20 de maio de 2011

O FIM DO MUNDO. Em menos de uma semana, uma profecia de um cavalheiro que morreu há trinta anos diz que vai haver um terramoto em Roma e milhões de romanos fogem assustados, em Fátima terá havido um milagre, e um americano anuncia o fim do mundo para amanhã. Sim, para amanhã, às seis da tarde, hora de Nova Iorque. Como dizia o outro, também não acredito em bruxas, mas convenhamos que isto é demais até para um ateu.

19 de maio de 2011

ANTIAMERICANISMO ESTÁ DE VOLTA. Como seria de prever, a prisão de Dominique Strauss-Khan tornou-se motivo para manifestações de antiamericanismo primário. Os americanos quiseram, com a prisão do presidente do FMI, mostrar não sei quê a não sei quem. Os americanos são uns provincianos. A justiça dos americanos vem dos tempos das cavernas. Resumindo, os americanos são primários, simplórios, umas bestas. Juízos, curiosamente, também eles primários e simplórios, e geralmente assentes na ignorância. Talvez valesse a pena ler o Pedro Lomba no Público de hoje para melhor perceber como são as coisas e não dizer tantas asneiras.

17 de maio de 2011

STRAUSS-KAHN. Não me consta que Renato Seabra, de quem as autoridades nova-iorquinas suspeitam de ter cometido um crime, tenha chocado alguém quando apareceu algemado nas televisões e nas fotografias. Espanta-me, por isso, que alguns bem-pensantes venham agora exprimir indignação por ver Dominique Strauss-Kahn algemado, quando não abriram a boca ao verem o jovem modelo aparecer nas televisões e nos jornais com as mãos atrás das costas. O que parece incomodar esta gente é o facto de as autoridades nova-iorquinas terem dado tratamento idêntico ao caso Renato Seabra, uma coisa, para eles, inconcebível. Também não aprecio os métodos da polícia nova-iorquina — e, já agora, da polícia americana em geral. Mas não posso deixar de registar — e aplaudir — que em circunstâncias idênticas a polícia nova-iorquina age de modo idêntico, sejam os suspeitos quem forem.
O EUROFESTIVAL DAS CANTIGAS. Os Homens da Luta foram à Alemanha fazer pela vida, e apesar de terem sido corridos da fase final não se poderá dizer que a coisa lhes tenha corrido mal. A música não valia um caracol? Pois não, mas que outras cantigas por lá debitadas valiam mais do que isso? Dizem antigos concorrentes que os nossos representantes no eurofestival não dignificaram a música portuguesa. Infelizmente, não esclareceram o que entendem por tal coisa. Mas já foram mais claros quando deixarem implícito no que disseram que as musiquetas por eles defendidas estiveram à altura do exigido. Isto é, dignificaram a música portuguesa, apesar de já ninguém se lembrar de que cançonetas estão a falar — e o tempo, como é sabido, é o grande juiz. Aliás, quem se lembra de uma única música cantada no eurofestival? E, já agora, quem se lembra de uma única música que o tenha vencido? Não será a amnésia motivo bastante para demonstrar que o festival não tem, nos últimos anos dez ou vinte anos, dignificado a música, portuguesa ou outra?
HÁ AQUI UMA LIGEIRA CONTRADIÇÃO. Se o programa eleitoral do PSD «sofre de algum irrealismo e desconhecimento da realidade nacional», como diz Pacheco Pereira, como pode dizer que vai «no sentido certo»?
ALBERTO JOÃO JARDIM. Por uma vez estou inteiramente de acordo com o Daniel Oliveira.
EMPREGO PARA OS AMIGOS. Não se preocupe, vai ver que uma semana bastará.

16 de maio de 2011

COISAS SEM IMPORTÂNCIA (1). O João Gonçalves tem toda a razão. Afinal, a alegada vítima do director do FMI é só «uma camareira de hotel».

13 de maio de 2011

PERDAS IRREMEDIÁVEIS. Há quase nove anos que ando pela blogosfera e só hoje me aconteceu: um erro do Blogger fez com que perdesse um post. Escusado será dizer que era um post genial, que é sempre a sensação com que se fica quando perdemos um texto, mesmo que escassos minutos antes de o perdermos achássemos banal. Espero que o incidente não tenha relação com o fim do mundo, que se anuncia para a semana.
ARRASADOR. Concordo em absoluto com a análise do Tomás Vasques sobre o debate Passos Coelho-Paulo Portas. De facto, o desnível foi enorme, e notou-se bastante.

12 de maio de 2011

BIN LADEN. Não me regozijo com a morte de ninguém, e parece-me obsceno que a morte de alguém possa ser motivo de festejos. Mesmo a morte de um torcionário que matou — ou mandou matar — milhares de pessoas, como Bin Laden, que se preparava para matar ainda mais. Dito isto, parece-me que os EUA estiveram bem na operação que eliminou o líder da Al-Qaeda, sobretudo no modo como foi planeada a fase posterior, o destino a dar ao cadáver. Com certeza que o ideal seria capturá-lo e julgá-lo, apesar dos riscos que tal comportaria. Mas o mundo não é perfeito, e nem me surpreenderia que a captura estivesse, à partida, excluída. Também me parece evidente que a morte de Bin Laden não põe fim ao terrorismo islâmico, e é de prever um aumento de actividades terroristas nas próximas semanas. Mas é preciso ver que todas as opções seriam más. Seria má a opção que o deixasse em liberdade, seria má a opção que o capturasse e levasse à justiça, seria má a opção que o matasse e não se livrasse do corpo, e não foi perfeita a opção adoptada. A modalidade escolhida pareceu-me, portanto, a menos má. E teve ainda a vantagem de recolher material precioso, a partir do qual já se descobriram planos para novos atentados. Ironicamente, a morte de Bin Laden foi ordenada por um Nobel da Paz, de quem na altura se disse não ter currículo para o merecer.

10 de maio de 2011

CHRISTOPHER HITCHENS. Li, com gosto, um texto de Martin Amis sobre Christopher Hitchens, originalmente publicado no Guardian e posteriormente reproduzido no Público, e apeteceu-me acrescentar: um homem que negou deus a vida inteira (Hitchens é ateu, ou agnóstico, não me lembro bem) não deve converter-se no leito de morte. Afinal, deus, a existir, não apreciará os cobardes.
WRITERS AND KITTIES












Para quem gosta de escritores e de gatos.

