8 de março de 2011
TEMPOS PERIGOSOS. Como já disse, não partilho do entusiasmo mais ou menos generalizado pelas revoltas em curso, por mais que a queda de uma ditadura seja uma boa notícia. Oxalá me engane, mas a revolta na «rua árabe» vai gerar, a prazo, enorme instabilidade, e não só nos países por ela atingidos. Aliás, há já evidências de que assim será.
7 de março de 2011
CHOQUE, DIZEM ELES. Em que é que o Público se baseia para dizer que a sondagem que coloca Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais está a chocar a França? E, já agora, que França é essa que o Público diz estar em choque? Não estará o jornal a confundir desejos com factos?
COISAS INTERESSANTES. Não há dúvida de que nós, portugueses, somos muito versáteis. Primeiro fazemos negócios com Khadafi, logo a seguir presidimos a um comité que lhe vai impor sanções.
GUANTÂNAMO. Aguardemos a próxima crónica de Mário Soares para sabermos o que ele pensa disto e de Barack Obama.
3 de março de 2011
2 de março de 2011
NÃO SE RIAM. A ONU resolveu suspender a Líbia do Conselho dos Direitos Humanos porque, imaginem, descobriu que o regime de Muammar Khadafi viola os ditos. Bem sei que a gente lê a notícia e não é fácil conter o riso. Mas, vendo bem, estamos diante um progresso notável. Mesmo que a suspensão seja «excepcional e temporária», como a ONU fez questão de ressalvar.
VEJAM-SE AO ESPELHO. Desculpem lá a linguagem, mas apetece-me dizer que o pingue-pongue entre os juízes sobre o destino das escutas do Face Oculta (e não só) fede que tresanda. Quando é que os senhores juízes deixam de fazer política e passam a fazer o que deles se espera? Quanto é que os senhores juízes percebem que deviam ser os últimos a vir à praça pública esgrimir argumentos? Quando é que os senhores juízes metem nas cabecinhas que os cidadãos esperam deles contenção no verbo e sensatez nas decisões? Quando é que os senhores juízes resolvem, enfim, dar-se ao respeito?
1 de março de 2011
BRINQUEDOS CAROS. Imagino que seja enorme a tentação de concordar com o então embaixador dos EUA em Lisboa quando ele diz que os militares portugueses precisam de comprar «brinquedos caros» devido a um «complexo de inferioridade», mesmo sabendo-se que o comentário poderá ter sido ditado pelo mau perder (os americanos foram candidatos a fornecer «brinquedos caros» aos portugueses mas perderam, salvo erro, para os alemães). Afinal, quantas vezes já ouvimos este diagnóstico? O que terá dito o diplomata americano que já não soubéssemos?
28 de fevereiro de 2011
FACE OCULTA. Libertado o principal arguido do processo Face Oculta? Acho bem. Afinal, Manuel Godinho só é acusado de 60 crimes.
25 de fevereiro de 2011
AS LEIS SÃO ELES. O que espanta no episódio protagonizado por Armando Vara é alguém ter reclamado os seus direitos, coisa rara hoje em dia e a exigir alguma coragem. Parafraseando Eça de Queirós, Vara faz parte, em Portugal, de um vastíssimo grupo de pessoas para quem as leis se afastam para eles passarem, e quem se põe à frente deles arrisca-se a ser atropelado. A denúncia do caso nos media não vai, obviamente, mudar este tipo de comportamentos, que a cultura de um país não se muda por decreto.
PENSEM NISTO. Chocante o vídeo em que a polícia dispara sobre um prisioneiro uma arma desaconselhada por quem sabe sem que se perceba a necessidade do seu uso? Sem dúvida. A divulgação do vídeo pretende atingir alguém? Mais que provavelmente. O prisioneiro não é flor que se cheire? Tudo indica que sim. Mas o que realmente perturba neste episódio é imaginá-lo longe das câmaras. Será difícil imaginar uma cena destas sem uma câmara de vídeo por perto?
23 de fevereiro de 2011
SANTA PACIÊNCIA. O politicamente correcto e o clima de medo estão a matar as anedotas de pretos e judeus, brasileiros e japoneses, gays e «alternativos», e a uniformizar tudo numa mistela sensaborona que não é carne, não é peixe, mas uma mistela intragável. Não se pode falar de presunto porque se ofendem os muçulmanos. Mudam-se palavras nos clássicos porque ofendem os pretos. Trocam-se as Boas Festas pelo mais abrangente Happy Holidays. Não se pode fumar em casa se a empregada doméstica estiver por perto. Tira-se o tabaco dos filmes porque o tabaco nos filmes causa fumo passivo (estou a inventar, mas lá chegaremos). Perante tudo isto, quem nos acode? A avaliar pelo silêncio generalizado (há um fogacho aqui e ali, mas não passa disso), o assunto não incomoda ninguém. Talvez pior: a grande maioria achará bem, pelo que ainda estaremos no começo.
21 de fevereiro de 2011
JAZZ. Se não erro, havia, há anos, um programa de rádio que passava excelente música sem dizer «água vai». Desde a chamada música ligeira, passando pelo jazz e pela clássica, o critério da música que lá se passava era a qualidade, e só a qualidade. Cinco minutos de jazz, programa que agora faz 45 anos, nunca me pareceu o melhor formato para promover o jazz, por mais bem-intencionado que seja, e por mais que apregoem o contrário. A melhor maneira de divulgar o jazz (e outras «músicas minoritárias») e atrair ouvintes para ele é dá-lo a ouvir sem exercícios preparatórios, que geralmente afastam mais do que aproximam. Com certeza que há espaço para programas de jazz (e doutras «músicas minoritárias»), mas se a ideia é dar jazz a quem nunca ouviu jazz, como o caso de Cinco minutos, a melhor maneira é dá-lo como quem dá outra música qualquer. É que eu não só estou convencido de que este tipo de programas não resulta como provoca o contrário do que pretende.
