28 de julho de 2011

FARINHA DO MESMO SACO. Diz o actual Governo que não conhecia a real dimensão do descalabro das contas públicas, assim procurando justificar um aumento de impostos que enquanto oposição garantiu não fazer. Ora, se o actual Governo não conhecia o descalabro, como podia, em campanha eleitoral, prometer não aumentar os impostos e fazer disso bandeira? Mas há mais: o aumento dos impostos, a haver, nunca incidiria sobre os rendimentos de quem trabalha, mas sobre o consumo. Não sou especialista no assunto de modo a saber se o Governo tomou, no caso, a medida adequada. Mas julgo poder dizer, sem margem de erro e com base apenas nos factos, que o actual Governo mentiu aos portugueses. Em matéria de seriedade, de que agora tanto se fala e tanto se pede, estamos, portanto, conversados.
SÉRIO CANDIDATO A TÍTULO DO ANO. Director do fisco da Madeira criou empresa off-shore
E AINDA SÓ ESTAMOS NO COMEÇO. O albergue espanhol

26 de julho de 2011

JORNALISMO DE INVESTIGAÇÃO. O caso News of the World pôs à vista uma situação cada vez mais evidente: quando os media conseguem revelar situações destas já demasiada água passou debaixo das pontes por demasiado tempo. Por variadíssimas razões, mas essencialmente devido à escassez de jornalismo de investigação. Saúda-se, por isso, a iniciativa do Público, que anuncia um protocolo com meia dúzia de empresas que lhe irá garantir meios que lhe permitirão fazer jornalismo de investigação – embora, a partir de agora, eu não acredite na independência do Público face às empresas que o patrocinam, muito menos que lhes continuem a dar tratamento idêntico ao que darão a outras empresas, como garante a sua direcção editorial. Pela simples razão de que, como diz o outro, não há almoços grátis.

22 de julho de 2011

INCOMPATIBILIDADES. A notícia já tem barbas (há um mês que os factos eram conhecidos), mas é sempre bom repetir que um terço dos deputados da anterior legislatura (70 dos 230) desenvolvia actividades inconciliáveis com os assuntos que defendiam no Parlamento. E seria bom, já agora, que se apurasse quantos deputados, na actual legislatura, se encontram em situação idêntica, e divulgar os seus nomes. Haverá coragem para isso?
DO PROVINCIANISMO. Os portugueses não perdem uma oportunidade para atribuir nomes estrangeiros a tudo o que seja «eventos». Havia necessidade de chamar World Bike Tour a um passeio velocipédico entre o Porto e Matosinhos?

20 de julho de 2011

ENTRETANTO, NA MADEIRA (2). Dois dias após mais uma peixeirada, com o presidente do PSD local a chamar nomes a um jornalista e a mandá-lo para o sítio que estão a pensar, eis que mais notícias da Madeira nos dão conta que os presidentes do Governo regional (Alberto João Jardim) e da Assembleia Legislativa (Miguel Mendonça) andam a abotoar-se com milhares de euros que, segundo a Caixa Geral de Aposentações, não têm direito. O presidente do parlamento local já fez saber que discorda da Caixa. E, pormenor curioso, «requer que [lhe] seja facultada a identificação dos funcionários que tenham desencadeado ou intervindo neste procedimento». Estão a ver para quê?
10 questions from the Guardian to Downing Street

18 de julho de 2011

ENTRETANTO, NA MADEIRA (1). Andamos tão entretidos com o rating e com o aumento dos impostos que não prestamos a atenção devida ao que se passa na Madeira, de onde nos chegam notícias inquietantes. Diz o Tribunal de Contas que o Governo local aplicou menos de um terço das verbas que lhe foram atribuídas para a reconstrução das zonas afectadas pelo temporal do ano passado e que não se sabe para onde terá ido o resto (34,9 milhões de euros), e o Público diz que Jardim proibiu a Assembleia Legislativa da Madeira, o governo regional, o PSD local, o Jornal da Madeira e o mais que não se sabe de receber a Comissão Nacional de Eleições que se vai deslocar ao território para preparar as eleições regionais. Dizem mais as notícias: passaram quatro dias e ninguém, absolutamente ninguém, fez a mais leve crítica, incluindo os políticos eleitos, de quem se esperaria que fossem os primeiros a exigir o cumprimento das regras e a reclamar a punição de quem prevarica. A república das bananas em que a Madeira se tornou nos últimos anos deve-se, em primeiro lugar, a quem lá manda, mas o silêncio dos políticos e dos governantes, ou a mera desculpabilização de Jardim a pretexto de que ele fez obra (como fosse difícil fazer obra desta maneira), é tão ou mais responsável pelo que por lá se pratica. A começar pelo presidente da República e pelo primeiro-ministro, que têm a obrigação de accionar os mecanismos necessários de forma a impedir — ou punir — estas poucas-vergonhas.

14 de julho de 2011

COISAS QUE NÃO PERCEBO. Por razões conhecidas, as agências de notação financeira merecem-me todas as reservas. Mas não será uma forma de pressão prescindir dos seus serviços quando elas emitem opiniões que nos prejudicam, como fizeram algumas autarquias? As agências de rating são sérias e competentes quando o resultado das suas avaliações nos interessa e já não são quando nos prejudica? Também não percebi como se podem extinguir alegando que elas têm um poder excessivo, em certos casos talvez ilegítimo. Quem pode impedir uma pessoa individual ou empresa de emitir opiniões sobre o desempenho financeiro de entidades públicas ou privadas, empresas ou governos? Estarei a ver mal, mas as agências de rating só perderão o poder que têm quando o mercado deixar de acreditar nelas, coisa que, até ver, não estará para breve.
AINDA NÃO PAREI DE ME RIR. Ministra dispensa uso de gravata na Agricultura para poupar no ar condicionado
AI A EUROPA. «Não se enganem: o grande motor da integração europeia não tem sido a vontade dos povos mas a distracção dos povos).» (...) «A Europa tem uma caterva de pessoas espalhadas por instituições e think-tanks cuja única ocupação é meditar sobre o seu destino.» Pedro Lomba no Público de hoje
MUNDO ÁRABE. Quando os factos insistem em dar cabo das mais belas teorias.
Um texto obrigatório de Duarte Lino.

