21 de janeiro de 2008
Dizer-se que o ministro da Saúde se riu com a morte do bebé de Anadia, como disse Santana Lopes, não é demagogia: é uma baixaria inqualificável. Arreiem no ministro da Saúde as vezes que quiserem e pelas razões que entenderem, que certamente oportunidades não faltarão — e motivos ainda menos. Mas descer ao nível que desceu o líder parlamentar laranja, só mesmo de quem não tem nível.
18 de janeiro de 2008
Ficou por demonstrar que a criança de Viseu morreu devido a uma falha dos serviços de saúde. Quando alguns já se preparavam para decapitar o ministro da Saúde, eis que a realidade deita por terra a tese da falha. Isto fez-me lembrar aquela novela brasileira cujo enredo gira à volta do cemitério que o manda-chuva de um lugarejo mandou construir por achar que se tratava de uma coisa prioritária, e depois o tempo vai passando sem que morra alguém que o justifique. Não, não sei se o Governo está certo ou errado quando manda fechar hospitais. Por aquilo que se vai vendo, numas vezes estará certo, noutras estará errado. Aliás, quando mais argumentos se conhecem dos que são contra e dos que são a favor, menos se percebe. O que se percebe é que há demasiados interesses em jogo, e que os interesses dos utentes são os que menos contam.
Não percebo por que motivo jornais e revistas perdem tempo com notícias acerca das vendas dos ditos. Primeiro, quem, a não ser eles, quer saber disso? Depois, quem precisa realmente desses números (os anunciantes, presumo) certamente que não se fia nas notícias. Por último, lê-se a notícia no DN e concluiu-se uma coisa, e concluiu-se outra após ler o Público (sem link). Sim, a gente sabe que cada um dá a notícia do modo que mais lhe convém e manipula o mais que pode, mesmo sabendo-se que são os mesmos os factos de ambas as notícias. Só que, assim, nunca sabemos quem fala verdade ou quem mente, o que equivale a dizer que não se acredita em ninguém. Aliás, também nunca percebi a (aparente) eficácia de se dizer «em directo», «em primeira mão» ou «em exclusivo» sempre que os jornalistas pretendem passar a ideia de que estão a dar a máxima importância ao que fazem, que foram os primeiros a chegar lá ou os únicos com acesso a informação que mais ninguém tem. Quem são os telespectadores, ouvintes ou leitores que querem saber destas coisas? Quando é que os jornalistas metem na cabeça que estão a falar para os telespectadores, ouvintes ou leitores, e não para a concorrência?
Como toda a gente já percebeu, a lei do tabaco está a tornar-se uma excepção com algumas regras. Depois dos casinos, o director-geral de Saúde anuncia que também as discotecas não precisam de cumprir a lei, naturalmente desde que (há sempre um «desde que») se verifiquem determinados requisitos. Não que me incomode que a lei do tabaco se cumpra, ou não se cumpra. O que me incomoda é que a lei só se aplique ao mexilhão.
Após aturadas pesquisas, descobri, finalmente, um local onde vendem alheiras como lá da terra, e não exagero quando digo como lá da terra. (O resto está aqui.)
17 de janeiro de 2008
E quando a gente aproveitava a paragem do comboio em Carrazedo (ou em Alvações, ou na Povoação, ou no Cruzeiro, ou no Tanha) para matar a fominha nas videiras mais próximas?
16 de janeiro de 2008
Farto de resmungar sem que o ouçam, Alberto João Jardim resolveu dizer que o seu lugar será «ao lado do povo madeirense» caso «o povo madeirense um dia quiser a independência». Claro que isto não significa que Jardim queira a independência, como não se cansa de dizer, e até está sempre a lembrar que foi dos que travou devaneios independentistas. O presidente da Madeira pretende, apenas, dizer que está pronto para essa eventualidade, naturalmente caso o bom povo madeirense assim o deseje. Isto, claro, falando do que parece. Falando do que é, quem acredita na novela da independência? Evidentemente que ninguém, a começar pelos madeirenses, que sobre o assunto nunca foram ouvidos ou achados — nem se lhes conhece a mais leve vontade de se tornarem independentes. Trata-se, apenas, da rotineira chantagem do líder madeirense, que nunca olhou a meios para atingir o que pretende. O problema é que a questão da independência da Madeira pode, a prazo, tornar-se realmente um problema, isto partindo do princípio que o assunto seria um problema. É que isto de andar a agitar a bandeira do separatismo por dá cá aquela palha pode acabar por criar uma real vontade de separatismo, pelo que o aviso de Alberto João Jardim, do género «não digam que não avisei», não cola. Aliás, a verificar-se um cenário de independência, Alberto João Jardim não será visto como o bombeiro que sempre nos quis fazer crer, mas como o seu primeiro instigador.
Vem aí o software que promete monitorizar os trabalhadores que ganham a vida frente ao computador — ritmo cardíaco, temperatura do corpo, movimentos, expressão facial, pressão sanguínea, frustração, stress, por aí fora. A ser verdade, e não há razão para pensar que não é, o big brother já era. (A notícia pode ser lida aqui.)
14 de janeiro de 2008
Deixei de fumar há coisa de sete anos, mas nada contra o tabaco ou contra quem fuma. Digo isto porque os ex-fumadores são, geralmente, os piores inimigos do tabaco, e os mais fundamentalistas. Feita a ressalva, devo dizer que não entendo por que razão os casinos não são abrangidos pela nova lei do tabaco, e cada vez acho mais suspeita a omissão (ou falta de clareza, não sei bem) que permite aos casinos justificar o incumprimento da lei. Aliás, as suspeitas agravam-se quando membros da Direcção-Geral de Saúde admitem que os casinos poderão ficar isentos da lei, a pretexto de que a maioria dos frequentadores dos casinos é fumador. Dêem-lhe as voltas que quiserem e invoquem as leis que quiserem que os cidadãos, nomeadamente os cidadãos que se vêem impedidos de fumar em todo o lado e não frequentam casinos, não vão entender. Nem eles, nem ninguém. O que se entende com esta excepção é que a lei é só para quem não pode ignorá-la.