5 de maio de 2011

DA VIDA SAUDÁVEL. Sigmund Freud fez questão de manter o hábito de fumar vinte charutos por dia mesmo depois de saber que tinha um cancro, e todos conheciam a sua dependência da cocaína e o namoro com uma cunhada. Truman Capote e William Faulkner morreram alcoólicos. Van Gogh bebia demais. Hemingway, além de alcoólico, era aldrabão. Gauguin seria pedófilo pelos padrões de hoje. Rousseau abandonou os cinco filhos logo à nascença. Naipaul forçou a amante a abortar. Mailer esfaqueou a mulher. Arthur Miller rejeitou o filho deficiente. O que há de comum entre Wagner, Heidegger, Hamsun e Richard Strauss? Eram, todos, nazis, ou simpatizavam com o nazismo. Céline apoiou a ocupação de França pelo regime nazi e defendia a inferioridade dos judeus. Karajan não hesitou em inscrever-se no Partido Nazi para subir na vida. Borges foi condecorado por Pinochet. Pound apoiou o regime de Mussolini. Sartre defendeu o estalinismo. Foucalt simpatizava com o Irão de Khomeini. Dalí apoiou o ditador Franco, e contratou assistentes para lhe pintarem centenas de obras que depois assinava e vendia como suas. Muitíssimos outros criadores (escritores, artistas plásticos, músicos, cineastas, etc.) houve cujo legado se tornou referência nas artes, nas letras e nas ideias cujos modos de vida não se recomendam. Perguntar-me-ão a que propósito vem tudo isto. Vem a propósito dos tempos politicamente correctos em que vivemos, que pretendem catar as «impurezas» das biografias dos mortos e «limpar» a cabeça dos vivos. Ficaremos sem nada «se tirarmos os filhos da puta da literatura e da pintura», dizia, há pouco, Miguel Esteves Cardoso. De facto, é pena que nem todos vejam a evidência. É que um só destes filhos da puta tem mais a ensinar-nos que todos os outros que por aí andam a pregar as virtudes do corpo e da alma, verdadeiros fascistas do politicamente correcto, que ainda hão-de fazer com que os médicos recusem tratar-nos por consumirmos sal em excesso e com que as seguradoras recusem pagar-nos os tratamentos por ingerirmos produtos cujo mal que fazem não estamos dispostos a trocar pelo bem que sabem, prática hoje intolerável para essa cambada, a quem sinceramente desejo que morra saudável.

3 de maio de 2011

TRISTE PAÍS. Esperar pelo intervalo do jogo entre o Barcelona e o Real Madrid para anunciar ao país o programa de ajuda financeira, como fez o primeiro-ministro, demonstra bem o estado a que o país chegou. Um país vergado ao calendário da bola, ainda por cima ao calendário da bola dos outros, não está longe de um país de opereta.

29 de abril de 2011

O DESESPERO É MAU CONSELHEIRO. Passos Coelho é um homem apaixonado que gostava de ter mais filhos. Tem quatro cadelas, não é forreta, canta opereta e é brincalhão. Sabe fazer farófias, papos de anjo e queijadas. Eis, em resumo, o que Passos Coelho contou à imprensa do coração, procurando demonstrar aos eleitores que ele é, afinal, um homem igual aos outros. Fez bem? Fez mal? Para mim, o episódio ilustra bem o desespero do líder laranja com o que prevêem as sondagens para as legislativas — que o PSD, face ao descalabro de Sócrates e do seu Governo, tem obrigação de ganhar por margem folgada, para não dizer maioria absoluta. Se o expediente lhe vai render votos, duvido. Há, porém, uma coisa de que não duvido: uma vez aberta a porta de casa à imprensa do coração, jamais se fechará. Os media passaram a ter legitimidade para lhe vasculhar a privacidade, e é sabido que expor a intimidade que nos convém é um convite a que exponham o que não nos convém.
E QUE BEM PRECISA QUE ELA É. Maior estação de tratamento de esgotos do país já está em funcionamento
COISAS EVIDENTES. Entre o PS e o PSD, não se vislumbra uma ideia de fundo, quanto mais um projecto alternativo.

27 de abril de 2011

READ MY LIPS. O tempo dirá se Passos Coelho fará, ou não, acordos com o PS de Sócrates, que o líder social-democrata há muito nos habituou a dar um passo em frente e dois à rectaguarda. Considero, aliás, uma irresponsabilidade dizer, no actual contexto de crise, não estar disposto a fazer qualquer acordo com o principal líder da oposição. Já disse e repeti que o PS de Sócrates não vale uma missa, mas o PSD de Passos Coelho é de bradar aos céus.
PORTUGAL DE FACHADA. É preciso dar uma imagem de responsabilidade e demonstrar aos cavalheiros que nos vão emprestar o dinheiro que somos pessoas sérias e competentes, diz-se em uníssono. Temos, portanto, que é preciso fazermos de conta que somos credíveis, responsáveis, competentes. E eu a julgar que precisamos de ser mesmo sérios, mesmo responsáveis, mesmo competentes.
RENTES DE CARVALHO, DE NOVO. Depois da entrevista esquecível, uma entrevista que dá gozo ouvir.

25 de abril de 2011

25 ABRIL. O 25 de Abril pôs fim a uma ditadura. Razão, portanto, para o assinalar, que a queda de uma ditadura merece ser assinalada. Apesar de todos os defeitos e de ter levado o país à situação em que se encontra, o regime que daí resultou é infinitamente melhor que a mais leve das ditaduras. Duvido de muita coisa, mas nunca duvidei disto.
ERROS DE PALMATÓRIA. Passaram dois dias sobre a publicação da notícia e o DN insiste no «bem-intensionado».

