26 de novembro de 2010
O DOM DA UBIQUIDADE. Confirmei a má impressão que tinha de José Miguel Júdice devido a uma entrevista que ele deu ao Francisco José Viegas a propósito de bibliotecas, onde se fartou de dizer que leu tudo na juventude, e procurou passar a ideia que trata os livros por tu. Mas confesso que fazer parte da comissão de honra da candidatura de Cavaco Silva e simultaneamente lançar um livro onde diz que o actual presidente «destruiu» o PSD de Sá Carneiro e «foi autoritário», ultrapassou o que eu seria capaz de imaginar.
GREVE GERAL. O que terão ganho os trabalhadores com a greve geral? Terão sido beneficiados, um mínimo que seja? O que vai mudar para os trabalhadores após a greve geral? Ou muito me engano, ou vai mudar coisa nenhuma. Pior: não terão os grevistas contribuído para piorar ainda mais as coisas? Não está em causa o direito à greve, que a lei fundamental consagra, e é evidente que há razões para descontentamento. Mas cada vez me parecem mais ultrapassadas as «formas de luta» adoptadas pelos sindicatos, e não deve ser por acaso que os resultados dessas «formas de luta» são cada vez mais escassos.
25 de novembro de 2010
COMENTÁRIO MACHISTA. Não há dúvida que a catraia tem imenso talento. Não se admire é se vier a tornar-se famosa pelos atributos que a imagem documenta, nem se escandalize se alguém lhe lembrar que não hesitou em exibir os ditos quando lhe pareceu que a coisa lhe podia render fama e proveito.
24 de novembro de 2010
DO MAU GOSTO. Apesar de me parecer bem-intencionado (parece que é uma campanha contra a pobreza), passa na RTP (pelo menos) um vídeo que é um atentado ao mau gosto. Pior: destrói, de uma penada, uma bela música (dos Trovante) e um belíssimo poema (de Florbela Espanca), espantosamente com a conivência de um dos seus criadores (João Gil).
22 de novembro de 2010
BRANCO É, A GALINHA O PÕE. Se me pedissem para caracterizar a entrevista à RTP da principal testemunha do processo Casa Pia, resumi-la-ia, sem hesitação, numa palavra: cristalina.
19 de novembro de 2010
SÓ PARA CHATEAR. A aversão que alguns sentem pelas maquinetas de leitura digital — os chamados e-books — faz-me lembrar a renitência que eu tinha em usar um processador de texto, que terminou no dia em que percebi as suas vantagens. Como expliquei vezes sem conta, prefiro o papel às maquinetas, mas ainda agora descarreguei para o e-book três contos de Alejo Carpentier que não encontro impressos em lado nenhum. Por razões que também já expliquei, nunca vi o e-book como substituto do livro em papel, mas como um complemento, porque o e-book não se destina, apenas, à leitura de livros, embora raramente se mencionam as outras funções. Também já disse que os livros em papel subsistirão enquanto os leitores assim o desejarem, e a aversão que alguns têm aos e-books é já um garante. Confesso, sobre isto, que me rala mais as árvores que se abatem para que com elas se façam livros que não valem o papel em que são impressos. (Isto a propósito de um post do Francisco e de uma crónica de Jorge Marmelo.)
18 de novembro de 2010
ASSIM, SIM. Varrida a porcaria, temos, finalmente, selecção. Ainda melhor: devolveram-nos a selecção que se batia de igual para igual com qualquer outra, graças ao futebol praticado e ao destemor com que enfrentava qualquer adversário. Não, não foi por causa da goleada aos campeões mundiais, ou por ter ganho à Dinamarca e à Islândia. Foi, essencialmente, porque finalmente podemos ver os artistas da bola fazer o que sabem, o futebol contagiante doutros tempos, e a alegria dos jogadores dentro do campo. Como disse o craque dos craques no rescaldo do Portugal-Espanha, os jogadores gostam de «coisas básicas e processos simples». Só não viu que assim é quem insistiu em esconder a ignorância com métodos pseudocientíficos que ninguém percebe, que só produzem um futebol deprimente e resultados desastrosos.
16 de novembro de 2010
FALHANÇO TOTAL. Como escrevi por ocasião das Presidenciais de 2008, votei Obama porque não me pareceu que o opositor fosse capaz de provocar a catarse que o país necessitava, porque me pareceu que Obama era o que melhor corporizava a vontade de mudança, porque achei que se renderia ao pragmatismo em matérias como a segurança, porque Obama era, em suma, o menos mau dos candidatos. Dois anos volvidos, o saldo é francamente pior do que imaginava. (Continua aqui.)
11 de novembro de 2010
CARPENTIER. Ainda vou a meio, mas já deu para ver que é um livro notável. Depois de El reino de este mundo e Los pasos perdidos, que li com o prazer das boas descobertas, El siglo de las luces é um livro que leio com o sorriso que reservo aos melhores, e nem o meu deficiente espanhol impede de me deliciar com cada parágrafo. (Vejam, já agora, uma excelente entrevista com Alejo Carpentier.)
10 de novembro de 2010
ÀS ARRECUAS. Manuel Alegre apoia a greve geral, mas não apoia a greve geral. Lamenta a ausência de dirigentes do PS nas suas acções de campanha, mas depois diz que falou para toda a gente. É a famosa estratégia de um passo em frente e dois à rectaguarda, do avançar recuando, que ameaça tornar-se um exercício penoso para o candidato, e um embaraço para os seus apoiantes.
9 de novembro de 2010
VARGAS LLOSA VINTAGE. «(...) no veo por qué tendría el Estado que prohibir que una persona adulta y dueña de su razón decida hacerse daño a sí misma, por ejemplo, fumando porros, jalando coca, o embutiéndose pastillas de éxtasis si eso le gusta o alivia su frustración o su desidia. La libertad del individuo no puede significar el derecho de poder hacer solo cosas buenas y saludables, sino, también, cosas que no lo sean, a condición, claro está, de que esas cosas no dañen o perjudiquen a los demás. Esa política, que se aplica al consumo de tabaco y alcohol, debería también regir el consumo de drogas. Es peligrosísimo que el Estado empiece a decidir lo que es bueno y saludable y malo y dañino, porque esas decisiones significan una intromisión en la libertad individual, principio fundamental de una sociedad democrática. Por ese camino se puede llegar insensiblemente a la desaparición de la soberanía individual y a una forma encubierta de dictadura. Y las dictaduras, ya lo sabemos, son infinitamente más mortíferas para los ciudadanos que los peores estupefacientes.»
