22 de julho de 2004

Francisco José Viegas no seu melhor: «Quando o Estado se mete a ser moderno, dá asneira. O Estado é uma personagem vetusta, com cabeleira postiça, anterior à penicilina e que escreve em resmas de papel almaço - quando se veste de boca-de-sino e lycra, a tremer ao som do hip-hop, parece uma velha gaiteira, inadequada para ser apresentável entre gente decente. Digamos que, em meu entender, deve conservar uma certa pose, a de quem não faz aeróbica nem vai a Vilar de Mouros acampar entre pulgas e lagartixas participando em cerimónias rituais para fumar haxixe.»
«Não inviabilizar» não é o mesmo que «viabilizar», diz Ana Gomes. Se não percebem a diferença, leiam este post. Se continuarem a não perceber, desistam.

21 de julho de 2004

«Caminhávamos pelos passadiços arruinados, de mão dada. Uma ligeira brisa fazia esquecer por um momento a fornalha. Eu sentava-me, ela agachava-se, juntava as mãos esguias sob o queixo, eu tirava uma harmónica do bolso e tocava, era a única ocasião em que uma expressão de alegria infantil surgia no seu rosto (mesmo no amor, porque acontecia mesmo assim que o fizéssemos, ela mantinha uma máscara impassível), olhávamos as aves deslizando no céu incandescente, ou então víamos vogar as velas irisadas dessas medusas a que os ingleses chamam "barcos de guerra portugueses", e cujos longos filamentos purpurinos e azuis podem causar a morte. Tomar-nos-iam por loucos, ou por fantasmas. Sentíamo-nos bem, um e outro, imagino, casal caminhando na água profunda e triste, porque o mundo parecia de repente afastado.» (Porto-Sudão, Olivier Rolin)

20 de julho de 2004

Parece que um conselheiro de segurança do presidente Clinton terá desviado documentos secretos que deveriam ser apresentados à comissão que investiga o 11 de Setembro. Repito: parece, porque a investigação continua. «Devolvi tudo o que tinha, à excepção de alguns documentos que deitei fora acidentalmente», disse Sandy Berger, admitindo que o fez «inadvertidamente». Reparem no «acidentalmente» e no «inadvertidamente». É que entre os documentos que foram deitados fora «acidentalmente» e «inadvertidamente» constam rascunhos de um relatório sobre a forma como a administração Clinton lidou com as ameaças feitas pela Al-Qaeda aquando das celebrações do Milénio, em Dezembro de 1999. Coisas sem importância, portanto, a ponto de se deitaram fora «acidentalmente» ou «inadvertidamente». Como também não terá importância o facto de Sandy Berger ser um dos conselheiros de John Kerry, candidato democrata às eleições presidenciais de Novembro. Pensarão que eu vejo esta notícia com grande regozijo. Não é verdade. E não é verdade por uma razão muito simples: estou farto de saber que a mentira não é exclusivo de uma das partes, apesar de nos quererem fazer crer que assim é. Curiosamente, ou talvez não, horas depois desta notícia estar em todo o lado, na BBC e no portal Terra nem sombra dela. Assim vai a imprensa «independente».

19 de julho de 2004

Depois de ter decidido dar nova oportunidade ao PSD em vez de convocar eleições antecipadas, o Presidente Sampaio passou a fazer tudo mal. Agora é a Lei de Bases da Educação (que vetou), amanhã será outra coisa qualquer. Também já se sabe que Santana Lopes não vai beneficiar do «estado de graça» de que costumam gozar os chefes do governo nos primeiros meses — nem, sequer, do benefício da dúvida, como ficou claro à medida que foram conhecidos os novos ministros. A política — a pequena política — continua em brasa, e adivinha-se que mais tempo. Resta saber se o país ganha alguma coisa com isso.
Aqui está um interessante artigo sobre o comportamento dos adeptos ingleses durante o Euro2004.

16 de julho de 2004

Tirando a crónica de João Bénard da Costa, que cada vez me dá mais gozo ler, nada que mereça o mais leve comentário.

15 de julho de 2004

Devido aos últimos acontecimentos político-partidários, que reputo da maior importância e mexeram profundamente com a minha sensibilidade, decidi suspender o Esmaltes e Jóias. Assim, caso não haja qualquer impedimento de última hora ou manifesta falta de assunto, cá estarei amanhã à mesma hora.

14 de julho de 2004

O juiz que integrava o colectivo dos casos de pedofilia da Casa Pia pediu uma licença sem vencimento de longa duração, diz a Lusa. O novo juiz titular do processo «Apito Dourado» «é filho de um assessor de Valentim Loureiro e irmão de um fiscal de obras da Câmara Municipal de Gondomar», diz o DN, embora já desmentido por não sei quem. Sim, as coisas nem sempre são o que parecem. Mas convinha que não se lançassem ainda mais dúvidas sobre quem já há dúvidas que chegue.

13 de julho de 2004

Até prova em contrário, a ideia de transferir ministérios da capital para a Província é um perfeito disparate. Um perfeito disparate porque isso não deixará de acarretar custos, e não se vêem vantagens. Que benefícios terá um agricultor transmontano com a transferência do Ministério da Agricultura para Santarém? Que benefícios terá um empresário algarvio com o Ministério da Economia na cidade do Porto? De facto, não se percebe. Mas já se percebe a ideia enquanto tal, mesmo que se revele impraticável. Afinal, ela dá um ar de que se pretende descentralizar, e ideias destas sempre rendem uns minutos de televisão e uns títulos nos jornais. Além de que, como dizia o outro, em política, o que parece é.

12 de julho de 2004

A demissão do secretário-geral do PS demonstrou o que já toda a gente sabia: nos momentos difíceis, quando seria de esperar um pouco de frieza e bom-senso, Ferro Rodrigues age com muita emoção e pouca razão. Tirando meia dúzia de gatos-pingados, ninguém lamenta a decisão. A começar pelo próprio PS.
A forma como algumas pessoas associaram a morte de Maria de Lurdes Pintasilgo à decisão do Presidente da República foi obscena. E não foi só Boaventura Sousa Santos. Que me lembre, foram, pelo menos, mais dois: Augusto M. Seabra e Maria João Seixas.
Olha, mais uma tempestade política.