12 de julho de 2011

THE TAO OF TRAVEL. Pawl Bowles escreveu em The Challenge to Identity o seguinte sobre os livros de viagens: «What is a travel book? For me it is the story of what happened to one person in a particular place, and nothing more than that; it does not contain hotel and highway information, lists of useful phrases, statistics, or hints as to what kind of clothing is to be needed by the intending visitor.» Os escritores de viagens, que nos últimos anos se multiplicaram como cogumelos, deviam pensar nisto antes de escreverem livros que não se distinguem de meros guias da especialidade ou da enciclopédia, com a vantagem de estas obras de referência serem mais fiáveis no que aos factos respeitam. Um conselho, já agora, de Paul Theroux, provavelmente o maior escritor de viagens no activo: «Choose your country [to travel], use guidebooks to identify the areas most frequented by foreigners — and then go in the opposite direction.» O conselho vem no seu título mais recente, The Tao of Travel, um livro a fazer lembrar uma bíblia num primeiro olhar e um Moleskine após um olhar mais demorado — e graças ao qual engrossei a minha lista de compras com mais meia dúzia de títulos.

8 de julho de 2011

ABAIXO DE CÃO. A propósito da privatização da televisão do Estado, que a concorrência se apressou a achar mal porque a dita é uma coisa bonita se for para os outros, quem, na RTP, é responsável pela emissão de um «programa de humor» que dá pelo nome de Portugal Tal & Qual? Ouço amiúde que determinado programa se destina à classe A ou à Classe B, assim se pretendendo designar a qualidade do produto e o seu público-alvo. Seguindo este critério, a qual delas se destinará este Portugal Tal & Qual?

6 de julho de 2011

QUEM ANDA À CHUVA, MOLHA-SE. Quando um país pede dinheiro à banca a juros variáveis sabe de antemão que os juros podem subir ou baixar, e que por essa razão pode pagar mais ou pagar menos. Sabe, também, que uma eventual melhoria ou agravamento das taxas de juro não depende, apenas, do seu desempenho financeiro, ou lá como se chama. Não é assim? Para mim, que nada sei de economia e finanças, parece-me evidente que é assim. Também não me agrada o excessivo poder das agências de notação, e estou para ver uma investigação que mostre quem são os seus proprietários, como funcionam, como é possível terem tanta credibilidade apesar de erros clamorosos, e quem lucra e quem perde com as suas actividades. Mas imaginem que não havia agências de avaliação de risco ou outros serviços similares. Quem nos emprestaria um cêntimo?
ONDE É QUE EU JÁ ESTE FILME? (2) «Passos afirmou em campanha que era um disparate falar do confisco do subsídio de Natal? Afirmou! Passos garantiu que não subiria os impostos e que, se em rara hipótese o fizesse, taxaria o consumo e nunca o rendimento? Garantiu! Passos prometeu suspender o processo de avaliação do desempenho dos professores? Prometeu! Mal tomou posse, sem pudor, confiscou, taxou e continuou. O homem de uma só palavra mostrou ter várias. Ética política? Que é isso? Confiança? Para que serve isso? Relação adulta? Que quer isso dizer?»

4 de julho de 2011

UMA RENÚNCIA ANUNCIADA. A renúncia de Fernando Nobre ao cargo de deputado apenas surpreende quem não acompanhou a sua passagem pela política. Desde cedo se percebeu que o estimável presidente da AMI era pior que os políticos contra os quais investiu com uma candidatura que se reclamava da «cidadania», «cidadania» essa que não hesitou em trocar por um prato de lentilhas logo à primeira oportunidade, apesar de pouco antes jurar que jamais aceitaria qualquer cargo político. A humilhante derrota no parlamento, apesar do apoio do actual primeiro-ministro e do maior grupo parlamentar, acabou por fazer justiça, deixando antever a saída pela porta das traseiras que hoje se consumou. Escusava era de vir justificar a renúncia por se considerar «mais útil aos portugueses» na «acção cívica e humanitária», como se os portugueses, incluindo os que votaram nele, não conhecessem os verdadeiros motivos da renúncia. Perdoem-me a crueldade, mas um sujeito que andou a enganar os portugueses (apresentou-se a sufrágio prometendo exercer o cargo de deputado caso não fosse eleito presidente da AR) merecia pior fim do que teve.
AO CUIDADO DE NUNO CRATO. «Assim, porque sei das crenças, da autenticidade, do imenso saber, da paixão como professor e da hiper-informação do actual Ministro da Educação, sinto-me no dever de proclamar, quase à maneira de Guerra Junqueiro, que o nosso sistema educativo, caso se mantenha a actual entropia e o consequente lixo não incinerado, corre o risco de só poder dar alguma luz quando arder.» Extracto de (mais) um texto notável de José Adelino Maltez, no Albergue Espanhol.

30 de junho de 2011

ONDE É QUE EU JÁ ESTE FILME? (1) Não era Passos Coelho que dizia, ainda há pouco, que o Estado devia cortar nas despesas em vez de aumentar as receitas/impostos caso precisasse de mais dinheiro?

28 de junho de 2011

FAÇAM O FAVOR DE ME ESCLARECER. Parece que a ministra da Agricultura desempenhou exemplarmente um cargo que lhe foi confiado pelo líder do partido a que pertence, apesar de inicialmente nada saber sobre o assunto que aceitou chefiar. Se foi como se diz, óptimo. Se for assim no ministério que ora dirige, de que já disse nada saber, ainda melhor. Mas como entender que se nomeie alguém para chefiar um departamento governamental sem nada saber dele? Bem sei que o conhecimento na área que se vai dirigir não é, por si só, uma mais-valia, e às vezes até atrapalha. Mas nomear alguém para uma área sobre a qual nunca manifestou o mais leve interesse ou conhecimento, e que naturalmente vai ter de estudar a partir do zero se quiser estar à altura do cargo que vai desempenhar, é coisa que não se percebe. A única coisa que se percebe deste episódio é mesmo o que parece: havia que arranjar um cargo para a senhora, fosse ele qual fosse. Se não foi assim, façam o favor de me convencer do contrário.
A confissão.

27 de junho de 2011

APRENDER, SEMPRE. Às vezes um bom conselho vem de onde menos se espera. Como este, de um personagem de García Márquez, que reza assim: «Cuando se va a vender una cosa hay que poner la misma cara con que se va a comprar.»

24 de junho de 2011

CRÍTICA LITERÁRIA. Se os números não mudaram muito nos últimos anos, publicam-se, em Portugal, meia centena de livros por dia. Considerando que apenas uma pequena parte é notícia e uma parte ainda mais pequena alvo de apreciação crítica, gostaria que alguém me respondesse à seguinte pergunta: que factores determinam os livros que vão ser objecto de recensão? Vi há pouco, salvo erro no Bibliotecário de Babel, uma lista, por editora, dos livros que foram alvo de recensão num determinado meio e num determinado período de tempo, mas o exercício, por si só, não explica nada. Provavelmente o critério adoptado em Portugal é igual ao que se pratica em todo o lado, mas também não sei que critério é esse que se pratica em todo o lado. Parece-me que seria útil para os leitores (pelo menos) que o processo fosse menos opaco. Para mistérios já nos bastam o ror de estrelas que se atribuem a livros claramente medíocres, enquanto outros, que mereciam ser melhor conhecidos, são votados ao mais completo desprezo.

