos Jogos de Pequim, que não iria recandidatar-se, por então considerar que «a culpa não pode morrer solteira». No dia seguinte, em que passámos de bestas a bestiais graças ao ouro de Nelson Évora, Vicente Moura já admitia voltar atrás caso haja uma vaga de fundo. Segundo ele, a culpa do que não correu bem deveu-se, essencialmente, aos media (onde é que eu já ouvi isto?), que ouviram os protagonistas no calor da refrega, e os nossos rapazes são «melhores a fazer desporto do que a prestar declarações». Assim sendo, impõem-se alguns reparos. Por exemplo, não se percebe que o sr. comandante largue o barco quando há tempestade e o retome regressada a bonança, como bem observou Carlos Fiolhais no Público de hoje, a pretexto de que as declarações por ele feitas em Pequim «não foram muito reflectidas». Depois, «os melhores resultados de sempre» desculpam o facto de não se ter atingido os objectivos previstos?
LER FAZ BEM À SAÚDE (20). Escolhas, por J. Rentes de Carvalho. Para memória futura, por Filipe Nunes Vicente. What Russia will do next, The Economist.

28 de agosto de 2008

LADRÕES À PORTUGUESA. Parece que a Judiciária deitou a unha a um fulano que já ia no décimo assalto bancário desde o início do ano. Desconheço os pormenores da operação, e o eventual mérito da polícia. Mas há uma coisa que salta à vista: dantes, os ladrões de bancos faziam um único assalto e ficavam servidos para o resto da vida; hoje, pelos vistos, não é assim. Razão para dizer que até na ladroagem se nota o atraso do país.

27 de agosto de 2008

LILI. Maria Alice de Carvalho Monteiro é um nome que não diz nada à maioria dos portugueses. Mas se falarmos de Lili Caneças, o nome por que é conhecida no jet-set da capital, toda a gente sabe quem é. Mas saberão mesmo? Saberão, por exemplo, que a socialite só bebe champagne? Que fala inglês, alemão e francês? Que, em tempos, foi «um bocadinho trotskista»? Que é prima dos Goldschmidt e do marquês de Val Flor? Que recebe convites do príncipe Alberto? Que está cada vez cada vez mais parecida com o Castelo Branco? E que, estranhamente, não toca piano? Felizmente que o Expresso, sempre atento a estas coisas, esclarece, em longa entrevista, estes e outros mistérios de tão extraordinária criatura.

26 de agosto de 2008

ASSALTOS. Três dependências bancárias assaltadas num só dia (Banif em Lisboa, Totta e BCP em Sintra) é, de facto, obra. Se juntarmos aos bancos os assaltos a uma dependência dos Correios em Setúbal, a um restaurante de Carcavelos e a dois postos de combustível (Seixal e Costa da Caparica), também hoje ocorridos, devemos andar perto do antigo faroeste. Independentemente das leituras que se façam e da demagogia a que tudo isto se preste, são demasiados assaltos à mão armada para que se possa considerar que estamos perante uma situação normal, como pretendem as autoridades. Pior: dizer-se que o aparente aumento do mediatismo na cobertura dos assaltos pode contribuir para o aumento da criminalidade, uma «verdade» que carece de demonstração, é desconversar. Goste-se ou não, os media fazem, no caso, o papel que lhes compete, e o papel que lhes compete inclui questionar as autoridades. Já as autoridades, parecem mais interessadas em chutar para canto.
O PACTO. Marcelo Rebelo de Sousa resolveu propor um «pacto de unidade» aos militantes do PSD. Assim dito, e dito por quem foi dito, a coisa não soa mal. Acontece que a proposta tem que ser vista pelo lado mais prosaico, e vista por esse lado significa que Marcelo mandou calar a oposição à liderança do PSD. O que não se diria de Menezes caso fosse ele o líder e um dos seus colaboradores tivesse o desplante de aconselhar um «pacto de unidade».
LER FAZ BEM À SAÚDE (19). A decepção Ferreira Leite, por João Miguel Tavares. O rapaz de Boliqueime visto pela rapariga de Lisboa, por Carlos do Carmo Carapinha.