22 de abril de 2011

RENTES DE CARVALHO. A entrevista chega, de facto, a ser enervante, como aqui foi dito. Mas o entrevistado, J. Rentes de Carvalho, que leio desde os tempos da Periférica e agora sigo no Tempo Contado, é um senhor. É o maior escritor português vivo? Não li um único dos seus romances (só há pouco se tornou possível adquiri-los graças à reedição da Quetzal e fora de Portugal é quase impossível encontrá-los), e mesmo que tivesse lido provavelmente não saberia responder. Gabo-me, no entanto, de ter sido dos primeiros bloggers a chamar a atenção para a excelência da prosa de Rentes de Carvalho, que em boa hora o Francisco reeditou.

21 de abril de 2011

COISAS EXTRAORDINÁRIAS. Manuela Ferreira Leite, António Capucho, Mota Amaral, Pedro Santana Lopes, Morais Sarmento, Leonor Beleza, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes, Pacheco Pereira. O que há de comum entre estas pessoas? A resposta é conhecida: são ilustres militantes do PSD que, por uma razão ou por outra, não integram as listas sociais-democratas às próximas legislativas. Para um partido que se prepara para ser Governo (tudo assim o indica), para um líder (Passos Coelho) que foi eleito com a esmagadora maioria de votos, não deixa de ser extraordinário.
CAVACO E O FACEBOOK. Não sei se o silêncio do Presidente da República começa a ser excessivo, como alguns acham, e não me espantaria que Cavaco se queira abrigar o mais possível da tempestade que por aí vai. Mas há uma coisa que não compreendo: o presidente acha mesmo que o Facebook é o meio mais adequado para falar com os portugueses?

19 de abril de 2011

CRUEL DILEMA. «O que fazer quando nos obrigam a escolher entre Sócrates e Passos Coelho para primeiro-ministro? O que fazer quando nos querem obrigar a escolher entre um Governo de bananas liderados por um aldrabão ou um governo de aldrabões liderados por um banana? O que fazer quando nos obrigam a escolher entre a forca e a guilhotina?» José Vítor Malheiros, Público de hoje

18 de abril de 2011

NOBRE, MAS POUCO. Um homem que promete renunciar «imediatamente ao cargo» de deputado caso não seja eleito presidente da Assembleia da República (entrevista ao Expresso) e dois dias depois diz que ajuizará na altura «o lugar mais adequado» caso isso suceda (entrevista à RTP) não pode, evidentemente, ser levado a sério, embora a promessa feita há um mês de jamais aceitar um cargo partidário e de num curto espaço de tempo ter apoiado o Bloco e o PS ilustrem bem a massa de que é feito. Fernando Nobre ainda não entrou na política a sério, e já tem o que nela há de pior. Bem pode o PSD dizer que houve «unanimidade» na constituição das listas que não esconde o óbvio: o convite a Fernando Nobre foi um erro, e um duplo erro nos termos em que foi feito.
TIRO PELA CULATRA. A pretexto de trazer independentes para a política, o PSD convidou Fernando Nobre a integrar as listas sociais-democratas porque entendeu que Fernando Nobre lhe trará mais alguns votos (não esquecer que Nobre teve quase 600 mil votos nas presidenciais). Se dúvidas há que isso aconteça (é mais ou menos consensual que os votos não são transferíveis), pelo rumo que as coisas estão a levar ainda lhe vai subtrair alguns votos. A ver vamos o que vai suceder, mas tudo indica que os embaraços que Nobre há-de causar ao PSD ainda estão no início. Como diz o outro, cada um tem o que merece.

15 de abril de 2011

DA CEGUEIRA. Que importância terá o facto de a TVI proibir a difusão da gafe de Sócrates em São Bento? O episódio demonstra excesso de preocupação do primeiro-ministro com a imagem? Provavelmente. Mas, a ser assim, vale tudo, e quando mais embaraçosas forem as imagens, melhor ficamos a conhecer quem nos governa. Percebe-se que as TVs tenham posto no ar as imagens por acidente, mas já não se percebe que se queira passar por notícia o que não é notícia. Só mesmo na cabecinha de Manuela Moura Guedes, que tem um conceito de jornalismo muito peculiar, e contas a ajustar com meio mundo.
HUMOR INVOLUNTÁRIO. A notícia que nos dá conta do negócio entre a Sonae e a filha do presidente Eduardo dos Santos, que visa instalar uma rede de hipermercados em Angola, tem um detalhe que é uma delícia: «A parceria está sujeita à apreciação final das autoridades angolanas.»
BEM PREGA FREI TOMÁS. El eurodiputado que desató la guerra contra la clase business, cazado volando en primera

13 de abril de 2011

DE MAL A PIOR. Passos Coelho admite governar com o PS mas sem Sócrates? Confesso que este PSD não pára de me surpreender. Desconhecerá o líder social-democrata que Sócrates acaba de ser reeleito, quase por unanimidade? Que o PS fez um congresso onde Sócrates foi praticamente entronizado? Não será isto evidência bastante para o líder social-democrata perceber que a haver negócio com o PS passará, inevitavelmente, por Sócrates? Ou estará ele à espera que o PS, sabe-se lá com que artimanha, afaste Sócrates e lhe apresente um interlocutor à sua medida? Quando é que Passos Coelho acerta uma?

11 de abril de 2011

FERNANDO NOBRE (3). Convém lembrar que o senhor que ainda há um mês garantia não aceitar lugares partidários, como as televisões largamente vêm relembrando, acha que os membros do Hamas não são terroristas mas «resistentes», como se pode ver aqui. Um pequeno detalhe, bem sei, mas que é todo um programa.
FERNANDO NOBRE (2). A decisão de encerrar a página do Facebook, onde estavam a ser colocadas mensagens de desagrado com a decisão de se candidatar nas listas do PSD, aparentemente por quem votou nele nas presidenciais, é mesmo o que parece: Nobre convive mal com a crítica, para não dizer com a democracia. A explicação do ex-director de campanha (Artur Pereira alegou que a página foi encerrada porque se transformou uma coisa digna numa coisa indigna) não tem, evidentemente, ponta por onde se lhe pegue.
FERNANDO NOBRE (1). Um independente que conquistou quase 600 mil votos (14%) numa eleição presidencial tem todos os motivos para permanecer independente. Afinal, tudo indica que os eleitores que votaram nele fizeram-no, essencialmente, por ser independente, como os inúmeros protestos bem o demonstram. Contrariamente ao que Nobre possa pensar, não se vislumbra que a sua entrada na política partidária, mesmo com o estatuto de independente, seja uma mais-valia para o PSD, muito menos para a política e para o país. Pelo contrário, só vem descredibilizar ainda mais a política e os políticos.
OS DEPUTADOS QUE TEMOS. Quando as viagens de avião dos eurodeputados eram pagas ao quilómetro, eles escolhiam ir em turística. Depois, passaram a ser reembolsados só mediante a entrega do bilhete e começaram a viajar em executiva.
A IRONIA É SÓ PARA QUEM PODE. Como um professor tem obrigação de saber, uma vírgula fora do sítio pode fazer toda a diferença.
POIS NÃO. «Um país incapaz de afinar o discurso quando está à beira do abismo não consegue o respeito dos seus pares.» Editorial do Público de domingo
OLHA A NOVIDADE. Decisão de condenar gestores é "uma história de ficção"

