15 de fevereiro de 2006

Não será caso para pedir uma avaliação das faculdades mentais, como o deputado da Madeira, mas não há dúvida que esta senhora está com um problema de saúde.

14 de fevereiro de 2006

Consta que o embaixador do Irão em Lisboa elogiou o comportamento do ministro Freitas do Amaral por este ter dito «coisas muito positivas e muito lógicas» acerca do episódio das caricaturas. Consta, ainda, que Mohammed Taheri terá dito que «há muito por contar» sobre o Holocausto, pois as suas contas sobre o assunto dizem-lhe que «para incinerar seis milhões de pessoas seriam precisos 15 anos». Consta, por último, que a ilustre criatura perguntou ao primeiro-ministro dinamarquês: «Que liberdade é esta que vocês têm que vos permite dizer o que querem de outros santos de outras religiões?» Infelizmente não consta que alguém lhe tenha dito que é a mesma liberdade que lhe permite dizer estas e outras baboseiras sem que nada lhe aconteça.
Quando é que o futebol pacifica as relações entre povos? Alguma vez Freitas do Amaral entrou num estádio ou ouviu um adepto? Esteve atento ao funesto episódio que atingiu, há dias, o treinador do Porto? De momento, a pior coisa que poderia acontecer ao Ocidente e ao Islão seria um jogo de futebol. Como as coisas estão, duvido que as equipas acabassem o jogo inteiras.

13 de fevereiro de 2006

O ministro dos Negócios Estrangeiros resolveu dizer que Portugal «lamenta e discorda» da publicação dos cartoons sobre o profeta Maomé e não dizer uma palavra sobre a violência daí resultante. Acusado de falta de solidariedade para com o parceiro europeu e de não ter condenado a reacção islâmica, Freitas do Amaral disse que não compreenderam bem o que ele tinha dito, e que a coisa até lhe dava vontade de rir. Agora, o ministro acha que o Ocidente tem sido o «maior agressor» do mundo islâmico, e que uns joguitos de futebol entre árabes e europeus talvez acalmem os ânimos (sobretudo se os segundos facilitarem a vida aos primeiros, presumo eu). Como já toda a gente disse e repetiu, o ministro dos Negócios Estrangeiros fez asneira atrás de asneira. O que inicialmente parecia um lapso (imperdoável, mas um lapso), confirma-se todos os dias que não foi. O homem pensa assim mesmo, e não há nada a fazer. Só não percebo que haja quem se interrogue se Freitas do Amaral disse o que disse em nome pessoal ou em nome do Governo. Afinal, desde quando um ministro tem opiniões políticas pessoais?
Concluída a leitura de O Caso Morel, apetece-me deitar pela janela meia-dúzia de livros que aqui tenho.
Comprendes?

9 de fevereiro de 2006

Bastava que o Islão dito moderado (e supostamente maioritário) se levantasse nos sítios onde pode levantar-se (na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo) e se demarcasse dos distúrbios por causa dos cartoons para acalmar a fúria fundamentalista. Isto no caso de haver um Islão moderado, bem entendido, pois está por demonstrar que existe um Islão moderado. Aliás, está por demonstrar que o Islão é uma religião de paz.
Gostava de ter escrito este post.
«Quem vê as torres gémeas cair e os comboios de Madrid a arder e continua a pregar a "compreensão" do outro não é, obviamente, merecedor de qualquer respeito. O ódio de tantos ocidentais à civilização a que pertencem é um dos fenómenos mais fascinantes e deprimentes do mundo de hoje. São esses os ocidentais que passam o tempo a recensear horrores no Ocidente, ao mesmo tempo que "compreendem" os horrores alheios, em nome da sua "especificidade" cultural.» Luciano Amaral, DN
«O desiderato liberal de que hoje desfrutamos custou muito sangue, suor e lágrimas e é um dos bens mais inestimáveis da nossa civilização. A sua defesa não se compadece com posições equívocas e é, por isso, lamentável assistir ao desfile de ambiguidades de políticos timoratos.» Mário Bettencourt Resendes, DN
«Pedir desculpa pela emissão de uma opinião livre publicada num jornal europeu será pedir desculpa pela Magna Carta, por Erasmo, por Voltaire, por Giordano Bruno, por Galileu, pelo laicismo, pela Revolução Francesa, por Darwin, pelo socialismo, pelo Iluminismo, pela Reforma, pelo feminismo.»