5 de novembro de 2010
PRESUNÇÃO E ÁGUA BENTA. Evidentemente que um candidato a uma eleição não pode dizer que tem dúvidas sobre o que fazer, muito menos que duvida das suas capacidades para o fazer. Mas daí até gabar-se das qualidades que diz ter, como fez Cavaco no discurso de recandidatura, vai um abismo, ainda para mais as qualidades que diz ter são mais do domínio da opinião que dos factos. Mas fez pior o candidato presidencial: resolveu dizer que vê «com muita apreensão o desprestígio da classe política», como se Cavaco não fosse, também ele, um político, e também ele não tivesse contribuído para o desprestígio da classe política. Acredito que Cavaco seja «mais sério» que a maioria dos políticos em funções, mas a seriedade não se mede: é-se sério ou não se é, e o episódio das «escutas», para só falar do mais recente, foi muito esclarecedor.
3 de novembro de 2010
ELEIÇÕES AMERICANAS. Tenho para mim que a viragem à direita, bem expressa na vitória do Partido Republicano e no aparecimento do Tea Party, se deve, essencialmente, à circunstância de o Partido Democrático ter virado à esquerda, naturalmente reforçada pelo evidente fracasso da administração Obama. Será um fenómeno passageiro o Tea Party, mas estou convencido de que nada será como dantes depois do Tea Party. Considero, aliás, um erro subestimar as suas bandeiras, apesar de nem tudo lhe ter corrido bem nas eleições de ontem e de Sarah Palin ser, cada vez mais, um estorvo.
2 de novembro de 2010
NIM. Manuel Alegre encontra-se com as centrais sindicais para falar da greve geral, e sobre a dita declara não ser contra, nem a favor. Como já demonstrou em inúmeras ocasiões, o candidato do Bloco (e de algum PS) quer estar bem com deus e com o diabo, como se fosse possível estar simultaneamente bem com os dois e não estivesse demonstrado que a estratégia de agradar a todos acaba por não agradar a ninguém.
29 de outubro de 2010
ENTRE A TRAGÉDIA E A CATÁSTROFE. Dizer o quê sobre a «guerra» do Orçamento que já não tenha sido dito e repetido? O caso será grave, segundo alguns gravíssimo, segundo outros estaremos mesmo à beira do abismo. Talvez pior: será uma tragédia se não for aprovado, uma catástrofe se for. O PSD sairá trucidado se o viabilizar, e sairá trucidado se não o viabilizar. Idem aspas para o Governo, que será irresponsável se não mudar o que lhe pedem, e irresponsável se se demitir. É por estas e por outras que eu, ao contrário de (quase) toda a gente, ainda não percebi se é melhor a tragédia ou a catástrofe, provavelmente por me ser indiferente qual dos partidos do poder sai a ganhar ou a perder.
28 de outubro de 2010
LEITURAS. Um belo livro este que agora terminei. A Fortune-Teller Told Me, de Tiziano Terzani, em Portugal editado pela Tinta da China sob o título Disse-me Um Adivinho, é um dos poucos livros de viagens que vale a pena, dos poucos que não me decepcionaram.
26 de outubro de 2010
CAVACO. Nunca fui grande entusiasta de Cavaco Silva, embora tivesse votado nele nas últimas Presidenciais caso tivesse votado. Mas hoje, depois do episódio das escutas, que deixou correr por julgar que beneficiaria a «família política» a que pertence em vez de o «matar» logo à nascença e que explicou tardiadamente e de modo inacreditável, não contará com o meu voto. Como se costuma dizer nestes casos, o episódio foi todo um programa, e eu não gostei do que vi. Infelizmente, os restantes candidatos ainda me parecem piores, pelo que será desnecessário dizer o que farei em Janeiro de 2011.
22 de outubro de 2010
BRANQUINHO. Evidentemente que a «transferência» do deputado Branquinho para o sector privado demonstra, de novo, como a política é um bom trampolim para voos mais altos. O «negócio» será «transparente», como garante o sr. deputado, e estou certo que inatacável do ponto de vista legal. Já de ética, seria melhor não falar, que a ética não é o que lhe convém que seja.
ESCREVEDORES & PUBLICANTES. Provavelmente acharão um exagero se eu disser que resido e trabalho numa área onde há mais escritores que leitores, mesmo que pretenda fazer uma caricatura, por natureza um exagero. (Continue a ler aqui.)
21 de outubro de 2010
LARSSON. Lidos os dois primeiros volumes da trilogia Millennium, confirmo: os livros de Stieg Larsson são, de facto, viciantes. Ao contrário da generalidade dos livros, que interrompo por estar a cair de sono sempre que os leio antes de adormecer, interrompo a leitura de Larsson porque são horas de me deitar, mas estou de tal modo desperto que me custa adormecer. Pareceu-me um exagero quando se falou de vício, mas agora sei do que estavam a falar.
20 de outubro de 2010
MUSEUS. Cruzei-me com um pintor que se queixou do preço dos museus, do modo como os museus aproveitam o espaço para facturar, das fortunas que fazem com o que lá expõem. Concordei com a generalidade das queixas, mas lembrei-lhe que não almoço pelo preço de uma entrada no Metropolitan, para citar um dos mais caros, onde não hesitaria pagar o dobro caso me pedissem o dobro.
19 de outubro de 2010
ESTÁ MAL. Gravar em áudio poemas de Fernando Pessoa e colocá-los no portal onde se encontra a sua obra, é boa ideia. Só que, ouvidas as gravações, descobre-se que os poemas são miseravelmente ditos. Há coisas que mais vale não se fazerem do que se fazerem mal feitas.
15 de outubro de 2010
UM ESCÂNDALO. Sempre que se fala de Manuela Moura Guedes e das suas escaramuças com o primeiro-ministro e a TVI menciona-se, de raspão, que a jornalista se encontra de baixa, como se o caso não tivesse importância. Acontece que o caso tem importância. Afinal, Manuela está de baixa desde que lhe suspenderam o Jornal de Sexta, já lá vai um ano e tal, e segundo os jornais é vista com frequência em acontecimentos sociais, onde se presume que não vai de cadeira de rodas ou por recomendação médica. Como é evidente, se fosse um cidadão anónimo que estivesse no lugar dela já se lhe tinha acabado a mama, ou apanhado por tabela, ou as duas coisas. Como é quem é, como Manuela ainda era capaz de dizer que lhe tiraram a baixa por ordens do primeiro-ministro, ninguém lhe põe em causa o expediente, ninguém se escandaliza, e ninguém move uma palha para mudar o que quer que seja. Ironicamente, Manuela sempre gostou de pregar a seriedade alheia, mas também isso não merece reparo. Parafraseando O’Neill, assim vai o país da minha tia.
