O CRIME COMPENSA
Se já não é, a justiça portuguesa está a caminho de ser um caso de polícia. Os exemplos são incontáveis e há-os para todos os gostos: incompetência, prepotência, ajustes de contas, escutas telefónicas sem que se perceba porquê, denúncias anónimas sopradas para a imprensa amiga com propósitos inconfessáveis e sempre em momentos suspeitos, processos distribuídos a juízes ao arrepio das regras e um longo etcétera. Vale a pena recordar uma notícia do Público de 2022 que dava conta do resultado de um inquérito aos magistrados sobre a avaliação que faziam de si próprios. Ficou a saber-se, entre outras coisas, que um em cada quatro juízes acreditava haver corrupção na justiça — «a troco de dinheiro, vantagens não monetárias ou outros favores».
Tudo isto há muitos anos, sem nunca haver punições, e se alguma coisa mudou foi para pior. Vejam-se as megaoperações, que se anunciam sempre com estrondo e estrondosamente acabam — quando acabam — em nada. E por que motivo — ou motivos — assim acontece? Para não variar, sempre pelos mesmos do costume. Desde logo porque a máquina da justiça parece mover-se em roda livre, em que cada um faz o que lhe apetece, como lhe apetece, quando lhe apetece. Depois, porque os políticos eleitos não têm coragem de fazer o que é preciso fazer, porque isso lhes traz perdas de votos.
Soube-se agora que o almirante Gouveia e Melo, candidato a presidente da República, está a ser investigado pelo Ministério Público (MP) por alegadas irregularidades cometidas quando era comandante da Marinha. Segundo a Sábado, a investigação do MP está em curso desde 2021, pelo que a revelação feita agora, a escassos dias das eleições, como sempre a coberto do anonimato, é mais que suspeita. Por que só agora o MP entendeu revelar, ainda por cima de forma criminosa, o que entendeu revelar? Constituindo um crime a revelação pública do que está em segredo de justiça, não se pode dizer que tenha sido uma coincidência, e se foi seria mais uma a somar a tantas outras igualmente suspeitas.
Devo acrescentar que Gouveia e Melo não é, nunca foi, o meu candidato à Presidência, e espero não ter que votar nele por falta de alternativa. O que agora digo sobre a sacanice de que foi vítima di-lo-ia fosse outro o candidato. Em causa está, de novo, a intromissão da justiça na política, promovendo julgamentos na praça pública, corroendo as instituições e a democracia sem que ninguém seja punido por isso. Para a justiça, incapaz de se emendar e de ser emendada por quem devia, o crime compensa.