23 de junho de 2011

OUTRA VEZ A CORRUPÇÃO. Trinta por cento dos 230 deputados da anterior legislatura «são administradores ou gestores de empresas que têm directamente negócios com o Estado», diz Paulo Morais. Diz mais o vice-presidente da Câmara do Porto: o parlamento português mais parece «um verdadeiro escritório de representações» das construtoras e dos laboratórios médicos. E ainda mais: «O centro de corrupção em Portugal tem sido a Assembleia da República», onde os deputados criaram uma «legislação perfeitamente imperceptível», com «muitas regras para ninguém perceber nada, muitas excepções para beneficiar os amigos e um ilimitado poder discricionário a quem aplica a lei». Pior: «A legislação vem dos grandes escritórios de advogados, principalmente de Lisboa, que também ganham dinheiro com os pareceres que lhes pedem para interpretar essas mesmas leis e ainda ganham a vender às empresas os alçapões que deixaram na lei.» Paulo Morais disse mais, muito mais, e não foi a primeira vez que o disse. Só que nada do que diz tem contribuído para mudar o que quer que seja, apesar do impacto mediático que as suas declarações geralmente provocam. Que eu saiba, os deputados agora eleitos não se distinguem dos seus antecessores nas matérias que refere, até porque grande parte deles vem de anteriores legislaturas. Se não ficámos pior, o parlamento agora eleito deixou tudo na mesma, e não se vislumbra vontade de mudar o que quer que seja.

21 de junho de 2011

A DERROTA ANUNCIADA. Confesso que não estou a ver a razão que levou o PSD a insistir em Fernando Nobre para a Presidência da AR quando estava escrito nas estrelas que só um milagre o elegeria. Mesmo que fosse uma boa escolha (claramente não era), seria um erro submetê-lo a votos quando toda a gente já tinha dito e repetido que não votaria nele, e não será difícil imaginar que alguns deputados do PSD que votaram nele o fizeram contrariados. Que Fernando Nobre se tenha prestado a esse papel, o seu passado recente (candidatou-se num partido de direita apesar de se assumir como «um homem de esquerda», ameaçou renunciar ao mandato de deputado caso não fosse eleito presidente da AR, fartou-se de insultar os políticos e diabolizar os partidos quando foi candidato presidencial, teceu duras críticas ao próprio Parlamento a que agora se propôs presidir) deixavam-no adivinhar. Já o PSD, não se percebe por que se meteu numa aventura destinada ao fracasso. Pode ser que nada disto perturbe a coligação que nos governa, mas não augura nada de bom.

20 de junho de 2011

NÃO PERCEBI. Passos Coelho terá convidado Nuno Crato para a pasta da Educação depois de Paulo Rangel a ter recusado, alegando nada saber do assunto. A ser verdade (ainda não vi quem desmentisse), qual terá sido o critério para a escolha do ministro da Educação? Como entender que primeiro se convide uma pessoa com escassíssimos conhecimentos da área mas com vasta experiência política e a seguir se convide outra pessoa que é praticamente um especialista mas com nula experiência política?

17 de junho de 2011

AGUIAR-BRANCO. «O senhor do hífen» é ministro da Defesa. Aguardo a reacção do João Gonçalves.
A PALAVRA AOS OUTROS (4). «Pense-se na conhecida história do professor de literatura portuguesa que chega a casa, depois de um dia de trabalho e, muito irritado, desabafa com a mulher: "— Calcula tu que hoje perguntei a um rapazito de doze anos quem tinha feito Os Lusíadas. Sabes o que aconteceu? O aluno desatou a tremer, a choramingar e acabou por dizer que não tinha sido ele... É incrível, não achas?". Resposta da mulher: "— Ó querido! Talvez não tenha sido, coitado..."» Alexandre O’Neill, Já cá não está quem falou
A PALAVRA AOS OUTROS (3). «Los clásicos son los libros más contemporáneos que existen.» Enrique Vila-Matas, El País
A PALAVRA AOS OUTROS (2). «Não há no peito do homem paixão mais forte que o desejo de levar os outros a crer no que ele crê. Nada tem tamanho poder de cortar pela raiz a sua felicidade e de o enraivecer que a noção de que os outros têm em baixa conta o que ele mais preza.» Virginia Woolf, Orlando
A PALAVRA AOS OUTROS (1). «Passei um serão inteiro a discutir [com Arriano] a injunção que consiste em amar outrem como a si mesmo; é demasiado contrária à natureza humana para ser sinceramente obedecida pelo homem comum, que nunca amará senão a si próprio, e não convém de modo algum ao sábio, que não se ama particularmente a si mesmo.» Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano
IMPERDÍVEL. Carta a Segoléne Royale em francês técnico.
Depois do camping.

15 de junho de 2011

ORDINARICES. Não é fácil encontrar outra maneira de qualificar o comentário de Ana Gomes sobre Paulo Portas que não seja abaixo de cão. O que disse a eurodeputada foi de tal modo ordinário que não foi por acaso que ninguém saiu em defesa dela, e a resposta que deu a um comentário de Ferreira Fernandes foi uma tentativa malsucedida de atribuir a terceiros o que só a ela pertence. Aliás, quanto mais a criatura se explica, mas cristalino se torna o que lhe vai na cabeça.

14 de junho de 2011

DA IMPUNIDADE. Segundo o Público, Alberto João Jardim gastou 83,5 milhões numa obra antes chumbada pela Câmara do Funchal, por considerá-la megalómana face à austeridade em vigor. A ser verdade, a coisa não surpreende nem indigna ninguém, e as autoridades, para não variar, não mexerão uma palha. Há dezenas de anos que é assim, e não se vislumbra que venha a ser doutra maneira. Alberto João Jardim continua a fazer o que bem entende, a rir-se de quem o critica, e a não hesitar em insultar as mais altas figuras do Estado caso se metem com ele. O país que pague a conta, e bufar já não adianta. Aliás, a inexistência de reacções à notícia do Público demonstra bem o estado a que a impunidade chegou.