8 de abril de 2011

O PRÓXIMO PROBLEMA. Parafraseando o outro da bola, quem chega a secretário-geral do PSD arrisca-se a ser primeiro-ministro. Passos Coelho arrisca, portanto, formar governo após as eleições de Junho, embora as sondagens apontem uma espantosa proximidade entre PS e PSD, e os adversários internos, muitos e bons, tudo farão para o impedir. Apesar de Sócrates, a quem as mesmas sondagens dão uma votação impressionante (e que poderá melhorar após o confronto directo com o líder do PSD), é o cenário mais plausível. Infelizmente, o líder do PSD tem vindo a demonstrar não saber o que quer, que ora quer o que ainda ontem jurava não querer — e a situação do país requer que se saiba o que fazer e determinação para o fazer. Obviamente que só o tempo dirá se Passos Coelho é o homem certo no lugar certo na altura certa, mas nunca as minhas expectativas foram tão baixas.

7 de abril de 2011

ESTOU A LER. As I Walked Out One Midsummer Morning, cuja primeira edição data de 1969 e conta uma viagem do autor (Laurie Lee) pela Espanha de 1935, está a ser uma bela surpresa. Para começar, fez-me lembrar os relatos de viagens de Camilo José Cela reunidos em Vagabundo ao Serviço de Espanha, Journey to the Alcarria, Viaje al Pirineo de Lerida e Del Miño al Bidasoa, como os títulos sugerem o primeiro lido em português, o segundo em inglês, e o terceiro e o quarto (por terminar) em espanhol. E fazer-me lembrar os relatos das viagens de Cela, para mim o que há de melhor na literatura do género, não foi pouco.

5 de abril de 2011

GAIN IN TRANSLATION. Os espanhóis apreciam mais a obra de Saramago que os portugueses? Não admira. Afinal, nuestros hermanos leram a obra de Saramago em espanhol, e qualquer obra de Saramago que não seja na língua original melhora substancialmente.

1 de abril de 2011

VENHA O DIABO E ESCOLHA. Se dúvidas houvesse, a vitória «norte-coreana» de Sócrates nas «directas» do PS demonstra que o primeiro-ministro em funções está aí para as curvas. O timing da demissão foi perfeito para o primeiro-ministro? Tudo indica que foi. Toda esta novela foi pensada por Sócrates de modo a que assim sucedesse? Tudo aponta para aí. Foi um golpe do primeiro-ministro destinado a provocar eleições, como defende António Barreto? Tudo leva a crer que sim. Mas todo este filme de série B veio pôr a descoberto o que há muito se suspeitava: a oposição com pretensões a ser governo não está preparada para governar, o que é uma péssima notícia. Demonstrou mais: os que acusam Sócrates de recorrer a processos pouco ortodoxos para se manter no poder são os mesmos que ainda há pouco sugeriram métodos pouco ortodoxos para correr com ele. A chefia de um «governo de salvação nacional» (ou lá como se chama) por outra pessoa que não Sócrates (chegou a falar-se de Jaime Gama e de Luís Amado), como alguns sugeriram, é um bom exemplo do que digo, embora a forma como surgiu só podia ter redundado em fracasso. Queiramos, ou não, Sócrates é um osso duro de roer, e só vai sair de cena quando o voto assim o ditar. Pelo andar da carruagem, não tão cedo como seria desejável. Que Passos Coelho se prepare, portanto, para engolir o que disse quando disse não estar disposto a fazer alianças com Sócrates. Aliás, o líder social-democrata já nos habituou aos recuos, para não lhe chamar outra coisa.

30 de março de 2011

EMIGRANTES DE SUCESSO. O cavalheiro dá entrada no restaurante e logo meia dúzia de sujeitos se levanta e apressa a cumprimentá-lo. Pairando sobre os mortais, o cavalheiro condescende em estender a mão aos sujeitos como quem distribui rebuçados, e vai dando instruções ao gerente para lhe desencantar uma mesa. O cavalheiro ajudou muita gente, ouço alguém dizer após o ilustre ter saído de cena. O espantoso é que todos sabem, a começar pelo sujeito do comentário, que o cavalheiro enriqueceu à custa dos emigrantes indocumentados, geralmente seus conterrâneos (portugueses, evidentemente), a quem naturalmente pagou em conformidade (leia-se menos que aos outros), e a quem fez promessas vãs de legalizar para manter sob poder. Infelizmente, quando se fala em «emigrantes de sucesso» nunca se fala da origem do sucesso, muito menos de casos destes, que os há às mãos cheias.
RENTES DE CARVALHO. Já várias vezes chamei a atenção para a prosa deste senhor, mas também gosto dele por isto.

29 de março de 2011

FACTOS E DESEJOS. Então o PS não é o que acaba de eleger Sócrates com 93,3%, mais 10,59% que em 2009? Não é o partido que acaba de ter uma taxa recorde de participação nas «directas» de quase 90 por cento? Eu também não fiquei lá muito entusiasmado com a vitória «norte-coreana» (nem teria ficado com nenhuma outra, já agora), mas tomar os desejos por factos não muda os ditos. E os ditos são claríssimos: os militantes socialistas tocaram a reunir, e a oposição a Sócrates, a existir, está reduzida a uns fogachos com zero apoio dos militantes. Fazer de conta que não é assim, que o PS de Sócrates está amordaçado e que os seus militantes são estúpidos, é pura burrice.

