12 de novembro de 2013

O JUMENTO. «Você passa a vida a ler», diz-me o jumento que se senta a meu lado sem me pedir licença. «Olhe que de vez em quando é preciso espairecer, que estar sempre a ler não faz bem a ninguém», prosseguiu. Interrompo a leitura para o aturar, porque não vou fazer uma cena no restaurante, e inicio uma conversa de circunstância ignorando o que disse. O jumento responde vagamente a uma pergunta que lhe faço, mas não desarma. «Não me lembro de o ter visto uma única vez sem um livro na mão» — e eu, que já desconfiava, fico com a certeza de que me está a acusar. Não satisfeito, arrebata-me o livro das mãos, olha a capa e a contracapa, folheia rapidamente (talvez à procura de ilustrações), e depois quer saber de que trata. Encho-me de paciência e apelo à misericórdia que há em mim, e procurando pôr fim à conversa o mais depressa possível digo-lhe que o assunto é demasiado complexo para que lho possa resumir em poucos minutos — e volto a tentar, em vão, encerrar o assunto. O sujeito abespinha-se, garante-me que também ele lia muitíssimo quando tinha tempo e só não continua a fazê-lo por razões que nem vale a pena enumerar, e que se eu for capaz de lhe explicar ele certamente compreenderá. Aqui chegado, confesso que já me sinto capaz de lhe enfiar o livro nas ventas, mas faço um último esforço. Começo a explicar-lhe o que de antemão eu sabia não lhe interessar, e ainda a explicação não ia a meio já o sujeito mudava de assunto. Hoje estou convencido de que o remédio mais eficaz para casos destes é complicar a explicação logo no início. É que, assim, não se perde tanto tempo com explicações inúteis, e trata-se o jumento como ele realmente é.