11 de janeiro de 2008
Não me venham dizer que Hillary tem um problema por ser mulher, ou que, por ser mulher, tem uma tarefa mais difícil que os outros candidatos presidenciais — muito menos que necessite, por esse motivo, recorrer a expedientes pouco dignificantes (a choradeira, por exemplo) para alcançar o que pretende. Poderá, em alguns casos, ter um problema por ser mulher, mas seguramente que noutros ser mulher é um trunfo. Aliás, os especialistas dizem que Hillary venceu as primárias do New Hampshire devido, sobretudo, ao voto das mulheres.
9 de janeiro de 2008
Vital Moreira já tinha avisado: «defender o referendo é defender o insucesso do Tratado». Não surpreende, portanto, a decisão do primeiro-ministro ao não propor a ratificação do Tratado de Lisboa através do referendo, apesar de ter prometido um referendo sobre o assunto no discurso de posse como chefe do Governo. (O primeiro-ministro alega, agora, que a promessa eleitoral então feita se aplicava ao defunto Tratado Constitucional e não ao Tratado de Lisboa, um expediente que, obviamente, não colhe.) E por que razão José Sócrates decidiu não propor o referendo ao Tratado de Lisboa? Por uma razão simples e clara: teve medo que o referendo produzisse um resultado que não lhe conviesse. Bem pode o primeiro-ministro argumentar que proporia a ratificação do Tratado de Lisboa pelo referendo caso a maioria dos países europeus o fizesse que o verdadeiro motivo todos sabem qual é. Bem pode o primeiro-ministro dizer que «nada seria mais fácil e mais conveniente para o Governo do que agendar uma campanha política para um referendo» sobre um «projecto europeu que a maioria dos portugueses apoia» que o motivo está à vista de toda a gente. Mas tudo isto pode ser ainda pior do que parece, como se dá conta neste post.
8 de janeiro de 2008
Não percebo por que razão Inês Pedrosa diz ter «orgulho em escrever no jornal que se recusou a publicar a ignominiosa página de propaganda de Muhamar Khadafi», ao contrário de outros, que não terão resistido a um «chorudo pagamento». Afinal, o anúncio do presidente líbio só não passou despercebido porque foi notícia, e mesmo depois de ter sido notícia duvido que tivesse o impacto desejado. Depois, que dizer de alguns anúncios que se publicam diariamente nos jornais, incluindo no jornal onde escreve, propagandeando empresas «respeitáveis» que toda a gente sabe que não são? Não serão estes anúncios mais nefastos que a propaganda de Khadafi?
7 de janeiro de 2008
Não percebo nada de economia — nem, sequer, o mais elementar. Deve ser por isso, aliás, que não entendo como é possível um banco (o BPI) ser accionista de outro (o BCP), e os accionistas de um (o BCP) pedirem dinheiro emprestado a outro (a CGD) para comprarem acções do primeiro (o BCP). Para complicar, parece que é tudo legal. Para complicar ainda mais, a concorrência não abre a boca, as entidades que supervisionam acham normal, e os principais partidos políticos lutam entre si pelo controlo do que não lhes pertence.
Faz todo o sentido o PC perguntar «em que bases políticas e legais baseou o Governo a opção tomada de aceitar/negociar patrocínios comerciais» nos actos oficiais relacionados com o Tratado de Lisboa, querer saber se «terá havido alguma espécie de favoritismo» do Governo a algumas empresas», e «como foram seleccionadas as empresas e produtos patrocinadores».
4 de janeiro de 2008
Ontem, na Sábado, Pacheco Pereira «meteu-se» com o JN. Não é a primeira vez que o faz, como quem o lê regularmente saberá. E o que fez o JN perante acusações tão graves como esta e esta? Até ver, nada e coisa alguma. A postura do JN tem sido ficar calado e caladinho, presume-se que por uma de duas razões: porque não atribui importância ao que diz Pacheco Pereira, o que ninguém acredita; ou porque o JN tem esqueletos no armário, e acha melhor calar-se.
Em mais uma manifestação de anti-americanismo primário e com a sobranceria a que já nos habituou sempre que fala dos americanos, Daniel Oliveira considera «medieval» o processo de nomeação dos candidatos à Presidência dos EUA. E «medieval» porquê? Infelizmente, não explicou. É que, se explicasse, teria deixado à vista que o método dos americanos é bem mais democrático do que o método utilizado, por exemplo, em Portugal, o que certamente não lhe convinha. Um sistema que oferece aos militantes a possibilidade de designarem o candidato do partido a que pertencem em vez de lhe ser imposto por quem nele manda, como acontece em Portugal e no partido do Daniel, parece-me infinitamente melhor, chame-lhe o ilustre os nomes que quiser. Aliás, há razões para estar ao lado dos americanos sempre que o cavalheiro fala mal deles. É que o Daniel é contra os americanos sempre pelas piores razões, ou por razões que só ele (ou a seita a que pertence) entende como más.
Não percam o Cáucaso (assim mesmo) do Iowa visto pelo vice-presidente do Instituto Transatlântico Democrático. Só um cheirinho: «Rudy Giuliani, o popular antigo Mayor de Nova Iorque que - muito embora tenha obtido um muito modesto sexto lugar, com apenas 3% dos votos - é já apontado pela generalidade dos analistas como o Candidato Republicano com mais hipóteses de vencer o candidato rival Democrata nas eleições de 4 de Novembro». Depois desta brilhante análise, onde a «generalidade dos analistas» garantem que um pré-candidato com um resultado miserável no Iowa é o que se apresenta «com mais hipóteses de vencer o candidato rival Democrata», vale a pena, também, visitar o site do IDT para se perceber melhor esta organização. É que, segundo os seus responsáveis, configura-se de «fulcral importância para a sociedade portuguesa a monitorização dos passos que levarão à eleição do próximo Presidente dos Estados Unidos da América», razão pela qual «se juntam os ingredientes necessários à criação de um elevado nível de pertinência».