18 de fevereiro de 2011
ESTOU A LER. «Entre La Provence e a Penn Station havia esse caminho mágico, a Ferry Street ou a Avenida de Portugal. Não sei se era verdadeiramente a Avenida de Portugal, mas era seguramente a rua onde muitos portugueses tinham os seus negócios e onde mais se mercava. Abundavam ali criaturas mitológicas, descidas das serras do Marão ou da Estrela, de suas faldas, vales e encostas, largadas de póvoas e gândaras costeiras ao mar oceano como Aveiro, Ílhavo, Murtosa e outras baixadas em torno da ria. Coabitavam com peruanos, equatorianos, colombianos, porto-riquenhos, cubanos exilados, imigrados e aqui nascidos, e uma prole de brasileiros e brasileiras aptos para todo o serviço. Cruzavam-se línguas e sonoridades, cruzavam-se corpos e nações, cruzavam-se bazófias e «vanidades» que os mais velhos diziam ser sezões e desvios de tino por causa das modernices.» O Trompete de Miles Davis, de Francisco Duarte Azevedo, nas livrarias a partir de Março.
17 de fevereiro de 2011
NÃO HÁ PACIÊNCIA. Depois desta campanha, ao que parece abortada pelo Ministério da Educação, aposto que a próxima se fará sob o lema «Ele é heterossexual, mas não faz mal».
15 de fevereiro de 2011
TEMPOS PERIGOSOS. Não me parece necessário ser-se perito em questões internacionais para suspeitar que os acontecimentos do Egipto e da Tunísia podem alastrar a outros países, incluindo países onde vigoram democracias consolidadas, como se vê por esta notícia, a que ninguém prestou a atenção devida. Seguramente que as consequências dos protestos seriam outras e não teriam a mesma legitimidade que têm em países como o Egipto ou a Tunísia, mas assusta só de pensar. (A notícia a que me refiro chegou a estar no DN online, mas entretanto foi retirada sem qualquer explicação.)
11 de fevereiro de 2011
SIM, MAS. Mahmud Ahmadinejad aproveitou a queda do regime de Mubarak para dizer ao mundo e arredores que a queda do regime egípcio foi um sinal de um «novo Médio Oriente» sem «interferências» americanas nem «sionistas». Aparentemente, assim foi. Mas o presidente iraniano esqueceu-se de um detalhe: a revolta não teria sido possível sem a internet, produto americano por excelência.
9 de fevereiro de 2011
MAGISTRATURA DECEPCIONANTE. Li com atenção o que se publicou sobre o veto do Presidente da República ao diploma do Governo que permitiria ao farmacêutico substituir um medicamento prescrito pelo médico por um genérico ou similar, e não vi mencionado em lado algum um detalhe que reputo de essencial: e se o utente concordar com a substituição do medicamento originalmente prescrito? Nos Estados Unidos, onde resido, é assim que funciona, e não vejo ninguém a queixar-se. O médico receita determinado medicamento, o farmacêutico pode substitui-lo automaticamente por outro caso o médico não dê instruções em contrário, mas o consumidor tem a última palavra: aceita, ou não aceita. Tão simples como isto. Há utentes que não estão em condições de avaliar as opções que lhes são oferecidas, que nem as cores dos medicamentos conseguem distinguir? Não duvido que haja, mas devem ser os mesmos que antes da lei agora vetada já não estavam em condições de detectar uma troca de medicamentos caso houvesse uma troca de medicamentos, de se lembrar se já tinham tomado os medicamentos que tinham que tomar, de ingerir as doses recomendadas pelos médicos, etc., etc. Parece-me, portanto, que o veto presidencial prejudica os utentes, nomeadamente os mais carenciados, e que o Presidente se precipitou. Talvez o Presidente tenha pressa em pôr em prática a tal «magistratura actuante» que prometeu na campanha eleitoral, mas é sabido que a pressa é má conselheira.
8 de fevereiro de 2011
A PRESIDENTA. Como notou Vital Moreira (por uma vez estou de acordo com ele), a questão da «Presidenta», como Dilma Rousseff resolveu intitular-se, é «um disparate pretensioso». Vendo bem, um disparate que vem na linha do seu antecessor, Luís Inácio Lula da Silva, que chegou a elogiar o livro em branco «por ser mais fácil de ler». Este «Café com a Presidenta», como Dilma intitulou o programa de rádio que pretende ser um «ponto de encontro com o povo brasileiro», é de um mau gosto sem nome, e um atentado à língua portuguesa que Dilma tinha obrigação de não cometer. Se não estranho que ela não chegue lá pela sua própria cabeça, já me espanta que não tenha um colaborador que lhe diga o óbvio.
4 de fevereiro de 2011
CAVACO. As actividades do Presidente da República devem estar sob vigilância dos cidadãos, mesmo as actividades enquanto cidadão. Mas quem teve o desplante de dizer que os outros «terão de nascer duas vezes» para serem mais sérios do que ele, como disse Cavaco quando alguém pôs em causa a sua honestidade, merece que lhe escrutinem a vida até ao último detalhe. O que se tem publicado por aí pretende tramar Cavaco? Se é verdade o que se diz, não façam cerimónias. (Ver, também, Cavaco falou (mas pouco explicou), de João Miguel Tavares.)
3 de fevereiro de 2011
31 de janeiro de 2011
COMENTÁRIOS. Raramente leio os comentários que se publicam nos sítios dos jornais, mas tenho vindo a notar que alguns são, de facto, úteis. Uns porque fazem acrescentos preciosos, outros pelos reparos oportunos. Mas se alguns comentários são uma mais-valia, se beneficiam os jornais e os leitores, outros há que apenas servem uns quantos energúmenos. Falo dos insultos, das calúnias, de comportamentos impróprios de gente civilizada — e todos cobardemente publicados a coberto do anonimato, na maior das impunidades. Infelizmente, são estes os comentários que mais se vêem nos sítios dos jornais, e provavelmente são os mais lidos.
28 de janeiro de 2011
CASA PIA, DE NOVO. Carlos Silvino resolveu contar à Focus uma história diferente da que contou ao tribunal que o julgou — e condenou — a 18 anos de prisão. Não sei se dantes mentiu e agora diz a verdade, ou o inverso. Estranho é que o bastonário dos advogados o tenha recebido, e que a entrevista agora publicada tenha sido feita pelo mesmo jornalista que, em tempos, publicou Carlos Cruz - As Grades do Sofrimento, um livro cujo título dispensa explicações.