9 de julho de 2004

Independentemente de se gostar mais desta ou doutra solução, é evidente que a única decisão sensata que podia ter sido tomado pelo Presidente da República face à actual crise política foi a decisão que tomou. Sensata e legítima porque a Constituição não deixa dúvidas quanto ao caminho a seguir, já não se podendo dizer o mesmo caso o presidente optasse por dissolver o Parlamento e convocasse eleições antecipadas. Não se compreende, pois, a «tempestade política» que tal decisão provocou, tanto mais que a hipótese de o PSD ser convidado a formar novo Governo foi sempre um cenário plausível. E ainda menos compreensível que o líder do PS se tenha demitido alegando uma «derrota pessoal», apesar de ter pelo PR uma «amizade de muitos anos». Pior só quando os jornalistas agem como se fossem funcionários políticos, como bem demonstrou Carlos Magno com uma arrogância e sobranceria impressionantes.
O presidente Jorge Sampaio deveria convocar eleições antecipadas porque é de esquerda e o Governo é de direita. Esta é a tese (pouco original) defendida por este e este senhores. Por estes senhores e por toda a esquerda em geral, pelo que eu volto a perguntar: haverá uma esquerda inteligente?

8 de julho de 2004

Eu não gosto de Alberto João Jardim. Já o disse variadíssimas vezes e por razões que expliquei. Mas não há dúvida de que ele tem razão quando diz que não há uma crise política, mas «uma instabilidade» que dura há duas semanas «por causa de alguém não gostar de outro alguém». Também nunca simpatizei com Pedro Santana Lopes, mas não convence ninguém quem diz que Pedro Santana Lopes não tem legitimidade para suceder a Durão Barroso sem que, para isso, haja eleições (no PSD ou no país). Evidentemente que toda a gente sabe qual é o verdadeiro problema: certa direita não gosta de Santana Lopes, e a esquerda quer eleições porque está convencida que as ganha. O resto é pequena política. Ou ainda mais pequena política.
Pacheco Pereira fez um retrato do português-médio que merece um caixilho. Francisco José Viegas disse umas coisas sobre Santana Lopes em que vale a pena meditar.

7 de julho de 2004

Todos os livros que emprestei até hoje fiquei sem eles. Todos — não me lembro de qualquer excepção. E fiquei sem eles por uma razão muito simples: não mos devolveram, e esqueci-me a quem os tinha emprestado. Mas, um dia, decidi cortar o mal pela raiz e não mais emprestar livros fosse a quem fosse. Não foi uma decisão fácil e custou-me várias incompreensões e inúmeros equívocos, mas nunca me arrependi de o ter feito. Cheguei, inclusive, a comprar livros para oferecer a quem mos pedia emprestados só para não ter que emprestar os meus, pois eu sabia que ia ficar sem eles. Foi mais ou menos isto o que, hoje, tentei explicar a um amigo meu que me pediu um livro emprestado, mas não me pareceu ter ficado lá muito convencido. É normal. Afinal, só quem já passou por elas ou atribui importância aos livros enquanto objectos (como é o meu caso) compreende o alcance do que estou a dizer.

5 de julho de 2004

Almoço num restaurante português. Como seria de esperar, o Portugal-Grécia domina as conversas. E todas as conversas giram à volta do mesmo: a derrota de Portugal. A derrota de Portugal que está a ser difícil de digerir, e para a qual é preciso encontrar bodes expiatórios. Scolari errou. Deco não jogou merda nenhuna. O árbitro foi um filho da puta. Portugal é o maior? Pois era.

2 de julho de 2004

A Hora da Partida

A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

1 de julho de 2004

Pedro Santana Lopes foi eleito presidente do PSD pela esmagadora maioria dos votos (98 contra 3). O actual presidente da Câmara de Lisboa sucede, assim, a Durão Barroso no cargo de presidente dos social-democratas — e poderá, em breve, tornar-se primeiro-ministro. Tudo isto em meia dúzia de dias e, aparentemente, de acordo com as regras. Mas há uma ideia que fica desta nomeação: por mais legítima que tenha sido — e nada indica o contrário —, fica a ideia de uma vitória na secretaria, e as vitórias na secretaria não se recomendam. Já os «golpes de Estado» invocados pela dra. Manuela Ferreira Leite e pelo dr. Alberto João Jardim, embora por razões distintas, são um manifesto exagero.

30 de junho de 2004

Ia escrever um «post» absolutamente genial sobre a vitória de Portugal frente à Holanda, mas o maradona (com minúscula) antecipou-se. De maneira que só quero acrescentar uma coisa: viram o que Figo jogou neste jogo? Não há dúvida que Scolari é um mestre a gerir os recursos humanos e com uma capacidade mobilizadora impressionante. E mais outra coisa: já lá vão quase cinco horas após o Portugal-Holanda e ainda não vi comentários do Francisco e do Joel. O que se passa?

29 de junho de 2004

O PS quer eleições porque, havendo-as, está convencido que as ganha. Parte do PSD quer um congresso, porque um congresso pode afastar o indesejado Santana Lopes. Os outros (PC e Bloco) querem eleições antecipadas, e não vale a pena explicar porquê. Perante isto, dizem-me que está de regresso a grande política. Exactamente, a grande política, embora cheire à légua (e mal) outra coisa. Além disso, contando que, amanhã, a selecção ganhe à Holanda, quem quer saber de política?