3 de janeiro de 2008
Bem sei que a ASAE se presta a anedotas e ódios de estimação, mas a desculpa do seu principal responsável por fumar onde não devia é mais que esfarrapada. Pior: é inadmissível. Primeiro, porque o expediente cheira a esperteza saloia; depois, porque aproveitou a aparente falta de clareza da lei para prevaricar; por último, porque em vez de admitir o erro ainda nos quer tomar por parvos. Evidentemente que o único caminho que lhe resta é demitir-se, ou ser demitido. Isto, claro, se tivesse vergonha na cara, e se estivéssemos num país onde as regras se cumprem.
2 de janeiro de 2008
Se António-Pedro Vasconcelos «tem o raro mérito de produzir filmes de que o público gosta e que são sucessos de bilheteira», como diz Rui Moreira no Público, porque há-de o cineasta necessitar de apoios do Estado? Diz mais o Presidente da Associação Comercial do Porto sobre as benesses do Estado: os subsídios ao cinema devem ser atribuídos por «critérios políticos», e não «através de critérios pretensamente estéticos». Ora, o que quer ele dizer exactamente com os «critérios políticos»?
«O caso Maddie deixou mal os nossos polícias e os jornais ingleses», diz o Pedro Mexia. Ora, e os jornais portugueses? Não se portaram os jornais portugueses tão mal ou pior que os ingleses? Não andaram os jornais portugueses a defender teses que, afinal, não se confirmaram?
28 de dezembro de 2007
Nada surpreendente a posição de Vital Moreira face à eventualidade de um referendo ao Tratado de Lisboa. Surpreendente só os argumentos e, vá lá, a frontalidade com que os defende, embora os argumentos por si só não convençam ninguém, e a frontalidade também possa ser vista como falta de vergonha. Acha o professor de Coimbra que «defender o referendo é defender o insucesso do Tratado», pois está convencido de que o documento será rejeitado caso haja referendo. Avança, ainda, outro motivo: a mobilização dos partidários do «não» dar-lhes-ia um peso «desproporcionado» no conjunto dos votantes. Temos, assim, que o cavalheiro é contra o referendo porque o resultado não lhe convém, um gesto que se saúda pela frontalidade mas que demonstra bem a sua (pouca) estima pela democracia. Depois, Vital Moreira acha que, a haver referendo, os partidários do «não» teriam um peso «desproporcionado». Ora, como sabe ele que os partidários do «não» teriam um peso «desproporcionado»? Possui algum mecanismo que lhe permita saber antecipadamente os resultados do referendo, ou leu nos astros?
26 de dezembro de 2007
Há uma lista de pessoas a abater na noite portuense, garantiram, há meses, seguranças e polícias ao Correio da Manhã. Por aquilo que se vê, não se duvida. (O resto está aqui.)
21 de dezembro de 2007
Pacheco Pereira, na Sábado, a propósito das notícias sobre a operação Noite Branca: «(...) o Jornal de Notícias parece ser um jornal do Cazaquistão, tal é a ignorância do que se passa à sua volta. Mas não é, é mesmo do Porto e esse é que é o problema: é do Porto e cala.»
Visto o segundo episódio de O Caminho Faz-se Caminhando, apetece-me fazer dois reparos. Primeiro, as filmagens tresandam a amadorismo (as imagens tremem com frequência, volta e meia vêem-se os operadores de câmara, alguns enquadramentos não lembram ao diabo); depois, não há pachorra para tanto nariz empinado da Clara Ferreira Alves.
19 de dezembro de 2007
Não estava à espera de uma reacção corporativa, coisa com que raramente simpatizo. Mas também não esperava um silêncio tão ensurdecedor, nomeadamente dos jornalistas que andam pela blogosfera, após a notícia de que Alberto João Jardim resolveu processar Baptista-Bastos por causa deste artigo de opinião. Não merece reparo a atitude do presidente da Madeira? Ninguém se indigna? É normal? Confesso que isto me envergonha.
17 de dezembro de 2007
Uma coisa é certa: quanto mais azeda se torna a guerra das polícias, mais evidente se torna a incompetência que por lá vai. Não será por acaso que o PGR resolveu nomear uma «equipa especial» coordenada por uma magistrada de Lisboa, embora a operação da Judiciária do Porto na madrugada de domingo demonstre que o timing da nomeação não podia ter sido pior. Aliás, eu era capaz de jurar que ainda há pouco o director da PJ do Porto admitiu que «a noite do Porto está sem controlo» e, por isso, «é de temer tudo». E que o porta-voz do Comando Metropolitano do Porto da PSP confessou que a situação no Porto «pode piorar nos próximos tempos», e que tem consciência de que as autoridades nem tudo podem fazer. Sim, haverá falta de meios, descoordenação entre as polícias, ausência de comunicação entre quem manda, uma guerra norte-sul. Mas a incompetência está lá, não vale a pena esconder.
Onde é que o DN descobriu que Las Vegas vai ter um museu para homenagear a máfia? Desde quando um museu tem por missão única e exclusiva homenagear o que quer que seja? O Museu do Holocausto também será para homenagear o Holocausto? É só estupidez, ou há ali má-fé? Já agora, o que deu ao Expresso para se dizer orgulhoso do «papel de Portugal na Europa e no mundo nestes últimos seis meses»?
Para quem, como eu, está farto dos «coitadinhos dos professores», recomendo a crónica de João Miranda no DN.
14 de dezembro de 2007
Uma desilusão a nova livraria portuguesa, pelo menos a versão em linha. Uma pesquisa por Vázquez Montalbán, Francisco Coloane e Bioy Casares resultou em cinco títulos do primeiro, e em nenhum do segundo e terceiro. Comparativamente, a Bertrand registou 12, 4 e 6. Na FNAC, uma procura por Vila-Matas deu 11 a 0 à Byblos, e Rubem Fonseca venceu por 16 a 2. Para uma livraria que se apresenta como a maior e mais sofisticada, é pouco. Aguardo, agora, o preço dos portes para o estrangeiro, à hora a que escrevo ainda não disponíveis em linha e obscenos nas fnacs e bertrands. Aliás, não percebo por que são tão caros os portes de correio. É que eu já fiz algumas encomendas na defunta Byblos Art Net (alguma relação com a actual?), e os portes custavam metade.