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS. Não me consta que o João Gonçalves se sinta incomodado com o facto de Alberto João Jardim estar à beira de se tornar uma «estaca em busca da mumificação em vida», como ele caracteriza a recandidatura de Madaíl à federação da bola.
26 de janeiro de 2011
ASSUNTO ENCERRADO? Também eu gostava de saber quem esteve por detrás da «campanha de calúnias» contra Cavaco, que o PR dá a ideia de saber e desafia os jornalistas a descobrir, embora me pareça mais importante saber se são verdadeiras as acusações que lhe fazem que a origem delas. Gostava de saber, por exemplo, se são verdadeiros os factos revelados pelo Público e pela Visão. Como passaram alguns dias e ainda não vi desmentidos, como ainda não vi pedidos de desculpa por parte do Público e da Visão por eventuais erros cometidos, presumo que são verdadeiros. Gostava, por último, de saber a que se deve o silêncio que caiu sobre o caso, que parece ter deixado de ser pertinente após as Presidenciais. Valerá a pena dizer que num país a sério haveria razão para se demitir caso o esquema se revele verdadeiro?
24 de janeiro de 2011
JORNADA DE REFLEXÃO. Aproveitei o dia de reflexão para uma investida nos alfarrabistas do costume, de que resultaram The Common Reader, de Virginia Woolf, In the South Seas, de Robert Louis Stevenson, La Familia de Pascoal Duarte, de Camilo José Cela, Doña Perfecta, de Pérez Galdós, River of No Return, de John Carrey e Cort Conley, e The Fever Coast Log, de Gordon Chaplin. Tudo isto pelo preço de um livro, talvez nem isso. No dia seguinte descobri uma pérola (Nu e Cru, de Paulo Francis), que comecei a ler a todo o vapor. Pelo meio fiquei a saber o desfecho das Presidenciais, e que Cavaco fez um discurso de «mau vencedor». Haveria necessidade de falar dos adversários da forma como falou? Seria preciso instigar os jornalistas a investigar quem, na sua opinião, patrocinou uma campanha de calúnias contra a sua pessoa? Precisaria Cavaco daquela postura de vingança? Se na derrota se deve ser grande, na vitória espera-se o quê?
21 de janeiro de 2011
QUE BEM PREGA FREI TOMÁS. Sobre este texto, duas coisas. Manuela Moura Guedes não tem autoridade moral para dar lições de jornalismo a ninguém, muito menos aos jornalistas. Depois do Jornal de Sexta, onde se fartou de fazer tábua rasa das mais elementares regras do jornalismo, Manuela só pode causar um sorriso (no melhor dos cenários) quando decide pregar o jornalismo e suas virtudes. Depois, por que será que os jornalistas não fazem, na opinião dela, o que deles se espera? Não serão os patrões da comunicação social, incluindo os que lhe pagam o salário, os primeiros responsáveis pelas deficiências que ela aponta? Isto é que eu gostaria de ver Manuela falar quando se insurge contra as más práticas jornalísticas. Porque este é o principal problema, como Manuela muito bem sabe, e porque bater nos mais fracos não custa nada.
NÃO VOU VOTAR, OBRIGADO. Por razões que expliquei ainda antes da campanha, e que se reforçaram durante a campanha, não votarei no próximo domingo. A abstenção beneficia uns e penaliza outros? Não estou seguro que assim seja, mas se for tanto se me dá. Que o acto eleitoral decorra na paz do senhor — e que ganhe o menos mau.
20 de janeiro de 2011
DO SENSO COMUM. Tirando as previsíveis reacções do PC e do Bloco, que condenaram a actuação da PSP nos incidentes junto à residência do primeiro-ministro alegando um comportamento inaceitável e desproporcionado por parte daquela polícia (e Manuel Alegre, que condenou apesar de admitir desconhecer o que se tinha passado), fizeram bem as restantes forças políticas não tomar posição sobre a prisão dos dois sindicalistas. Afinal, o que se passou realmente na manifestação em São Bento que terá dado origem a um comportamento alegadamente excessivo das autoridades policiais? Será preciso lembrar que não se devem fazer juízos de valor sobre factos que se desconhecem? Não estou a defender — ou atacar — o comportamento de ninguém. Estou a dizer que ninguém pode ser automática e antecipadamente culpado antes de se apurarem responsabilidades.
QUEIROZ NO SEU MELHOR. Culpado pelos maus resultados frente a Chipre e Noruega? De maneira nenhuma. «A responsabilidade foi de Agostinho Oliveira», voltou Queiroz a dizer, depois de já ter dito que os maus resultados não teriam ocorrido caso ele, Queiroz, estivesse ao leme, e apesar do então braço-direito Agostinho ter admitido que a convocatória dos jogadores e a estratégia a utilizar nesses encontros foram consertadas com Queiroz. Quando seria de esperar que o ex-seleccionador dividisse as responsabilidades do fracasso com o adjunto, eis que Queiroz se demarcou rapidamente, e só lhe faltou dizer que não conhecia Agostinho de lado nenhum. É precisamente nestas alturas que se vê a estatura das pessoas, embora no caso dele nem era preciso.
18 de janeiro de 2011
O ESTADO A QUE ISTO CHEGOU. «Não tenho informação mas critico na mesma, como é óbvio», respondeu Manuel Alegre aos jornalistas que lhe perguntaram o que ele pensava disto. Cavaco também tem estado no seu melhor. Interrogado por uma anciã que reclamava «um bocadinho de reforma», Cavaco contrapôs-lhe a história da sua própria mulher, que também terá direito a não sei que reforma por trabalhar não sei onde mas não lha dão não disse porquê. E depois querem que as pessoas votem, a pretexto de que não votando acontece não sei quê. E se fossem pentear macacos?
17 de janeiro de 2011
O CIRCO. Fonte fidedigna descreveu-me as cerimónias fúnebres de Carlos Castro em Newark e Nova Iorque com duas singelas palavras: um circo. (Aliás, a reportagem do Público dá bem conta disso.) Temos, portanto, que tudo ocorreu conforme tem ocorrido até agora, com a normalidade que seria de esperar: as televisões estavam lá, os fotógrafos estavam lá, a imprensa cor-de-rosa (e a outra) estavam lá — e não há notícia de que alguém se tenha magoado. Quem viveu do circo e para o circo seguramente que não se escandalizaria ver a sua própria morte transformada num circo.