10 de junho de 2011

OS CRIADORES E A LIBERDADE. Imagino que não haverá pior para um criador (escritor, artista plástico, músico, cineasta, etc.) que viver num regime totalitário, onde a liberdade de expressão não existe. Ou o criador está em sintonia com o regime (uma contradição, que o acto criativo é, por natureza, anti-sistema), ou está perdido, porque a criação resulta, essencialmente, da insatisfação do seu criador, e isso é já admitir que o sistema em que vive não o satisfaz — logo é perigoso. Tirando a oposição ao regime (quando há), ninguém é tão afectado pela ausência de liberdade como os criadores, cuja criação necessita de liberdade como os criadores necessitam do ar que respiram. Estranho, por isso, que grande parte deles esteja sempre disponível para protestar contra regimes onde a liberdade é um bem adquirido quando estes regimes sacrificam parte dela em troca de mais segurança (o caso dos EUA é um bom exemplo), e raramente abram a boca contra regimes onde a liberdade não existe. A ignorância de tudo o que os rodeia que não tenha a ver com as suas áreas de interesse explicará alguns casos, mas seguramente que não os explicará todos — nem, sequer, a maioria. Assim sendo, por que razão isto acontece? Por paradoxal que pareça, porque os criadores têm uma visão muito peculiar do mundo, diria mesmo conservadora, e nem as evidências os fazem mudar. É bom não esquecer que os criadores são excepcionalmente dotados na arte da fuga, e talvez isso explique o que doutro modo não é fácil explicar.

9 de junho de 2011

PARA QUE CONSTE. O director da Sábado, Miguel Pinheiro, está a ser alvo de um processo-crime por este comentário publicado na revista que dirige: «Tal como Fátima Felgueiras e Isaltino Morais, Cavaco Silva acha que uma vitória eleitoral elimina todas as dúvidas sobre negócios que surgem nas campanhas.» Não, não é Sócrates o queixoso. Adivinhem quem é.

8 de junho de 2011

JORNALISMO. Segui parte da noite eleitoral pela RTP, e devo dizer que concordo inteiramente com o que disse Pacheco Pereira sobre o jornalismo português. Tal como ele, não me lembro de ouvir uma única pergunta dos jornalistas que fosse relevante ou acrescentasse alguma coisa ao que já se soubesse, tal como, de resto, já tinha sucedido na campanha eleitoral. Pior: incluo no reparo os jornalistas mais experimentados, de quem seria de esperar muito mais. Infelizmente, o jornalismo português vive da irrelevância, e manda a verdade dizer que não só o jornalismo português. O bom jornalismo custa dinheiro e chatices, e se dinheiro é coisa que não abunda, chatices é só para quem pode.

6 de junho de 2011

BOAS NOTÍCIAS. «As traduções dos memorandos da troika disponibilizadas pelo Ministério das Finanças não seguiram as imposições do Acordo Ortográfico e, na campanha que ontem terminou, nenhum partido fez dele uso nos programas eleitorais. Ou seja, escreveram "vectores" e não "vetores", "actividades" e não "atividades", "actual" e não "atual", "objectivo" e não "objetivo", "sectores" e não "setores", "directo" e não "direto", "trajectória" e não "trajetória", "optimista" e não "otimista", "tecto" e não "teto", "directiva" e não "diretiva", "selecção" e não "seleção", "acção" e não "ação".» Editorial do Público de 4 de Junho de 2011

3 de junho de 2011

PARA CANDIDATOS A ESCRITORES. «Quem esteja minimamente familiarizado com as agruras da composição não precisará que lhe contem a história em todos os seus pormenores; como ele escrevia e achava bom o que escrevera; relia e achava execrável; corrigia e rasgava; cortava; acrescentava; ficava em êxtase; sucumbia ao desespero; passava noites excelentes e péssimas manhãs; agarrava uma ideia e deixava-a fugir; tinha uma nítida visão do seu livro, e a visão desvanecia-se; representava os papéis dos seus personagens enquanto dormia; declamava-os enquanto passeava; ora vociferava, ora ria; hesitava entre este e aquele estilo; hoje preferia o heróico e o pomposo, amanhã o raso e simples; agora os vales de Tempe, mais logo as campos do Kent ou da Cornulha; e não conseguia decidir se era o mais divino dos génios se o maior tolo do mundo.» Virginia Woolf, Orlando

2 de junho de 2011

MANUELA FERREIRA LEITE. Nelson Rodrigues escreveu que a unanimidade é burra. É isto, precisamente, o que me apetece dizer sobre o ódio generalizado a José Sócrates. Não que ele não tenha feito o que pôde para o merecer, mas tanta unanimidade faz-me desconfiar. O ideal seria que Sócrates desaparecesse, como sugere Manuela Ferreira Leite, numa espécie de versão revista e aumentada da célebre proposta de suspensão da democracia por seis meses para «pôr tudo na ordem». A democracia é uma coisa linda, não há dúvida que é. Excepto quando alguém não pensa como nós.
QUE BEM PREGA FREI TOMÁS. Comissão Europeia gastou milhões em festas e jactos privados
GREVE NA TAP. Absolutamente de acordo com este post do Tomás Vasques.

31 de maio de 2011

GARCÍA MÁRQUEZ. Descobri García Márquez há mais de trinta anos, como quase toda a gente com Cem Anos de Solidão. Lido o livro, seguiu-se tudo o que dele então consegui apanhar, que o deslumbre foi total. Lembro-me especialmente de O Amor Nos Tempos de Cólera, que achei comovente, mas também de Relato de Um Náufrago, que achei decepcionante. Um dia destes descobri El coronel no tiene quien le escriba, e apesar da minha dificuldade com o espanhol fiquei «agarrado» logo à segunda página. Roberto Bolaño considerou-o «um livro perfeito». Eu não me atreveria a tanto, porque não há, para mim, livros perfeitos. Mas é um livro que se lê com o prazer reservado aos melhores, disso não duvido.
RI DE QUÊ? Se a empregada de hotel que terá sido abusada por Strauss-Kahn fosse você, ou alguém próximo de você, acharia assim tanta graça?

27 de maio de 2011

LIVROS ROUBADOS. Que me lembre, apenas roubei um livro em toda a minha vida, e nem foi bem um roubo. Saí da livraria na posse de um exemplar que tencionava devolver às estantes, e só dei por ela alguns quilómetros depois. Por sorte, uma falha de electricidade inutilizou o alarme nas portas, evitando-me um embaraço dos grandes — e uma explicação que, por melhor que fosse, não convenceria ninguém. Confrontado com a situação, o primeiro impulso foi devolvê-lo, mas a história que eu tinha para lhes contar era tão inverosímil que achei melhor não arriscar. Por azar, o livro não vale o papel em que foi impresso, e só ainda não me livrei dele porque ficará como lembrança. Como não me consta que alguém tenha roubado alguma coisa que não lhe interessasse (quando lhe perguntaram se alguma vez tinha roubado um livro que depois não gostou Roberto Bolaño respondeu que a parte boa de roubar um livro é que o seu conteúdo é cuidadosamente examinado), nem foi bem um roubo, ou foi um roubo, no mínimo, sui generis. Um roubo, no entanto, que me poderia custar caro.