28 de março de 2011

OUTRA VEZ A AVALIAÇÃO DE PROFESSORES. Qualquer pessoa que trabalha numa empresa privada é permanentemente avaliada. Seja, ou não, justo o modelo de avaliação, goste, ou não, da ideia. Por isso me chateia que nenhum modelo de avaliação dos professores do sector público apresentado até agora lhes tenha servido, e que não tenham apresentado um modelo alternativo. A avaliação é uma coisa muito importante, juram os professores e quem os defende. Se assim é, por que não apresentam eles um modelo alternativo? Porque não fazem uma manif a exigir a avaliação? O que haverá aqui de tão transcendente que o comum dos mortais não consiga ver?
UM SÉRIO CANDIDATO A TÍTULO DO ANO (2). Sporting: Polícia está a guardar os votos

25 de março de 2011

DEUS NOS ACUDA. Depois do IVA, que admitiu subir no dia seguinte à queda do Governo depois de meses (pelo menos) a pregar que seria impensável, o PSD fez aprovar um projecto de lei que liquida a avaliação dos professores. Quando se esperaria que apresentasse um projecto alternativo ao actual, o PSD limita-se a destruir o que existe e funciona, sem que vislumbre outro motivo que não seja o populismo puro e simples. Mais: o PSD disse não estar disponível para negociar com o primeiro-ministro pouco antes de Sócrates se demitir, e agora, primeiro-ministro demitido, já está disponível para negociar o que for preciso. Decididamente que este PSD de Passos Coelho está a revelar-se uma anedota de mau gosto. Talvez pior: está a revelar-se um perigo para o país caso venha a ser governo.
QUEIROZ VOLTA A ATACAR. Carlos Queiroz não desiste de convencer os portugueses de que foi afastado do cargo de seleccionador da bola por, imaginem, razões políticas. E não de um político — ou políticos — qualquer: segundo ele, houve mão de Sócrates, primeiro-ministro, e Silva Pereira, número dois do Governo. O génio incompreendido, que hoje mesmo protagonizou uma cena digna da pior telenovela brasileira (para usar as suas próprias palavras) quando procurava apoucar um jogador que o criticou, não há meio de perceber que a sua saída da selecção foi um alívio para todos — um alívio para os jogadores, um alívio para a equipa técnica, um alívio para os dirigentes, um alívio para os adeptos. Independentemente das razões de queixa que possa ter sobre a forma como foi despedido (não vejo quais, mas enfim), já devia ter percebido que o seu afastamento da selecção foi um alívio para toda a gente, e que ninguém quer saber das razões que diz ter.

24 de março de 2011

MUDAM-SE OS TEMPOS (2). O Governo agora demissionário não me merece qualquer simpatia, muito menos o primeiro-ministro. Mas imaginem que teria sido o Governo a anunciar, há dois dias, uma subida do IVA. O que teria dito o líder do PSD? Certamente teria dito que seria impensável o que, agora, governo caído, anuncia como inevitável. Como não bastasse o facto de não ter, até ontem, apresentado uma única medida alternativa, hoje anunciou uma medida que contraria tudo o que tem dito até aqui. Estamos bem entregues, não há dúvida que estamos.
MUDAM-SE OS TEMPOS (1). Não conheço em detalhe os contornos da intervenção militar na Líbia, mas a fazer fé no que se diz parece-me globalmente acertada. Mas já acho discutível a participação dos EUA, e surpreendente que ela tenha sido ditada por quem tanto criticou a intervenção americana no Iraque. O Iraque e a Líbia são casos distintos? Seguramente, mas também o regime de Saddam massacrava o seu próprio povo, precisamente o motivo que agora se invoca para intervir na Líbia.

22 de março de 2011

PROVINCIANISMO. Talvez por ter nascido na província, chateia-me que se critique alguém e se acrescente às críticas o facto de ser da província (ou dos subúrbios, ou equivalente). Até Vasco Pulido Valente, por quem nutro admiração, não resistiu à tentação de dizer que Sócrates é «um tiranete da Beira», como se ter nascido na Beira (ou noutro sítio qualquer) fosse um argumento de peso, e como Vasco Pulido Valente não tivesse motivos de sobra para o criticar. E quem diz Sócrates diz Cavaco ou Passos Coelho, de quem volta e meia se lembram as origens com o propósito de os diminuir. Não serão estes reparos um bocado provincianos?

21 de março de 2011

PROVAVELMENTE SERÁ O ACONTECIMENTO DO ANO. O Bloco de Esquerda anuncia que vai apresentar um «programa de crescimento».

18 de março de 2011

JÁ CHEIRA A SUCESSÃO. O Ministro das Finanças fez um discurso que ficará para a história como a mais desastrada e desastrosa comunicação política que alguma vez foi feita em Portugal e talvez no hemisfério Norte, disse António Costa sobre o desempenho de Teixeira dos Santos na apresentação das novas medidas de austeridade. E o que disse o ministro de tão desastroso assim? Ou vi mal, ou nada a que já não estivéssemos habituados. Surpreendentes foram as declarações do edil lisboeta nesta altura do campeonato. Sim, ele já veio dizer que está cem por cento concentrado na Câmara de Lisboa, como é costume dizer-se nestas ocasiões. Mas é por demais evidente que António Costa se pôs a jeito para a sucessão de Sócrates. Será a melhor solução para o PS? Sinceramente, não sei. Parece-me, contudo, a menos má. E tem já um apoio de peso: Medeiros Ferreira, que hoje mesmo apontou António Costa como uma solução.
DITADORES BONS. Sempre que, caro leitor, o seu anticomunismo vacila, leia o Avante!.

17 de março de 2011

COISAS ABSURDAS. A notícia não esclarece se as «traduções» para «português» e «brasileiro» que a Babel tenciona fazer se aplicam, também, aos autores portugueses e brasileiros. Como receia o Francisco, seria, de facto, um absurdo, que O Delfim fosse «traduzido» para «brasileiro», ou Memorial de Aires «traduzido» para «português».