CORRENTES & ALGEMAS. Cada um é senhor de pensar o que muito bem entende, e longe de mim fazer julgamentos morais de quem quer que seja. Mas tudo indica que Renato Seabra matou Carlos Castro, de forma particularmente violenta, e não me consta que o alegado homicida sofria de qualquer distúrbio mental antes do crime. Assim sendo, como explicar a «corrente» e a simpatia que alguns lhe dispensam? A meu ver, de forma simples e óbvia: Castro era gay, pelo que o seu assassinato passou a ter uma circunstância atenuante. Cada vez tenho menos paciência para o espalhafato dos gays, mas é evidente que são cenas destas que lhes alimentam os exageros, e lhes dão as razões que geralmente não têm.
14 de janeiro de 2011
DA NATUREZA HUMANA. Os saques e «arrastões» que se seguiram às cheias no Brasil fizeram-me lembrar Nelson Rodrigues em O Óbvio Ululante: «Façam a seguinte experiência: — ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: — ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.»
SOBRE A ABSTENÇÃO. «(…) a abstenção não é ilegítima. É um acto de recusa total do regime que um cidadão está no direito de não legitimar pelo seu voto (mesmo com um voto em branco). E confessemos que um regime que propõe, como alternativa para a Presidência da República, Alegre ou Cavaco merece amplamente uma recusa total.» Vasco Pulido Valente, Público de hoje
É A VIDA. «En noviembre de 2007 tuve la suerte de asistir como escritor invitado a la clase de escritura creativa de Anthony MacCann, en el CalArts de Los Ángeles. Anthony me contó que los mejores de cada promoción son fichados por las grandes productoras para trabajar como guionistas de series de televisión. Se hacen ricos. Los "peores", por el contrario, se dedican a la poesía.» (Texto completo aqui.)
13 de janeiro de 2011
CAVACO vs CAVACO. Haverá pior para os mercados internacionais que admitir a existência de uma crise política? Segundo Cavaco, não há problema. O mesmo Cavaco que ainda há pouco se fartava de dizer que Portugal precisava de passar para o exterior uma imagem de estabilidade, de credibilidade, de confiança. E depois ainda tem o desplante de dizer que os outros precisam de nascer duas vezes para serem mais honestos do que ele.
11 de janeiro de 2011
EFEITOS COLATERAIS. Passou praticamente despercebida a notícia de que um tal Registo de Saúde Electrónico se prepara para disponibilizar, aos profissionais de saúde, os dados médicos dos cidadãos, e acho que não devia. É útil os dados médicos estarem imediatamente disponíveis a qualquer clínico em qualquer lugar? Sem dúvida que é. O problema é que não há bela sem senão. E o senão, neste caso, é enorme, e não basta aos responsáveis do projecto garantirem a confidencialidade e a segurança dos dados. Será preciso ser muito criativo para imaginar que os dados podem acabar onde não devem? Que podem ser utilizados para nos prejudicar em vez de nos ajudar? Que nos pode ser negado um emprego porque alguém descobriu que temos a doença errada?
JUSTIÇA. Alguém imagina isto possível em Portugal? Como dei conta há um mês, em Portugal ninguém quer saber destas coisas, e nem os factos à vista de todos fazem com que as autoridades façam o que delas se espera.
7 de janeiro de 2011
POIS É. «Quem se envolveu - porque ele de perto ou de longe se envolveu - na trapalhada do BPN não é aparentemente a criatura indicada para superintender, com o seu conselho e a sua prudência, a economia de Portugal inteiro. (...) O dr. Cavaco pede confiança aos portugueses; e faz muito bem. Mas, com o caso do BPN perdeu ele próprio a confiança dos portugueses.» Vasco Pulido Valente, Público de 7 de Janeiro de 2011
BPN. O BPN perdeu 200 milhões em depósitos nas duas últimas semanas por ter estado no centro da campanha presidencial? Nada que não fosse previsível. Espantoso é o banco ainda ter clientes antes de rebentar a última polémica.
6 de janeiro de 2011
SINDICATOS. Cada vez estou mais convencido de que os sindicatos e as centrais sindicais defendem, cada vez menos, os interesses dos trabalhadores, mesmo que uns e outros estejam genuinamente convencidos do contrário. Os sindicatos passam a vida a demonstrar que vivem no século passado, que pararam no tempo, e a realidade dos trabalhadores que representam é o século XXI. Pior: os seus dirigentes não se percebem. Percebe-se que são contra isto, contra aquilo, mas nunca se percebem os motivos. Quando se esperariam argumentos concretos, expostos de modo que todos percebam, os sindicatos enrodilham-se em explicações abstractas que às vezes nem como abstracções fazem sentido. Tirando os sindicatos afectos ao PC, cujos interesses do partido sempre puseram à frente dos interesses dos trabalhadores, parece-me que os sindicatos estão mais preocupados em assegurar a sua própria sobrevivência que em defender os interesses de quem se espera que defendam — além de que os sindicatos são, também eles, responsáveis pela situação que o país atravessa, e dos principais responsáveis.
5 de janeiro de 2011
CAVACO E BPN. Interessa-me pouco saber quais são as reais intenções dos candidatos presidenciais e se as dúvidas que eles terão são mais estratégicas que reais quando exigem ao candidato Cavaco que explique o negócio com o BPN, mas parece-me evidente que se impõe uma explicação que ponha cobro à suspeição que cresce de dia para dia. Dizer que não responde a «campanhas sujas e desonestas», que já respondeu à pergunta e que está tudo explicado no site da sua candidatura, é pouco, e cada dia se torna mais evidente. O que tem Cavaco a esconder sobre o assunto? Se não tem, se tudo é claro e transparente, se está convencido de que os outros precisam de nascer duas vezes para serem mais honestos do que ele, por que não explica o caso de modo a não restarem dúvidas? Custa-me a crer que Cavaco se tenha envolvido em actividades pouco recomendáveis, e digo isto sem ironia. Mas a forma como está a gerir o caso BPN começa a criar-me algumas dúvidas. Como não bastasse, anuncia-se que o presidente do BPN adiou a visita ao Parlamento. Como não ver nisto um adiamento oportuno?