7 de fevereiro de 2006

Sempre que se comete um atentado em nome do Islão, logo se diz que foi obra de fundamentalistas. Ora, como estou convencido de que grande parte dos não muçulmanos não distingue o Islão radical do Islão moderado, presumo que se tenda a julgar os segundos iguais aos primeiros. Pior: tende-se a julgá-los a todos como radicais, no mínimo potencialmente perigosos. E porquê? Porque os ditos moderados só se demarcam de atentados e afins se um jornalista lhe meter um microfone à frente a perguntar-lhes o que pensam dessas práticas. Caso assim não seja, ficam calados e caladinhos. Na melhor das hipóteses, não se ouvem as suas vozes. Quer isso dizer que os ditos moderados condenam pela frente o que por trás aprovam? Se não é assim, parece.
O episódio da censura à actuação dos Rolling Stones no intervalo da final do campeonato americano de futebol — o Superbowl — foi duplamente ridículo. Ridículo porque a organização do evento não deveria ter contratado uma banda que já se sabia que proferia obscenidades que não estava disposta a tolerar, e ridículo porque os Stones se sujeitaram à censura.
O Daniel Oliveira quer convencer-nos de que a reacção dos muçulmanos quando alguém ofende a sua religião é semelhante à reacção dos judeus ou cristãos quando alguém se mete com a religião deles. Acontece que não é. Os judeus e cristãos não destroem embaixadas nem apelam à morte de quem se mete com o deus deles. E isto, que ele finge ignorar, faz toda a diferença.
Razões de força maior arredaram-me do blogue durante uns dias. Do blogue e das notícias — que não li, que não vi, que não ouvi. Confesso que já tinha saudades deste vício diário. Sim, descobri que blogar é um vício, provavelmente mais maléfico que benéfico.

1 de fevereiro de 2006

A sensação com que fico após assistir à polémica da crítica literária é que ninguém faz fretes a ninguém, que não há capelinhas ou arranjinhos, que não se fazem omissões deliberadas ou se sobrevaloriza quem não merece. Mas devo dizer que o facto de os críticos se pronunciarem sobre os livros dos amigos — a questão que está no centro desta polémica — nunca me perturbou, até porque nunca soube quem é amigo de quem. Os meus problemas com a crítica literária (sim, também eu tenho problemas com a crítica literária) são os argumentos (quase sempre fraquinhos ou incompreensíveis) usados pelos críticos para defenderem este ou aquele livro. Que me falem bem do livro do amigo ou mal do livro do inimigo, é-me indiferente. O que eu quero realmente saber é o que pensam dos livros e com que fundamento. É que eu estou farto de críticas literárias que não dizem rigorosamente nada sobre os livros que é suposto criticarem, e de críticas que defendem uma ideia que os exemplos contrariam. São tantos os exemplos do que digo que sempre que ouço falar de crítica literária me vem logo à memória García Márquez quando, instado por um jornalista brasileiro a dizer o que pensava acerca dos críticos que analisavam a sua obra, respondeu deste modo: «A mi me gustan mucho los críticos, principalmente quando jugan fútbol.»
Provavelmente haverá razões para condecorar Bill Gates e achar que Portugal vai ganhar com o investimento da Microsoft, mas a atenção que está a ser dada à visita a Portugal do homem mais rico do mundo chega a ser provinciana. Bill Gates terá mais importância do que muitos presidentes da República, mas o comportamento dos políticos portugueses chega a ser terceiro-mundista.
«Derrota empírica»? Por amor de deus! Isso de Cavaco Silva ter ganho as eleições mas não ter ganho com a margem que não sei quem estava à espera — e, agora, por menos não sei quantas décimas do que foi anunciado — é muito mais do que mau perder: é ridículo.