28 de junho de 2004

Espero que não necessitemos das grandes penalidades para ganhar os dois próximos jogos. Mas, se necessitarmos, faço votos para que o Postiga não repita a proeza — ou a «folha-seca», como lhe chamou o Francisco. Concordo que o penálti de Postiga foi bom e bonito, mas está provado que raramente se consegue fazer bem e bonito. Daí que, numa situação daquelas, basta-me que se procure fazer bem para me pôr os nervos em franja.
Uma entrevista de Agustina Bessa-Luís é sempre uma boa notícia.
Luiz Felipe Scolari tem levado a água ao seu moinho, ao nosso moinho. Graças aos jogadores que tem às suas ordens e a toda a máquina que o rodeia — mas, também, ao apoio dos portugueses, a quem não se tem cansado de agradecer e de pedir o apoio. Mas Scolari insiste, também, que tudo tem corrido bem graças a Deus e à Senhora de Caravaggio, o que deu azo a comentários jocosos que só não foram mais longe porque as coisas têm corrido bem. Ora, eu não percebo porquê. Mesmo sendo um ateu convicto (ou agnóstico, ainda não me dei ao cuidado de saber qual é a diferença), custa-me que não se respeite as crenças de cada um. Custa-me, sobretudo, que se ignore que a crença pode mover montanhas, como inúmeros exemplos têm demonstrado. Deixem lá o sr. Scolari manifestar o que pensa acerca da fé e praticá-la como bem entender. Além de ser um assunto que merece respeito, só nos pode beneficiar. E quando digo beneficiar quero dizer a todos nós, crentes ou não.
A coisa pode cheirar a folclore, mas não deixa de ser um indício de que as coisas já estiveram melhor. Estou a referir-me ao pedido de desculpas de Ferreira Torres aos magistrados que o condenaram a três anos de prisão (embora suspensa) e à perda do mandato de presidente da Câmara do Marco, a quem resolveu insultar. «Sou mais sério do que as pessoas que me julgaram» e «tenho mais poder do que aqueles juízes», disse Ferreira Torres após uma «grandiosa e inesperada recepção popular». Dias depois, corrigiu o tiro: «Tenho muita honra em ter sido julgado por este colectivo de juízes, pela correcção com que fui tratado e a que não estava habituado», acrescentando que os insultos aos juízes resultaram do «estado de cansaço da viagem e pela emotividade do momento, motivada por tão grandiosa e inesperada recepção popular.» Comovente. Muito comovente.

27 de junho de 2004

Uma certa esquerda, tão indignada com a onda patrioteira por causa da Selecção, apressou-se a pôr a circular um slogan onde aproveita descaradamente essa mesma onda patrioteira para pedir eleições antecipadas. Haverá mesmo uma esquerda inteligente?

25 de junho de 2004

O Filipe Moura acha que «a selecção nacional não é o país», mas «somente uma equipa de futebol». Ora, não é bem assim. Goste-se ou não da ideia — e o Filipe Moura tem o direito de não gostar da ideia —, o povo português acha (e até já o demonstrou variadíssimas vezes) que a selecção nacional é o país, mesmo os que ligam pouco à bola. De modo que não sei quem é mais ridículo e provinciano: se os portugueses que hasteiam a bandeira à porta de casa, se quem pensa que tal prática é ridícula e provinciana.
O jogo de ontem deu-me cabo dos nervos. Mas o que me ia matando foi aquele penálti do Postiga. Não, não achei nada genial. O que eu achei é que Postiga arriscou muito, talvez demasiado. O que estaria a dizer-se agora de Postiga caso tivesse falhado e o falhanço tivesse ditado a eliminação de Portugal?

24 de junho de 2004

Alguém quer saber de outra coisa que não seja a vitória de Portugal sobre a Inglaterra? Eu bem me parecia. De maneira que, nada tendo a acrescentar ao que já foi dito e repetido, é melhor ficar calado e caladinho. Apenas uma questão: quando será que os jogadores portugueses que ficam no banco (ou são substituídos) demonstram estar mais preocupados com o destino do colectivo do que com os seus próprios destinos?

23 de junho de 2004

Jon Schmidt é um músico que tem uma página na internet onde se pode comprar todos os discos que gravou até agora. Mais exactamente quatro CDs, em formato tradicional ou digital. Infelizmente não tenho comissão nas vendas, mas sugiro na mesma que comprem todos. Exactamente: todos.

22 de junho de 2004

Acabei de ler Alexandra Alpha, um dos melhores livros que eu já li até hoje. Depois de Balada da Praia dos Cães, A República dos Corvos, De Profundis e O Delfim fica a vontade de ler tudo o que resta de Cardoso Pires.

21 de junho de 2004

Há anos que não se via a selecção portuguesa jogar tão bem como jogou contra a Espanha, especialmente na primeira parte. O que mais me impressionou foi o trabalho de recuperação de bola, feito com uma determinação e uma garra verdadeiramente notáveis. Assim qualquer um fica rendido à selecção — e eu fiquei rendido à selecção que jogou contra a Espanha, apesar das dúvidas de há uma semana. E não só pelo resultado alcançado, embora o resultado alcançado tivesse sido o mais importante. Ficaria rendido na mesma caso tivéssemos perdido, porque se viu atitude e determinação para ganhar. Resta saber se vamos continuar a jogar bem. Porque, a jogarmos assim, os ingleses que se cuidem.

19 de junho de 2004

Parece que há uma direita inteligente. E esquerda inteligente, haverá?

17 de junho de 2004

Não deve haver modalidade onde se passe tão depressa do oito ao oitenta como o futebol. Vejam os casos de Figo e Rui Costa, que tanto deram ao futebol português (e a Portugal). Não há bicho-careta que já não tenha falado mal deles, e quando digo mal quero dizer mal mesmo. Que se diga que estão velhos ou abaixo de forma, é perfeitamente aceitável. Mas já não é aceitável que se façam verdadeiros assassinatos de carácter. Muito menos por quem ainda ontem os considerou deuses na terra.

16 de junho de 2004

Há séculos que não via uma coisa tão pacóvia como a emissão da RTP antes do Portugal-Grécia.
Não costumo dar os parabéns a ninguém por aniversários bloguísticos (e receber, já agora). Mas apetece-me dar os parabéns ao Francisco José Viegas pelo Aviz.

15 de junho de 2004

Um conhecido programa da televisão portuguesa foi pago por um dos convidados desse mesmo programa, que aí foi entrevistado. Pago quase na totalidade, para ser mais exacto. Não, não há prémio para quem acertar no nome do convidado.

14 de junho de 2004

A derrota de Portugal frente à Grécia corre o risco de varrer a onda de patriotismo só vista nos tempos do dr. Salazar. De facto, e independentemente do que acontecer daqui para a frente (é preciso não esquecer que as esperanças portuguesas continuam intactas), a derrota da selecção portuguesa frente a um país de «outro campeonato» teve o mérito de acordar os portugueses para a triste realidade. E, a meu ver, a triste realidade demonstra que a fasquia foi posta demasiado alta, sobretudo depois dos jogos de preparação terem demonstrado que não há razão para grandes entusiasmos. Mais que a derrota clara e inequívoca frente aos gregos, a selecção portuguesa limitou-se a confirmar o que já se disse e repetiu: uma amálgama de excelentes jogadores, mas longe de ser uma equipa. Infelizmente não há razões para crer que isto se possa mudar de um dia para o outro.
Acabei de colocar uma mão-cheia de reproduções de pinturas na minha página pessoal, mais exactamente 200 reproduções de pinturas que fui encontrando por aí e que não me canso de contemplar. Se quiserem ver, estão aqui.