3 de janeiro de 2011
E-BOOKS, OUTRA VEZ. Acabo de descarregar da internet algumas dezenas de livros, a grande maioria de autores portugueses e brasileiros, alguns há muito procurados mas nunca encontrados, e que dificilmente leria caso esperasse encontrá-los numa livraria. Como tenho dito e repetido, as maquinetas de leitura electrónica, os e-books, servem-me, essencialmente, para isto, e só posso estar agradecido por existirem. Cada vez entendo menos, por isso, os que abominam o digital, como se uma coisa fosse inimiga da outra.
31 de dezembro de 2010
FECHAR O ANO. «Por tudo que sei da vida, dos homens, deve-se ler pouco e reler muito. A arte da leitura é a da releitura. Há uns poucos livros totais, uns três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia.» Nelson Rodrigues, O Óbvio Ululante
29 de dezembro de 2010
DEBATES PRESIDENCIAIS. O debate entre Cavaco e Alegre foi, até agora, o único que vi, e provavelmente não verei mais nenhum. Como aqui já escrevi, nunca as eleições presidenciais me interessaram tão pouco, e nem uma hipotética segunda volta me levará à mesa de voto. Dito isto, surpreendeu-me o tom do debate, em que eu esperava um Cavaco à defesa, mais contido, e um Alegre ao ataque, mais expansivo. Como se viu, foi o contrário. Já o resto não surpreendeu. Cavaco foi mais contundente, mais sereno, mais convincente. Ao contrário, Alegre esteve inquieto, inseguro, e não soube explorar as fraquezas do adversário (as alegadas escutas de São Bento a Belém e o caso BPN, por exemplo). Nenhum deles contará com o meu voto, mas ficou claro que Cavaco é o único candidato credível.
27 de dezembro de 2010
23 de dezembro de 2010
NÃO HÁ FUMO SEM FOGO. Por manifesta incompetência (para dizer o mínimo), o Millennium BCP dos EUA mudou, recentemente, de mãos, e a minha conta bancária com ele. Devo dizer que nunca me ralei por aí além com «práticas bancárias arriscadas e pouco saudáveis», como a entidade que por aqui supervisiona os bancos designou as práticas do Millennium, pela simples razão que estou convencido de que todos os bancos recorrem, de um modo geral, a práticas idênticas, embora uns mais do que outros. (Não deve ser por acaso que a concorrência nunca abre a boca sobre casos destes, quando seria de esperar que aproveitasse casos destes para apontar o dedo aos outros e propagandear as virtudes próprias.) Mas quando as práticas «pouco saudáveis» começam a ser uma constante, quando se diz que o Millennium terá oferecido informações aos americanos que deviam ser confidenciais em troca não se sabe de quê, convenhamos que é demais. O presidente do Millennium já desmentiu tal intenção, e nem se esperaria que não o fizesse. Mas cada um acredita naquilo que quer, e já houve variadíssimas suspeitas sobre o Millennium que acabaram por se confirmar apesar dos veementes desmentidos.
ESTALOU O VERNIZ. Quem lê a imprensa espanhola há-de ter reparado que os jornalistas nuestros hermanos têm um problema com Mourinho por ele ser português. Exactamente: por ele ser português. Não há notícia onde se critique a actuação de Mourinho que não mencione o facto de ele ser português, sem que se perceba o que isso acrescente à notícia, e sem que se veja tratamento idêntico para os treinadores de outras nacionalidades. Bem sei que o comportamento do «special one» se presta a isto e muito mais e que é nestas alturas que vem ao de cima o que o ser humano tem de pior, mas é lamentável que seja a imprensa a fazer esse papel.
21 de dezembro de 2010
17 de dezembro de 2010
FUMO SEM FOGO. A Secretaria de Estado das Comunidades (SEC) anunciou a criação de um portal destinado à troca de informação entre órgãos de comunicação social de expressão portuguesa espalhados pelo mundo a que ninguém parece ter prestado atenção apesar da notícia ter saído em vários jornais. Consultado o site, constata-se, vários dias depois de ter sido anunciado, que nem links tem para grande parte dos media a que se destina (depreende-se dos regulamentos que estão à espera que lhe caiam nas secretárias), e links é só o que há. Constata-se mais: segundo o responsável do portal, vai ser enviado um inquérito aos órgãos de comunicação social portugueses no estrangeiro para os «auscultar e sensibilizar para o projecto». Quer isto dizer que os media ainda não foram contactados, muito menos se sabe se estarão interessados. Assim sendo, a SEC facturou por aquilo que não fez, nem se sabe se fará. Mas não é só: lido o regulamento, constata-se uma série de regras que os participantes vão ter que cumprir, e que o projecto, que as notícias descreveram como «muito ambicioso» e «há muito desejado», será uma benesse para a comunicação social das comunidades. Dito de outra maneira, a comunicação social das comunidades fornecerá o conteúdo, e ainda deverá mostrar-se agradecida. O tempo dirá o que isto vai dar, mas palpita-me que vai dar um molho de brócolos. É que eu não estou a ver o que os media das comunidades possam ganhar com o negócio, e duvido que se contentem em aparecer no retrato.
16 de dezembro de 2010
QUEM SERÁ? Um episódio edificante sobre uma «figura histórica da Revolução de Abril», actual candidato à Presidência da República.
15 de dezembro de 2010
ESTOU QUE NEM POSSO. Após variadíssimos percalços e inúmeras démarches, consegui, finalmente, uma remessa de alheiras como manda a lei, e escrevo já com o estômago aconchegado por elas. Um punhado de grelos, uma batata cozida e um tinto que eu cá sei fizeram o resto. Confrontos no centro de Roma? Porrada em Atenas? Amanhã prometo informar-me.
14 de dezembro de 2010
MUITO INSTRUTIVO. Eliminar 1200 cursos superiores em dois anos seria, em circunstâncias normais, impensável. Como falamos de Portugal, onde universidades de vão de escada se distinguiram por passar canudos ao domingo e por inventar cursos destinados a formar doutores da mula ruça, a coisa é normal. Ironicamente, um alto dirigente político acaba de ser notícia por ter assinado pareceres jurídicos a coberto de um canudo que não tinha, ou que foi obtido ninguém sabe bem como, precisamente numa dessas universidades de vão de escada entretanto encerradas por ordem governamental.
