5 de junho de 2007
«Escandaloso», diz o repórter da RTP no final do jogo entre Portugal e uma equipa do Kuwait. E escandaloso porquê? Porque, na opinião dele, Portugal devia ganhar por meia dúzia — ou coisa que o valha. Ora, não vejo porquê. Por que haveriam os jogadores portugueses de se matarem atrás da bola num jogo que nem a feijões era? Aliás, qual terá sido a ideia da Federação ao agendar um jogo destes?
4 de junho de 2007
1 de junho de 2007
As notícias que nos dão conta que a televisão encerrada por Chávez está a emitir na Internet e de que a Globovisión (também ameaçada de fechar) resolveu passar ao ataque, a que agora se junta a notícia de que um importante diário venezuelano saiu para as bancas com duas páginas em branco como forma de chamar a atenção para a importância da liberdade de informação, são francamente animadoras. É claro que tudo isto pode não passar de fogachos, mas também pode significar que o feitiço se pode virar contra o feiticeiro mais cedo do que se julgava. Aliás, o «plano de defesa popular da revolução», hoje activado pelo autarca de Caracas com o objectivo de travar «actos de vandalismo», é mais um indício.
Pois é, caro Tomas Vasques. A única coisa que realmente distingue García Márquez de José Saramago é mesmo a escrita. É que um sabe escrever, outro não.
30 de maio de 2007
Segundo a Lusa, o acordo ortográfico entrou «tecnicamente em vigor» no Brasil, em Cabo Verde e em São Tomé e Príncipe há coisa de cinco meses — e ainda ninguém deu por isso. Considerando que estes países foram, até agora, os únicos a ratificar o acordo aprovado pelos chefes de Estado e de Governo da CPLP, a coisa promete. Promete, é claro, ficar em águas de bacalhau, o que sempre evitará ao Miguel Esteves Cardoso (lembram-se?) cumprir o que prometeu.
29 de maio de 2007
Vital Moreira decidiu dar lições de moral a propósito da Ota & Cia. Segundo ele, alguns jornais resolveram «afeiçoar os factos e as notícias à opinião assumida» sobre o novo aeroporto, e não deviam. «Invocar a favor de uma certa solução (...) factos comprovadamente contrários à realidade (...) ou veicular contra outra solução (...) notícias "tremendistas" carecidas de fundamento (...) significa sacrificar os factos à opinião e a objectividade noticiosa à tendenciosidade», acrescenta o professor. E diz mais: «se a opinião é livre, os factos devem ser sagrados e as notícias devem ser verídicas». Sucede que Vital Moreira se fartou de praticar o que agora condena aquando da invasão do Iraque e do conflito israelo-libanês (e continua a praticar sempre que opina sobre o conflito israelo-palestiniano), não tendo problemas em vender as suas opiniões como se de factos se tratasse. Mais: chegou ao cúmulo de fazer juízos de valor sobre acontecimentos que nunca se verificaram, sem que alguma vez se tenha penitenciado por isso. De maneira que, em questões de moral, estamos conversados. Mas Vital Moreira foi mais longe: demonstrou que não tem memória. Nem memória, nem vergonha.
28 de maio de 2007
António Barreto arrasou o PS do engenheiro Sócrates. Pior: arrasou-o com carradas de factos e de evidências, que são o que mais dói. Retive esta frase: «O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista.» Uma caricatura, naturalmente. No caso uma caricatura que peca por defeito.
Ficamos mais descansados por saber que a Espanha ainda não é um «lugar de penteados adoradores da alface e do adoçante».
25 de maio de 2007
Quando as notícias nos dão conta, com frequência inusitada, de casos como este, quem vive fora do país (o meu caso) só pode pensar o pior de Portugal. De facto, se as universidades portuguesas são frequentemente notícia pelos piores motivos, o que se há-de pensar do restante?
24 de maio de 2007
O candidato monárquico à Câmara de Lisboa, que assegura integrar «uma candidatura para ganhar» mas admite que «atingir a vereação seria excelente», promete, caso seja eleito, revista à portuguesa no Parque Mayer, um festival de fado, «uma Broadway nos Restauradores», transformar Monsanto numa espécie de Central Park e oferecer barcos à vela não sei bem a quem. Como se vê, ambição não lhe falta — e lata também não. O mais engraçado disto tudo é que há sempre eleitores dispostos a irem às urnas para votar nestes pândegos.
23 de maio de 2007
22 de maio de 2007
Vasco Pulido Valente, primeiro, e Francisco José Viegas, depois, disseram o que havia a dizer sobre o caso Charrua. De facto, mesmo não se sabendo com exactidão o teor do comentário do professor, a decisão de o suspender e de lhe instaurar um processo por ter dito algo pouco abonatório do carácter do primeiro-ministro tresanda a intolerância — e abre um precedente grave. Mas a questão levanta uma outra: a questão da licenciatura do primeiro-ministro, que tantos pretendem silenciar. Como acabamos de verificar, o caso está longe de estar encerrado. Pior: continua a irritar muita gente, e agora até parece que se pretende punir quem se atreve a falar dele.
21 de maio de 2007
18 de maio de 2007
Ouvidas as três últimas entrevistas de Pedro Rolo Duarte no programa Janela Indiscreta, verifico que o jornalista continua a insistir na ideia de que a blogosfera é coisa má. Diz que há excepções, muitas excepções, mas lá vem o mas não assumido mas perfeitamente visível. Isto apesar de todos os entrevistados dizerem, sobre o assunto, o que é óbvio a qualquer blogger ou frequentador da blogosfera: há bons e maus blogues, há blogues credíveis e outros não. É o que acontece quando se tem uma ideia pré-concebida: nem os factos que a desmentem chegam para a mudar.
17 de maio de 2007
16 de maio de 2007
Ana Gomes insinuou que José Lello faz contabilidade criativa, e que a criação de vice-consulados é uma «golpaça para meter jagunços». Tudo isto a propósito da indigitação, pelo Governo, de um cônsul honorário no Brasil recentemente detido pela polícia local sob a acusação de envolvimento no jogo ilegal e de corromper magistrados. O problema é que as acusações da eurodeputada soam mais a ressentimento que a outra coisa, como o silêncio generalizado da classe política deixa antever. Pior: Ana Gomes ficou-se por insinuações mais ou menos grosseiras, nada revelando de concreto. Para uma deputada eleita com a finalidade de tratar desses e doutros assuntos, o mínimo que se pode dizer é que a senhora fez pouco e mal.