12 de junho de 2004

10 de junho de 2004

Por razões que desconheço, o endereço da minha página pessoal deixou de funcionar. Escusado será dizer que estou pior que estragado, e sem outro assunto que me ocupe a cabeça. De modo que limito-me a recomendar este exercício de lucidez.

9 de junho de 2004

Sousa Franco? Deixem-me vomitar primeiro a hipocrisia.

8 de junho de 2004

Acabei de dividir em três a minha lista de blogues favoritos: os indispensáveis, a ler diariamente; os interessantes, com visitas mais espaçadas; e os mais literários, que nunca perdem a actualidade e que visito quando calha. Isto porque o tempo não dá para tudo, e há que definir prioridades. Curiosamente, quanto mais «pesos-pesados» abandonam a blogosfera (casos de Pedro Mexia, Pedro Lomba e João Miranda, por exemplo) mais blogues vão aparecendo que reclamam atenção. E ainda outra curiosidade: os blogues políticos estão a dar lugar aos blogues literários.

7 de junho de 2004

Quando se pretende ridicularizar alguém fazendo uso do humor que não se tem, corre-se o risco de cair no ridículo.
Ai que a Ana Albergaria perdeu a compostura.

4 de junho de 2004

D. José Policarpo veio lembrar que não se está a discutir a Europa na campanha para as europeias. Ou seja, que não se está a discutir o essencial. D. José Policarpo não é o primeiro e não será o último a lembrar esta evidência, mas ninguém quer saber. O que importa é o «cartão amarelo» que a oposição quer que os eleitores mostrem ao Governo, ou que os eleitores demonstrem que estão com o Governo. Quanto à Europa, que se lixe. Deve ser por isso, aliás, que grande parte dos portugueses não tenciona votar. O fim-de-semana prolongado, com ponte ou sem ela, é uma desculpa. Uma péssima desculpa para a grande abstenção que se anuncia.

1 de junho de 2004

Quem é capaz de explicar como, num Estado de direito, se é preso preventivamente durante quatro meses e meio sob a acusação de 23 crimes e, de repente, se anuncia que não vai a julgamento?

31 de maio de 2004

Ana Manso, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD e candidata ao Parlamento Europeu, disse que Sousa Franco é «um homem sem categoria», a quem falta «alguma coisa em termos físicos». João Almeida, líder da Juventude Popular, caracterizou Sousa Franco como um «senhor careca, de óculos grandes e esquisitos». Paulo Portas, ministro da Defesa e líder do CDS/PP, diz que Sousa Franco «não é apenas o pai do défice», mas «o pai, a mãe, o avô, a avó, o gato e o periquito». A peixeirada já levou o presidente Sampaio a pedir contenção, porque «estão em jogo interesses vitais» para Portugal. Ora, com todo o respeito pelo PR, não me parece que os «interesses vitais» de Portugal saiam melhor defendidos pondo fim à peixeirada, porque a peixeirada tem o condão de chamar a atenção para uma eleição cuja importância a maioria dos portugueses desconhece.

28 de maio de 2004

«É sintomático que as duas finais europeias [Liga dos Campeões e Taça UEFA] deste ano tenham reunido dois clubes do Sul da França e dois de Espanha e Portugal, e que nenhum deles venha das capitais destes países. Não é Londres nem Paris, nem sequer Madrid ou Roma, que manda os seus clubes às finais. Nestas capitais há outros objectos de investimento e de glória», diz Villaverde Cabral. E eu pergunto: será que Villaverde Cabral acredita mesmo que a aparente secundarização do futebol em Paris, Madrid ou Lisboa se deve a «outros objectos de investimento e de glória», ou é um mero desejo que assim fosse?

26 de maio de 2004

«O que teria acontecido a Guevara se não tivesse sido assassinado?», pergunta o Francisco José Viegas. A pergunta é pertinente e faz todo o sentido. Como é pertinente e faz todo o sentido perguntar: o que estaríamos a dizer hoje de Francisco Sá Carneiro caso não tivesse morrido num acidente (ou atentado) de aviação?

25 de maio de 2004

Eu não gosto de Cavaco Silva, Pinto da Costa e José Mourinho. (Há mais que eu não gosto, mas estes chegam para o que quero dizer.) Mas há uma coisa que os três cavalheiros têm em comum que eu aprecio: a capacidade de fazer. De fazer e, regra geral, bem feito. Ora, perante obra feita, ainda por cima que prestigiou o país, eu só posso curvar-me. Mas fica uma dúvida: será que é necessário ser-se arrogante para alcançar o sucesso?
Consta que Alberto João Jardim voltou a perfilar-se como candidato a candidato a Presidente da República. E que, segundo o próprio, o grande entusiasta da candidatura a Belém é António Champalimaud, falecido há uns dias.

24 de maio de 2004

Para o Tulius Detritus, «continua a não existir ninguém a escrever regularmente na imprensa lusitana» que faça sombra a Clara Ferreira Alves. Eu não concordo nem um milímetro com esta ideia, mas não rebato. Mas apetece-me deixar aqui uma pergunta: quem ainda se lembra de Vasco Pulido Valente ter dito (e escrito), um dia, que Clara Ferreira Alves não sabia escrever?

20 de maio de 2004

Já o disse uma vez mas volto a repetir: gostaria de ver a comunidade muçulmana condenar de forma clara e inequívoca os atentados terroristas cometidos por radicais islâmicos e dizer que não se revê em tais métodos. É que, até agora, os muçulmanos têm-se limitado a condenar os atentados pela voz de um outro membro ilustre ou de um ou outro especialista — e só quando solicitados a pronunciarem-se. Como não sou de meias-palavras, aqui vai o que eu penso. As comunidades muçulmanas que vivem em países livres podem não rever-se nos métodos usados pela Al-Qaeda ou organizações similares, mas revêem-se nos pressupostos. E isso é que é preocupante.

19 de maio de 2004

Se a memória não me falha, tenho três livros de Agustina (O Mosteiro, Fanny Owen e Os Meninos de Ouro), mas ainda não li nenhum. Tal como algumas dezenas de outros livros, Agustina está na prateleira reservada aos livros por ler, porque as prioridades têm sido outras. Daí que não tenho qualquer opinião sobre a escritora, muito menos sobre a justeza do Prémio Camões que hoje lhe foi atribuído e por toda a gente considerado como justíssimo. Até pelos que nunca leram uma linha de Agustina, e era aqui que eu queria chegar.