25 de agosto de 2008

ESTRATÉGIA SUICIDA. É um facto que a «estratégia do silêncio» posta em prática pela líder do PSD se presta a muitas dúvidas e a algumas críticas. Reduzir as ditas às figuras do costume, pelas razões do costume, assim procurando desvalorizar o que dizem, é, por isso, tapar o sol com a peneira. Como seria de esperar, o anúncio de que Ferreira Leite não tencionava pôr os pés no Pontal prestou-se às mais variadas leituras, evidentemente que nem todas sérias ou inocentes. Mas é um facto que a «estratégia do silêncio» me parece, cada vez mais, insustentável, diria mesmo suicida, apesar dos aplausos generalizados de quem realmente conta no partido. Então a missão da Oposição não é criticar o que vai mal na governação? Não será tarefa da Oposição, nomeadamente da Oposição que aspira ao poder, apresentar alternativas ao que lhe parece não estar bem neste ou naquele sector da governação? Bem podem dizer que Ferreira Leite não gosta de «carne assada» e se recusa a abrir a boca por tudo e por nada que o argumento não convence. O que se torna cada vez mais evidente é que Ferreira Leite não tem feitio para liderar o partido, pois cada vez dá mais a ideia que assumiu o cargo mais por insistência alheia do que por vontade própria. Bem sei que, por vezes, o silêncio basta para alcançar o objectivo, e que se diz de Cavaco que não tinha paciência para as tricas do partido, que terá chegado a tratar com desprezo. Mas o tempo de Cavaco foi outro e já lá vai, e não me parece que o tempo presente se compadeça com silêncios, estratégicos ou não. O tempo presente requer, para já, que o PSD demonstre que é um partido com que há que contar, não um partido com os dias contados. Como, aliás, acaba de dizer Alberto João Jardim, quando defende a criação de um partido capaz de fazer «oposição a sério», e Pedro Passos Coelho, quando diz existir a ideia de que «o Governo está à solta», que «faz o que quer».

21 de agosto de 2008

STRAND. Más notícias para quem gosta de livros e de alfarrabistas. A Strand da Fulton St. (Strand Annex) vai encerrar as portas em finais de Setembro. Até lá, tudo a metade do preço. A última vez que lá estive, há coisa de três semanas, comprei meia dúzia de livros por menos de vinte dólares, entre eles A History of Reading, de Alberto Manguel, que noutro lado custaria mais que todos eles juntos.
LER FAZ BEM À SAÚDE (18). As referências na criação, por António Barreto.

20 de agosto de 2008

NÃO HÁ PACHORRA. Parece que o falhanço olímpico dos nossos atletas se deveu ao facto de os responsáveis terem prometido medalhas, e não deviam. Se logo à partida tivessem dito que não havia esperança de qualquer pódio, que as sete dezenas de atletas iam à China, apenas, para competir, não estaríamos, agora, a falar de falhanço. Ora, que outra coisa seria razoável pedir-lhes que não fosse medalhas? Alguém acredita que o Governo os apoiou, ao que parece generosamente, em troca de nada? Não havia objectivos traçados para os nossos compatriotas quando lhes passaram o cheque? Por que não se calam?
PRATELEIRA. Para quem, como eu, não tem acesso à versão impressa da revista Ler, a Prateleira veio mesmo a calhar. Vão lá e divirtam-se com a entrevista de Carlos Vaz Marques a Margarida Rebelo Pinto.
LER FAZ BEM À SAÚDE (17). Blog, por Francisco José Viegas.

19 de agosto de 2008

CRIME. Foi o crime que tomou conta das notícias, ou foram as notícias que tomaram conta do crime? Como já vi questionado não sei onde, o caso presta-se, de facto, a algumas dúvidas. Já agora, outra coisa sobre os casos do BES e de Loures: é fundamental que se questione o comportamento das forças de segurança sempre que elas atiram a matar, até para ficar claro que fizeram bem o que lhes competia. Questionar as forças de segurança nos casos como os do BES e de Loures não pode ser visto, apenas, como um reparo à actuação das forças de segurança. As dúvidas, mesmo as dúvidas desonestas ou pouco fundamentadas, são, nestes casos, muito saudáveis, e sempre bem-vindas.
OS FACTOS. Pois é, mas os atletas portugueses nos Olímpicos de Pequim não tiveram, segundo os próprios, falta de meios para a sua preparação. Antes pelo contrário. Ainda segundo eles, houve muito dinheiro do Estado. É só inteirar-se dos factos, meu caro Daniel.