14 de outubro de 2010
MINEIROS (3). Repararam como o ministro das Minas e o presidente da República chilenos souberam estar à altura do que se exigia? Com certeza que irão facturar politicamente à conta do caso, mas que mal tem facturar se trabalharam para o merecer? Imaginem, já agora, que o caso tinha ocorrido em Portugal. Estão a ver os governantes a arregaçar as mangas, como fizeram os chilenos? Estão a ver o famoso espírito do desenrasca a comandar as operações? Estão a ver a competição politiqueira para ver quem facturava mais? Estão a ver a chuva de críticas às cenas de patriotismo? Arrepia só de pensar.
MINEIROS (2). Na falta de palavras, faço minhas as de Ferreira Fernandes. Já as deste cavalheiro, são tão despropositadas como de mau gosto.
PASTORAL PORTUGUESA. O Rogério Casanova regressou com a promessa de fazer três posts semanais até ao final do ano.
12 de outubro de 2010
ALA QUE VEM AÍ BERNARDA. Fez bem Rui Moreira abandonar o Trio de Ataque, mas não pelas razões que invocou. Fez bem porque iria, mais tarde ou mais cedo, ter que enfrentar o conteúdo das escutas que envolvem o presidente do seu clube, que a desculpa para não falar delas é tão frágil que não se aguentaria por muito tempo. As escutas telefónicas que por aí circulam são demasiado graves para se fazer de conta que não existem, mesmo que se questione a sua validade como prova e o modo como foram divulgadas. Como imagino que lhe seria doloroso falar delas, aproveitou o que lhe pareceu uma ocasião soberana para se pôr ao fresco, e ainda tentou passar a ideia de que abandonou o programa por recusa em pactuar com comportamentos que tem por reprováveis. A estratégia só teve um pequeno senão: apenas convenceu quem já estava convencido.
11 de outubro de 2010
7 de outubro de 2010
COISAS QUE NÃO ENTENDO. Três membros do Conselho das Comunidades resolveram pedir uma audiência ao primeiro-ministro para «denunciarem a situação em que se encontra aquele órgão de consulta do Governo em questões de Emigração». Diz o conselheiro da Suíça que o Governo não os consulta, que o Conselho «não tem meios para orientar a sua actividade», e que ninguém quer saber deles. Ora, é preciso que se diga que o dito Conselho é, há anos, um verbo encher. Pior: nunca foi outra coisa, como as críticas dos seus membros o demonstraram desde a primeira hora. Assim sendo, por que não se demitem os srs. conselheiros? Palavra de honra que eu gostava de saber.
5 de outubro de 2010
O SISTEMA
Circula no YouTube uma gravação onde se ouve o presidente do Porto «sugerir» ao então presidente da arbitragem o «juiz» que deveria dirigir não me lembro que jogo dos «dragões», registo efectuado pelas autoridades no âmbito do «Apito Dourado» que nada provou apesar das evidências. Numa altura em que a polémica nas arbitragens está de volta, vale a pena ouvir a «conversa em família» entre os srs. Pinto da Costa e Pinto de Sousa (então presidente do Conselho de Arbitragem) para se perceber do que se fala quando se fala de corrupção no futebol. (A gravação inclui várias partes, todas esclarecedoras, mas a parte a que me refiro começa ao minuto 4:00.)
Circula no YouTube uma gravação onde se ouve o presidente do Porto «sugerir» ao então presidente da arbitragem o «juiz» que deveria dirigir não me lembro que jogo dos «dragões», registo efectuado pelas autoridades no âmbito do «Apito Dourado» que nada provou apesar das evidências. Numa altura em que a polémica nas arbitragens está de volta, vale a pena ouvir a «conversa em família» entre os srs. Pinto da Costa e Pinto de Sousa (então presidente do Conselho de Arbitragem) para se perceber do que se fala quando se fala de corrupção no futebol. (A gravação inclui várias partes, todas esclarecedoras, mas a parte a que me refiro começa ao minuto 4:00.)
4 de outubro de 2010
NÃO PERCEBO. Não contesto a legitimidade de Carvalho da Silva e a importância da CGTP, mas alguém percebe o que ele diz quando abre a boca? Alguém percebeu o que ele disse, por exemplo, no Prós e Contras sobre a crise? Ou eu estou a perder as qualidades que me restam, ou o sujeito enrodilha-se de tal modo em abstracções e raciocínios cujo alcance me escapa que chego a duvidar que esteja a falar a sério. É doutorado em quê, já agora?
1 de outubro de 2010
THE PARIS REVIEW. Li, mal saíram, os quatro volumes de entrevistas da Paris Review (The Paris Review Interviews, em português parcialmente reunidas num só volume denominado Entrevistas da Paris Review, editado pela Tinta-da-China), mas não resisti a descarregá-las para o e-book mal soube que estão online. O e-book serve para isto, ou também para isto, ou sobretudo para isto.
30 de setembro de 2010
UMA PENA. Já aqui dei conta Da Nascente à Foz do Amazonas, a que hoje voltei e mais uma vez constatei que as editoras fazem mal ignorar. Se não me engano, o livro foi editado no Brasil em 1991, e nunca distribuído em Portugal. Uma pesquisa no Google diz-me que há uma edição portuguesa de uma autarquia, mas a bondade da coisa significa, na prática, quase nada em termos de visibilidade, e outro tanto em termos de distribuição. Alguma editora faz o favor de o ler? Verá que não dará o tempo por mal empregue.
NÃO ME ESTRAGUE COM MIMOS. Um exagero, caro Francisco, um exagero. Mas fica a intenção, que agradeço, e a admiração pelo Trompete que aí vem.
PRÉMIO A ESTUPIDEZ NÃO TEM LIMITES. «(...) o povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre.»
28 de setembro de 2010
JORNALISMO. Fernanda Câncio insurgiu-se contra o facto de jornalistas com carteira profissional exercerem a profissão em jornais como o Avante! (Partido Comunista), Acção Socialista (Partido Socialista) e Esquerda (Bloco de Esquerda), prática que diz violar o Estatuto do Jornalista. Acontece que quem lê publicações desse género sabe bem o que está a ler, e de que lado está quem lá escreve. Não sendo uma prática que se recomende, pelo menos é transparente. Já o jornalismo enviesado que se pratica um pouco por todo o lado, a começar pela imprensa dita de referência, onde as opiniões passam por factos com demasiada frequência e onde se esperaria que os jornalistas fossem isentos e independentes, é mais preocupante, até porque é mais difícil de detectar.