14 de maio de 2007
11 de maio de 2007
Dificilmente algo justifica os distúrbios como os que ocorreram em França, mas registarem-se pelo facto de alguém ter sido eleito democraticamente (repito: democraticamente) e sem a mais leve dúvida, é intolerável. Fazia bem a esquerda em condenar os distúrbios de forma clara e inequívoca em vez de optar pela cartilha politicamente correcta (e irresponsável) do costume.
Graças à revista Sábado, acaba de me chegar às mãos Avenida Paulista, de João Pereira Coutinho, uma compilação de crónicas por ele publicadas nas edições impressa e on-line da Folha de S. Paulo. Devo dizer que li todas as crónicas publicadas na edição on-line (de borla), e nem uma publicada na edição impressa (a pagantes). Mesmo assim, é com prazer que vou reler as primeiras, e com prazer redobrado que vou ler as segundas. Depois de uma colecção que não lembra ao diabo, e que mereceu um protesto neste post, a Sábado acertou em cheio na meia dúzia de livros que decidiu distribuir com a revista.
9 de maio de 2007
Não sei se a imprensa britânica tem razões para acusar a Judiciária de incompetência no caso Madeleine, mas é inegável que há indícios de que as coisas não estiveram bem — e, presume-se, continuam a não estar. Como dá conta esta notícia, há críticas das próprias polícias. Aliás, quem já não viu este filme?
Só agora descobri este artigo, mas não perdeu actualidade. Começa assim: «Remember when the Right had a near-monopoly on censorship? If so, you must be in your sixties, or older. Now the champions of censorship are mostly on the left.»
8 de maio de 2007
Os desacatos em várias cidades francesas após a eleição de Nicolas Sarkozy não podem deixar de ser vistos com preocupação. Não, apenas, os desacatos em si (a violência, a destruição de bens, eventuais mortos e feridos), mas porque se pode instalar a ideia de que a vitória (ou a derrota) de determinado candidato (ou partido político) pode acabar em sarilhos e, por esse motivo, levar o eleitorado a não votar em quem acha que deve votar por medo de actos violentos.
7 de maio de 2007
Ele é a miséria na América, ele é a direita que é a favor da guerra e a esquerda não, ele é o populismo da América Latina que se deve a Bush, ele é a violência em França a que se deve responder com compreensão. Como não bastassem as ideias-feitas do costume (que não dizem nada nem levam a lado algum) e a leviandade com que fala de assuntos de que não sabe o mínimo (reduzindo a zero a posição que sobre eles tem), chega a meter dó a convicção com que Mário Soares defende os maiores disparates.
Confesso que me surpreendeu a inexistência de qualquer comentário ao facto de Segolène Royal ter dito, a semana passada, que a vitória de Sarkozy poderia gerar uma onda de violência. É que o comentário pareceu-me longe de constituir uma advertência: pareceu-me, pelo contrário, uma clara chantagem ao eleitorado, além de uma irresponsabilidade a que o considerável aumento de violência registado em França no último fim-de-semana pode não estar alheio.
3 de maio de 2007
Tirando o próprio e meia dúzia de apoiantes, não se percebe a decisão de Carmona Rodrigues em manter-se na Câmara de Lisboa. Bem pode pregar aos quatro ventos que não está agarrado ao poder que a decisão que tomou só tem essa leitura. Não foi apoiado como devia pelo partido a que pertence? Não será o primeiro a abandonar o barco nem permitirá que o atirem borda fora? Sente-se ferido na sua honra e está de consciência tranquila? Tudo muito comovente, mas nenhuma destas razões justifica a continuidade à frente da autarquia. Aliás, qualquer cidadão minimamente informado há muito percebeu que só resta um caminho ao autarca: demitir-se, e deixar espaço para que outro ocupe o seu lugar. Seria essa a conclusão a que chegaria caso esquecesse um minuto a sua pessoa e pensasse outro tanto no cargo que ocupa.
Fez bem o líder do PSD em repetir o que tinha dito acerca da licenciatura do primeiro-ministro. «Uma pessoa que usa títulos que não tem e se arroga ser o que não é tem falta de carácter», disse Marques Mendes à RTP. Pena é que, sobre este assunto, o líder social-democrata esteja praticamente sozinho a dizer o que é preciso ser dito e repetido.
1 de maio de 2007
A notícia de que o neto de Isabel II pode ir para o Iraque demonstra que a coisa começou mal e pode acabar pior. Realmente parece que só faltou ao exército britânico divulgar a matrícula do veículo que Harry irá tripular, como acusou uma fonte citada pelo DN, tantos foram os detalhes incompreensivelmente divulgados sobre a missão do ilustre soldado. Depois, com ameaças ou não, é por demais evidente que a real criatura se torna, no Iraque, num alvo apetecível. Enviar forças especiais para a zona de operações com o objectivo de proteger o filho do príncipe herdeiro, como o Observer garante ter-se verificado, é uma medida que não se percebe e de eficácia duvidosa — além de ser difícil de digerir. Pior: por muito boa vontade que haja, a coisa soa ridícula. De facto, nem o sonho mais delirante ou o surrealista mais empedernido seria capaz de imaginar um soldado na frente de batalha protegido por forças especiais. Espera-se, portanto, que haja bom senso. E bom senso, num caso destes, passará por impedir o príncipe de viajar para o Iraque. Não apenas por causa da segurança própria e de quem o rodeia, mas porque tudo leva a crer que a medida será a que melhor serve os interesses britânicos. E os interesses britânicos, recorde-se, são os que o príncipe diz defender quando faz questão de ir para o Iraque.
27 de abril de 2007
Se bem me lembro, os media eram acusados de publicar hagiografias do primeiro-ministro pouco antes de estalar o episódio da licenciatura. Agora, que as dúvidas acerca do percurso académico de José Sócrates ocuparam os media durante dias a fio, foram acusados de o tentar liquidar. Se esta história tivesse moral, a moral só poderia ser esta: se os media não investigam suspeitas, deviam; se investigam e descobrem matéria de notícia, é uma campanha. Como se vê, não há meio-termo quando se fala dos media sempre que decidem meter-se com «os políticos», pois passa-se do oito ao oitenta com a mesma facilidade com que se trincha um bife ou se bebe um café. Significa isto que os media são melhores do que se diz? Não duvido nem um bocadinho. Aliás, não duvido que os media são melhores do que a grande maioria dos que os criticam.