15 de março de 2011

LI E GOSTEI. O Trompete de Miles Davis, primeiro livro de Francisco Duarte Azevedo, foi hoje apresentado. Eis o primeiro parágrafo:
«Numa manhã de Fevereiro de 2007, entrei no escritório como habitualmente, pela única porta de entrada. Nem dava para entrar por outro lado. A menos que fosse um sniper e tivesse deslizado vidros acima como o homem-aranha, alcançado o topo do edifício e penetrado pelas portas de acesso às caixas dos ascensores. Do terraço obtinha-se um fantástico panorama do casario de Newark, do porto, do aeroporto, do intricado sistema de comunicações viárias, da Pulaski Skyway e de Nova Iorque. Restaria ainda a serpentina líquida do Passaic desfazendo-se nas águas da baía de Newark, que a cidade de Elizabeth também disputava. Mas não havia qualquer intenção de ser pássaro e a vidraça que revestia o edifício não tinha aberturas que permitissem ao menos, a quem ali tinha os seus escritórios, arejar, tomar ar, respirar sem sufoco. Era como estar dentro de uma campânula de vidro.»
UM SÉRIO CANDIDATO A TÍTULO DO ANO (1). Alberto Martins manda investigar pagamentos à mulher
OLHA A NOVIDADE. Tribunal da Relação confirma absolvição completa de Fátima Felgueiras no “processo do futebol”

14 de março de 2011

NÃO HÁ PACHORRA. A morte de alguém, mesmo em circunstâncias trágicas, não torna bom quem não foi bom. Custa-me, portanto, engolir elogios aos mortos que se tornam bons porque já cá não estão, geralmente feitos pelos mesmos que em vida diziam cobras e lagartos deles. Feita a «declaração de princípios», como agora se diz, apetece-me perguntar: o que terá feito Carlos Castro de tão extraordinário para que dele se diga que a sua morte foi uma tragédia para o país e se reclame uma rua em Lisboa com o seu nome? Ou tenho andado distraído, ou não lhe vejo nada no currículo que o justifique. Castro limitou-se a publicar umas crónicas onde revelava quem dormia com quem e o extraordinário mundo das socialites — ofício execrado por qualquer pessoa de bem e pelo jornalismo dito de referência, embora o jornalismo dito de referência já visse melhores dias. Estarei, por acaso, a exagerar? Dizem-me que o sujeito era amigo do seu amigo, que gostava de ajudar os outros, e que era uma pessoa generosa e pacífica. Mas será isso suficiente para merecer o aplauso do país? Desculpem a inconveniência, mas eu estou convencido de que o mérito do sujeito resultou inteirinho do facto de ser gay e gostar de o exibir. E incensar os gays por o serem é, para mim, pior que ser contra eles.

11 de março de 2011

OS PÂNDEGOS DA LUTA. Dos Homens da Luta conhecia, há dois dias, uma cançoneta que circula no YouTube, que só vi parcialmente, e à qual atribuí escassa importância. A vitória no festival das cantigas e consequente actuação na Alemanha suscitou-me curiosidade a ponto de fazer uma pesquisa sobre Neto e Falâncio, curiosidade aguçada porque uns dizem tratar-se de um embaraço para o país e outros um escândalo. Concluída a pesquisa e ouvida a cantiga, confesso que não vi razão para tanto. A cançoneta é pró fracote? Pois é. Mas se a ideia do festival das cantigas é promover a criação musical, há anos que deviam ter acabado com ele. É tão evidente a mediocridade daquilo que custa a crer que o motivo seja o que se diz.
NÃO HÁ ALMOÇOS GRÁTIS. O pior vai ser aturar as associações protectoras dos animais.

10 de março de 2011

NOTAS PRESIDENCIAIS. Será abusivo dizer-se que o Presidente da República fez um aceno de simpatia ao protesto da «geração à rasca»? Tendo em conta que Cavaco exortou os jovens para que «façam ouvir a sua voz» e não ignora o protesto de sábado, parece-me que não é. Assim sendo, o mínimo que se pode dizer é que estamos diante um gesto mais apropriado ao Bloco de Esquerda que a um Presidente da República. Já o resto do discurso, em que Cavaco arrasou o Governo de cima abaixo, não me merece grandes reparos, embora fosse mais rigoroso se atribuísse parte da crise portuguesa à crise internacional (de que também resulta), calando as reacções que a omissão previsivelmente causariam, e sem que isso retirasse consistência aos argumentos. A ver vamos que consequências resultarão do discurso de Cavaco, mas vale pela ruptura com a paz podre, cada vez mais malcheirosa, cada vez mais insuportável.
RAZÕES QUE A RAZÃO DESCONHECE. Como hoje se viu na Assembleia da República, os deputados tiveram ocasião de derrubar o Governo de Sócrates e do PS, e não o fizeram. Sendo o Governo tão mau como a maioria dos deputados afirma (e não só os deputados), como entenderão os portugueses que o tenham mantido em funções? Que esperarão os deputados (e os políticos em geral) que os portugueses pensem deles face a malabarismos destes?
ENSINARÁ O QUÊ? Não fosse o caso de ter ouvido, de viva voz, o coordenador da Direcção Regional de Educação do Centro manifestar-se surpreendido por se ver afastado do cargo por discordar enquanto profissional de uma situação que concorda (presumo) enquanto dirigente, seria capaz de jurar que era uma anedota. O professor Ernesto não vê incompatibilidade entre subscrever um abaixo-assinado a criticar o actual modelo de avaliação de professores e simultaneamente ocupar um cargo que implica defender essa mesma avaliação, como não fosse evidente a incompatibilidade. Pior: o sujeito parece genuinamente espantado com a demissão, o que leva a crer que estamos diante uma prática tão corriqueira que só por azar o penalizou.
BOA PERGUNTA. Cavaco vai à manif dos jovens?