18 de maio de 2004

Consta que o FC Porto ainda não convidou a Assembleia da República para a final da Liga dos Campeões, convite que se traduzirá no envio de uma delegação de não sei quantos deputados à final do dia 26. Vai daí, Mota Amaral já avisou: quem faltar à sessão parlamentar do dia 26, terá falta. E, caso alguém se tenha esquecido, quatro ou mais faltas sem justificação durante uma legislatura dão direito a perda de mandato. Temos, assim, que a Assembleia da República está refém de um convite formal do sr. Pinto da Costa — e eu já estou a imaginar o sr. Pinto da Costa a rebolar-se de gozo.

17 de maio de 2004

Eu sei que, assim colocada, a questão pode ser demasiado simplista e chocar os mais sensíveis. Mas não resisto: há um Islão bom e um Islão mau? Eu quero crer que haja. Mas como distinguir uma coisa da outra?

14 de maio de 2004

Os tempos vão de feição para os livros. Afinal, tenho dúzias deles que ainda não li por falta de tempo. De maneira que fiquem bem e com uma citação de Vergílio Ferreira, muito apropriada aos tempos que correm: «O homem não gosta da paz. Gosta só de conquistá-la. Entre uma coisa e outra há muita gente estendida. É a que tem a paz verdadeira.»

13 de maio de 2004

Mesmo sabendo-se que não há «guerras limpas», e que não há guerra em que não se atropele as regras mais elementares, não há razões que expliquem a tortura contra presos no Iraque, em Guantanamo ou onde quer que seja. Nenhuma razão, mesmo sabendo-se que, em certos casos, o uso da tortura pode evitar males maiores (já li algumas teses sobre isto que dão que pensar). Por uma razão muito simples: o argumento (evitar males maiores) não deixaria de justificar o uso da tortura em toda e qualquer circunstância.
O New York Times resolveu dizer que o presidente Lula bebe demais e caiu o Carmo e a Trindade. Tudo porque o governo brasileiro considerou que a notícia não tem fundamento e que o «ataque» do NYT se deve ao facto de Lula estar a incomodar não sei que interesses americanos. Vai daí, não esteve com meias medidas: expulsou o correspondente do Times no Brasil — ou usou um expediente que, na prática, vai dar ao mesmo. Ora, independentemente da razão que assiste ao presidente Lula, há duas coisas de que não se livra: o ter-se coberto de ridículo e ter demonstrado que se dá mal com a democracia.

11 de maio de 2004

O Pedro Oliveira acha que o namorado da vizinha correu um gato a pontapé por causa das imagens que diariamente lhe chegam de Falluja, Najaf, Gaza e Abu Ghraib, porque «a violência e o sadismo são contagiantes». Um espanto este Pedro Oliveira.

8 de maio de 2004

A justiça pode ter todas as razões do mundo para manter preso Carlos Silvino ("Bibi") e libertar todos os outros arguidos — e eu quero acreditar que tem. Mas, até ver, há uma imagem que a justiça deixou clara: quem tem meios para sair da prisão, sai da prisão; quem não tem meios para sair da prisão, não sai da prisão. Como se vê, não é só em política que as coisas são o que parecem.

7 de maio de 2004

Uma mensagem atribuída a Usama bin Laden oferece 10 quilos de ouro a quem matar o secretário-geral das Nações Unidas. Reparem bem: o secretário-geral das Nações Unidas. Ora, eu gostaria muito de saber o que pensam os «pacifistas» do costume sobre este assunto, nomeadamente os «pacifistas» que julgam que a ONU é o remédio para todos os males.
O recorde atingido pela venda de um quadro de Picasso (104 milhões de dólares), em Nova Iorque, não me impressionou. Muito honestamente, a única coisa que me faria olhar duas vezes para o Garçon à la Pipe seria o negócio, e só o negócio. Em termos de gosto, trocaria o Garçon por qualquer Van Gogh ou Monet, mas gostos não se discutem.
As lamentáveis cenas de tortura envolvendo a tropa americana (e inglesa, ao que parece), que jamais serão justificáveis, estão a servir para fazer passar a ideia de que a tortura é uma prática corrente da tropa americana (e inglesa, presume-se). O Daniel Oliveira, por exemplo, já fez saber que a tortura da tropa americana não é um caso isolado. E, depois, jura que o problema dele é com o sr. Bush.

6 de maio de 2004

Uma sondagem do Centro de Investigações Sociológicas revelou que os atentados de 11 de Março, em Espanha, mudaram «o sentido de voto de cerca de um milhão de eleitores». Depois ainda dizem que a Al-Qaeda não influenciou decisivamente o resultado em Espanha.

4 de maio de 2004

Quem quer saber de outra coisa que não seja a vitória do Porto e a saída em liberdade de Carlos Cruz? Se querem saber, então leiam este "post" do Almocreve das Petas que transcrevo na íntegra:

«Empanturrada de originalidade lusitana, a classe política anda perturbada por tresmalhadas intenções malévolas. Os ditos perfumados que berram os jornais - a lista de mazelas é um choradinho de vendas nos jornais e televisões – sobre as mais variadas formas de corruptelas, são um murmúrio entre os incautos indígenas, ao mesmo tempo que exigem uma faina comovente, uma vidinha de trabalho para a classe política, jornalistas e analistas.
Os artistas da coisa pública declaram a sua estranheza pelo singular fenómeno que atingiu Portugal. Os presidentes de câmara manifestam apreciações poéticas sobre empreiteiros e professam inocência em glória do desporto e dos clubes. Recebem, com uma espiritualidade romântica, em roupão sem monograma. O público, malicioso, fica verde de inveja e aplaude. O emproado Santana dá cambalhotas em cima dos acólitos laranjas. Marques Mendes põe-se em bicos de pés. O talento insólito de Alberto João defuma o continente. Marcelo, em improviso deslumbrante, pontifica a absolvição. Os socialistas sorriem. E Sampaio sai da preguiça para fazer rascunho presidencial.
Enquanto isso, a malta da província e do futebol, alucinada, faz cimeiras à porta dos tribunais. Depois de Felgueiras, sem outro arranjo cénico, eis Gondomar. A mesma casta, o mesmo poder, a mesma cegueira. Na poltrona da governação, Barroso, desnorteado e cansado, faz de arreliado. Pires de Lima, confessa que ainda não se esfarelou contra uma TV, por caridade cristã, evidentemente. Marcelo, muito embuchado, debita Códigos e faz reprimendas. Vasco Pulido Valente lê histórias aos quadradinhos. O País ressurgiu. A "faxina" doméstica está aí. As trapalhadas, também.»