25 de abril de 2007
Não me lembro se o lápis era azul, mas recordo-me perfeitamente da porta entreaberta do gabinete do comandante da Guarda junto à qual eu aguardava largos minutos que me devolvessem as «provas». Trabalhava eu nessa altura numa tipografia onde se imprimia A Voz de Trás-os-Montes, onde fui parar numas férias escolares por ter chumbado o ano. Entre outras tarefas, cabia-me levar à censura as «provas» daquele semanário, coisa que eu fazia sem a mais leve noção do que aquilo significava. Recordo o episódio a propósito da data que hoje se comemora, porque me apetece lembrar que havia censura no tempo de Salazar e Caetano que determinava o que os media podiam, ou não, publicar. Dir-me-ão que a censura é coisa que ainda hoje se pratica, e até há quem garanta que cada vez em maior escala. Não sei se é bem assim. Mas, a sê-lo, há uma diferença: ninguém vai preso por falar mal do Governo, e não se fecha um jornal por ser contra a situação. Uma diferença que faz toda a diferença.
24 de abril de 2007
Fez bem a Câmara de Santa Comba em não impedir a romaria que os saudosos de Salazar se preparam para realizar por ocasião do aniversário do nascimento do ditador. É que, goste-se ou não da ideia, o direito de manifestação está consagrado na Constituição, e não há lá nada que diga que esse direito não é para todos. Aliás, um pouco de bom-senso bastaria para não fazer da romaria um caso. Afinal, como bem sublinhou Francisco José Viegas, os manifestantes pretendem, apenas, comprovar que Salazar está mesmo morto.
23 de abril de 2007
Um estudo da Marktest terá concluído que os portugueses estão a ler mais do que dantes. Segundo li, o estudo baseou-se num telefonema para a residência de não sei quantas pessoas, a quem perguntaram se tinham lido algum livro no mês anterior ao telefonema. Longe de mim pôr em causa a seriedade do método, mas devo dizer que tenho algumas dúvidas. Antes de mais, quer-me parecer que o comum dos cidadãos tem tendência a dizer que lê quando inquirido sobre o assunto, mesmo que o inquiridor seja uma empresa de sondagens, pela simples razão de que mesmo quem nunca leu um livro sabe que é de bom tom ler. Depois, suspeito que quando se diz que os portugueses lêem mais livros quer-se dizer que os portugueses compram mais livros, o que não é a mesma coisa. Por último, palpita-me que os dados que agora se exibem pretendem demonstrar que o Plano Nacional de Leitura está a dar bons resultados, coisa de que continuo a ter as mesmíssimas dúvidas que tive na hora em que foi anunciado.
20 de abril de 2007
Escrevi há quase duas semanas que José Sócrates não teria condições para se manter no cargo de primeiro-ministro caso não explicasse de forma cabal o episódio da sua licenciatura na entrevista à RTP. Como isso não sucedeu (as dúvidas que havia não só continuam a existir como têm vindo a adensar-se), repito o que disse: o primeiro-ministro deixou de ter condições para exercer o cargo. É provável que a Direita, como diz Mário Soares, esteja com «com raiva» ao primeiro-ministro, embora não me pareça que seja só a Direita. Mas pretender resumir as peripécias da licenciatura do primeiro-ministro a uma guerra entre Esquerda e Direita, entre Governo e Oposição, só mesmo para confundir. As coisas são o que são, e não há volta a dar-lhe.
18 de abril de 2007
Cada vez me convenço mais de que as últimas movimentações contra a extrema-direita portuguesa estão a produzir efeitos contrários ao que se pretende. Se o episódio de hoje — uma rusga policial que culminou na detenção de dezenas de skinheads e na apreensão de armas de fogo — é o que parece, as autoridades terão tentado minimizar eventuais consequência resultantes do encontro da extrema-direita previsto para o próximo sábado, mas eu duvido que o expediente resulte. Numa coisa tem razão o líder do PNR: as ideias combatem-se com outras ideias. À bordoada, não vamos lá.
Há quem esteja convencido de que só há duas espécies de cronistas: os que são de esquerda, e os que são de direita. Pelos vistos, não ocorre às criaturas que há cronistas que escrevem bem, cronistas perfeitamente dispensáveis, e cronistas que deviam pagar para ser lidos. Mais: não ocorre às criaturas que há cronistas que são, sobretudo, avaliados pela qualidade do que escrevem, independentemente de pensaram assim ou assado. Poderão ter sido ideológicas as razões que estiveram na base da vassourada no DN, mas eu pergunto: tirando Pedro Mexia, que já disse que saiu por outros motivos, alguém tem saudade das prosas (repito: das prosas) dos que foram afastados? E como explicar a contratação de Baptista-Bastos?
16 de abril de 2007
Miguel Sousa Tavares tem razões para estar de pé atrás com a blogosfera, mas daí até dizer que a blogosfera é um «instrumento de calúnia e impunidade sem igual», vai um abismo. Mais: a afirmação é, igualmente, caluniosa. É provável que MST tenha dito o que disse por ter sido escaldado num caso em que o acusaram de plágio, mas pegar-se num exemplo para generalizar não é sério. Mas o que eu acho mesmo é que MST tem, sobre a blogosfera, uma enorme ignorância, embora isso não seja desculpa ou atenuante.
O DN insinua, em editorial, que na origem da guerra ao primeiro-ministro por parte de dois jornais (presume-se que o Público e o Expresso) estão os interesses dos grupos económicos que detêm aqueles títulos.
12 de abril de 2007
Não se percebe por que razão o Supremo Tribunal de Justiça condenou o Público a pagar uma indemnização de 75 mil euros por ter publicado uma notícia que o mesmo tribunal reconheceu como verdadeira. A coisa até pode ter fundamento, mas não há dúvida de que a condenação constitui uma clara violação da liberdade de imprensa — além de constituir um precedente gravíssimo. É bom saber que o Público vai recorrer até onde puder recorrer, e só podemos desejar que seja bem sucedido. É que, se não for, as coisas ficam feias para o jornalismo português. Aliás, é bem provável que este e outros casos recentes tenham já motivado práticas de autocensura, sem dúvida a pior das censuras.
11 de abril de 2007
É verdade que, até ver, não há factos que demonstrem a existência de irregularidades na obtenção da licenciatura de José Sócrates, mas também é verdade que as dúvidas que havia antes da entrevista do primeiro-ministro à RTP continuam a existir. Temo, por isso, que a novela prossiga com a descoberta de novas discrepâncias e contradições, trapalhadas de toda a espécie e meias-verdades. Aliás, a manter-se o que se tem verificado até aqui, quanto mais informação se conhece sobre o caso mais duvidoso ele se torna.