26 de maio de 2011

SONDAGENS. Como os resultados eleitorais, as sondagens prestam-se a múltiplas leituras, e cada um vê nelas o que mais lhe convém. Mas há factos que se tomam por determinantes na oscilação das sondagens que, afinal, não têm assim tanta importância. O debate entre Sócrates e Passos Coelho, antes e depois considerado decisivo, nada mudou nas sondagens/intenções de voto dos portugueses. Dantes havia um empate técnico, agora há um empate técnico. Mais uma bela teoria, portanto, que não resiste ao confronto com a realidade.

24 de maio de 2011

COISAS SEM IMPORTÂNCIA (2). Imaginem que as coisas são o que parecem, que Dominique Strauss-Kahn é culpado do que é acusado. Por acaso já pensaram na vítima? Imaginaram o calvário que terá pela frente até ao julgamento? Imaginaram que lhe vão vasculhar a vida privada desde que nasceu e usar tudo o que contribua para a desacreditar, incluindo mentiras da pior espécie? Imaginaram que a violência de que já foi vítima poderá não ter sido, afinal, a parte pior? Claro que nada do que se diz nas notícias contribui para que se olhe para o caso também por este ângulo. Afinal, a vítima é uma simples camareira, é mãe separada, nasceu num país mais ou menos desgraçado, e vive num local pouco recomendável — tudo factores que, além de não a ajudarem, ainda se poderão virar contra ela. A ver vamos o que isto vai dar, mas caso se demonstre que DSK é culpado é mais que certo que haverá quilómetros de prosa a dizer que a pena foi excessiva e horas de televisão a relembrar que a justiça americana é coisa de primatas, e nem uma lágrima por ela. Ela que, até ver, é a vítima, embora às vezes não pareça.

20 de maio de 2011

O DEBATE. Passos Coelho partiu derrotado para o debate com José Sócrates na bolsa de apostas, e eu próprio dava pouco por ele. Pelo que se viu, julgo que se poderá dizer que houve equilíbrio, talvez mesmo um ligeiro ascendente do líder do PSD. Passos Coelho entrou bem, mostrou firmeza e serenidade, e mandou umas farpas certeiras. Sócrates foi igual a Sócrates, talvez uns furos abaixo. Um empate, portanto, que o líder do PSD pode saborear como se fosse uma vitória. Já se o debate decidiu alguma coisa, se fez com que os indecisos caíssem para a esquerda ou para a direita, duvido.
COISAS DOENTIAS. Eduardo Cintra Torres ainda não percebeu que todos já perceberam o problema dele com José Alberto Carvalho e Judite de Sousa, como um processo em tribunal bem o demonstra. Vai daí acha que vale tudo, incluindo defender o «jornalismo» de Manuela Moura Guedes e o famoso Jornal de Sexta onde Manuela se fartou de fazer tábua rasa das mais elementares regras do jornalismo, que Cintra Torres, na sua qualidade de crítico de media, nunca se cansou de aplaudir, apesar de saber melhor que ninguém que o «produto» não é defensável. Agora tem um problema com o «estúdio de várias assoalhadas» que Alberto e Judite terão ocupado na TVI, como se o argumento servisse para alguma coisa e não fosse a TVI, como empresa privada, senhora de esbanjar o dinheiro como muito bem entende. Este post do Pedro Rolo Duarte, publicado em Setembro do ano passado e nunca desmentido por Cintra Torres, diz bem da natureza do sujeito.
O FIM DO MUNDO. Em menos de uma semana, uma profecia de um cavalheiro que morreu há trinta anos diz que vai haver um terramoto em Roma e milhões de romanos fogem assustados, em Fátima terá havido um milagre, e um americano anuncia o fim do mundo para amanhã. Sim, para amanhã, às seis da tarde, hora de Nova Iorque. Como dizia o outro, também não acredito em bruxas, mas convenhamos que isto é demais até para um ateu.

19 de maio de 2011

ANTIAMERICANISMO ESTÁ DE VOLTA. Como seria de prever, a prisão de Dominique Strauss-Khan tornou-se motivo para manifestações de antiamericanismo primário. Os americanos quiseram, com a prisão do presidente do FMI, mostrar não sei quê a não sei quem. Os americanos são uns provincianos. A justiça dos americanos vem dos tempos das cavernas. Resumindo, os americanos são primários, simplórios, umas bestas. Juízos, curiosamente, também eles primários e simplórios, e geralmente assentes na ignorância. Talvez valesse a pena ler o Pedro Lomba no Público de hoje para melhor perceber como são as coisas e não dizer tantas asneiras.

17 de maio de 2011

STRAUSS-KAHN. Não me consta que Renato Seabra, de quem as autoridades nova-iorquinas suspeitam de ter cometido um crime, tenha chocado alguém quando apareceu algemado nas televisões e nas fotografias. Espanta-me, por isso, que alguns bem-pensantes venham agora exprimir indignação por ver Dominique Strauss-Kahn algemado, quando não abriram a boca ao verem o jovem modelo aparecer nas televisões e nos jornais com as mãos atrás das costas. O que parece incomodar esta gente é o facto de as autoridades nova-iorquinas terem dado tratamento idêntico ao caso Renato Seabra, uma coisa, para eles, inconcebível. Também não aprecio os métodos da polícia nova-iorquina — e, já agora, da polícia americana em geral. Mas não posso deixar de registar — e aplaudir — que em circunstâncias idênticas a polícia nova-iorquina age de modo idêntico, sejam os suspeitos quem forem.
O EUROFESTIVAL DAS CANTIGAS. Os Homens da Luta foram à Alemanha fazer pela vida, e apesar de terem sido corridos da fase final não se poderá dizer que a coisa lhes tenha corrido mal. A música não valia um caracol? Pois não, mas que outras cantigas por lá debitadas valiam mais do que isso? Dizem antigos concorrentes que os nossos representantes no eurofestival não dignificaram a música portuguesa. Infelizmente, não esclareceram o que entendem por tal coisa. Mas já foram mais claros quando deixarem implícito no que disseram que as musiquetas por eles defendidas estiveram à altura do exigido. Isto é, dignificaram a música portuguesa, apesar de já ninguém se lembrar de que cançonetas estão a falar — e o tempo, como é sabido, é o grande juiz. Aliás, quem se lembra de uma única música cantada no eurofestival? E, já agora, quem se lembra de uma única música que o tenha vencido? Não será a amnésia motivo bastante para demonstrar que o festival não tem, nos últimos anos dez ou vinte anos, dignificado a música, portuguesa ou outra?
HÁ AQUI UMA LIGEIRA CONTRADIÇÃO. Se o programa eleitoral do PSD «sofre de algum irrealismo e desconhecimento da realidade nacional», como diz Pacheco Pereira, como pode dizer que vai «no sentido certo»?
ALBERTO JOÃO JARDIM. Por uma vez estou inteiramente de acordo com o Daniel Oliveira.
EMPREGO PARA OS AMIGOS. Não se preocupe, vai ver que uma semana bastará.