15 de agosto de 2008

LEITURAS. Eu sei que devem andar para aí afogados em leituras, mas não resisto a transcrever esta passagem de Cardoso Pires, mais precisamente uma passagem de Lidoro Silva, dito o Ganso, publicado na colectânea de crónicas A Cavalo no Diabo:
Ainda hoje quando passo na Praça do Chile estou sempre à espera de o ver à porta da Antiga Adega dos Perus a meditar os horizontes. Era alto e triste, altíssimo. Tão comprido e tão ossudo que já tinha o esqueleto hipotecado a uma fábrica de botões, disse uma vez o patrão da Adega em tom de subentendido.
Heliodoro, de seu nome oficial, nascia a prumo duns sapatos cheios de nós e terminava em arco, num pescoço de ganso de olhos compungidos que lhe davam uma certa solenidade magoada. Tinha modos respeitosos, mesmo no levar o copo à boca, e falava grave e baixinho como se estivesse num funeral. Na verdade, Heliodoro andava aos mortos, vivia disso. Mas sonhava com mariscos — duas coisas que não ligam lá muito bem.
Começava o dia com o jornal aberto na secção da Necrologia, à procura de falecidos de altas cruzes: juízes, beneméritos, almirantes de longo curso, comendadores, gente assim. Tomava notas da biografia daquele que lhe tocasse mais na alma e, com dois jeitos na gravata preta, apresentava-se em casa da família enlutada como um apagado e saudoso protegido do defunto. Com pesar e desamparo, recordava um ou outro acontecimento apanhado na biografia do jornal e se naquela casa os ares estavam razoavelmente enevoados pela dor, era mais que certo que saía de lá com uma recordação do ente querido: sapatos, peças de roupa, uma bengala de castão de prata, o que calhasse.
LER FAZ BEM À SAÚDE (15). Crestomatia de frases características da participação portuguesa nos Jogos Olímpicos, por Carlos do Carmo Carapinha. Pontal? Onde é isso?, por João Marques dos Santos. Os herdeiros de Estaline, por Pedro Correia.

14 de agosto de 2008

ORA BOLAS. Então não querem lá ver! Estávamos nós a ter uma excelente prestação nos Olímpicos de Pequim, e vem uma égua e estraga tudo. É pô-la a ver o YouTube, que diabo.
MÉDICOS. Se o regime de exclusividade que o Governo pretende impor aos médicos que trabalham no SNS terá como consequência «um novo êxodo de médicos para o sector privado», a pretexto de que o sector privado paga melhor e oferece condições de trabalho que o sector público não oferece, por que razão ainda há médicos no sector público? Porque há «uma minoria» que, por «resistência ideológica», insiste em manter-se «estoicamente ao serviço do Estado», como diz, no Público, o médico Pedro Afonso? Imagino que haverá uma explicação fundamentada para opor à intenção do Governo, mas esta não é com certeza.
MANIPULAÇÃO. Que Pequim tenha manipulado as imagens da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de modo a «projectar uma imagem perfeita» em nome do que designa por «interesse nacional», não surpreende. Surpresa é constatar-se que só agora se descobriu a aldrabice, apesar dos milhentos jornalistas que por lá andam a cobrir o evento. É que a notícia, agora, não tem um décimo do impacto que teria caso fosse divulgada na altura própria.

12 de agosto de 2008

UMA TRAGÉDIA. É fácil e barato fazer juízos de valor sobre a actuação das forças de segurança em situações-limite como a que se verificou no assalto a uma agência bancária de Campolide e a que ontem ocorreu em Loures, de que resultou a morte de uma criança. (Carregue aqui para ler o resto)
LER FAZ BEM À SAÚDE (14). Publicidade enganosa, por Pedro Sales. O escritor, por Rentes de Carvalho.

11 de agosto de 2008

GNR. Está visto que não se pode gabar o trabalho dos «agentes da autoridade». É que ainda agora andávamos a elogiar o desempenho da PSP no assalto a uma agência do BES, e já a GNR nos vem dizer que matou uma criança.
LER FAZ BEM À SAÚDE (13). Mudar de assunto, por Alberto Gonçalves. O 'Magalhães', por João Miranda.