13 de dezembro de 2010
VOTOS COMPRADOS. A ser verdadeira, e nada indica que não seja, a história da compra de votos no PS publicada pela revista Sábado devia deixar o PS em alvoroço e o país em sobressalto. Quatro dias após ter sido publicada, não se vê o mais leve comentário. Será normal? Infelizmente, tudo indica que é. A história da compra de votos no PS não é caso único, e quem tem telhados de vidro só pode fazer de conta que não ouve, nem vê.
10 de dezembro de 2010
CIBERATAQUES. Seria de esperar que a WikiLeaks se demarcasse dos ataques efectuados por hackers aos sites das redes Visa e Mastercard, entre outros, que os responsáveis por esses ataques — um grupo denominado «Anonymous» — justificaram como protesto pela prisão de Assange, acusado pela justiça sueca — convém não esquecer — de crimes sexuais. É que os membros da WikiLeaks podem ser tudo, mas estúpidos é que não são. Afinal, o que distingue um ataque cibernético a uma empresa, causando prejuízos que podem ser astronómicos, de um mero assalto destinado a roubar dinheiro e/ou objectos de valor praticado por um bando de delinquentes? Não serão estes ataques dos «Anonymous» igualmente criminosos? Dizem-me que o tal grupo é composto por «activistas», por «pessoas que defendem a liberdade de expressão», assim procurando branquear os seus actos e justificar os seus comportamentos. Confesso as minhas dúvidas, mas concedo que poderá ser. O problema é que a perigosidade destes actos, na minha opinião muito maior que a divulgação dos documentos secretos, poderá levar à criação de legislação que se traduzirá em mais restrições à liberdade individual, precisamente o contrário do que os «activistas» pretendem.
REVISITANDO A KAPA. Li a Kapa do primeiro ao último número, mas raramente me lembro do blogue onde alguém colocou parte dos textos lá publicados. Um dia destes algo me recordou a sua existência, e o resultado foi relembrar textos como aquele em que Vasco Pulido Valente contou as peripécias da sua passagem pela candidatura de Soares à Presidência, da competição entre Jaime Gama e Vítor Constâncio para agradar ao chefe (Soares), da embaraçosa solicitude do então sindicalista Torres Couto, das doses generosas de vodka ordinário ingeridas no Monte Carlo, de como ia caindo de um quarto andar por um buraco onde deveria estar um elevador. Uma delícia.
7 de dezembro de 2010
CORMAC McCARTHY. Comecei a ler Meridiano de Sangue com alguma reserva, já não me lembro porquê, mas o entusiasmo foi crescendo de página para página. Habituado o estômago à violência (uma constante em todo o romance), descubro um livro espantoso, e um personagem notável (o Juiz Holden). Provavelmente vai ser uma decepção, mas apetece-me ler todo o McCarthy que me aparecer pela frente.
VARGAS LLOSA. A propósito deste discurso, li meia dúzia de livros de Vargas Llosa, nenhum deles ficção. Por concluir tenho A Fish in Water, também não-ficção, e por começar quase uma dúzia. Como os li com prazer e proveito, significam estas leituras que gosto do escritor peruano. Dito isto, o que mudou depois de lhe atribuirem o Nobel da Literatura? Para ele, provavelmente muita coisa. Para mim, rigorosamente nada. Os prémios literários são óptimos para a indústria e para quem os ganha, e presumo que úteis para quem quer comprar livros e não sabe o quê.
6 de dezembro de 2010
DESACONSELHÁVEL A ESTÔMAGOS SENSÍVEIS.
«Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo dos ramos de uma árvore paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares trespassados por espigões aguçados de madeira verde e pendiam, lívidos e nus, acima das cinzas frias das brasas onde tinham assado em fogo lento até as cabeças ficarem carbonizadas e os cérebros lhes borbulharem dentro do crânio e o vapor lhes sair pelas narinas e sibilar. Viam-se-lhes as línguas puxadas para fora da boca e presas com paus afiados que as atravessavam de lado a lado e tinham as orelhas cortadas e os torsos rasgados com lascas de sílex até as entranhas lhes penderem sobre o peito. Alguns homens adiantaram-se de faca em punho e soltaram os cadáveres e deixaram-nos ali caídos nas cinzas. Os dois corpos mais escuros eram os últimos Delawares e os outros dois eram o foragido da Terra de Vandiemen e um homem do Leste chamado Gilchrist. Às mãos dos seus bárbaros anfitriães não haviam conhecido favores nem discriminação alguma, antes tinham sofrido e morrido com imparcialidade.»
Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue
«Encontraram os batedores desaparecidos pendurados de cabeça para baixo dos ramos de uma árvore paloverde enegrecida pelo fogo. Tinham os tendões dos calcanhares trespassados por espigões aguçados de madeira verde e pendiam, lívidos e nus, acima das cinzas frias das brasas onde tinham assado em fogo lento até as cabeças ficarem carbonizadas e os cérebros lhes borbulharem dentro do crânio e o vapor lhes sair pelas narinas e sibilar. Viam-se-lhes as línguas puxadas para fora da boca e presas com paus afiados que as atravessavam de lado a lado e tinham as orelhas cortadas e os torsos rasgados com lascas de sílex até as entranhas lhes penderem sobre o peito. Alguns homens adiantaram-se de faca em punho e soltaram os cadáveres e deixaram-nos ali caídos nas cinzas. Os dois corpos mais escuros eram os últimos Delawares e os outros dois eram o foragido da Terra de Vandiemen e um homem do Leste chamado Gilchrist. Às mãos dos seus bárbaros anfitriães não haviam conhecido favores nem discriminação alguma, antes tinham sofrido e morrido com imparcialidade.»Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue
O HOMEM QUE ESCREVE OS ENSAIOS DOS NOSSOS FILHOS. Já foi publicado há um mês, mas nem que tivesse sido há um ano perderia actualidade. O tema também não é novidade, mas talvez surpreenda a real dimensão do problema.