24 de setembro de 2010
CONSPIRAÇÕES. A teoria segundo a qual foram os americanos que orquestraram o 11 de Setembro de 2001 já tem barbas, mas como explicará Ahmadinejad o facto de a tramóia não ter invertido a tendência de queda da economia norte-americana, que seria o objectivo? Convenhamos que há teorias mais bem amanhadas, mas talvez fosse esperar demasiado de quem não se distingue pela subtileza.
BORGES. Descobri, numa passagem pela Book Culture (mais uma excelente livraria condenada ao desaparecimento graças aos clientes como eu), uma pérola de Borges. Como vai sendo habitual, tomei nota do título, e encomendei na Amazon. Suspeito que já li alguns textos de Otras inquisiciones noutro livro qualquer, mas prefiro tê-los em duplicado a não os ter.
23 de setembro de 2010
DÉJÀ VU. Contrariando o que toda a gente disse na altura, defendi que Manuel Maria Carrilho devia ter-se demitido quando recusou — e bem — cumprir uma ordem do Governo para votar num egípcio que se distinguiu por queimar livros. Como entendeu não haver motivo para tanto, como não o incomodou o facto de ter sido substituído por um subalterno no momento da votação, Carrilho merece o destino que teve. O resto — se foi informado pela tutela da sua substituição ou ficou a saber pelos jornais — interessa pouco, e se tivermos em conta episódios passados protagonizados pelo mesmo Carrilho ainda interessa menos.
21 de setembro de 2010
SILÊNCIO ELOQUENTE. Conhecida a celeuma que precedeu a divulgação parcial do acórdão do processo Casa Pia, esperar-se-ia que houvesse ainda mais barulho quando foi divulgado na íntegra. Afinal, só aí se ficou a saber de que foi acusado quem foi condenado, e pelo que foi dito até aí seria de esperar mais indignações. Estranhamente, nada disso sucedeu. Tirando um fogacho aqui e ali, instalou-se o silêncio à volta do caso. Um silêncio demasiado eloquente.
O CÃO DE RIVERA. Conta-se que um dos cães de Rivera urinou numa aguarela que o mestre acabara de pintar, e que Rivera, furioso, agarrou num machete e perseguiu o animal por toda a casa. Encurralado numa divisão, o canídeo suplicou, em silêncio, piedade. Desconsertado, o pintor virou-se para ele e disse-lhe: «Senhor Xólotl, você é o melhor crítico de arte que eu conheço.»(História contada no livro Soñar Com Los Ojos Abiertos: Una Vida de Diego Rivera, de Patrick Marnham.)
17 de setembro de 2010
CULTURA. Quais são os critérios para apoiar — ou não — determinada criação artística? Com que fundamentos se diz que a obra de fulano deve ter apoio do Estado e a de sicrano não deve? Estas são algumas das perguntas que eu gostaria de ver respondidas sempre que vem à baila o financiamento do Estado à cultura, não a conversa fiada do costume como a que a ministra da Cultura deu à estampa no Público.
15 de setembro de 2010
MUDAM-SE OS TEMPOS. Carlos Cruz insurgiu-se, com razão, contra o julgamento de que foi vítima nos media, que de um modo geral o condenaram. Mas agora, que se desmultiplica em entrevistas em todo o lado com o propósito de demonstrar a sua inocência, já achará bem ser julgado pelos media? Será preciso dizer que, segundo esta lógica, o julgamento nos media é bom quando a sentença nos convier, e mau quando não convier?
INDIGNAÇÕES DE PACOTILHA. Anda para aí meio mundo indignado com a forma como Carlos Queiroz foi afastado da selecção, e estou em crer que alguns genuinamente. Mas o que diria esta gente se a federação da bola o tivesse despedido de outro modo e lhe tivesse pago os milhões a que teria direito por quebra de contrato? Estaria bem? Não seriam estes senhores os primeiros a indignarem-se caso isso sucedesse? Não tenho a mais leve simpatia por quem manda na bola, nem por quem manda nos mandantes da bola. Mas isto de criticar por ter cão e criticar por não ter acaba por demonstrar que os mandantes da bola talvez tenham alguma razão, e talvez por isso mereçam o benefício da dúvida.
13 de setembro de 2010
TIROS DE PÓLVORA SECA. Não sei se Carlos Cruz é, ou não, culpado do que foi acusado, mas convenhamos que é fraquinho o argumento segundo o qual o tribunal decidiu condená-lo com base em preconceitos e que a investigação terá andado a reboque da opinião pública. Como explicar tanto erro junto quando é sabido que o processo envolveu investigadores da Judiciária, magistrados do Ministério Público e cinco juízes? São todos preconceituosos? Todos incompetentes? Como é evidente, o argumento não é fácil de digerir.
CAMPANHA MEDIÁTICA. Carlos Cruz sempre foi, para os media, o rosto do processo Casa Pia. Por se tratar do arguido mais mediático, porque foi um profissional de televisão conhecido por todos e por todos respeitado. Não estranho, por isso, que surja em toda a comunicação social, que a comunicação social não tem obrigação de dar tratamento equivalente aos restantes arguidos nem funciona por quotas, ao contrário do que alguns julgam e outros desejariam. Posto isto, duvido que as constantes aparições de Cruz nas televisões e nos jornais o beneficiem aos olhos da opinião pública, apesar da ajudinha que lhe têm dado e da falta de profissionalismo com que alguns lidaram com o caso, como foi público e notório no Prós e Contras. Aliás, as explicações que Cruz entendeu dar na tentativa de demonstrar a sua inocência não têm, a meu ver, beneficiado a sua tese. Bem pelo contrário.
MONSTRUOSIDADES. Tirando Carlos Silvino, que confessou ter cometido alguns crimes de que foi acusado, nenhum dos restantes arguidos no processo Casa Pia diz ter praticado os actos pelos quais foi condenado. (Continue a ler aqui.)
8 de setembro de 2010
OBSCENO. Carlos Cruz passou a semana que antecedeu a sentença da Casa Pia a «perturbar a ordem e a tranquilidade públicas», como alertou o advogado José Maria Martins, que chegou a dizer que se fosse outro o arguido teria sido preso. Agora, depois de saber que foi condenado a sete anos de cadeia, colocou, na sua página pessoal, vídeos com que pretende demonstrar a sua inocência, matéria cuja divulgação terá sido proibida pelo tribunal. Como nada sucedeu até agora, como Carlos Cruz e seus advogados continuam a dizer o que muito bem entendem sem que nada lhes suceda e a fazer toda a espécie de ameaças sem que alguém se rale, tudo isto será normal. Anormal, pelos vistos, seria a justiça dar-se ao respeito e fazer-se respeitar.