3 de maio de 2004

Como seria de prever, a Federação Portuguesa de Futebol suspendeu preventivamente o futebolista Rui Jorge devido a uma análise anti-doping ter acusado positivo. O processo vai, agora, ser investigado, podendo começar pelo afastamento de Rui Jorge da lista de convocados para o Euro2004 e terminar com uma pena de suspensão efectiva. Se bem se lembram, desde a primeira hora que o Sporting admitiu a utilização incorrecta de um medicamento alegadamente destinado a minorar uma «crise alérgica» do atleta em questão. Temos, assim, que Rui Jorge está inocente. Ou pior: o atleta poderá ter consumido a substância ilegal na mais perfeita ignorância das suas consequências. Será assim? Bom, à primeira vista, parece. Mas quantos atletas admitiram o consumo de substâncias proibidas uma vez apanhados? Que eu saiba, nenhum. Sem dúvida que é revoltante ser-se acusado — e, pior, punido — por um acto que não se cometeu — ou se cometeu por ignorância ou boa-fé. Mas quem põe as mãos no fogo por Rui Jorge?

30 de abril de 2004

Dizia Vergílio Ferreira que «a leitura revela aquele que se deseja ser», e a releitura «aquele que é». Penso nisto quase sempre que releio um título, e não há dúvida que assim é.

29 de abril de 2004

Parece que a Al-Jazira vai difundir, amanhã, uma gravação de não sei que manifestações em Itália contra a guerra no Iraque organizadas pelos Verdes — ou apoiadas pelos Verdes, não sei bem. A ideia dos ecologistas é apelar à libertação dos três reféns italianos detidos no Iraque, que os seus raptores prometeram libertar com uma condição: que os italianos façam uma grande manifestação contra a guerra no Iraque. Ou seja, com a condição de que os italianos façam o que os raptores muito bem entenderam exigir e que os Verdes se apressaram a cumprir. Ora, bem podem dar-lhe as voltas que quiserem que isto só tem um nome: chantagem. Chantagem pura e simples que, pelos vistos, os Verdes se encarregaram de demonstrar ser uma prática que compensa. Como, aliás, as mudanças em Espanha já o tinham dado a entender. Resta saber até onde irá a chantagem e as cedências destes cavalheiros. E quando mais tempo vai ser necessário para que se perceba que não é cedendo a chantagens que se resolvem problemas desta natureza, e que a cedência que agora fizeram, por mais bem intencionada que tenha sido, é um precedente gravíssimo.

28 de abril de 2004

Está fora de questão a independência da Madeira, diz o dr. Jardim. Mesmo depois de saber que a Madeira «não seria um país miserável» e que ficaria «à escala de Chipre» caso optasse pela independência. E como soube ele tudo isto? De uma maneira muito simples: encomendou um estudo. E porquê o estudo, se o dr. Jardim garante que os madeirenses querem «continuar a ser portugueses»? Eis o mistério. Ou talvez não.

27 de abril de 2004

O presidente líbio diz ter renunciado à produção de armas proibidas e parece querer entender-se com o Ocidente. Perante isto, algumas criaturas não se têm cansado de chamar a atenção para o facto de o sr. Kadhafi ainda há pouco ser considerado um terrorista, pelo que tudo isto não passa de hipocrisia. Ora, esta gente parece esquecer-se do essencial: não será positivo que o presidente Kadhafi procure entender-se com o Ocidente? Não será positivo que o Ocidente lhe estenda a mão? Com certeza que o sr. Kadhafi nunca foi flor que se cheire, e nem é agora que vai sê-lo. Mas nem por isso a nova atitude demonstrada nos últimos tempos deixa de ser positiva e de se saudar.

26 de abril de 2004

Tirando uma notícia ou outra sobre o «r», e só para perceber qual era o problema com o «r», não li praticamente nada do que a imprensa publicou sobre o 25 de Abril. Nem antes, nem durante, nem depois do 25 de Abril. Por junto, limitei-me a guardar alguns textos disponíveis na internet cujos títulos me pareciam embrulhar alguma coisa interessante, e foi só. Mesmo assim, deu para perceber que o aniversário da revolução se cumpriu com a habitual polémica, este ano com o pormenor suplementar do «r». E para o ano haverá mais — mais polémica e mais comemorações. No dia em que acabar a polémica acabam-se as comemorações, e o 25 de Abril passa a ser um dia em que não se trabalha. Só isso.

24 de abril de 2004

No meu último "post", chamei a atenção para o facto de estar em marcha uma campanha para descredibilizar a justiça na questão dos futebóis, como continua em marcha uma campanha para descredibilizar o processo Casa Pia. Ontem, no Público, Miguel Sousa Tavares confirmou a ideia. Além de outras coisas, algumas bem curiosas, Sousa Tavares acusa a juíza de Gondomar de ter prendido os suspeitos antes de tempo. Ou seja, dantes era o juiz Rui Teixeira que não sei quê. Agora, é a juíza Ana Cláudia que não sei que mais. Aliás, não tarda nada que a vida privada da senhora esteja na praça pública. E ai dela se tem pecados privados.

22 de abril de 2004

Dois dias após a prisão de uma mão-cheia de dirigentes e árbitros de futebol, é já visível uma campanha para desacreditar a Justiça. Primeiro, foram as «guerras de protagonismo», como lhe chamou uma magistrada do Ministério Público. Agora, é o bastonário dos advogados, que já considerou «escandaloso» e «inaceitável» que se esteja a prender pessoas para serem interrogadas. Com um sentido de oportunidade notável, José Miguel Júdice disse mais: «está tudo a funcionar mal».

21 de abril de 2004

Para Baptista Bastos, George W. Bush não passa de um «ventríloquo da seita evangélica mais poderosa dos Estados Unidos», realidade que «as pessoas relativamente bem informadas não desconhecem». Daí que não tem dúvidas de que «está em marcha um projecto de domínio religioso, cujos germes são o fanatismo e a intolerância». Ora, eu já o disse mas volto a repetir. Nunca fui grande simpatizante do George W. Bush Bush. E, em matéria de religião, sou ateu (ou agnóstico, nunca me dei ao trabalho de saber qual é a diferença). Mas, perante argumentos como este, até fico a simpatizar com o sr. Bush.