13 de dezembro de 2007
Impossível ficar indiferente à reportagem sobre o Opus Dei que a Sábado publicou a semana passada. Ele são chicotes, cintos «com espigões de arame», autoflagelação, o diabo (salvo seja) — além do celibato e de os seus membros não poderem conviver com pessoas do sexo oposto, ir ao cinema, ao teatro ou ao futebol, ou de só poderem ler certos livros mediante autorização de «conselheiros». Mas o mais impressionante é constatar-se que os membros da «obra» são, por regra, pessoas instruídas, com plena consciência dos seus actos. Talvez por ser ateu (ou agnóstico, não sei bem), tenho dificuldade em compreender que ainda existam, nos países que tomamos por civilizados, criaturas com acesso generalizado ao conhecimento que se mortificam em nome do que julgam uma vida de santidade, ou lá o que é. Aliás, duvido que o deus por quem se sacrificam, a existir, aprecie tais práticas.
O Maradona limpou o cu à mística. A Rititi não duvida que noventa por cento dos problemas da Humanidade se resolveriam com um par de quecas semanais.
12 de dezembro de 2007
É preciso não esquecer que os atentados de ontem, de que resultaram dezenas de mortos (entre os quais vários funcionários da ONU), foram cometidos pela Al-Qaeda. É preciso não esquecer, também, que o primeiro atentado foi ao pé do Tribunal Constitucional de Argel, e o segundo frente às instalações do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados. «Não há dúvida de que o alvo foram as Nações Unidas», disse António Guterres à BBC. De facto, não há dúvida. Já quanto aos atentados não fazerem «qualquer sentido», como também disse Guterres, bem pelo contrário. Basta olhar para o historial da Al-Qaeda para ver que fazem todo o sentido.
11 de dezembro de 2007
«Não beba o rótulo, beba o vinho», recomenda Mike Steinberger na Slate. Isto, diz ele, porque até os mais reputados enófilos têm dificuldade em não ser influenciados pelo rótulo quando o rótulo impõe respeito, e já Eça dizia que «é o rótulo impresso na garrafa que determina a qualidade e o sabor do vinho» (crónica O Salão, incluída no volume Ecos de Paris). Ora, este saudável princípio devia aplicar-se a tudo em geral, e às artes em particular. Imaginemos os filmes a serem vistos sem se conhecerem os realizadores, a pintura a ser apreciada sem se conhecerem os seus autores, e a música a ser ouvida sem nada se saber da sua proveniência. Imaginemos, agora, as conclusões a que se chegaria, bem como os argumentos para as fundamentar. Havia de ser bonito.
8 de dezembro de 2007
A avaliar pelo relatório de uma Organização Não Governamental, estamos muitíssimo bem cotados no ranking da corrupção. Dois por cento dos portugueses inquiridos admitiram ter pago subornos para obter um serviço, diz o estudo da Transparency International. Não pondo em causa o rigor da investigação, devo dizer que dois por cento me parece pouco. É que basta olhar à nossa volta para se constatar que a realidade ultrapassa — e muito — esse número, e não me parece que a realidade que me rodeia seja diferente dos outros lados. Além disso, falamos de quê quando falamos de subornos? Do fulano altamente colocado a quem passamos um cheque com uma quantia pré-determinada? Do funcionário a quem mandamos um presunto lá a casa por nos ter resolvido um assunto complicado? Da conta do senhor doutor na mesa lá ao fundo? Ou das palmadas nas costas ao amigo ou conhecido antes de lhe pedirmos um favor? É bom sabermos do que falamos quando falamos de subornos. É que, se falamos de suborno em todas as suas variantes, quem nunca subornou que atire a primeira pedra.
Escassos dias após ter admitido a derrota num referendo que o manteria no poder por tempo indeterminado caso tivesse vencido, um gesto muito saudado pelos crentes na «revolução bolivariana», Hugo Chávez, o tal presidente que foi eleito, anunciou novo plebiscito com idêntico propósito. Claro que o presidente venezuelano não cometerá nenhuma ilegalidade caso avance para o acto que anuncia. Aliás, é sabido que o referendo é um instrumento democrático por excelência, e não me consta que na Venezuela haja limites ao seu uso. Assim sendo, nada impede que Chávez o use as vezes que achar necessário até alcançar o resultado que pretende. É que Chávez deve saber que não há nada mais difícil de combater que um ditador «legitimado» pelo povo.
6 de dezembro de 2007
«A Cordilheira dos Andes ergue suas torres de pedra. Nelas, durante séculos, bateram o vento e a chuva. Escorreu lava de vulcão. A neve cobriu tudo e depois desceu, rio veloz, até a planície. E o vento, sempre. Por aí passou Bolívar e seu Exército. Borba Gato e seu Exército. San Martín e seu Exército. As várias bandeiras, nas várias épocas, esfarrapadas. Os homens duros, empurrando os canhões molhados, fustigados pelo vento irredutível, pela chuva gelada, pela noite de mil cristais, pelas madrugadas de escarpas rubras, pelo pânico dos cavalos, pela solidão.» Tabajara Ruas, O Amor de Pedro por João
5 de dezembro de 2007
É possível que a democracia esteja doente, como disse um deputado comunista no Parlamento, mas não deixa de ser irónico o PC ralar-se com a democracia. Afinal, como já foi amplamente demonstrado em todo o lado, incluindo em Portugal, a primeira coisa que o PC faria caso o deixassem seria pôr fim à democracia. Pena é que haja quem não tome a sério a evidência.
3 de dezembro de 2007
É verdade que quem anda à chuva está sujeito a molhar-se. Mas arriscar uma manchete como a do Público, dando como certo um cenário ainda longe de se confirmar, é como jogar a roleta russa. Pedir desculpas pelo sucedido era, de facto, o mínimo que se impunha, mas as desculpas não apagam a péssima imagem que daí resultou.