7 de setembro de 2010
TRAULITEIRO PINTO. O bastonário da Ordem dos Advogados não conhece o processo, nunca viu o processo, mas acha que as penas de Carlos Silvino e de Carlos Cruz foram «excessivas». Já quando lhe perguntaram pelas vítimas, se tinha alguma coisa a dizer sobre as vítimas, o cavalheiro meteu os pés pelas mãos e refugiou-se em generalidades. Como demonstrou variadíssimas vezes durante o Prós e Contras sobre o processo Casa Pia, as vítimas, para ele, não contam, e nem se preocupou em disfarçar o desprezo que por elas sentia. Bem sei que a missão do sujeito é defender os seus pares, embora também aqui demonstrasse preferência pelos advogados dos arguidos, como lembrou um dos presentes no debate. Esperar-se-ia, contudo, mais substância e menos foguetório, embora já se soubesse que Marinho Pinto é mais para o tendeiro.
3 de setembro de 2010
BORGES. Onze centímetros de lombada, quase mil e setecentas páginas, mais de quilo e meio de peso. Eis a minha última aquisição, praticamente ao preço do transporte, depois de me ter cansado de esperar pela tradução inglesa (ou portuguesa), que a língua de Borges não é o meu forte. Como geralmente leio deitado, não vai ser fácil aguentar o peso, e o volume também não ajuda. Mas não vai ser por isso que vou deixar de o ler, deitado ou doutro modo. Só espero que não haja problema de maior quando, já a dormir, o livro me cair em cima, como sucede cada vez com maior frequência quando leio antes de adormecer.
2 de setembro de 2010
O MENOS MAU. O processo que ditará o afastamento de Queiroz da selecção nacional foi um bocado manhoso? Não há dúvida que foi. O ideal seria que corressem com ele logo que demonstrou que não servia, não há dúvida que seria. Acontece que despachá-lo dessa maneira teria custos muito elevados, que estariam agora a ser questionados caso tivesse sido esse o caminho. Como as coisas chegaram onde chegaram, abrindo-se a porta do despedimento por justa causa, não há o problema da indemnização por contrato não cumprido. Podia ter corrido melhor o processo? Podia. Podia ter sido melhor o desfecho? Duvido.
31 de agosto de 2010
UBALDO. Tenho ali Viva o povo brasileiro, que me custou os olhos da cara, e que procurei durante alguns anos. Li 89 páginas das 700, e confirmo que o livro é para ler em ocasiões especiais, quando estiver sedento de leituras e nada me satisfizer. Tal como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, um livro que sabe bem ter ao alcance da mão quando me cansar de leituras, e mais dois ou três de que agora não me lembro. Bem sei que isto é um juízo à priori, e se há juízos precipitados são os juízos à priori. Mas eu quero pensar que são bons, fora de série, excepcionais, e estou pouco interessado em saber que não é assim.
COISAS BOAS

Além do blogue, o Francisco Duarte Azevedo tem uma página pessoal. A imagem que aqui reproduzo, um acrílico sobre papel, é uma das várias que vale a pena ver.
27 de agosto de 2010
SILÊNCIO ENSURDECEDOR. O que mais impressiona nos casos de lapidação e outras práticas medievais, sempre por razões incompreensíveis ao comum dos mortais, é constatar-se que o Islão dito moderado não abre a boca sobre tais práticas. Quando se esperaria que os moderados fossem os primeiros a insurgir-se, até para demonstrar que não existe motivo para que se olhe para eles com desconfiança, os sujeitos não dizem um ai sobre o assunto, nem mexem uma palha para impedir a barbaridade. Depois queixam-se que há quem suspeite que eles são coniventes com tais práticas.
PANTOMINEIROS. Se ninguém rasgou as vestes por causa de um clube de strip perto do Ground Zero, porquê tanto alarido por causa de uma mesquita no mesmo local? A pergunta é de Luís Rainha, e encerra um raciocínio que pretende ser óbvio: as duas coisas são comparáveis, logo deviam ter reacções equivalentes. Acontece que as duas coisas não são comparáveis, como Rainha bem sabe. O que talvez não saiba é que as pessoas não são tão estúpidas como ele imagina, e que pantomineiros como ele se detectam à légua.
25 de agosto de 2010
DA POUCA-VERGONHA. Parece que a palmeira que domingo caiu em Porto Santo e matou uma pessoa e feriu outras duas era para ter caído em cima de Alberto João Jardim, como insinuou o próprio. «É muito estranho cair uma palmeira no meio de um comício do PSD», disse o presidente da Madeira. Como não foi assim, como a palmeira caiu em cima de cidadãos anónimos, não vai andar «à procura de arranjar culpados», que «todos os dias caem milhões de palmeiras em todo o mundo». Que a dita palmeira tivesse a raiz «completamente podre», como admitiu o autarca local, ou que o caso já tenha sido detectado há anos, como descobriu o Público, não importa. O que importa é que não caiu em cima dele, logo não vai andar para aí «a fazer demagogia». Quanto aos três desgraçados que levaram com a palmeira, pêsames à família da falecida, e as melhoras aos restantes.
LOBO ANTUNES (2). Os militares que combateram na guerra colonial merecem respeito? Sem dúvida que merecem. Deve o Estado fazer tudo o que puder para minimizar os danos que a guerra eventualmente lhes causou? É evidente que sim. Mas isso não invalida que se possa falar de abusos cometidos na guerra por esses mesmos militares, gostem, ou não, da ideia. E não só de abusos, que nem todos os militares foram exemplares. Fica-lhes mal, portanto, esconder o óbvio, e ameaçar quem se atreve a dizer o que, afinal, todos sabem.
23 de agosto de 2010
LOBO ANTUNES (1). Quem ignora que os militares portugueses cometeram abusos na guerra colonial como os que Lobo Antunes descreve em Uma Longa Viagem? Além de me custar a crer que o escritor tenha mentido, não me parece que os episódios narrados no livro ponham em causa a honra e a dignidade dos militares portugueses na guerra colonial. Como eles muito bem sabem, as guerras prestam-se a toda a espécie de abusos, e a guerra colonial não foi excepção. Há, aliás, inúmeros relatos que o demonstram, e adivinha-se que outros casos não sejam conhecidos porque é desagradável recordá-los. Eu próprio ouvi, de viva voz, relatos de abusos contados pelos próprios que os cometeram, alguns deles verdadeiramente chocantes, mas nem por isso concluí que os militares que fizeram a guerra colonial eram uns patifes. O pior que os militares podem fazer para defender a honra e a dignidade a que têm direito é armarem-se em virgens ofendidas e prometerem esmurrar quem revelar verdades inconvenientes.