20 de abril de 2004

É inútil falar de outra coisa que não seja de futebol e das prisões de Valentim Loureiro e mais uma dúzia de dirigentes e árbitros. E dizer o quê nesta altura? Que foi uma surpresa? Não foi. Que os detidos são culpados daquilo de que são suspeitos? A lei diz que todos são inocentes até prova em contrário, pelo que eu não sei. O que eu sei é que o futebol português acaba de sofrer um abanão histórico e de consequências imprevisíveis. Resta saber se vai ruir alguma coisa e o quê. E, se ruir, o que vai nascer dos escombros.
A discrição com que o caso da pedofilia da Madeira tem sido tratado pelos media e, presume-se, pelas partes envolvidas no processo, já foi motivo de louvor de alguns fazedores de opinião. Confrontado com o processo Casa Pia, a maneira como o caso da Madeira tem sido tratado é exemplar, disseram. Ora, acontece que não é bem assim. Os últimos desenvolvimentos sobre o caso da Madeira, com a Judiciária a denunciar «tentativas de manipulação de testemunhas do processo de pedofilia da Lagoa» e outras pressões sobre testemunhas e vítimas (ver Público de hoje), vêm demonstrar que, a coberto da discrição, se tenta comprar o silêncio das vítimas por umas centenas de euros. Não que a discrição não seja, em si, um factor positivo. Só que da discrição ao silenciamento vai um pequeníssimo passo.

19 de abril de 2004

Em mais uma manifestação de anti-americanismo primário, Celso Martins disse que «a eliminação do sr. Abdel Aziz Al-Rantissi se deu pouco depois da visita de Sharon a Washington». Para o caso de não verem a relação, acrescentou: «Os EUA foram o único país relevante a não condenar o assassinato». Curiosamente, sobre a entrevista de um tal Omar Bakri Mohammed, publicada no Público do último domingo, nem o mais leve comentário. Tirando Rui Tavares, que se limitou a transcrever partes do texto para fazer uns comentários de gosto duvidoso, os barnabés acharam por bem não abrir a boca. Compreende-se. Se dúvidas houvesse acerca de que lado estar face à guerra contra o terrorismo, as declarações do sr. Omar e as posições destes senhores ajudariam muito a tirá-las.

16 de abril de 2004

As 324 entrevistas concedidas por José Saramago nas últimas semanas, a que se veio juntar umas quantas afirmações bombásticas antes e depois do lançamento do Elogio da Lucidez (como lhe chamou Mário Soares no Expresso) e um almoço de reconciliação com os social-democratas, fizeram-me lembrar um personagem de Rubem Fonseca que diz o seguinte: «O verdadeiro escritor nada tem a dizer».
A Inês quer saber se o Esmaltes e Jóias é uma evocação de Artur Corvelo. Pois bem, como é uma pergunta que me fazem com frequência, remeto para a explicação que dei há uns tempos.

15 de abril de 2004

Qual é o substantivo que se costuma usar para designar isto e isto?
Tenho-me esquecido de saudar o aparecimento dos novos blogues, pelo menos os blogues de que eu gosto. A razão é só uma: malandrice. Antes, porém, um reparo: as mulheres estão a entrar em força nos blogues. E, agora, os novos blogues que vale a pena conhecer: O Acidental, Desassossegada, Eternuridade, Fonte das Virtudes, My Moleskine e Pintura Portuguesa.

14 de abril de 2004

Não, ainda não terminei Às Avessas. É só para dizer que passei as últimas horas a ouvir John Rutter, Giovanni Palestrina, Thomas Tallis, John Tavener, Arvo Pärt e outros mais cujos nomes não me recordo. E, sempre que isso acontece, fico vazio e sem nada a dizer. A única coisa que me apetece é o silêncio, e só o silêncio — o tal silêncio que Cage diz também ser música.

13 de abril de 2004

«Uma das minhas mais velhas ambições, só compreensível para quem viveu em Lisboa nos anos 50, é passar as férias à janela, de pijama de flanela às riscas, a cuspir para a rua e a ler A Bola», diz Vasco Pulido Valente em Às Avessas. Prometo voltar quando acabar de ler.

12 de abril de 2004

Apresentando-se como uma «humilde Voz Portuguesa do Islão», um senhor que se identificou como director de uma revista islâmica publicou, no Público de hoje, um texto onde «CONDENA [assim mesmo, com maiúsculas] veementemente os atentados terroristas de 11 de Março», bem como «os assassinatos e os massacres de inocentes na Palestina», no Iraque, no Afeganistão, no Burundi e na Thetchénia. Mas, sobre os atentados de 11 de Setembro ou dos que, em Israel, matam judeus inocentes, nem uma palavra. É que, como todos sabemos, ele há vítimas e vítimas.
Contrariamente aos comentários que vi por aí, acho o texto de António Barreto sensato e oportuno.

9 de abril de 2004

Mal foi eleito, José Luís Zapatero apressou-se a anunciar a retirada das tropas espanholas do Iraque. Segundo uns, o anúncio foi uma claríssima cedência às pretensões dos terroristas. Segundo outros, Zapatero limitou-se a cumprir uma promessa eleitoral. Fosse lá como fosse, correu que os atentados de 11 de Março se deveram à participação da Espanha na guerra do Iraque. Ora, seguindo o mesmo raciocínio, como se compreende que os terroristas se preparassem para atacar, de novo, em Espanha, quando a Espanha já anunciou a retirada das tropas do Iraque? Dito de outro modo, quanto tempo mais vamos andar a assistir a justificações atrás de justificações e ao varrer do problema do terrorismo islâmico para debaixo do tapete?
Miguel Sousa Tavares, para quem a causa do terrorismo islâmico é a Palestina, e só a Palestina, acha que, «depois de combater os fiéis de Saddam», as tropas da coligação combatem, agora, «as suas vítimas». E quem são as vítimas das tropas da coligação? Como seria de esperar, não disse. E não disse porque, assim, as vítimas passam muito bem por ser o povo iraquiano (ou os cidadãos inocentes), quando ele sabe muitíssimo bem que assim não é. Como nos tem vindo a dar abundantes mostras, vale tudo.
Prémio uma agulha num palheiro para o José Mário Silva, que conseguiu a proeza de descobrir um quase aparentemente ambíguo no depoimento de Condoleezza Rice à comissão que investiga o 11 de Setembro. Não há dúvida de que descobrir um quase aparentemente ambíguo em duas horas e tal de conversa é obra.