16 de maio de 2011

COISAS SEM IMPORTÂNCIA (1). O João Gonçalves tem toda a razão. Afinal, a alegada vítima do director do FMI é só «uma camareira de hotel».

13 de maio de 2011

PERDAS IRREMEDIÁVEIS. Há quase nove anos que ando pela blogosfera e só hoje me aconteceu: um erro do Blogger fez com que perdesse um post. Escusado será dizer que era um post genial, que é sempre a sensação com que se fica quando perdemos um texto, mesmo que escassos minutos antes de o perdermos achássemos banal. Espero que o incidente não tenha relação com o fim do mundo, que se anuncia para a semana.
ARRASADOR. Concordo em absoluto com a análise do Tomás Vasques sobre o debate Passos Coelho-Paulo Portas. De facto, o desnível foi enorme, e notou-se bastante.

12 de maio de 2011

BIN LADEN. Não me regozijo com a morte de ninguém, e parece-me obsceno que a morte de alguém possa ser motivo de festejos. Mesmo a morte de um torcionário que matou — ou mandou matar — milhares de pessoas, como Bin Laden, que se preparava para matar ainda mais. Dito isto, parece-me que os EUA estiveram bem na operação que eliminou o líder da Al-Qaeda, sobretudo no modo como foi planeada a fase posterior, o destino a dar ao cadáver. Com certeza que o ideal seria capturá-lo e julgá-lo, apesar dos riscos que tal comportaria. Mas o mundo não é perfeito, e nem me surpreenderia que a captura estivesse, à partida, excluída. Também me parece evidente que a morte de Bin Laden não põe fim ao terrorismo islâmico, e é de prever um aumento de actividades terroristas nas próximas semanas. Mas é preciso ver que todas as opções seriam más. Seria má a opção que o deixasse em liberdade, seria má a opção que o capturasse e levasse à justiça, seria má a opção que o matasse e não se livrasse do corpo, e não foi perfeita a opção adoptada. A modalidade escolhida pareceu-me, portanto, a menos má. E teve ainda a vantagem de recolher material precioso, a partir do qual já se descobriram planos para novos atentados. Ironicamente, a morte de Bin Laden foi ordenada por um Nobel da Paz, de quem na altura se disse não ter currículo para o merecer.

10 de maio de 2011

CHRISTOPHER HITCHENS. Li, com gosto, um texto de Martin Amis sobre Christopher Hitchens, originalmente publicado no Guardian e posteriormente reproduzido no Público, e apeteceu-me acrescentar: um homem que negou deus a vida inteira (Hitchens é ateu, ou agnóstico, não me lembro bem) não deve converter-se no leito de morte. Afinal, deus, a existir, não apreciará os cobardes.
WRITERS AND KITTIES












Para quem gosta de escritores e de gatos.

5 de maio de 2011

DA VIDA SAUDÁVEL. Sigmund Freud fez questão de manter o hábito de fumar vinte charutos por dia mesmo depois de saber que tinha um cancro, e todos conheciam a sua dependência da cocaína e o namoro com uma cunhada. Truman Capote e William Faulkner morreram alcoólicos. Van Gogh bebia demais. Hemingway, além de alcoólico, era aldrabão. Gauguin seria pedófilo pelos padrões de hoje. Rousseau abandonou os cinco filhos logo à nascença. Naipaul forçou a amante a abortar. Mailer esfaqueou a mulher. Arthur Miller rejeitou o filho deficiente. O que há de comum entre Wagner, Heidegger, Hamsun e Richard Strauss? Eram, todos, nazis, ou simpatizavam com o nazismo. Céline apoiou a ocupação de França pelo regime nazi e defendia a inferioridade dos judeus. Karajan não hesitou em inscrever-se no Partido Nazi para subir na vida. Borges foi condecorado por Pinochet. Pound apoiou o regime de Mussolini. Sartre defendeu o estalinismo. Foucalt simpatizava com o Irão de Khomeini. Dalí apoiou o ditador Franco, e contratou assistentes para lhe pintarem centenas de obras que depois assinava e vendia como suas. Muitíssimos outros criadores (escritores, artistas plásticos, músicos, cineastas, etc.) houve cujo legado se tornou referência nas artes, nas letras e nas ideias cujos modos de vida não se recomendam. Perguntar-me-ão a que propósito vem tudo isto. Vem a propósito dos tempos politicamente correctos em que vivemos, que pretendem catar as «impurezas» das biografias dos mortos e «limpar» a cabeça dos vivos. Ficaremos sem nada «se tirarmos os filhos da puta da literatura e da pintura», dizia, há pouco, Miguel Esteves Cardoso. De facto, é pena que nem todos vejam a evidência. É que um só destes filhos da puta tem mais a ensinar-nos que todos os outros que por aí andam a pregar as virtudes do corpo e da alma, verdadeiros fascistas do politicamente correcto, que ainda hão-de fazer com que os médicos recusem tratar-nos por consumirmos sal em excesso e com que as seguradoras recusem pagar-nos os tratamentos por ingerirmos produtos cujo mal que fazem não estamos dispostos a trocar pelo bem que sabem, prática hoje intolerável para essa cambada, a quem sinceramente desejo que morra saudável.

3 de maio de 2011

TRISTE PAÍS. Esperar pelo intervalo do jogo entre o Barcelona e o Real Madrid para anunciar ao país o programa de ajuda financeira, como fez o primeiro-ministro, demonstra bem o estado a que o país chegou. Um país vergado ao calendário da bola, ainda por cima ao calendário da bola dos outros, não está longe de um país de opereta.