LIVROS. Ao contrário de quem vive angustiado pelos livros que não leu, saber que há livros que ainda não li, e provavelmente não lerei, é um prazer. Imaginem a chatice que seria se eu já tivesse lido tudo o que gostaria, ou tudo o que considero importante. Almada Negreiros provavelmente nunca pensou nisso quando escreveu que estaria perdido se não encontrasse maneira de ler todos os livros que desejava.
20 de agosto de 2010
JUSTIÇA ASININA. Como notou o João Miranda, a justiça não dorme. Andava a gente a pensar que ela não funciona, ou funciona mal, e descobre-se que funciona na perfeição.
LIVROS. Eu sei que todos os dias fecham livrarias devido ao comportamento de leitores como eu, mas como resistir a um livro (Borges, de Bioy Casares) que me custou menos de sete dólares quando numa livraria me custaria cinco vezes mais? A diferença é abissal porque o livro é usado, mas a diferença entre comprar um novo na livraria ou online justificaria, na mesma, a compra online. Não sei o que vai suceder às livrarias, e angustia-me pensar que grande parte delas vai desaparecer. Mas eu não sou benemérito, e não me posso dar ao luxo de comprar por dez o que posso comprar por cinco.
16 de agosto de 2010
CENAS TRISTES. Se Pinto da Costa e Luís Filipe Viera acham o caso «ridículo» e outros personagens da bola põem as mãos no fogo por ele, dificilmente Queiroz será removido da selecção. De facto, está demonstrado que o seleccionador tem as costas bem quentes, e só um tufão o removerá. Que permaneça em funções desacreditado e/ou ridicularizado, é uma questão de somenos. Importante é que permaneça, em nome não se sabe de quê, custe isso o que custar. Como perceberão pelas razões que expus em variadíssimos posts, lamento que assim seja. Curiosamente, todos os dias surgem notícias a confirmar a incompetência do sujeito. Enquanto uns saem à rua para defender (e potenciar) a matéria-prima de que dispõem (o caso de Mourinho por Cristiano Ronaldo), outros fazem exactamente o contrário (o caso de Queiroz por Cristiano Ronaldo). Então o seleccionador acha que «Ronaldo foi capitão cedo de mais»? Não será isso um atestado de incompetência ao nosso maior craque? O que pensará ele disso? Terá encarado o recado como um estímulo? Quando é que Queiroz pára de sacudir a água do capote e deixa de atribuir a terceiros a culpa que só a ele lhe pertence? Com certeza que a braçadeira de capitão no braço de Ronaldo é uma decisão questionável, mas espera-se que o seleccionador não corrija um erro com outro. Afinal, espera-se de um seleccionador que estimule os seus comandados, não o contrário. Razão tinha o craque quando se virou para o seleccionador e lhe disse: «Assim não ganhamos, Carlos.» Foi de capitão.
12 de agosto de 2010
FONTES ANÓNIMAS. Vale a pena ler a última crónica do Provedor do Leitor do Público — e, já agora, não só a última crónica. Chamo a atenção para a última crónica porque nela se fala das fontes anónimas, do uso e abuso das fontes anónimas quando se esperaria que apenas fossem usadas em circunstâncias excepcionais, em casos em que a informação é de tal modo relevante que não há como as ignorar — e, claro, sempre que não seja possível identificar as fontes sem as expor a situações delicadas. Apesar de o provedor se revelar crítico com o uso das fontes anónimas, não abordou, como se esperaria, um tema de que nunca se fala quando se abordam estes assuntos: as fontes anónimas que não passam de invenções dos jornalistas, que vêem nelas um expediente seguro para dizerem o que lhes apetece sem terem que identificar a origem da informação. Como não bastasse o facto de as fontes anónimas se prestarem, pela circunstância de os seus autores não serem identificados (e não estarem, por isso, sujeitos a escrutínio acerca da veracidade do que dizem), a que sobre elas se levantem as mais legítimas suspeitas (até porque custa a crer que algumas das fontes anónimas não possam identificar-se sem correr riscos maiores), a possibilidade de os jornalistas atribuírem a fontes anónimas o que eles próprios inventam reduz ainda mais a confiança na informação que não pode ser confirmada. Tenho, aliás, cada vez mais dúvidas de que se deva recorrer às fontes anónimas, mesmo em caos mais extremos. É que o precedente das fontes anónimas abre caminho a toda a espécie de abusos, não só por parte dos jornalistas, e suspeito que o que se ganha não vale o que se perde.
10 de agosto de 2010
QUEIROZ (2). Independentemente do que venha a suceder, já todos perceberam que Carlos Queiroz deixou de ter condições para se manter no cargo de seleccionador nacional. Saia a bem, saia a mal, não há outro caminho: a porta da rua, com indemnização ou sem ela. Já repararam que não há uma única criatura que o defenda? Já viram que os únicos reticentes quanto à sua saída apontam o dinheirinho que ele poderá embolsar com a quebra de contrato? Alguém imagina Carlos Queiroz sentado no banco depois de as coisas terem chegado onde chegaram? Bem sei que gente importante acabou de jurar por Queiroz, mas nisto da bola nunca se sabe o que é genuíno e o que é interesse. Certo e sabido é que Queiroz perdeu o crédito que lhe restava, nomeadamente dos seus comandados, e sem ovos não se fazem omeletas.
QUEIROZ (1). Ignoro se o presidente da República e o primeiro-ministro estão na lista das testemunhas abonatórias de Queiroz no processo disciplinar de que está a ser alvo, mas não me surpreenderia que estivessem. Depois do corrupio de figuras de peso da bola (Alex Ferguson, Luís Figo, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira) que depuseram — ou vão depor — em abono do seleccionador, seguramente que não será fácil uma decisão que contrarie a vontade destes senhores. Até porque uns já disseram que o processo «é ridículo» (Pinto da Costa), e outros que é «lamentável» (Alex Ferguson). Aliás, não percebo por que razão foram estes senhores chamados à Federação para falar sobre o caso. O que terão eles a dizer sobre os insultos que o seleccionador terá proferido? Que Queiroz é uma excelente pessoa? Se assim é, que importância terá isso para o caso?
9 de agosto de 2010
PRAGAS. É moda dizer-se que ninguém é isento, logo não é possível redigir uma notícia de forma equilibrada. (Continuar a ler aqui.)