WIKILEAKS (2). Se outras razões não houvesse, esta chega e sobeja para demonstrar a natureza — e os objectivos — do WikiLeaks e do seu fundador.
3 de dezembro de 2010
ALEGRE CEGUEIRA. Quando mais tempo vai Manuel Alegre necessitar para perceber que o problema da sua candidatura a Belém não é Marcelo e/ou os jornalistas? Quanto mais tempo vai Manuel Alegre necessitar para constatar que a sua candidatura não entusiasma nada nem ninguém, a começar por quem mais devia? Quando mais tempo vai Manuel Alegre necessitar para perceber que o milhão e tal de votos nas Presidenciais de 2006 não foi, na sua maioria, votos nele mas contra Mário Soares? É verdade que o PS tem feito o que pode para fazer de conta que Alegre não existe, para já não falar de Cavaco, que ostensivamente o ignora desde o início. Mas salta à vista que o principal problema de Manuel Alegre é Manuel Alegre, um personagem que os portugueses conhecem na política pela voz de trovão e pelos poemas que vai dando à estampa, o que é pouco para quem pretende dirigir uma junta de freguesia, e nada para dirigir um país.
SÁ CARNEIRO. Nelson Rodrigues escreveu: «Toda [a] unanimidade é burra.» É precisamente isto o que me apetece dizer das opiniões sobre Sá Carneiro, todas lisonjeiras, todas unânimes. Não que eu tenha alguma coisa contra Sá Carneiro, antes pelo contrário. Mas o que se diria dele hoje caso ainda fosse vivo? Definitivamente que um homem bom é um homem morto.
2 de dezembro de 2010
MUNDIAL. Não me rala que tivéssemos perdido, nem entraria em delírio caso tivéssemos ganho. Mas será mesmo verdade que entre os executivos da FIFA que decidiram quem vai organizar os mundiais de 2018 e 2022 há quem tenha interesses directos, sobretudo de natureza financeira, na escolha da Rússia? Se assim é, o recente afastamento de dois executivos da FIFA por suspeita de corrupção é bem capaz de não ter sido um caso isolado, e as insinuações que têm vindo a fazer alguns dirigentes das candidaturas hoje derrotadas não deve ser só mau perder.
30 de novembro de 2010
WIKILEAKS (1). Apesar das «bombas atómicas» e do barulho ensurdecedor, duvido que as revelações da WikiLeaks tenham o efeito desejado. Antes de mais, põem a descoberto situações que ninguém ignora que existem, que existiram, e que continuarão a existir. Quem não sabe que as relações entre países se movem por interesses, e que em nome desses interesses vale tudo? Quem não sabe que por trás das luzes que celebram acordos geralmente está um estendal de roupa suja? Claro que os países envolvidos nas fugas da WikiLeaks têm que mostrar que estão muito preocupados, e alertar para o perigo que elas representam. Mas estarão os seus governantes realmente preocupados? A resposta é: duvido. Quem se lembra das anteriores revelações da WikiLeaks sobre o Iraque e Afeganistão, igualmente gravíssimas? E, já agora, que efeitos tiveram? É só um palpite, mas quer-me parecer que a «bomba atómica» agora anunciada não se aguentará nos media até ao próximo fim de semana.
ANA GOMES. Por falar em voos da CIA, não me lembro de ver Ana Gomes indignar-se quando o presidente Obama anunciou o arquivamento do caso alegando assunto de Estado. Ao contrário, não me lembro de lhe ouvir outra coisa nos tempos de Bush. Alguém faz o favor de dizer à sra. deputada que denunciar as misérias dos outros escondendo as próprias é como esconder um gato e deixar-lhe o rabo de fora?
MOURINHO. Deliciosos os comentários sobre o desaire de Mourinho frente ao Barcelona. É nestas alturas que se vê o ressentimento que por aí vai contra o «special one», cujo principal defeito é querer vencer todas as guerras em que se mete e ser bem-sucedido por mérito próprio.
26 de novembro de 2010
O DOM DA UBIQUIDADE. Confirmei a má impressão que tinha de José Miguel Júdice devido a uma entrevista que ele deu ao Francisco José Viegas a propósito de bibliotecas, onde se fartou de dizer que leu tudo na juventude, e procurou passar a ideia que trata os livros por tu. Mas confesso que fazer parte da comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva e simultaneamente lançar um livro onde diz que o actual presidente «destruiu» o PSD de Sá Carneiro e «foi autoritário», ultrapassou o que eu seria capaz de imaginar.
GREVE GERAL. O que terão ganho os trabalhadores com a greve geral? Terão sido beneficiados, um mínimo que seja? O que vai mudar para os trabalhadores após a greve geral? Ou muito me engano, ou vai mudar coisa nenhuma. Pior: não terão os grevistas contribuído para piorar ainda mais as coisas? Não está em causa o direito à greve, que a lei fundamental consagra, e é evidente que há razões para descontentamento. Mas cada vez me parecem mais ultrapassadas as «formas de luta» adoptadas pelos sindicatos, e não deve ser por acaso que os resultados dessas «formas de luta» são cada vez mais escassos.
25 de novembro de 2010
COMENTÁRIO MACHISTA. Não há dúvida que a catraia tem imenso talento. Não se admire é se vier a tornar-se famosa pelos atributos que a imagem documenta, nem se escandalize se alguém lhe lembrar que não hesitou em exibir os ditos quando lhe pareceu que a coisa lhe podia render fama e proveito.
24 de novembro de 2010
DO MAU GOSTO. Apesar de me parecer bem-intencionado (parece que é uma campanha contra a pobreza), passa na RTP (pelo menos) um vídeo que é um atentado ao mau gosto. Pior: destrói, de uma penada, uma bela música (dos Trovante) e um belíssimo poema (de Florbela Espanca), espantosamente com a conivência de um dos seus criadores (João Gil).
22 de novembro de 2010
BRANCO É, A GALINHA O PÕE. Se me pedissem para caracterizar a entrevista à RTP da principal testemunha do processo Casa Pia, resumi-la-ia, sem hesitação, numa palavra: cristalina.