7 de abril de 2004

Ainda só li duas dezenas de páginas, mas parece-me fascinante. "O Retrato de Dorian Gray" é mais um livro da colecção "Mil Folhas", distribuída com o "Público" de quarta, e que eu comprei pela simples razão de que tenho um contrato com o meu distribuidor de jornais que prevê a compra do "Público" de quarta enquanto este distribuir a colecção "Mil Folhas". Dito de outro modo, "O Retrato" é um livro que não estava na minha lista de compras — muito menos na minha lista de leituras, tantos são os livros que ainda não li e tão pouco é o tempo de que disponho para ler. Mas fico-me por aqui em matéria de comentários. Afinal, ainda só li uma vintena de páginas, e já abandonei a meio livros que comecei com entusiasmo.
Tirando o episódio do velho paralítico em cadeira de rodas, como diz o maradona (com minúscula), não faço a mais pequena ideia do que aconteceu ao João Pedro Henriques. Mas acompanho com interesse as cenas dos próximos capítulos. Se é verdade que está a acontecer aquilo que eu penso, vale a pena seguir com interesse.

6 de abril de 2004

Depois de um tribunal ter concluído que a ponte de Entre-os-Rios caiu devido a causas naturais, os familiares das vítimas queixaram-se de que estão a ser pressionados para não recorrerem da decisão. Nada que espante e que não fosse de esperar. Afinal, quem acredita que a ponte caiu por causas naturais? E, já agora, quem ainda se lembra do então ministro Jorge Coelho se demitir na sequência da queda da ponte, porque a culpa não podia morrer solteira? O mais chocante de tudo isto é que provavelmente não restou ao juiz outra saída que não fossem as causas naturais.
Vital Moreira resolveu vir «remendar» a ideia do voto em branco de José Saramago. É um exercício que se compreende, pois imagina-se que lhe tenha custado a engolir. Mas começou logo por dizer que tem dúvidas de que Saramago tenha apelado ao voto em branco. Ou, caso tenha apelado, tem dúvidas «sobre a exacta interpretação da metáfora». Ou seja, Vital Moreira veio dizer que os que tomaram à letra a ideia de Saramago — e parece ter sido a larga maioria, incluindo os que pertencem à mesma área política do escritor — são uma cambada de estúpidos.

5 de abril de 2004

Após ter comprado desde o número um — ou do número zero, não me lembro se houve número zero —, deixei de ler o "Jornal de Letras" há cerca de três anos. Foi uma decisão difícil e adiada vezes sem conta, mas não me arrependi. Mais: há cerca de ano e meio desfiz-me do arquivo de jornais, entre os quais o "JL", e também não me arrependi. Hoje decidi que chegou a vez da "Grande Reportagem". Não me interessa explicar porquê com grandes detalhes. Direi, apenas, que a qualidade da escrita baixou muitíssimo e que o novo formato reduziu (ou eliminou) coisas que me interessavam e acrescentou outras que nem por isso. Eu sei que vou ficar com saudades de algumas coisas, mas não se pode ter tudo.

2 de abril de 2004

Ia-me comovendo quando Miguel Sousa Tavares ameaçou com os factos — «esse malfadado pormenor dos factos» — para sustentar a tese de que a intervenção militar no Iraque se tornou num «factor de multiplicação e disseminação do terrorismo». Mas ficou-se pela ameaça, e lá avançou com as suposições do costume como se de factos se tratasse. Aliás, isto dos factos cada vez me chateia mais. Será demasiado pedir aos jornalistas que separem os factos da opinião? Parece elementar, mas não é. Nos tempos que correm — guerra do Iraque, processo Casa Pia, etc. — não há jornalista que resista a meter a colherada. Nada a opor caso separem uma coisa da outra, mas tudo a opor quando misturam as duas coisas e, depois, as tentam (e conseguem) fazer passar como se de meros factos se tratasse. E o pior é que ninguém denuncia a situação. Bem pelo contrário: parece a coisa mais natural do mundo.

1 de abril de 2004

Oh! Ana Albergaria. Como deves estar recordada, eu só queria desabafar. Mas, já que insistes, vamos lá então. É verdade que eu nunca li um livro do Saramago até ao fim, nem tenciono ler. Mas podes crer que tentei. Afinal, Saramago é Nobel da Literatura e os suecos não devem ser nenhuns mentecaptos, não é? Mas acontece que tropeço a toda a hora em prosa como a que transcrevi no "post" de ontem, e eu não sou de ferro. Até o masoquismo tem limites, que diabo. Mas não tenho nada contra o facto de gostares do homem — da forma como ele «ensarilha as palavras», das «lengalengas algo indecifráveis», do «cochichar morrinhento», da «prosa chorumenta», do «linguajar rabioso», do que seja. Como sabes, ele há gostos para tudo e cada um sabe de si. E até acho bonitas as expressões que tu usas para caracterizar o homem (ou a prosa do homem, não sei bem), embora isso me cheire mais a ternura (por não sei quem) que a outra coisa. Repara que eu só falo da prosa, não falo do homem. Porque eu acho que o homem, apesar das bacoradas com que volta e meia nos brinda e de se levar demasiado a sério, ainda se tolera. E, já que falaste de Lobo Antunes, eu era capaz de jurar que ele disse, numa entrevista, que quando lia Saramago apetecia-lhe logo começar a emendar. É o que me acontece a mim, mas quem sou eu para emendar prosa nobelizada? E por aqui me fico, amiga Ana, que isto de polémicas não paga a renda. Antes, porém, permite-me que te recomende um pouco de cuidado com essa tua fixação pelos Abba. É que é bem capaz de andar tudo ligado, como dizia o outro. Um abraço e votos de que continues a escrever da forma que escreves e a dizer o que pensas de forma desassombrada. Porque de uma coisa podes estar certa: aprecio mais os teus «disparates» e a tua prosa que as «verdades» e o «linguajar rabioso» do ilustre cavalheiro. Como julgo ter dito uma vez, eu, de Saramago, prefiro o Alfredo.