6 de agosto de 2010
FREEPORT. O caso Freeport poderá ser reaberto? Pelo menos servirá para vender mais uns jornais, que bem necessitados andam de vender mais uns exemplares. Isto partindo do princípio que ainda há quem se interesse pelo Freeport, o que não é seguro. Não, não sei se houve razão para encerrar o caso ou para agir de outro modo, que desisti de perceber o que é relevante e o que é mero ruído, e cansei-me de ver as bombas atómicas lançadas pelo jornal de Manuela Moura Guedes transformadas em bichas-de-rabear no dia seguinte. O que sei é que a justiça se tornou uma anedota nos melhores casos e uma tragédia nos piores, sem que se vislumbre o que está a ser feito para que mude alguma coisa.
5 de agosto de 2010
O ÓBVIO ULULANTE. Não conheço o caso com profundidade bastante para que sobre ele possa ter uma opinião fundamentada, mas não me parece normal existir um Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, e até me parece perigoso que ele tenha o poder que lhe atribuem. Mas numa coisa tem o sindicato razão: a hierarquia do Ministério Público está «moribunda», provavelmente por «falta de capacidade» de Pinto Monteiro para exercer os poderes de que dispõe. De facto, o PGR tornou-se uma figura desacreditada, um factor de instabilidade, e cada dia que passa nota-se mais. Se a sua saída não resolverá, por si só, a questão de fundo, seguramente que será um bom começo.
3 de agosto de 2010
OBVIAMENTE DEMITA-SE. Se o PGR «tem os poderes da Rainha de Inglaterra» (leia-se muito poucos) e não consegue mandar no Ministério Público, por que se mantém Pinto Monteiro no cargo? Por que assumiu ele o lugar sabendo que os poderes que teria seriam, na sua opinião, pouco mais que simbólicos? Alguém acredita que só agora o PGR descobriu a pólvora? E, se foi só agora, por onde andou estes anos todos? Quando é que o PGR reconhece a incompetência para dirigir o tal órgão de que se queixa e age em conformidade?
UM ENIGMA. O que quererá o PGR dizer quando diz nunca ter visto, «na [sua] longa vida de magistrado», um despacho igual ao caso Freeport? Quererá dizer que houve pressões governamentais que provocaram o seu desfecho? Quererá dizer que os titulares do processo foram incompetentes? Quererá dizer as duas coisas? Já ouvi que o PGR anunciou um inquérito destinado ao «integral esclarecimento de todas as questões de índole processual ou deontológica» que o arquivamento do caso possa suscitar. Acontece que os inquéritos mandados abrir pelo procurador acabam em nada, e são tantos os exemplos que se torna legítimo suspeitar que os inquéritos apenas servem para calar os mais exaltados e pôr uma pedra sobre o assunto.
2 de agosto de 2010
FAÇAM UM PEDITÓRIO. A cena dos insultos à malta do doping será, provavelmente, o pretexto que faltava para afastar o seleccionador nacional. Para quem, como eu, manifestou reservas face ao desempenho de Carlos Queiroz à frente da selecção, todas as razões são boas para correr com ele, pelo que tanto me faz que seja por uma razão, ou por outra. O «professor» já demonstrou variadíssimas vezes que não serve, e nem os objectivos cumpridos escondem a evidência. E a evidência demonstra que o sujeito só arranja sarilhos, impede que os jogadores façam o que sabem, e como líder é um desastre. Pior: não tem ambição, não tem currículo, nem tem competência. Se o problema for o dinheirinho que ele há-de arrecadar caso o ponham na rua, experimentem fazer um peditório. Verão que não será por aí que o homem não deixará de se ir embora.
26 de julho de 2010
FÉRIAS (3). Comecei pela McNally (onde nunca tinha ido mas conto voltar em breve), segui para a Strand (provavelmente a melhor livraria de Manhattan), terminei num antiquário de livros de viagens (The Complete Traveller). Da romaria resultou dois livros comprados (Without Stopping: An Autobiography, e Days: A Tangier Diary, ambos de Paul Bowles), e uma lista de títulos a comprar via internet nos sítios do costume (calculo que assim pouparei o custo de dois livros). Fora isso, ópera na estação do metropolitano da Union Square, guitarra de primeira na Penn Station. Não fora o calor no metropolitano, alguma chuva no lombo e a pizza a pingar óleo, diria que foi um dia perfeito.
22 de julho de 2010
FÉRIAS (2).
Immediately when you arrive in the Sahara, for the first or the tenth time, you notice the stillness. An incredible, absolute silence prevails outside the towns; and within, even in busy places like the markets, there is a hushed quality in the air, as is the quiet were a conscious force which, resenting the intrusion of sound, minimizes and disperses sound straightway. Then there is the sky, compared to which all other skies seem faint-hearted efforts. Solid and luminous, it is always the focal point of the landscape. At sunset, the precise, curved shadow of the earth rises into it swiftly from the horizon, cutting it into light section and dark section. When all daylight is gone, and the space is thick with stars, it is still of an intense and burning blue, darkest directly overhead and paling toward the earth, so that the night never really grows dark.
You leave the gate of the fort or the town behind, pass the camels lying outside, go up into the dunes, or out onto the hard, stony plain and stand awhile, alone. Presently, you will either shiver and hurry back inside the walls, or you will go on standing there and let something very peculiar happen to you, something that everyone who lives there has undergone and which the French call le baptême de la solitude. It is a unique sensation, and it has nothing to do with loneliness, for loneliness presupposes memory. Here, in this wholly mineral landscape lightened by stars like flares, even memory disappears; nothing is left but your own breathing and the sound of your hearth beating. A strange, and by no means pleasant, process of reintegration begins inside you, and you have the choice of fighting against it, and insisting on remaining the person you have always been, or letting it take its course. For no one has stayed in the Sahara for a while is quite the same as when he came.
Paul Bowles, Their Heads Are Green and Their Hands Are Blue: Scenes from the Non-Christian World
Immediately when you arrive in the Sahara, for the first or the tenth time, you notice the stillness. An incredible, absolute silence prevails outside the towns; and within, even in busy places like the markets, there is a hushed quality in the air, as is the quiet were a conscious force which, resenting the intrusion of sound, minimizes and disperses sound straightway. Then there is the sky, compared to which all other skies seem faint-hearted efforts. Solid and luminous, it is always the focal point of the landscape. At sunset, the precise, curved shadow of the earth rises into it swiftly from the horizon, cutting it into light section and dark section. When all daylight is gone, and the space is thick with stars, it is still of an intense and burning blue, darkest directly overhead and paling toward the earth, so that the night never really grows dark.