10 de abril de 2007
São grandes as expectativas para a entrevista do primeiro-ministro à RTP, pois espera-se que Sócrates esclareça de vez todas as dúvidas acerca da sua licenciatura. É que, a ser verdade o que se tem dito nos media, o primeiro-ministro vai ter muito que explicar, e as coisas chegaram a um ponto em que dificilmente alguém lhe dará o benefício da dúvida. Caso não consiga explicar o episódio muito bem explicadinho, o primeiro-ministro coloca-se numa posição em que é legítimo tirar-se conclusões pouco abonatórias acerca do seu carácter. Digo mais: se falhar o objectivo, o primeiro-ministro deixa de ter condições para exercer o cargo.
Fez bem o Governo britânico em recuar na decisão que autorizava os marinheiros feitos reféns pelo Irão a vender as suas histórias aos media, apesar de já não ir a tempo de evitar que algumas histórias tenham sido contadas. Afinal, além de obsceno, parece evidente que o expediente abriria espaço para os militares cederem à tentação de se meterem em aventuras por sua conta e risco quando lhes cheirasse a fama ou dinheiro.
6 de abril de 2007
Está em marcha uma campanha destinada a desvalorizar o episódio da licenciatura do primeiro-ministro, alegando-se que o canudo nem aquece, nem arrefece. José Sócrates não é nem mais nem menos competente como primeiro-ministro pelo facto de ter, ou não ter, uma licenciatura, argumenta-se. Acontece que o caso não é esse, por muito jeito que dê que assim fosse. O problema é que, a confirmarem-se os factos divulgados pelos media, o primeiro-ministro não disse toda a verdade sobre o seu currículo académico. Pior: cometeu a imprudência de «retocar» o currículo — deixou de ser «engenheiro» e passou a designar-se «licenciado em Engenharia Civil», entre outros «retoques» — precisamente no momento em que o seu currículo académico estava a ser questionado. Assim sendo, há razões para suspeitar da forma como Sócrates obteve a licenciatura pela Independente, como há razões para o Presidente da República se preocupar com os «danos colaterais» que o caso possa causar, como deu conta o DN, embora Cavaco desminta.
4 de abril de 2007
As declarações às televisões de alguns adeptos da bola no final do Benfica-Porto mereceram alguns comentários na blogosfera. Segundo eles, não havia necessidade de estender o microfone às cavalgaduras. Ora, eu aproveito a onda para ir mais longe. Porque não acabar com as declarações de jogadores e treinadores antes e depois dos jogos? Dir-me-ão que não é possível, que há quem goste daquilo ou contratos a cumprir. Nesse caso, proponho que se crie um prémio para quem for capaz de botar faladura durante 15 segundos sem dizer um lugar-comum, e outro para quem disser algo que já não tenha dito quinhentas vezes.
Não é só o Procurador-Geral da República que tem um problema com os blogues. Vicente Jorge Silva acha que a blogosfera é uma «praga moderna que escapa ao controlo dos poderes públicos».
2 de abril de 2007
Bem pode o primeiro-ministro barafustar contra a forma como os media trataram o caso da licenciatura pela Universidade Independente que ninguém quer saber. Mais: não adianta fazer pressões junto dos media, como nos últimos dias se tornou claro e notório com a denúncia de alguns dos visados. Despromovendo-se de «engenheiro» a «licenciado em Engenharia», José Sócrates acabou a lançar ainda mais lenha para a fogueira, contribuindo para adensar as suspeitas e aguçando a curiosidade dos media. Se algum motivo tem para se queixar é de ter sido imprudente.
A propósito da licenciatura do primeiro-ministro, José Manuel Fernandes finalizou o editorial do Público do último domingo do seguinte modo: «É que, se alguma coisa ficou provada nos últimos dias, é que o telefone toca muitas vezes nas redacções e isso parece pesar em muitas escolhas editoriais. Quem está por dentro da profissão sabe porém que ainda só vemos a ponta do icebergue...» Ora, o que pretenderá JMF insinuar quando diz que «ainda só vemos a ponta do icebergue»? Que sabe mais do que fala? Se sabe, por que não diz? Porque o Público tem telhados de vidro? Não será óbvio que um director de jornal não deve, sobre esta matéria, fazer insinuações? Se tem alguma coisa a dizer, faz favor de o dizer alto e bom som. Caso contrário, é melhor que se cale.
30 de março de 2007
Tenho para mim que as más ideias — o que considero más ideias — devem morrer «às mãos» das boas ideias, nunca «às mãos» de uma lei que as censure ou proíba. Essencialmente por duas razões: porque acho que toda a gente tem direito às suas ideias e a expressá-las livremente, e porque estou convencido de que só as ideias derrotam eficazmente as ideias. O caso recente do cartaz do PNR, onde se lê «Basta de imigração» e «Portugal aos Portugueses», serve perfeitamente para ilustrar o que falo. E estou à vontade para o dizer: sou emigrante, embora não emigrante a residir em Portugal. Em vez de palavreado politicamente correcto (quando não hipócrita) e sem qualquer eficácia, invista-se mais tempo e energia tentando demonstrar aos cavalheiros do PNR (e a quem pensa como eles) que não têm razão. Pode não ser a solução, mas certamente que é um bom começo.
28 de março de 2007
27 de março de 2007
A lista dos 100 melhores romances de língua castelhana dos últimos 25 anos elaborada por críticos e escritores a pedido da Semana.
26 de março de 2007
23 de março de 2007
Não se percebe por que razão o Público resolveu publicar uma Nota Editorial a justificar a reportagem sobre a licenciatura de Sócrates. Há dúvidas de que o assunto é notícia? Parece evidente que não. Assim sendo, porquê a explicação? Receio do primeiro-ministro? Suspeita de que os leitores não são suficientemente inteligentes de modo a julgarem por si?