8 de março de 2011

MUDAM-SE OS TEMPOS. Lembram-se como era perigoso exportar a democracia para os países árabes, que alegadamente não estavam preparados? Pois é, agora argumenta-se que será um erro pensar que esses mesmos países não estão preparados para a democracia, embora com a ressalva de não ser exactamente a democracia tal como a conhecemos — e sem que se diga qual é.
TEMPOS PERIGOSOS. Como já disse, não partilho do entusiasmo mais ou menos generalizado pelas revoltas em curso, por mais que a queda de uma ditadura seja uma boa notícia. Oxalá me engane, mas a revolta na «rua árabe» vai gerar, a prazo, enorme instabilidade, e não só nos países por ela atingidos. Aliás, há já evidências de que assim será.
CARNAVAL. «O "carnaval lusitano" é um dos nossos pequenos horrores periódicos.»
A SEGUIR COM ATENÇÃO. «Rio e Pereira querem que Sócrates governe até ao final de 2013 mas não por causa do país - muito pelo contrário. O seu triste intuito é desgastar a actual liderança do PSD e reganhar tempo para lhe conseguirem fazer frente, o mesmo tempo precioso que o país já não tem. Pretendem, apenas, que os seus meros interesses pessoais e politiqueiros prevaleçam ainda que os disfarcem com conferências grandiloquentes mas inócuas acerca da crise do regime. Crise essa, a de valores e de vontades, que ambos estão em vias de personificar pelo seu pior ângulo.»

7 de março de 2011

CHOQUE, DIZEM ELES. Em que é que o Público se baseia para dizer que a sondagem que coloca Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais está a chocar a França? E, já agora, que França é essa que o Público diz estar em choque? Não estará o jornal a confundir desejos com factos?
COISAS INTERESSANTES. Não há dúvida de que nós, portugueses, somos muito versáteis. Primeiro fazemos negócios com Khadafi, logo a seguir presidimos a um comité que lhe vai impor sanções.
GUANTÂNAMO. Aguardemos a próxima crónica de Mário Soares para sabermos o que ele pensa disto e de Barack Obama.

3 de março de 2011

ESTOU A LER. «Um homem que lê, ou que pensa, ou que calcula, pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos escapa mesmo ao humano.» Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

2 de março de 2011

NÃO SE RIAM. A ONU resolveu suspender a Líbia do Conselho dos Direitos Humanos porque, imaginem, descobriu que o regime de Muammar Khadafi viola os ditos. Bem sei que a gente lê a notícia e não é fácil conter o riso. Mas, vendo bem, estamos diante um progresso notável. Mesmo que a suspensão seja «excepcional e temporária», como a ONU fez questão de ressalvar.
VEJAM-SE AO ESPELHO. Desculpem lá a linguagem, mas apetece-me dizer que o pingue-pongue entre os juízes sobre o destino das escutas do Face Oculta (e não só) fede que tresanda. Quando é que os senhores juízes deixam de fazer política e passam a fazer o que deles se espera? Quanto é que os senhores juízes percebem que deviam ser os últimos a vir à praça pública esgrimir argumentos? Quando é que os senhores juízes metem nas cabecinhas que os cidadãos esperam deles contenção no verbo e sensatez nas decisões? Quando é que os senhores juízes resolvem, enfim, dar-se ao respeito?

1 de março de 2011

BRINQUEDOS CAROS. Imagino que seja enorme a tentação de concordar com o então embaixador dos EUA em Lisboa quando ele diz que os militares portugueses precisam de comprar «brinquedos caros» devido a um «complexo de inferioridade», mesmo sabendo-se que o comentário poderá ter sido ditado pelo mau perder (os americanos foram candidatos a fornecer «brinquedos caros» aos portugueses mas perderam, salvo erro, para os alemães). Afinal, quantas vezes já ouvimos este diagnóstico? O que terá dito o diplomata americano que já não soubéssemos?

28 de fevereiro de 2011

FACE OCULTA. Libertado o principal arguido do processo Face Oculta? Acho bem. Afinal, Manuel Godinho só é acusado de 60 crimes.

25 de fevereiro de 2011

AS LEIS SÃO ELES. O que espanta no episódio protagonizado por Armando Vara é alguém ter reclamado os seus direitos, coisa rara hoje em dia e a exigir alguma coragem. Parafraseando Eça de Queirós, Vara faz parte, em Portugal, de um vastíssimo grupo de pessoas para quem as leis se afastam para eles passarem, e quem se põe à frente deles arrisca-se a ser atropelado. A denúncia do caso nos media não vai, obviamente, mudar este tipo de comportamentos, que a cultura de um país não se muda por decreto.
PENSEM NISTO. Chocante o vídeo em que a polícia dispara sobre um prisioneiro uma arma desaconselhada por quem sabe sem que se perceba a necessidade do seu uso? Sem dúvida. A divulgação do vídeo pretende atingir alguém? Mais que provavelmente. O prisioneiro não é flor que se cheire? Tudo indica que sim. Mas o que realmente perturba neste episódio é imaginá-lo longe das câmaras. Será difícil imaginar uma cena destas sem uma câmara de vídeo por perto?
POIS NÃO. «A resistência à opressão não produz necessariamente a liberdade.» Vasco Pulido Valente, Público de hoje

24 de fevereiro de 2011

23 de fevereiro de 2011

SANTA PACIÊNCIA. O politicamente correcto e o clima de medo estão a matar as anedotas de pretos e judeus, brasileiros e japoneses, gays e «alternativos», e a uniformizar tudo numa mistela sensaborona que não é carne, não é peixe, mas uma mistela intragável. Não se pode falar de presunto porque se ofendem os muçulmanos. Mudam-se palavras nos clássicos porque ofendem os pretos. Trocam-se as Boas Festas pelo mais abrangente Happy Holidays. Não se pode fumar em casa se a empregada doméstica estiver por perto. Tira-se o tabaco dos filmes porque o tabaco nos filmes causa fumo passivo (estou a inventar, mas lá chegaremos). Perante tudo isto, quem nos acode? A avaliar pelo silêncio generalizado (há um fogacho aqui e ali, mas não passa disso), o assunto não incomoda ninguém. Talvez pior: a grande maioria achará bem, pelo que ainda estaremos no começo.