29 de abril de 2011

O DESESPERO É MAU CONSELHEIRO. Passos Coelho é um homem apaixonado que gostava de ter mais filhos. Tem quatro cadelas, não é forreta, canta opereta e é brincalhão. Sabe fazer farófias, papos de anjo e queijadas. Eis, em resumo, o que Passos Coelho contou à imprensa do coração, procurando demonstrar aos eleitores que ele é, afinal, um homem igual aos outros. Fez bem? Fez mal? Para mim, o episódio ilustra bem o desespero do líder laranja com o que prevêem as sondagens para as legislativas — que o PSD, face ao descalabro de Sócrates e do seu Governo, tem obrigação de ganhar por margem folgada, para não dizer maioria absoluta. Se o expediente lhe vai render votos, duvido. Há, porém, uma coisa de que não duvido: uma vez aberta a porta de casa à imprensa do coração, jamais se fechará. Os media passaram a ter legitimidade para lhe vasculhar a privacidade, e é sabido que expor a intimidade que nos convém é um convite a que exponham o que não nos convém.
E QUE BEM PRECISA QUE ELA É. Maior estação de tratamento de esgotos do país já está em funcionamento
COISAS EVIDENTES. Entre o PS e o PSD, não se vislumbra uma ideia de fundo, quanto mais um projecto alternativo.

27 de abril de 2011

READ MY LIPS. O tempo dirá se Passos Coelho fará, ou não, acordos com o PS de Sócrates, que o líder social-democrata há muito nos habituou a dar um passo em frente e dois à rectaguarda. Considero, aliás, uma irresponsabilidade dizer, no actual contexto de crise, não estar disposto a fazer qualquer acordo com o principal líder da oposição. Já disse e repeti que o PS de Sócrates não vale uma missa, mas o PSD de Passos Coelho é de bradar aos céus.
PORTUGAL DE FACHADA. É preciso dar uma imagem de responsabilidade e demonstrar aos cavalheiros que nos vão emprestar o dinheiro que somos pessoas sérias e competentes, diz-se em uníssono. Temos, portanto, que é preciso fazermos de conta que somos credíveis, responsáveis, competentes. E eu a julgar que precisamos de ser mesmo sérios, mesmo responsáveis, mesmo competentes.
RENTES DE CARVALHO, DE NOVO. Depois da entrevista esquecível, uma entrevista que dá gozo ouvir.

25 de abril de 2011

25 ABRIL. O 25 de Abril pôs fim a uma ditadura. Razão, portanto, para o assinalar, que a queda de uma ditadura merece ser assinalada. Apesar de todos os defeitos e de ter levado o país à situação em que se encontra, o regime que daí resultou é infinitamente melhor que a mais leve das ditaduras. Duvido de muita coisa, mas nunca duvidei disto.
ERROS DE PALMATÓRIA. Passaram dois dias sobre a publicação da notícia e o DN insiste no «bem-intensionado».

22 de abril de 2011

RENTES DE CARVALHO. A entrevista chega, de facto, a ser enervante, como aqui foi dito. Mas o entrevistado, J. Rentes de Carvalho, que leio desde os tempos da Periférica e agora sigo no Tempo Contado, é um senhor. É o maior escritor português vivo? Não li um único dos seus romances (só há pouco se tornou possível adquiri-los graças à reedição da Quetzal e fora de Portugal é quase impossível encontrá-los), e mesmo que tivesse lido provavelmente não saberia responder. Gabo-me, no entanto, de ter sido dos primeiros bloggers a chamar a atenção para a excelência da prosa de Rentes de Carvalho, que em boa hora o Francisco reeditou.

21 de abril de 2011

COISAS EXTRAORDINÁRIAS. Manuela Ferreira Leite, António Capucho, Mota Amaral, Pedro Santana Lopes, Morais Sarmento, Leonor Beleza, Marques Mendes, Luís Filipe Menezes, Pacheco Pereira. O que há de comum entre estas pessoas? A resposta é conhecida: são ilustres militantes do PSD que, por uma razão ou por outra, não integram as listas sociais-democratas às próximas legislativas. Para um partido que se prepara para ser Governo (tudo assim o indica), para um líder (Passos Coelho) que foi eleito com a esmagadora maioria de votos, não deixa de ser extraordinário.
CAVACO E O FACEBOOK. Não sei se o silêncio do Presidente da República começa a ser excessivo, como alguns acham, e não me espantaria que Cavaco se queira abrigar o mais possível da tempestade que por aí vai. Mas há uma coisa que não compreendo: o presidente acha mesmo que o Facebook é o meio mais adequado para falar com os portugueses?

19 de abril de 2011

CRUEL DILEMA. «O que fazer quando nos obrigam a escolher entre Sócrates e Passos Coelho para primeiro-ministro? O que fazer quando nos querem obrigar a escolher entre um Governo de bananas liderados por um aldrabão ou um governo de aldrabões liderados por um banana? O que fazer quando nos obrigam a escolher entre a forca e a guilhotina?» José Vítor Malheiros, Público de hoje

18 de abril de 2011

NOBRE, MAS POUCO. Um homem que promete renunciar «imediatamente ao cargo» de deputado caso não seja eleito presidente da Assembleia da República (entrevista ao Expresso) e dois dias depois diz que ajuizará na altura «o lugar mais adequado» caso isso suceda (entrevista à RTP) não pode, evidentemente, ser levado a sério, embora a promessa feita há um mês de jamais aceitar um cargo partidário e de num curto espaço de tempo ter apoiado o Bloco e o PS ilustrem bem a massa de que é feito. Fernando Nobre ainda não entrou na política a sério, e já tem o que nela há de pior. Bem pode o PSD dizer que houve «unanimidade» na constituição das listas que não esconde o óbvio: o convite a Fernando Nobre foi um erro, e um duplo erro nos termos em que foi feito.
TIRO PELA CULATRA. A pretexto de trazer independentes para a política, o PSD convidou Fernando Nobre a integrar as listas sociais-democratas porque entendeu que Fernando Nobre lhe trará mais alguns votos (não esquecer que Nobre teve quase 600 mil votos nas presidenciais). Se dúvidas há que isso aconteça (é mais ou menos consensual que os votos não são transferíveis), pelo rumo que as coisas estão a levar ainda lhe vai subtrair alguns votos. A ver vamos o que vai suceder, mas tudo indica que os embaraços que Nobre há-de causar ao PSD ainda estão no início. Como diz o outro, cada um tem o que merece.