19 de novembro de 2010
SÓ PARA CHATEAR. A aversão que alguns sentem pelas maquinetas de leitura digital — os chamados e-books — faz-me lembrar a renitência que eu tinha em usar um processador de texto, que terminou no dia em que percebi as suas vantagens. Como expliquei vezes sem conta, prefiro o papel às maquinetas, mas ainda agora descarreguei para o e-book três contos de Alejo Carpentier que não encontro impressos em lado nenhum. Por razões que também já expliquei, nunca vi o e-book como substituto do livro em papel, mas como um complemento, porque o e-book não se destina, apenas, à leitura de livros, embora raramente se mencionam as outras funções. Também já disse que os livros em papel subsistirão enquanto os leitores assim o desejarem, e a aversão que alguns têm aos e-books é já um garante. Confesso, sobre isto, que me rala mais as árvores que se abatem para que com elas se façam livros que não valem o papel em que são impressos. (Isto a propósito de um post do Francisco e de uma crónica de Jorge Marmelo.)
18 de novembro de 2010
ASSIM, SIM. Varrida a porcaria, temos, finalmente, selecção. Ainda melhor: devolveram-nos a selecção que se batia de igual para igual com qualquer outra, graças ao futebol praticado e ao destemor com que enfrentava qualquer adversário. Não, não foi por causa da goleada aos campeões mundiais, ou por ter ganho à Dinamarca e à Islândia. Foi, essencialmente, porque finalmente podemos ver os artistas da bola fazer o que sabem, o futebol contagiante doutros tempos, e a alegria dos jogadores dentro do campo. Como disse o craque dos craques no rescaldo do Portugal-Espanha, os jogadores gostam de «coisas básicas e processos simples». Só não viu que assim é quem insistiu em esconder a ignorância com métodos pseudocientíficos que ninguém percebe, que só produzem um futebol deprimente e resultados desastrosos.
16 de novembro de 2010
FALHANÇO TOTAL. Como escrevi por ocasião das Presidenciais de 2008, votei Obama porque não me pareceu que o opositor fosse capaz de provocar a catarse que o país necessitava, porque me pareceu que Obama era o que melhor corporizava a vontade de mudança, porque achei que se renderia ao pragmatismo em matérias como a segurança, porque Obama era, em suma, o menos mau dos candidatos. Dois anos volvidos, o saldo é francamente pior do que imaginava. (Continua aqui.)
11 de novembro de 2010
CARPENTIER. Ainda vou a meio, mas já deu para ver que é um livro notável. Depois de El reino de este mundo e Los pasos perdidos, que li com o prazer das boas descobertas, El siglo de las luces é um livro que leio com o sorriso que reservo aos melhores, e nem o meu deficiente espanhol impede de me deliciar com cada parágrafo. (Vejam, já agora, uma excelente entrevista com Alejo Carpentier.)
10 de novembro de 2010
ÀS ARRECUAS. Manuel Alegre apoia a greve geral, mas não apoia a greve geral. Lamenta a ausência de dirigentes do PS nas suas acções de campanha, mas depois diz que falou para toda a gente. É a famosa estratégia de um passo em frente e dois à rectaguarda, do avançar recuando, que ameaça tornar-se um exercício penoso para o candidato, e um embaraço para os seus apoiantes.
9 de novembro de 2010
VARGAS LLOSA VINTAGE. «(...) no veo por qué tendría el Estado que prohibir que una persona adulta y dueña de su razón decida hacerse daño a sí misma, por ejemplo, fumando porros, jalando coca, o embutiéndose pastillas de éxtasis si eso le gusta o alivia su frustración o su desidia. La libertad del individuo no puede significar el derecho de poder hacer solo cosas buenas y saludables, sino, también, cosas que no lo sean, a condición, claro está, de que esas cosas no dañen o perjudiquen a los demás. Esa política, que se aplica al consumo de tabaco y alcohol, debería también regir el consumo de drogas. Es peligrosísimo que el Estado empiece a decidir lo que es bueno y saludable y malo y dañino, porque esas decisiones significan una intromisión en la libertad individual, principio fundamental de una sociedad democrática. Por ese camino se puede llegar insensiblemente a la desaparición de la soberanía individual y a una forma encubierta de dictadura. Y las dictaduras, ya lo sabemos, son infinitamente más mortíferas para los ciudadanos que los peores estupefacientes.»
5 de novembro de 2010
PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA. Evidentemente que um candidato a uma eleição não pode dizer que tem dúvidas sobre o que fazer, muito menos que duvida das suas capacidades para o fazer. Mas daí até gabar-se das qualidades que diz ter, como fez Cavaco no discurso de recandidatura, vai um abismo, ainda para mais as qualidades que diz ter são mais do domínio da opinião que dos factos. Mas fez pior o candidato presidencial: resolveu dizer que vê «com muita apreensão o desprestígio da classe política», como se Cavaco não fosse, também ele, um político, e também ele não tivesse contribuído para o desprestígio da classe política. Acredito que Cavaco seja «mais sério» que a maioria dos políticos em funções, mas a seriedade não se mede: é-se sério ou não se é, e o episódio das «escutas», para só falar do mais recente, foi muito esclarecedor.
3 de novembro de 2010
ELEIÇÕES AMERICANAS. Tenho para mim que a viragem à direita, bem expressa na vitória do Partido Republicano e no aparecimento do Tea Party, se deve, essencialmente, à circunstância de o Partido Democrático ter virado à esquerda, naturalmente reforçada pelo evidente fracasso da administração Obama. Será um fenómeno passageiro o Tea Party, mas estou convencido de que nada será como dantes depois do Tea Party. Considero, aliás, um erro subestimar as suas bandeiras, apesar de nem tudo lhe ter corrido bem nas eleições de ontem e de Sarah Palin ser, cada vez mais, um estorvo.
2 de novembro de 2010
NIM. Manuel Alegre encontra-se com as centrais sindicais para falar da greve geral, e sobre a dita declara não ser contra, nem a favor. Como já demonstrou em inúmeras ocasiões, o candidato do Bloco (e de algum PS) quer estar bem com deus e com o diabo, como se fosse possível estar simultaneamente bem com os dois e não estivesse demonstrado que a estratégia de agradar a todos acaba por não agradar a ninguém.
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