You leave the gate of the fort or the town behind, pass the camels lying outside, go up into the dunes, or out onto the hard, stony plain and stand awhile, alone. Presently, you will either shiver and hurry back inside the walls, or you will go on standing there and let something very peculiar happen to you, something that everyone who lives there has undergone and which the French call le baptême de la solitude. It is a unique sensation, and it has nothing to do with loneliness, for loneliness presupposes memory. Here, in this wholly mineral landscape lightened by stars like flares, even memory disappears; nothing is left but your own breathing and the sound of your hearth beating. A strange, and by no means pleasant, process of reintegration begins inside you, and you have the choice of fighting against it, and insisting on remaining the person you have always been, or letting it take its course. For no one has stayed in the Sahara for a while is quite the same as when he came.
Paul Bowles, Their Heads Are Green and Their Hands Are Blue: Scenes from the Non-Christian World
19 de julho de 2010
Francisco José Viegas sobre Cristiano Ronaldo: «O desejo de humilhar os melhores transformou Portugal num país ressentido que odeia exceções e tem horror ao "quadro de honra".»
16 de julho de 2010
15 de julho de 2010
O INCRÍVEL PAÍS DA MINHA TIA (5). Tirando os próprios e os organismos que os representam (Ordem, sindicatos, por aí fora), ainda não vi quem defendesse um limite de vagas no acesso à medicina. Qualquer cidadão escassamente informado sabe bem que há falta de médicos, ou que estão mal distribuídos, o que vai dar ao mesmo. Custa, portanto, ouvir o bastonário da Ordem dos Médicos dizer que «devíamos estar a reduzir o número de vagas disponíveis», a pretexto de que com a actual política de vagas haverá desemprego dentro de dez anos. Diz mais Pedro Nunes: não há garantias de que os estudantes de medicina vão ser pagos durante o internato — nem, sequer, que terão vagas no internato. A única garantia, diz o bastonário, é que não haverá emprego para todos. Ora, seguindo a «doutrina» do ilustre, quem garante emprego aos advogados, aos economistas, aos engenheiros e aos carpinteiros que pretendem entrar no mercado de trabalho? Sim, porque estes e outros profissionais deviam ter garantias idênticas às que o bastonário reclama para os médicos. Ou não?
14 de julho de 2010
IGREJA UNIVERSAL. A propósito do cidadão que destruiu um templo (ou lá como se chama) da Igreja Universal, alegando que a dita ficou «com o dinheiro de todos os seus bens», talvez não fosse má ideia rever o vídeo na imagem.
12 de julho de 2010
MEIAS VERDADES. Águas passadas recomendam prudência face às notícias do Sol, embora me custe a crer que o jornal tornasse uma coisa no seu contrário. De uma coisa, porém, não duvido: pela gravidade da reacção do seleccionador nacional de futebol à notícia daquele semanário (Queiroz negou ter dito ao Sol que com «a estrutura amadora» da Federação seria difícil ir mais longe no Mundial e considerou «vigarista» e «aldrabão» o autor da peça), faria bem o autor da notícia divulgar a gravação que diz possuir. Infelizmente, o Sol já disse que não irá divulgar o teor da conversa, alegando tratar-se de um assunto que deve ficar entre o jornalista e a fonte. Permanecerá, portanto, a dúvida sobre quem fala verdade e quem mente, e quer-me parecer que o Sol perderá, a prazo, o que terá ganho no presente. Já o seleccionador, é evidente que a dúvida o prejudica de imediato. Ironicamente, quando poderá ter a razão que ainda não teve.
7 de julho de 2010
COISAS SEM IMPORTÂNCIA. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social descobriu, de repente, que o facto de o Governo de Alberto João Jardim deter maioritariamente o Jornal da Madeira (99,98%) põe «em risco objectivo» o pluralismo da imprensa no território. Vai daí, deu-lhe 10 dias (já passaram cinco) para adoptar as providências «necessárias e adequadas à supressão dos efeitos nefastos», recomendando-lhe a «observância de práticas não discriminatórias» na distribuição de publicidade pelos diferentes órgãos de comunicação social, bem como o uso de critérios de «equidade», «proporção» e «transparência». Evidentemente que a denúncia peca por tardia, e com certeza que nada mudará. Veja-se, por exemplo, o barulho causado pela alegada tentativa de compra da TVI por parte da PT e compare-se com o silêncio generalizado à volta do JM. Como é que um caso merece tanto barulho e o outro o silêncio generalizado? Por aqui se vê que o episódio dará em nada, mas nem era preciso.
5 de julho de 2010
NO PASA NADA. Carlos Queiroz disse que Portugal foi inteligente frente à Costa do Marfim, que frente ao Brasil fizemos «uma boa exibição», e no balanço final disse que Portugal fez «um bom trabalho», que o dever foi cumprido, e que «prestigiámos o futebol português». Tudo isto dito com ar grave, presumo que convencido do que estava a dizer. Ora, procurar tapar o sol com a peneira e relativizar o fracasso, ainda vá. Mas estar sinceramente convicto de que correu bem o que visivelmente não correu bem, já é grave.
AO CUIDADO DOS QUEIROZIANOS. Ronaldo tem jogado quase nada na selecção? É um facto. Valia, porém, a pena apurar por que razão isso sucede em vez de se fazer dele o bode expiatório de todas as frustrações. Dou uma ajuda: no tempo em que o devoto da Senhora do Caravaggio comandava a selecção Ronaldo jogava e metia golos, e não será preciso grande esforço de memória para se constatar que Ronaldo «desapareceu» com a entrada de Queiroz. E por que razão terá isso sucedido? Porque anda amuado? Porque está desmotivado? Porque não está em forma? Porque está com azar? Porque se está borrifando para a selecção? Desculpem lá o mau jeito, mas nada disto me convence. Como também não me convence a aparente mediania dos nossos jogadores, como há muito quem diga por aí, assim procurando passar a ideia de que o seleccionador se limitou a fazer o possível face ao que tinha. O problema é que «assim não ganhamos», como disse Ronaldo no jogo frente à Espanha. É tão evidente que mete dó. (Nota: o famoso vídeo de Ronaldo frente à Espanha foi, entretanto, retirado de circulação, aparentemente por violar direitos de autor.)
1 de julho de 2010
DO SENSO COMUM. Humberto Coelho sobre Cristiano Ronaldo: «Quando uma equipa tem um jogador deste valor, tem de jogar o mais possível para ele. Foram os casos do Portugal de Eusébio, do Brasil de Pelé, da Argentina de Maradona e Messi.»
FORA DE JOGO. Não duvido que o Mundial de Futebol convém ao Governo em funções, e se as coisas correrem bem à selecção portuguesa ainda conviria mais. (Continuem a ler aqui.)
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