22 de março de 2007
Certamente que ninguém esperava ver esclarecidas as acusações de que Valentim Loureiro é alvo, mas esperava-se que o major tivesse apresentado argumentos mais contundentes na entrevista à RTP. (Falo de contundência em termos de conteúdo, que na forma foi contundente bastante.) Valentim Loureiro embrulhou-se em demasia em explicações detalhadas sobre assuntos que ninguém conhece (e de que ninguém quer saber), e que não contribuíram em nada para a sua defesa. Pior: passou a vida a acusar a Justiça de erros processuais, e ninguém acredita que a Justiça, por mais desacreditada que esteja, tenha feito tudo mal. Resumindo, Valentim Loureiro perdeu uma excelente oportunidade para demonstrar que está inocente dos crimes (26) de que é acusado, e tudo indica que por falta de argumentos.
21 de março de 2007
A palermice do guarda-redes da selecção belga, que terá dito a um jornal que a estratégia da sua equipa para o jogo com Portugal passaria por lesionar Cristiano Ronaldo logo nos momentos iniciais, vai, obviamente, voltar-se contra a sua equipa. É que, após o barulho causado, já se estão a ver os belgas a ter especiais cuidados com o nosso craque, pois certamente que vão querer demonstrar que não há más intenções. Os belgas mas não só os belgas, que a equipa de arbitragem não deixará de estar de olho nos rapazes. Caso para dizer que há males que vêm por bem.
19 de março de 2007
Paulo Portas é acusado de assalto ao poder, Ribeiro e Castro de estar agarrado ao poder. Quem tem razão? Vistas as reportagens do Conselho Nacional e lido o que os jornais publicaram sobre o assunto, fiquei sem saber. Pelo meio, Maria José Nogueira Pinto garante ter sido agredida por um deputado de Viseu (que refutou alegando que «os beirões não batem em mulheres»), e peixeiradas sem conta. Os próximos capítulos prometem antecipar os detalhes do enterro do CDS.
António Lobo Antunes dizia, em entrevista ao Público, que «saber ler é tão difícil como saber escrever». A coisa soa a exagero, mas talvez seja um exagero não muito exagerado. Mas se isto se presta a algumas dúvidas, já me parece indiscutível quando ele diz que «ler é uma coisa que também se aprende», e até estou convencido de que qualquer pessoa com hábitos de leitura sabe disso por experiência própria. Indiscutível e uma verdade que apetece lembrar aos que andam para aí a dizer sem dizer que têm um problema com Lobo Antunes, embora não esclareçam qual.
16 de março de 2007
Os americanos têm planos para atacar o Irão? Seria leviano não os terem. Mas tê-los não significa que se preparem para os pôr em prática, coisa que ninguém deseja. Significa, sim, que os EUA estão preparados para essa eventualidade, o que é muito diferente. Aliás, como pressionar o Irão com alguma eficácia sem ameaças sérias em cima da mesa?
14 de março de 2007
Graças ao post de Francisco José Viegas, redescobri Rentes de Carvalho, de quem já tinha lido algumas prosas na Periférica e, depois, em Os Canhões de Navarone. Falo do Tempo Contado, um blogue que eu não sabia que existia e de onde acabo de regressar após ter lido todos os posts. Podia aconselhar vários textos lá publicados, mas este deve bastar para abrir o apetite.
12 de março de 2007
Eduardo Cintra Torres (ECT) prossegue, no Público, a cruzada contra o Governo, mais exactamente contra o que ele designa por «intervenções cirúrgicas» do Governo na RTP. Argumenta o crítico que o Telejornal deu 2 minutos e 28 segundos à posição do Governo sobre as estatísticas dos tribunais e 3 minutos e 14 segundos às posições contrárias. Como «dar os dois lados da questão era mau para o governo», concluiu, a televisão pública resolveu convidar o ministro da Justiça para o mesmo Telejornal, onde terá falado durante 6 minutos e 33 segundos. Remata ECT sobre este episódio que o «governo ficou a ganhar com o triplo do tempo e a última palavra». Ora, apesar de rigorosos na aparência (veja-se o pormenor dos segundos), os factos avançados por ECT são insuficientes. Resumir a questão ao tempo de antena a que cada um teve direito não me parece razão bastante para que se possa dizer que o Governo beneficiou, como também não me parece que a simples presença do ministro no Telejornal beneficie, por si só, o Governo — além de me parecer plenamente justificada a presença do ministro no Telejornal. Se o ministro Alberto Costa beneficiou com as explicações que deu, é coisa que não se pode aferir, apenas, pelo tempo de antena que lhe concederam. Prossegue ECT afirmando que o Notas Soltas é «o mais aviltante programa de propaganda governamental pós-moderna da actualidade», alegando que é um espaço televisivo onde «o governo dá instruções ideológicas aos seus militantes». Pior: o Notas Soltas é feito pelo «nº 2 do partido do governo», apesar de reconhecer ao dr. Vitorino «algumas opiniões genuinamente individuais». Ora, quer isto dizer que a televisão do Estado não pode ter comentadores pró-governamentais ou do partido do Governo? Será que o modelo de televisão pública só comporta comentadores políticos da oposição? Termina ECT dizendo, sem dúvida para reforçar a tese das «intervenções cirúrgicas», que o Prós & Contras desse mesmo dia «cumpria uma vez mais a sua missão cirúrgica» de apoiar o Governo ao conceder 189 minutos de antena ao ministro Correia de Campos, esquecendo-se de especificar o tempo gasto por quem se lhe opôs e repisando a tese de que o tempo é tudo o que importa — além de acusar os profissionais que fazem aquele programa de cederem às pressões do Executivo. Tudo isto para dizer que o Governo instrumentaliza a televisão sob a sua tutela, demonstrando estar disposto a tudo para alcançar esse propósito, incluindo tirar olhos. Ora, o Governo usa a RTP em seu benefício? Hoje como ontem, a resposta é: provavelmente. Aliás, há anos que ouvimos esta conversa, e não deve haver Governo que não tenha ficado com a fama de controlar a RTP — e, provavelmente outra vez, com o proveito. Ora, é precisamente este o meu ponto. Que um cidadão tenha suspeitas e as divulgue, aceita-se. Mas de um crítico de media espera-se mais, muito mais: espera-se que vá além das insinuações, e espera-se que apresente factos sólidos quando faz acusações. Pior: as críticas sobre esta matéria vêm quase sempre de gente suspeita politicamente, o que leva os cidadãos menos apaixonados pela política a encará-las com cepticismo e a reduzir-lhes a eficácia. Devo dizer, depois destas reticências, que não tenho razão alguma para defender o Governo nesta ou noutras matérias, e que o meu ponto de vista sobre este assunto não varia consoante a cor política de quem está no Governo. Devo dizer, também, que tenho plena consciência de que estou a remar contra a maré, que me vão acusar de estar ao serviço de não sei que forças, pois o normal num caso destes não é defender o que se julga estar certo mas puxar a brasa à sardinha. Digo isto sobre a tese de ECT por outras razões: porque criticar assim não custa nada; porque me chateia que se façam acusações que nunca se provam; porque me chateia que praticamente ninguém dos que discordam reaja ao que ele escreve; porque me chateia que acusações deste teor deixem quase sempre a quem acusa o estatuto de corajoso — que nem sempre merece — e o acusado sem hipótese de defesa — o que é uma injustiça.
