9 de novembro de 2005

Que me desculpe o autor, que me desculpe a revista onde foi publicada, que me desculpe quem se sentir lesado por outra razão que eu não vislumbro, mas a crónica de Ferreira Fernandes na Sábado da semana passada não pode limitar-se aos leitores daquela publicação. Até porque os bombistas suicidas voltaram a fazer das suas, desta vez na Jordânia, onde já se contam 67 vítimas mortais. De maneira que, com a devida vénia, aqui vai:

Hassan, o maldito

O título chamava-lhe “Hassan, bombista suicida”. Mas era um bombista assassino. Como é evidente, o termo bombista suicida apaga o essencial: os outros


Ferreira Fernandes

Sábado
de 4 de Novembro de 2005

Fotos dramáticas em toda a imprensa inglesa - a mais dolorosa estava no
Guardian. Morreu Best Mate, o triplo campeão da Cheltenham Gold Cup. Olhos esbugalhados, patas direitas dando de si, enquanto o jockey, que lhe adivinhou a agonia, saltava da sela e tentava segurá-lo. Em vão, era o fim de uma lenda, o mais amado dos cavalos da Grã-Bretanha. Best Mate caiu como viveu, durante uma corrida, em Exeter.

De um animal admirável, passo para uma cavalgadura: Hassan, palestiniano de 20 anos que também morreu há dias. Mau gosto na comparação? Não, simples tentativa de procurar uma certa equidade. É que a Hassan lhe desembarcou uma reportagem do
Público lá em casa (publicada a 31 de Outubro, de autoria de Alexandra Lucas Coelho). Nela, fiquei a saber que, no dia da sua morte, Hassan foi gentil com a mãe. Esta minha crónica é para chamar bandido a Hassan. Que ganho eu com isso? Acalmo uma úlcera no estômago.

Naquela quarta-feira, Hassan acordou às quatro da manhã, quando o
muezzin da mesquita vizinha lançou o primeiro apelo à oração. Cito o Público:

“Não queria que eu me levantasse para lhe dar de beber e comer”, lembra Ruqaia [a mãe]. “Disse que se arranjava sozinho.” Mas Ruqaia levantou-se e foi fazer chá. “Ele não quis beber nem comer nada. Disse que não tinha fome. Estava bem-disposto, a brincar. Despediu-se e foi embora.”


No jornal, há uma foto dele, imberbe, por trás de uns óculos escuros. Pode ser só moda de adolescente, mas eu sei que não é assim: aquilo é canalha que se esconde. Nova grosseria minha contra um jovem que acaba de morrer? É, confesso que sinto vontade de ofender, e vontade nenhuma de ser sereno e avisado. Dou o flanco? Seja. Tudo menos passar por leitor que leu e aceitou.


Sim, Hassan é assunto. Ir a casa dele e contá-la com a morte dele tão presente é assunto. Mas, deixem-me dizer, quando Hassan ocupa uma página de jornal só tenho paciência para “esta adolescente de
T-shirt branca, jeans, rabo-de-cavalo e sardas, que agora se ajoelha na alcatifa com um priminho bebé, olhos transbordantes, os mesmos traços finos que se vêem no sorridente retrato de Hassan” que é a irmã de Hassan, só tenho paciência, pois, para sardas e olhos transbordantes quando o essencial me for contado. O que importa em Hassan não é a sua simpática família, mas o facto de ser um assassino.

Não que o amor paternal do dr. Joseph Goebbels pelas suas filhas de tranças louras não seja também assunto. Mas seria indecente que a memória do chefe da propaganda nazi fosse só essa. Na mesma medida me incomoda que eu saiba tanto sobre o humor de Hassan - “fazia-nos rir” -, a normalidade dele - “era um rapaz normal, brincava com as crianças da família...” - e tão pouco da maldade dele. Sobretudo, enoja-me que os seus reconheçam que ele tenha conseguido aquilo que queria: “Foi para Deus.” Seja lá o que for isso, isso era o que ele queria. Pelos vistos, conseguiu.


Poderia ser esta história de um parvo, se ele fosse só suicida (como no título da reportagem:
“Em casa de Hassan, 20 anos, bombista suicida”). Se era isso que ele queria, por mim, tudo bem. Mas acontece que ele foi, na verdade, um bombista assassino. Não é o termo “bombista suicida”, transportando toda a importância só para Hassan, indecente? Não se apaga assim o essencial: os outros?

Os outros eram 36. Seis mortos e 30 feridos. Naquela quarta-feira, nenhum deles se despediu da mãe, amigo, mulher ou filho, sabendo ao que ia. Não tiveram a oportunidade, que teve Hassan, de ditar o seu destino. Hassan sabia e queria o que lhe aconteceu. Aos outros aconteceu o que não esperavam e alguns deles nunca virão a saber o que lhes aconteceu.


Os outros eram 36. Seis não têm a família com esse sossego de os ver ter aquilo que escolheram. Eles simplesmente escolheram ir a um mercado em Hadera - onde estava Hassan e a sua ideia de camelo de que Deus gosta de mártires. Os outros 30 estão no hospital, marcados para a vida. Uns cegos, outros amputados, vidas rasgadas.


Se não fosse o menino da sua mãe, o irmão da sardenta, o brincalhão com crianças da família, 36 pessoas - professores, bancários, reformados, desempregados - continuariam a ser qualquer coisa que eles, os seus, o acaso, a vida quisessem. Mas não, o assassino quis que eles passassem a ser para sempre isto: aqueles que, naquele momento, estavam mais próximos de Hassan.


Essa foi a primeira vitória de Hassan sobre os 36. Tão importante e definitiva que era escusado ser-lhe emprestada mais outra vitória. Mas, na verdade, ele teve outra: fiquei a conhecer o nome de Hassan. E não sei o nome de nenhum dos que foram escondidos atrás de um numero, o 36.