30 de novembro de 2007
A Sábado fez saber que os deputados portugueses no Parlamento Europeu gostam de ter familiares entre os seus assessores. Segundo a revista, Edite Estrela contratou o genro e a enteada, Capoulas Santos a filha, Manuel dos Santos o genro, Duarte Freitas o irmão, e Sérgio Matos a mulher. Tudo legal, pelos vistos. Já quanto ao mérito destas contratações, que alguns garantem ter estado na base da escolha, há razões para dúvidas, e de ética é melhor nem falar.
A avaliar pela considerável descida de leitores aqui no blogue durante o dia de hoje, a greve da função pública foi um sucesso. Aliás, este método de aferir a adesão à greve da função pública é bem capaz de ser mais certeiro que os métodos utilizados pelos sindicatos ou pelo Governo. Afinal, e para não variar, os sindicatos garantem que a greve rondou os 80%, enquanto o Governo se fica pelos 21%.
29 de novembro de 2007
Sim, a gente ouve falar numa professora britânica condenada a 15 dias de prisão seguida de expulsão do país (o Sudão) por ter autorizado que os seus alunos atribuíssem o nome de Maomé a um urso de brincar, e encolhe os ombros. É assim a cultura deles, a religião por aqueles lados é coisa de vida ou de morte, e podia ter sido pior. Fosse uma mulher de burka impedida de entrar numa escola europeia, e teríamos caso. Como não é, lamentamos — mas ninguém quer saber. A começar pelas feministas, que nestas ocasiões nunca se ouvem. É que, como sabemos, tudo é relativo, e hoje em dia a relatividade tudo explica e desculpa.
27 de novembro de 2007
Fernando dos Santos Neves, reitor da Lusófona, perguntou no DN: «Quem tem medo do Acordo Ortográfico?» Numa prosa manhosa e com partes a requererem segunda e terceira leituras para se entenderem, Santos Neves diz que «os receios e resistências» ao Acordo vêm de «patrioteiros valentões», de quem nunca foi «além de Badajoz», e dos que preferem continuar «orgulhosamente sós». Quanto a argumentos em defesa do Acordo, nem um. Por junto, o reitor limitou-se a dizer que é «inevitável», mas não explicou a sua necessidade. Vindo de quem vem, é pouco.
26 de novembro de 2007
Definitivamente que os técnicos que conceberam as mais recentes maquinetas de leitura não lêem um livro. Não lêem, nem aprenderam nada com os modelos anteriores, em alguns aspectos superiores aos actuais. Por exemplo, qualquer modelo mais antigo possui iluminação interior, possibilitando a leitura em ambientes escassamente iluminados — ou mesmo completamente às escuras. Nenhum dos recentes modelos (Sony Reader e Amazon Kindle) possui esta função. Aliás, como sucedeu com o Sony Reader, o agora lançado Amazon Kindle é mais um modelo falhado. Nem a ligação à Internet o salva — ou, sequer, o torna um concorrente de peso do modelo da Sony. Começa logo pelo design, a roçar o mau gosto. Em vez de aproveitarem ao máximo o espaço com o ecrã, como fez o Sony Reader, quase metade do dito é ocupado com uma infinidade de botões. Pior: à semelhança do Sony Reader, não se percebe a ausência de ecrã táctil, uma tecnologia cada vez mais em uso e que, no caso, faria uma enorme diferença, além de que teria evitado uma infinidade de botões. Mas o mais inacreditável de tudo é constatar-se que os fabricantes destes aparelhos não aprenderam nada com os modelos anteriores. Caso tivessem prestado atenção, teriam copiado o que estava bem, melhorado o que precisava de ser melhorado, e adicionado novas funcionalidades. E foi pena, pois o Sony Reader nunca me satisfez. Como, aliás, já aqui disse.
23 de novembro de 2007
Claro que os jornalistas têm o direito de fazer as perguntas que muito bem entenderem, incluindo perguntas parvas e a despropósito, mas o seleccionador também tem o direito de não gostar delas — e de reagir em conformidade. Não é assim? A avaliar pelas reacções, não é assim. Scolari é detentor de um cargo importante, e principescamente pago para o desempenhar. Deve, por isso, comer e calar, e não fazer ondas. Acontece que os regulamentos não o proíbem de dizer o que pensa, ou de discordar quando achar caso disso. Por muito que custe a alguns, são estas as regras do jogo. Posto isto, devo acrescentar, ainda, que em nenhuma ocasião me senti envergonhado com a postura de Scolari, mesmo quando não se portou como devia. Aliás, duvido que haja um único português que tenha razões para sentir vergonha de Scolari. Afinal, o seleccionador sempre fez o que achou melhor para a selecção, e os frutos estão aí para o demonstrar. Dizem alguns que os resultados não são tudo, que outros valores se levantam. Discordo. Se o seleccionador fosse uma excelente pessoa mas não tivesse resultados, há muito que teria sido despedido. Se a selecção que comanda jogasse bonito mas não alcançasse os objectivos, ninguém hesitaria em crucificá-lo. Como se vê por estes exemplos, a que se poderiam juntar muitos mais, as coisas são o que são. O resto pode ser muito bonito, mas só os resultados é que contam.
21 de novembro de 2007
De facto, não se percebeu a estratégia da Finlândia frente à selecção portuguesa, como lembrou Scolari. Quando seria de esperar que jogasse ao ataque, pois só a vitória lhe interessava, os finlandeses jogaram como se o empate chegasse. Quanto ao resto, safámo-nos. Podíamos ter ganho, mas também podíamos ter perdido. O seleccionador nacional tem razão em reagir da forma como reagiu. Afinal, que mais queremos? Bons resultados e melhores exibições? E por que não exigimos ser os melhores em tudo o resto?
19 de novembro de 2007
O director da PJ afirmou, ao Expresso, que Portugal é «uma boa retaguarda» para os terroristas. «Somos uma boa retaguarda para todas essas pessoas. Somos um sítio de fuga, de esconderijo. Essas pessoas precisam de descansar, arranjar dinheiro e documentos. E nesse aspecto somos retaguarda», disse Alípio Ribeiro. Espera-se, agora, que os terroristas tenham ouvido a mensagem, e que os mais cépticos se tenham finalmente convencido de molde a abalar para o nosso país rapidamente e em força.