A nova direcção do DN entrou em funções no dia em que o mesmo DN anunciava, na capa, que o Governo efectuou 2373 nomeações em dois anos. Terá sido coincidência?
8 de março de 2007
Repararam naquele momento em que o líder dos Super Dragões abandonava a PJ após ter prestado declarações e se virou para os jornalistas para lhes comunicar que não falava por causa do segredo de Justiça? Pois fiquem sabendo que são momentos como este que me fazem sentir orgulho de ser português... e viver no estrangeiro.
7 de março de 2007
«A acumulação da medicina pública com a privada é nefasta para o País», disse António Barreto ao Expresso. E nefasta porquê? Porque, segundo ele, «há muitos médicos que têm interesse em que os serviços públicos funcionem mal porque isso aumenta a possibilidade da actividade no serviço privado». Disse mais António Barreto ao semanário de Balsemão: «Geralmente [os médicos] passam a manhã no público e a tarde no privado. Não trabalham o número de horas suficiente no público, talvez metade ou um terço do que deveriam trabalhar. Operam pouco no público para operarem à tarde no privado. Com este sistema dominam a oferta e a procura.» Ora, perante estes factos, os médicos não têm nada a dizer? Preferem fazer de conta que não ouviram ou que não é nada com eles? É claro que nem todos os médicos recorrem ao expediente, como António Barreto teve o cuidado de realçar, mas até por esse motivo deviam tomar posição.
5 de março de 2007
Anda por aí um mal disfarçado ressentimento de alguns jornalistas contra a blogosfera em geral e contra alguns bloggers em particular. Parece que não se pode criticar os jornalistas, e a haver críticas só podem vir do meio — ou de alguém com provas dadas no meio. (O resto está aqui.)
2 de março de 2007
Se não estou em erro, já escrevi pelo menos duas vezes sobre o eBook (refiro-me à maquineta que permite ler livros ou outros textos em formato digital), mas apetece-me voltar ao tema. Contrariamente ao que sucedeu das outras vezes, agora para falar mal. Depois de ter elogiado o Rocket eBook e o RCA eBook, e aguardar durante meses o modelo da Sony (o Portable Reader), chegou a hora dos defeitos. Não que eu tenha mudado de opinião acerca do eBook, mas porque o tão aguardado modelo da Sony foi uma desilusão quase completa. Digo «quase completa» porque tem coisas boas, mesmo coisas muito boas, só que escassas. A primeira é a qualidade de imagem, que melhorou substancialmente. Graças a uma nova tecnologia, é possível, agora, ler sob luz intensa (do sol, por exemplo), coisa que não se podia nos anteriores modelos. A segunda é o design da maquineta (do tamanho de um livro de bolso com cento e poucas páginas, para simplificar a explicação). A terceira… bom, não há terceira. Já na parte má sobram exemplos. O primeiro de todos, e totalmente incompreensível, é a impressão de que os técnicos da Sony não olharam para os anteriores modelos e copiaram o que estava bem. Qualquer um desses modelos possibilita a leitura nocturna e possui ecrã táctil, características ausentes do modelo da Sony que fazem uma enorme diferença. Para quem não sabe do que falo, a luz interior possibilita a leitura às escuras (como nos ecrãs dos computadores), e o ecrã táctil permite operar a maquineta de forma mais intuitiva e com maior rapidez. Mas há mais defeitos: os botões que permitem «folhear» as páginas estão mal situados, obrigando o uso das duas mãos (o que não sucede nos modelos da Franklin e da RCA). Falta-lhe, também, um motor de busca capaz de pesquisar dentro de um texto, apesar de disponível no software que interage a maquineta com o computador. Há outras funcionalidades que não existem ou podiam ter sido melhoradas, mas estas são as essenciais e chegam e sobram para que se possa dizer que o Portable Reader é um modelo falhado. Falhado por causa das expectativas criadas, falhado porque os defeitos superam largamente as vantagens face aos modelos anteriores. Como leio no eBook praticamente desde o seu aparecimento, e porque cada vez encontro mais vantagens no eBook quando o comparo ao livro tradicional, acreditem que sou o primeiro a lamentar.
1 de março de 2007
O príncipe Carlos resolveu sugerir o fim da cadeia McDonald’s, a pretexto de que a comida que lá se vende faz mal à saúde. Sendo o cavalheiro um entusiasta da chamada comida biológica, compreende-se. Mas seria bom lembrar-lhe uma evidência: a McDonald’s é, apenas, a face mais visível de um certo tipo de comida que está em todo o lado, pelo que não deve ser tomada de ponta. Depois, onde nos levaria uma proibição destas? A só podermos comer o que faz bem à saúde? À recusa dos serviços de saúde em pagar os tratamentos caso a mijinha demonstre transgressão à cartilha?
Mário Bettencourt Resendes tem saudades dos tempos em que os jornalistas não eram matéria de notícia, em que o trabalho por eles desenvolvido não tinha o escrutínio que tem hoje. Cita um exemplo para ilustrar a ideia: a reportagem da CBS sobre o serviço militar de Bush que custou o emprego à autora e ao apresentador do 60 Minutes após um blogue ter revelado que os documentos exibidos pela CBS eram forjados, apesar de «todas as precauções da equipa de reportagem». Ora, como sabe Bettencourt Resendes que houve «todas as precauções da equipa de reportagem»? É um palpite? Não teria sido mais rigoroso dizer que os intervenientes no episódio da reportagem alegaram ter tomado «todas as precauções» em vez de apresentar a coisa como se de um facto inquestionável se tratasse? E o facto de um simples blogue ter descoberto a marosca que «todas as precauções» da CBS não detectaram não é, para Bettencourt, matéria relevante? Termina o cronista dizendo: «Fica a lição de que o jornalismo de investigação assenta, nestes dias, em terreno cada vez mais pantanoso, exigindo cuidados redobrados.» Ora, isso é mau?
