5 de maio de 2026

ALMADA E AS CHOURIÇAS. A Invenção do Dia Claro, de Almada Negreiros, começa assim: «Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.» E acrescenta logo a seguir: «Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.» Guardadas as devidas distâncias, também eu fico angustiado diante um cenário de chouriças e alheiras sobre uma lareira. Não por falta de tempo, como Almada, mas de barriga para tanto.
TORTURA. Não se pode confundir a árvore com a floresta, diz-se a propósito dos casos de tortura em esquadras de polícia hoje conhecidos. Acontece que têm vindo a surgir cada vez mais casos destes, e quando vêm a público descobre-se que já existiam há anos — e ninguém acredita que esse desconhecimento público não tenha contado com a cumplicidade de outros agentes que não fizeram o que deviam: denunciar essas práticas. Sem querer tomar a parte pelo todo, quantos casos como os de hoje existirão no país? Arrisco dizer que muitos, embora um só já seja demais.