15 de abril de 2011

DA CEGUEIRA. Que importância terá o facto de a TVI proibir a difusão da gafe de Sócrates em São Bento? O episódio demonstra excesso de preocupação do primeiro-ministro com a imagem? Provavelmente. Mas, a ser assim, vale tudo, e quando mais embaraçosas forem as imagens, melhor ficamos a conhecer quem nos governa. Percebe-se que as TVs tenham posto no ar as imagens por acidente, mas já não se percebe que se queira passar por notícia o que não é notícia. Só mesmo na cabecinha de Manuela Moura Guedes, que tem um conceito de jornalismo muito peculiar, e contas a ajustar com meio mundo.
HUMOR INVOLUNTÁRIO. A notícia que nos dá conta do negócio entre a Sonae e a filha do presidente Eduardo dos Santos, que visa instalar uma rede de hipermercados em Angola, tem um detalhe que é uma delícia: «A parceria está sujeita à apreciação final das autoridades angolanas.»
BEM PREGA FREI TOMÁS. El eurodiputado que desató la guerra contra la clase business, cazado volando en primera

13 de abril de 2011

DE MAL A PIOR. Passos Coelho admite governar com o PS mas sem Sócrates? Confesso que este PSD não pára de me surpreender. Desconhecerá o líder social-democrata que Sócrates acaba de ser reeleito, quase por unanimidade? Que o PS fez um congresso onde Sócrates foi praticamente entronizado? Não será isto evidência bastante para o líder social-democrata perceber que a haver negócio com o PS passará, inevitavelmente, por Sócrates? Ou estará ele à espera que o PS, sabe-se lá com que artimanha, afaste Sócrates e lhe apresente um interlocutor à sua medida? Quando é que Passos Coelho acerta uma?

11 de abril de 2011

FERNANDO NOBRE (3). Convém lembrar que o senhor que ainda há um mês garantia não aceitar lugares partidários, como as televisões largamente vêm relembrando, acha que os membros do Hamas não são terroristas mas «resistentes», como se pode ver aqui. Um pequeno detalhe, bem sei, mas que é todo um programa.
FERNANDO NOBRE (2). A decisão de encerrar a página do Facebook, onde estavam a ser colocadas mensagens de desagrado com a decisão de se candidatar nas listas do PSD, aparentemente por quem votou nele nas presidenciais, é mesmo o que parece: Nobre convive mal com a crítica, para não dizer com a democracia. A explicação do ex-director de campanha (Artur Pereira alegou que a página foi encerrada porque se transformou uma coisa digna numa coisa indigna) não tem, evidentemente, ponta por onde se lhe pegue.
FERNANDO NOBRE (1). Um independente que conquistou quase 600 mil votos (14%) numa eleição presidencial tem todos os motivos para permanecer independente. Afinal, tudo indica que os eleitores que votaram nele fizeram-no, essencialmente, por ser independente, como os inúmeros protestos bem o demonstram. Contrariamente ao que Nobre possa pensar, não se vislumbra que a sua entrada na política partidária, mesmo com o estatuto de independente, seja uma mais-valia para o PSD, muito menos para a política e para o país. Pelo contrário, só vem descredibilizar ainda mais a política e os políticos.
OS DEPUTADOS QUE TEMOS. Quando as viagens de avião dos eurodeputados eram pagas ao quilómetro, eles escolhiam ir em turística. Depois, passaram a ser reembolsados só mediante a entrega do bilhete e começaram a viajar em executiva.
A IRONIA É SÓ PARA QUEM PODE. Como um professor tem obrigação de saber, uma vírgula fora do sítio pode fazer toda a diferença.
POIS NÃO. «Um país incapaz de afinar o discurso quando está à beira do abismo não consegue o respeito dos seus pares.» Editorial do Público de domingo
OLHA A NOVIDADE. Decisão de condenar gestores é "uma história de ficção"

8 de abril de 2011

O PRÓXIMO PROBLEMA. Parafraseando o outro da bola, quem chega a secretário-geral do PSD arrisca-se a ser primeiro-ministro. Passos Coelho arrisca, portanto, formar governo após as eleições de Junho, embora as sondagens apontem uma espantosa proximidade entre PS e PSD, e os adversários internos, muitos e bons, tudo farão para o impedir. Apesar de Sócrates, a quem as mesmas sondagens dão uma votação impressionante (e que poderá melhorar após o confronto directo com o líder do PSD), é o cenário mais plausível. Infelizmente, o líder do PSD tem vindo a demonstrar não saber o que quer, que ora quer o que ainda ontem jurava não querer — e a situação do país requer que se saiba o que fazer e determinação para o fazer. Obviamente que só o tempo dirá se Passos Coelho é o homem certo no lugar certo na altura certa, mas nunca as minhas expectativas foram tão baixas.

7 de abril de 2011

ESTOU A LER. As I Walked Out One Midsummer Morning, cuja primeira edição data de 1969 e conta uma viagem do autor (Laurie Lee) pela Espanha de 1935, está a ser uma bela surpresa. Para começar, fez-me lembrar os relatos de viagens de Camilo José Cela reunidos em Vagabundo ao Serviço de Espanha, Journey to the Alcarria, Viaje al Pirineo de Lerida e Del Miño al Bidasoa, como os títulos sugerem o primeiro lido em português, o segundo em inglês, e o terceiro e o quarto (por terminar) em espanhol. E fazer-me lembrar os relatos das viagens de Cela, para mim o que há de melhor na literatura do género, não foi pouco.

5 de abril de 2011

GAIN IN TRANSLATION. Os espanhóis apreciam mais a obra de Saramago que os portugueses? Não admira. Afinal, nuestros hermanos leram a obra de Saramago em espanhol, e qualquer obra de Saramago que não seja na língua original melhora substancialmente.

1 de abril de 2011

VENHA O DIABO E ESCOLHA. Se dúvidas houvesse, a vitória «norte-coreana» de Sócrates nas «directas» do PS demonstra que o primeiro-ministro em funções está aí para as curvas. O timing da demissão foi perfeito para o primeiro-ministro? Tudo indica que foi. Toda esta novela foi pensada por Sócrates de modo a que assim sucedesse? Tudo aponta para aí. Foi um golpe do primeiro-ministro destinado a provocar eleições, como defende António Barreto? Tudo leva a crer que sim. Mas todo este filme de série B veio pôr a descoberto o que há muito se suspeitava: a oposição com pretensões a ser governo não está preparada para governar, o que é uma péssima notícia. Demonstrou mais: os que acusam Sócrates de recorrer a processos pouco ortodoxos para se manter no poder são os mesmos que ainda há pouco sugeriram métodos pouco ortodoxos para correr com ele. A chefia de um «governo de salvação nacional» (ou lá como se chama) por outra pessoa que não Sócrates (chegou a falar-se de Jaime Gama e de Luís Amado), como alguns sugeriram, é um bom exemplo do que digo, embora a forma como surgiu só podia ter redundado em fracasso. Queiramos, ou não, Sócrates é um osso duro de roer, e só vai sair de cena quando o voto assim o ditar. Pelo andar da carruagem, não tão cedo como seria desejável. Que Passos Coelho se prepare, portanto, para engolir o que disse quando disse não estar disposto a fazer alianças com Sócrates. Aliás, o líder social-democrata já nos habituou aos recuos, para não lhe chamar outra coisa.