28 de fevereiro de 2007
«Passávamos, jovens ainda, sob as árvores altas e o vago sussurro da floresta. Nas clareiras, subitamente surgidas do acaso do caminho, o luar fazia-as lagos e as margens, emaranhadas de ramos, eram mais noite que a mesma noite. A brisa vaga dos grandes bosques respirava com som entre o arvoredo. Falávamos das coisas impossíveis; e as nossas vozes eram parte da noite, do luar e da floresta. Ouvíamo-las como se fossem de outros.»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego
Bernardo Soares, Livro do Desassossego
27 de fevereiro de 2007
Tencionava fazer um post genial sobre a palestra do Francisco José Viegas na Rutgers, mas não me sai nada. Direi, apenas, que falou, sobretudo, de Jaime Ramos, com uma breve passagem por este admirável cronista.
Imagina-se que após aturados estudos, Vital Moreira descobriu, finalmente, a pólvora. Vai daí, achou por bem alardear tão importante feito para o destino da humanidade em geral e dos portugueses em particular. A coisa vem pormenorizada no Público de hoje, pelo que me dispenso de contar. Apenas um pequeno reparo: fosse outro o sentido do achado, e Vital Moreira não teria aberto a boca. É que a seriedade é uma coisa muito bonita — mas só se exige aos outros.
26 de fevereiro de 2007
Estão em curso manobras destinadas a reabilitar a imagem política de Alberto João Jardim. Aliás, o próprio não se tem cansado de fazer declarações apaziguadoras, sem dúvida no intuito de passar uma imagem de moderação e bom senso. Invoca-se que o ex-presidente da Madeira fez bem em demitir-se, que a nova realidade das finanças regionais vai pôr em causa a execução de projectos com que se terá comprometido perante os eleitores. Não duvido. Mas também já disse e volto a insistir: que condições passará a ter Alberto João Jardim se for reeleito que não tinha quando se demitiu? Tirando razões de pequena política, não se vislumbra. E ainda menos se entende que o cavalheiro tenha deixado de ser, de um dia para o outro, tudo de que o acusavam, nomeadamente de práticas inaceitáveis num regime democrático. Curiosamente, alguns dos que agora o pretendem «reciclar» são os mesmos que ainda há pouco eram os seus principais críticos.
Há planos para assassinar Hugo Chávez e a «revolução pacífica bolivariana», diz um alto responsável venezuelano. Depois do alegado plano económico contra a Venezuela, prepara-se o assassinato do grande líder. Pena é que Chávez e capangas não se distingam pelas melhores razões, e que o povo que dirigem nada beneficie com tanta sabedoria.
22 de fevereiro de 2007
As notícias de que o Irão terá, em breve, capacidade para enriquecer urânio a uma escala industrial e a que nos dá conta do fracasso das negociações conduzidas pela União Europeia com vista a dissuadir o regime iraniano do programa nuclear são inquietantes. Claro que as negociações vão continuar, como ainda esta semana garantiu um responsável iraniano, pois qualquer palerma já percebeu que a estratégia de Teerão é queimar tempo. Escusado será dizer, também, que o envolvimento iraniano no Iraque, nomeadamente através do fornecimento de armas aos xiitas, é (mais) uma mentira americana, e que se forem encontradas armas iranianas no Iraque só podem lá ter sido postas pelos americanos com o objectivo de incriminar Ahmadinejad e, de caminho, justificar uma intervenção militar no Irão. E também será desnecessário relembrar que o facto de o regime iraniano se estar borrifando para a ONU não indigna ninguém, nomeadamente os que se indignaram quando os americanos foram para o Iraque à revelia da ONU, pois a indignação varia consoante as circunstâncias e os protagonistas. Mas o que realmente incomoda no meio disto é verificar-se que as grandes questões mundiais estão a ser encaradas à luz do pró-americanismo ou do anti-americanismo, uma irresponsabilidade que só pode acabar mal.
20 de fevereiro de 2007
O directo televisivo da chegada de Mourinho e companhia ao aeroporto de Pedras Rubras chegou a ser hilariante. Quando é que os repórteres (e quem manda neles) deixam de se comportar como fãs em histeria? Que teria Mourinho de tão importante a dizer à chegada de Londres que justificasse tanta correria para obter uma declaração? Não há pachorra para o jornalismo basbaque.
Já se sabe que a culpa será dos americanos se as coisas correrem mal ao regime de Hugo Chávez. Mas, para o caso de haver dúvidas, o presidente venezuelano já avisou: os Estados Unidos fomentam um «plano económico» contra a Venezuela. Isto no mesmo dia em que Chávez ameaçou nacionalizar supermercados, armazéns frigoríficos e matadouros caso não cumpram o regime de preços por ele imposto, um «filme» demasiado visto e que acabou mal. O problema é que a desculpa do cavalheiro é bem capaz de funcionar, pois o anti-americanismo deixou de ser um meio para se transformar num fim em si mesmo — e a História está sempre a demonstrar que não aprendemos nada com ela.
19 de fevereiro de 2007
16 de fevereiro de 2007
Está na moda dizer que a Justiça devia ter gabinetes especializados em comunicação — ou receber formação que a habilite a lidar eficazmente com os media. Ora, não me parece. Não que não fosse útil que os profissionais da Justiça aprendessem a lidar com os media e que existissem gabinetes especializados no assunto, mas porque não me parece que é a eles que compete essa função. Não se percebe o que dizem quando falam de processos? Compete aos jornalistas descodificar e explicar aos leigos. Estou convencido, aliás, que os jornalistas ultrapassam facilmente o problema se realmente estiverem interessados em ultrapassar o problema, que a mim me parece mais de preguiça do que ou coisa.
15 de fevereiro de 2007
O Presidente da República resolveu apelar a «soluções de bom senso» na elaboração da nova lei do aborto de molde a «que possam ajudar a unir os portugueses» mas criou — ou ameaça criar — um clima contrário a essa ideia. A pretexto de que não se pode desperdiçar «a possibilidade de estabelecer consensos alargados» numa matéria que «pode ter causado rupturas na sociedade portuguesa», Cavaco acaba de deixou no ar a ameaça de veto, o que não deixa de ser uma ironia por vir precisamente de quem defende que se deve procurar «unir a sociedade portuguesa e não dividi-la ainda mais».