16 de novembro de 2007
Como seria de esperar, o veto do presidente americano à proposta de Patrick Kennedy (o congressista propôs que o Governo federal financiasse o ensino da língua portuguesa nos EUA) causou grande alarido. Primeiro, porque a coisa veio de Bush, e vindo de Bush não pode ser coisa boa. Depois, porque a decisão é uma estupidez, e ofende os portugueses. Ora, um pouco menos de patriotismo idiota bastaria para ver a coisa de outra maneira. Por exemplo, o que se diria se o Governo português resolvesse gastar uns milhões de euros a ensinar os ucranianos residentes em Portugal a falar a sua própria língua? Ou a ensinar a escrever chinês aos chineses? Achariam bem? O que faz sentido o governo americano apoiar nos EUA é o ensino do inglês destinado aos emigrantes que têm dificuldades com a língua inglesa, sejam eles portugueses ou não. O resto é uma excentricidade. Uma excentricidade que nos dava jeito, mas uma excentricidade.
Não há dia que passe que os portugueses na Venezuela não sejam notícia pelas piores razões. Ou porque são assassinados, ou porque são raptados, ou porque são acusados de crimes vários. Não sou adepto das teorias da conspiração, mas há demasiadas coincidências para acreditarmos que estamos, apenas, perante coincidências.
Coincidência a tomada de posição do Conselho de Redacção da RTP face ao caso Rodrigues dos Santos precisamente no dia em que se anuncia a saída de Almerindo Marques? Pode ser. Mas por que levou tanto tempo o Conselho de Redacção da RTP a dizer o óbvio?
Independentemente das razões que possa haver para trocar «húmido» por «úmido» ou «facto» por «fato», o que eu gostaria de ver discutido é a necessidade de um acordo ortográfico. (O resto está aqui)
14 de novembro de 2007
Se «Chávez fez os possíveis por encerrar um canal de televisão venezuelano que lhe era desfavorável», diz Rui Tavares, «Juan Carlos não está isento de telhados de vidro». Como se vê, o relativismo serve para tudo, e tudo pretende explicar. Temos, assim, que o cronista do Público não distingue o aprendiz de ditador do rei de Espanha, o que só vem confirmar o velho ditado de que o pior cego é aquele que não quer ver.
12 de novembro de 2007
Pilhas de cartas e manuscritos descobertos após a sua morte revelam que Faulkner nunca abria a correspondência enviada por leitores e admiradores. Ao contrário, as cartas dos editores abria-as com todo o cuidado, não fossem elas conter um cheque e ficar inutilizado. Conrad odiava Dostoievsky por ser russo, e por achar que o autor de Crime e Castigo era louco e confuso. A simples menção do seu nome provocava-lhe ataques de fúria. Isto e muito mais em Written Lives, do espanhol Javier Marías (ignoro se existe tradução portuguesa), acabadinho de me chegar às mãos e que não hesito em recomendar.
9 de novembro de 2007
Não me parece que falte aos portugueses «aquele sentido de pertença comunitária que impede a um britânico, a um alemão, a um canadiano ou a um australiano tirar vantagem pessoal de algo que está ao serviço da comunidade», como diz Miguel Castelo Branco (o post já tem alguns dias mas só hoje o li). O que falta aos portugueses são mecanismos que os obriguem a portarem-se de forma decente, e que lhes dêem com o sarrafo quando se portam mal. É isso o que sucede, por exemplo, nos países que aponta, não por causa do «sentido de pertença comunitária».
8 de novembro de 2007
Não discuto os motivos que levaram os sindicatos a marcar uma greve para o próximo dia 30, pois não estou informado de molde a ter opinião. Mas há um expediente a que os sindicatos invariavelmente recorrem que não acho sério e raramente vejo denunciado: as greves são sempre marcadas para as sextas-feiras, sem dúvida no intuito de convencer os mais cépticos.
5 de novembro de 2007
Que raio de país é o nosso onde se sucedem coisas destas? Claro que a situação de Maria Brandão seria grave mesmo que fosse caso único, mas quando não há semana em que não conheçamos casos destes, deixando adivinhar que muitos mais haverá que nunca chegarão aos telejornais, alguma coisa está muito mal com os organismos que decidem estas coisas. Fez bem o ministro das Finanças em mandar reapreciar o caso da funcionária pública. É que os portugueses precisam de saber que algo está a ser feito para que situações destas não se repitam — e, muito menos, se generalizem. Quanto aos profissionais que decidem estas matérias, o mínimo que se pode dizer é que se esperaria mais profissionalismo. Esperar-se-ia, para começar, que nos explicassem em que pressupostos assentou o veredicto de Maria Brandão — ou, então, que assumissem o erro. Mas não vale a pena ter ilusões. Por aquilo que se viu até agora, é melhor esperar sentado.
2 de novembro de 2007
1 de novembro de 2007
Podem crer que não exagero se disser que já vi analfabetos com teorias mais sofisticadas contra os judeus que as do Pedro Arroja.
31 de outubro de 2007
O Executivo de Sócrates não tem vontade política para mudar a Casa Pia, diz o ex-ministro Bagão Félix. De facto, o processo Casa Pia está à beira de se tornar uma montanha que pariu um rato — se é que já não é. Pior: não só não houve condenados por pedofilia, como continua a praticar-se a pedofilia na maior das impunidades. Houve quem fosse acusado estando inocente? A ser verdade, é grave. Mas onde estão os culpados dos crimes da Casa Pia? Sim, porque houve crimes na Casa Pia, e para haver crimes supõe-se que tenha de haver criminosos. Passados quatro anos sobre a denúncia do caso, eis algumas perguntas que continuam por responder. Mais: há demasiadas perguntas e quase nenhuma resposta. Pelo caminho que as coisas estão a levar, provavelmente continuará a não haver daqui a mais quatro anos. Nem respostas, e talvez já ninguém se lembre das perguntas. Aliás, a estratégia da defesa parece ser essa: deixar que o assunto caia no esquecimento e termine em águas de bacalhau.