8 de agosto de 2008

PC. É provável que o sr. Vilarigues tenha motivos para questionar os critérios jornalísticos dos media quando estes ignoram eventos organizados pelo Partido Comunista como a Festa da Alegria, que ele considerou «o maior acontecimento político-partidário do fim-de-semana de 19/20 de Julho» e a que os media, pelos vistos, não ligaram pevide. Mas daí até concluir que «estamos claramente perante uma formatação de procedimentos para com quem não alinha no pensamento único», só por ignorância ou má-fé. O que sugere o sr. Vilarigues que se faça para alterar o que considera uma conspiração «que vem de longe e se tem refinado ao longo dos anos»? Que os directores dos media passem a ser nomeados pelo Comité Central do Partido? E, já agora, quem é o PC para dar lições sobre o pensamento único?

6 de agosto de 2008

UMA NO CRAVO. Escrevi, há uma semana, que o anúncio da devolução do Estatuto dos Açores à Assembleia da República não me pareceu motivo para o Presidente Cavaco interromper as férias e fazer uma comunicação ao país. Não disse na altura, mas digo agora: o secretismo que rodeou o acontecimento foi, também, escusado, pois o secretismo só podia prestar-se a exercícios de adivinhação e especulações desenfreadas. Posto isto, as críticas de Mário Soares à comunicação de Cavaco, no DN de ontem, merecem, igualmente, reparo. Essencialmente por uma razão: o ex-presidente da República começou por dizer que a intervenção de Cavaco foi «muito infeliz» (a maioria dos portugueses preparava-se para ir de férias e «esquecer (...) os problemas graves e complexos que os esperam no regresso», escreveu Mário Soares), e porque o ex-PR terminou o «raciocínio» dizendo que Cavaco deveria ter falado de assuntos «mais importantes». Ou seja, Mário Soares acha que os portugueses não deviam ser incomodados nesta altura do ano, mas depois acha que já se justificaria o incómodo caso a comunicação ao país fosse para lembrar aos portugueses o custo de vida, as crises energética e financeira, o desemprego e a corrupção, o descrédito da justiça e a paralisia em que está mergulhada a Europa, «e tantos outros problemas que os portugueses sentem na carne». Resumindo, Mário Soares deu uma no cravo, e outra na ferradura. Pior: segundo o Público de hoje, Soares vetou o mesmo Estatuto dos Açores durante o seu primeiro mandato em Belém, considerando então oportuno fazer uma comunicação ao país sobre o assunto. Foi em Setembro, como lembrou Mota Amaral, com hino e tudo.

5 de agosto de 2008

LIVRO. Não sei bem o que é um bom livro para ler no Verão (ou nas férias), mas presumo que é um livro «leve», que se lê sem grande esforço. Assim sendo, recomendo The Rum Diary, de Hunter S. Thompson, que um dia destes descobri por acaso e me levou a adquirir, de imediato, a que julgo ser a única biografia que sobre ele se escreveu (Outlaw Journalist: The Life and Times of Hunter S. Thompson, de William McKeen), que também recomendo.
LER FAZ BEM À SAÚDE (12). Olá, eu chamo-me João e gosto de futebol, por João Miguel Tavares. Supressão de provas, por Desidério Murcho (a pagantes). Blog, por Francisco José Viegas.
CORRUPÇÃO. Mais valia encerrar já o assunto, pois sempre se pouparia dinheiro e vexames.

4 de agosto de 2008

JORNAIS. Nunca vi sites de jornais que funcionassem tão mal como os sites dos jornais portugueses. Falo dos jornais principais (Expresso, Público, DN), e o mais surpreendente é constatar-se que os problemas se arrastam há anos. Refiro-me, essencialmente, aos problemas técnicos, que por vezes impedem o acesso ao conteúdo. Haverá uma explicação para o que se passa? Se há, seria bom que a dessem. Até porque em alguns casos o acesso é pago, pelo que o mau funcionamento prejudica os assinantes.
LER FAZ BEM À SAÚDE (11). Na morte de Soljenitsine, por Pedro Correia.