13 de fevereiro de 2007
Afinal, os resultados de um referendo podem ser vinculativos se a taxa de participação for igual ou superior a 50%, ao contrário do que eu julgava. O post de ontem parte, portanto, de um pressuposto errado. É o que dá escrever e publicar no momento, desconhecer ou avaliar incorrectamente os factos de que dispomos no momento de opinar. Não foi a primeira vez que me sucedeu, nem será a última. Claro que eu podia apagar o post ou fazer de conta que nada tinha acontecido, mas sou contra tais práticas. Para mim, o que foi publicado não deve ser alterado. Corrigir uma gralha ou um erro de concordância, tudo bem. Remendar uma ideia mal parida ou eliminar o que está mal feito, nem pensar. A coisa saiu mal, assumam-se as consequências. Resta-me que o essencial da ideia defendida no post se mantém intacto. Isto é, o resultado do referendo acaba, na prática, por ser vinculativo, haja ou não participação igual ou superior a 50%. Como, aliás, os preparativos para a mudança da lei já o estão a demonstrar.
12 de fevereiro de 2007
Já se sabe que o resultado de um referendo — de qualquer referendo — não tem carácter vinculativo, como agora repetem os adeptos do «não». Mas também já se sabe que o Governo não pode — nem deve — ignorar o resultado de um referendo, mesmo que ele indique o contrário do que pretende. Votaria «sim» se me fosse permitido votar, mas defenderia o mesmíssimo princípio se o resultado tivesse sido outro. Ignorar o resultado de um referendo seria o mesmo que acabar com o referendo. E não ignorar o resultado de um referendo equivale, na prática, a um vínculo ao resultado, goste-se ou não da ideia e diga a lei o que disser.
Percebe-se que o presidente da Câmara de Gaia procure todas as oportunidades para demonstrar que existe politicamente, mas dizer que os resultados do referendo sobre o aborto foram «uma enorme derrota» para o primeiro-ministro e «um cartão amarelo» à sua governação a pretexto de que a soma do absentismo e dos votos do «não» constitui 80 por cento dos portugueses, é um disparate sem nome. Luís Filipe Menezes devia saber que o pior que se pode fazer é quer transformar derrotas em vitórias, mesmo que tenha razões para isso (o que não é o caso). E devia saber, também, que a falta de fair play na hora da derrota é coisa que cai sempre mal.
9 de fevereiro de 2007
Se a memória não me falha, só uma vez me desfiz de livros. Foi há uns anos, quando a falta de espaço nas estantes me obrigou a deitar fora algumas dezenas de manuais que dantes acompanhavam os programas de computador. Mesmo tratando-se de livros que me vieram parar às mãos sem que os tivesse solicitado (e que raramente consultei), custou-me desfazer-me deles. Afinal, livros são livros, e eu tenho dificuldade em desfazer-me dos livros. Mesmo dos que me parecem maus ou inúteis, como o caso dos manuais. Mas é o que, agora, me apetece fazer com os livros que semanalmente recebo com a Sábado. Não haveria nada melhor para distribuir com a revista?
8 de fevereiro de 2007
7 de fevereiro de 2007
Está visto que será um fracasso caso a investigação do Ministério Público não conclua (e demonstre) que Portugal foi local de passagem de voos da CIA com conhecimento, ou não, das autoridades portuguesas. Quando se parte da conclusão para os factos e os factos não se ajustam à conclusão previamente tirada, o resultado não pode ser outro.
«(…) seria de todo desejável saber o que é que a Entidade Reguladora para a Comunicação Social tem a dizer sobre a liberdade de imprensa na Madeira e a forma como ela pode ser economicamente condicionada e politicamente manipulada, independentemente de uma eventual alteração legal que impeça autarquias e regiões autónomas de serem proprietárias de órgãos de comunicação social.» Amílcar Correia, Público de hoje
5 de fevereiro de 2007
A independência económica do jornalismo nunca passou de uma miragem, embora já tivesse melhores dias. Mas o caso da Madeira, onde o Governo local injecta milhões num jornal, é particularmente chocante. E mais chocante se torna quando Alberto João Jardim tem o descaramento de justificar o dinheiro gasto pelo Governo a que preside com a necessidade de garantir o «pluralismo ideológico» da comunicação social, argumentando que o Jornal da Madeira é um «marco dessa luta» e que é «o único que rema contra a maré». Chocante é uma maneira de dizer, que já nada choca o que vem de quem vem. Só espanta é que ainda haja quem acredite nele, embora o caso do Jornal da Madeira ajude a entender por que razão isso acontece.
2 de fevereiro de 2007
Causou alguma celeuma o facto de um movimento de cidadãos ter subscrito um documento onde se pedia a libertação do sargento Luís Gomes, argumentando-se que se pretende trazer a Justiça para a rua e que se está a entrar por um caminho perigoso. Ora, não vejo porquê. Antes de mais, como exprimir, então, o famoso direito à indignação? Depois, se a Justiça não é capaz de resistir às pressões de um pacato grupo de cidadãos, é capaz de quê? Parafraseando Churchill a propósito da política, a Justiça é demasiado importante para ser deixada, apenas, nas mãos dos técnicos da Justiça, e não deve estar acima da crítica. Era só o que faltava que os cidadãos não pudessem manifestar-se contra as decisões da Justiça sempre que o entendam, mesmo que isso provoque danos colaterais indesejáveis.
1 de fevereiro de 2007
Ser-me-á absolutamente indiferente qualquer que seja o resultado do concurso Os Grandes Portugueses, mesmo que o resultado seja a vitória de um dos cavalheiros que poucos esperariam ver na final e por quem não nutro a mais leve simpatia. Mais: acho um exagero a importância que se está a dar ao programa televisivo, e espanta-me que figuras por quem nutro um enorme respeito percam tempo com o assunto. Afinal, estamos a falar de um programa de entretenimento, e um programa de entretenimento não justifica tanto barulho. Não será assim? Como já perceberam, não é assim. Desde os que nunca se conformaram pelo facto de Salazar não integrar a lista inicial destinada a promover o concurso aos que se indignaram por o ditador integrar a lista final, passando pelos que não percebem por que razão Álvaro Cunhal integra o «top» final ou não gostaram de o lá ver devido aos bons ofícios dos comunistas, toda a gente leva a coisa a sério. Tão a sério que até fica a ideia de que abundam os que não hesitariam mudar o sentido de voto dos telespectadores caso tivessem meios para tal, coisa que certamente não envergonharia Salazar ou Cunhal e que talvez explique a popularidade de ambos.
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