30 de outubro de 2007
«O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.» Eça de Queirós pela boca de Afonso da Maia, Os Maias
29 de outubro de 2007
Como nada tenho para dizer, a palavra a quem tem. Por exemplo, ao Francisco José Viegas (O terror em Angola), ao Nuno Crato (O eduquês envergonhado), e ao Joaquim Manuel Magalhães (Derrocada), os dois últimos graças aos bons ofícios do João Gonçalves.
25 de outubro de 2007
Não li Equador, nem tenciono ler Rio das Flores. Por razões que não vale a pena explicar, mas que se devem, sobretudo, ao escasso tempo para leituras, que me obriga a definir prioridades. Tenho, também, discordâncias de fundo com Miguel Sousa Tavares, mas não misturo o que não é misturável. Posto isto, fiquei com vontade de rever os meus planos de leitura e os pressupostos em que assentam as discordâncias com MST depois de ler esta ordinarice disfarçada de crítica. O que terá levado João Céu e Silva a escrever uma coisa tão baixa?
24 de outubro de 2007
Quatrocentas farmácias não cumprem a lei, diz o ministro da Saúde. Reparem bem: não é um cidadão qualquer que faz uma acusação destas, mas o ministro Correia de Campos. Perante isto, o organismo a quem cabe agir nesta matéria (o Infarmed) diz nada saber, e a bastonária da Ordem dos Farmacêuticos diz saber outro tanto. Segundo o Público, o Infarmed garante ter agido em conformidade nos «poucos casos» que conheceu, e a bastonária diz que só conheceu um caso — e que terminou, assegura, devidamente punido. Por coincidência (presumo), no mesmo dia em que o ministro da Saúde divulgou este caso o DN noticiava que um farmacêutico do Porto decidiu vender vacinas «a preço de fábrica» e a prestações, mas logo veio o Infarmed dizer que é proibido. Como se vê, há transgressões e transgressões em matéria de lei. Umas detectam-se rapidamente, mesmo sendo excepções — ou, ao que parece, caso único; outras, sucedendo às centenas, não se conhecem.
Bem pode Jardim Gonçalves assumir a dívida da criação que o BCP está ferido de morte. É que, como se vê com mais este episódio, não há dia em que o BCP não seja notícia, e sempre pelas piores razões. Ainda pareceu que as mudanças na administração pusessem fim à balbúrdia, mas não. Como se constata diariamente, há demasiados problemas por resolver, e adivinha-se que outros surgirão a qualquer momento. Com certeza que não deve faltar por aí quem aproveite para meter o pauzinho na engrenagem mal surja a oportunidade, mas isso não desmente (ou desvaloriza) os factos conhecidos por todos.
Então não é normal que o novo líder da bancada laranja substitua os presidentes das comissões parlamentares por gente da sua confiança? O deputado Matos Correia, um dos afastados por Santana Lopes, acha que não. Segundo ele, «a única motivação para afastar as pessoas dos lugares só pode ser política». Ora, que outra motivação esperaria ele que fosse?
22 de outubro de 2007
Rodrigues dos Santos lançou «um romance que vai abrir os olhos de muitas pessoas para os gigantescos problemas que nos esperam». Segundo ele, «temos de estar preparados para o que aí vem, e só o poderemos estar se soubermos o que se passa». Estar preparado para o que aí vem e saber o que se passa é, no caso, ler O Sétimo Selo, a mais recente obra de Rodrigues dos Santos que, segundo ele, tem a particularidade de ter sido revista pelas «maiores sumidades portuguesas» em aquecimento global e energias renováveis. Disse mais o romancista sobre o miolo do livro: «os cientistas estão em pânico com as alterações climáticas», metade do planeta «vai transformar-se num deserto», e «o cidadão comum não tem noção disto». Temos, assim, que nada disto vai suceder graças ao livro de Rodrigues dos Santos. O cidadão comum vai ficar de olhos abertos após ler o romance, e não custa imaginar que quem for capaz de ler um livro destes sem pregar olho é capaz de tudo. De maneira que, caso não haja imprevistos de maior e a Humanidade não acabar até lá, temos Nobel na próxima colheita.
19 de outubro de 2007
Al Gore e Michael Moore têm uma coisa em comum: ambos se especializaram em documentários ficcionados. (O resto está aqui)
18 de outubro de 2007
O ideal seria que só alguns pudessem viajar, e que todos os viajantes fossem cultos e com cabedais de molde a poderem usufruir das coisas boas da vida. Como há os privilegiados e os outros, e como não é possível varrer da paisagem as hordas de labregos, a vida, às vezes, é uma chatice. Mas mais chato ainda, para mim, é a alergia aos labregos. Leio em Pensar (Vergílio Ferreira), por mera coincidência, que «o grande não diz mal do pequeno porque da sua altura não vê». Ora nem mais.
17 de outubro de 2007
15 de outubro de 2007
Mafalda Azevedo, editora em Portugal de Doris Lessing, disse à RTP que a escritora mereceu o Nobel da Literatura porque é «de esquerda», porque aborda questões políticas e feministas, e porque é uma escritora «preocupada» e «activista» dos direitos das crianças. A Academia Sueca disse que Lessing é «um exemplar de experiência feminina», e que a inglesa «sujeitou uma civilização ao escrutínio» graças ao seu «poder visionário». Como se vê, nenhum deles falou do que seria normal falar-se nestas ocasiões: da qualidade literária do premiado. Não que Lessing, de quem nunca li um parágrafo (e não tenho, por isso, opinião), não mereça a distinção. O meu problema é que a qualidade literária conta pouco, ou nada. O que conta é a «mensagem», o activismo, a política — e da qualidade literária nunca se fala. É por isso que, tirando o negócio, o Nobel das letras se vai tornando cada vez mais irrelevante. Pior: pelo caminho que as coisas estão a levar, não tarda que os laureados sejam desprezados por ostentarem tal título.