21 de fevereiro de 2011

JAZZ. Se não erro, havia, há anos, um programa de rádio que passava excelente música sem dizer «água vai». Desde a chamada música ligeira, passando pelo jazz e pela clássica, o critério da música que lá se passava era a qualidade, e só a qualidade. Cinco minutos de jazz, programa que agora faz 45 anos, nunca me pareceu o melhor formato para promover o jazz, por mais bem-intencionado que seja, e por mais que apregoem o contrário. A melhor maneira de divulgar o jazz (e outras «músicas minoritárias») e atrair ouvintes para ele é dá-lo a ouvir sem exercícios preparatórios, que geralmente afastam mais do que aproximam. Com certeza que há espaço para programas de jazz (e doutras «músicas minoritárias»), mas se a ideia é dar jazz a quem nunca ouviu jazz, como o caso de Cinco minutos, a melhor maneira é dá-lo como quem dá outra música qualquer. É que eu não só estou convencido de que este tipo de programas não resulta como provoca o contrário do que pretende.

18 de fevereiro de 2011

ESTOU A LER. «Entre La Provence e a Penn Station havia esse caminho mágico, a Ferry Street ou a Avenida de Portugal. Não sei se era verdadeiramente a Avenida de Portugal, mas era seguramente a rua onde muitos portugueses tinham os seus negócios e onde mais se mercava. Abundavam ali criaturas mitológicas, descidas das serras do Marão ou da Estrela, de suas faldas, vales e encostas, largadas de póvoas e gândaras costeiras ao mar oceano como Aveiro, Ílhavo, Murtosa e outras baixadas em torno da ria. Coabitavam com peruanos, equatorianos, colombianos, porto-riquenhos, cubanos exilados, imigrados e aqui nascidos, e uma prole de brasileiros e brasileiras aptos para todo o serviço. Cruzavam-se línguas e sonoridades, cruzavam-se corpos e nações, cruzavam-se bazófias e «vanidades» que os mais velhos diziam ser sezões e desvios de tino por causa das modernices.» O Trompete de Miles Davis, de Francisco Duarte Azevedo, nas livrarias a partir de Março.

16 de fevereiro de 2011

15 de fevereiro de 2011

TEMPOS PERIGOSOS. Não me parece necessário ser-se perito em questões internacionais para suspeitar que os acontecimentos do Egipto e da Tunísia podem alastrar a outros países, incluindo países onde vigoram democracias consolidadas, como se vê por esta notícia, a que ninguém prestou a atenção devida. Seguramente que as consequências dos protestos seriam outras e não teriam a mesma legitimidade que têm em países como o Egipto ou a Tunísia, mas assusta só de pensar. (A notícia a que me refiro chegou a estar no DN online, mas entretanto foi retirada sem qualquer explicação.)

11 de fevereiro de 2011

SIM, MAS. Mahmud Ahmadinejad aproveitou a queda do regime de Mubarak para dizer ao mundo e arredores que a queda do regime egípcio foi um sinal de um «novo Médio Oriente» sem «interferências» americanas nem «sionistas». Aparentemente, assim foi. Mas o presidente iraniano esqueceu-se de um detalhe: a revolta não teria sido possível sem a internet, produto americano por excelência.

9 de fevereiro de 2011

MAGISTRATURA DECEPCIONANTE. Li com atenção o que se publicou sobre o veto do Presidente da República ao diploma do Governo que permitiria ao farmacêutico substituir um medicamento prescrito pelo médico por um genérico ou similar, e não vi mencionado em lado algum um detalhe que reputo de essencial: e se o utente concordar com a substituição do medicamento originalmente prescrito? Nos Estados Unidos, onde resido, é assim que funciona, e não vejo ninguém a queixar-se. O médico receita determinado medicamento, o farmacêutico pode substitui-lo automaticamente por outro caso o médico não dê instruções em contrário, mas o consumidor tem a última palavra: aceita, ou não aceita. Tão simples como isto. Há utentes que não estão em condições de avaliar as opções que lhes são oferecidas, que nem as cores dos medicamentos conseguem distinguir? Não duvido que haja, mas devem ser os mesmos que antes da lei agora vetada já não estavam em condições de detectar uma troca de medicamentos caso houvesse uma troca de medicamentos, de se lembrar se já tinham tomado os medicamentos que tinham que tomar, de ingerir as doses recomendadas pelos médicos, etc., etc. Parece-me, portanto, que o veto presidencial prejudica os utentes, nomeadamente os mais carenciados, e que o Presidente se precipitou. Talvez o Presidente tenha pressa em pôr em prática a tal «magistratura actuante» que prometeu na campanha eleitoral, mas é sabido que a pressa é má conselheira.

8 de fevereiro de 2011

A PRESIDENTA. Como notou Vital Moreira (por uma vez estou de acordo com ele), a questão da «Presidenta», como Dilma Rousseff resolveu intitular-se, é «um disparate pretensioso». Vendo bem, um disparate que vem na linha do seu antecessor, Luís Inácio Lula da Silva, que chegou a elogiar o livro em branco «por ser mais fácil de ler». Este «Café com a Presidenta», como Dilma intitulou o programa de rádio que pretende ser um «ponto de encontro com o povo brasileiro», é de um mau gosto sem nome, e um atentado à língua portuguesa que Dilma tinha obrigação de não cometer. Se não estranho que ela não chegue lá pela sua própria cabeça, já me espanta que não tenha um colaborador que lhe diga o óbvio.

4 de fevereiro de 2011

CAVACO. As actividades do Presidente da República devem estar sob vigilância dos cidadãos, mesmo as actividades enquanto cidadão. Mas quem teve o desplante de dizer que os outros «terão de nascer duas vezes» para serem mais sérios do que ele, como disse Cavaco quando alguém pôs em causa a sua honestidade, merece que lhe escrutinem a vida até ao último detalhe. O que se tem publicado por aí pretende tramar Cavaco? Se é verdade o que se diz, não façam cerimónias. (Ver, também, Cavaco falou (mas pouco explicou), de João Miguel Tavares.)

3 de fevereiro de 2011

COISAS BOAS. Acabo de descarregar para o e-book a excelente série O Estado Novo há 50 anos, de João Carvalho. (Partes II, III, IV, V e VI.)
EVIDÊNCIAS. «Há uma primeira constatação extraordinária quando olhamos para as gigantescas e pacíficas moles humanas que invadem as ruas do Cairo ou de Alexandria: não há gritos contra o "império do mal", nem "morras a Israel", nem bandeiras americanas queimadas.» Teresa de Sousa, Público de ontem

1 de fevereiro de 2011

GOOGLE ART PROJECT. Mais uma maravilha do Google.