12 de outubro de 2007
11 de outubro de 2007
Acusado, pela ERC, de ter contratado jornalistas sem ouvir o Conselho de Redacção, o director de Informação da Lusa respondeu que tal se deveu a um lapso. Ora, quem acredita que coisas destas sucedem por lapso? Alega Luís Viana que os membros daquele órgão não cooperam com a direcção. A ser verdade, isso dá-lhe o direito de passar por cima das regras? Quando é que esta gente mete na cabeça que os cargos políticos não estão acima da lei?
Que os governos sejam bons ou maus, é coisa que não importa. O que importa, para o Daniel Oliveira, é que os governos sejam de esquerda, e «contrários aos interesses dos EUA». Infelizmente, não estou a inventar nada — nem, sequer, a exagerar. Foi tudo claramente dito aqui, e não foi propriamente uma surpresa. Surpresa seria se ele dissesse que os bons governos são os que melhor servem os países e os cidadãos que os elegeram, e que os «interesses dos EUA» e dos outros nem sempre são antagónicos.
9 de outubro de 2007
A Administração da RTP diz que Rodrigues dos Santos vai ter que fundamentar, presume-se que em tribunal, as acusações que fez na entrevista à Pública. Até aqui, tudo bem, embora se saiba que assuntos destes nunca se provam e raramente dissipam dúvidas. O caricato da coisa é que os mandarins da televisão pública resolveram, em comunicado redigido num português medonho, tratar Rodrigues dos Santos por «empregado», fazendo questão de lembrar que o jornalista não passa de um mero assalariado de suas excelências cujo futuro naturalmente depende de suas excelências. Até pode ter razão a Administração da RTP, mas o tratamento que está a dar a um dos principais rostos da televisão pública não dignifica a instituição que dirigem.
Fico de pé atrás sempre que o Governo é acusado de comportamento autoritário, e não falo, apenas, deste Governo. Não que eu não ache que não tenha havido comportamentos autoritários, deste ou doutros governos, mas porque geralmente acusações deste tipo são feitas por quem tem interesses na matéria ou não merece confiança — além de as acusações serem, quase sempre, exageradas. A ser verdade o que diz a governadora civil de Castelo Branco, a visita da PSP ao sindicato que preparava um protesto contra o Governo deixa de ter o significado que lhe atribuem, e não tenho motivo para duvidar da senhora. Além disso, se a ideia era intimidar os sindicalistas, torna-se difícil acreditar num expediente tão mal-amanhado. Afinal, qualquer aprendiz de política seria capaz de prever que as buscas da polícia terminariam na praça pública e por beneficiar quem pretendiam intimidar, não é?
5 de outubro de 2007
Goste-se ou não da ideia, a eleição do líder de um partido político directamente pelos seus militantes é mais democrática que a eleição pelo método dos delegados. (O resto está aqui)
4 de outubro de 2007
Nunca escondi o meu nulo entusiasmo por Luís Filipe Menezes, mas há uma coisa que ele merece: o benefício da dúvida. A avaliar pelo que vai por aí, não é isso o que vai suceder. Menezes já é um mau líder ainda antes de o ser, tal como o Governo de Santana Lopes já era mau ainda antes de se conhecer. Não que isto seja mau para o novo líder social-democrata, pois quando as expectativas são baixas, tudo o que de bom fizer é lucro. Mas é do senso comum ver primeiro, e falar depois.
2 de outubro de 2007
Como não bastassem as manobras de diversão dos últimos dias, anuncia-se o afastamento do coordenador da investigação do caso Madeleine após este ter acusado a polícia britânica de investigar «unicamente» pistas e informações «trabalhadas» pelos McCann. O tal coordenador que, recorde-se, a imprensa inglesa acusou de gostar pouco de trabalhar e de beber em demasia. Provavelmente o homem falou mais do que devia, pois tudo indica que o erro dele foi dizer o que a conveniência manda calar. Seja lá como for, o afastamento de Gonçalo Amaral beneficia objectivamente a tese de que a investigação deve seguir determinado caminho e não outro.
Cuba não é «o Inferno na terra», garante o Daniel Oliveira. «O Inferno na terra» é, para ele, os Estados Unidos, onde uma sondagem diz que «quase metade dos americanos não votaria num ateu». Acontece que o «Inferno na terra» de que fala o Daniel é precisamente o país para onde os cubanos fogem cada vez em maior número, como dá conta esta notícia.
1 de outubro de 2007
Como já me fizeram notar, o meu blogue não tem espaço para comentários. Por várias razões, que passo a explicar. Primeiro, quem quiser fazer comentários que os faça enviando-me um e-mail. Depois, as caixas de comentários significariam mais trabalho, e já me escasseia o tempo para posts. Por último, cansei-me de insultos. Como julgo suceder com outros bloggers, grande parte dos comentários que recebo são meros insultos, alguns com a particularidade de me serem enviados por sujeitos que conheço (e me conhecem), que preferem o anonimato para me dizerem o que sob nome próprio não se atrevem. Ora, se há criaturas que me merecem desprezo são as que nem coragem têm para dar a cara por aquilo que pensam, quem insulta sem nunca apresentar argumentos. É que insultar não custa nada, e ainda menos quando os insultos são feitos a coberto do anonimato. Já apresentar argumentos, dá trabalho — e é preciso tê-los.
28 de setembro de 2007
Se Marques Mendes se inspirasse «na firmeza de Sá Carneiro, no saber de experiências feito e no rigor de Cavaco Silva, na versatilidade de Marcelo e na destreza política de Durão Barroso», como escreveu Vasco Graça Moura no DN, teríamos um super-líder do PSD e não o líder que hoje deixou de ser. Aliás, a vitória de Luís Filipe Menezes demonstrou isso mesmo: os militantes fartaram-se da liderança de Marques Mendes exactamente por considerarem que Marques Mendes não é nada do que diz Graça Moura. Se Luís Filipe Menezes é, ou não, a alternativa ao actual líder, só o tempo dirá. Por mim, as dúvidas são mais que muitas. Aliás, quer-me parecer que a vitória do autarca de Gaia é o estímulo que faltava para a criação de um (novo) partido de Direita.
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